Museu Virtual do Futebol

Bela Guttman

Começamos esta visita à secção dos Grandes Mestres da Táctica, vulgo treinadores, com um nome bem conhecido, e querido, dos adeptos do Sport Lisboa e Benfica, mais precisamente Bela Guttman.
Foi este húngaro, nascido a 26 de Janeiro de 1905, um dos principais responsáveis - senão mesmo o principal - pela época dourada do clube da Luz na mais importante competição europeia de clubes, a Taça dos Clubes Campeões Europeus, prova que no principio da década de 60 do século passado foi vencida por duas vezes pelos encarnados de Lisboa (1961 e 1962). Guttman foi o mestre que guiou esse saudoso Benfica ao “Olimpo” dos deuses do futebol, um homem que revolucionou por completo o futebol português que até à sua chegada se pautava pela mentalidade muito fechada em si mesmo.
Chegou a Portugal para treinar o FC Porto, clube onde apenas esteve uma temporada (1959), tendo conquistado o título nacional dessa época para os “dragões”. No ano seguinte mudou-se para a capital de Portugal, para orientar o Benfica, uma mudança assente num processo pouco claro mas que como já vimos haveria de trazer a glória ao clube da Luz. No Benfica Guttman não só conquistou as duas Taças dos Campeões Europeus já referidas como também dois campeonatos nacionais (1960 e 1961). Treinaria ainda a Selecção Nacional Portuguesa durante a campanha de apuramento para o Europeu de 1960, quando José Maria Antunes era na altura o seleccionador nacional.
Guttman foi um verdadeiro “globetroter” do futebol mundial, já que começou a sua carreira de treinador na Holanda, ao serviço do Enschede, mudando-se em seguida para a sua Hungria para orientar o “gigante” Újpest, clube este onde venceria o seu primeiro título na qualidade de técnico, mais precisamente o de campeão nacional húngaro (1939).
Seguiu-se uma viagem até à Roménia para orientar o Dínamo de Bucareste, regressando depois ao seu país, primeiro para o Vasas de Budapeste e depois para o Honvéd, antes de embarcar na aventura italiana. No país das pizzas Guttman começou por treinar o Padova, passando depois para o Triestina e por último o grande Milan, clube este por quem venceu um “scudetto” (1955).
Sucedeu-se a gloriosa passagem por Portugal, rumando posteriormente à América do Sul para orientar o Penharol de Montevideu, do Uruguai, clube pelo qual venceria dois campeonatos e uma Taça dos Libertadores da América. Aliás, Guttman é o único treinador no Mundo que venceu as duas competições continentais mais importantes de clubes, a Taça dos Campeões Europeus e a Taça dos Libertadores da América.
No continente sul americano treinou ainda, sem grande sucesso, os brasileiros do São Paulo, para depois regressar à Europa para trabalhar na Suíça (Servette), Grécia (Panathinaikos) e por fim na Áustria (FK Austria), clube este pelo qual se retirou do futebol. Áustria que viria a tornar-se na pátria do mítico treinador, já que depois da sua retirada escolheu este país para passar o resto dos seus dias. Morreria a 28 de Agosto de 1981, em Viena. De Bela Guttman os adeptos do Benfica tanto guardam grandes recordações como más lembranças, já que a frase «meus senhores, nem daqui a 100 anos o Benfica volta a ser campeão da Europa», é da sua autoria, proferida após a conquista do segundo, e último, título europeu em Amesterdão. O que é certo é que depois dessa final os benfiquistas já atingiram mais cinco finais da prova rainha do futebol europeu e... perderam as cinco. Nem as rezas de Eusébio e companhia em 1990 na campa de Guttman em Viena, dias antes da final entre Benfica e Milan no Estádio do Prater daquela cidade, conseguiu anular a maldição do velho feiticeiro húngaro, como também ficou conhecido este grande mestre da táctica.

NOTA: Texto escrito em 16 de Agosto de 2006 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Otto Glória

Nascido no Rio de Janeiro, no dia 9 de Janeiro de 1917, este homem de ascendência portuguesa (o seu avó paterno era açoriano e o seu avó materno oriundo de Vila Nova de Gaia) foi o treinador mais vitorioso que passou pelo futebol português. Otto Martins Glória, ou simplesmente Otto Glória, é o grande mestre da táctica que hoje vamos visitar no Museu. O seu percurso no futebol foi iniciado na qualidade de jogador, tenho actuado em clubes da sua cidade natal, nomedamente o Vasco da Gama, Botafogo e Olaria. Contava apenas com 25 anos quando pendurou as chuteiras e iniciou uma fantástica carreira de treinador, tendo-lhe sido confiadas na altura as equipas de futebol juvenil do Vasco da Gama. Posteriormente passou a adjunto do técnico Flávio Costa na equipa principal, não tardando muito a assumir ele o comando técnico dos vascaínos. No Botafogo conquistou o primeiro título como condutor de homens, o Campeonato Carioca de 1948. O seu talento chegou aos ouvidos dos dirigentes do futebol português, tenho o presidente do Benfica daquela época, Joaquim Bogalho, feito uma aliciante proposta ao jovem técnico para vir para Portugal orientar os encarnados.

Chegar, ver... e vencer

Chegou a Lisboa no dia 24 de Junho de 1954, e desde logo impôs uma profunda remodelação no futebol do Benfica. Com uma forte personalidade e muito saber Otto faria a dobradinha (campeonato e taça) logo no seu primeiro ano de futebol português, na época 1954/55. Ficaria no clube da Luz nas quatro temporadas seguintes, tendo conquistado mais um campeonato nacional (em 56/57), e mais duas Taças de Portugal (56/57 e 58/59). Deixou o Benfica nas vésperas do clube partir para as conquistas das suas duas Taças dos Campeões Europeus, entregando o comando da equipa a Bela Guttman, de quem já aqui falámos em Agosto de 2006. Apesar das vitórias europeias dos encarnados terem sido alcançadas pelo treinador húngaro muito do trabalho base iniciado é obra de Otto Glória. Saído do Benfica Otto viajou até ao Restelo, para orientar o Belenenses, onde esteve duas temporadas, tendo logo na primeira (59/60) dado ao emblema da Cruz de Cristo a Taça de Portugal. Seguiu-se novo clube da capital, desta feita o Sporting, onde ficaria durante uma época e... alguns dias, pois sairia no início da temporada 61/62 devido a desentendimentos de nível directivo. Depois de Lisboa Otto rumaria ao Porto para treinar o clube mais emblemático desta cidade, o FC Porto. Não seria muito feliz nos dois anos em que esteve na Invicta, tendo por duas vezes ficado à porta do título nacional (dois 2ºs lugares) e perdido a final da Taça de Portugal de 63/64. Voltaria ao Sporting, em 65/66, para ao serviço dos leões conquistar mais um título de campeão nacional. Mas como se costuma dizer: não há amor como o primeiro, e Otto voltaria na época seguinte ao Benfica, tendo nas três épocas em que lá ficou vencido por mais duas vezes o campeonato nacional e também por duas vezes a Taça de Portugal. No total foram cinco campeonatos nacionais e seis Taças de Portugal. Notável...

O comandante dos Magriços no Mundial de 1966

Os bons desempenhos de Otto Glória ao serviço dos quatro maiores (na altura) clubes portugueses não passaram despercebidos à Federação Portuguesa de Futebol, que em 1966 o chamaria para treinar a selecção nacional (o seleccionador português era Manuel da Luz Afonso, sendo que Otto era, por assim, dizer o treinador de campo) que nesse ano disputou o Mundial de Futebol, que decorreu em Inglaterra. O resto é história, como toda a gente sabe, e que bela história! Portugal escreveria neste Mundial a página mais bonita da sua história, classificando-se num até hoje inigualável 3º lugar fruto da magia de Eusébio, Coluna, Simões, Jaime Graça, Torres, Hilário, Vicente, José Pereira, José Augusto, e claro... Otto Glória. Este brilharete no Mundial de 1966 abriu as portas do futebol europeu a Otto, que treinaria o Atlético de Madrid entre 1966 e 1968 (antes tivera uma passagem fugaz, em 1962, pelo Marselha, sem sucesso)... sem ter atingido o sucesso que obteve no nosso país. Em 1968, de regresso a Portugal, esteve perto da glória europeia, atingindo a final da Taça dos Campeões Europeus ao serviço do Benfica, que em Wembley seria derrotado por 1-4 pelo Manchester United de Charlton, Law e Best. Depois de Portugal Otto treinaria no México (no CF Monterrey), na Nigéria, e terminaria a carreira no seu país natal, tendo aí orientado a Portuguesa (onde se sagrou campeão paulista em 1973), o Santos, e o Vasco da Gama, tendo-se retirado em 1983 ao serviço deste clube. Homem de diálogo fácil, algumas das frases mais bombásticas que fizeram história no futebol português são da sua autoria, como por exemplo: «Em Portugal, quando se perde o treinador é chamado de "Besta". Quando vence, de "Bestial"». Morreria a 2 de Setembro de 1986, no Rio de Janeiro, um dos mais brilhantes treinadores da história do futebol português.
Legenda das fotografias:
1- Otto Glória
2- Festejando a conquista da Taça de Portugal de 59/60 pelo Belenenses
3. O "onze" de Portugal, ante a Bulgária, no Mundial de 1996, comandado por Otto
 
NOTA: Texto escrito em 6 de Janeiro de 2008 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Bill Jeffrey

Pode não ser - tão - conhecido mundialmente como José Mourinho, Arséne Wenger, ou Alex Fergusson, ou não ter o seu nome escrito a letras de ouro no capítulo "melhores treinadores do Mundo" da história do futebol como Victorio Pozzo, Bobby Robson, Alf Ramsey, Miguel Muñoz, César Luis Menotti, Telê Santana, Bill Shankly, entre outros, mas merece, sem margem para dúvidas, ter nem que seja uma linha dedicada à sua pessoa no grande Atlas do Futebol Mundial. Falamos de Bill (diminuitivo de William) Jeffrey, o homem que arquitectou a maior surpresa de todos os tempos no planeta da bola, um facto ocorrido no Mundial de 1950 (decorrido no Brasil) quando os amadores dos Estados Unidos da América (EUA) derrotaram a super-potência mundial da altura, a Inglaterra, por 1-0. Jogo esse que aliás, já aqui falámos no Museu em várias ocasiões.
Bill Jeffrey era o treinador dos norte-americanos nesse célebre jogo, entrando desta forma para a galeria dos imortais do futebol mundial. A nossa personalidade de hoje nasceu a 3 de Agosto de 1892, em Edimburgo, na Escócia, tendo emigrado em 1920 para os EUA onde se tornou futebolista semi-profissional, tendo jogado nas equipas do Altoona, Homestead, Braddock, e do Bethlehem. Finda a carreira de futebolista tornou-se então treinador. E nesta área para além do feito histórico de ter vencido a Inglaterra em 1950 Jeffrey tem como principal feito o facto de ter vencido 9 Campeonatos Nacionais Universitários ao serviço da equipa do Penn State. Pela mítica vitória sobre os ingleses no Mundial de 1950 Jeffrey entrou para a história do soccer norte-americano, e como tal a Associação Nacional de Treinadores daquele país criou um prémio com o seu nome. Prémio esse que é atribuido anualmente ao melhor treinador do país. Faleceu a 7 de Janeiro de 1966. O seu nome está perpetuado no National Soccer Hall of Fame (museu de futebol) dos EUA.
 
NOTA: Texto escrito em 10 de Abril de 2008 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Guy Roux

Poucos são os artesões da bola que com o seu invulgar talento fizeram com que pequenos – e por vezes quase desconhecidos – clubes se transformassem em gigantes emblemas do panorama futebolístico plantetário. Num rápido exercício de memória nomes como o de Diego Maradona ou de Pelé fazem parte dessa minoritária lista de magos. O astro argentino fez do Nápoles um dos clubes mais temidos da Europa nos finais da década de 80 e princípios dos anos 90 do século passado quando até então os napolitanos não passavam apenas de um grupo de bons rapazes habituados a frequentar os patamares secundários do “calcio”. O génio brasileiro tirou o Santos do anonimato, catapultando-o de uma simples cidade situada na periferia de São Paulo para o topo do Mundo na década de 60.
O génio da lâmpada que hoje iremos visitar fez algo de muito semelhante a estes dois nomes que acabámos de frisar, pese embora o tenha feito na qualidade de mestre da táctica, o mesmo é dizer, enquanto treinador. Esse nome é Guy Roux, lendário treinador francês que fez do Auxerre um pequeno grande clube europeu.
Nascido em Colmar a 18 de Outubro de 1938 Roux foi enquanto futebolista um vulgar intérprete do belo jogo, tendo a sua carreira ao serviço do Auxerre, entre 1952 e 1961, passado quase despercebida aos olhos dos amantes mais atentos da modalidade.
E seria precisamente no ano em que pendurou as chuteiras que a sua boa estrela começou a fazer-se notar na constelação do futebol. 1961 é de facto um ano mágico para o modesto A.J. Auxerre, um clube de província habituado a percorrer os escalões secundários do futebol gaulês que ganhou vida com a entrada de Guy Roux para seu treinador principal. Mais do que levar este pequeno clube até à alta roda do futebol europeu através de uma série de títulos e consecutivas participações em provas europeias Roux fez do Auxerre uma das maiores escolas de formação de todo o Mundo. Uma escola que começou a ser edificada assim que este cidadão assumiu os comandos do clube enquanto responsável técnico. Sem dinheiro para grandes investimentos logo tratou de montar uma escola para captar e formar jogadores capazes de honrar e glorificar a até então modesta camisola do Auxerre. Com Roux ao leme o clube foi a pouco e pouco galgando divisões no futebol francês e paralelamente formando nomes que viriam a dar cartas tanto a nível interno como externo.
Em termos concretos, e começando pelo primeiro ponto, a primeira grande coroa de glória de Guy Roux deu-se na temporada de 1979/80, altura em que o Auxerre subiu pela primeira vez na sua história à 1ª Divisão Nacional. Um feito enorme atendendo ao facto de que quando este homem pegou no clube este estava nos escalões regionais! E maior relevância ganha quando esta foi uma promoção conseguida com a “prata da casa”, isto é com os jogadores saídos da escola de formação do clube que Roux criara aquando da sua entrada para o departamento técnico. No ano anterior a este notável feito o Auxerre este muito perto da glória depois de ter perdido a final da Taça de França para o então poderoso Nantes.
Chegado ao escalão maior do futebol francês o clube de Roux jamais deixou de fazer parte desta ilustre elite, o mesmo é dizer que não mais voltou para as divisões secundárias. Homem duro e disciplinador por natureza pode dizer-se que Roux foi o construtor do Auxerre.
O primeiro grande título surgiu em 1994 com a vitória na Taça de França. No entanto, o seu maior feito, em termos de conquistas, como é óbvio, foi conseguido dois anos mais tarde quando o Auxerre conquistou a dobradinha, isto é o campeonato e a taça de 1996. Parecia um conto de fadas, o outrora desconhecido Auxerre era agora um dos mais poderosos emblemas de França. A vitrina de troféus seria ainda enriquecida com mais duas taças de França (2003 e 2005) e uma Taça Intertoto (1993).
Para chegar ao êxito Guy Roux usou sempre a “prata da casa”, como já foi aqui dito, gabando-se sempre de nunca investir grandes somas monetárias na aquisição de jogadores ao longo das épocas. Nas suas mãos foram moldados nomes – mais tarde – consagrados como os de Eric Cantona, Laurent Blanc, Basile Boli, Alain Goma, Corentin Martins, Djibril Cissé, ou Philippe Méxes.
Guy Roux foi o patrão, o símbolo se preferirem, do Auxerre durante 44 anos (1961- 2005) consecutivos! Um recorde de permanência de um homem à frente dos destinos de uma equipa. Posto isto teve uma curta experiência como treinador do Lens em 2007 antes de se reformar de vez das lides futebolísitcas. Hoje é um consagrado crítico de futebol em diversos meios de comunicação social francesa. Ao contrário de outros mestres da táctica Roux pode não ter contribuido para a evolução técnico-táctica do jogo mas foi um dos maiores mestres no que concerne à formação de novos atletas.

Nota: Texto escrito em 23 de Setembro de 2010 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Anselmo Fernandez

Nunca uma passagem tão fugaz pelo comando técnico de uma equipa gerou tanto sucesso como aquele angariado pelo nosso “mestre da táctica” de hoje. Pelo seu punho ajudou o Sporting Clube de Portugal – o seu clube do coração – a escrever uma das páginas mais reluzentes da sua gloriosa história. O seu amor ao futebol era puro e desinteressado, tão desinteressado que nunca quis viver às custas desta nobre modalidade. Assim não o tivesse feito e hoje estariamos aqui a recordar os feitos de uma lenda mundial das tácticas como foram Herbert Chapman, Hugo Meisl, Vittorio Pozzo, Sepp Herberger, Bobby Robson, Alf Ramsey, Rinus Michels, entre outros, muitos outros homens que mais do que terem conquistado títulos de grande prestígio internacional ao longo das suas carreiras ajudaram o desporto rei a evoluir. Foram os cientistas da bola, imaginando e aplicando novos conceitos tácticos que revolucionaram o jogo ao longo de décadas. A ilustre personalidade de hoje andou muito perto do caminho da imortalidade no que concerne aos “mestres da táctica” já que também ele era um visionista, um homem que vivia adiantado no tempo.
Sem mais demoras apresentamos Anselmo Fernandez, o arquitecto, o homem que conduziu o Sporting à conquista da Taça dos Vencedores das Taças em 1964. Mas já lá vamos.
Anselmo Fernandez nasceu em Lisboa a 21 de Agosto de 1918 e desde cedo – como tantos outros – se deixou enfeitiçar pelo bichinho da bola. Aos 16 anos iniciou a sua curta carreira de futebolista no emblema da sua paixão, o Sporting. E curta porque uma apendicite o afastaria de uma possível carreira promissora. Desistiu do futebol mas não do desporto, enquanto praticante, sendo que tempos mais tarde iniciaria uma aventura no râguebi. Numa altura em que o profissionalismo no desporto estava ainda a léguas de ver a luz do dia Anselmo Fernandez nunca perdeu os estudos de vista, pelo que na hora de eleger uma profissão optou pela arquitectura.
Uma área onde foi mestre, não só nos edifícios que criou – entre outros foi responsável pela construção do Hotel Tivoli, e da Reitoria da Universidade, ambos em Lisboa, e com Sá da Costa foi também um dos mentores do projecto do antigo Estádio José de Alvalade – mas também nos projectos tácticos que haveria de desenhar de leão ao peito na década de 60.
Possuidor de um estilo de treino muito particular – entre outros aspectos foi o primeiro treinador português a recorrer ao vídeo para analisar os adversários – Anselmo Fernandez é chamado em 1962 a substituir o mítico treinador húngaro Joseph Szabo no comando do seu Sporting. Faria cinco jogos, e nos cinco obteve outras tantas vitórias. Desta primeira passagem pelo banco leonino encontrei recentemete um relato que o próprio Anselmo Fernandez fez ao jornal “A Bola”, o qual passo a reproduzir na integra:

Em 1962, dirigentes do Sporting pediram-lhe que se tornasse supervisor técnico do futebol do clube, para apoiar Szabo, que era já treinador com a estrela empalidecida. «As coisas
estavam a correr mal, chamaram-me a dar um jeito, em cinco jogos cinco vitórias, uma delas, sensacional, sobre o F. C. Porto, no Porto. Os portistas, depois de terem empatado na Luz, ficaram com o título quase garantido, mas nós acabámos por tramá-los...»
Foi nesse jogo do Porto que Anselmo Fernandez trouxe à colação os primeiros indícios da sua argúcia. E da sua personalidade. «Para esse jogo, não viajara com a equipa. Quando chegaram ao Porto, já eu estava no Hotel Batalha. Disseram-me que o Carvalho se portara
mal e que o Lúcio decidira, por si, comer três pregos e beber três cervejas em Aveiro, onde parámos para comer uma sande de fiambre e beber um sumo. Disse logo ao Juca, que era o treinador de campo, que não jogariam. Ficou em pânico! Quem poderia substituí-los? Disse-lhe que o Libânio e o Morato. Houve logo quem pensasse que eu
endoidecera. Mais convencidos disso ficaram quando me recusei a ir para o banco e quando vibrei com o golo do empate do... F. C. Porto! Manuel Nazaré, que me acompanhara para um recanto do relvado, perguntou-me, então, o que se passara. Disselhe
que aquele golo do F. C. Porto, pouco antes do intervalo era uma... leitaria, que, assim, ganharíamos pela certa. Assim foi, vencemos por 3-1. O Campeonato acabou, ofereceram-me uma fortuna, não quis, não era parvo e como era arquitecto...»


Posto isto um interregno de dois anos surgiu no caminho do arquitecto no que concerne ao trabalho directo com o futebol. Regressaria na temporada de 1963/64 e de novo ao comando do clube que tanto amava, o Sporting. Desta feita para substituir o brasileiro Gentil Cardoso, uma troca que não poderia ter um final mais feliz. Gentil Cardoso saira do clube pela porta pequena após ter sido goleado em Manchester por 4-1 pelo United local num encontro a contar para a 1ª mão dos quartos-de-final da Taça dos Vencedores da Taças (TVT), na altura já a segunda prova europeia mais importante ao nível de clubes da UEFA. Recorrendo uma vez mais aos arquivos históricos do jornal “A Bola” recordemos então o que se passou a seguir à terrível noite de Old Trafford.

Ao jantar, depois do jogo maldito, os directores estavam desolados. Aparentemente resignados. «Manuel Nazaré afirmou-me que nada haveria a fazer, que estávamos lixados. Gracejando, disse-lhe que comigo como treinador talvez não... O desabafo passou como ironia. Nem eu queria que fosse outra coisa. No domingo seguinte, contra o Olhanense, estava o Sporting empatado,
1-1, deixei o camarote, 15 minutos antes de o jogo terminar, cheguei a casa, disse à minha mulher que não tardaria a tocar o telefone. Assim foi. Era o Nazaré a convidar-me para treinador. Aceitei e chamei o Francisco Reboredo, que estava nos juniores do F. C. Porto, para treinador de campo. Na estreia, contra o Benfica, na Luz, empate a 2-2. E quarta-feira, aquele jogo mágico dos 5-0 ao Manchetser, a caminhada fulgurante para a conquista da Taça das Taças...»


Pois é, a epopeia começa aqui a escrever-se no célebre jogo da 2ª mão em Alvalade ante o Manchester United treinado por outra lenda da táctica, Matt Busby. Missão impossível para muitos, incluindo grande parte da família sportinguitsa, o que é certo é que naquela noite o futebol português viveu um dos momentos mais felizes e épicos da sua longa e gloriosa história, muito à custa do Sporting e em particular do homem que comandava os seus destinos desde então: o “arquitecto”. 5-0 e a eliminatória estava virada e o Sporting alcançado as meias-finais da prova europeia. O poderoso Manchester tinha sido vergado face a uma exibição do... outro mundo de 11 leões indomáveis. Mas a viagem de sonho não iria ficar-se por ali, muito longe disso. Antuérpia, bela cidade belga, seria o porto de destino – final – da nau leonina. Localidade onde foi realizada a finalissíma da TVT dessa temporada na sequência de um empate a três golos na final de Bruxelas. Em Antuérpia Morais deu aso ao sonho de trazer para Portugal a primeira e única TVT. E tudo aconteceu graças a um golo de canto directo... o cantinho do Morais como ficou eternizado. O Sporting vencia assim o seu único – até à data – troféu internacional. Um vitória arquitectada por Anselmo Fernandez, um homem que durante essa gloriosa campanha europeia não quis receber um único tostão que fosse do clube. Fez tudo por amor... amor ao futebol e ao Sporting.
“A Bola” recordou então que...

No entanto, quando Brás Medeiros tomou a presidência do Sporting, Jaime Duarte decidiu propor-lhe um verdadeiro contrato de treinador, oficializando uma situação que não era
justo continuar assim. «Ofereceram-me 15 contos por mês, valor que, naquela altura, era baixo para um treinador, sobretudo depois da vitória na Taça das Taças. Aceitei. Só recebi um mês, porque, já na época seguinte, depois de ganharmos 4-0 ao Bordéus, demiti-me simplesmente porque, antes do jogo, o vice-presidente Pereira da Silva decidiu enviar aos emigrantes em França uma carta de captação de simpatias, com as assinaturas de 11
jogadores. Leu a carta, ao almoço, embevecido, perguntou-me a opinião, disse-lhe que a ideia era gira, mas que achava que, por enquanto, ainda era eu o treinador, não percebendo, por isso, porque estavam lá aqueles 11 nomes e não outros. Ganhámos e...
em Lisboa, demiti-me. Nunca mais voltei ao Sporting...»


Anos mais tarde quando treinava a CUF – conjunto que levou à Taça UEFA – um terrível acidente de viação na ponte sobre o Tejo (Lisboa) colocou-o às portas da morte. Foi submetido a uma delicada operação ao cérebro, passando vários meses em coma. Driblou a morte e remeteu desde então o futebol para o baú das recordações. À “A Bola” recordaria anos mais tarde que «as luzes e a glória pertubaram-me. Por isso não me magoa que 99% dos sportinguistas possam não saber que o treinador do Sporting que ganhou a TVT foi um arquitecto de profissão, filho de espanhóis de Zamora, mas que nasceu em Lisboa e fez do Sporting a sua mais apaixonante ligação a Portugal».
Morreria a 19 de Janeiro de 2000, em Madrid.

Legenda das fotografias:
1- Anselmo Fernandez
2- A célebre equipa do Sporting que conquistou a TVT
 
Nota: Texto escrito a 21 de Outubro de 2010 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Bora Milutinovic

Pode não ter os títulos, os prémios, e a consequente fama que deles advêm conquistados por mestres como José Mourinho ou Alex Ferguson –só para citar os actualmente mais mediáticos técnicos do Mundo – mas tem algo que dificilmente alguma destas duas lendas da táctica algum dia conseguirão: estar presente em CINCO Campeonantos do Mundo CONSECUTIVOS com CINCO equipas diferentes! Leram bem os prezados visitantes, não há qualquer tipo de engano. Um facto, ou melhor dizendo, um recorde no planeta da bola, que pertence a Bora Milutinovic, o nosso mestre da táctica de hoje. Uma pequeno parêntese para dizer que no último Mundial, realizado em 2010 na África do Sul, o brasileiro Carlos Alberto Parreira igualou Bora em termos de presenças em certames máximos da FIFA, pese embora não o tenha feita em campeonatos consecutivos.
Voltando ao ilustre visitado de hoje é de dizer antes do mais que ele é um filho da ex-Jugoslávia, país onde nasceu a 7 de Setembro de 1944. Enquanto jogador os seus desempenhos passam despercebidos à lupa dos mais atentos ao fenómeno da bola, visto que a sua carreira, pouco mais do que modesta, foi desenvolvida na Jugoslávia (ao serviço do FK Bor, OFK Belgrado e Partizan de Belgrado), França (Nice, Mónaco e Rouen), Suíça (Winterthur) e México (Pumas UNAM). Mesmo assim dava já para ver a tendência de “caixeiro viajante” do futebol, deambulando de país para país com a bola a “correr-lhe nas veias”.
E seria precisamente no México que Milutinovic daria o pontapé de saída numa invejável e “variada” carreira de treinador. Penduradas as chuteiras em 1977 inicia nesse mesmo ano uma caminhada de quatro anos ao serviço do Pumas UNAM. Uma caminhada com uma performance bastante positiva, facto que levou a federação mexicana a requisitar os seus serviços em 1983. O objectivo pedido de imediato ao treinador jugoslavo passava por levar a selecção principal dos “aztecas” o mais longe possível no Mundial de 1986, que iria decorrer precisamente no México (embora em 83 ainda estivesse atribuido à Colômbia, que mais tarde, e face aos graves problemas económicos que o país enfrenteva, abandonaria a organização a favor dos mexicanos).

Mundial 1986: Prova superada (1)

Para satisfazer o pedido dos responsáveis federativos mexicanos Bora construiu uma das melhores selecções mexicanas da história, formada por ícones como Negrete, Carlos Hermosillo, Quirarte, ou a estrela-mor da companhia Hugo Sanchez, na época um dos avançados mais temidos do planeta.
Na fase de grupos os mexicanos levaram a melhor sobre a concorrência, alguma dela de peso, diga-se de passagem, como é o caso da Bélgica, na época um dos melhores combinados do Mundo com estrelas como Pfaff, Gerets, Scifo, ou Ceulemans. E seriam precisamente os belgas (que neste Mundial terminariam no 4º lugar final) as primeiras vítimas da armada de Bora. Uma vitória por 2-1 num completamente lotado Estádio Azteca (110.000 pessoas) colocava o povo mexicano em delírio.
No jogo seguinte um precioso empate a uma bola com o não menos perigoso Paraguai de Romerito punha os anfitriões com um pé na fase seguinte da prova. E a confirmação deu-se na derradeira jornada do grupo B quando um golo solitário de Fernando Quirarte sobre o Iraque deu o definitivo passaporte ao México para os oitavos-de-final.
Pelo facto de ter conquistado o 1º lugar do seu grupo a selecção mexicana continuou a realizar os seus jogos no imperial e gigantesco Azteca, catedral que no primeiro jogo dos oitavos-de-final colocaria frente-a-frente a turma da casa e a Bulgária. E ai, perante 114.000 almas, na sequência de mais uma exibição muito positiva, o México subia mais um degrau do seu Mundial, já que eliminava os búlgaros com dois tentos sem resposta.
Desde logo estava igualada a melhor performance dos mexicanos em Campeonatos do Mundo: os quartos-de-final, um feito conquistado pela selecção de 1970 no Mundial que nesse mesmo ano decorreu curiosamente no México.
E nos quartos-de-final do Mundial 86 Bora tinha pela frente um difícil obstáculo chamado Alemanha Ocidental. O nome diz tudo. Era tão somente uma das mais poderosas equipas do Mundo. Os bravos mexicanos não se amedrontaram, muito longe disso, e fizeram a vida negra ao combinado orientado pela antiga lenda dos relvados Franz Beckenbauer. De tal maneira que o jogo chegou ao final do tempo extra empatado a zero bolas, tendo então a surgido a necessidade do desempate por grandes penalidades. Aqui a lotaria saiu aos germânicos, mas Bora e os seus pupilos foram apelaudidos de pé por um público orgulhoso do desempenho da sua pátria. A prova estava assim superada para Bora.
Depois deste Mundial o treinador voltou ao trabalho nos clubes, tendo em 1987 efectuado breves passagens – sem grande sucesso – pela Argentina (ao serviço do San Lorenzo) e por Itália (Udinese).

Mundial 1990: Aventura memorável com os “ticos”

Terminada a curta experiência ao serviço dos clubes atrás citados Bora voltaria a abraçar um projecto lançado por uma federação de futebol, neste caso a da Costa Rica, que o convidaria a dirigir o combinado principal daquele país nas eliminatórias para o Mundial de 1990, o qual iria decorrer em Itália.
Pegando em jogadores completamente desconhecidos o jugoslavo operou o primeiro grande milagre da sua carreira como técnico: levar os “ticos” (alcunha da selecção costa-riquenha) à fase final do Mundial. Um feito digno de um sublinhado mais carregado, tendo em conta que na primeira experiência de Milutinovic na fase final da prova máxima da FIFA o México na qualidade de país organizador já tinha um lugar garantido na dita fase, contrariamente à Costa Rica que teve de passar por um longo processo de qualificação. Só por isso se podia dizer que o trabalho de Bora à frente dos “ticos” tinha já sido coroado de sucesso.
No entanto a supresa ainda estava para vir. Chegados a Itália a Costa Rica era vista como o “bombo da festa” do grupo C que incluia ainda o colosso Brasil e as sempre temidas Suécia e Escócia.
E seria esta última selecção a primeira a provar do veneno letal dos “ticos”. Em Génova os pupilos de Bora puseram o Mundo de boca aberta depois de uma sensacional vitória por 1-0. E se muitos encaravam esta como uma mera lufada de sorte dos costa-riquenhos no seu jogo estreia numa fase final de um Mundial o jogo seguinte veio provar o contrário. Pela frente os “ticos” tinham o poderoso Brasil... que se viu grego para chegar ao final do encontro realizado em Turim com um magro triunfo por 1-0.
No derradeiro encontro do grupo foi a vez da Suécia vergar perante o futebol rendilhado dos caribenhos como expressa o score de 2-1 a favor destes últimos.
Perante isto o “bombo da festa” do Itália 90 estava na fase seguinte da competição. Quem diria! Acontecesse o que acontecesse nos oitavos-de-final diante da Checoslováquia os “ticos” tinham já assegurado o seu lugar na história deste campeonato como um das boas recordações. E o que aconteceu foi uma derrota por 1-4 que mandou Bora e companhia para casa com uma memorável campanha na bagagem.

Mundial 1994: Prova superada (2)

O nome de Bora Milutinovic era por estas alturas (início da década de 90) bastante badalado na alta roda do futebol internacional, não sendo pois de estranhar que a Federação Americana de Futebol tivesse lançado em primeiro lugar para cima da mesa o seu nome na hora de escolher o timoneiro que haveria de conduzir a selecção dos “states” no Mundial que em 1994 iria ser disputado precisamente em terras do “Tio Sam”.
Este era um desafio enorme para Bora, não pela falta de condições monetárias ou estruturais mas antes pelo facto de nos Estados Unidos da América (EUA) o futebol, ou soccer como por lá é baptizado, ser um completo desconhecido da maior parte dos nativos daquele país. Mais do que montar uma selecção capaz de não envergonhar a essência do belo jogo Bora tinha por missão uni-la ao país.
E a tarefa uma vez mais foi superada. Na hora do arranque do USA 94 eram muitos os teóricos que apontavam a selecção norte-americana como a primeira organizadora de um Mundial a falhar a qualificação para os oitavos-de-final, muito por culpa da condição de orfão que o soccer exercia nos EUA. Pois enganaram-se. Mesmo não sendo composta por génios da bola a selecção “yankee” encarou este como o desafio da sua vida, aparaltou-se, esmerou-se, uniu-se e a prova foi superada.
Fazendo parte do grupo A da competição os EUA começaram por calar os teóricos da bola no jogo inagural diante da Suíça – uma selecção que vinha patenteando um futebol de invejável qualidade – com uma igualdade a uma bola. Seguiu-se o embate com a Colômbia, selecção esta que antes do pontapé de saída do USA 94 era tida como uma das favoritas à conquista do título, com o Rose Bowl de Los Angeles a rebentar pelas costuras, numa clara demonstração que o povo analfabecto em linguagem futebolística estava ao lado da sua selecção. Um clima que catapultou os pupilos de Bora para uma histórica vitória por 2-1... e a fase seguinte estava ali tão perto. No derradeiro jogo do grupo derrota com a Roménia (0-1) mas o 3º lugar do grupo e a consequente qualificação para a fase seguinte já ninguém tirava aos inicialmente tidos como “toscos” americanos.
Nos oitavos-de-final Bora voltou a encontrar-se com o gigante Brasil, comandado soberbamente por Romário, selecção esta que voltou a sentir grandes dificuldades para bater um combinado orientado pelo treinador jugoslavo. 1-0, golo de Bebeto, sossegou os corações brasileiros que acabariam por entrar em delírio dias mais tarde com a conquista do “tetra-campeonato” do Mundo.
Bora tinha vencido mais um desafio, este um triplo desafio, ou seja, tinha formado uma boa selecção composta por nomes como Tony Meola, Alexi Lalas, Marcelo Balboa, Cobi Jones, ou Tab Ramos, havia unido a equipa nacional ao povo, e acima de tudo havia contribuido para que o soccer passasse a ser olhado com mais atenção e paixão por aquelas bandas.

Mundial 1998: De candidatos a desilusão

Depois de ter trilhado a sua carreira de técnico por caminhos do continente americano Bora Milutinovic aventurava-se agora em África. A Nigéria era o destino. Nigéria que era uma das pérolas daquele continente no que diz respeito a futebol, já que a sua selecção era composta por alguns dos diamantes mais preciosos do futebol planetário da época, casos de Yekini, Finidi, Rufai, Kanu, Okocha, Babangida, West, ou Ikpeba. Levá-los a França ao Mundial de 1998 foi por isso tarefa fácil para o mestre jugoslavo. Ai chegados começaram por encantar o Mundo com uma vitória (3-2) a todos os títulos sublime diante da Espanha de Raul, Zubizarreta, Hierro e companhia no jogo de abertura do grupo D do certame. A crítica rendeu-se ao colectivo nigeriano, começando a aparecer aqui e ali “recortes” atribuindo aos africanos estatuto de favoritos à conquista da prova! Exagero? Muito, como mais à frente se viria a confirmar.
O que é certo é que embalados pelo sonho os comandados de Bora bateriam (1-0) no jogo seguinte a poderosa Bulgária de Stoichkov, Kostadinov, Penev, Balakov, e companhia, e a fase seguinte era já uma certeza. Tanto assim é que os nigerianos se deram ao luxo de perder (1-3) o derradeiro encontro do grupo ante o Paraguai.
Do céu ao inferno o caminho seria curto nos oitavos-de-final perante a Dinamarca. No majestoso Stade de France (arredores de Paris) ficaria provado que ainda faltava à Nigéria percorrer um longo caminho até poder ser campeão do Mundo. Nesse encontro, os africanos não estiveram à altura dos jogos anteriores, em especial os dois primeiros, desprezando por completo a perigosa Dinamarca dos irmãos Laudrup. Consequência? Pesada derrota por 1-4 e adeus ao Mundial.
Depois desta nova aventura Bora voltou a sentar-se num banco de um clube. Em 1999 regressa aos EUA para orientar o Metrostars de Nova Iorque na recém criada Liga Norte-Americana (MLS).

Mundial 2002: Uma curta aventura

Contudo, o velho feiticeiro, assim era já conhecido por muitos devido ao seu dom de levar equipas pequenas a brilhar na grande montra do futebol global, sentia-se bem era a comandar selecções. Não foi pois de admirar que ao virar do milénio tenha surgido o convite da federação chinesa para que Bora tomasse as rédeas daquela selecção. Objectivo principal? Mundial 2002, que nesse ano se realizava pela primeira vez em solo oriental (Coreia do Sul e Japão).
O milagre foi alcançado, com Bora a entrar para a história daquela nação oriental que pela primeira vez iria jogar numa fase final de um campeonato do Mundo. A aventura seria porém curta, muito curta tendo em conta o passado do jugoslavo em Mundiais. A China não passaria da fase de grupos, depois de somar três derrotas em outros tantos encontros disputados (ante Costa Rica, Brasil, e Turquia). Mesmo assim Bora entrava para a história do futebol como o primeiro e único treinador a orientar cinco selecções diferentes em cinco Mundiais consecutivos.
Depois da China o feiticeiro voltou às américas, mais precisamente para as Honduras, com a intenção de participar com aquele país em mais uma fase final. Tentativa no entanto falhada já que seria despedido ainda durante as eliminatórias para o Mundial de 2006. Seguiram-se novas aventuras, primeiro ao serviço da Jamaica e por último como seleccionador do Iraque, país pelo qual falhou a qualificação para o Mundial 2010 em cima da meta.

Legenda das fotografias:
1- O "feiticeiro" Bora Milutinovic
2- Selecção do México no Mundial de 1986, a primeira experiência de Bora no grande certame da FIFA
3- A surpreendente Costa Rica no Itália 90
4- Milutinovic, o dono da bola do USA 94
5- A selecção nigeriana no França 98
6- Bora no banco da China naquela que foi a sua 5ª aventura consecutiva num Campeonato do Mundo
 
Nota: Texto escrito em 8 de Fevereiro de 2011 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Joseph Szabo

Na primeira metade do século XX a Hungria revelou-se perante o Mundo como um autêntico viveiro de geniais intérpretes do belo jogo. E quando falamos em intérpretes não nos referimos apenas aos lendários atletas magiares que escreveram algumas das páginas mais belas da "Grande Enciclopédia do Futebol Mundial", mas também aos grandes mestres da tática que contribuíram para a própria evolução do jogo. Um desses exemplos é Joseph Szabo, um nome que se encontra gravado a "letras de ouro" na História do futebol português! Mas já lá vamos.
Como qualquer outra história esta também tem um início, o qual se dá a 11 de maio de 1896, numa pequena aldeia piscatória húngara de nome Gonyo. Nesse dia nasce Joseph Szabo. Cedo as bucólicas imagens do Danúbio desaparecem do horizonte do jovem Joseph, que com apenas 4 anos de idade se muda para a ruidosa Gyor, cidade industrial de grandes dimensões para onde os seus progenitores se mudaram em busca de melhor fortuna. Habitante dos bairros pobres de operários as brincadeiras do menino Joseph limitavam-se quase exclusivamente ao... futebol. E tal como tantos outros da sua sua idade rendeu-se de imediato aos seus encantos. A vida dura fez com que aos 14 anos fosse trabalhar como torneio mecânico, profissão que não fez desaparecer a paixão que desenvolvia pelo jogo da bola. Paixão e talento, há que dizê-lo, pois se assim não fosse o clube local, o Gyor, não o tinha convidado para integrar a sua equipa principal. Convite aceite Szabo deu desde logo nas vistas como um habilidoso médio centro, facto que aos 20 anos de idade lhe valeria outro convite, este bem mais pomposo, vindo do Ferencvaros, um dos maiores clubes magiares. Para convencer Szabo a fazer as malas rumo a Budapeste os dirigentes do Ferencvaros ofereceram-lhe emprego numa fábrica de munições, pois nunca é demais relembrar que estamos a falar de uma época em que o futebol era totalmente amador! Joseph Szabo mais uma vez decidiu arriscar. Foi, e pouco depois era chamado à seleção da Hungria, pela qual atuaria em 12 ocasiões ao longo da sua carreira de futebolista.

Paixão recípocra entre Szabo e Portugal

Mas o ponto de viragem da sua vida deu-se em 1926, altura em que o Szombately solicita ao Ferencvaros o empréstimo da sua estrela Szabo para uma digressão a Portugal. Cedência aceite o jovem jogador embarca com o seu novo clube para terras lusas onde participa em diversos encontros de caráter particular. E chegado à Madeira... ali ficaria por um bom punhado de anos. E assim foi porque ao seu talento o Nacional não ficaria indiferente, tendo feito uma proposta a Szabo para ficar no Funchal a jogar pelo clube alvi-negro. Como condição para ficar o jovem húngaro queria apenas que lhe pagassem duas passagens da Hungria para Portugal... para si e para a sua futura esposa, com quem iria contrair matrimónio dali a pouco tempo. Condição aceite pelos nacionalistas Szabo muda-se de armas e bagagens para a Madeira e ali continuou a desenvolver a sua arte nos 4 anos que se seguiram. Um ano depois troca de camisola, passando a vestir a do emblema mais popular da ilha, o Marítimo. Uma "senhora equipa" de futebol tinha o conjunto verde rubro na época, onde para além de Szabo pontificava um jovem que viria a ser considerado como um dos melhores jogadores portugueses de todos os tempos: Pinga.
O talento dos madeirenses rapidamente chegou ao continente, que recebia ecos de que na ilha existia uma verdadeira mina de craques! O FC Porto, através do seu lendário guarda-redes Mihaly Siska, também ele húngaro de nascimento, lançou o "canto da sereia" a Szabo. Depois de alguns meses de impasse eis que em meados de 1930 Joseph Szabo desembarca na Cidade Invicta com a tarefa de jogar e... treinar o FC Porto. Mas não vem sozinho, consigo trás um diamante ainda por lapidar chamado Pinga. E não seria preciso esperar muito tempo para Szabo brilhar de azul e branco vestido, já que logo na sua primeira época ao serviço do clube vence o Campeonato Regional. Prova que voltaria a vencer na temporada seguinte, juntando a este título outro mais pomposo, o de Campeão de Portugal. Os feitos de Joseph Szabo começavam desta forma a ser conhecidos um pouco por todo o país, e ao Porto chegam ecos de que um clube de Lisboa se estaria a preparar para lançar o isco a Szabo. Sabendo disto os dirigentes portistas logo trataram de guardar a sua jóia, tendo pedido inclusive à Polícia para que impedisse o húngaro de sair da cidade fosse em que circunstância fosse!
E lá ficaria, permanentemente vigiado supomos nós, até 1937, tendo conquistado mais 4 Campeonatos Regionais, um Campeonato de Portugal, e um Campeonato Nacional da 1ª Divisão, em 1934/35, curiosamente a primeira edição do campeonato maior do futebol lusitano.
Joseph Szabo desempenhava por esta altura só funções de treinador. Dava mostras de ser um grande condutor de homens, um mestre da tática, porém com um temperamento terrível! E mais terrível ficou depois de uma viagem até Londres, onde realizaria nesse ano de 1935 um estágio com aquela que era considerada a melhor equipa do Mundo da época, o Arsenal, treinado pelo lendário técnico Herbert Chapman. A viagem à capital inglesa havia sido um presente oferecido pelos dirigentes do clube nortenho a Szabo na sequência da conquista do Campeonato Nacional, presente que viria a revolucionar por completo a mentalidade do jovem treinador.
De regresso ao Porto Szabo levou a cabo uma autêntica revolução nos métodos de trabalho. Aplicou uma verdadeira ditadura militar no seu balneário, onde a disciplina era a palavra de ordem. Logo no primeiro dia de trabalho da nova época ordenou que os seus pupilos fizessem uma corrida de 7 km desde a Constituição até à Circunvalação... pelo menos três vezes por semana! De Londres trouxera entretanto outras severas regras, como por exemplo, aquela em que cada jogador que chegasse um minuto atraso ao treino pagaria uma multa de 10 por cento do seu ordenado! A paciência dos jogadores e dirigentes portistas foi-se apagando à medida em que Szabo se tornava cada vez mais agreste e exigente com todos. Até que em 1937, no rescaldo da conquista do Campeonato de Portugal desse ano, os dirigentes portistas perdem de vez a paciência e demitem Szabo.
Não ficaria sem emprego durante muito tempo, sendo Braga o seu destino seguinte. E até à capital do Minho levou consigo o feroz caráter disciplinador que o tinha tramado no FC Porto, e desde o primeiro minuto de trabalho colocaria em cima da mesa uma série de regras/exigências que pretendia ver cumpridas. A mais curiosa foi talvez o facto de querer que o Sporting de Braga passasse a usar um equipamento igual ao do Arsenal de Londres, isto é, camisola vermelha com mangas brancas, calção branco e meia vermelha. Exigência, ou capricho, aceite pelos responsáveis minhotos, e que curiosamente se mantém até aos dias de hoje! Em Braga continuou a mostrar dotes de grande condutor de homens e mais uma vez a sua fama chegou ao sul do país, mais concretamente à capital Lisboa, que pela mão do Sporting não perdeu tempo a encenar mais uma tentativa de "pescar a truta" húngara.

O casamento com o Sporting

Contrariamente ao ocorrido algumas épocas antes desta feita o Sporting conseguiu mesmo que Szabo aceitasse treinar a sua equipa principal, uma efeméride ocorrida em 1937. E chegado a Lisboa e ao Sporting Joseph Szabo revolucionou por completo não só o futebol do clube como o próprio futebol português. "Doente" pelo trabalho físico, feroz disciplinador, estudioso da tática, não demorou muito a que o sucesso lhe voltasse a bater à porta. No Sporting  iniciou um reinado ainda hoje insuperável, sendo o treinador que mais épocas consecutivas esteve à frente do clube (8), e aquele que mais títulos venceu (13).
Da sua mente nasceu o lendário quinteto "5 Violinos", ele que descobriu o talento ímpar de dois desses famosos "violinistas", nomeadamente Jesus Correia e Fernando Peyroteo. Aplicou na perfeição no nosso leões o famoso sistema tático WM. Severo, por vezes demais, com os seus jogadores Szabo teve em 1940/41 aquela que poderemos caracterizar como a sua grande época de leão ao peito, altura em que venceu tudo o que havia para vencer: Taça de Portugal, Campeonato Nacional da 1ª Divisão, e o Campeonato Regional de Lisboa. Nesta sua primeira passagem pelo comando do Sporting venceu 2 campeonatos nacionais da 1ª Divisão, um Campeonato de Portugal, 5 campeonatos regionais de Lisboa, e uma Taça do Império.
Mas tal como acontecera no FC Porto Szabo também colecionava alguns inimigos dentro do Sporting. A sua língua afiada, dizem alguns que provocatória e insultuosa por vezes, ditou a sua saída do clube de Alvalade em 1945. Rumou de novo a Braga, onde apenas esteve uma temporada. Arrependidos da decisão tomada uma década antes os dirigentes do FC Porto vão em sua perseguição e convencem-no em 1945/46 a regressar à Invicta. Ali esteve duas épocas, mas sem o sucesso da sua primeira passagem por aquelas paragens. Nos anos que se seguiram andou pelo Algarve (orientou Portimonense e Olhanense) e regressou a Lisboa para liderar Atlético e Oriental.
Em 1953/54 dá o "sim" aquele que era já publicamente o clube do seu coração, o Sporting, para na qualidade de treinador de campo vencer o campeonato e a Taça de Portugal dessa temporada. Ficou um ano mais e fez de novo as malas rumo a outras paragens. Caldas, de novo Braga, Leixões, Torreense, Barreirense, e Vila Real foram alguns dos emblemas que testemunharam a mestria de Szabo. A última chamada do Sporting aconteceu em 1964/65, onde desempenhou funções de treinador de campo ao lado de Armando Ferreira e de Anselmo Fernandez.
Em 1966 orienta um grupo de homens pela última vez na sua vida, facto ocorrido em Angola, cuja seleção nacional foi treinada por um homem que nesta altura era já mais português do que húngaro. Dai por esta altura ser já conhecido como José Szabo. Para a eternidade ficam os seus revolucionários métodos de trabalhar o futebol, a sua extrema dedicação ao trabalho físico - da sua autoria é a frase «no futebol o sucesso faz-se com 10 por cento de génio e 90 por cento de transpiração» -, a sua feroz personalidade disciplinadora - falhar um golo dentro da área dava direito a uma multa de 10 por cento do ordenado -, controlador absoluto de tudo o que fosse relativo aos seus atletas - vivia obcecado pelos "desempenhos" sexuais dos seus pupilos, proibindo-os mesmo de ter relações antes dos jogos, já que tal era prejudicial à atuação destes no relvado - e a sua peculiar forma de "arranhar" a língua portuguesa, forma essa que não poucas vezes lhe valeram inúmeros dissabores.
Sportinguista era o seu coração, não sendo de estranhar que na hora da morte escolhesse o lar de jogadores do clube de Alvalade para morrer. Facto ocorrido a 17 de março de 1973.

Legenda das fotografias:
1-Joseph Szabo
2-A equipa do FC Porto orientada por Szabo que em 34/35 venceu a 1ª edição do Campeonato Nacional da 1ª Divisão
3-O Sporting que em 40/41 venceu a "tripla": Campeonato Nacional, Taça de Portugal, e Campeonato de Lisboa
 
Nota: Texto escrito em 10 de maio de 2012 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Albert Batteux

Se existe país onde o futebol demorou a criar raízes, esse país foi a França. Nação aristocrata, repleta de glamour, apaixonada pelas artes, a França olhou - durante várias décadas - com indiferença, e algum desprezo, porque não dizê-lo, o futebol, modalidade tão popular noutros pontos do globo. As primeiras aparições galuesas nas grandes competições internacionais - o mesmo será dizer os Jogos Olímpicos de 1908, 1920, 1924, e 1928, bem como as três primeiras edições do Campeonato do Mundo (1930, 1934, e 1938) - passaram completamente ao lado de um povo mais interessado em (re)descobrir a genialidade de Van Gogh, Da Vinci, Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, entre muitos outros artistas - de áreas como a pintura, escultura, música, cinema, ou literatura, por exemplo - cuja obra se cruzou com os caminhos culturais de La belle France. Foi preciso esperar até finais da década de 50 para ver o futebol despertar nos franceses uma ponta de curiosidade e ao mesmo tempo de fascínio! Tudo graças ao homem que hoje vamos recordar, Albert Batteux, a ilustre figura considerada como o pai do futebol francês! O homem que lançou as sementes das gerações vencedoras do futebol gaulês, de Platini a Zidane, o criador de um estilo de jogo tecnicamente elegante eternizado como... o futebol champagne
Enquanto jogador o Napoleão do futebol francês foi um médio de grande recorte técnico, fiel ao clube da cidade que o viu nascer a 9 de julho de 1919, Reims. Batteux envergou pela primeira vez a camisola da equipa principal do seu Stade Reims em 1937, não mais a despindo até 1952, altura em que finalmente cedeu às pressões do então presidente do clube, Henri Germain, para pendurar as chuteiras e assumir o comando técnico do pequeno clube que até então tinha nas suas vitrinas apenas um campeonato nacional (48/49) e uma Taça de França (49/50), simultaneamente os dois únicos títulos que Albert Batteux conquistou ao longo da sua carreira de futebolista. 
Germain carregava consigo o sonho de fazer do Stade Reims o maior clube de França, e quiçá da Europa, não se poupando a esforços monetários para concretizar essa ambição. Depois de convencer Batteux a assumir o comando técnico da equipa principal contratou um jovem de 19 anos, de origem polaca, chamado Raymond Kopaszwski, mais tarde rebatizado como Raymond Kopa! A dupla Batteux-Kopa haveria de revolucionar por completo o conceito de futebol em França nos anos seguintes. O Reims passou efetivamente a dominar a modalidade em terras gaulesas, somando títulos, e mais do que isso implantando a identidade futebolística que França até então não possuía. Batteux foi o criador dessa identidade. Profundo conhecedor dos vários estilos de jogo que vagueavam pelo planeta da bola o agora treinador defendia que todos os países tinham o seu ADN futebolístico, derivado das carecterísticas do seu povo, da sua cultura, e o da França tinha de ser definitivamente um estilo de jogo cheio de glamour, assente num requintado futebol técnico e criativo. Estilo esse implantado primeiro no Stade Reims e posteriormente na seleção francesa, cujos destinos Batteux assumiu - em simultâneo com os do Reims - entre 1955 e 1962. No clube o lendário treinador ficou até 1963, conquistando 6 campeonatos nacionais (1953, 1955, 1956, 1958, 1960, e 1962), uma Taça de França (1958), e a Taça Latina de 1953, que na altura era a competição internacional de clubes mais afamada da Velha Europa. O Stade Reims de Albert Batteux foi um dos poemas mais belos da história do futebol, e nem mesmo a saída do genial Kopa para o gigante continental Real Madrid, em 1956, retirou o glamour e a tremenda eficiência ao futebol praticado pelo clube durante uma década. Saiu Kopa mas continuavam lá outras obras de arte criadas por Batteux, tais como o defesa central Jonquet, o criativo médio interior esquerdo Piantoni, e o mortífero goleador Just Fontaine. Três nomes que junto de Kopa escreveriam uma das páginas mais deslumbrantes do futebol de França, em 1958, durante a fase final do Campeonato do Mundo da Suécia, o mesmo que lançou para a ribalta um jovem brasileiro de apenas 17 anos, chamado Pelé.
Orientada por Albert Batteux a seleção gaulesa encantaria o Mundo nos relvados suecos com o seu futebol champagne, e só não recebeu a coroa de rainha do planeta da bola, o mesmo é dizer, não se sagrou campeã mundial, porque teve o azar de encontrar pela frente - nas meias-finais desse épico torneio da FIFA - o mágico Brasil de Vavá, Zagallo, Nilton Santos, Garrincha, e do tal Pelé. A França ficou-se pelo 3º lugar, e o homem-golo gerado por Batteux, Just Fountaine, com o título de rei dos goleadores, com 13 remates certeiros (numa só fase final), recorde que ainda hoje perdura.
Albert Batteux deixou os destinos da seleção francesa em 1962, mas o seu reinado no futebol gaulês estava ainda muito longe de terminar. Um ano mais tarde coloca um ponto final no casamento com o seu Stade Reims, emblema que defendeu ao longo de 26 anos (15 como jogador, e 11 como treinador), iniciando posteriormente uma nova e memorável aventura ao serviço de outros clubes. Entre 63 e 67 orientou o Grenoble Foot 38, mas o seu talento iria dar frutos ao serviço do Saint-Ètienne, emblema que sob o seu comando venceu os títulos de campeão nacional em 68, 69, e 70, assim como as taças (de França) de 68 e 70. Depois de fazer história com os verts Batteux rumou ao Avignon, onde esteve apenas uma temporada (76/77), ao Nice (1979), e por fim ao Marselha, em 80/81, onde faria a despedida dos bancos.
Mais do que títulos Albert Batteux lançou como já vimos as sementes que viriam a transformar-se em apetitosos frutos nos anos 80 e 90, as sementes das gerações douradas de Platini (80), e Zidane (90).
O pai do futebol francês morreu 28 de fevereiro de 2003.

Legenda das fotografias:
1-Albert Batteux
2-Seleção francesa que encantou o planeta da bola no Mundial de 1958
 
Nota: Texto escrito em 8 de janeiro de 2013 no blog: www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com 

Joreca

Durante largas dezenas de décadas os laços de sangue entre Portugal e Brasil ajudaram a que milhares de jogadores e treinadores cruzassem o Atlântico em busca de uma oportunidade para alcançar o sucesso no mundo do futebol. Uma viagem cuja balança pende mais - muito mais - na ligação Brasil - Portugal, do que o inverso, ou seja, foram mais os brasileiros que vieram tentar a sua sorte no futebol português do que lusitanos em busca do el dorado em Terras de Vera Cruz. E se ao longo da história os portugueses se habituaram a ver atletas de origem brasileira envergar as cores da seleção nacional lusa - Lúcio foi o pinoneiro, nos anos 60, imitado décadas mais tarde por Deco, Pepe, ou Liedson - e treinadores a orientar a equipa das quinas em grandes competições internacionais - Otto Glória foi o mestre que conduziu os Magriços de Eusébio e companhia ao 3º lugar no Campeonato do Mundo de 1966, enquanto que num passado recente o sargentão Scolari foi vice campeão da Europa em 2004, e 4º classificado no Mundial de 2006 - é mais complicado, bem mais, imaginar um português a vestir a mítica camisola canarinha (Casemiro do Amaral foi a fazê-lo) ou sequer a sentar-se no banco para orientar o escrete numa qualquer partida de futebol. Impensável, mas não impossível. Como assim? Nesta última função (a de treinador) a resposta está em Joreca, a alcunha de Jorge Gomes de Lima, lisboeta de berço, nascido no longínquo 7 de janeiro de 1904, que como principal cartão de visita tem o facto de ter sido um dos dois únicos estrangeiros a ter o privilégio de treinar a principal seleção do Brasil!

Como já vimos, Jorge Gomes de Lima nasceu em Lisboa no início do século passado, tendo ainda cedo cruzado o Atlântico rumo ao país que haveria de fazer dele um dos melhores treinadores dos anos 40. Precisamente no início da década de 40 Joreca - a alcunha que ganhou pouco depois de assentar arraiais em solo sul-americano - licenciou-se em Educação Física na Universiade de São Paulo, a cidade que o acolheu e que o eternizou no planeta da bola.
Antes mesmo de descobrir a sua vocação como condutor de equipas fez uso da sua extrema habilidade com as palavras, ao tornar-se num apreciado jornalista desportivo, escrevendo crónicas em vários jornais paulistas e espalhando os seus vastos conhecimentos sobre o belo jogo nas frequências da rádio, na qualidade de comentador.
O salto para o terreno de jogo foi dado de forma discreta. Deu as primeiras preleções táticas na seleção paulista de amadores, ao mesmo tempo em que descobria uma outra faceta dentro da modalidade, a de árbitro!
Joreca revelava-se um homem dos 7 ofícios no desporto rei, e foi ele que na qualidade de árbitro dirigiu o jogo de estreia de um tal de... Leônidas da Silva, com a camisola do São Paulo Futebol Clube. Efeméride ocorrida em 1942, precisamente um antes de Joreca assumir o comando técnico do tricolor paulista.
Um casamento que iria durar até 1947, tendo sido pautado por inúmeros momentos de felicidade para ambos os conjugues. No primeiro jogo em que se sentou no banco dos paulistas o portuga Joreca - que  a meio da viagem havia substituido na função o técnico uruguaio Conrado Ross - não brincou em serviço, que o diga a Portuguesa Santista, despachada com uma goleada de 6-1. Joreca entrava com o pé direito. Esse primeiro ano ao serviço de São Paulo seria histórico. Até final da temporada disputou mais 12 partidas, tendo vencido 11 e empatado apenas uma, ante o rival Palmeiras, precisamente o derradeiro encontro do campeonato, o empate que colocaria um ponto final no longo jejum de 12 anos em que o São Paulo esteve arredado dos títulos.
O São Paulo era campeão estadual pela mão de um português, uma conquista marcada pela visão revolucionária daquele homem nascido do lado de lá do imenso Atlântico aliada ao brilho do diamante negro Leônidas da Silva, que assim festejava o seu primeiro título com a camisola tricolor. 
O trabalho de Joreca não passou despercebido aos responsáveis da Confederação Brasileira dos Desportos (antecessora da atual Confederação Brasileira de Futebol) que no ano seguinte convidaram o luso a treinar nada mais nada menos do que a seleção brasileira! A tarefa seria dividida com Flávio Costa, que juntamente com o treinador português formou assim uma espécie de comissão técnica para dois jogos amigáveis que o escrete disputou em maio de 1944. Ambos tiveram como adversário o Uruguai, tendo o primeiro encontro sido realizado no Estádio São Januário, no Rio de Janeiro, saldado por um robusto triunfo brasileiro por 6-1. Quatro dias depois repetiu-se a dose, embora com números mais modestos, no Pacaembu, de São Paulo, onde a seleção derrotava os vizinhos charruas por 4-0.
A carreira de Joreca no combinado nacional do Brasil foi curta, pois logo de seguida Flávio Costa segurava o leme da equipa sozinho até 1950, ano em que perdeu o título mundial para o Uruguai em pleno Maracanã!
Após ter-se tornado no PRIMEIRO ESTRANGEIRO A TREINAR A SELEÇÃO BRASILEIRA - facto histórico, muita atenção! - Joreca voltou ao São Paulo, onde conquistaria mais dois títulos de campeão estadual. O primeiro em 1945, e o segundo um ano depois, este de forma invicta (!), algo nunca mais reptido na história do tricolor paulista. Saiu do clube em 1947, com um fabuloso registo de 166 jogos disputados, 109 vitórias conquistadas, 31 empates averbados, e somente 26 desaires, sendo ainda hoje o terceiro treinador na história do São Paulo que mais títulos oficiais venceu.

Joreca deixou a casa que o catapultou para a fama, e que ele que próprio fez regressar à fama, há que sublinhá-lo, mas não deixou o seu amado futebol.
Em janeiro de 1949 espeta um punhal no coração dos acérrimos adeptos do tricolor paulista ao assinar pelo eterno rival Corinthians, emblema que orientou durante 52 partidas, tendo entre outros feitos lançado para a rivalta um dos maiores ídolos da fiel torcida corintiana, Baltazar, o cabecinha de ouro. O sucesso de Joreca no Coringão foi muito curto, já que no final desse ano de 1949 - 5 de dezembro para sermos mais precisos - o português mais brasileiro de sempre - no que ao futebol diz respeito - morria vitimado por um ataque cardíaco.
Além do desporto rei ainda fez uma perninha no boxe, subindo ao ringue em duas ocasiões, e em ambas saiu vitorioso!

Legenda das fotografias:
1- Jorge Gomes de Lima, eternizado como Joreca
2-Como árbitro da Federação Paulista de Futebol
3-A equipa do São Paulo que venceu o campeonato estadual de 1943, onde Leônidas da Silva (é o jogador do meio na fila de baixo) assumiu o papel de estrela
4-O São Paulo campeão estadual de 1946, de forma invicta. Joreca é o primeiro elemento (da direita para a esquerda) da fila de cima
5-Abraçado pelos seus pupilos do tricolor paulista após a conquista de mais uma vitória

Nota: Texto escrito em 27 de março no blog: www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com 

 

Brian Clough

 

Brian Clough, segura a Taça dos Campeões Europeus,
a qual venceu não por uma, mas por duas ocasiões
com o até então desconhecido Nottingham Forest
Para além do seu inquestionável talento em conduzir as suas equipas rumo ao patamar do sucesso, José Mourinho é hoje um ícone do planeta da bola muito graças à sua controversa personalidade, a qual faz com que seja amado por uns, e odiado por outros - mais odiado do que amado, na verdade. A imagem que o treinador português construiu assemelha-se - e muito - à de um outro mestre da tática que no início da segunda metade do século XX ganhou por mérito próprio o estatuto de imortal do futebol. Polémico, frontal, arrogante, carismático, egocêntrico, vencedor, e sobretudo genial, eis alguns dos adjetivos que poderão catalogar o inglês Brian Clough, para muitos o melhor técnico britânico de todos os tempos. Concordo, devo confessar, e peço desde já desculpa aos visitantes do Museu por estar a emitir uma opinião pessoal num texto biográfico que tal como todos os outros aqui publicados deverá ter - como deve ser - um cunho imparcial, mas... não só concordo com esta visão como acrescento que Clough foi não só o melhor técnico britânico de todos os tempos como um dos melhores a nível global. Que exagero, pensarão alguns ao ler esta visão pessoal, mas para esses céticos em relação a esta opinião proponho o seguinte desafio: imaginem alguém que pega num Moreirense, ou num Penafiel - isto, olhando à escala do futebol português - ou se preferirem outros universos futebolísticos, um Badajoz (Espanha), ou um Siena (Itália) e conduz, num curto espaço de tempo, um desses emblemas da 2ª Divisão à conquista da Liga dos Campeões! Só possível num jogo de computador, dirá a maioria dos inquiridos. Pois bem, Brian Clough operou esse milagre em finais dos anos 70 com o até então desconhecido Nottingham Forest... e fê-lo por duas vezes! Só ao alcance de um génio, não é verdade?


O temível avançado Brian Clough
ao serviço do Middlesbrough
Génio esse que nasceu a 21 de março de 1935, na pequena cidade de Middlesbrough, no seio de uma numerosa - Brian foi o sexto dos nove filhos do clã Clough - e modesta família, tendo ainda cedo (aos 15 anos) deixado a escola para ajudar no sustento da casa, conseguindo um trabalho numa indústria química. Foi por essa altura que deu início à sua curta, mas interessante, carreira de futebolista, ingressando nos amadores do Billingham Synthonia, clube que deixou em 1953 para ingressar na Força Aérea. Cumprido o serviço militar, em 1955, ingressa no emblema da terra natal, o Middlesbrough Football Club. Ao serviço do Boro - nickname (alcunha) pelo qual o clube é tratado pelos seus fãs - Clough tornou-se num brilhante e temido avançado-centro, um verdadeiro terror para os guarda-redes adversários, conforme comprovam os 197 golos apontados nos 213 desafios em que envergou a camisola do clube que defendeu durante seis temporadas (entre 1955 e 1961). Foi durante este período que os seus atributos de goleador chamaram à atenção dos responsáveis técnicos da seleção inglesa, que em duas ocasiões convocam Clouhg para vestir a camisola principal dos Três Leões. Seria durante o seu percurso de categorizado goleador do Boro que Brian Clough conheceu aquele que haveria de ser o seu braço direito, o seu conselheiro, no reino da bola, e mais do que isso, o seu melhor amigo, de nome Peter Taylor, na época guarda-redes do clube do nordeste de Inglaterra.
A veia goleadora de Clough não passou despercebida a outros emblemas britânicos, sobretudo ao Sunderland, clube que certa ocasião foi abatido pelo poder de fogo do avançado-centro. Eterno rival do Middlesbrough, o Sunderland não descansou enquanto não adquiriu aquele diamante, que incompreensivelmente para a maioria dos súbitos de Sua Majestade apenas tinha sido chamado à seleção por um par de ocasiões. Em 1961 Clough transfere-se para o Sunderland, por uma quantia de 55 000 libras, ali permancendo somente uma temporada enquanto jogador, alcançando um impressionante registo de 63 golos em 74 partidas disputadas. A carreira de Brian ia de vento em popa, até ao fatídico - ou não, como mais tarde se iria comprovar - boxing day - 26 de dezembro - de 1962, quando num encontro ante o Bury o atleta sofre uma grave lesão no joelho - rutura de ligamentos - após um violento choque com Chris Harker, o guardião contrário. Um acidente que obrigou o goleador a parar durante dois anos (!), uma paragem que viria a ditar o final de uma carreira que estava a ser brilhante, já que no seu regresso ao ativo, em 1964, Clough não fez mais do que três jogos, sendo forçado - por motivos físicos - a dar por terminado o seu trajeto de futebolista. Contava somente com 29 anos de idade, e para a história ficava um impressionante registo de 251 golos apontados em 274 encontros disputados!
Mas, e como diz o velho ditado, há males que vêm por bem, e incentivado pelo seu treinador de então, de nome Alan Brown, o jovem Clough dá início a uma não menos brilhante carreira de treinador.

O início de uma caminhada gloriosa...
na arte de conduzir ao sucesso 
equipas de menor dimensão!


Brian Clough, à porta dos balneários
do Derby County, modesto clube que sob o comando
deste homem alcançou a glória
Adotando o estilo disciplinador, agressivo, por vezes, de Brown, Brian Clough inicia em 1965 a carreira de técnico nos escalões secundários do futebol britânico. A sua primeira experiência dá pelo nome de Hartlepools United, modesto emblema que militava na 4ª divisão inglesa. A sua primeira ação é convidar o seu antigo companheiro de equipa no Boro, Peter Taylor, para se juntar a ele nesta aventura, na qualidade de treinador assistente. Uma dupla que iria entrar na história do futebol internacional, como se irá perceber no desenrolar deste excerto biográfico. Num clube orfão de dinheiro, de infraestruturas, o máximo que a dupla Clough/Taylor consegue é levar a equipa ao oitavo posto do quarto escalão inglês, uma posição para lá de satisfatória para um emblema habituado a bater no fundo da garrafa sistematicamente e sem grandes sonhos no mundo do futebol. 
No Hartlepools United Brian Clough dá igualmente início à(s) sua(s) relações problemática(s) com os dirigentes clubísticos. Desde pronto ele mostra que não se dá bem com ordens vindas dos quadros diretivos, oriundas de membros superiores, como o chairman - presidente - do clube, por exemplo. Clough chama a si todo o tipo de decisões que se prendem com a vida do clube. Não se limitando aos treinos e às táticas o ex-goleador também decide sobre as políticas de contratações: quem contratar, quando contratar, quanto gastar, etc. Um estilo autoritário que ignora por completo as opiniões/decisões dos dirigentes, o qual iria perdurar ao longo de toda a carreira, o que fez com que ganhasse mais inimigos do que amigos... tal como José Mourinho. Farto da personalidade controversa de Clough o chairman do Hartlepools United, Ernest Ord, decide despedir o téncico e o seu assistente Peter Taylor ao fim de um ano de ligação. Porém, após algumas reuniões com outros membros da direção, Ord - já de cabeça fria - recua na decisão, mantendo até ao final da temporada de 1966/67 o treinador que se fazia sobressair pelo temperamento forte e um estilo de comando muito peculiar. 


«Senhoras do chá... RUAAAAAA», parece ordenar Brian
Na conclusão dessa temporada de 66/67 a dupla Clough/Taylor ruma para outras paragens, para um clube pouco maior em termos de dimensão que o Hartlepools United, para um emblema habituado a percorrer os tortuosos e lamacentos caminhos da 2ª Divisão inglesa, o Derby County. Ali chegado, logo vinca a sua autoritária personalidade, levando a cabo uma pequena revolução no clube, não só no aspeto desportivo, como também no plano administrativo. Reza a lenda que assim que chegou despediu a secretária, o jardineiro, e duas simples senhoras que serviam chá, por alegadamente se terem rido de uma derrota do Derby. Seria neste pequeno clube que teria início verdadeiramente o legado de Clough, dando então a conhecer o seu ímpar talento para extrair o máximo de jogadores nada mediáticos, oriundos de divisões secundárias, e cujos nomes eram facilmente eclipsados quando colocados a par das estrelas do Liverpool, do Manchester United, ou do Leeds United. Com um bando de desconhecidos a dupla Clough/Taylor construiu uma equipa vencedora em pouco tempo, capaz de ombrear com qualquer equipa britânica - e não só -, capaz de concretizar objetivos até então impensáveis como...sair do último lugar da Second Division para erguer o troféu de campeão inglês num curto período de cinco anos. Há no entanto que fazer um atalho nesta nossa história para sublinhar o importante papel do fiel escudeiro de Clough no seu trajeto imperial. Brian Clough poderia ter o carisma, o condão de revolucionar as mentes dos seus atletas, de os guiar até à glória, mas era Peter Taylor quem os descobria nos campos de batatas dos escalões secundários. Era o seu olho cirúrgico que a mando de Clough - claro está, ele é que dava as ordens - descobria jogadores completamente anónimos, e que posteriormente sob a alçada do treinador principal eram trabalhados e lançados às feras na alta roda do futebol inglês, vulgarizando as mega-estrelas do Manchester United, Liverpool, Arsenal, ou do Leeds United. 


Até 1967 nenhum adepto do modesto Derby County
sonhava com esta imagem: ver o seu clube erguer o troféu
de campeão inglês! Clough e Taylor realizaram esse...
sonho irreal em 1972
Com este tipo de liderança, chamando a si tudo o que envolvia o clube, Clough criou um novo conceito de treinador. Ele não se limitava a treinar ou a dar táticas, como já referimos, ele decidia sobre assuntos de ordem administrativa, ele era o responsável pela melhoria das condições de trabalho, ele era o responsável por todas as contratações, ele era o número um dentro do clube, era o manager, o primeiro verdadeiro manager do futebol inglês. Tudo o que dizia respeito ao clube centrava-se em Brian Clough. Algo que irritava profundamente os dirigentes, que para Clough tinham a única função de...assinar os cheques para contratar os jogadores que ele e Taylor escolhiam. Esta pequena revolução fez com que modesto Derby County abandonasse o habitual último lugar da 2ª Divisão para ascender no curto espaço de dois anos ao principal campeonato inglês, a First Division, atualmente o correspondente à Premier League. Clough e Taylor chegaram ao clube na temporada de 67/68 e duas épocas depois ao vencerem a 2ª Divisão garantiram o passaporte para o escalão principal, sendo que na temporada da promoção o Derby County estabeleceu um recorde de 22 jogos consecutivos sem conhecer a derrota. Isto com uma equipa de - até então desconhecidos - operários, como Roy McFarland, John O´Hare, Alan Hilton, ou John McGovern, os tais homens que o perspicaz Peter Taylor havia descoberto no sub-mundo do futebol britânico. Mais do que um líder estes jogadores viam em Clough um amigo, um amigo que quando era preciso era duro, insultava-os se fosse necessário, é certo, mas que estaria sempre ali ao lado deles na frente de batalha. De batalha não, porque na ótica de Brian Clough o futebol não era uma guerra, de socos e pontapés, baseado no típico estilo inglês do kick and rush (pontapé para a frente), mas sim uma arte, um beautiful game, como ele chamava ao jogo que tanto amava. E como jogo bonito que era o futebol tinha de ser jogado de uma forma atrativa, limpa, sem faltas violentas. E foi assim que Clough conseguiu levar o modesto Derby County ao patamar mais alto do futebol inglês, sendo que na primeira temporada que o clube militou na First Division alcançou um brilhante 9º lugar. Mas o melhor ainda estava para vir. 
O plantel do Derby County que em 1972 conquistou o impensável
título de campeão inglês
Em 1971/72 o Derby surpreende tudo e todos ao ombrear teimosamente com Leeds United, Manchester City, e Liverpool na luta pelo título de campeão. Título esse que seria decidido apenas na última jornada, quando Brian Clough já estava de... férias em Palma de Maiorca! Como lhe competia o Derby County tinha vencido o seu derradeiro encontro do campeonato e desta forma ascendido de forma provisória à liderança, sendo que Leeds United e Liverpool apenas jogavam no dia seguinte. Para o Derby ser campeão estes dois concorrentes não podiam vencer os seus respetivos jogos, cenário que teoricamente era pouco provável atendendo à supremacia de ambos, pelo que Clough, de certa forma descontraída, bem ao seu estilo, resolve partir de imediato para as ilhas espanholas de férias. Acontece que nem Liverpool, nem Leeds venceram, e o título foi conquistado de forma surpreendente pelo pequeno Derby County, e reza a lenda que Brian Cloug e o seu amigo e fiel escudeiro Peter Taylor apenas souberam que de facto haviam sido campeões de Inglaterra quando viram o hotel onde passavam férias com as respetivas famílias rodeado de jornalistas, que lhes deram a boa nova!!! Outros tempos em que as comunicações entre países praticamente não existiam. 


Brian Clough a preparar-se para mais uma, por certo,
entrevista bombástica
O inédito título trouxe a fama a Clough. Toda a Inglaterra queria conhecer melhor o homem que transformou um pequeno clube em campeão inglês. As constantes entrevistas para a televisão começam a tornar Brian Clough numa estrela mediática, e logo ele, que sempre foi dado a egocentrismos. Na verdade, este era o seu mundo, ele sentia-se incrivelmente à vontade diante das câmeras, dizendo tudo o que lhe apetecia, não importanto se eram palavras insultuosas a colegas de profissão, a dirigentes, ou a jogadores de outras equipas. Não tinha papas na língua, como se diz na gíria. Conhecendo a sua frontalidade as televisões faziam dele convidado sistemático de programas desportivos, sabendo de antemão que a sua presença iria trazer para cima da mesa declarações polémicas, e desde logo merecedoras de captar a atenção de milhares de espetadores. Clough sabia lidar muito bem com a imprensa, sabia tirar partido deste poder, colocando diante das câmeras toda a sua arte em levar a cabo os mind games que tanto gostava de travar com outras figuras do futebol. Os mind games de que agora Mourinho é mestre... mas dos quais Clough foi o inventor. 


Cloug e o seu fiel escudeiro Peter Taylor
A sua língua afiada aliada à sua personalidade egocêntrica, digamos assim, fez com que o número de inimigos subisse consideravelmente, inclusive dentro do próprio Derby County, com o chairman do clube, Sam Longson, à cabeça. Longson não suportava o ego de Clough, e por várias vezes ao longo da relação entraram em choque. Na pré-temporada a seguir à conquista do campeonato Sam Longson ordenou que a equipa fosse fazer um estágio para a Holanda, sendo que Clough retorquiu que iria caso a sua família pudesse ir também. O presidente do Derby contra-atacou dizendo que não se tratava de uma viagem de férias, mas sim de trabalho, ao que Brian Clough simplesmente respondeu: «então... não vou eu». Reza a lenda também que o treinador contratou alguns jogadores sem o conhecimento de Longson, gastando avultadas verbas, que deterioraram ainda mais as já de si débeis finanças do clube. Os ataques de Clough não surgiam apenas na direção dos adversários, ou dos dirigentes do seu clube, mas também dos próprios adeptos do seu emblema, a quem muitas vezes chamada de escumalha, quando estes assobiavam os seus jogadores, ou criticando-os por falta de apoio à equipa quando esta estava em desvantagem no marcador. Um rol de episódios conflituosos que nem a boa campanha europeia de 72/73 valeu para Clough salvar a pele. Competições europeias onde o Derby County foi eliminado nas meias-finais da Taça dos Campeões Europeus pela Juventus, a quem o treinador no final da eliminatória apelidou de bastardos trapaceiros, pela forma pouco limpa, segundo a sua visão, com que tinham eliminado a sua equipa. Os constantes ataques que o treinador fazia a tudo e a todos fez Sam Longson perder a paciência, e nesse ano de 73 despede a dupla Clough/Taylor para desespero dos adeptos do Derby, que mesmo alvo de insultos por parte do célebre treinador manifestaram o seu incondicional apoio a este. Os próprios jogadores do clube fizeram uma greve, exigindo a readmissão de Brian Clough e Peter Taylor, mas Longson não voltaria atrás e a dupla de sucesso estava no desemprego. 

Damned United (maldito United)


Brian Cloug aguentou apenas 44 dias como
treinador do gigante Leeds United
Mas não por muito tempo, já que em 73/74 são convidados a pegar nos destinos de outro pequeno clube, o Brighton & Hove Albion, da 3ª Divisão. No emblema do sul do Reino Unido o sucesso só não se fez sentir de imediato porque Clough apenas ali esteve um par de meses, já que um convite do gigante Leeds United o fez de imediato abnadonar Brighton e... o seu fiel escudeiro Peter Taylor. Este não quis quebrar o contrato que havia feito com os responsáveis do Brighton & Hove Albion, e decide ficar, pegando sozinho na equipa enquanto que Brian parte para aquela que ele julgava ser a maior aventura da sua vida... e que na realidade viria a ser a mais curta. Nos anos anteriores o Leeds United, e muito em particular o seu treinador, Don Revie, haviam sido ferozmente atacados na imprensa por Clough, que caracterizava o United - campeão inglês em 1973/74 - uma equipa violenta - e na verdade, era -, que praticava um jogo sujo e trapaceiro, contrariamente ao seu Derby, cujo futebol era limpo, honesto, e atraente. Revie, adepto do jogo viril, saiu no final de 73/74 para o comando técnico da seleção inglesa, sendo que para o seu lugar os responsáveis do Leeds chamaram Clough, o homem que denegria sistematicamente a imagem do clube na praça pública. Esta seria a primeira e única experiência de Brian Clough num dos chamados grandes emblemas do futebol inglês. 
Assim que chegou a Elland Road, a casa do Leeds United, e no seu jeito frontal e sem qualquer tipo de misericórdia, dirigiu-se às estrelas do clube dizendo: «peguem nas vossas medalhas de campeões e atirem-nas para o lixo, pois elas foram conquistadas de uma forma suja e trapaceira. Comigo vocês vão ganhar de forma limpa e bonita». Diz-se que havia sido o ódio que Clough tinha por Revie que o fez aceitar o cargo de treinador do Leeds United, pois queria superá-lo com a equipa que o próprio Revie tinha construído. Este tipo de expressões causou desconforto no balneário do Leeds, cujos jogadores nunca viram Clough como um amigo, ou um pai, tal como viam o seu antigo treinador Don Revie. Brian não conseguiu ter pulso no núcleo duro do campeão inglês. Diz-se que o ego de treinador chocou de frente contra o ego de estrelas como Johnny Giles, Norman Hunter, ou Billy Bremner, e como é impossível demasiados egos conviverem debaixo do mesmo teto a aventura do treinador em Elland Road só durou 44 dias! Diz-se ainda também que a experiência de Clough no Leeds havia falhado porque Peter Taylor não esteve a seu lado, o seu fiel escudeiro, amigo, e conselheiro. Brian Clough deixou o Leeds United num impróprio 19º lugar, com uma vitória em seis derrotas! A curta passagem do técnico por Leeds está retratada num excelente - recomendo vivamente o seu visionamento - filme, intitulado Damned United (maldito United), que traduz para a tela de cinema não só a sua passagem atribulada por Elland Road mas igualmente grande parte da sua restante e brilhante carreira. 
Mais uma vez no desemprego o treinador passou a ir com mais regularidade à televisão, desempenhando não só a função de comentador mas sobretudo a de crítico, papel que tanto gostava, agredindo verbalmente ilustres colegas de profissão como Sir Matt Busby, Sir Alf Ramsey, e claro, Don Revie, o seu ódio de estimação. Brian Clough sempre ao seu estilo. 

A conquista do Olimpo do futebol com um pequeno clube... mais um


Na condição de arquiteto do
pequeno/grande
Nottingham Forest
Brian Clough esteve sem trabalho desde setembro até dezembro de 1974, sendo que com a entrada do novo ano surge mais um convite ao técnico oriundo de Middlesbrough. Mais um pequeno e desconhecido clube, na realidade, que militava nas divisões secundárias de Inglaterra, oriundo de uma cidade mais conhecida pela fábula do herói que roubava aos ricos para dar aos pobres, Robin Hood de seu nome, traduzindo para português, Robin dos Bosques. Esse clube era o Nottingham Forest, vizinho e grande rival do Derby County que Clough e Taylor haviam conduzido à glória poucos anos antes. Além de pequeno o Forest era um emblema mergulhado em graves problemas financeiros que ocupava o fundo da tabela da Second Division. Clough assumiu a equipa a meio da temporada de 74/75, e em meados de 1976 faz as pazes com o amigo e companheiro de trabalho Peter Taylor, convencendo-o a reconstruir a velha dupla de sucesso que tanta glória havia tido ali bem perto, em Derby. Taylor aceitou, e o resto é pura lenda. Tal como haviam feito quando chegaram ao Derby County Clough e Taylor levaram a cabo uma autêntica revolução no balneário, dispensando uma série de jogadores, contratando para o seu lugar outros completamente desconhecidos, descobertos pelo olheiro brilhante que era Peter Taylor. Ao clube chegam então jogadores como Peter Shilton, Viv Anderson, Kenny Burns, Martin O´Neil, ou John McGovern, que no final da temporada de 76/77 conseguem levar o clube à elite do futebol inglês, isto é, a 1ª Divisão. Claro está que Clough continuava a ser a estrela do clube, o arquiteto deste feito, a figura que centrava em si todos os setores do clube. Mas o público gostava desta personalidade, e os... dirigentes do Forest pareciam nem se importar, talvez porque pressentissem que Brian Clough iria ser o condutor do clube a patamares nunca dantes sonhados. E assim foi.


A dupla maravilha: Taylor e Clough, no banco
do Nottingham Forest
Na temporada seguinte, no convívio entre os grandes do futebol inglês, o Nottingham Forest foi campeão! É verdade, em 77 foi campeão da 2ª Divisão, e na temporada seguinte campeão da 1ª. Para além do campeonato a máquina montada por Clough e Taylor vence ainda a Taça da Liga de 77/78. Factos que seriam eternizados como o milagre de Nottingham. Mas o sonho real não acabaria aqui, já que na época seguinte, a dulpa maravilha, Clough/Taylor, através do seu futebol ofensivo e de rasgo bonito, vai mais longe e conduz o pequeno clube à glória europeia! O Forest chega à final da Taça dos Campeões Europeus de 1979, realizada em Munique, onde derrota por 1-0 os suecos do Malmo. Nunca o Nottingahm Forest em toda a sua história havia participado numa prova europeia, e na primeira vez que o fazia era campeão. Pura sorte, terão dito alguns. Pura sorte? Clough contrariu, ao seu estilo, os céticos em aceitar o sucesso do Forest, e na época seguinte venceu de novo a maior competição europeia, derrotando na final o poderoso Hamburgo, igualmente por 1-0, em Madrid. A juntar a isto vence ainda a Supertaça Europeia - à custa do poderoso Barcelona - e mais uma Taça da Liga. Brilhante. Ainda hoje os historiadores do futebol olham para o Forest como uma ave rara, o único clube europeu que tem mais Taças dos Campeões Europeus (2) do que campeonatos nacionais (1).


A lenda Brian Clough, numa das
últimas aparições no banco do Forest
Brain Clough transformou um pequeno e modesto clube numa potência continental, capaz de aniquilar fosse qual fosse o clube. Foram 18 anos consecutivos de uma ligação que ainda hoje é histórica, de uma história que assume contornos de lenda, e que terminaria em 1992/93, quando um Brian Clough já muito debilitado, e sem o seu fiel escudeiro Peter Taylor - retirado do futebol em 82 -, não evita a descida do Nottingham Forest à 2ª Divisão, de onde... nunca mais saiu, até hoje. Na década de 80 Clough fez ainda com que mais duas Taças da Liga viajassem para Nottingham, estabelecendo ainda outros recordes que ainda hoje perduram no Hall of Fame do futebol britânico, como, por exemplo, o facto de o clube ter estado 42 jogo seguidos sem conhecer a derrota para o campeonato. Com ele o Forest somente por uma ocasião ficou abaixo dos 10 primeiros lugares ao longo dos 18 anos em que o treinador comandou os destinos do clube, precisamente o ano em que desceu de divisão. Deixou o Nottingham Forest com um registo de 411 vitórias em 907 jogos, e muitas, e saborosas, coroas de glória conquistadas.
Após a sua saída o clube entrou em declínio, e Clough também, na verdade. De novo de costas voltadas para Peter Taylor, que viria a falecer em 1990, sem que tivesse feito as pazes com o seu velho companheiro de aventuras futebolísticas, Brian Clough entregou-se ao álcool - no início do novo milénio teve mesmo de ser submetido a um transplante de figado. 

Seleção inglesa? «Nunca me contrataram, pois sabiam que eu iria mandar naquilo»


Sim, eu fui o melhor de todos!
Brian Clough viveu um conto de fadas no futebol, podemos hoje afirmar ao olhar para o seu ímpar trajeto. Contudo, apenas uma mágoa o acompanhou até ao fim dos seus dias: nunca ter sido selecionador inglês. Hoje em dia os ingleses costumam brincar com este facto, ao dizerem que Clough foi o melhor treinador que a sua seleção... nunca teve. E porquê nunca teve? «Tenho a certeza de que eles acharam que, caso me dessem o emprego, eu quereria mandar naquilo», explicou vezes sem conta o lendário Brian Clough sempre que questionado sobre tal mistério. Há quem defenda, um pouco mais a sério, que a sua forma irreverente de atacar outros colegas de profissão, jogadores, ou dirigentes, não era digna... de um selecionador inglês. O único treinador que reuniu numa só figura ingredientes como carisma, arrogância, egocentrismo, autoritarismo, talento, e uma vontade férrea de vencer faleceu aos 69 anos em 20 de setembro de 2004, vitimado por um cancro. O homem que um dia disse «Não fui o maior treinador, mas sempre estive entre os primeiros» é hoje um mito, sobretudo para as comunidades rivais de Derby e Nottingham, sendo exemplo disso a estrada que liga as duas cidades ser batizada de Brian Clough Way (estrada Brian Clough). As opiniões no mundo do futebol sobre quem é o melhor nisto ou naquilo dividiram-se sempre ao longo dos anos, mas para mim, e desculpem mais uma vez os estimados visitantes estar eu a emitir mais uma vez a minha opinião pessoal, Brian Clough foi o maior génio da classe dos treinadores, o molde original do nosso José Mourinho.
 
Nota: Texto escrito em 28 de março de 2014 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Manuel Oliveira

Manuel Oliveira, uma eterna lenda viva da tática 
Génios há que nunca viram reconhecidas as suas obras nas (mais diversas) áreas em que se notabilizaram. No futebol, em concreto, foram muitas as figuras que imprimiram o seu cunho na história do jogo mas que por "esta ou aquela razão" - inveja, ausência de mediatismo, personalidade controversa, são algumas das razões que poderemos apontar para justificar o facto de não figurarem no hall of fame do futebol - passaram ao largo das (merecidas) vénias e da fama global. É o caso do nosso mestre da tática de hoje, uma personalidade singular, ou não tivesse reunidas em si características tão distintas como inovação, disciplina, sabedoria, polémica, ou frontalidade. Manuel Oliveira, a sua graça, indiscutivelmente uma dos maiores treinadores da história do futebol português, e porque não dizê-lo a esta distância do(s) tempo(s) em desempenhou com mestria a sua função... um dos maiores a nível internacional. Afirmação exagerada? Se calhar não, e já vamos ver porquê?
Manuel Oliveira Santos, nasceu a 29 de maio de 1932, na margem sul, Distrito de Setúbal, mais precisamente em Pinhal Novo. Oriundo de uma família pobre - o pai era ferroviário - foi de pé descalço, como tantos outros meninos da época, que se deixou enamorar, ali, ao lado do lar, pelos encantos do belo jogo. Travou-se de amores com o futebol enquanto arte, espetáculo, simplicidade, e não com o futebol negócio, jogo de interesses, povoado por vilões com que muitas vezes foi confrontado ao longo da sua ímpar carreira e contra quem sempre lutou. A sua entrada oficial no desporto rei dá-se em 1949 pela mão de outro lendário treinador que teve grande influência no percurso que Manuel Oliveira iria trilhar enquanto treinador, Fernando Vaz. Este ícone do futebol luso dirigia na altura os juniores B do Sporting, que defrontariam o Estrela, um combinado formado por jogadores da margem sul - um verdadeiro alfobre de grandes futebolistas ao longo da história -, onde pontificava o jovem Manuel - que até então havia tido uma curta passagem pelos escalões de formação do Barreirense - que nesse dia, na posição de interior/extremo direito, fez uma exibição de gala, culminada com dois golos que derrotaram os poderosos leões, facto que levaria Vaz a aproximar-se do jovem, lançando-lhe além dos merecidos elogios um convite: treinar no Sporting. Manuel Oliveira estava desta forma prestes a transpor a fronteira entre o sonho e a realidade, ele, que tinha como ídolo um vulto que atuava na principal equipa leonina, Carlos Canário. O jovem de Pinhal Novo convence Fernando Vaz, passa no teste, e efetua duas temporadas de grande nível na equipa júnior do gigante de Lisboa. Como o próprio Manuel Oliveira fez questão de confessar décadas mais tarde nas suas memórias, aqueles dois anos foram de extrema importância para a sua formação enquanto homem do futebol. Aprendeu imenso, não só com treinadores como também com os jogadores que formavam aquele poderoso Sporting Clube de Portugal, onde pontificavam os 5 Violinos (Peyroteo, Albano, Vasques, Travassos, e Jesus Correia).

Conduzindo a bola, nos tempos de jogador na CUF
Com naturalidade e merecimento Manuel Oliveira transita para os seniores do clube de Alvalade, onde convive com alguns destes vultos, que a bem dizer dificultaram a sua entrada no onze titular leonino ao longo das cinco épocas em que envergou a camisola verde-e-branca. Foi quase sempre escolha na equipa de reservas, e a espaços conheceu a titularidade na primeira categoria - ou equipa principal, como hoje é denominada - tendo atingido o topo da carreira de futebolista com a conquista do título de campeão nacional de 51/52. Nas épocas em que defendeu o leão conheceu inúmeros e sonantes treinadores, como, a título de exemplo, Joseph Szabo, Tavares da Silva, ou Randolph Galloway. Mas houve um que indiscutivelmente o marcou, ainda de acordo com as suas memórias: Fernando Vaz.
Ainda como jogador representou o Atlético, durante uma temporada. Pelo meio passou pela seleção nacional militar, a qual representou em oito ocasiões. Posteriormente veio a CUF, onde jogaria seis épocas, tendo neste emblema pendurado as chuteiras em 62/63 para substituir no banco o então treinador Anselmo Pisa. Manuel Oliveira tinha então 30 anos de idade. E é aqui que se dá início à verdadeira história desta lenda.

O início do percurso lendário

O mestre Manuel Oliveira na atualidade
Dezembro de 1962, um ano inesquecível para Manuel Oliveira, que por esta altura se vê diante da responsabilidade de pegar na equipa da CUF que ocupava uma posição perigosa no Campeonato Nacional da 1ª Divisão. Grupo Desportivo da CUF que foi o primeiro clube-empresa a nascer no nosso país, e muito provavelmente aquele que nesta condição mais notoriedade atingiu na história do futebol luso. Numa altura em que nem todos os futebolistas viviam única e exclusivamente da bola, Manuel Oliveira acumulava com a atividade desportiva a função de empregado de escritório na empresa do Barreiro. Após a 9ª jornada do Nacional do escalão maior do futebol português o capitão do emblema fabril é chamado a pegar na equipa de modo a evitar a catastrófica descida de divisão que estava então eminente. Nas declarações à imprensa da altura, Manuel Oliveira admitiu a sua inexperiência enquanto treinador, mas desde logo mostrou ambição e vincou o compromisso de que iria dar o seu melhor para que a equipa voltasse aos resultados positivos. Dito e feito. A CUF fez um resto de época imaculada, remodelou-se nos aspetos físicos e técnico-táticos sob orientação do seu ex-capitão de equipa - que passou então só a desempenhar o cargo de treinador - e acabou por escapar à temível despromoção ao alcançar um tranquilo 11º lugar. Estava assim dado o pontapé de saída de uma grande carreira para o jovem técnico. E quem pensasse que este pequeno grande feito poderia ter sido obra do acaso enganou-se redondamente na temporada seguinte, em que Manuel Oliveira conduziu a equipa do Barreiro a um inédito e inesperado - só para quem ainda não conhecia os métodos de trabalho e a sabedoria técnico-tática do cidadão de Pinhal Novo - 5º lugar. Mas a escalada do sucesso do jovem treinador estava longe de terminar. Em 64/65 a fasquia é elevada com a conquista do... 3º lugar! O prémio deste brilharete foi a qualificação inédita dos barreirenses para a edição seguinte da Taça das Cidades com Feira - antecessora da Taça UEFA. E se o futebol português começava a dar-se conta da mestria do técnico o resto da Europa iria conhecê-la em 65/66 quando o poderoso Milan caiu no Barreiro por 2-0, na primeira mão da segunda eliminatória da citada competição europeia. Manuel Oliveira tinha passado definitivamente de aprendiz a mestre.
A sua faceta de homem honesto e frontal iria, contudo, e a partir daqui, chocar de frente com o tal lado negro do futebol, o lado dos interesses, da intriga, do conflito e do oportunismo. Numa entrevista concedida ao jornal A Bola no regresso da partida de Milão, onde a CUF perdeu por igual resultado ao conseguido na primeira mão e obrigando assim os milanistas a uma partida de desempate, o treinador, em jeito de desabafo, enumerou as várias dificuldades que afetavam a sua equipa, desde logo a ausência de apoio - sobretudo vindo dos diretores da empresa. Esta entrevista acabaria por custar o lugar ao treinador, que a partir dali levaria o seu talento para outras paragens. E foram muitas ao longo das mais de três décadas que se seguiram. Tantas que seria de certa forma exaustivo para o leitor ter conhecimento dos contornos de cada uma delas (mas caso o leitor pretenda fazer esse exercício, aconselhamos vivamente a leitura das fascinantes Memórias de Manuel Oliveira, editadas em livro. De certo que não se irá arrepender). Leixões, Barreirense, Sanjoanense, Farense, Olhanense, Benfica de Nova Lisboa (Angola), Lusitano de Évora, Espinho, Beira-Mar (onde foi treinador de Eusébio da Silva Ferreira), Vila Real, Portimonense, União de Leiria, Marítimo, Vitória de Setúbal, Louletano, Seleção da Guiné Bissau, Fafe, Varzim, Nacional da Madeira, Sintrense, Desportivo de Beja, Gondomar, Imortal e Lusitanos de Saint-Maur (França) foram emblemas que beberam da sabedoria do mestre. Em quase todas elas fez história. Umas vezes evitava a temida descida de divisão, outras conduzia a nau desde os caminhos tortuosos das divisões secundárias até bom porto, isto é, à 1ª Divisão, noutras ainda criou grupos que combinavam arte, garra e inovação, batendo o pé a quem quer que fosse, grande ou pequeno, tombou vezes sem conta às mãos do mestre Oliveira. A sua já referida personalidade frontal - embora ainda hoje muitos preferem continuar a recorda-lo como polémico e controverso - valeu-lhe inúmeros dissabores, que, por várias ocasiões, barraram a sua continuidade ao leme dos notáveis projetos futebolísticos que foi construindo.

Inovador no plano tático

O 4-4-2 que o Brasil de 70 apresentou ao Mundo
e que foi criado por Manuel Oliveira em 1965? Eis a questão
Já escrevemos que Manuel Oliveira foi um treinador inovador, um homem que deixou marca no futebol. O Mundo inteiro, ou quase, ainda hoje atribui a autoria do 4-4-2 ao inesquecível Brasil de 1970, que no Mundial do México nesse ano alcançou o tri. Justo será dizer- que o resto do Mundo terá travado conhecimento com tal sistema tático através de Pelé e companhia, mas anos antes em Portugal já um certo treinador colocava - pela primeira vez - esta tática em ação. O seu nome? Manuel Oliveira. Facto ocorrido a 15 de fevereiro de 1965, quando a CUF defrontou em casa o poderoso Benfica de Eusébio, Coluna, José Augusto, Simões, Torres, entre outros vultos encarnados da década de 60. Oliveira surpreendeu todos ao colocar em campo uma tática nunca dantes vista, o tal 4-4-2, que viria a dar os seus frutos na sequência de uma vitória por 2-0. Espantado com este sistema o então técnico do Benfica, o romeno Elke Schwartz, queixou-se que os barreirenses haviam ganho o jogo com uma tática de... basquetebol! Pois, mas cinco depois o Brasil encantou e ganhou o Mundo com a mesma tática. Teria o escrete de Pelé, Jairzinho, Tostão, Rivelino, ou Carlos Alberto bebido da sabedoria de Manuel Oliveira? Ou simplesmente tudo não passou de uma coincidência? É uma questão para a qual ainda hoje não se encontra resposta.

O 3-5-2, outra inovação
tática do mestre
Mas não se ficou por aqui a criatividade tática do homem de Pinhal Novo. Ao leme do Barreirense apresenta na época de 69/70 um outro sistema tático então nunca dantes visto em Portugal, o 3-5-2. Capítulo histórico que foi escrito em dezembro de 1969, altura em que o emblema do Barreiro se deslocou à Póvoa de Varzim para defrontar a turma local em mais um jogo do Nacional da 1ª Divisão. Visionário, sábio e astuto Manuel Oliveira voltou a surpreender o Planeta da Bola. No plano internacional, este sistema atingiu o pico da fama no Mundial de 2002, altura em que o Brasil venceu o penta-campeonato. Mas como não há duas sem três, em 82/83, ao serviço do Vitória de Setúbal, o mestre da tática volta a inovar no plano tático, ao apresentar no Estádio do Bonfim, diante do FC Porto, a sua equipa disposta em 3-4-3, sistema também na época nunca dantes visto por estas bandas. A sua sabedoria foi ao longo de décadas não só colocada ao dispor das centenas de atletas (Jorge Jesus, por exemplo, foi um deles, e que mais tarde, e já na qualidade de treinador, confessou ter sido influenciado por Oliveira) como também por outros colegas de profissão. Com mais de 600 jogos no currículo este notável pensador de jogo ministrou inúmeros cursos de formação tática, moderou colóquios, palestras, foi comentador de rádio, fundou a Associação Nacional de Treinadores, sempre na vanguarda do conhecimento.

Assim como o 3-4-3, nunca
dantes visto em Portugal
Um verdadeiro génio da tática, homem de fortes convicções, intransigível, a quem faltou um reconhecimento maior por parte das altas instâncias do futebol lusitano. E quando nos referimos a este reconhecimentos falamos de um patamar maior, e amplamente merecido, que devia ter sido atingido pelo mestre Manuel Oliveira, Ter treinado um Benfica, um FC Porto, um Sporting, ou mesmo a seleção nacional, seria um prémio mais do que justo para uma figura que é indiscutivelmente um dos nomes mais sonantes - no que ao capítulo do treino diz respeito - da história do futebol em Portugal. Mas, e voltando ao início da nossa visita de hoje, nem sempre todos os génios deste Mundo foram aceites - talvez pela sua maneira diferente de ver e estar na sociedade - e reconhecidos por esse mesmo Mundo. Manuel Oliveira foi, talvez, um desses génios maldosamente ignorados. Injusto, muito injusto, é o que nos apraje dizer.
 
Nota: Texto escrito em 10 de março de 2016 no blog: www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Joaquim Meirim

Entendo que uma vida sem memórias é como que um caderno em branco ou um álbum sem fotografias. Isto a propósito da recente comemoração de mais um Dia do Pai, mais um dia em que o meu (pai) vagueou pela minha mente, ali deixando recordações de uma ligação (física) que terminou cedo demais... Foi ele, o meu pai, que me incutiu a paixão pelo futebol. Paixão que entretanto assume hoje contornos de amor eterno, e nesse aspeto acho mesmo que o superei no tal encantamento pelo belo jogo. Recordo muitos diálogos mantidos pela noite dentro com ele, muitos deles em torno do futebol, ouvindo atentamente as suas suas histórias sobre as lendas do passado que imortalizaram um futebol de um tempo que eu não vivi, mas que de tanto ouvir e ler quase que posso afirmar alegremente que tive o privilégio de assistir in loco a esses longínquos momentos de magia.
Esta breve nota nostálgica leva-nos para a história de um homem marcou vincadamente uma era do futebol português, mesmo não tendo alcançado nele a glória que outros (com muito menos conteúdo intelectual e profissional) conquistaram. Sobre ele o meu pai falava vezes sem conta, apelidando-o de "maluco", mas um maluco no bom sentido da palavra - se é que este adjetivo pode ser pronunciado no bom sentido -, um maluco genial, um adiantado mental para a sua época. Esse homem é Joaquim Meirim, figura fascinante e controversa do futebol lusitano das décadas de 70 e 80. Hoje há ainda quem o descreva como um furacão que surgiu nos palcos principais do nosso futebol, um homem cuja peculiar personalidade abalou o Portugal futebolístico de então. Transportando Meirim para o presente poderíamos encara-lo como um clone de José Mourinho, pela tal personalidade controversa, pela convicção com que sustentava as suas argumentações - sobretudo as mais irreais aos olhos de um cidadão vulgar -, pela eloquente forma como articulava essa mesma argumentação - mais parecendo um filósofo da bola - e acima de tudo pelos seus então inovadores e pouco convencionais métodos de trabalho. Se Mourinho hoje é o mestre dos mind games, Meirim foi o inventor desse ludibriante estilo de comunicação futebolística.
Joaquim Meirim mudou um futebol português que vivia ainda um pouco ressacado do momento de fama obtido no Mundial de 1966, incutindo-lhe uma estranha forma de vivacidade e excentricidade. Sim, Meirim era um excêntrico, um excêntrico maluco, como dizia o meu pai. Um revolucionário, é isso. Mas quem era afinal esta figura? Nasceu no Minho, em Monção mais concretamente, no dia em que se comemoravam 25 anos da implantação da República em Portugal - 5 de outubro de 1935. O pai, o homem que admirava mais do que tudo, havia sido proibido por Salazar de exercer a atividade de professor primário, devido às suas inclinações políticas, as mesmas que o filho Joaquim tanto iria evidenciar ao longo da sua carreira e que tantos dissabores lhe causaram. A família Meirim mudou-se para Lisboa, tendo o pai agarrado o ofício de sapateiro em Alcântara. Foi ali, num meio pobre onde reinava a classe operária, que Joaquim Meirim cresceu e se fez homem. Pouco ou nada se sabe de Meirim enquanto futebolista do símbolo maior de Alcântara, o Atlético. O futebol era por aqueles dias apenas um romance de fim de semana para Joaquim Meirim, que ganhava a vida como empregado de escritório. Mas os romances por vezes dão em casamento, quando existe paixão e certezas de que é com aquele par que queremos partilhar a nossa existência. E Meirim sabia desde cedo que o seu lugar era no comando de futebolistas. Após pendurar as chuteiras noutro mítico emblema bairrista da capital, no caso o Oriental, Joaquim Meirim obtém com 27 anos o curso de treinadores, ministrado pelos mestres José Maria Pedroto e Fernando Vaz. Aos ensinamentos absorvidos na Cruz Quebrada durante a referida formação, Merim acrescenta o seu peculiar e controverso estilo, de palavras simples mas ao mesmo tempo eloquentes e bombásticas, aliado a metodologias de treino revolucionárias e a uma relação treinador-jogador pouco comum para a época. Em 1967/68 tem a primeira experiência mais a sério no exercício do ofício que sempre sonhou. Orientou a CUF, tirando o mítico emblema da cauda da tabela até ao sétimo lugar da mesma.

Adivinhando a entrada em cena de um treinador diferente, o presidente do Varzim, João Fernando, lança dois anos mais tarde o canto da sereia a Meirim, que prontamente viaja até ao norte para fazer história. Quiçá o ponto alto da história de Meirim no Atlas do Futebol Português. Os Lobos do Mar alcançam um inédito 7º lugar - terminando o principal campeonato português à frente do FC Porto, por exemplo. Meirim salta então para as capas de jornais, não só pelo feito alcançado ao serviço do modesto clube poveiro mas pela sua forma de trabalhar e de ser. Ele apresentou ao futebol nacional estranhas metodologias de treino, ao levar, por exemplo, os jogadores para a praia ou para matas e montanhas ao invés de os exercitar nos retângulos de jogo. Outro traço forte da sua personagem enquanto condutor de homens era a apetência para a psicologia, na sua exímia capacidade de moldar a mente dos seus atletas. E aqui introduzo uma outra lembrança do meu pai, a história que ele me contou inúmeras vezes sempre que o nome de Joaquim Meirim vinha à baila. A famosa história do guarda-redes Benje, o tal que sem oportunidades no Benfica viajou para a Póvoa de Varzim onde se tornou no melhor keeper do... Mundo! O rótulo foi dado pelo próprio Meirim, que para motivar o seu guardião incutia-lhe precisamente na mente esse estatuto, o de melhor do planeta. E o angolano Pedro Benje entrava nas quatro linhas com esse peso nas costas, defendendo a baliza do Varzim com  espetacularidade, mais parecendo um gato negro a voar para agarrar todas as bolas que se lhe deparavam pela frente. A culpa do melhor momento de Benje foi obviamente de Meirim, «o psicólogo, o pedagogo, o padre, o preparador físico, o tático», como ele próprio se definia enquanto treinador. Um treinador humilde e modesto, como tantas e tantas vezes se auto-caracterizou.
A excelente temporada na Póvoa leva-o na temporada seguinte a regressar à capital, desta feita para treinar o quarto grande do futebol nacional, o Belenenses. Em Belém a meta traçada no início da época foi simples: ser campeão nacional. Muitos pensaram que Meirim estaria louco! Mas ele era um louco, um génio louco. Na pré-época aplicou os seus inovadores métodos de treino, levando os jogadores a correr para a praia e para as matas de Monsanto. Ao invés da bola os atletas trepavam às árvores, mais parecendo tarzans no meio da selva. A televisão nacional e os jornais centravam atenções naquele Belenenses e em Meirim de um modo muito particular, que aproveitando o mediatismo que detinha por aqueles dias lançava declarações bombásticas em direção aos adversários no sentido de os desestabilizar. Lá está, os famosos mind-games. Ao mesmo tempo incutia na mente dos seus jogadores capacidades que eles próprios desconheciam possuir, a título do que fez com Benje, que estava convencido de que era mesmo o melhor do Mundo. Mas no Belenenses as coisas não correram como o esperado, e Meirim foi destituído do cargo. A sua carreira prosseguiu noutras paragens (Boavista, Leixões, Salgueiros, Beira-Mar, Desportivo das Aves, Sanjoanense, Gil Vicente, Louletano, Estrela da Amadora e Lusitano de Évora) no que restou daquela década de 70 e em lampejos da de 80. Em finais do milénio passado ainda regressou aos bancos para um fugaz aparição no Desportivo de Beja, mas a sua estrela há muito que se tinha apagado. Incompreensivelmente apagado. Porquê? É uma pergunta para a qual não encontramos resposta, até porque Merim era um adiantado mental, um inovador, um revolucionário. Sim, um revolucionário, e provavelmente está aqui a resposta para a perguntar anterior, ou seja, terá sido por isso, em parte, que as portas do futebol português se foram fechando lentamente para ele, um ativista político, um dirigente sindical, um confesso militante do Partido Comunista Português, facto que lhe valeu tantos dissabores. Como por exemplo, o despedimento do Leixões, assim que o presidente deste emblema soube que Joaquim Meirim iria concorrer à Câmara de Matosinhos pela Frente Eleitoral Povo Unido. Mas Meirim era um homem de convicção forte, um defensor acérrimo dos seus ideais, e nunca se vendeu ao poder do futebol. Foi um homem à frente do seu tempo. Muito à frente. Joaquim Meirim deixou o Mundo terrestre em maio de 2001 vítima de doença prolongada, tal como o meu pai, a quem dedico esta breve memória de hoje.
 
Nota: Texto escrito a 21 de março de 2017 no blog: www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com