Museu Virtual do Futebol

Cândido de Oliveira

  Dou hoje início a uma viagem pela galeria dos Gandes Mestres do Jornalismo Desportivo português. Uma área que muito me diz, embora me sinta ainda muito, mas mesmo muito, longe do patamar atingido por alguns dos ilustres nomes que daqui em diante vou passar a recordar no Museu Virtual do Futebol.
Muitos deles são autênticas referências para mim, que me considero um modesto jornalista desportivo - apaixonado sobretudo pelo "jogo maravilhoso" (futebol) - que gostaria um dia de ser um bocadinho, apenas um simples bocadinho, daquilo o que foram estes mestres da escrita desportiva nacional.
Muitos deles foram igualmente grandes jogadores, treinadores, ou dirigentes de futebol, onde tal como na escrita deixaram bem vincado o seu cunho pessoal. Para minha infelicidade não tive a oportunidade de ler - tantas vezes quanto as que gostaria - as prosas futebolísticas escritas por muitos destes vultos do jornalismo desportivo, pois os seus "reinados" ocorreram em alturas em que eu estava ainda no "cu de judas", como popularmente se diz.
No entanto, e felizmente, alguns deles deixaram pedaços dos seus escritos, que ficaram gravados quer em livros quer em diversos capítulos de enciclopédias que vão sendo publicadas "aqui e ali" de vez em quando. Documentos históricos que eu guardo religiosamente na minha cada vez mais extensa "Biblioteca Futebolística", e com os quais procuro sempre aprender um pouco mais, aprender com os Grandes Mestres do Jornalismo Desportivo.
E a primeira ilustre figura que visitamos é alguém que eu chamo de... "O Homem dos 7 Ofícios no Futebol". E o porquê de tal apelido é muito simples, ou seja, ele foi um dos primeiros grandes jogadores de futebol em Portugal, foi um magnífico treinador, um permanente estudioso do belo jogo, e, como já disse, um verdadeiro mestre da escrita desportiva nacional.
Senhoras e senhores visitantes, é com um enorme orgulho que abro esta vitrina dedicada aos Grandes Mestres do Jornalismo Desportivo com... Cândido de Oliveira.
Depois desta breve resanha introduzo aqui um dos muitos textos extraídos das diversas obras alusivas ao Mundo do Futebol que possuo, o qual retrata de uma forma resumida, mas ao mesmo tempo perfeita, a grande figura que foi o Mestre Cândido:

O grande «mestre» do futebol em Portugal

 
Cândido Pllácido de Oliveira (nasceu a 24 de Setembro de 1896), é uma das figuras mais marcantes da história do futebol em Portugal. Mestre Cândido foi o primeiro grande estudioso do futebol em Portugal, responsável maior pelo aparecimento da selecção nacional, trabalhador incansável no sentido de que o futebol português se colocasse ao nível do que acontecia nos outros países da Europa, sobretudo nas suas vertentes organizativas.
Mas Cândido de Oliveira foi mais ainda: grande figura humana, democrata convicto que tomou desassombradas posições públicas contra os regimes de Hitler, de Mussolini, de Franco e Salazar. A sua coragem intelectual só teve paralelo na sua coragem física. Foi sujeito a um sem-número de prisões levadas
a cabo pela então PIDE; brutalmente torturado e espancado a ponto de lhe terem partido todos os dentes; em 1942 é enviado para o campo de concentração do Tarrafal. Sobre ele escreveu um livro chamado «Tarrafal – o pântano da morte», publicado a título póstumo, após o 25 de abril de 1974. Depois de ter sido demitido dos correios telégrafos e telefones (CTT), onde trabalhara longos anos e atingira a elevada função de inspector de exploração, funda com Ribeiro dos Reis e Vicente de Melo o jornal «A Bola».
Nascido em Fronteira, distrito de Portalegre, Cândido Fernandes Plácido de Oliveira entrou para a Casa Pia em 1905 e cedo mostrou capacidades inatas para a prática do futebol, capacidades essas que o levaram ao Benfica a partir da época de 1914/15. Aí se manteve até 1920, tendo saído para fundar o Casa Pia Atlético Clube. Apesar de se ter destacado também como avançado, Cândido de Oliveira foi um excelente médio centro, com uma capacidade de comando e de passe que fez dele um dos grandes jogadores portugueses das primeiras duas décadas do século XX. Seria ele o primeiro «capitão» da selecção nacional, no célebre jogo de Madrid, em 1921.
Por várias vezes ocupou o cargo de seleccionador nacional – foi ele o responsável pelo cargo no primeiro grande êxito da selecção nacional, os Jogos Olímpicos de Amesterdão, em 1928 -, tendo-se tornado num técnico sempre disponível para as necessidades da «equipa de todos nós».
Foi jornalista na «Stadium», director de «Os Sports», «Diário de Notícias», «Diário de Lisboa» e «O Século» antes de fundar o jornal «A Bola».
Treinador do Sporting dos «cinco violinos», da Académica, do Belenenses, do FC Porto e do Atlético, chegou também a orientar o Flamengo, do Brasil, em 1950-51. Foi autor de vários livros sobre desporto e táctica no futebol, sofreu uma pneumonia enquanto cobria, como enviado-especial de «A Bola», o Campeonato do Mundo de 1958, realizado na Suécia. Como consequência, viria a falecer no dia 23 de Junho desse ano.

A esta nota biografica juntamos um outro texto biográfico daquele que foi o grande mestre do futebol lusitano.

Um Homem do Futebol é a frase mais correcta que encontramos para, em três palavras, definir Cândido de Oliveira - com a mesma simplicidade que ele adoptou como seu estatuto de vida, iniciada nos bancos da Casa Pia de Lisboa, com a bola a brincar nos seus pés a todas as horas do recreio, até ao trágico desenlace final, a morte, quando, já bem identificado com o desporto que sempre amou, fazia a cobertura para o seu jornal "A Bola" do Mundial 58, na Suécia.
Nesse longo espaço de 72 anos de vida, abruptamente interrompida, Cândido de Oliveira, a par de outras actividades profissionais, esteve sempre ligado ao futebol, primeiro como jogador, sendo internacional e capitão da primeira selecção de Portugal, em 1921, depois como jornalista, dirigente, seleccionador e treinador, em todas essas missões com muita competência e enorme prestígio, assentando-lhe, como uma luva, ser tratado por "Mestre Cândido", pois era assim que todos viam e justamente o reconheciam sempre que com ele contactavam.
Um exemplo notável dos muitos homens que partiram para a vida dos bancos escolares da Casa Pia de Lisboa, figurando o seu nome na primeira linha dos que juntaram aos ensinamentos colhidos a componente futebol. Assim se lhe abriram as portas, de par em par, para o trabalho, atingindo a categoria de funcionário superior da Administração dos Correios e, na outra apaixonante área da sua vida, o jornalismo - aqui com as naturais ramificações ligadas ao futebol.
Mais por paixão do que por necessidade, alem de seleccionador nacional foi, também, treinador de vários clubes- E treinador campeão - daí a justiça do breve registo que aqui deixamos sobre a sua actividade nesse sector.
Nada mais verdadeiras são as palavras gravadas no mausoléu em que são guardados os restos mortais de "Cândido de Oliveira - Homem Bom - Mestre de Futebol". Bem reveladoras da sua personalidade quando, em 1936, foi chamado a substituir o treinador do Belenenses e seu amigo Artur José Pereira. Aderiu de imediato com uma condição - «treino a equipa sem nada receber, mas o ordenado do Artur é intocável... continua a ser dele».
Depois do Belenenses, Cândido treinou o Sporting, durante três épocas, sendo campeão em duas delas, e ganhando duas Taças de Portugal, depois, sempre muito solicitado, foi treinar o FC Porto, duas épocas, tendo numa delas sido finalista vencido pelo Benfica na Taça de Portugal, e na outra vice-campeão da prova rainha da 1ª Divisão.
Noutra ocasião, visitou o Brasil e não resistiu a um convite para treinar o Flamengo. 
Logo que pôde... libertou-se dessa missão e regressou a Portugal, deixando a equipa carioca bem orientada e preparada para continuar o campeonato do Brasil. Insistiram para que continuasse, mas... bem vistas as coisas ser treinador nunca foi um modo de vida para Cândido de Oliveira. Outras responsabilidades o chamavam a Lisboa - deixando, porém, no Brasil, especialmente no Flamengo, as melhores impressões como mestre de futebol que sempre foi. 
Em Portugal, fazia-se sempre acompanhar por um adjunto - sendo Fernando Vaz, também casapiano, o escolhido para essa função no Sporting. Depois, resolveu "soltar" Fernando Vaz, dando-lhe o melhor apoio, sobretudo nos primeiros anos em que Vaz, com a sua recomendação se assumiu como treinador principal de vários clubes. 
A última paixão de Cândido como treinador foi a Académica de Coimbra. Nela, teve como adjunto Mário Wilson. Encontrando em Coimbra jogadores de nível intelectual fora do comum... gostava imenso de conversar com os jovens estudantes e transmitir-lhes os seus ensinamentos no futebol.
Quando a morte o surpreendeu na Suécia, a Académica era a equipa que Cândido estava a treinar - sendo recebida em Coimbra a notícia do infausto acontecimento com profundo pesar.
Em Coimbra... e em todo o país foi muito chorado o inesperado desaparecimento do Mestre Cândido de Oliveira, um Homem do Futebol, treinador-campeão e jornalista que encontrou a morte no seu último momento de trabalho... na mais importante prova do mundo do futebol.*

*Texto extraído da revista Record - Treinadores Campeões  

Cronologia:

24/9/1896: Nasce em Fronteira (Distrito de Portalegre) o cidadão Cândido Fernandes Plácido de Oliveira

15/6/1905: Orfão de pai é admitido na Casa Pia de Lisboa com o número 3466. Na Casa Pia, tirou os cursos Comercial e de Telegrafia, que lhe facilitaram o ingresso nos Correios e Telégrafos, onde atingiu posição de relevo.

Cândido... o futebolista

1912  a 1914: Iniciou a carreira de futebolista amador na Associação Escolar da Casa Pia.
Foi selecionado pela Associação de Futebol de Lisboa (para a equipa escolar, na qual exerceu o posto de capitão)

1914 a 1920: Representou o Sport Lisboa e Benfica (foi campeão de Lisboa)

1920 a 1924: Jogou pelo Casa Pia Atlético Clube, que ajudou a fundar (tendo sido campeão de Lisboa)

18/1/1921: Integrou, e foi capitão, a primeira seleção nacional, num jogo efetuado em Madrid com a Espanha, que terminou com uma derrota por 1-3

Cândido... o treinador

1936/1937: Treinou o Belenenses

1946 a 1949: Treinou o Sporting dos "Cinco Violinos", tendo sido campeão nacional em 47/48 e 48/49. Venceu ainda duas Taças de Portugal, em 45/46 e 47/48

1950: Treinou o Clube de Regatas Flamengo (do Rio de Janeiro)

1952 a 1954: Treinou o FC Porto

1955 a 1958: Treinou a Académica de Coimbra

Nota: Fez 199 jogos no Campeonato Nacional da 1ª Divisão (121 vitórias, 20 empates, e 58 derrotas). Na Taça de Portugal fez 27 jogos (16 vitórias, 3 empates, 8 derrotas)
 

Cândido... o selecionador

26/12/1926: Estreou-se como selecionador nacional, no Porto, ante a Hungria, tendo empatado a três golos

1926 a 1929: Primeiro período da sua atividade como selecionador nacional (13 jogos, 4 vitórias, 4 empates e 5 derrotas). Neste grupo de encontros merece destaque a participação de Portugal nos Jogos Olímpicos de Amesterdão, em 1928.

1935 a 1945: Segundo período de atividade como selecionador de Portugal (15 jogos, 4 vitórias, 4 empates, e 7 derrotas).

1952: Terceiro período ao serviço da seleção nacional (3 jogos, 1 empate e 2 derrotas)

Cândido... o jornalista

14/1/1920: Principia a carreira de jornalista na revista O Football

1921: Ingressa nos quadros do Diário de Notícias

1924: Ingressa em Os Sports

1926: Passa a ser jornalista de O Século

1942: Assume a direção da revista Stadium

1945: Funda juntamente com Ribeiro dos Reis e Vicente de Melo o jornal A BOLA

Cândido... o escritor

1925: Escreve A Primeira Greve Telégrafo-Postal

1929: Escreve Amadorismo e profissionalismo

1934: Escreve Alguns aspectos psicológicos dos casapianos

1935: Escreve Relatório do Seleccionador

1935: Escreve Football, técnica e táctica

1936: Escreve Ao serviço do futebol nacional

1936: Escreve Os jogos internacionais da época de 1935/36

1938: Escreve A formação dos jogadores de futebol (tese que apresenta no I Congresso Nacional de Futebol)

1945: Escreve Futebol, desporto e juventude

1947: Escreve Os segredos do futebol

1949: Escreve A evolução táctica do futebol - WM

1974: Escreve Tarrafal - Pântano da Morte (edição póstuma)

Cândido... o político

1/3/1942: Preso pela Polícia de Vigilância e da Defesa do Estado para averiguaçõesmo depósito de presos de Caxias

20/6/1942: Deportado para o campo de concentração do Tarrafal

1/1/1944: Regressa do Tarrafal, e é transportado ao Hospital Júlio de Matos

7/1/1944: Transferido para a Prisão de Caxias

13/1/1944: Transferido para o Aljube

2/2/1944: Transferido para Caxias

23/3/1944: Transferido para o Aljube

27/5/1944: Restítuido à liberdade condicional

25 de junho de 1958: Morre em Estocolmo.

Uma nota para dizer que o futebol lusitano lhe deve tanto do seu ser que na temporada de 1978/79 a Federação Portuguesa de Futebol decidiu criar uma competição com o seu nome: a Supertaça Cândido de Oliveira. Prova esta que é disputada todos os anos entre o vencedor do Campeonato Nacional e o vencedor da Taça de Portugal.


NOTA: Texto escrito em 23 de Março de 2007 no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

Bernardino Barros

De novo no cantinho dedicado aos grandes mestres do jornalismo desportivo vou hoje fazer uma breve referência – homenagem, se preferirem - a uma das actuais figuras de vulto desta área. Falo de Bernardino Barros, o popular BB, uma figura por quem nutro uma grande admiração enquanto profissional da Comunicação Social desportiva.
Um homem do norte, que – quanto a mim – segue as pisadas de ilustres personalidades como Mestre Cândido de Oliveira (o maior de todos os jornalistas desportivos, na minha modesta opinião), Ribeiro dos Reis, Vítor Santos, Artur Agostinho, Homero Serpa, Carlos Pinhão, Rui Tovar, David Borges, entre outros.
Nascido em Vila Real, a 6 de Novembro de 1955, Bernardino Barros desde cedo se deixou “enfeitiçar” pelo bichinho do jornalismo desportivo. Com 20 anos começou a trabalhar no jornal O Norte Desportivo, onde permanceu até 1979. Paralelamente desempenhou outras actividades profissionais díspares do jornalismo, pelo que só em 1985 regressou às lides da escrita, desta feita no jornal O Comércio do Porto, na qualidade de redactor de futebol e basquetebol.
Em 1991 travou conhecimento com o seu grande amor dentro da área da Comunicação Social, a rádio. Foi aqui que se deu verdadeiramente a conhecer aos amantes do desporto, e em particular do futebol, através da sua inconfundível e notável voz. A ela aliou os seus infinitos e sábios conhecimentos do mundo da bola, que fizeram - e continuam a fazer - dele um dos mais prestigiados jornalistas desportivos deste país. Na rádio começou na TSF, “transferindo-se” em 2003 para a Renascença, onde ainda se mantém.
E às “aventuras” nos jornais e nas rádios Bernardino Barros juntou a experiência na televisão, sendo que desde 1999 é um “habitué”, na qualidade de comentador, em jogos de futebol transmitidos pela “caixinha mágica”, tendo aqui colaborado com a RTP, SIC e Sport TV. Neste campo as suas qualidades ficaram bem vincadas e não foi de estranhar que a televisão regional NTV, aquando da sua breve aparição, o tivesse “contratado” para ser um dos rostos da secção de desporto, tendo então apresentado o programa NJogadas.
O regresso aos jornais, e desta feita a tempo inteiro, deu-se em 2004, altura em que foi convidado pelo director d' O Comércio do Porto, Rogério Gomes, para ser o editor de desporto do diário portuense. Cargo que desempenhou com grande brilhantismo até ao fecho daquele jornal em meados de 2005. E em 2006 Bernardino Barros volta aos ecrãs, desta feita através do novo canal regional Porto Canal, onde assume o papel de editor de desporto. Neste jovem canal regional destacam-se a qualidade de programas – por si criados e que eu não perco por nada deste mundo – como os Comentários do BB e a A Bola é Redonda, onde o popular BB aplica com grande mestria os seus vastos conhecimentos desportivos. Um SENHOR!

NOTA: Texto escrito em 11 de Maio de 2007 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Ribeiro Cristóvão

António Ribeiro Cristóvão, é indiscutivelmente um dos grandes nomes do jornalismo desportivo nacional de todos os tempos. Um verdadeiro craque da rádio, já que é principalmente nesta área que se tem distinguido ao longo da sua brilhante carreira. Nasceu em Proença-a-Nova no dia 7 de Julho de 1939. Mudou-se para Angola em 1958, onde iniciou sua carreira jornalística na Rádio Clube do Moxico. Dois anos mais tarde muda-se para a Rádio Clube do Huambo, onde permaneceu até 1975.
Regressado a Portugal, ingressou na Rádio Renascença (RR),em 1976, onde presentemente desempenha funções de responsável pelo Departamento de Desporto. Na RR, para além do desporto, foi chefe de redacção durante vários anos. Participou em diversas reportagens de grande envergadura, das quais se destacam as visitas Papais, e foi repórter na Assembleia da República durante quatro anos. Na área do desporto, esteve nos Campeonatos da Europa de 1984, em França , 1966 na Inglaterra, e 2000 na Holanda e Bélgica, e ainda nos Mundiais de 1982, em Espanha, e 1986 no México, além de ter acompanhado todas as equipas portuguesas nas competições europeias de futebol. Foi ainda colaborador da RTP, para onde entrou em 1982, a convite de José Eduardo Moniz. Na estação de televisão pública foi responsável pelos programas Troféu, na sua fórmula inicial, Domingo Desportivo, e Remate, durante vários anos. Até final de Dezembro passado editou e apresentou na RTPI e RTPÁfrica o programa Bancada Aberta, que versou temas de desporto, e se destinou especialmente às Comunidades Portuguesas radicadas no estrangeiro. Além de jornalista Ribeiro Cristóvão é também político. De 2001 a 2005 foi presidente da Assembleia Municipal da sua terra, Proença-a-Nova. Foi membro da lista do PSD para a Câmara Municipal de Lisboa nas Eleições Intercalares de 2007, não sendo eleito. Actualmente é deputado dos sociais-democratas na Assembleia da República.
 
NOTA: Texto escrito em 28 de Outubro de 2007 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Homero Serpa

Vamos hoje dar um pequeno passeio até à vitrina onde estão expostos os grandes homens da comunicação social desportiva nacional para conhecer mais um vulto desta área da qual ainda sou um humilde aprendiz. Um homem que deixou o mundo dos vivos muito recentemente e que dá pelo nome de Homero Serpa.
Nasceu em 1927, na freguesia de Belém, em Lisboa, e colaborou em diversas publicações desde O Mosquito (jornal infantil) até ao jornal A Bola, além de longo tempo de colaboração dispersa por Gazeta do Sul, República, Diário de Lisboa, Diário Popular, revista Lisboa Carris (da qual foi director) e O Setubalense.
Entrou no jornalismo desportivo, nos anos 50, altura em que o Clube de Futebol Os Belenenses fundou o seu jornal, no qual desempenhou, mais tarde, o cargo de redactor principal. Em Abril de 1955, iniciou-se em A Bola, onde ao longo de mais de 50 anos de ligação com esta nobre publicação foi redactor, subchefe de redacção, chefe-adjunto e chefe de redacção. Aposentado, comprometeu-se a manter a publicação de uma crónica semanal nesse mesmo periódico que actualmente é dirigido pelo seu filho, Vítor Serpa. Foi ainda redactor-fundador de A Bola Magazine e seu chefe de redacção.
Recebeu o Prémio da Reportagem atribuído pelo Clube de Jornalistas do Porto (1993), a Medalha de Mérito Desportivo, a Medalha de Mérito da Câmara Municipal de Oeiras, o diploma de sócio honorário do Clube de Futebol Os Belenenses (2003) e o Prémio «O Pepe», instituído pelo clube azul (1983).
Faleceu, no último dia do ano passado, aos 80 anos, vítima de doença prolongada.

NOTA: Texto escrito em 23 de Janeiro de 2008 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Gomes Amaro

Voltamos hoje à galeria dos grandes mestres do jornalismo desportivo para fazer uma pequena alusão a uma lenda da rádio portuguesa, um homem que me habituei a ouvir desde pequeno e por quem nutro uma grande admiração. Falo do popular e conhecido Gomes Amaro, um cidadão brasileiro radicado no nosso país desde os anos 70 e que ficou conhecido pelos seus excêntricos e animados relatos de futebol.
Da sua boca saíram expressões que ficarão imortalizadas nos meandros dos relatos de futebol, tais como: "Vai busca-la Tibi" (aludindo ao antigo guarda-redes do FC Porto quando este ia buscar a bola ao fundo da suas redes depois de ter sofrido um golo); "a bola de couro" (quando se referia ao esférico), "o guarda-balas" (guarda-redes); ou "o barbante" (baliza).
Acompanhou sempre o FCPorto e a selecção portuguesa, relatou durante muitos anos em várias estações de rádio, tais como a Rádio Porto, a Rádio Press e terminou a sua carreira na Rádio Festival, sempre para o Quadrante Norte, empresa responsável pelo programa.
Actualmente tem um programa na televisão, mais precisamente no Porto Canal, intitulado de "Tribunal". Neste programa (que passa todos os domingos à noite, por volta das 23 horas) Gomes Amaro atende os telefonemas dos espectadores que deixam a sua análise – em directo- aos factos referentes à jornada mais recente do Campeonato Português.

NOTA: Texto escrito 25 de Março de 2008 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Alves Teixeira

A sua escrita serviu de escola para muitos dos actuais notáveis jornalistas desportivos do nosso país. O seu nome é sinónimo de alma e profissionalismo… características que sempre o acompanharam nos “desafios” da escrita que encarou ao longo da vida.
É pois com orgulho e saudades que recordamos esta grande figura do jornalismo desportivo nacional. Senhoras e senhores visitantes… Alves Teixeira.
Homem do norte, nasceu em 1909, e ao longo da sua carreira dividiu a sua criatividade e paixão implícita na escrita por diversos jornais. A sua primeira “aventura” deu-se n’ O Século, em 1923, na qualidade de colaborador.
Do seu extenso e rico currículo constam ainda passagens por alguns nomes míticos da imprensa portuguesa casos do Diário de Lisboa, Diário Popular, Comércio do Porto e Primeiro de Janeiro. Em alguns destes jornais não só exerceu funções de colaborador como também de redactor. Também a bíblia do jornalismo desportivo português, vulgo o jornal A Bola, viu impressos nas suas páginas inúmeros e brilhantes textos da sua autoria.
Alves Teixeira tornou-se conhecido no mundo do jornalismo desportivo português pelo seu estilo polémico e contundente, defendendo sempre as causas que achava justas e criticando sempre a parcialidade.
O seu nome ficará eternamente ligado a outro histórico órgão de comunicação social desportivo do nosso país, o Norte Desportivo (na imagem), jornal do qual foi fundador (em 1934) e director.
A sua ligação ao desporto não se restringiu apenas à escrita já que ao longo da sua vida também exerceu diversas funções directivas, sendo de destacar o facto de ter fundado a Federação Portuguesa de Andebol. Desempenhou ainda papéis de dirigente nas federações portuguesas de basquetebol e hóquei patins.
Foi igualmente presidente da popular agremiação portuense Vasco da Gama, clube que durante a sua “gestão” formou alguns dos melhores jogadores de sempre do basket lusitano. Chegou também a ser director da Volta a Portugal em bicicleta.
Um homem (falecido em 1981) a quem o desporto português e o jornalismo desportivo devem muito… Um exemplo a seguir... sem margem para dúvidas.

NOTA: Texto escrito em 28 de Outubro de 2008 no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

Manuel Dias

Pela sua mão centenas de histórias/factos ligados ao futebol foram trazidos ao Mundo e eternizadas nas folhas dos jornais por onde passou. A sua memória é hoje aqui recordada por mim, um mero jornalista que cresceu lendo os relatos vivos deste notável homem das letras. E vou fazê-lo indo retirar do meu “baú” de histórias futebolísticas um dos textos mais duros que alguma vez escrevi, as linhas em que dei conta da morte de um dos meus ídolos do jornalismo desportivo: Manuel Dias.

«É com muita tristeza que o Museu Virtual do Futebol abre hoje as suas portas para comunicar o desaparecimento de um dos grandes nomes do jornalismo desportivo nortenho, e porque não dizê-lo de todo o país, de seu nome Manuel Dias. Um homem por quem eu tenho uma grande admiração enquanto profissional, uma grande referência para mim que me considero um mero aprendiz na arte de escrever. Manuel Dias é um dos meus ídolos, por assim dizer, no jornalismo desportivo, e foi com profunda tristeza que hoje de manhã ao passar os olhos pelos jornais do dia dei com a notícia da sua morte. Para quem não o conhece, o que julgo serem poucos, Manuel Artur dos Santos Dias, o seu nome completo, nasceu a 19 de Julho de 1934, na freguesia da Vitória, no Porto. Iniciou a profissão de jornalista em 1955, sendo que entre este ano e 1963 desempenhou igualmente funções de bancário. Depois de uma estadia em Paris regressa ao Porto para ingressar n' O Primeiro de Janeiro"(PJ), onde assinou milhares de crónicas e reportagens ao serviço deste ilustre diário portuense. Ficaria conhecido nos meandros do jornalismo como o Manel Dias, do Janeiro. Com o PJ este homem percorreu o Mundo, acompanhando diversas comitivas oficiais e equipas de futebol. O Desporto Rei era uma das suas grandes paixões, sendo esta a área em que se tornaria um mito nesta profissão. Era adepto confesso do Futebol Clube do Porto, tendo escrito vários livros sobre este clube. Ele que escreveu tão grandes e diversos factos históricos da vida do maior clube da Invicta como a inauguração do já desaparecido Estádio das Antas, ou as primeiras vitórias europeias dos portistas. Depois de trabalhar no PJ Manuel Dias "transferiu-se" para a RTP, onde durante duas décadas e meia continuou a sua brilhante carreira de jornalista desportivo. Passaria mais tarde por outro diário de referência da cidade do Porto, o Jornal de Notícias, onde permaneceria até à hora da sua morte. Pelo meio colaboraria ainda com O Jogo, Século Ilustrado, Expresso, para além de ter desempenhado funções de chefe de redacção no Norte Desportivo.  Foi ainda correspondente do jornal catalão El Mundo Deportivo. Para além do jornalismo desportivo também se destacou na literatura, tendo sido autor de diversos livros, quer dedicados ao desporto (ao futebol em particular), quer dedicados à vertente cultural. Esteve, aliás, ligado a várias associações culturais do Porto. Esteve ligado ao teatro também, e foi o co-autor de "Um cálice de Porto", peça exibida pelo Seiva Trupe. Felizmente, tive a oportunidade, e a honra, de conhecer pessoalmente este homem aquando do lançamento de uma das suas muitas obras literárias dedicadas ao futebol, mais concretamente o livro "Futebol no Porto", lançado em 2001.  Morreu ontem (11 de Abril de 2008), com 73 anos, vítima de doença (cancro no fígado) que o afectava há mais de um ano um homem que vai ficar na história do jornalismo desportivo».

Nota: Texto escrito em 12 de Abril de 2008, no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

Tavares da Silva

O seu nome figura com distinção entre a elite dos jornalistas desportivos de Portugal. Nome que deu uma forte contribuição para o nascimento da época dourada do jornalismo desportivo luso na qual se encontram milhares das mais belas prosas futebolísticas guardadas a letras de ouro nos arquivos de inúmeras publicações do nosso país. Foi além de tudo um multifacetado do “Desporto Rei”, sendo de sublinhar o seu contributo a este como treinador, dirigente, e até mesmo árbitro. Não parecem existir dúvidas que o futebol deve muito a Tavares da Silva, a lenda das letras que hoje visitamos.
Nasceu em Estarreja bem no início do século passado, mais precisamente em 1903, tendo na hora de escolher um futuro profissional optado pelo Direito. Advogado de créditos firmados seria então, mas... dentro de si algo mais forte se pronunciava em detrimento do Direito: o futebol. Uma paixão avassaladora a quem deu sempre o que tinha e o que não tinha de si, foi jogador, treinador, árbitro, dirigente, mas seria como “artista das letras” que enalteceria o desporto que tanto amava. Nos idos anos 40 foi um dos fundadores do primeiro jornal “A Bola”, desaparecido posteriormente e “re-fundado” - entre outros – pelo mestre Cândido de Oliveira. Ligação ao jornalismo que havia iniciado na década de 30, altura em que as suas deliciosas metáforas para “pintar os mais belos cenários futebolísticos” começaram a ser impressos em diversos jornais nacionais. Os seus inigualáveis escritos estão guardados em publicações como a (revista) “Stadium”, o “Diário de Lisboa” (ambos já desaparecidos), ou o “Norte Desportivo”, para além da mítica “A Bola”, claro está.

Criador dos “Cinco Violinos”

Um dos maiores legados de Tavares da Silva ao futebol terá sido possivelmente a designação que “rotulou” uma das linhas avançadas mais famosas de todos os tempos do futebol planetário. Uma linha que actuava no Sporting Clube de Portugal e que era composta pelos magos Peyroteo, Travassos, Jesus Correia, Albano, e Vasques, e que ficou mundialmente conhecida como os “Cinco Violinos”. O autor desta designação? Tavares da Silva.
Mas não seria só desta forma que este homem do futebol ficaria ligado eternamente ao clube lisboeta, pois na temporada de 1953/54 ele seria o treinador que conduziria os “leões” à célebre conquista do “treta-campeonato” (quatro campeonatos nacionais consecutivos). Ainda como técnico passou pelos bancos do Belenenses, Sporting da Covilhã, Lusitano de Évora, Académica, e da própria Selecção Nacional, na qual o seu nome ficou igualmente gravado a letras de ouro já que seria sob a sua batuta que Portugal venceria pela primeira vez na história (corria o ano de 1947) a vizinha e rival Espanha. Seria ainda o obreiro do triunfo inaugural da nossa selecção no estrangeiro, mais concretamente na Irlanda.
Com a máquina de escrever à sua frente foi ainda autor, juntamente com outros dois vultos do jornalismo desportivo, nomeadamente Ricardo Ornelas e Ribeiro dos Reis, da História dos Desportos em Portugal, uma obra importante sobre esta temática. Morreu em 1958 numa altura em que era redactor principal do “Norte Desportivo” e chefe da secção de desporto do “Diário de Notícias”.

Nota: Texto escrito a 14 de Setembro de 2010 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Cruz dos Santos

A poucos dias do Natal de 1960 chega a Lisboa um rapazinho africano de semblante tímido e olhar um pouco perdido. Prontamente de si abeirou-se um jovem e talentoso artesão das letras que lhe arrancaria – um pouco a ferros – as primeiras palavras em terras alfacinhas. Mais tarde estes dois homens ascenderiam ao Olimpo dos Deuses... o primeiro no futebol, e o segundo no jornalismo desportivo. Por palavras mais exactas... Eusébio da Silva Ferreira, e Fernando Cruz dos Santos. É precisamente sobre este último o motivo pelo qual o MVF abre hoje as suas portas, para recordar um dos maiores vultos da comunicação social (desportiva) lusitana. Nascido a 10 de Dezembro de 1931, em Lisboa, Fernando Cruz dos Santos calcarreou um caminho ímpar com a pena na mão. Um trajecto que começou a ser trilhado bem cedo, quando ainda jovem num belo dia de 1954, na companhia de seu pai, se deslocou ao Estádio Nacional a fim de usufruir de uma empolgante e deslumbrante hora e meia de futebol protagonizada pelo Benfica do seu coração. Um Benfica cujo futebol começava a ganhar contornos de obra de arte graças às pinceladas de génios como José Águas ou Mário Coluna. 11-0, pesado “score” que o azarado Boavista sofreria às mãos do mágico Benfica naquela tarde no sagrado relvado da grande sala de visitas do futebol português. Maravilhado com a exibição da armada encarnada Cruz do Santos não perderia tempo a escrevinhar uma crónica alusiva ao festival de bola que o seu Benfica havia dado no Vale do Jamor horas antes. Com um misto de audacidade e atrevimento – no bom sentido, claro está – envia a crónica para as grandes publicações desportivas da época, vulgo, A Bola, Record, e o Mundo Desportivo. Dias mais tarde o chefe de redacção do primeiro órgão de comunicação responde-lhe com um lugar de colaborador! E assim estava dado o empurrão para aquilo o que seria uma carreira brilhante ao serviço do mítico jornal da Travessa da Queimada (Lisboa). E sempre, sempre, defendendo as cores d' A Bola, a única camisola que veste desde o início da aventura. Em 1962 Cruz dos Santos passa a redactor do jornal, tornando-se desde logo num dos grandes valores da célebre instituição de comunicação... e do próprio jornalismo desportivo português.
Hoje em dia Cruz dos Santos continua a ser uma lenda d' A Bola, digamos que um embaixador do jornal à semelhança do que representa Eusébio para o Benfica. Prestes a cumprir 80 primaveras Cruz dos Santos continua a deliciar leitores através das suas incomparáveis crónicas na coluna “Vivó Árbitro”.
 
Nota: Texto escrito a 3 de Novembro de 2010 no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

Aurélio Márcio

O mundo do jornalismo desportivo lusitano ficou muito mais pobre neste final de 2010 com o desaparecimento de um dos seus maiores astros... Aurélio Márcio. Se de uma lendária equipa de futebol se tratasse então poderíamos dizer que este vulto da pena fez parte do maior “dream team” lusitano de todos os tempos. Um combinado composto por lendas como Vítor Santos, Carlos Pinhão, Homero Serpa, ou Alfredo Farinha, todos com a camisola de “A Bola” vestida. Aurélio Márcio era um dos elementos mais destacados dessa famosa equipa. O encanto e sabedoria da sua escrita fizeram dele um dos grandes mestres do jornalismo desportivo. Na sua veia literária corria o sangue crítico de Santos Neves, de quem se dizia grande admirador, ou o estilo único e belo do mestre Cândido de Oliveira.
Aurélio Márcio nasceu no norte, mais concretamente em Fafe, a 12 de Julho de 1919, tendo iniciado a sua ímpar carreira no “Diário Popular”, em 1943, onde começou a coleccionar prémios de cariz individual alusivos à mestria do seu notável trabalho. Espalhou ainda o seu perfume literário pelas páginas de “O Século”, “Record”, ou a “Gazeta dos Desportos”. Também os microfones de algumas rádios nacionais foram testemunhas da melodia da sua inigualável sabedoria desportiva, tais como a “Emissora Nacional”, a “TSF”, ou a “Rádio Renascença”.
Mas seria “A Bola” que guardaria alguns dos maiores tesouros literários de um vulto que viajou pelos cinco continentes, sempre com a bola como motivo principal. Neste aspecto Aurélio Márcio é um ícone a nível planetário, já que foi o jornalista da história que mais Campeonatos do Mundo e da Europa cobriu enquanto profissional. No que concerne aos primeiros esteve em 10 Mundiais, tendo a estreia ocorrido em 1966, no célebre Mundial de Inglaterra onde os “Magriços” de Eusébio e companhia brilharam a grande altura. Em termos de Europeus o seu vasto e rico currículo conta com oito presenças. Notável, e apetece mesmo dizer que muito dificilmente alguém irá derrubar este recorde pessoal que mereceu já uma distinção da parte da FIFA.
Distinções é coisa que aliás não falta no trajecto deste homem... que foi condecorado com a Medalha de Prata de Mérito Concelhio da Câmara Municipal de Fafe, a Medalha de Bons Serviços - Desporto do Ministério da Educação Nacional, a Medalha de 25 anos do CNID e da Comenda da Ordem de Mérito, agraciado pela Presidência da República Mário Soares. Palavras para quê?
O mito abandonou o Mundo terrestre no passado dia 20 de Dezembro, aos 91 anos, vítima de doença prolongada.

Nota: Texto escrito a 23 de Dezembro de 2010 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Artur Agostinho

Ano novo... hábitos antigos, o mesmo é dizer que o Museu irá continuar a sua missão de desfiar o novelo da história da bola. E nestes primeiros momentos de 2011 vamos permanecer na vitrina das lendas do jornalismo desportivo, um dos meus cantinhos favoritos – por razões óbvias – neste humilde espaço virtual. E depois de há poucos dias termos evocado o mito Aurélio Márcio vamos hoje prestar uma profunda homenagem a outro astro das letras: Artur Agostinho. Um nome que a bem dizer dispensa qualquer tipo de apresentações, já que ele é sinónimo de uma carreira ímpar e invejável – no bom sentido, pois claro – ao serviço da comunicação social.
Nascido no dia de Natal de 1920, em Lisboa, Artur Fernandes Agostinho desde cedo começou a reservar o seu lugar no “Olimpo” dos Deuses do jornalismo desportivo nacional quando aos 17 anos a sua inconfundível voz iniciava uma caminhada triunfal pelos microfones da rádio. Uma união – homem/rádio – que teve o seu casamento (oficial) em 1945, ano em que Artur Agostinho se torna profissional da Emissora Nacional. O resto é pura lenda, como diriam alguns, pois ao longo das quatro décadas seguintes este homem tornou-se na companhia diária de muitos amantes da rádio, em especial daqueles que tinham um gosto especial pelo fenómeno desportivo.
Neste aspecto Agostinho fez a cobertura de três edições dos Jogos Olímpicos (!), nomeadamente os de Helsínqia (1952), Roma (1960), e Tóquio (1964), de dezenas de edições da Volta a Portugal em Bicicleta, e claro está dos grandes acontecimentos futebolísticos do planeta. Aqui destaca-se a presença no Mundial de 1966, onde narrou para a RTP – casa que entretanto o havia acolhido em 1956, precisamente o ano de estreia da televisão em Portugal – com mestria os feitos de Eusébio e companhia.
Pela sua voz os microfones da RTP guardam também os melhores momentos das equipas portuguesas nas competições europeias de futebol, entre outros as duas vitórias do Benfica na Taça dos Campeões Europeus, e o triunfo do Sporting na Taça dos Vencedores das Taças.
Sporting Clube de Portugal que era um dos grandes amores de Artur Agostinho. Assumidamente sportinguista de alma e coração o mestre foi director do Jornal do Sporting durante vários anos. A sua ligação aos jornais não se ficou no entanto por aqui, muito longe disso, tendo assumido igualmente a direcção do Record entre 1969 e 1974. A Bola, o Norte Desportivo, o Diário Popular, e o Diário de Lisboa têm também o privilégio de guardar nos seus arquivos inúmeras prosas futebolísticas do mestre Artur Agostinho. A sua veia de comunicador não se restringe apenas ao jornalismo desportivo, já que o cinema sempre foi outra das suas paixões. Neste campo estreou-se em 1947 no filme Capas Negras, sendo que neste mesmo ano ajudou a imortalizar outro clássico da “sétima arte” lusitana: O Leão da Estrela. Ao nível da TV participou ainda em diversas séries de ficção nacional, como, por exemplo, Ganância, Inspector Max, Ana e os Sete, ou Pai à Força.
Artur Agostinho foi um dos grandes mestres da escola de – bem fazer – jornalismo, não sendo de estranhar que após ter completado a bonita idade de 90 anos – no passado dia 25 de Dezembro de 2010 – tenha sido condecorado pelo Presidente da República, Cavaco Silva, com a Comenda da Ordem Militar de Sant'Tiago da Espada. Uma homenagem mais do que merecida a este imortal vulto da comunicação lusitana. Desapareceu do mundo terrestre em 22 de março de 2011, aos 90 anos de idade.

Legenda das fotografias:
1- A simpática figura de Artur Agostinho
2- O mestre visivelmente emocionado ao lado de Cavaco Silva no dia em que este último o condecorou com a Comenda da Ordem Militar de Sant'Tiago de Espada

Nota: texto escrito a 3 de Janeiro de 2011 (e atualizado em 2012) no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

Ricardo Ornelas

Evocar o seu nome remete-nos para a lembrança de um dos mais cultos e talentosos jornalistas portugueses da primeira metade do século XX. O seu profundo conhecimento do desporto aliado a um apurado – e imparcial – sentido crítico fizeram dele um modelo a seguir por gerações e gerações de jornalistas ligados ao fenómeno desportivo. Também o futebol português – e muito em particular a seleção nacional – deve-lhe grande parte da essência que hoje em dia o caracteriza.
Sem mais demoras recordaremos nas linhas que se seguem o imortal Ricardo Ornelas.
Nascido em Lisboa na reta final do século XIX, mais precisamente a 31 de dezembro de 1899, cedo demonstrou a sua reconhecida apetidão para trabalhar as palavras, começando aquela que viria a ser uma brilhante carreira jornalística ao serviço do popular jornal desportivo “Os Sports”.
As suas “prosas jornalísticas” logo se destacaram na imprensa portuguesa da época e em 1942 passa para o Diário Popular, onde é selecionado para o exercício das funções de chefe da secção de desporto, cargo que desempenha com notoriadade até ao encerramento do célebre órgão de comunicação.
Um dos expoentes máximos do jornalismo desportivo português, o jornal A Bola, também testemunhou o talento de Ricardo Ornelas que sob o pseudónimo de Renato de Castro assinou diversos textos para o (agora) diário da Travessa da Queimada. O seu talento e paixão pela escrita não se restringem apenas aos jornais, já que escreveu inúmeros livros sobre futebol e/ou sobre o desporto de uma forma geral. Uma das publicações mais notáveis da literatura desportiva portuguesa, “História dos Desportos em Portugal” tem o seu carimbo, em parceria com outras duas lendas das letras – e do futebol igualmente –, Tavares da Silva e Ribeiro dos Reis.
Como amante do belo jogo que era não se limitou a passar para o papel os – variados – conhecimentos que possuia sobre a modalidade, contribuindo muito para o crescimento futebolístico português. Foi um dos artesãos da ideia de criar uma seleção nacional, por alturas da segunda década do século XX, ideia essa que viria a ser concretizada na década seguinte tendo inclusive Ricardo Ornelas desempenhado funções de selecionador nacional. Aliás, a célebre denominação de “equipa de todos nós” alusiva ao combinado nacional é da sua autoria.
Ex-aluno da Casa Pia fez parte do grupo de 18 elementos que em 1920 fundou o histórico Casa Pia Atlético Clube, emblema do qual seria também treinador. Defendeu ao longo de anos várias ideias que na sua estratégica visão impulsionariam o futebol em Portugal, como é o exemplo da criação de um Campeonato Nacional que reunisse as melhores equipas do país.
Empregado de escritório numa companhia de navegação - profissão desempenhada em paralelo com a de jornalista – foi em 1966 agraciado pelo Governo português com a medalha de bons Serviços Desportivos, precisamente um anos antes de falecer (1967).

Nota: texto escrito a 9 de março de 2012 no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

Carlos Arsénio

O seu nome integra de forma indiscutível o dream team dos mestres do jornalismo desportivo português, consequência natural de uma notável carreira edificada ao longo cerca de meio século. Talentoso homem das letras e profundo conhecedor dos caminhos futebolísticos ele fez - e continuará a fazê-lo para a eternidade - parte da geração de ouro dos jornalistas desportivos lusitanos, colocando a sua estrela ao lado da de lendas como Artur Agostinho, Homero Serpa, Aurélio Márcio, Vítor Santos, ou Cruz dos Santos. Hoje, o Museu Virtual do Futebol abre as suas portas para evocar o nome de Carlos Arsénio, reconhecido ícone da comunicação social desportiva notabilizado ao serviço - sobretudo - do jornal Record.
Carlos Matias Arsénio, de seu nome completo, veio ao mundo a 25 de maio de 1936, tendo como berço a Golegã. Com o nascimento da década de 60 do século passado deu o tiro de partida na sua briosa e ímpar carreira profissional, entrando em 1961 para o jornal que o haveria de tornar célebre, e que ele - o próprio Carlos Arsénio - ajudou a tornar igualmente célebre.
Record, jornal que aquando da chegada do mestre do jornalismo desportivo que hoje visitamos era um menino de apenas 12 anos, guarda nas suas páginas largas dezenas - ou centenas para sermos justos - de brilhantes trabalhos assinados por este vulto, trabalhos onde a clareza e simplicidade das palavras articuladas com uma objetividade imperial foram tidos como exemplos a seguir pelas gerações seguintes de jornalistas ligados ao desporto. Não são de estranhar pois os inúmeros galardões com que foi brindado ao longo da sua carreira, com destaque para a Medalha de Mérito Desportivo, prémio que lhe seria atríbuido pelo Governo português em 2005. As questões da arbitragem no futebol sempre mereceram da sua parte uma atenção muito especial, tendo ao longo da sua carreira deslumbrado os leitores com um vasto naipe de trabalhos de cariz pedagógico alusivos à temática, dedicação e interesse este que em 2009 levou a Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol a atribuír-lhe o título de sócio honorário desta associação.
E porque um artesão das palavras nunca as deixa de trabalhar, mesmo quando já afastado das grandes lides profissionais, Carlos Arsénio tem-se dedicado nos últimos anos à publicação de livros - alusivos ao desporto, claro está -, sendo uma das suas obras de maior craveira e renome o manuscrito intitulado "Ribatejo, Terra de Campeões", editado em 2008.  

Nota: Texto escrito em 19 de outubro de 2012 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Fernando Correia

Detentor de uma voz eloquente e de conhecimento(s) futebolístico(s) profundo Fernando Correia é por estes dias um dos grandes Senhores do jornalismo desportivo português. Uma figura que enquanto profissional de uma área que muito me diz, é - para mim - um icone, um ídolo se preferirem, um digno representante da velha guarda da comunicação social desportiva, a velha guarda que durante décadas edificou uma escola de notáveis jornalistas que hoje em dia se contam - infelizmente - pelos dedos de uma só mão!
Como em tudo na vida a imprensa desportiva em Portugal parece caminhar atualmente para um buraco sem fundo, pela mão de profissionais indignos de vestir camisolas outrora de grande prestígio. Fernando Correia é um dos poucos resistentes a esta queda livre, dos poucos profissionais de mão cheia que vai informando - e formando - com classe, imparcialidade, e sabedoria os entusiastas do belo jogo.

Fernando Lopes Adão Correia nasceu em Lisboa, a 16 de julho de 1935, tendo a sua notável carreira de prestigiado comunicador começado aos 19 anos, na (rádio) Emissora Nacional (EN). Ali apresentou noticiários, reportagens políticas, entre outros programas, durante uma década, até ao dia em que outro ícone da comunicação portuguesa, Artur Agostinho, o convidou para fazer relatos de futebol. Foi digamos que uma paixão à primeira vista, uma paixão que ainda hoje dura, a tal paixão que faz de Fernando Correia uma lenda do jornalismo desportivo do nosso país. Entre 1958 e 1990 desenvolveu a sua invejada carreira de locutor/relator na EN, onde desempenhou funções de coordenador da área desportiva. O mesmo fez igualmente na Rádio Comercial, até à época em que se transfere para a TSF e atinge, digamos que, o ponto mais alto da sua ímpar carreira. Com o mítico programa Bancada Central - do qual eu sempre fui um assíduo ouvinte - entrou definitivamente para a galeria dos mestres do jornalismo desportivo de Portugal. Um programa - dedicado ao desporto de uma forma geral, embora com o futebol em plano de destaque - que cativou ao longo de vários anos milhares de ouvintes - diários - que não perdiam as entrevistas, os comentários, as informações, proferidas pelo mestre Fernando Correia.

A aventura chegou ao fim já no novo milénio, altura em que o jornalista foi despedido (!) da TSF após assumir a Direção do primeiro e único jornal desportivo gratuito português, intitulado de Diário Desportivo, do qual foi um dos fundadores. Porém, a permanência na cadeira de Diretor do citado jornal foi curta, já que as saudades da rádio falaram mais alto, pelo que posteriormente passou a envergar a camisola do Rádio Clube Português (RCP), onde criou o programa Lugar Cativo, uma espécie de sucessor da célebre Bancada Central. O sucesso do programa foi imediato - outra coisa não seria de esperar -, pelo que com a abertura das emissões do canal de televisão TVI24 a Lugar Cativo passou a ter... lugar cativo nas emissões diárias do referido canal de TV.

De forma um pouco surpreendente Lugar Cativo saiu do ar - quer da TVI24, quer do RCP - e Fernando Correia abraçou um novo projeto na sua brilhante carreira na estação de rádio NFM. Formando uma dupla imparável com o também jornalista Carlos Dolbeth apresenta os programas Conversas de Café, e Bancada Nova, todos eles no seguimento de Bancada Central e Lugar Cativo. Paralamente continua na TVI24, onde exerce funções de principal comentador desportivo da estação de televisão.

O reinado de Fernando Correia no mundo do jornalismo desportivo também conheceu memoráveis episódios na imprensa. Durante vários anos foi colaborador de jornais como o Record, Gazeta dos Desportos, A Capital, ou o Jornal de Notícias. Foi igualmente Diretor do jornal do seu Sporting. Tem-se ainda notabilizado na elaboração de biografias de vários nomes do desporto nacional e internacional. Entre os seus livros mais lidos encontram-se: Os Cinco Violinos; Matateu, a Oitava Maravilha; Joaquim Agostinho; Memórias de um Campeão; ou Simply the Best (alusivo ao antigo jogador George Best).

Como seria de esperar o talento que vem exibindo ao longo de uma carreira de quase 60 anos (!) tem-lhe valido inúmeras - e para lá de merecidas - distinções, como foram os casos do Prémio de Imprensa, do Prémio da Casa de Imprensa, do Prémio de Melhor Locutor do Ano, do Prémio de Melhor Relator do Ano,... entre muitos outros.

Nota: Texto escrito em 10 de janeiro de 2013 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com 

Rui Tovar

Mais do que um brilhante jornalista ele era uma verdadeira enciclopédia do futebol, um profundo conhecedor da história de A a Z do desporto rei nacional e internacional, facto que o transformou numa autêntica lenda do jornalismo desportivo. Falamos hoje de Rui Tovar, um mito que nasceu na Lourinhã a 16 de fevereiro de 1948 e que começou a trilhar uma magnífica carreira profissional de quatro décadas no Diário de Notícias, onde viria a ser um dos 24 jornalistas saneados pelo então diretor-adjunto daquele órgão de comunicação, José Saramago. Posteriormente, seria um dos fundadores do jornal O Dia, ingressando em finais dos anos 70 na RTP, a casa onde atingiu um estatuto de lenda. Ali, destacou-se ao longo de quase três décadas como uma autêntica enciclopédia do futebol, tendo sido um dos principais rostos da estação pública na área do jornalismo desportivo. Afável e profissional, Rui Tovar foi durante anos o rosto do Domingo Desportivo, célebre programa que nas noites domingueiras prendeu milhares de entusiastas pelo fenómeno futebolístico ao grande ecrã. A sua vasta e ímpar cultura futebolística fizerem de si - igualmente - um virtuoso comentador de jogos de futebol, função desempenhada com uma mestria invulgar, quer na linguagem que usava quer nos referidos conhecimentos que detinha sobre o jogo. Escreveu diversos livros sobre futebol, destacando-se aqui a obra Grandes Equipas Portuguesas de Futebol, um dos primeiros livros sobre a modalidade a ver a luz do dia em Portugal. O Correio da Manhã foi uma das últimas etapas da sua carreira, órgão este onde assinava uma crónica na qual era vincada a sua veia de filósofo da bola. Problemas cardíacos estiveram na origem do seu desaparecimento, em 3 de julho de 2014, dia em que o jornalismo desportivo luso ficou de luto e sobretudo mais pobre, muito mais, já que uma das suas maiores estrelas deixava assim o mundo terrestre.
 
Nota: Texto escrito em 8 de outubro de 2015 no blog: www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com