Museu Virtual do Futebol

O futebol nos... Jogos Olímpicos de Londres 1908

Inauguramos hoje uma nova vitrina no Museu Virtual do Futebol, um novo recanto que se ergue com a intenção de recordar os factos e histórias de uma competição vista hoje em dia – ou desde sempre na verdade – como menor no reino do futebol internacional. Popular ou não ela foi no entanto a primeira grande prova planetária disputada por seleções, tendo sido olhada por muitos como o embrião daquilo o que viria a ser o Campeonato do Mundo. Sem mais demoras vamos dar início a uma – por certo – encantadora viagem pelo planeta do futebol no seio dos Jogos Olímpicos, onde a bordo da “máquina do tempo” viajaremos até 1908 para vivenciar um pouco daquilo o que foi a primeira edição oficial de um torneio olímpico de futebol.
Londres acolheu a 4ª edição do sonho de Pierre de Coubertin, um idealista francês nascido em Paris a 1 de janeiro de 1863 que em adolescente fazia das escarpas de Étretat (Normandia) o seu esconderijo predileto e de onde a sua mente viajava pelo longo mar azul que dali se deparava ante o seu olhar que o levava até aos feitos ocorridos em Olimpia descobertos por si, enquanto menino, nos livros que guardavam as epopeias dos heróis – ou mitos – da Grécia antiga. Fascinado por essas míticas olímpiadas o jovem Pierre sonhava em ressuscitar os jogos para a Idade Moderna, fazendo renascer um espírito olímpico que unisse o mundo e ao mesmo tempo endeusasse o homem...
1896 é um ano histórico para a humanidade, o ano em que o sonho de Pierre se torna em realidade, cabendo à Grécia – só podia ser – a honra de albergar os primeiros Jogos Olímpicos da era moderna.
Por esta altura o futebol ganhava contornos crescentes de popularidade um pouco por todo o mundo, sendo que em Inglaterra era já profissional desde 1885! Profissionalismo que era encarado por Coubertin como o inimigo da verdadeira essência dos Jogos Olímpicos, os quais, para o barão francês, deveriam assentar, tal como na Grécia antiga, na pureza do amadorismo.
Talvez por isto, ou não (há quem diga que a falta de participantes foi o facto responsável pela ausência daquele que é hoje denominado de “desporto rei” dos primeiros Jogos Olímpicos modernos), o futebol não tenha tido lugar cativo na 1ª edição das Olímpiadas modernas, sendo que a bola apenas começou a saltar pela primeira vez num evento deste género em 1900, nos Jogos realizados em Paris, mas apenas como modalidade de... exibição. Isto é, não oficial... segundo os desígnios da FIFA, pese embora o Comité Olímpico Internacional (COI) tenha reconhecido posteriormente como oficiais as primeiras aparições da modalidade nas Olímpiadas.
Procedimento semelhante foi repetido quatro anos mais tarde, durante as Olimpíadas de Saint Louis, onde tal como em Paris o torneio de futebol foi disputado por clubes amadores ou equipas oriundas de universidades, ao invés de seleções nacionais como mais tarde viria a acontecer. Quer em Paris quer em Saint Louis os torneios de futebol não tiveram mais do que três equipas a participar (!), sendo que na bela capital francesa o certame foi vencido pelo conjunto do Upton Park, que representava a Grã-Bretanha, ao passo que na cidade norte amereicana o título – se é que assim pode ser chamado – ficou na posse do Galt City, combinado oriundo do Canáda.
Coincidência ou não com a criação da FIFA em 1904 o futebol passou a ser um dos atores oficiais das Olíimpadas, cabendo à entidade máxima do futebol global apenas a tarefa de supervisionar o primeiro torneio olímpico de futebol oficial. Tudo sobre o olhar desconfiado do COI, que continuava a repovar a profissionalismo do futebol, afastando-o do nobre e puro amadorismo que deveria cercar – em seu entender – a essência do desporto. Porém, convencidos pela Football Association (Federação Inglesa de Futebol) e pelo presidente de então da FIFA, o inglês Daniel Burley Woolfall, o COI deu permissão para que o futebol entrasse para a família olímpica.

O pontapé de saída...

E foi sob o signo do amadorismo que em 1908 se deu o pontapé de saída do primeiro torneio olímpico de futebol, com a gigante Londres a testemunhar um acontecimento histórico que muitos classificam como o... primeiro Campeonato do Mundo. De facto ainda estávamos a 22 anos de distância do “verdadeiro” Campeonato do Mundo, da primeira edição daquele que com o passar dos anos se tornou no maior evento desportivo do planeta, maior que os próprios Jogos Olímpicos (!), podendo este ser considerado como o embrião do grande certame sonhado anos mais tarde pela FIFA através da mente do seu imortal presidente Jules Rimet.
A Londres chegaram quatro seleções nacionais, ou melhor cinco, pois a França fez-se representar por duas equipas, as quais se juntavam à formação da casa, a Grã-Bretanha (combinado que integrava Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda) e ainda Suécia, Dinamarca, e Holanda. Estes foram os convidados do torneio. Sim, convidados, pois convém sublinhar que não existiu propriamente uma fase de qualificação para o torneio olímpico, mas sim uma série de convites enviados pelo COI às diversas federações europeias (só!) com o intuito de as trazer até Londres. Contudo apenas seis (!) dessas federações responderam afirmativamente ao convite, tendo sido elas a França, Suécia, Dinamarca, Holanda, Hungria e Boêmia (antiga denominação da atual República Checa). Com tão poucas equipas o COI deu permissão então para que a França trouxesse às Olimpíadas de 1908 duas equipas de futebol.
Porém, a poucos dias do início do torneio o rei do império austro-hungaro proibiu – devido a razões de ordem política – as seleções da Hungria e da Boêmia de se deslocarem a Londres, reduzindo ainda mais o lote de participantes do torneio olímpico.
Conclusão, se já havia nascido pobre – face à ausência dos melhores jogadores e seleções da época, profissionais, claro está – mais pobre ficou com a desistência daqueles dois países.
O “circo” estava já montado e como tal havia que dar início ao espetáculo com mais ou menos equipas do que o previsto. Assim a data de 19 de outubro de 1908 entra para a história como o dia em que pela primeira vez duas seleções nacionais disputaram uma partida a contar para uma competição oficial. Os ilustres intervenientes? Dinamarca e a França, ou melhor, a segunda equipa da França. Desde logo ficaria evidente que este torneio olímpico de futebol dificilmente iria arrastar até si os holofotes da fama, ou da atenção dos populares, isto a julgar pelo baixo número de espetadores que marcaram presença nos seis jogos da competição. Estranho, se julgarmos que este torneio olímpico decorreia na pátria do futebol moderno onde cada vez mais pessoas se deixavam enfeitiçar pelo belo jogo. Contudo parace que os ingleses estavam mais interessados nos desenlaces da sua FA Cup (Taça de Inglaterra), a competição mais antiga do Mundo, a qual de ano para ano se tornava mais competitiva e popular entre os súbitos de Sua Majestade.
Não admira pois que no jogo inaugural do torneio olímpico o White City – o estádio onde decorreram os Jogos Olímpicos de 1908 – apresentasse um desolador cenário composto por duas mil pessoas!
Lá em baixo, na relva, os dinamarqueses esmagaram os “b” franceses por concludentes 9-0, sendo quatro desses golos da autoria do avançado Vilhelm Wolfhagen. No outro encontro da 1ª fase a Grã-Bretanha atropelou, como seria de esperar, os suecos por 12-1 com destque para o poker (quatro golos obtidos) de Claude Purnell.

22 golos nas meias finais!!!

Chegados às meias finais algo de invulgar – pelo menos nos dias de hoje – ocorreu em White City. Em dois jogos foram marcados nada mais nada menos do que 22 golos! É verdade, mais de duas dezenas de festejos que levariam a Grã-Bretanha e a Dinamarca para a grande decisão do torneio olímpico de futebol de 1908.
Os dinamarqueses voltaram a medir forças com a armada francesa, desta feita a França “a”, que a julgar pelo resultado era bem inferior aos seus conterrâneos “b”. 17-1 para os escandinavos (!), resultado histórico para o qual muito contribuiu o até então desconhecido – mundialmente – Sophus Nielsen, autor de 10 golos! Um feito presenciado por... 1000 espetadores! Desolador, sem dúvida.
No outro jogo das meias finais o resultado obtido pelo conjunto da casa seria hoje em dia rotulado de goleada, porém pelo que até então se via no relvado do White City a Grã-Bretanha passou à final com uma magra vitória diante da Holanda por... 4-0.

Franceses desistem do bronze antes do esperado ouro britânico

Na corrida para a medalha de bronze a França retirou a sua equipa principal da “linha de partida”, aparentemente pela vergonha da humilhação sofrida na meia final ante a Dinamarca, pelo que em sua substituição avançaram os suecos, repescados da 1ª fase. E na disputa pela medalha de bronze os holandeses levariam a melhor sobre os nórdicos por duas bolas a zero.
A grande final – marcada para 24 de outubro – foi presenciada por oito mil espetadores, a assistência mais numerosa do torneio olímpico até então, na sua grande maioria adeptos da seleção britânica, a grande favorita para a conquista do primeiro ouro olímpico na história do futebol. Da teoria à prática o caminho não foi longo. Porém, foi suado. Pela frente os britânicos encontraram uma equipa forte liderada pela temível dupla goleadora composta por Sophus Nielsen e Vilhelm Wolfhagen, autores de 18 dos 26 golos apontados pelos dinamarqueses nos dois encontros anteriores, e que prometiam fazer frente à turma capitaneada por Vivian Woodward.
No final, e após muito trabalho, a Grâ-Bretanha vencia a Dinamarca por 2-0 graças ao instinto matador de Frederick Chapman e do capitão Woodward, sagrando-se assim a primeira campeã olímpica da história... ou para muitos o primeiro campeão do Mundo de futebol.
O seu a seu dono teriam pensado os inventores do futebol moderno naquele momento, o ouro olímpico ficava em casa, no domicílio dos mestres dos futebol, e para a eternidade ficavam gravados a letras de ouro – doutra forma não podia ser – no Olimpo dos Deuses do desporto os nomes de Horace Bailey, Arthur Berry, Frederick Chapman, Walter Corbett, Harold Hardman, Robert Hawkes, Kenneth Hunt, Clyde Purnell, Herbert Smith, Henry Stapley, e Vivian Woodward, os primeiros campeões olímpicos de futebol. Na sua grande maioria eram estudantes universitários, que viviam o futebol de uma forma amadora, claro está, esperando pelo convite de alguma equipa profissional do futebol inglês. E alguns destes nomes vieram-no a conseguir.

Sophus Nielsen: a figura

O ouro olímpico pode ter ficado em terras britânicas, como muitos anteciparam na entrada para o torneio, mas as luzes da ribalta do modesto torneio de futebol dos Jogos Olímpicos de 1908 recairam todas sobre o dinamarquês Sophus Nielsen, o desconhecido – até então – que entrou para a história da modalidade por ter apontado 10 golos num só jogo de futebol.
A façanha ocorreu a 22 de outubro, com o White City como cenário daquela meia final entre Dinamarca e França “a”.
Sophus Erhard Nielsen nasceu a 15 de março de 1888 em Copenhaga e começou a sua promissora carreira no Concordia quando ainda adolescente. Poderoso avançado logo deu nas vistas, sendo que ainda com a tenra idade de 14 anos aceitou o convite do Frem, clube onde chegou ao escalão de sénior e onde desenvolveu a maior parte da sua carreira. No tempo em que o profissionalismo era coisa apenas de ingleses Nielsen trabalhava como ferreiro juntamente com o seu irmão Carl Nielsen, também ele futebolista nas horas vagas.
Em 1910 os dois irmãos viram-se a braços com o desemprego pelo que tentaram a sua sorte fora de portas. Viajaram pela Europa e chegados à cidade alemã de Kiel o presidente da equipa local ofereceu-lhes emprego na condição de aceitarem jogar pela sua equipa no escalão máximo do futebol germânico. Aceitaram, mas inexplicavelmente ali ficaram apenas uma temporada. E inexplicavelmente porque Sophus apontou uns impressionantes 72 golos em 18 jogos disputados, números mais do que suficientes para jogar por qualquer equipa amadora... ou profissional. Mas Sophus prefreriu voltar a casa e ao seu Frem, onde jogaria até 1921, ano em que pendurou as botas com um impressionante registo de 125 golos em 137 encontros! Defendeu a seleção do seu país por 20 ocasiões, tendo feito 16 golos, 11 deles nos Jogos Olímpicos de 1908. Voltaria a marcar presença nas Olimpíadas de 1912, em Estocolmo, conquistando uma nova medalha de prata após cair na final diante da armada da... Grã-Bretanha, numa reedição daquilo o que se passou em Londres quatro anos antes. Nos Jogos de Estocolmo não foi tão letal como havia sido em Londres, tendo visto o seu recorde de 10 golos num só jogo ter sido igualado pelo alemão Gottfried Fuchs. O melhor marcador do torneio olímpico de 1908 morreria na sua cidade a 6 de agosto de 1963 aos 75 anos.

Resultados:

1ª Fase


19 de outubro

França “b” - Dinamarca: 0-9
(Golos: Nils Middelboe (2), Vilhelm Wolfhagen (4) Harald Bohr (2), Sophus Nielsen

20 de outubro

Grã-Bretanha – Suécia: 12-1
(Golos: Frederick Chapman , Arthur Berry, Vivian Woodward (2), Harold Stapley (2), Claude Purnell (4), Robert Hawkes (2) / Gustaf BergstromMeias finais

22 de outubro

França “a” - Dinamarca: 1-17
(Golos: Sophus Nielsen (10), Vilhelm Wolfhagen (4), August Lindgren (2), Nils Middelboe / Emile Sartorius

Grã-Bretanha – Holanda: 4-0
(Golos: Harold Stapley (4))

Medalha de Bronze

23 de outubro

Holanda – Suécia: 2-0
(Golos: Gerard Reeman, Edu Snethlage

24 de outubro

Medalha de ouro (Final)

Grã-Bretanha – Dinamarca: 2-0

Estádio: White City, em Londres (8000 espetadores)

Árbitro: John Lewis (Inglaterra)

Grá-Bretanha: Horace Bailey, Walter Corbett, Herbert Smith, Kenneth Hunt, Frederick Chapman, Robert Hawkes, Arthur Berry, Vivian Woordward, Harold Staplay, Claude Purnell, Harold Hardman.

Dinamarca: Ludvig Drescher, Charles Buchwald, Harald Hansen, Harald Bohr, Kristian Middelboe, Nils Middelboe, Oskar Nielsen Norland, August Lindgren, Sophus Nielsen , Vilhelm Wolfhagen, Bjorn Rasmussen.

Golos: 1-0 (Frederick Chapman, aos 20m), 2-0 (Vivian Woorward, aos 46m)

Legenda das fotografias:
1-O barão Pierre de Coubertin
2-"Imagem" oficial dos Jogos Olímpicos de Londres em 1908
3-O estádio White City, a casa das Olimpíadas de 1908
4-Uma imagem esbatida da luta pelo ouro olímpico
5-A estrela do torneio: Sophus Nielsen
6-O talentoso capitão britânico Vivian Woordward
7-Grã-Bretanha: os primeiros campeões olímpicos da história do futebol

Nota: Texto redigido ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
 
Texto escrito em 13 de fevereiro de 2012 no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

O futebol nos... Jogos Olímpicos de Estocolmo 1912

Em 2012 assinalam-se precisamente os 100 anos da ocorrência da 5ª edição das Olimpíadas da Era Moderna. Estocolmo foi então o palco escolhido para levar à cena um evento cujo interesse em seu redor crescia a olhos vistos um pouco por todo o Mundo. Terá sido esta uma das razões para que na “Veneza do Norte” – assim é retratada mundialmente a cidade sueca – pela primeira vez atletas vindos dos cinco continentes do globo tivessem participado nos Jogos Olímpicos. Com uma estrutura organizacional nunca dantes vista estes jogos serão para sempre recordados como os primeiros em que a abertura seria abrilhantada por uma cerimónia coreografada antes da entrada das delegações das 28 nações participantes no estádio olímpico.
Estreia foi também o sistema sonoro de alto-falantes instalado não só no complexo olímpico como também por toda a cidade de Estocolmo com a intenção de transmitir os resultados das 14 modalidades desenvolvidas.
E no futebol a novidade também foi uma característica que se fez notar desde logo. A principal foi o facto de o número de seleções integrantes do torneio olímpico ter duplicado em relação às Olimpíadas de 1908. No total foram 11 os combinados nacionais que em Estocolmo lutaram pelo ouro, sendo que à semelhança do que acontecera quatro anos antes em Londres todos eles eram oriundos da Europa. E já que se fala em novidade há que dar conta de uma segunda competição futebolística dentro do próprio torneio olímpico, denominada de Torneio de Consolação, destinada às seleções eliminadas na 1ª fase e nos quartos-de-final da prova principal.

Surpresa a abrir

A 29 de junho foi dado então o pontapé de saída do torneio de futebol dos jogos de 1912, e logo com uma tremenda surpresa. Em jogo alusivo à 1ª fase a forte Itália liderada pelo lendário treinador Vittorio Pozzo – que na década de 30 haveria de conduzir a Squadra Azzurra à conquista de dois Campeonatos do Mundo consecutivos – sucumbia aos pés da frágil Finlândia (!) por 2-3 após prolongamento e ficava desta forma arredada da possibilidade de lutar pelo título. Nota curiosa o facto deste encontro inaugural ter sido arbitrado por outra lenda das táticas, o austríaco Hugo Meisl.
Célebre treinador que neste mesmo dia iria conduzir a Áustria a um esmagador triunfo sobre a Alemanha por 5-1. O terceiro e último encontro da ronda inicial – também realizado no dia 29 – colocou frente a frente no Estádio Olímpico de Estocolmo a equipa da casa, a Suécia, e a medalha de bronze dos Jogos Olímpicos de 1908, a Holanda. Bem disputada e pautada pelo signo do equilíbrio a partida só seria ganha pelos homens do “país das tulipas” no prolongamento, por 4-3.

Grã-Bretanha não brincou em serviço

Passada a fase pré-eliminar, a qual há que dizê-lo causou grande contestação entre a maioria das seleções, pelo facto de o sorteio ter emparelhado as equipas mais fortes (Itália, Suécia, Holanda, Áustria, ou Alemanha) e deixado de fora os conjuntos mais fracos (como Noruega, ou Rússia), o que significava desde logo que alguns dos teoricamente candidatos ao título iriam sair mais cedo da competição, eis que o torneio olímpico entra na sua fase final propriamente dita.
E quem entrou a todo o gás foram mesmo os campeões olímpicos em título, a Grã-Bretanha, que no Estádio Rasunda, nos arredores de Estocolmo, cilindrava a Hungria por 7-0. Neste duelo o sublinhado maior vai para o avançado inglês Harold Walden que à sua conta apontou 6 dos 7 tentos da armada britânica. Com mais 5 tentos apontados nos restantes dois encontros disputados Walden haveria de se sagrar no artilheiro destes Jogos Olímpicos com um total de 11 remates certeiros.
Quem também continuava a não brincar em serviço era a Finlândia. Depois de afastar a poderosa Itália os finlandeses bateram no Estádio Traneberg os vizinhos da Rússia por 2-1 na sequência de mais uma grande exibição, conforme rezam as raras crónicas da época, continunado desta forma no trilho do sonho em chegar a pelo menos uma medalha.
Sete foi também a “chapa” usada pela Dinamarca – vice campeã olímpica em 1908 – para bater a frágil Noruega com destaque para dois golos de Sophus Nielsen, o melhor marcador do torneio anterior. Por último, a Holanda eclipsava o sonho do mestre Hugo Meisl em levar a Áustria ao topo do Mundo, após uma vitória de 3-1.

Pódio final igual ao de Londres 1908

Depois de dois intensos dias de futebol (29 e 30 de junho) o torneio olímpico fazia uma pausa antes das empolgantes meias finais. Pausa no torneio olímpico mas não no futebol, já que a 1 de julho jogou-se a 1ª fase do recém criado Torneio de Consolação, integrado pelas equipas eliminadas até então. E se Itália e Áustria conseguiram vitórias sofridas (por 1-0) ante, respetivamente, Suécia e Noruega, já a Alemanha tirou a barriga de misérias e esmagou a Rússia por 16-0 (!). Um jogo onde o alemão Gottfried Fuchs teve o seu minuto de fama enquanto futebolista ao apontar nada mais nada menos do que 10 dos 16 tentos da sua equipa. Com esta performance Fuchs igualava o dinamarquês Sophus Nielsen que quatro anos antes havia apontado o mesmo número de golos no jogo da meia final diante da França.
A 2 de julho disputaram-se então as tão esperadas meias finais do torneio olímpico. E tal como o ocorrido em 1908 Grã-Bretanha e Dinamarca qualificaram-se para o jogo decisivo após inquestionáveis vitórias sobre Finlândia (4-0, com quatro golos da autoria de Harold Walden) e Holanda (4-1), respetivamente.
Holandeses que tal como em Londres haveriam de ficar com o bronze, depois de no dia 4 de julho terem goleado em Rasunda a Finlândia por 9-0, um pesado score onde se destacou Jan Vos, autor de cinco golos.
E nesse mesmo dia, no Estádio Olímpico, perante o olhar de 25 000 espetadores, britânicos e dinamarqueses repetiram a final de 1908 em busca do ouro. E tal como então a Grã-Bretanha foi... mais forte. Como se já não bastasse o azar de não poder contar com um dos seus principais jogadores, Poul Nielsen, a Dinamarca viu-se reduzida a 10 elementos à passagem do minuto 15 em virtude do médio Charles Buchwald ter abandonado o relvado lesionado. Ora, como na época não eram permitidas substituições os nórdicos tiveram de enfrentar a forte armada britânica com menos um atleta, complicando ainda mais a missão de chegar ao ouro.
Cinco minutos antes do infortúnio de Buchwald já a Grã-Bretanha se havia adiantado no marcador graças a um remate do goleador Harold Walden. Ainda na etapa inicial Gordon Hoare dilataria a vantagem dos campeões olímpicos à passagem do minuto 22, para 5 minutos volvidos Ole Anthon Olsen reduzir para os nórdicos. O carrossel britânico não iria ficar por aqui, e ainda antes do intervalo Gordon Hoare e Arthur Berry davam mais duas machadadas nos fragilizados dinamarqueses ao ampliarem o marcador para 4-1, e dissipando praticamente as dúvidas quanto ao vencedor do torneio olímpico. Perante o cenário que estava a ser edificado em Estocolmo só mesmo uma catástrofe iria impedir os britânicos – conduzidos pelo seu capitão de equipa, e principal referência, Vivian Woodward – de sucederem a si próprios no trono do futebol olímpico. E assim foi. O melhor que a Dinamarca conseguiu fazer na etapa final foi reduzir as desvantagem para 2-4, graças a um novo golo de Ole Anthon Olsen, insuficiente para impedir a (re)coroação da Grã-Bretanha como a melhor seleção do Mundo.
Já o torneio de consolação seria ganho no dia seguinte à principal final pela Hungria, que no encontro decisivo batia a Áustria por 3-0.
Mas para a história Grã-Bretanha seria o nome que mais iria reluzir na altura de recordar o torneio olímpico de Estocolmo em 1912, o da Grã-Bretanha e dos seguintes artesões de mais um memorável momento do futebol de terras de Sua Majestade: Ronald Brebner, Arthur Berry, Thomas Burn, Joseph Dines, Edward Hanney, Gordon Hoare, Arthur Knight, Henry Littlewort, Douglas McWhirter, Ivan Sharpe, Harold Stamper, Harold Walden, Vivian Woodward, e Edward Wright.

A figura: Gottfried Fuchs

A nível individual o inglês Harold Walden pode ter vencido o prémio de melhor marcador do(s) torneio(s) mas as luzes da ribalta foram direcionadas para o alemão Gottfried Fuchs, o homem que no primeiro jogo da sua seleção no certame dos derrotados, isto é, o Torneio de Consolação, apontou 10 dos 16 golos com que os alemães bateram a Rússia. Este foi mesmo o “minuto de fama” de Fuchs no planeta da bola, um homem que nasceu a 3 de maio de 1889 em Karlsruher e que cujo currículo de futebolista não vai além daquele célebre jogo das Olímpiadas de Estocolmo onde igualou o recorde do dinamarquês Sophus Nielsen. Judeu, Fuchs foi forçado a deixar o seu país pouco depois da façanha obtida diante da Rússia, para fugir ao Holcausto que vitimou milhares de judeus. O Canadá acolheu Gottfried Fuchs, que viria a morrer em Montreal em 1972, com 82 anos de idade.

Futebol português fez-se representar... no atletismo

Por esta altura do século XX Portugal ainda não havia criado o seu combinado nacional, algo que só viria a acontecer em 1921. Porém um ilustre futebolista lusitano daquela época viajou até Estocolmo para representar as cores nacionais. De seu nome Francisco Stromp, nome mítico do futebol do Sporting Clube Portugal da década de 10 do século passado que esteve em Estocolmo como praticante de... atlestismo. A aventura de Stromp foi no entanto curta, já que não foi além das eliminatórias da prova dos 100m, explicando no seu regresso a Portugal que esta eliminação precoce se tinha ficado a dever ao facto da prova em que participou ter decorrido pouco depois da cerimónia de abertura dos jogos, cerimónia essa onde ele havia ficado cerca de uma hora e meia de pé debaixo de um calor insuportável!


Resultados (Torneio Olímpico):

1ª Fase

29 de junho


Itália – Finlândia: 2-3
(Golos: Bontadini, Sardi / Ohman, Soinio, Wiberg)

Alemanha – Áustria: 1-5
(Golos: Jager / Merz (2), Studnicka, Neubauer, Cimera)

Suécia – Holanda: 3-4
(Golos: Swensson (2), Borjesson / Vos (2), Bouvij (2)

Quartos-de-final

30 de junho


Rússia – Finlândia: 1-2
(Golos: Butusov / Wiberg, Ohman)

Grã-Bretanha – Hungria: 7-0
(Golos: Walden (6), Woodward)

Dinamarca – Noruega: 7-0
(Golos: Olsen (3), Nielsen (2), Wolfhagen, Middelboe)

Holanda – Áustria: 3-1
(Golos: Vos, Ten Cate, Bouvij / Mueller)

Meias-finais

2 de julho


Grã-Bretanha – Finlândia: 4-0
(Golos: Wladen (4))

Dinamarca – Holanda: 4-1
(Golos: Jorgensen, Olsen (2), Nielsen / Hansen (p.b.))

Medalha de bronze

4 de julho


Holanda – Finlândia: 9-0
(Golos: Vos (5), Van der Sluis (2), De Groot (2))

Medalha de Ouro (final)

4 de julho

Grã-Bretanha – Dinamarca: 4-2


Estádio: Olímpico de Estocolmo (Suécia)

Árbitro: Christiaan Groothoff (Holanda)

Grã-Bretanha: Ronald brebner, Thomas Burn, Arthur Knight, Douglas McWhirter, Horace Littlewort, James Dines, Arthur Berry, Vivian Woodward, Harold Walden, Gordon Hoare, Ivan Sharpe.

Dinamarca: Sophus Hansen, Nils Middelboe, Harald Hansen, Charles Buchwald, Emil Jorgensen, Paul Berth, Oskar Nielsen, Axel Thufvesson, Ole Anthon Olsen, Sophus Nielsen, Vilhelm Wolfhagen

Golos: 1-0 (Walden, aos 10m), 2-0 (Hoare, aos 22m), 2-1 (Olsen, aos 27m), 3-1 (Hoare, aos 41m), 4-1 (Berry, aos 43m), 4-2 (Olsen, aos 81m)
Resultados (Torneio de Consolação):

1ª Fase

1 de julho


Áustria – Noruega: 1-0
(Golo: Neubauer)

Suécia – Itália: 0-1
(Golo: Bontadini)

Alemanha – Rússia: 16-0
(Golos: Fuchs (10), Forderer (4), Burger, Oberle)

Meias-finais

3 de julho


Alemanha – Hungria: 1-3
(Golos: Forderer / Schlosser (3))

Itália – Áustria: 1-5
(Golos: Berardo / Grundwald (2), Mueller, Hussak, Studnicka)

Final

5 de julho


Hungria – Áustria: 3-0
(Golos: Bodnar, Schlosser, Pataki)

Legenda das fotografias:
1-Cartaz oficial dos Jogos Olímpicos de 1912
2-A pomposa cerimónia de abertura
3-O inglês Harold Wladen, melhor marcador dos jogos com 11 golos
4-Imagem da final entre Grã-Bretanha e Dinamarca
5-Nova imagem do jogo do título
6-O alemão Fuchs, autor de 10 golos num único jogo
7-Um lance entre italianos e finlandeses
8-Imagem do Áustria - Alemanha
9-Momento do equilibrado duelo entre suecos e holandeses
10-Britânicos não vassilaram ante os magiares
11-Os campeões olímpicos de 1912
12- Hungria, a campeã do Torneio de Consolação

Nota: Texto escrito em 10 de abril de 2012 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

O futebol nos... Jogos Olímpicos de Antuérpia 1920

O eclodir da I Guerra Mundial (1914 - 1918) fez com que aquela que era já considerada a maior manifestação desportiva global - as Olimpíadas - sofre-se um penoso interregno de 8 anos. Durante este período os gritos de vitória das conquistas olímpicas seriam substituídos pelos gritos de medo e sofrimento provocados pelo terror do confronto bélico.Em 1920 tudo voltou - aparentemente - à normalidade, e Antuérpia acolheu a 6ª edição da grande festa desportiva planetária. Pouco mais de 2600 atletas oriundos de 29 países assistiram pela primeira vez na história do evento ao hastear da bandeira olímpica, na qual estavam "cravados" sob um fundo branco 5 anéis de cores diferentes que representavam os 5 continentes do globo, 5 anéis entrelaçados numa simbologia de união entre os povos de todos os continentes, uma união que a guerra tinha roubado mas que olimpismo tinha resgatado. 24 modalidades estiveram em exibição naquela que é apelidada mundialmente como a "cidade dos diamantes", entre as quais o futebol, cujo torneio abria pela primeira vez as portas a uma equipa de outro canto do globo que não da "velha Europa". O "intruso" foi o Egito, que assim dava um colorido diferente ao torneio olímpico, evento que desta forma se começava a aproximar de um verdadeiro campeonato do Mundo, como viria a ser comprovado nas edições seguintes.

Bi-campeões Olímpicos tombam na estreia

6 seleções estiveram presentes no torneio olímpico em 1908, 11 fizeram-no em 1912, e 14 em 1920, um aumento que atestava a popularidade que a competição vinha granjeando de torneio para torneio. 14 seleções que buscavam a glória olímpica, que suspiravam pela coroa do futebol mundial que continuava na posse dos então mestres do futebol planetário, os ingleses. Grã-Bretanha que se apresentava em Antuérpia como bi-campeã olímpica e mais do que isso como a principal candidata a conquistar o ouro em disputa. Mas nem sempre a teoria confirma a prática e logo no primeiro dia de competição os mestres seriam superados pelos aprendizes. De sublinhar que a aparição britânica na Bélgica desagradou a muito boa gente, que não via com bons olhos a presença do combinado campeão olímpico, já que os seus integrantes, isto é, Inglaterra, Escócia, País de Gales, e Irlanda, haviam abandonado a FIFA em protesto contra o facto deste organismo não ter aceite a proposta britânica para banir das suas competições países como a Alemanha, Áustria, e Hungria, os inimigos dos ingleses durante a guerra. A política misturava-se com o desporto. Mesmo não fazendo já parte dos filiados da FIFA os britânicos quiseram participar nos Jogos de 1920, facto que teve o apoio de uns (França e Bélgica) e o desagrado de outros (Estados Unidos da América), sendo que os que torceram o nariz à participação britânica decidiram, em jeito de protesto, não viajar até Antuérpia.
E todos aqueles que se opuseram à participação da Grã-Bretanha nos Jogos Olímpicos de 1920 devem ter rejubilado quando a 28 de agosto, dia em que a bola começou a rolar, a frágil e desconhecida Noruega espantou o Mundo ao bater os mestres por 3-1 (!) e envia-los mais cedo do que o previsto para casa. Os britânicos justificariam esta surpreendente derrota com os factos de terem chegado a Antuérpia apenas dois dias antes do jogo de estreia, e de não terem podido contar com o seu jogador-estrela, o avançado Max Woosnam, que havia preferido representar as cores da sua bandeira nas Olimpíadas noutra modalidade que não o futebol, mais concretamente no ténis. O afastamento prematuro dos principais candidatos ao ouro olímpico dilatou ainda mais o ego dos anfitriões. Antes do início do torneio olímpico os belgas eram talvez os únicos a acreditar que a sua equipa podia ficar no lugar mais alto do pódio, ainda para mais depois de num encontro amigável - disputado em fevereiro desse ano de 1920 - terem derrotado a "armada britânica" por 3-1. Ainda na 1ª fase do torneio olímpico é de sublinhar a entrada vitoriosa de duas equipas que faziam a sua estreia nesta competição, a Espanha e a Checoslováquia. Os espanhóis apresentavam-se pela primeira vez na alta roda do futebol internacional, e nesta primeira aparição ao Mundo fizeram as delícias de quem os viu jogar. Rezam as crónicas que formavam um conjunto aguerrido e ambicioso, que viria a personificar a atual "fúria espanhola", o estilo que caracteriza o futebol deste país do sul da Europa. Espanha que no torneio olímpico de 1920 foi liderada desde a... baliza, é verdade, onde aparecia um homem que não muitos anos depois haveria de ser tornar num mito do futebol mundial: Ricardo Zamora. Com 19 anos o jovem guarda-redes nascido em Barcelona fez a estreia pelo seu país precisamente nos Jogos de Antuérpia, ante a experiente Dinamarca (já sem a sua estrela das Olimpiadas de 1908, o goleador Sophus Nielsen), que em Bruxelas (cidade que acolheu alguns jogos do torneio) seria derrotada pela "fúria" por 0-1, graças a um remate certeiro de Patricio Arabolaza e... a uma soberba exibição de Zamora.
Quanto aos checoslovacos esmagaram a Jugoslávia por 7-0, com realce para os hattricks de Jan Vanik e Antonin Janda. Goleada foi também o resultado final do desequilibrado duelo entre suecos e gregos (também estes a fazerem a sua estreia nas andanças olímpicas), o qual terminou com uns expressivos 9-0 a favor dos escandinavos, com o avançado Herbert Karlsson a fazer o gosto ao pé em 5 ocasiões. Sem surpresas a Holanda afastou o Luxemburgo por 3-0, ao passo que o único conjunto "não europeu" em competição, o Egito, vendeu muito cara a derrota (1-2) ante a Itália num jogo ocorrido em Gent.

Equipa da casa confirma favoritismo

Nos quartos-de-final entraram em ação as duas equipas que tinham ficado isentas da 1ª fase, a França e a equipa da casa, a Bélgica. Os franceses procuravam limpar a má imagem deixada no torneio de 1908, realizado em Londres, e para isso contrataram o experiente treinador inglês Fred Pentland para levar o combinado nacional o mais longe possível na competição. Porém, os problemas teimavam em fazer parte do universo do futebol gaulês. Dois dos melhores jogadores da época, os avançados Paul Nicolas e Henri Bard, desentenderam-se com os responsáveis da seleção, recusando-se a treinar com o resto do grupo. Mesmo assim foram peças fundamentais para que no dia 29 de agosto os blues derrotassem a Itália por 3-1, tendo Bard e Nicolas apontado um golo cada um. O mesmo resultado foi alcançado pelos belgas, que numa tarde de inspiração da sua principal estrela, o avançado Robert Coppée, afastaram uma Espanha lutadora, mas visivelmente cansada após a batalha travada na véspera ante os dinamarqueses. Coppée foi mesmo o herói do encontro, ao apontar os 3 golos belgas para gaúdio dos 18 000 espetadores que marcaram presença no estádio olímpico. Equilibrado foi o confronto entre holandeses e suecos, decidido apenas no prolongamento a favos dos homens do país das tulipas (5-4). Apesar de eliminados, os nórdicos levaram para casa o "título" de melhor marcador do torneio, graças ao seu eficaz dianteiro Herbert Karlsson, que com 2 tentos ante os holandeses deixou Antuérpia com um total de 7 remates certeiros, que lhe valeria então a coroa de rei dos marcadores das Olimpíadas de 1920.
Bom futebol continuavam a demonstrar os checoslovacos, que em Bruxelas voltavam a golear, desta feita a Noruega por 4-0, com Antonin Janda a fazer um novo hattrick.

Franceses voltam a falhar o ouro e... abandonam a competição tal como em 1908

Após um dia de descanso o torneio olímpico regressou à ação a 31 de agosto com as meias-finais como cabeça de cartaz. E no primeiro jogo a Checoslováquia provava que não tinha vindo a Antuérpia fazer turismo, muito pelo contrário. Mais do que praticar bom futebol o conjunto de leste esmagava os seus opositores, e depois dos jugoslavos e dos noruegueses era agora chegada a vez dos franceses provarem do veneno checoslovaco, como comprova o expressivo resultado de 4-1 a favor destes. Mais uma vez a França saia fora da corrida mais cedo do que o previsto! E mais do que isso voltavam a demonstrar uma enorme falta de fair-play, já que após a derrota optaram de imediato por abandonar a competição, abdicando do jogo da disputa pela medalha de bronze, tal como acontecera em 1908.
Na outra meia-final o estádio olímpico registou uma enchente de 22 000 pessoas que assistiram a uma vitória tranquila da Bélgica diante dos vizinhos holandeses por 3-0, continuando desta forma o sonho de toda uma nação em ver a sua equipa suceder à Grã-Bretanha como a nova campeã olímpica, ou campeã do Mundo, se preferirem.
Neste mesmo dia realizou-se o primeiro jogo do torneio de consolação, que juntava os derrotados dos quartos-de-final. No primeiro duelo da competição dos derrotados a Itália batia a Noruega por 2-1. Igual resultado foi conseguido a 1 de setembro pela Espanha diante da Suécia.

Checoslovacos entregam o ouro aos anfitriões numa final caótica!

No dia 2 de setembro de 1920 toda a Bélgica parou. A ocasião não era para menos já que a sua seleção estava muito perto de alcançar o Olimpo dos Deuses do futebol. Mas para isso havia que ultrapassar uma das equipas sensação da prova, a poderosa Checoslováquia. O duelo começou mais cedo que o previsto, com a imprensa belga a acusar os seus adversários de serem um dos causadores do despoletar da I Guerra Mundial, implantando assim no povo belga uma sede de vingança e um sentimento de ódio face ao país de leste. Mais uma vez o futebol e a política surgiam de mãos dadas! Com o clima incendiado o estádio olímpico registou a sua maior enchente até então, tendo a organização tido a necessidade de fechar as portas do recinto bem antes do pontapé de saída da grande final, barrando assim a entrada aos muitos espetadores que se encontravam fora do estádio. E às 17H30 as duas equipas entram em campo debaixo de um ambiente frenético. E mais frenético ficaria quando aos 6 minutos a equipa da casa se adianta no marcador graças a uma grande penalidade apontada pela grande estrela da equipa, Coppée, num lance onde os checos protestariam vivamente contra a decisão do árbitro. Os ânimos continuavam exaltados dentro do retângulo de jogo, com as duas equipas a usarem e abusarem do jogo agressivo. O experiente árbitro inglês John Lewis mostrava-se incompreensivelmente nervoso face ao desenrolar dos acontecimentos. As faltas sucediam-se de minuto a minuto perante a passividade do juiz.E à passagem do minuto 30 Henri Larnoe ampliou a vantagem dos belgas para a explosão natural das bancadas maioritariamente preenchidas com adeptos da equipa da casa. E eis que 9 minutos depois os checoslovacos perderiam de vez a estribeiras. Karel Steiner comete uma falta sem grande dureza sobre a estrela da companhia belga, Robert Coppée, o qual se atira de forma teatral para o chão queixando-se de uma agressão. Sem complacências o árbitro britânico expulsa Steiner, uma decisão que levou o capitão de equipa checoslovaca, o criativo médio Karel Pesek, a abandonar também o relvado em solidariedade com o seu companheiro. E para espanto de todos os presentes os restantes 9 jogadores do combinado de leste imitariam os seus colegas de equipa. A partida ficou suspensa para revolta dos adeptos que lotavam o estádio olímpico, os quais invadiram o campo numa tentativa de agredir os desertores checoslovacos que só conseguiram sair com vida de Antuérpia graças à pronta intervenção do exército belga. O critério parcial do árbitro, a dureza dos belgas, e a hostilidade do público seriam os argumentos que os visitantes apresentariam para justificar o abandono da contenda. Assim sendo a organização não teve dúvidas em atribuir a vitória à Bélgica, que assim se proclamava campeã... do Mundo, tendo os seus jogadores sido levados em ombros por um público em absoluto delírio. A nação alcançava assim a sua maior vitória no planeta do futebol - até à presente data -, um triunfo que mesmo ensombrado pelos acontecimentos na final de Antuérpia é ainda hoje exultado com orgulho pelo povo belga.

Quem fica com a medalha de prata?

Há contudo quem ainda hoje defenda que esta foi um dos títulos mais vergonhosos alcançados por uma equipa de futebol. No entanto a decisão da Checoslováquia não deixou aos responsáveis olímpicos outra saída que não a atribuição do título à Bélgica, ficando no entanto com outro problema entre mãos: quem ficaria com a medalha de prata. Ao abandonar o torneio os checoslovacos perderam automaticamente o direito de ficar com a prata, pelo que a organização teve de encontrar uma solução. Não foi uma decisão fácil, muito confusa na verdade, já que uma série de jogos extra tiveram de ser jogados para se achar o dono da prata olímpica de 1920. E a solução recaiu sobre o Torneio de Consolação, cuja final teve um emocionante Itália - Espanha, disputado também a 2 de setembro, que terminou com uma vitória espanhola por 2-0. E seria na qualidade de vencedora da competição dos derrotados que a Espanha ganhou o direito de discutir com a Holanda a medalha de prata dos Jogos Olímpicos de 1920. Holandeses que, recorde-se, também estavam sem adversário na disputa pelo bronze, já que a França (semi-finalista derrotada) havia amuado e feito as malas de forma antecipada. E no espaço de uma semana a Espanha passou de derrotada (nos quartos-de-final) a vice-campeã olímpica, ou mundial, atendendo à época, depois de no dia 5 de setembro derrotar no estádio olímpico a Holanda por 3-1 - com mais uma exibição monumental de Zamora - e levar para casa a medalha de prata. Já os holandeses ficavam com o bronze pela terceira vez consecutiva!

A figura: Ricardo Zamora

Foi para muitos o primeiro grande astro das balizas mundiais, um nome que hoje figura a letras douradas na Grande Enciclopédia do Futebol. Ricardo Zamora, um "imortal" que nasceu em Barcelona a 21 de janeiro de 1901 e que se deu a conhecer ao Mundo precisamente nos Jogos Olímpicos de Antuérpia, onde tal como a sua Espanha fez a estreia na alta roda internacional. Zamora começou a jogar futebol no Espanyol de Barcelona, aos 16 anos, ai permanecendo até aos 19, altura em que divergências com o clube catalão levaram-no a mudar de armas e bagagens para o rival FC Barcelona. Exibições monumentais, defesas impossíveis de fazer, e uma postura elegante nas balizas aliada a uma voz de comando por todos respeitada fizeram dele o grande ícone do futebol espanhol das décadas de 20 e 30 do século passado. Sem surpresa foi chamado em 1920 para defender a baliza da Espanha no torneio olímpico, assumindo sem medo o papel de líder de uma equipa que traria para casa a primeira grande vitória do futebol castelhano: a medalha de prata. Zamora foi o herói da Espanha nos jogos que esta seleção disputou em Antuérpia e haveria de sê-lo em muitas, mas muitas, outras ocasiões nas 46 ocasiões em que vestiu a camisola da seleção. Episódio curioso após a epopeia olímpica deu-se aquando do regresso a Espanha, altura em que Ricardo Zamora seria preso por contrabandear charutos de Havana, os charutos que ele tanto gostava de fumar! Em 1922 abandona o FC Barcelona e regressa ao seu Espanyol, após ter feito as pazes com os dirigentes deste clube, os quais apercebendo-se do diamante que haviam perdido para o rival Barça não descansaram enquanto não o repescaram. El Divino, a alcunha que entretanto conquistara graças as suas performances, permaneceria nos azuis e brancos da Cidade Condal até 1930, altura em que se transferiu para o Real Madrid, clube que pagou 100 000 pesetas ao Espanyol para contratar o astro das balizas, o qual passaria a receber cerca de 40 000 pesetas por ano! Uma loucura, uma palavra que de imediato se fez ouvir para descrever a primeira grande transferência do futebol espanhol. O que é certo é que Zamora provaria em campo que valia esse e muito mais dinheiro, fazendo pelos madrilenos algumas das melhores exibições da sua longa e rica carreira. Ali ficou até 1936, conquistando 2 campeonatos (1931/32 e 1932/33) e outras tantas Copas del Rey (1933/34, 1935/36). Antuérpia foi o ponto de partida para o reconhecimento internacional e Itália seria a definitiva coroação deste homem. 1934 é o ano em que Itália recebe a 2ª edição do Campeonato do Mundo, uma prova que tinha em Zamora uma das suas principais estrelas. Il Divino era na altura para muitos o melhor guarda-redes do Mundo, pelo que em solo transalpino não fez mais do que confirmar essa... certeza. Esteve magnífico a defender a baliza de uma Espanha que apenas seria ultrapassada pela batota italiana imposta pelo ditador Benito Mussolini que queria levar a Squadra Azzurra ao trono do Mundo fosse de forma fosse. O poder político espanhol rendeu-se a Zamora, condecorando-o em diversas ocasiões, mas também castigando-o severamente noutras. Durante a Guerra Civil fez-se eco por toda a Espanha que havia sido morto pelos republicanos, mas na verdade a lenda estava mais viva do que nunca. Esteve preso, foi solto e enviado para exílio na Argentina e em França, país onde encerraria a sua gloriosa carreira ao serviço do Nice, em 1938. Depois de penduradas as botas treinou vários clubes... e continuou a receber louvores vindos de todos os quadrantes da sociedade espanhola. A federação de futebol daquele país instituiu em 1959 o Troféu Zamora, que de lá para cá, todos os anos, premeia o guarda-redes menos batido do campeonato espanhol. Morreu a 8 de setembro de 1978 o homem tido por muitos como o primeiro grande guardião do futebol mundial.

Resultados

1ª fase

28 de agosto de 1920

Jugoslávia - Checoslováquia: 0-7
(Vanik, aos 20, 46m, 79m, Janda, aos 34m, 50m, 75m, Sedlacek, aos 43m)

Grã-Bretanha - Noruega: 1-3
(Nicholas, aos 25m)
(Gundersen, aos 13m, 51m, Wilhelms, aos 63m)

Itália - Egito: 2-1
(Baloncieri, aos 25m, Brezzi, aos 57m)
(Osman, aos 30m)

Dinamarca - Espanha: 0-1
(Arabolaza, aos 54m)

Suécia Grécia: 9-0
(Karlsson, aos 15m, 20m, 21m, 51m, 85m, Olsson, aos 4m, 79m, Wicksell, aos 25m, Dahl, aos 31m)

Holanda - Luxemburgo: 3-0
(Groosjohan, aos 47m, 85m, Bulder, aos 30m)

Quartos-de-final

29 de agosto de 1920

Holanda - Suécia: 5-4
(Groosjohan, aos 10m, 57m, Bulder, aos 44m, 88m, De Natris, aos 115m)
(Karlsson, aos 16m, 32m, Olsson, aos 20m, Dahl, aos 72m)

França - Itália: 3-1
(Boyer, aos 10m, Nicolas, aos 14m, Bard, aos 54m)
(Brezzi, aos 33m)

Checoslováquia - Noruega: 4-0
(Janda, aos 17m, 66m, 77m, Vanik, aos 8m)

Bélgica - Espanha: 3-1
(Coppée, aos 11m, 52m, 55m)
(Arrate, aos 62m)

Meias-finais


31 de agosto de 1920

Checoslováquia - França: 4-1
(Mazal, aos 18m, 75m, 87m, Steiner, aos 70m)
(Boyer, aos 79m)

Bélgica - Holanda: 3-0
(Larnoe, aos 46m, Vanhege, aos 55m, Bragard, aos 85m)

Final

2 de setembro de 1920

Bélgica - Checoslováquia: (jogo anulado pela desistência dos checoslovacos, tendo sido atribuída a vitória aos belgas)

Torneio de Consolação

31 de agosto de 1920

Itália - Noruega: 2-1
(Sardi, aos 46m, Badini, aos 96m)
(Andersen, aos 41m)

1 de setembro de 1920

Espanha - Suécia: 2-1
(Belauste, aos 51m, Acedo, aos 53m)
(Dahl, aos 28m)

2 de setembro de 1920

Itália - Espanha: 0-2
(Sesumaga, aos 43m, 72m)

Jogo de atribuição da medalha de prata

5 de setembro de 1920

Holanda - Espanha: 1-3
(Groosjohan, aos 68m)
 (Sesumaga, aos 7m, 35m, Pichichi, aos 72m)

Legenda das fotografias:
1-Cartaz oficial dos Jogos Olímpicos de 1920
2-O guarda-redes espanhol Ricardo Zamora em pleno voo após uma grande defesa ante a Dinamarca...
3-...e a tirar o golo da cebeça a Robert Coppée no encontro com a Bélgica
4-Nem o experiente treinador inglês Fred Pentland conseguiu levar a França ao ouro olímpico
5-A estrela da Bélgica, Robert Coppée, marca, de grande penalidade, o primeiro golo da final
6-A aguerrida seleção espanhola
7-A grande figura dos Jogos de 1920: Il Divino Ricardo Zamora
8-A birrenta seleção francesa
9-Robert Coppée, o astro belga
10-Capitães de Checoslováquia e Bélgica escutam o árbitro Lewis antes da atribulada final
11-Os novos campeões olímpicos: a Bélgica

Nota: texto escrito em 20 de julho de 2012 no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

O futebol nos... Jogos Olímpicos de Paris 1924

Paris, a deslumbrante capital francesa assistiu em 1924 a um dos mais belos capítulos da história do futebol mundial, orquestrado por um virtuoso conjunto de futebolistas oriundos de um pequeno país sul americano de apenas 3 milhões de habitantes que conferiram ao jogo um misto de arte e fantasia nunca dantes interpretado por nenhum outro artista do pontapé da bola. Um facto ocorrido debaixo dos holofotes dos Jogos Olímpicos do citado ano, numa cidade à qual foi dada uma espécie de segunda oportunidade para mostrar ao restante globo terrestre a sua eficiência - e merecimento - em dar vida àquele que era já de forma indiscutível um dos maiores eventos planetários. Nunca será demais relembrar que 24 anos antes Paris tinha sedeado a II edição das Olímpiadas da Era Moderna, certame inserido no programa da Exposição Universal que em 1900 teve lugar na "cidade luz" e que seria rotulado como um profundo fracasso, desde logo pela razão de que não tinha sido mais do que um mero apontamento de entretenimento paralelo da dita exposição. Querendo apagar essa - má - imagem o recriador dos Jogos Olímpicos, e na época presidente do Comité Olímpico Internacional, o barão Pierre de Coubertin, fez de tudo - fazendo frente a inúmeras vozes de oposição - para que a sua cidade natal pudesse voltar a sedear os Jogos. A batalha seria ganha, e Paris tratou desde logo de se preparar para não repetir os erros cometidos em 1900. Foram construídas diversas infraestruturas desportivas, sendo a mais vistosa de todas elas o magnífico Estádio des Colombes, o local idealizado para acolher a esmagadora maioria das modalidades dos Jogos de 1924. Novidade seria a edificação de uma aldeia olímpica, uma espécie de complexo habitacional onde os atletas das nações participantes ficariam instalados. Atletas que seriam aproximadante 3100, em representação de 44 países, um número recorde na história da competição até então. E recorde seria igualmente o número de participantes no torneio olímpico de futebol, 22 em termos exatos, mais 8 que aqueles que tinham marcado presença quatro anos antes em Antuérpia, numa demonstração clara da popularidade que o torneio ia angariando de edição para edição entre as nações. A corrida ao título mundial - não será demais recordar que era desta forma que o torneio olímpico era encarado pela família do futebol - teve início a 25 de junho de 1924, quando no Stade des Colombes mediram forças duas potências futebolísticas da época - e cujo poder continua a ser bem evidente nos dias de hoje -, mais precisamente a Espanha e a Itália. Espanhóis que continuavam a ter como grande estrela o guarda-redes Ricardo Zamora, o qual 4 anos antes havia tido um papel fundamental na conquista da medalha de prata pelo combinado ibérico nos Jogos Olímpicos de Antuérpia. Do lado transalpino as luzes da ribalta focavam-se sobretudo no treinador Vittorio Pozzo, lendário mestre da tática que procurava apagar a má imagem deixada pela "squadra azzurra" no Torneio Olímpico de 1912, em Estocolmo, onde havia caído de forma prematura e surpreendente aos pés da frágil Finlândia. Em Paris a Itália mostrou outra atitude, e essencialmente talento futebolístico, pese embora tivesse de suar a camisola para afastar a forte e aguerrida seleção espanhola da 1ª eliminatória dos Jogos de 1924. Numa partida marcada pelo equilíbrio valeu à Itália o infortúnio do defesa espanhol Pedro Vallana, que aos 84 minutos do duelo traiu o seu companheiro Zamora ao introduzir o esférico na sua baliza e desta forma apontar o único golo da contenda, o qual garantia aos pupilos de Pozzo o passaporte para a ronda seguinte. Ainda no dia 25 deu-se a estreia de duas seleções em andanças olímpicas, nomeadamente a Suíça e a Lituânia. Foram mais felizes, muito mais na verdade, os helvéticos, que comandados pela sua estrela-mor Max Abegglen esmagariam a equipa do leste europeu por 9-0 (!), com destaque para o próprio Abegglen, autor de 3 golos, e de Paolo Sturzenegger, autor de 4 remates certeiros. Mas a epopeia suíça não se ficaria por aqui, como mais à frente iremos ver.
Sem dificuldades a Checoslováquia - uma das surpresas das Olímpiadas de 1920 - derrotou a estreante Turquia por 5-2, enquanto que no derradeiro jogo do dia os Estados Unidos da América - também eles a fazerem a sua estreia em matéria de Torneio Olímpico - batiam a Estónia por 1-0, graças a um golo de Andrew Stradan.

Mágicos uruguaios entram em ação

E no dia 26 de junho de 1924 o mundo do futebol iria sofrer uma verdadeira revolução... no bom sentido. Neste dia, que haveria de ter contornos célebres, entrou em ação o estreante Uruguai, pequeno país da América do Sul cujo futebol era uma verdadeira incógnita para as restantes seleções presentes. Dizer que com a entrada em cena dos uruguaios e dos norte-americanos, na véspera, o Torneio Olímpico abria assim as suas portas a países de fora da Europa e de África, tornando-se assim e agora num verdadeiro Campeonato do Mundo. Conforme já foi referido pouco ou quase nada se sabia dos uruguaios, sabendo-se somente que eram os reis do desconhecido reino futebolístico da América do Sul a julgar pelas 4 Copas América - em 7 edições disputadas até à data - que ostentavam no seu currículo. Mas isso não significava nada para os europeus, cientes da sua mestria da arte de manusear a bola.
Assim terão pensado inicialmente os jugoslavos, os oponentes do Uruguai na 1ª eliminatória dos Jogos de Paris, conforme recordou anos mais tarde o mítico jornalista uruguaio Eduardo Galeano, ao contar que aquando do visionamento de um treino da seleção sul-americana os espiões jugoslavos - jogadores e equipa técnica - terão desatado à gargalhada após verem in loco a falta de jeito dos seus adversário para com a bola. Bolas chutadas para as bancadas, choques atabalhoados entre os jogadores e dezenas de passes errados fizeram crer ao conjunto europeu que passar à fase seguinte seria uma tarefa mais do que fácil peramte os aparentemente toscos uruguaios. Mas só aparentemente, porque na realidade esta fraca performance patenteada no treino não foi mais do que uma tática para enganar os jugoslavos, na tentativa de os fazer acreditar que a vitória era mais do que certa perante tamanha falta de jeito. Tática essa que resultou em pleno, tendo a Jugoslávia entrado em campo totalmente relaxada e mais do que convencida que este não seria mais que um mero jogo-treino. Como que num ápice de magia os toscos uruguaios tranformaram-se em magistrais intérpretes do futebol, apresentando ao público parisiense um jogo alegre, solto, e tecnicamente atrativo, mais parecendo que o "onze" proveniente da América do Sul bailava ao som de um tango de Carlos Gardel. Resultado final: 7-0 a favor do Uruguai diante dos destruídos e pasmados fanfarrões jugoslavos, que por certo nunca mais iriam esquecer aquela lição. De imediato as atenções do torneio olímpico recairam no Uruguai, naquele pequeno país cujo desconhecido futebol havia de imediato apaixonado os parisienses que na tarde de 26 de junho se deslocaram ao Stade des Colombes. Na retina dos presentes ficaram sobretudo os bailados futebolísticos de nomes como Pedro Cea, Hector Scarone, José Nasazzi, Pedro Petrone, e de um tal Jose Leandro Andrade, um negro que haveria de sair destes Jogos Olímpicos endeusado pelo povo da capital francesa.
No último jogo da eliminatória a Hungria bateu sem dificuldades a estreante Polónia por 5-0.

Campeões olímpicos humilhados!

No dia 27 de junho arrancou a 2ª eliminatória da competição, com a entrada em campo da medalha de bronze das três primeiras edições do Torneio Olímpico, a Holanda, ante a estreante Roménia. Duelo sem história conforme traduz o resultado de 6-0 a favor dos holandeses, com destaque para o poker (4 golos) apontado por Cornelis Pijl. No outro jogo do dia o Stade de Paris (um dos quatro estádios da capital gaulesa onde foram disputados os encontros do Torneio Olímpico) engalanou-se para receber a seleção da casa, a França, que partia com a ambição de dar uma alegria ao seu povo, apresentando na competição alguns dos seus melhores atletas de então, casos de Paul Nicolas, Henri Bard, ou Jean Boyer. E a caminhada gaulesa até nem começou mal, muito pelo contrário, com a estreante Letónia a ser esmagada por 7 golos sem resposta. No dia seguinte mais duas seleções fizeram a sua estreia, casos da Bulgária e da República da Irlanda, as quais mediram forças entre si, acabando o triunfo por pender para os irlandeses por 1-0. Equilibrado seria o confronto entre a Suiça e a Checoslováquia, uma antevisão impensável à partida para este encontro, mesmo tendo em conta a veia goleadora dos helvéticos na 1ª eliminatória, uma vez que os checoslovacos eram tidos como uma das grandes equipas do futebol de então. Os suíços não se amedrontaram, e no final dos 90 minutos o resultado era de 1-1, para espanto dos presentes, tendo havido a necessidade de ser disputado um jogo de desempate a acontecer dois dias mais tarde.
Antes disso, e no dia 29, escândalo foi a palavra que pairou com maior intensidade sobre o Torneio Olímpico. A campeã olímpica em título, a Bélgica, entrava em campo determinada a repetir o feito conquistado quatro anos antes, contando para isso com a maior parte dos heróis de Antuérpia. O oponente até nem era dos mais poderosos, já que dava pelo nome de Suécia. Porém, da teoria à prática o caminho é distante e muitas vezes sinuoso... como traduz o impensável resultado de 8-1 a favor dos suecos! Os campeões haviam sido humilhados e nem a sua estrela principal, o temível avançado Robert "canhão" Coppee, lhes valeu. Pela segunda vez consecutiva aparecia no evento o Egito, o único representante do continente africano, que em Paris alcançava a sua primeira vitória olímpica depois de ter batido a Hungria por 3-0. No Stade Pershing, situado no famoso bosque de Vincennes, a Itália de Vittorio Pozzo despachava o modesto Luxemburgo por 2-0, com destaque para a exibição do célebre avançado do Bolonha Giuseppe Della Valle, autor de um dos tentos da azzurra. E no derradeiro encontro do dia 29 de junho a magia voltou a estar à solta em Paris. Com uma curiosidade redobrada na sequência dos ecos lançados pela imprensa francesa após a deslumbrante exibição diante da Jugoslávia, 10 000 espetadores deslocaram-se ao Stade Bergeyre para ver in loco os artistas vindos do Uruguai. O entusiasmo em torno do conjunto sul-americano era enorme por parte dos parisienses, e em especial sobre o negrito Andrade, o homem que bailava com a bola nos pés. E quem teve o privilégio de marcar presença em Bergeyer não se terá arrependido, muito longe disso, já que os mágicos uruguaios realizariam mais uma exibição de luxo ante os Estados Unidos da América, culminada com uma inequivoca vitória por 3-0, com dois tentos do goleador Pedro Petrone e um do polivalente - atuava em qualquer zona do terreno ! - Hector Scarone, um homem cuja lenda diz que cantava enquanto jogava! Neste mesmo estádio, e no dia seguinte, a Suíça voltava a surpreender os amantes do futebol. Graças a mais uma ótima atuação voltou a fazer a vida negra aos favoritos checoslovacos no jogo de desempate entre as duas equipas, acabando por vencer por 1-0 e seguir desta forma para os quartos-de-final... contra todas as previsões iniciais.

Gauleses rendidos ao encanto uruguaio... mais uma vez

Após um dia de descanso a bola voltou a rolar no dia 1 de junho para o pontapé de saída dos quartos-de-final, e logo com uma espécie de final antecipada, um encontro que colocou frente a frente a seleção da casa a um dos conjuntos sensação do torneio, o Uruguai. A espetativa em torno do duelo era enorme, podendo mesmo dizer-se que Paris parou nessa tarde, tendo os Colombes registado a sua maior enchente até então: 30 000 espetadores! 30 000 almas divididas entre o patriotismo francês e o fascínio pelo jogo sul-americano. A habilidade uruguaia levaria a melhor conforme explica o expressivo resultado de 5-1 a seu favor na sequência de mais um memorável bailado futebolístico de jogadores como Scarone, Petrone (ambos com 2 golos cada na conta pessoal deste encontro) Romano, Cea, ou Andrade, último jogador este que despertava cada vez mais paixões dentro e fora do campo, neste último aspeto pelas damas parisienses, cujos suspiros pelo invulgar corpo musculado "pintado" em tons de negro subiam de intensidade sempre que com ele se cruzavam nas míticas e encantadoras artérias da "cidade luz". No mesmo dia a Suécia voltava a evidenciar o seu poder de fogo, após aplicar uma nova goleada, desta feita ao Egito por 5-0. No dia 2 de junho a experiente - em andanças olímpicas - Holanda sentiu grandes dificuldades para derrotar o exêrcito irlandês. Seria só no prolongamento que Ocker Formanoij carimbaria o passaporte das tulipas - ao fazer o 2-1 final - para a 4ª meia final consecutiva em torneios olímpicos. E como não há duas sem três a Suíça voltou a fazer das suas no derradeiro encontro dos quartos-de-final. Desta feita as vitimas foram os italianos, os quais sucumbiam por 1-2 ante Max Abegglen - autor de um golo - e companhia.

Vitórias suadas das duas surpresas do torneio

Um jogo intenso e deveras duro, assim pode ser caracterizado o último obstáculo do Uruguai rumo à final olímpica. A Holanda fez o que pôde para contrariar o talento dos sul-americanos, jogando nos limites da dureza, em alguns momentos do encontro, para impedir o óbvio: a passagem uruguaia ao jogo decisivo. Facto que acabaria por acontecer a 6 de junho, graças a um golo apontado por Scarone na conversão de uma grande penalidade aos 81 minutos. Isto depois de as tulipas terem estado em vantagem no marcador! Pedro Cea empatou aos 62 e Scarone fez então o 2-1 final a menos de 10 minutos do apito final do francês Georges Vallat. Após o encontro os holandeses protestaram contra a grande penalidade que deu o triunfo aos sul-americanos, protesto esse que no entanto de nada valeu.
Intenso e equilibrado havia sido igualmente o encontro da véspera, que opôs os surpreendentes suíços aos mortíferos suecos. O resultado foi idêntico, 2-1, a favor dos helvéticos, que bem puderam agradecer à sua estrela-mor Max Abegglen, autor dos dois remates certeiros da sua equipa. O que é certo é que as duas equipas surpresa do torneio estavam na final... contra todas as previsões iniciais, inclusive as dos próprios suíços, cuja viagem de regresso a casa havia sido marcada para alguns dias antes da final! Não acreditando que a sua equipa podia avançar mais do que uma eliminatória, na melhor das hipóteses, os dirigentes helvéticos prepararam o seu orçamento para apenas 10 dias de estadia, precisamente o tempo de validade da passagem de comboio adquirida antes da partida para Paris. Ora, como a aventura do país neutral em terras gaulesas demorou bem mais do que esse período o jornal Sport efetuou uma petição junto dos seus leitores para que pudessem ajudar a custear as despesas da delegação suíça por mais alguns dias, uma vez que federação daquele país há muito que havia esgotado os seus parcos recursos financeiros. A dita petição foi concluída com sucesso, e os pupilos do inglês Edward Duckworth puderam sonhar por mais alguns dias com o título de campeões... do Mundo.

Uruguai sobe ao trono do futebol mundial com naturalidade

No futebol o amor e ódio são dois sentimentos que caminham muitas vezes de mãos dadas, e na final olímpica de 9 de junho de 1924 esta "parelha" esteve bem vincada. O futebol arte dos uruguaios podia despertar os corações de muito boa gente, mas também não é menos certo que a campanha triunfal dos suíços havia granjeado a simpatia de muitos parisienses. Era pois com um sentimento dividido que muitos dos mais de 40 000 espetadores que lotaram as bancadas do Stade des Colombes - diz-se que cerca de 10 000 pessoas ficaram às portas do estádio sem terem conseguido bilhete ! - visionaram a final dos Jogos Olímpicos de 1924. Os sul-americanos cedo impuseram o seu futebol-arte sobre o bem tratado relvado parisiense, colocando em ação um sufucante ritmo ofensivo suportado por uma sedutora combinação de passes a meio campo e uma eficaz segurança defensiva, no fundo a essência do invulgar estilo que os uruguaios haviam apresentado à Velha Europa, um continente habituado ao jogo físico e bolas pelo ar! Com um toque de bola rápido e de beleza ímpar acompanhado de dribles mágicos, rapidamente a multidão parisiense ficou rendida - uma vez mais - à arte uruguaia, que com toda a naturalidade do Mundo chegou à vantagem logo aos 6 minutos, por intermédio de Petrone, jogador que com este tento aumentava para 8 o número total de remates certeiros em todo o Torneio Olímpico, selando difinitivamente a conquista do título de rei dos goleadores. Na 2ª parte Pedro Cea ampliou a vantagem ao minuto 65, e El Loco Romano fecharia a contagem aos 82. 3-0, resultado final que permitia ao Uruguai ascender ao trono do futebol mundial pela primeira vez. O futebol arte havia triunfado com justiça, um novo estilo de interpretar o jogo que faria escola dali em diante, e que seria adotado por muitas outras seleções, pese embora sem o perfume dos uruguaios. Após a histórica conquista a festa estoirou entre a comitiva sul-americana, tendo a modesta unidade hoteleira onde os charrúas estavam instalados oferecido um jantar aos novos campeões... mundiais. Tal como nos relvados José Leandro Andrade foi o centro das atenções na festa de consagração, das atenções e dos olhares femininos que seguiam com precisão os dotes de exímio bailarino do primeiro grande jogador negro da história do futebol.
Quanto à medalha de bronze essa ficou na posse dos suecos, que foram obrigados a horas extras para retirar aos holandeses uma medalha que estes ostentavam há já três Olimpiadas consecutivas. Depois de um empate a uma bola no primeiro jogo os suecos venceram por 3-1 no encontro de desempate, subindo desta forma ao último lugar do pódio de um torneio histórico, um torneio que revelou ao Mundo uma das mais brilhantes e vibrantes equipas de todos os tempos: os magos do Uruguai.

A figura: José Leandro Andrade

Paris vivia sob a influência dos loucos anos 20, no rescaldo da Belle Époque, que atraiu à "cidade luz" um elevado número de artistas de diferentes áreas, na procura de um estilo de vida desprendido assente na cultura e no devertimento sem barreiras. Em Paris não havia limites, viver, no verdadeiro significado da palavra, era a única regra. O estilo de vida mundano era adotado sem limites pelos parisienses em geral, que procuravam o prazer - visual, pelo menos para a maior parte deles - nas curvas sensuais da bela Josephine Baker, uma negra norte-americana que fazia as delícias dos frequentadores dos cabarets do Pigale graças aos seus sensuais espetáculos de striptease. Josephine Baker foi de facto a primeira negra a seduzir Paris, mas não seria a única. Em 1924 a "cidade luz" rendeu-se a um outro negro, um talentoso futebolista que brilhou no Torneio Olímpico desse ano, José Leandro Andrade era o seu nome. Sobre ele o Museu Virtual do Futebol já dedicou um capítulo mais detalhado aquando de uma visita à vitrina onde repousam as grandes lendas do futebol, pelo que neste capítulo dedicado aos Jogos de 1924 iremos apenas recordar em linhas gerais quem foi o primeiro astro negro do futebol planetário.
José Leandro Andrade nasceu a 3 de Outubro de 1901 em Salto, começando a dar os primeiros pontapés na bola no bairro de Palermo. Atuava tanto como médio defensivo como defesa (direito ou esquerdo) e cativou o mundo com a sua eficácia, elegância, inteligência e técnica de jogar futebol. Mais parecendo um felino com a bola nos pés iniciou a sua carreira no Misiones, passando depois pelo Bella Vista, Nacional, Penharol e Wanderers, todos emblemas uruguaios. Seria no Nacional que viveria alguns dos anos mais felizes da sua carreira, vencendo os campeonatos do seu país de 1922 e 1924. Pelo emblema de Montevideu participou em várias digressões pela Europa e pelos Estados Unidos da América, e reza a lenda que o famoso intérprete de jazz norte-americano Louis Armstrong ter-se-á inspirado no “Pelé dos anos 20” (como Andrade foi um dia apelidado) para criar o seu estilo artístico. Seria no entanto ao serviço da seleção do Uruguai que Andrade atingiu a fama planetária que fez dele um dos maiores jogadores de futebol da história. História que começou precisamente nas Olimpiadas de 1924, o certame onde se daria a conhecer ao Mundo. No meio dos artistas uruguaios ele foi a atração principal, com o seu estilo muito próprio e sedutor de acariciar e conduzir a bola. Nunca a Europa havia visto um negro jogar futebol, muito menos com a qualidade patenteada por Andrade. Na sequência das suas épicas exibições os jornalistas franceses logo o trataram de batizar de... Maravilha Negra. E assim nascia oficialmente a lenda. Mesmo não sendo fervorosos adeptos do futebol os franceses de então renderam-se por completo ao artista sul-americano, que nas ruas parisienses era tratado como um rei pelos homens que viam, ou liam, as suas façanhas no Torneio Olímpico e desejado pelas mais finas damas que perdiam os seus olhares nas curvas do seu atlético corpo.
Em 1930 o Uruguai organizou o primeiro Campeonato do Mundo da história. Uma espécie de presente da FIFA ao país que praticava o melhor futebol do planeta. Na qualidade de bi-campeã olímpica - o Uruguai venceria ainda os Jogos Olímpicos de 1928 - a equipa da casa partia assim como favorita a levantar a primeira taça do Mundo da FIFA. Já em final de carreira, e castigo por lesões crónicas, Andrade foi mesmo assim chamado para integrar a equipa uruguaia que disputou esse Mundial. A sua experiência e qualidade eram fundamentais para o triunfo da celeste. Ao lado de jogadores como Cea, Castro, Nasazzi e Scarone, Andrade venceria o Campeonato do Mundo, após a sua seleção ter derrotado na final os grandes rivais da Argentina por 4-2. Pelo Uruguai alinhou 43 vezes (só perdeu três jogos) e marcou um golo. Além de um fabuloso futebolista José Leandro Andrade era um não menos fabuloso bailarino, sendo que por diversas vezes integrou cortejos carnavalescos no seu país. Após a sua retirada dos relvados partiu (na década de 30) para Paris, a cidade que o corou no reino futebolísitco, onde se tornou um célebre bailarino de cabarets, partilhando as luzes da ribalta da sociedade cultural parisiense com nomes como Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald, James Joyce, Pablo Picasso, Salvador Dali, ou a adorada Josephine Baker. Adorava a folia e a vida boémia. Regressou anos mais tarde a Montevideu, onde morreu só e na miséria em 1957.

Resultados

1ª Eliminatória

25 de maio de 1924

Itália - Espanha: 1-0
(Vallana, na própria baliza aos 84m)

Suíça - Lituânia: 9-0
(Sturzenegger, aos 2m, 43m, 68m, 85m; Abegglen, aos 41m, 50m, 58m; Dietrich, aos 14m; Ramseyer, aos 63m)

Turquia - Checoslováquia: 2-5
(Refet, aos 63m, 82m)
(Sedlacek, aos 28m, 37m; Sloup, aos 21m; Novak, aos 64m; Capek, aos 74m)

Estados Unidos da América - Estónia: 1-0
(Stradan, aos 15m)

26 de maio de 1924

Jugoslávia - Uruguai: 0-7
(Petrone, aos 35m, 61m; Cea, aos 50m, 80m; Scarone, aos 23m; Vidal, aos 20m; Romano, aos 58m)

Hungria - Polónia: 5-0
(Hires, aos 51m, 58m; Opata, aos 70m, 87m; Eisenhoffer, aos 14m)

2ª Eliminatória

27 de maio de 1924

Holanda - Roménia: 6-0
(Pijl, aos 32m, 52m, 66m, 68m; Hungronje, aos 8m; De Natris, aos 69m)

França - Letónia: 7-0
(Crut, aos 17m, 28m, 55m; Boyer, aos 71m, 87m; Nicolas, aos 25m, 50m)

28 de maio de 1924

Bulgária - Irlanda: 0-1
(Duncan, aos 75m)

Suíça - Checoslováquia: 1-1
(Dietrich, aos 79m)
(Sloup, aos 21m)

29 de maio de 1924

Suécia - Bélgica: 8-1
(Kock, aos 8m, 24m, 77m; Rydell, aos 20m, 61m, 83m; Brommesson, aos 30m; Keller, aos 46m)
(Larnoe, aos 67m)

Itália - Luxemburgo: 2-0
(Baloncieri, aos 20m; Della Valle, aos 38m)

Uruguai - Estados Unidos da América: 3-0
(Petrone, aos 10m, 44m; Scarone, aos 15m)

Egito - Hungria: 3-0
(Yakan, aos 4m, 58m; Hegazi, aos 40m)

30 de maio de 1924

Suiça - Checolováquia: 1-0 (desempate)
(Pache, aos 87m)

Quartos-de-final

1 de junho de 1924

França - Uruguai: 1-5
(Nicolas, aos 12m)
(Scarone, aos 2m, 24m; Petrone, aos 58m, 68m; Romano, aos 83m)

Suécia - Egito: 5-0
(Brommesson, aos 31m, 34m; kaufeldt, aos 5m, 71m; Rydell, aos 49m)

2 de junho de 1924

Holanda - Irlanda: 2-1
(Formanoij, aos 7m, 104m)
(Farrell, aos 33m)

Suíça - Itália: 2-1
(Sturzenegger, aos 47m; Abegglen, aos 60m)
(Della Valle, aos 52m)

Meias-finais

5 de junho

Suíça - Suécia: 2-1
(Abegglen, aos 15m, 77m)
(Kock, aos 41m)

6 de junho

Holanda - Uruguai: 1-2
(Pijl, aos 32m)
(Cea, aos 62m; Scarone, aos 81m)

Jogo de atribuição da medalha de bronze

8 de junho

Holanda - Suécia: 1-1
(Le Fevre, aos 77m)
(Kaufeldt, aos 44m)

9 de junho

Holanda - Suécia: 1-3 (desempate)
(Formanoij, aos 43m)
(Rydell, aos 34m, 77m; Lundquist, aos 42m)

Final

9 de junho de 1924

Uruguai - Suíça: 3-0

Estádio: des Colombes

Árbitro: Marcel Slawick (França)

Uruguai: Mazzali, Nasazzi, Arispe, Andrade, Vidal, Ghierra, Urdinaran, Scarone, Petrone, Cea, Romano.

Suíça: Pulver, Reymond, Ramseyer, Oberhauser, Schmiedlin, Pollitz, Ehrenbolger, Pache, Dietrich, Abegglen, Fassler.

Golos: 1-0 (Peteone, aos 6m), 2-0 (Cea, aos 65m), 3-0 (Romano, aos 82m)



Legenda das fotografias:
1-Cartaz ofiacial dos Jogos Olímpicos de Paris em 1924
2-Jogadores do Uruguai posam para a fotografia com as bandeiras do seu país e da França após o triunfo final sobre a Suíça
3-Fase do encontro entre suíços e checoslovacos
4-O mítico Stade des Colombes, construído propositadamente para as Olimpiadas de 1924
5-A estrela suíça, Max Abegglen
6-Imagem da final entre Uruguai e Suíça
7-A figura do torneio: José Leandro Andrade
8-Lance do equilibrado encontro inaugural do certame entre Espanha e Itália
9-A estreante seleção dos Estados Unidos da América...
10-... e a talentosa "squadra azzurra" de Vittorio Pozzo
11-Imagem do duro jogo entre Estados Unidos da América e Uruguai
12-O artilheiro da competição: Pedro Petrone
13-Uruguaios dão a volta ao relvado após a conquista do título, um gesto que ficaria conhecido para sempre como a volta olímpica, e que seria repetido dali em diante por centenas de equipas
14-A histórica seleção do Uruguai, campeã dos Jogos Olímpicos de 1924, uma das melhores equipas da história do futebol
 
Nota: Texto escrito em 5 de setembro de 2012 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com 

O futebol nos... Jogos Olímpicos de Amesterdão 1928

O torneio de futebol das Olimpiadas de Amesterdão em 1928 não foi mais do que a confirmação daquilo que se visionara quantro anos antes em Paris, por outras palavras, o Uruguai enquanto a seleção mais poderosa do Mundo. Amesterdão 1928 foi pois como a segunda parte de uma das mais belas e poéticas histórias futebolísticas, a história de uma talentosa equipa que mostrou ao globo que o futebol poderia ser jogado de uma maneira artística e atraente, bem diferente do famoso kick and rush inglês interpretado pela esmagadora das seleções e/ou clubes do então planeta da bola.
E para tentar reconquistar o Mundo a seleção uruguaia voltou a reunir grande parte dos artistas que em Paris haviam entrado para a história, entre outros o lendário capitão Jose Nasazzi, Hector Scarone, Pedro Cea, ou a Maravilha Negra José Leandro Andrade, a primeira grande estrela do futebol a nível internacional, consagrada precisamente na capital francesa durante as célebres Olimpíadas de 24.
Poucas eram as equipas que apresentavam qualidade para impedir os magos uruguaios de (re)conquistar o ouro olímpico, sendo as exceções a Itália, que na década de 30 iria suceder precisamente ao Uruguai como a patrona do planeta futebolístico, ou a aguerrida e tecnicamente evoluída Argentina, que fazia a sua estreia naquele que era então considerado o maior evento desportivo do Mundo, e que nos duelos sul americanos vinha dando luta aos lendários uruguaios. A todas as outras seleções sonhar - com pelo menos uma vitória - era a ambição mais... realista.

Portugal faz a estreia na alta roda internacional

E entre os combinados que sonhavam pelo menos sair de Amestrdão com um resultado positivo na bagagem estava Portugal, uma seleção que a par de México e do Chile fazia a sua estreia na alta roda futebolística internacional. Presença nas Olimpiadas holandesas que foi o primeiro grande momento internacional do então jovem futebol português, foi como um prémio para aquela que muitos dos críticos dizem ser a primeira geração dourada da modalidade em terras lusas, na qual pontificavam lendas como Jorge Vieira, Vítor Silva, Augusto Silva, Raul Tamanqueiro, Valdemar Mota, Carlos Alves, ou o genial Pepe (cujo nome de batismo era José Manuel Soares).
Sob o comando do mestre Cândido de Oliveira - o responsável técnico pela equipa portuguesa em Amesterdão - o futebol português vivia uma fase de clara evolução. A seleção nacional deixara de ser aquele grupo de bons rapazes que na primeira metade dos anos 20 entrava para o campo de batalha com o espectro da derrota no horizonte, e dava agora lugar a um conjunto de habilidosos e criativos atletas cuja mentalidade vencedora desafiava, sem medo, fosse qual fosse o adversário. Prova desse atrevimento é que no início desse célebre ano de 1928 a seleção nacional empatou pela primeira vez ante a Espanha, seleção com quem até à data sempre havia perdido, e muitas vezes sido goleada, e já na fase de preparação para os Jogos Olímpicos esmagou a poderosa Itália por 4-1 e empatou com a talentosa Argentina a zero golos, resultados que fizeram crescer entre a nação um sentimento de orgulho e esperança de que finalmente Portugal podia fazer parte da elite do futebol internacional.
E coube precisamente à seleção portuguesa dar o pontapé de saída no quinto torneio olímpico de futebol da história. Facto ocorrido a 27 de maio, no Estádio Olímpico de Amesterdão, o anfiteatro onde decorreu a maior parte da ação da 8ª edição dos Jogos Olímpicos, onde os lusitanos enfrentaram os também estreantes do Chile, num encontro referente à única pré-eliminatória do evento. Os sul americanos cedo chegaram a uma vantagem de dois golos (Saavedra marcou aos 14 minutos e Carbonell ampliou aos 30). O acordar dos portugueses deu-se ainda durante a etapa inicial, quando aos 38 minutos o artista da linha avançada Vítor Silva reduziu para 1-2. Apercebendo-se do perigo que ali estava os chilenos logo trataram de inutilizar o avançado do Benfica, aplicando uma entrada mais dura que o levaria a abandonar o relvado até ao intervalo, e só voltar no reatamento. Com 10 - naquele tempo não eram permitidas as substituições - Portugal agigantou-se, e respondendo ao agressivo e desleal estilo chileno com um futebol tecnicamente refinado, criativo, e determinado, não foi de estrahar que ainda ante do descanso Pepe coloca-se todo o seu génio em campo e fizesse a igualdade. Enchendo o peito de coragem os bravos portugueses partiram com tudo para cima do Chile na etapa final, e logo a abrir a segunda parte Pepe opera a reviravolta no marcador, cabendo a Valdemar Mota a tarefa de carimbar de vez o passaporte luso para a a 1ª eliminatória do torneio. 4-2, o resultado final, e o Mundo ficava a conhecer a alma - guerreira - lusitana. Sobre esta histórica entrada em cena o cronista Fernando T. Pinto escreveu o seguinte texto no seu livro A História do Futebol em Portugal (publicado em 1956): «Em consequência da dureza que empregavam, Vítor Silva recebeu um toque violento no joelho e houve quer ser retirado, em braços, do campo, para só regressar depois do intervalo. Jogando com o coração, concentrando o pensamento na pátria distante, os nossos representantes apoiados por um grupo que se deslocara à Holanda, multiplicaram-se e num estrondoso alarde de valentia, ânimo, coragem e consciência técnica operámos a reviravolta».

Argentinos candidatam-se ao trono

No dia 29 de maio, também no Estádio Olímpico, a Argentina fez a sua estreia oficial no torneio olímpico de futebol, uma entrada onde deixou transparecer ao Mundo que estava ali para subir ao trono que era ocupado pelos vizinhos e velhos inimigos do Rio da Prata, o Uruguai. A apadrinhar a estreia da equipa das pampas estiveram os norte-americanos, um conjunto de bonz rapazes para quem o soccer era um verdadeiro enigma, a julgar pela pesada derrota que sofreram. 11-2, a favor os sul americanos, com destaque para o poker (quatro golos) do avançado Domingo Tarasconi, que no final do certame foi coroado como rei dos goleadores, com um total de 11 remates certeiros.
Antes desta goleada a Bélgica - ex-campeã olímpica - bateu com alguma dificuldade o frágil Luxemburgo por 5-3, ao passo que a Alemanha esmagou a Suíça por 4-0 - com três golos da autoria de Richard Hofmann -, e o experiente - em matéria de Olimpíadas - Egito goleava a Turquia por 7-1.
Quanto à França, bem, viveu mais uma desilusão. Depois das tentativas falhadas em 1908, 1920, e 1924, os franceses voltaram a não conseguir agarrar o sonho olímpico. Talento não lhes faltava, mas mais uma vez ficavam pelo caminho cedo demais. Mas desta feita, e ao contrário das edições de 1908 e 1920, sairam de cabeça erguida, e orgulhosos da sua prestação diante da Itália, uma potência que começava a aparecer nos relvados internacionais. No duelo ante a squadra azzura os franceses - que em Amesterdão foram novamente orientados por um inglês, desta feita Peter Farmer - estiveram prestes a espantar o Mundo e mandar para casa mais cedo um dos favoritos a destronar o mágico Uruguai. Juste Brouzes, por duas ocasiões, colocou os gauleses a vencer por 2-0 numa altura em que o relógio marcava apenas 17 minutos de jogo decorrido! Mas do outro lado estavam alguns jogadores que anos mais tarde iriam ascender ao Olimpo dos Deuses da Bola, casos de Angelo Schiavio, ou de Gino Rossetti, que guiariam à azzurra à reviravolta e a permanecer desta forma no trilho do título olímpico. 4-3, resultado apertado, mas justo de uma Itália que confirmou ter armas suficientes para lutar pelo ouro.
Sem grandes problemas a Espanha - que em Amesterdão se viu privada da sua grande estrela, Ricardo Zamora - despachou o México por 7-1, enquanto que Portugal vivia um novo momento histórico na sua primeira presença internacional. Ante a Jugoslávia nova vitória alcançada, desta feita por 2-1, e confirmada em cima da meta, isto é, aos 90 minutos por Augusto Silva, que desta forma ficou eternizado como o Tigre de Amesterdão. Antes disso Vítor Silva havia inaugurado o marcador aos 25 minutos, sendo que aos 40 Bonacic empatou. Sobre este triunfo Fernando T. Pinto escreveu: «Tivemos sorte e jogámos com nobreza e generosidade nos 15 minutos finais, merecendo destaque Augusto Silva, que recebeu nesse jogo o epíteto de tigre de Amesterdão. Foi tão pujante, tão portentosa a exibição do médio-centro lusitano que, no final, os próprios holandeses o passearam em triunfo».
No derradeiro encontro da ronda inicial o Estádio Olímpico engalanou-se para receber a deslumbrante seleção uruguaia. Quase 28 000 espetadores não quiseram perder a oportunidade de ver em ação José Leandro Andrade e companhia, que como primeiro obstáculo tiveram a turma da casa, a Holanda. E não foi uma barreira fácil de ultrapassar, diga-se em abono da verdade. Pese embora a sua superioridade nunca tivesse sido colocada em causa o Uruguai venceu somente por 2-0 a equipa orientada pelo inglês Robert Glendenning, sendo que o golo da tranquilidade chegou apenas aos 86 minutos, por intermédio de Santos Urdinaran (Scarone havia feito o 1-0 aos 20 minutos).

Squadra Azzurra esmaga Espanha à segunda tentativa

Assumia contornos de "prato principal" dos quartos de final do torneio olímpico de 28. Espanha e Itália, duas seleções com vitórias distintas na 1ª eliminatória protagonizaram um embate empolgante na tarde de 1 de junho. Nos italianos uma surpresa no "onze". Giampiero Combi, guarda redes da Juventus, fazia a sua estreia em competições internacionais, ele que seis anos depois haveria de erguer - na qualidade de capitão de equipa - a primeira taça de campeão do Mundo conquistada pela Squadra Azzurra. Aos 11 minutos o experiente defesa Domingo Zaldua colocou os espanhóis em vantagem no marcador, vantagem essa assegurada até meio da etapa final, altura (63 minutos) em que Baloncieri repós a igualdade e obrigou a que este duelo fosse repetido três dias depois.
A caminhada triunfal da Argentina continuou no dia seguinte (2 de junho) com uma nova goleada, desta feita imposta à Bélgica, por 6-3, com a particularidade de Tarasconi ter feito novamente quatro golos.
E no dia 3 o Uruguai espalhou magia pelo relvado do Olímpico de Amesterdão, que mais uma vez registava uma boa casa (25 000 pessoas) para ver os magos sul americanos em ação. Com uma exibição repleta de glamour o combinado celeste vulgarizou os alemães, que mais não conseguiram fazer do que evitar uma não muito pesada derrota por 1-4, e desta forma gabar-se de dizer que foram afastados da competição pela melhor equipa do Mundo, ou melhor, por um conjunto de jogadores do... outro Mundo!
E o sonho português conhecia um novo capítulo no dia 4 de junho. Novo e derradeiro capítulo, já que os faraós do Egito colocaram um ponto final na aventura dos pupilos de Cândido de Oliveira na sequência de um triunfo por 2-1. Até aos 75 minutos desse encontro os norte africanos estiveram a vencer por 2-0, altura em que Vítor Silva reacendeu a chama da esperança ao reduzir para 1-2. Os portugueses lutaram com alma até final pela hipótese de conquistar uma medalha, mas podem queixar-se sobretudo da sua falta de inspiração no aspeto da finalização para justificar o afastamento perante o teoricamente acessível Egito. Muitas oportunidades de golo foram desperdiçadas pelo conjunto luso, que no final se queixou... do árbitro italiano Giovanni Mauro. Eliminados, os jogadores lusos regressaram dias depois a solo lusitano - depois de 40 horas de comboio! - onde seriam recebidos como... heróis. E heróis ficaram para a eternidade.
E se o primeiro Itália - Espanha havia sido pautado pelo equilibrio o jogo de desempate foi tudo menos equilibrado. Uma exibição de gala dos italianos, em contraposto com uma atuação paupérrima da Espanha, foi concluida com uma robusta vitória por 7-1 (!) dos transalpinos.

Celeste Olímpica vence final antecipada

Era grande a espetativa dos holandeses - e do resto do Mundo - em saber quem iria enfrentar a Argentina na final dos Jogos Olímpicos de 28. Argentinos que na primeira semi final haviam aplicado de novo a chapa seis, desta feita ao Egito (6-0), com três golos de Tarasconi.
Estranhamente apenas 15 000 espetadores marcaram presença no Estádio Olímpico para assistir ao embate que iria decidir o segundo finalista, a Itália ou o Uruguai. Duas grandes equipas em ação, e grande foi, com naturalidade, o duelo protagonizado por ambas. Baloncieri inaugurou o marcador para a azzurra logo aos nove minutos, mas comandada de forma magistral desde o setor recuado do terreno pela Maravilha Negra Andrade a Celeste Olímpica - assim ficou eternizada a seleção uruguaia após as Olimpíadas de 24 e 28 - chegaria ao empate aos 17 minutos por intermédio de Cea. Campolo, aos 28 minutos, e Scarone, aos 31, ampliaram a vantagem dos sul americanos pra 3-1, resultado com que se atingiu o descanso.
Na segunda etapa a Itália deu luta, e aos 60 minutos Levratto encurtou distâncias no marcador, mas até final de nada valeram os esforços dos europeus, já que quando o árbitro holandês Eijmers apitou pela última vez o marcador indicava um 3-2 a favor os lendários uruguaios.

Final em dois atos

E eis que chegávamos a 10 de junho, o dia mais esperado do torneio olímpico, o dia da grande final. E o cartaz era convidativo, frente a frente dois pesos pesados do futebol... sul americano. Os seus duelos - oficiais - remontavam a 1916, ano em que começou a ser disputado o Campeonato Sul-Americano - mais tarde rebatizado de Copa América -, e cujo domínio era repartido pelos dois velhos inimigos. Encontravam-se agora num patamar mais alto que não o da luta pelo trono de rei das américas. O que agora estava em jogo era o título de campeão do... Mundo.
Um dia antes da final a Itália tinha conquistado a medalha de bronze depois de esmagar o egito por 11-3!
Pouco mais de 28 000 entusiastas encheram as bancadas do Olímpico de Amesterdão para ver quem sucederia ao Uruguai como dono do planeta. E aquilo a que assistiram foi uma épica jornada futebolística, protagonizada por duas equipas que se conheciam muito bem, e cujo futebol apresentava contornos mágicos, em especial o dos uruguaios. Pedro Petrone (melhor marcador do torneio de 1924) fez 1-0 para os uruguaios aos 23 minutos, enquanto que o empate seria restabelecido aos 50 por Manuel Ferreira. Para desilusão dos muitos entusiastas que presenciaram aquele histórico duelo 1-1 seria o resultado final, e como tal ditavam as leias que teria de haver um novo encontro três dias depois.
No dia 13 as bancadas do anfiteatro holandês apresentaram-se novamente cheias para ver o segundo ato desta inolvidável peça futebolística. E mais uma vez sob o signo do equilibrio ambos os conjuntos não defraudaram os espetadores. Num magnífico espetáculo Figueroa fez 1-0 aos 17, e Monti empataria aos 28. Estava escrito que só um golpe de génio, um ato de magia, poderia desempatar este encontro, e seria isso mesmo o que viria a acontecer aos 73 minutos, altura em que a lenda Hector Scarone bate o guardião Angel Bossio pela segunda vez e revalida desta forma o título de campeão olímpico para o Uruguai.
Após este torneio o futebol nos Jogos Olímpicos como que morreu! O sucesso das primeiras edições olímpicas fez com a FIFA - mais concretamente o seu presidente Jules Rimet - idealiza-se uma grande competição internacional, que reunisse as melhores equipas do Mundo à sua volta, uma competição independente do Comité Olímpico Internacional que teimava em não permitir que jogadores profissionais participassem nos Jogos. Assim, em 1930 surgia o primeiro Campeonato do Mundo de futebol, certame organizado pela FIFA, que com o passar dos anos haveria de ultrapassar os Jogos Olímpicos em termos de popularidade e mediatismo. E como espécie de presente pelas inolvidáveis campanhas levadas a cabo em 1924 e 1928 a FIFA atribuiu a organização do primeiro Mundial da história precisamente ao Uruguai, país que sem qualquer supresa haveria de se tornar no primeiro campeão do Mundo... oficial.

A figura: José Leandro Andrade

Mais uma vez o Uruguai foi guiado até à glória desde a sua defesa, pelo homem qué é ainda hoje considerado como a primeira grande estrela do futebol internacional: José Leandro Andrade.
Ágil, elegante, e combativa a Maravilha Negra foi o centro das atenções durante a estadia dos uruguaios em Amesterdão, foi o responsável pelo elevado número de público que se deslocava ao Estádio Olímpico sempre que o Uruguai entrava em ação, adeptos esses que procuravam assim ver de perto o primeiro ícone do futebol internacional.
Se em Paris Andrade foi decisivo para a conquista do título, em Amesterdão o seu papel foi fundamental, servindo de bandeja de ouro os seus companheiros mais adiantados no terreno no ataque às redes adversárias.
(Nota: Sobre a biografia de Andrade o Museu Virtual de Futebol já traçou inúmeras linhas ao longo da sua história, tanto na vitrina dedicada às grandes lendas, como na visita efetuada às Olímpiadas de 1924, onde a Maravilha Negra foi considerada a grande figura, tal como em Amesterdão)

Resultados

Pré-eliminatória

27 de maio de 1928

Portugal - Chile: 4-2
(Pepe, aos 40m, 50m, Vítor Silva, aos 38m, Valdemar Mota, aos 63m)
(Saavedra, aos 14m, Carbonell, aos 30m)

1ª Eliminatória

Luxemburgo - Bélgica: 3-5
(Schutz, aos 31m, Weisgerber, aos 42m, Theissen, aos 44m)
(Braine, aos 9m, aos 72m, Moeschal, aos 23m, aos 67m, Versyp, aos 20m)

28 de maio de 1928

Suíça - Alemanha: 0-4
(Hofmann, aos 17m, aos 75m, aos 85m, Hornauer, aos 42m)

Turquia - Egito: 1-7
(Refet, aos 71m)
(Moukhtar, aos 46m, aos 50m, aos 63m, El Hassany, aos 20m, Riad, aos 27m, Hooda, aos 53m, Zobeir, aos 86m)

29 de maio de 1928


França - Itália: 3-4
(Brouzes, aos 15m, aos 17m, Dauphin, aos 61m)
(Rossetti, aos 19m, Levratto, aso 39m, Banchero, aos 43m, Baloncieri, aos 60m)

Jugoslávia - Portugal: 1-2
(Bonacic, aos 40m)
(Vitor Silva, aos 25m, Augusto Silva, aos 90m)

Argentina - Estados Unidos da América: 11-2
(Tarasconi, aos 24m, aos 63m, aos 66m, aos 89m, Manuel Ferreira, aos 9m, aos 29m, Cerro, aos 47m, aos 49m, aos 57m, Orsi, aos 41m, aos 73m)
(Kuntner, aos 55m, Carroll, aos 75m)

30 de maio de 1928

Espanha - México: 7-1
(Regueiro, aos 13m, aos 27m, Yermo, aos 43m, aos 63m, aos 85m, Marculeta, aos 66m, Marsical, aos 70m)
(Carreno, aos 76m)

Holanda - Uruguai: 0-2
(Scarone, aos 20m, Urdinaran, aos 86m)

Quartos de final

1 de junho de 1928

Itália - Espanha: 1-1
(Baloncieri, aos 63m)
(Zaldua, aos 11m)

2 de junho de 1928

Argentina - Bélgica: 6-3
(Tarasconi, aos 1m, aos 10m, aos 75m, aos 89m, Manuel ferreira, aos 4m, Orsi, aos 81m)
(Braine, aos 24m, Van Halme, aos 28m, Moeschal, aos 53m)

3 de junho de 1928

Alemanha - Uruguai: 1-4
(Hofmann, aos 81m)
(Petrone, aos 35m, aos 39m, aos 84m, Scarone, aos 63m)

4 de junho de 1928

Portugal - Egito: 1-2
(Vítor Silva, aos 76m)
(Moukhtar, aos 15m, Riad, aos 48m)

Itália - Espanha: 7-1 (desempate)
(Levratto, aos 76m, aos 77m, Magnozzi, aos 14m, Schiavio, aos 15m, Baloncieri, aos 18m, Bernardini, aos 40m, Rivolta, aos 72m)
(Yermo, aos 47m)

Meias finais

6 de junho de 1928

Argentina - Egito: 6-0
(Tarasconi, aos 37m, aos 54m, aos 61m, Manuel Ferreira, aos 32m, aos 82m, Cerro, aos 10m)

7 de junho de 1928

Itália - Uruguai: 2-3
(Baloncieri, aos 9m, Levratto, aos 60m)
(Cea, aos 17m, campolo, aos 28m, Scarone, aos 31m)

Jogo de atribuição da medalha de bronze

9 de junho de 1928

Itália - Egito: 11-3
(Schiavio, aos 6m, aos 42m, Banchero, aos 19m, aos 39m, aos 44m, Magnozzi, aos 72m, aos 80m, aos 88m, Baloncieri, aos 14m, aos 52m)
(Riad, aos 12m, aos 16m, El Ezam, aos 60m)

Final

10 de junho de 1928

Uruguai - Argentina: 1-1
(Petrone, aos 23m)
(Manuel Ferreira, aos 50m)

Finalissima

13 de junho de 1928

Uruguai - Argentina: 2-1

Estádio: Olímpico de Amesterdão

Árbitro: Mutters (Holanda)

Uruguai: Mazali, Nasazzi, Arispe, Jose Leandro Andrade, Piriz, Gestido, Arremon, Scarone, Borjas, Cea, e Figueroa. Treinador: Primo Gianotti

Argentina. Bossio, Bidoglio, Paternoster, Medici, Monti, Evaristo, Carricaberry, Tarasconi, Ferreira, Perducca, e Orsi. Treinador: José Lago

Golos: 1-0 (Figueroa, aos 17m), 1-1 (Monti, aos 28m), 2-1 (Scarone, aos 73m)

Legenda das fotografias:
1-Cartaz oficial dos Jogos Olímpicos de 1928
2-A seleção de Portugal, que fez a esteria em provas de âmbito internacional
3-Os mágicos uruguaios entram em campo, com o capitão Nazassi na frente
4-Momento do encontro entre Uruguai e Alemanha
5-Um lance do Egito - Portugal
6-A empolgante meia final entre a Celeste Olímpica e a Squadra Azzurra
7-Lance do empolgante duelo final
8-Os dois capitães de equipa e o trio de arbitragem antes da grande final
9-A Maravilha Negra
10-A seleção da Alemanha
11-A forte Itália...
12-... que humilhou a Espanha nos quartos de final
13-A temível Argentina
14-E os bi-campeões olímpicos, o Uruguai
 
Nota: Texto escrito em 26 de novembro de 2012 no blog: http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

O futebol nos... Jogos Olímpicos de Berlim 1936

O nascimento do Campeonato do Mundo da FIFA, em 1930, retirou protagonismo ao que até então era o evento futebolístico de maior importância a nível internacional, o torneio olímpico. A curva descendente da modalidade no seio dos Jogos começou a verificar-se logo na edição de 1932, em Los Angeles, onde a batalha entre o amadorismo e o profissionalismo fez com o que futebol fosse riscado do programa do evento. Neste contexto convém explicar que por aquela altura o futebol era já - um pouco por todo o Mundo - altamente profissional, facto que ia contra um dos princípios do olimpismo, que defendia que todos os atletas que participassem nos Jogos deveriam ser puramente amadores. Contudo, a popularidade do futebol a nível global era por demais evidente, e terá sido esse o facto responsável pelo reaparecimento do desporto rei no calendário das Olimpíadas quatro anos mais tarde em Berlim. Há quem diga, aliás, que o regresso do futebol aos Jogos foi uma imposição... de Adolf Hitler! Servindo-se dos Jogos Olímpicos como um mero veículo de propaganda para mostrar ao Mundo os ideais do regime nazi, Hitler não olhou a meios para fazer deste o maior evento desportivo alguma vez visto. Entre outros, construiu um magnífico estádio (olímpico) com capacidade para albergar 100 000 pessoas (!), organizou uma pomposa festa de abertura do certame nunca dantes visionada, colocou ao dispôr do Comité Olímpico Internacional (COI) meios financeiros ilimitados para que nada faltasse ao evento, e, claro, fez regressar ao programa olímpico a modalidade mais popular do planeta, o futebol.
Contudo, o COI continuava firma na sua postura em não aceitar que as seleções participantes integrassem os seus jogadores profissionais, e os jogadores profissionalizados eram indiscutivelmente os melhores entre os melhores, daí que em termos de nomes sonantes o torneio olímpico de 1936 tenha ficado um tudo ou nada aquém dos seus antecessores. Mesmo em termos de seleções não podemos dizer que em Berlim tenham estado os melhores combinados daquela época, já que o genial Brasil continuava a não dar grande importância ao evento, os bi-campeões olímpicos do Uruguai decidiram ficar em casa, a talentosa Espanha de Ricardo Zamora iden aspas, entre outras potências mais que começavam a olhar de lado, e com desinteresse, o torneio olímpico.
A excessão terá sido, talvez, a Itália, nação que em 1934 havia vencido o segundo Campeonato do Mundo da FIFA, sob a orientação do mestre da tática VittorioPozzo. Mesmo sem os astros - profissionais, lá está - que haviam conduzido à squadra azzurra ao trono do futebol planetário, casos de Giuseppe Meazza, Angelo Schiavio, Raimundo Orsi, Luigi Monti, ou Giampiero Combi, os italianos eram apontados pela crítica como os principais favoritos à conquista do ouro olímpico. Mas o trajeto até à gloria final, como se iria confirmar, foi mais difícil do que se esperava...
No jogo de abertura do torneio olímpico de 1936, disputado no dia 3 de agosto entre Itália e os Estados Unidos da América, houve mosquitos por cordas. Numa época em que as substituições ainda não eram permitidas os norte-americanos (que no Mundial de 34 haviam sido esmagados pelos italianos por 7-1) jogavam a certa altura - por motivo de lesão - com menos duas unidades em campo. A polémica instalou-se quando o árbitro alemão Karl Weingartner, posteriormente, deu ordem de expulsão ao italiano Piccine, o qual se recusou a acatar a decisão do juíz que cercado por uma floresta de jogadores - em fúria - da azzurra decidiu voltar atrás na sua decisão e permitir que o atleta continuasse em campo até final! No jogo jogado os italianos tiveram sérias dificuldades em bater por 1-0 um frágil mas lutador conjunto norte-americano, graças a um golo de Annibale Frossi, jogador que haveria de conquistar no final do torneio o título de rei dos goleadores na sequência de 7 remates certeiros.

Discípulos de Hitler esmagam o Luxemburgo

Ainda nesse mesmo dia 3 de agosto a Noruega iniciava aquela que viria a ser uma caminhada olímpica memorável. Sem apelo nem agravo os escandinavos goleavam a Turquia por 4-0, com destaque para o bis de Alf Martinsen. No dia seguinte entrou em campo a seleção da casa, a Alemanha. O selecionador germânico, Otto Nerz, reuniu um bom leque de jogadores - amadores, claro está - capazes de trazer alegria a Hitler, que pretendia o sucesso ariano - fosse em que modalidade fosse - a tudo o custo nas Olimpíadas de Berlim. E a campanha dos discípulos do fuhrer até nem começou nada mal, conforme traduz o expressivo resultado de 9-0 sobre o modesto Luxemburgo.
No encontro seguinte entrou em campo uma das três seleções que fazia a sua estreia olímpica, o Japão. E que estreia! Ante uma Suécia habituada às andanças olímpicas, os orientais venceram por 3-2, depois de terem estado a perder ao intervalo por 0-2. Kamo iniciou a reviravolta aos 49 minutos, e a 5 minutos do final Matsunaga confirmou aquela que viria a ser a primeira surpresa do torneio olímpico.
E a 5 de agosto foi a vez da Áustria entrar em campo para defrontar o experiente Egito. Sem a grande maioria das suas estrelas profissionais, onde entre as quais se destacava o homem de papel Matthias Sindelar, a grande estrela do wunderteam (equipa maravilha) criado por Hugo Meisl na década de 30, os europeus sentiram algumas dificuldades para alcançar o triunfo (3-1) que os levaria até aos quartos-de-final da competição.

No mesmo dia a Polónia derrotava a Hungria por 3-0 e também seguia em frente. E na derradeira jornada da 1ª eliminatória assistiu-se ao regresso de um velho conhecido nestas andanças olímpicas, ou melhor, o regresso de um antigo campeão olímpico, a Grã-Bretanha. Ausentes dos Jogos de 1924 e 1928 os britânicos - campeões olímpicos em 1908 e 1912 - enfrentavam os estreantes da China, num jogo que aparentemente não se afigurava nada complicado para os criadores do futebol moderno. Porém, os desconhecidos e pequenos chineses fizeram a vida díficil aos ex-campeões olímpicos, que só na 2ª parte conseguiram carimbar o passaporte para a fase seguinte, fruto de uma curta vitória por 2-0.
Por fim, o também estreante Perú - o único representante da América do Sul - goleava por 7-3 a repetente Finlândia, com destaque para os 5 golos do peruano Teodoro "Lolo" Fernandez, nada mais nada menos que a primeira lenda futebolística do país dos Andes.

Nova polémica

O primeiro dia (7 de agosto) destinado aos quartos-de-final foi envolto num misto de superioridade e de surpresa! No primeiro aspeto a Itália de Pozzo - que viajou para Berlim sem 10 dos campeões do Mundo de 34 - cilindrou sem dificuldades o Japão por 8-0, com destaque para o poker (4 golos) de Carlo Biagi e o hattrick (3 golos) de Frossi. Quanto à surpresa ela aconteceu no encontro entre os anfitriões e a Noruega, jogo ao qual assistiu Adolf Hitler, que esperava uma nova e robusta vitória dos seus conterrâenos. No entanto, o norueguês Magnar Isaksen tinha outros planos, e ao apontar dois golos afastou os germânicos da competição para espanto de todos. Espanto e irritação, já que ao que parece aquando do segundo tento norueguês, apontado aos 83 minutos, Hitler abandonou o seu camarote no estádio profundamente... irritado. O que é certo é que segundo relatos da época esta foi uma vitória mais do que merecida, orquestrada por um técnico, Matti Goksoyr, que vivia adiantado no seu tempo, quer em termos de preparação física, quer no que concerne à tática. Este é aliás considerado pelos historiadores desportivos da Noruega como o maior feito do modesto futebol daquele país do norte da Europa.
No dia seguinte registou-se nova polémica no torneio olímpico. Perú e Áustria mediram forças entre si, num encontro que os europeus começaram bem melhor, ao colocar-se em vantagem sobre os seus adversários com um resultado de 2-0. No entanto, a raça sul-americana acabaria por vir ao de cima quando faltavam apenas 15 minutos para o final, altura em que o Perú empata o jogo e força a um prolongamento.

A polémica surgiu então no período extra, altura em que adeptos peruanos invadem o terreno de jogo para agredir um atleta austríaco, sendo que no meio da confusão os sul-americanos apontam dois golos e selam o placard final em 4-2 a seu favor. Os europeus protestaram de imediato junto do COI, entidade esta que anulou então a partida e mandou que se realizasse um novo encontro à porta fechada, isto é, sem adeptos. Os peruanos não concordaram, e resolveram fazer as malas e regressar a casa, tendo o COI atribuido à vitória à Áustria.
No derradeiro encontro desta fase houve nova surpresa. A modesta Polónia batia a poderosa Grã-Bretanha por 5-4 e juntava-se assim a Itália, Áustria, e Noruega na luta final pelas medalhas.

Escandinavos duros de roer ficam com o bronze

A 10 de agosto realizou-se a primeira meia final, cabendo à Itália "B", digamos assim, enfrentar a surpresa da competição, a Noruega. E aquilo que se viu foi mais uma demonstração do talento norueguês, que forçaram a Azzurra a um prolongamento para garantir a presença no jogo mais desejado da competição. Valeu aos transalpinos - uma vez mais - o instinto goleador - de Frossi, que aos 96 minutos colocou um ponto final no atrevimento da Noruega, ao fazer o 2-1.
O opositor da Itália na final seria encontrado no dia seguinte, opositor esse que daria pelo nome de Áustria, que despachou a Polónia por 3-1.
No dia 13 de agosto lutou-se pelo bronze no Estádio Olímpico de Berlim. Perante 82 000 espetadores Arne Brustad tornou-se num autêntico herói nacional - da Noruega - ao apontar os três golos com que os escandinavos derrotaram a Polónia (poe 3-2), levando desta forma a medalha de bronze para casa. Merecida, há que dizê-lo.

Repetição da épica meia-final do Mundial de 34

E na grande final de 15 de agosto subiam ao relvado do Olímpico de Berlim a Itália e a Áustria, dois velhos conhecidos do planeta da bola. Dois anos antes, em Milão, as duas seleções haviam protagonizado um épico confronto a contar para as meias-finais do Campeonato do Mundo que a Itália organizou. Jogo muito controverso, em que o árbitro ajudou uma squadra azzura que se viu e desejou para derrotar o wunderteam de Hugo Meisl. Agora, dois anos volvidos, os austríacos tinham uma oportunidade de ouro - no duplo sentido - para se vingar da equipa de Pozzo. Como se esperava este novo duelo foi bastante equilibrado, e só um golpe de génio podia... desiquilibra-lo. E foi o que aconteceu. Annibale Frossi, jogador da Udinese, foi o herói da tarde, ao apontar os dois golos com que a Itália arrecadou o ouro olímpico, uma conquista só confirmada no prolongamento, já que no final dos 90 minutos o resultado era de 1-1. Aos 92 minutos Frossi bateu pela segunda vez o guardião Eduard Kainberger, e juntou a medalha de ouro dos Jogos Olímpicos de 1936 ao título mundial de 1934. A Itália vivia sem margem para dúvidas o período áureo da sua história, a qual iria ser ainda enriquecida com um novo título mundial alcançado em 1938. 

A figura: Annibale Frossi

Sem as suas estrelas do Mundial de 34 o selecionador Vittorio Pozzo viu-se obrigado a recorrer a segundas escolhas para atacar o ouro de Berlim. Uma dessas escolhas acabaria por revelar-se extremamente acertada, como pudemos constatar ao longo desta nossa curta viagem até ao torneio olímpico de 1936. Annibale Frossi, o melhor marcador dos Jogos de Berlim com 7 remates certeiros, e mais do que isso o herói da final, o homem que apontou os dois golos que deram o título olímpico à Azzurra. Frossi era um jogador digamos que caricato visualmente. Jogava de óculos, uma vez que desde criança sofria de uma acentuada miopia. Foi o primeiro jogador da história a quem foi dada a permissão para atuar de óculos, muito antes, portanto, do holandês Edgar Davids o fazer já em pleno século XXI.
Frossi foi um mediano jogador nascido a 6 de agosto de 1911 em Muzzana del Turgnano, na região de Udine, tendo precisamente iniciado a sua carreira na Udinese, em 1929, emblema que representou até 1931. Seguiram-se 5 anos na Série B do calcio, ao serviço de modestos emblemas como o Padova, o Bari, e o L'Aquila, até ao momento em que foi descoberto por Pozzo em meados de 1936.
Impedido de levar os seus melhores futebolistas até Berlim, pelos motivos já aqui recordados, o lendário treinador convidou o até então desconhecido Frossi a integrar a seleção italiana. Convite aceite o médio do L'Aquila não desiludiu, muito pelo contrário, e tornou-se na principal referência da equipa ao longo da caminhada triunfal. Marcou em todos os quatro jogos disputados pela Itália, e no regresso ao seu país recebeu de imediato convites de emblemas de maior poderio, caso do Inter de Milão, clube pelo qual assinou um contrato profissional logo a seguir ao torneio olímpico de 36. Pelo Inter jogou até 1942, tendo atuado pelos milaneses em 125 ocasiões, e conquistado dois campeonatos (1938 e 1940) e uma Taça de Itália (1939). A aventura com a seleção italiana resumiu-se praticamente ao torneio olímpico, pois depois disso só em mais uma ocasião voltou a vestir a camisola azzurra. Além dos óculos Frossi jogava com uma fita branca na cabeça, adereços que faziam com que fosse um jogador... excêntrico.
Depois de pendurar as botas tornou-se treinador. Treinou equipas como o Monza, Torino, Modena, Nápoles, Genoa, e o Inter, tendo entrado para a história como o treinador que inventou o sistema tático de 5-4-1, para muitos o sistema que anos mais tarde daria oirgem ao catenaccio italiano. Frossi tinha um gosto particular pelo futebol ultra-defensivo, e uma vez terá dito que «o resultado perfeito no futebol é o 0-0, pois é sinal que nenhuma das equipas cometeu erros»!
Após abandonar o futebol formou-se em engenharia, sendo que nos últimos anos da sua vida foi ainda colunista no jornal Corriere della Sera, de Milão. Viria a falecer nesta mesma cidade a 26 de fevereiro de 1999, com 86 anos de idade

Resultados

1ª Eliminatória

Turquia - Noruega: 0-4

Itália - Estados Unidos da América: 1-0

Alemanha - Luxemburgo: 9-0

Japão - Suécia: 3-2

Áustria - Egito: 3-1

Polónia - Hungria: 3-0

Grã-Bretanha - China: 2-0

Perú - Finlândia: 7-3

Quartos-de-final

Itália - Japão: 8-0

Alemanha - Noruega: 0-2

Perú - Áustria: 4-2 (vitória atribuída à Áustria por decisão do COI)

Polónia - Grã-Bretanha: 5-4

Meias-finais

Itália - Noruega: 2-1

Áustria - Polónia: 3-1

Jogo de atribuição da medalha de bronze

Noruega - Polónia: 3-2

Final

Itália - Áustria: 2-1 (após prolongamento)

Data: 15 de agosto de 1936

Estádio: Olímpico de Berlim (Alemanha)

Árbitro: Peco Bauwens (Alemanha)

Itália: Venturini, Foni, Rava, Baldo, Piccini, Locatelli, Frossi, Marchini, Bertoni, Biagi, e Gabriotti. Treinador: Vittorio Pozzo

Áustria: E. Kainberger, Kunz, Kargl, Krenn, Walmueller, Hofmeister, Werginz, Laudon, Steinmetz, K. Kainberger, e Fuchsberger. Treinador: James Hogan

Golos: 1-0 (Frossi, aos 74m), 1-1 (K.Kainberger, aos 79m), 2-1 (Frossi, aos 92m)


Legenda das fotografias:
1-Cartaz oficial dos Jogos Olímpicos de 1936
2-A bola usado no torneio olímpico de Berlim
3-Lolo Fernandez, a estrela do Perú
4-O mestre da tática Vittorio Pozzo
5-Lance do polémico Perú-Áustria
6-Jogo Alemanha - Noruega
7-Lance da final, onde aparece em primeiro plano Frossi, de óculos e fita branca na cabeça
8-Annibale Frossi, a estrela dos torneio olímpico de 1936
9-Italianos saudam o público de Berlim
10-Os campeões olímpicos de 1936

Nota: Texto escrito em 4 de janeiro de 2013 no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

O futebol nos... Jogos Olímpicos de Londres 1948

Aquele que na primeira metade do século XX era indiscutivelmente o único evento - desportivo ou não - capaz de agregar ao seu redor, e sobretudo unir, povos de diferentes raças, credos, religiões, ou ideais políticos, foi uma vez mais travado pela erupção da guerra. Desta vez o tempo de paragem foi bem longo, tendo o demorado e penoso inverno durado 12 anos (!) - entre 1936 e 1948. 
Finda a II Guerra Mundial (1939-1945) o Mundo reerguia-se lentamente, tratando das - muitas - feridas causadas pelo confronto bélico, pelo que seria num planeta em reconstrução que em 1948 Londres acolhe pela segunda vez na sua história os Jogos Olímpicos. No plano futebolístico a 11ª edição das Olimpíadas da Era Moderna confirmou o que já se vinha verificando desde os Jogos de 1932, isto é, que o desporto rei perdia fulgor no seio do grande evento desportivo planetário. Futebol que por esta altura vivia debaixo dos holofotes do profissionalismo - inimigo do amadorismo olímpico - e como tal eram cada vez menos as seleções e jogadores de topo que participavam na festa olímpica, fazendo com que o torneio de futebol fosse olhado com muito pouco interesse pelas gentes ligadas a esta modalidade. Apesar de pouco mediático o torneio olímpico de 1948 figura na história como um dos mais produtivos no que concerne a golos. No total foram 102 as ocasiões em que a bola beijou as malhas das balizas, o equivalente a uma media de 6 golos por jogo. Números que ganham um contorno mais impressionante se atendermos ao facto de que apenas foram disputadas 18 partidas!
Recordes à parte os Jogos de Londres coroaram como campeã olímpica uma seleção pouco habituada a festejar títulos, pese embora fosse uma presença habitual neste tipo de eventos. A Suécia conquistou na catedral do futebol planetário, o mesmo é dizer, Wembley, o título mais pomposo da sua história, sucendendo desta forma à Itália no trono olímpico.

A maratona do torneio olímpico teve início a 26 de julho, em Portsmouth, cidade costeira do sul de Inglaterra que a par de Brighton, Brentford, e Londres, claro está, acolheu os duelos futebolísticos. No primeiro encontro da ronda pré-eliminar a Holanda bateu por 3-1 a República da Irlanda com destaque para o bis (dois golos) de Faas Wilkes. No mesmo dia, mas em Brighton, o estreante Afeganistão foi humilhado pelo frágil Luxemburgo por 0-6! Uma partida onde a inexperiência e a falta de habilidade - há que dizê-lo - dos afegãos foi por demais evidente. Do lado luxemburguês Julien Gales e Marcel Paulus foram as estrelas da tarde, ao apontar cada um deles dois golos.
E no dia 31 de julho o torneio olímpico chegou a Londres. Em Craven Cottage, recinto do Fulham, a Jugoslávia acabava com a euforia do Luxemburgo, na sequência de uma expressiva vitória por 6-1, com golos para todos os gostos e feitios num jogo que abriu a 1ª eliminatória. Craven Cottage que foi um dos oito estádios londrinos onde se desenrolaram a esmagadora maioria dos 18 encontros da competição.
Selhurst Park, no sul da capital inglesa, foi outro, sendo que no seu relvado evoluíram nesse mesmo dia 31 de julho as equipas da Dinamarca e do Egito, esta última o único representante do continente africano no torneio. O jogo foi equilibrado, e com raras oportunidades de golo, pelo que a primeira vez que o esférico tocou o fundo de uma das balizas o relógio marcava 82 minutos de jogo! O dinamarquês Karl Aage Hansen seria o autor desse tento inaugural, ao qual os egípcios responderam um minuto mais tarde por intermédio de El Guindy, que repunha assim a teimosa igualdade no marcador. Seguiu-se um prolongamento de 30 minutos, onde os europeus foram mais fortes. Hansen voltou a fazer o gosto ao pé à passagem do minuto 95, sendo que a um minuto dos 120 Ploger carimbou de vez o passaporte dos escandinavos para os quartos-de-final.
Suado foi o triunfo da experiente França ante os caloiros da India, conforme traduz o magro resultado de 2-1. O tento da vitória gaulesa foi apontado aos 89 minutos (!) por intermédio de René Persillon.

A tarde de 31 de julho terminou em Highbury, a casa do popular Arsenal de Londres, que nesse dia registou casa cheia para ver a seleção anfitriã entrar em ação. Orientada por Matt Busby, lendário treinador do Manchester United, a Grã-Bretanha sentiu enormes dificuldades para ultrapassar a Holanda. Os holandeses inauguraram inclusive o marcador por Appel, e seguraram de forma heróica até ao final dos 90 minutos uma surpreendente igualdade a três golos. No tempo extra - aos 111 minutos - o avançado-centro do Bradford, Harry McIlvenny, sossegou as mais de 20 000 almas britânicas presentes ao apontar o 4-3 final que catapultou a turma da casa para a fase seguinte.
Os restantes encontros desta 1ª ronda ocorreram a 2 de agosto. A Turquia não sentiu grandes dificuldades ante uma China que tão boa conta tinha dado de si nos Jogos de 1936 - onde fez a vida negra à experiente Grã-Bretanha. 4-0, foi o resultado que catapultou os europeus para os quartos-de-final.
E no estádio do Tottenham, a futura campeã olímpica, a Suécia, despachava por 3-0 a Áustria, com destaque para os dois golos de Gunnar Nordahl, um dos elementos que integrou o mais famoso trio  do futebol sueco a par de Gunnar Gren, e Nils Leidholm, três nomes que se deram a conhecer ao Mundo precisamente nos Jogos Olímpicos de 48. Surpreendente foi o triunfo da Coreia do Sul sobre o México, por 5-3, num encontro onde uma vez mais se sentiu a festa do golo.

Por último, no Griffin Park, de Brentford, entraram em campo os detentores do ceptro olímpico, a Itália. O adversário da Squadra Azzurra era um velho conhecido desta, o combinado dos Estados Unidos da América (EUA), que se havia cruzado no caminho dos europeus nos Jogos de 1936, e no Mundial de 1934, dois torneios vencidos, como se sabe, pelos italianos. E como não há duas sem três também em Londres os europeus levaram de vencidos os soccer boys, desta feita por expressivos 9-0 (!), o resultado mais diltado desta 1ª eliminatória. Destaque para Francesco Pernigo, autor de quatro dos nove tentos dos italianos. Do lado dos norte-americanos esta foi uma experiência algo traumática para alguns homens que dois anos mais tarde haveriam de protagonizar aquela que muitos consideram como a maior surpresa - ou escândalo, se preferirem - ocorrida na fase final de um Campeonato do Mundo. Em 1950 o Brasil iria receber o quarto Mundial da FIFA, o primeiro em que os mestres ingleses participaram. Uma estreia que no entanto iria ser desastrosa, a todos os títulos, e que teve o seu pior momento a 29 de junho desse ano, em Belo Horizonte, local onde Sir Stanley Matthews e companhia foram humilhados pelos amadores dos EUA. Nesse célebre jogo - sobre o qual o Museu Virtual do Futebol já dedicou algumas páginas - participaram alguns nomes que integraram a modesta equipa yankee nas Olimpíadas londrinas, casos de Charlie Gloves (luvas) Colombo, Walter Bahr, Gino Pariani, Ed Souza, e John Souza, estes dois últimos descendentes de emigrantes portugueses. Aliás, e por falar em descendentes lusos, a seleção dos EUA que se deslocou a Londres foi integrada por uma mão cheia de atletas com raízes em Portugal. Para além de Ed e John Souza (que embora partilhassem o mesmo apelido não eram familiares) vestiram a camisola norte-americana Joseph Za Za Ferreira, Joseph Costa, e Manuel Martin, todos eles jogadores do Ponta Delgada Soccer Club, um emblema da região de Massachusetts fundado pela comunidade portuguesa (na sua grande maioria oriunda dos Açores) ali residente.

Coreanos levam uma dúzia (de golos) na bagagem

Em Selhurst Park, a 5 de agosto, aconteceu a goleada do torneio. A Suécia, orientada por Rudolf Kock, esmagou a Coreia do Sul por 12-0! Uma dúzia de golos resultante de uma magnífica exibição do trio sueco Gre-no-li (alusivo aos jogadores Gren, Nordahl, e Leidholm), que entre si apontaram sete dos 12 tentos nórdicos. Em Ilford (arredores de Londres) a Jugoslávia derrotava a Turquia por 3-1, enquanto que ao mesmo tempo no estádio do Arsenal a campeã olímpica em título, era humilhada pela Dinamarca por 5-3 (!), tendo para isso contribuido uma das estrelas do conjunto nórdico, John Hansen, autor de quatro golos.
Em Craven Cottage assitistiu-se a um duelo de vizinhos. Grã-Bretanha e França mediram forças no relvado do Fulham num encontro pautado pelo equilíbrio, onde só um lance de génio poderia desamarrar o teimoso nulo em que se arrastou a contenda até quase à meira hora da etapa inicial. Altura em que apareceu o tal génio, de seu nome Bob Hardisty, o autor do único golo do encontro. 36 anos depois a Grã-Bretanha estava de novo nas meias-finais de um torneio olímpico.

Duelo viking no adeus ao ouro da equipa da casa

As meias-finais foram repartidas pelos dias 10 e 11 de agosto, pelo facto de que a partir desta altura todos os jogos se iriam realizar no majestoso Estádio de Wembley. E no primeiro duelo pelo acesso à final entraram no sagrado relvado os vizinhos escandinavos da Suécia e da Dinamarca. Logo aos três minutos Seebach colocou esta última seleção a vencer por 1-0. Vantagem que seria de pouca dura, já que 15 minutos volvidos Carlsson faria o primeiro dos seus dois golos neste jogo. Ainda antes do descanso a Suécia faria mais... três golos, que praticamente liquidariam as esperanças dos vikings dinamarqueses em repetir as finais das Olimpíadas de 1908 e 1912. John Hansen, aos 77 minutos, ainda fez mais um golo para a Dinamarca, mas já era tarde demais para iniciar uma possível reviravolta. John Hansen que a par do sueco Gren conquistaria o título de melhor marcador do torneio, com sete remates certeiros.
O segundo finalista foi encontrado no dia seguinte, e de forma surpreendente. Diante de 40 000 pessoas a Jugoslávia derrotou em pleno Wembley a turma da casa por 3-1 (!), avançando assim para o jogo mais desejado do torneio olímpico.

Dinamarca vinga derrota de 1908

Ainda ferida pela impensável derrota ante a seleção vinda dos Balcãs a Grã-Bretanha regressou a Wembley no dia 13 de agosto para - pelo menos - ficar com a medalha de bronze. Tarefa que no entanto não se afigurava nada fácil, já que o opositor dos pupilos de Matt Busby era uma das equipas que melhor futebol havia apresentado em solo britânico, além de que no seu "onze" figurava um verdadeiro homem-golo chamado John Hansen. O temível avançado voltou a liderar os nórdicos nesta derradeira etapa final na luta por uma medalha, apontando dois dos cinco golos com que a sua equipa bateu o conjunto da casa (resultado final foi de 5-3), levando assim para casa uma honrosa medalha de bronze, e mais do que isso vingando a derrota de 1908, ano em que também em Londres, mas no White City Stadium, a Grã-Bretanha venceu a Dinamarca por 2-0 e conquistava a sua primeira medalha de campeão olímpico. 

Suécia entra para o Olimpo do Futebol Mundial

No mesmo dia, horas mais tarde após a conquista do bronze dinamarquês, Wembley registou a sua maior enchente deste torneio olímpico. 60 000 pessoas lotaram o famoso estádio com a finalidade de presenciarem a grande final, entre a empolgante Suécia do trio Gre-no-li, e a surpreendente Jugoslávia, sem grandes estrelas individuais, mas com um coletivo forte e habilidoso. No entanto este não era um argumento suficientemente forte para contrariar o favoritismo sueco, e logo aos 24 minutos se percebeu que muito dificilmente os nórdicos não iriam vencer o título. Gunnar Gren, que efetuou uma exibição memorável, abriu o marcador, trazendo justiça face ao que se vinha passando em campo. Contudo, e um pouco contra a corrente, os jugoslavos empataram, quando faltavam apenas três minutos para o inrtervalo, por intermédio de Bobek.
Golo que não intimidou os suecos, muito pelo contrário, que numa segunda parte verdadeiramente avassaladora encostaram os homens dos Balcãs às cordas. Primeiro por Gunnar Nordahl, aos 48 miuntos, e depois novamente por intermédio de Gren, que de grande penalidade faria aos 67 minutos o 3-1 final que coroou a Suécia como a nova campeã olímpica. Nada mais justo para um conjunto que apresentou um futebol ofensivo de grande qualidade, onde se destaca o facto de ter apontado 22 golos em quatro jogos disputados! Notável.

A figura: Gre-no-li (Gren, Nordahl, e Leidholm) 

Não um, nem dois, mas sim três. Três jogadores formaram a figura do torneio olímpico de 1948. Um trio que guiou a Suécia ao ouro em 48, e que 10 anos mais tarde esteve muito perto de a colocar no patamar mais alto do planeta. Mas Pelé, Garrincha, e companhia não permitiram tal veleidade. Gunnar Gren, Gunnar Nordahl, e Nils Liedholm, os três nomes que formaram o trio mais famoso do futebol sueco, e um dos mais afamados em termos internacionais, três lendas que jogavam quase de olhos fechados entre si, tal era a familiaridade com que conheciam o estilo de jogo uns dos outros. Notabilizaram-se nas Olimpiadas de Londres, facto que lhes valeria o passaporte para o estrelato mundial, já que depois da conquista da medalha de ouro rumaram os três para os italianos do Milan, onde ganharam (mais) fama e fizeram fortuna. Durante mais de uma década os três jogadores venceram inúmeros títulos pelos milaneses, construindo um palmarés invejável, e mais invejável poderia ter sido caso em 1958 tivessem alcançado o ceptro mais desejado por um jogador de futebol, o de campeão do Mundo.
Nesse ano a Suécia acolheu o Campeonato do Mundo, cabendo ao trio Gre-no-li comandar de novo a Suécia numa campanha fantástica, que só seria travada na final de Estocolmo pelo super Brasil de Vavá, Didi, Zagallo, Garrincha, e de um tal menino de 17 anos chamado Pelé.

Resultados:

Pré-eliminatória

Holanda - República da Irlanda: 3-1

Luxemburgo - Afeganistão: 6-0

1ª eliminatória

Dinamarca - Egito: 3-1

Grã-Bretanha - Holanda: 4-3

França - India: 2-1

Jugoslávia - Luxemburgo: 6-1

Turquia - China: 4-0

Suécia - Áustria: 3-0

México - Coreia do Sul: 3-5

Itália - Estados Unidos da América: 9-0

Quartos-de-final

Grã-Bretanha - França: 1-0

Dinamarca - Itália: 5-3

Suécia - Coreia do Sul: 12-0

Turquia - Jugoslávia: 1-3

Meias-finais

Suécia - Dinamarca: 4-2

Grã-Bretanha - Jugoslávia: 1-3

Jogo de atribuição da medalha de bronze

Grã-Bretanha - Dinamarca: 3-5

Final

Suécia - Jugoslávia: 3-1

Data: 13 de agosto de 1948

Estádio: Wembley, em Londres (Inglaterra)

Árbitro: William Ling (Inglaterra)

Suécia: Torsten Lindberg, Knut Nordahl, Erik Nilsson, Boerje Rosengren, Bertil Nordahl, Sune Andersson, Kjell Rosen, Gunnar Gren, Gunnar Nordahl, Henry Carlsson, Nils Liedholm. 

Jugoslávia: Lovric, Brozovic, B Stankovic, Zlatko Cajkovkski, Jovanovic, Atanackovic, Cimermanic, Mitic, Bobek, Zeljko Cajkovski, e Vukas.

Golos: 1-0 (Gren, aos 24m), 1-1 (Bobek, aos 42m), 2-1 (Nordahl, aos 48m), 3-1 (Gren, aos 67m)
 Legenda das fotografias:
1-Cartaz oficial dos Jogos Olímpicos de 1948
2-Escolha de campo antes do jogo entre China e Turquia
3-As equipas da Grã-Bretanha e Holanda perfiladas em Highbury Stadium
4-Lance do Coreia do Sul-México
5-Um dos 12 golos suecos ante os coreanos
6-Embate entre britânicos e jugoslávo
7-O majestoso Estádio de Wembley
8-Lance da final
9-O trio Gre-no-li ao serviço do Milan
10-A equipa da casa
11-Mais um lance da final de Wembley
12-Suecos levados em ombros após o histórico triunfo olímpico 
 
Nota: texto escrito em 22 de janeiro de 2013 no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

O futebol nos... Jogos Olímpicos de Helsínquia 1952

Os anos 50 do século passado ficam inevitavelmente marcados pelo nascimento de uma das mais encantadoras equipas de futebol de todos os tempos, a Hungria. Os mágicos magiares, como ficariam eternizados, escreveram diversos poemas futebolísticos de beleza ímpar que marcaram - e continuam a marcar - a história do belo jogo. Nomes como Sandor Kocsis, Zoltam Czibor, Nandor Hidegkuti, Gyula Grosics, ou Ferenc Puskas - todos eles soberbamente orientados pelo mestre da tática Gusztav Sebes - ascenderam ao Olimpo dos Deuses do Futebol, uma ascensão que começou a ser trilhada precisamente em 1952, nos Jogos Olímpicos que nesse ano decorreram em Helsínquia. A bordo da Máquina do Tempo façamos pois uma viagem até à capital finlandesa, para recordar a primeira nota artística da inesquecível Hungria de Puskas e companhia na alta roda do futebol internacional.
O regresso das Olimpíadas à Escandinávia ficou previamente assinalado pelo estabelecimento de um novo recorde, no que ao futebol diz respeito, claro está. 25 seleções nacionais marcaram presença em Helsínquia para participar na corrida ao ouro olímpico, número que fez com que este fosse desde logo o torneio olímpico mais concorrido da história... até então. Entre os combinados presentes destacam-se três novidades nestas andanças olímpicas, as Antilhas Holandesas, a União Soviética e o Brasil. Finalmente os Jogos Olímpicos tinham o prazer de receber os artistas sul-americanos, que em Helsínquia assinalavam o seu regresso a uma grande competição internacional depois do fiasco protagonizado... no Campeonato do Mundo de 1950, no qual em pleno Maracanã perderam o título mundial para os vizinhos do Uruguai!

A maratona de jogos do torneio olímpico de 52 começou no dia 15 de julho, com a fase pré-eliminar. No Helsingen Pallokentta Stadium os vice-campeões olímpicos em título, a Jugoslávia, não tiveram a menor dificuldade em carimbar o passaporte para a eliminatória seguinte, como expressa a goleada de 10-1 (!) imposta à modesta seleção da Índia. Partida onde o jugoslavo Branko Zebec esteve em destaque ao apontar quatro golos, iniciando aqui o avançado dos Balcãs uma caminhada que o haveria de levar até ao título de melhor marcador do certame, com um total de sete remates certeitos. E ao contrário dos jugoslavos a estreante União Soviética sentiu grandes dificuldades para se livrar da incómoda Bulgária, que em Kotka obrigou os soviéticos a horas extras. Com o marcador a indicar um teimoso nulo no final dos 90 minutos surgiu a necessidade de se jogarem mais 30 minutos de prolongamento, período onde estes últimos acabaram por levar a água ao seu moinho com uma suada vitória por 2-1. E em Turku entrava em ação a futura campeã olímpica, a Hungria. Pela frente os pupilos do mestre Gusztav Sebes tinham a Roménia, conjunto que complicou ao máximo a vida aos magiares. Extremamente bem organizados no plano defensivo os romenos anularam o refinado futebol ofensivo magiar, e só um lance de génio de Czibor, aos 21 minutos, conseguiu furar a muralha romena durante a etapa inicial. Já muito perto do fim, aos 73 minutos, Sandor Kocsis sossegou os húngaros com um remate fatal que bateu o guardião Ion Voinescu, de nada valendo o último fôlego da Roménia (golo de Ion Suru aos 86 minutos) pouco antes do apito final do soviético Nikolaj Latychev. Pelo mesmo score (2-1) registou-se o triunfo de um habitual cliente dos Jogos Olímpicos, a Dinamarca, sobre os frágeis gregos, com os tentos nórdicos a serem apontados por Poul Erik Petersen.
E como não há duas sem três 2-1 foi igualmente o resultado do duelo entre a Polónia e a França, o último deste primeiro dia de competição, tendo o tento de honra dos franceses - que até estiveram a vencer por 1-0 - sido apontado pelo histórico avançado do Stade de Reims Michel Leblond.

Estreia do Brasil...

A ronda pré-eliminar teve os seguintes capítulos no dia 16. E começou com uma chuva de golos no Egito - Chile (5-4 a favor dos africanos), enquanto que ao mesmo tempo, na cidade de Turku, o Brasil fazia a sua estreia olímpica, diante da Holanda. Brasileiros que não contavam com as suas principais estrelas da época, casos de Nilton Santos, Djalma Santos, Ademir, ou Zizinho, estes dois últimos os nomes sonantes do escrete canarinho que dois anos antes havia perdido em casa o Campeonato do Mundo para o Uruguai. E não estavam estas super-estrelas do futebol brasileiro de então porque convém - mais uma vez - relembrar que o Comité Olímpico não permitia que atletas profissionais participassem nos Jogos, e como a maior parte destes jogadores dedicava-se já única e exclusivamente ao futebol o Brasil viajou para a Finlândia com uma equipa de amadores... ou pelo menos assim se definiam. Orientado pelo técnico Newton Alves Cardoso - o selecionador principal da altura, Zezé Moreira nem sequer viajou com a comitiva ! - o combinado brasileiro era composto na sua totalidade por atletas oriundos de clubes do Rio de Janeiro (!), sendo o Fluminense o emblema que mais futebolistas cedeu à seleção, quatro para sermos mais precisos. E na estreia os brasileiros até começaram por apanhar um susto, quando à passagem do primeiro quarto de hora Van Roesell abre o marcador para a Holanda. Contudo, a apurada técnica canarinha - refira-se que pela primeira vez o Brasil envergava numa grande competição internacional a mítica camisola canarinha (amarela), cor que substituiu para sempre o azarado branco do Mundial de 50 - veio ao de cima, e 10 minutos volvidos Humberto repunha a igualdade. E os minutos que se seguiram até ao intervalo foram tomados de assalto pela estrela da tarde, Larry. 
Larry Pinto de Faria, de seu nome completo, nascido 20 anos antes (1932) em Nova Friburgo (Rio de Janeiro) teve o seu momento de fama com a mágica camisola canarinha precisamente nestes Jogos Olímpicos. Na primeira parte desse célebre encontro ante os holandeses ele fez dois golos (aos 33 e aos 36 minutos) que ao intervalo colocavam os artistas brasileiros numa boa posição para seguir em frente. Avançado elegante e com uma técnica virtuosa Larry espalhou todo o seu perfume nos relvados finlandeses onde o Brasil atuou. Na época jogava no Fluminense, clube onde se havia iniciado um ano antes destas Olimpíadas, e onde iria permanecer até 1954, altura em que viaja para Porto Alegre para defender as cores do Internacional. No Colorado Larry foi rei, tendo conquistado a exigente torcida do clube logo no primeiro dérbi ante o Grêmio, após marcar quatros dos seis golos com que o Inter derrotou o seu eterno rival. Em Porto Alegre permanceria até ao final da sua carreira (1961), tendo disputado mais de 250 jogos e apontado quase 180 golos (176 para sermos mais exatos). Mais do que um goleador era um jogador requintado, elegante - como já referimos - características que faziam dele um atleta diferente. No Inter de Porto Alegre cerebral Larry - como seria batizado pelos adeptos do clube - formou uma dupla mortífera com Bodinho, uma dupla que rivalizava em popularidade, e sobretudo em produtividade, com a de Pelé e Coutinho, no Santos. O jogador que depois de pendurar as chuteiras tornou-se deputado estadual vestiu por seis ocasiões a camisola do Brasil, três delas nestes Jogos de 1952, tendo apontado quatro golos, curiosamente todos eles em Helsínquia - e arredores -, facto que o tornaria na figura central do Brasil nesta sua primeira aparição olímpica.
Bom, voltando ao encontro de Turku, na segunda parte o escrete dilatou a vantagem construída pelo cerebral Larry. Aos 81 minutos Jansen faz o 4-1, para cinco minutos depois um tal de Vavá selar o resultado em 5-1. Vavá que seis anos mais tarde seria juntamente com Pelé, Garrincha, Zagallo, Djalma Santos, ou Nilton Santos, um dos responsáveis pela conquista do primeiro título mundial para os canarinhos. 
Nesse mesmo dia gritou-se a palavra "escândalo" no seio dos Jogos. A poderosa Grã-Bretanha - formada na sua grande maioria pelos mestres ingleses -era humilhada pela frágil seleção do Luxemburgo por 3-5 (após prolongamento), e saia pela porta pequena do torneio olímpico. Esta era a segunda humilhação que os britânicos sofriam no curto espaço de dois anos no panorama internacional, tendo a primeira ocorrido no Campeonato do Mundo de 1950, quando em Belo Horizonte os amadores dos Estados Unidos da América derrotaram a seleção da Inglaterra por 1-0, jogo esse de que já fizemos eco nas vitrinas virtuais do Museu. E por falar em Estados Unidos da América, quiseram os caprichos do sorteio deste torneio olímpico que os soccer boys defrontassem pela terceira Olimpíada consecutiva a poderosa Itália. E nem mesmo a presença de jogadores como Charlie gloves (luvas) Colombo, John Souza, ou Harry Keough, três dos heróis de Belo Horizonte ante a Inglaterra, intimidou a squadra azzurra - orientada pelo lendário Giuseppe Meazza -, que sem misericórdia voltou a esmagar os norte-americanos tal como havia feito nos Jogos Olímpicos de 1948, desta feita por 8-0. 
Aventura finlandesa durou pouco
Assim sendo Itália, Brasil, Luxemburgo, Hungria, Jugoslávia, União Soviética, Dinamarca, Polónia, e Egito avançavam para a 1ª eliminatória, juntando-se às isentas Finlândia, Noruega, Áustria, República Federal da Alemanha (RFA), Turquia, Antilhas Holandesas, e a campeã olímpica em título, a Suécia. A 1ª eliminatória arrancou a 19 de julho, no majestoso Estádio Olímpico de Helsínquia, onde se desenrolaram a esmagadora maioria das modalidades dos Jogos, com a derrota da seleção da casa, a Finlândia, aos pés de uma Áustria em reconstrução... após o desmembramento do Wunderteam (equipa maravilha) dos anos 30 edificada por Hugo Meisl. Austríacos que só garantiram a passagem aos quartos-de-final a 10 minutos do fim, quando Herbert Grohs fez o 4-3 perante o semblante carregado de 33 000 finlandeses, que viam desta forma a aventura olímpica da sua seleção durar apenas 90 minutos. Em Turku entrava em campo a RFA, liderada pelo mestre Sepp Herberger, o homem que dois anos mais tarde iria guiar os germânicos à conquista do seu primeiro Campeonato do Mundo. Nas Olimpíadas de 52 a RFA entrava com o pé direito, fruto de uma vitória tranquila sobre o Egito por 3-1. Em Tampere, União Soviética e Jugoslávia protagonizaram um jogo que seria um hino ao futebol espetáculo. Com um elevado - e apurado - caudal ofensivo ambos os conjuntos chegaram ao fim do prolongamento empatados a cinco golos (!), facto que obrigou a que dois dias depois fosse realizada uma partida de desempate. No plano individual o jugoslavo Zebec fez mais dois tentos e cimentou assim a liderança na lista dos melhores marcadores da prova. 
No dia 20, em Kotka, o Brasil sentia enormes dificuldades para ultrapassar o modesto Luxemburgo. Modesto ou não, como diriam por aqueles dias os britânicos... Aos 42 minutos, apenas e só, o cerebral Larry - quem mais podia ser - fura a bem escalonada defesa da seleção europeia, quebrando assim a monotonia instalada pela ausência de golos que se verificava. No reatamento - segunda parte - Humberto faz aos 49 minutos o 2-0, mas os luxemburgueses estavam ainda longe de se darem por vencidos. Procuraram intensamente um golo que relançasse o jogo, procura que chegaria no entanto tarde demais (minuto 86), com um golo de Julien Gales, e que não foi mais do que um prémio para coroar a excelente - mais uma - exibição da seleção do pequeno país. No dia seguinte assistiu-se a uma aula de futebol-arte protagonizada pela Hungria. Com uma exibição sublime os mágicos magiares derrotaram por três golos sem resposta a forte Itália - com destaque para o bis (dois golos) de Peter Palotas - que deixou o habitual titular Czibor no banco dos suplentes. O Mundo começava a conhecer a famosa e encantadora Hungria criada por Sebes. Em Turku a Dinamarca afastava a Polónia com uma vitória por 2-0, enquanto que a Turquia sentia grandes dificuldades para derrotar os novatos das Antilhas Holandesas por 2-1. Implacável seria o triunfo dos campeões em título, a Suécia - que se fez representar no torneio sem o seu famoso trio Gre-no-li (Gren, Nordahl, e Liedholm) ante os vizinhos da Noruega, por 4-1. Por fim, no dia 22, e sob arbitragem do conceituado árbitro inglês Arthur Ellis, a Jugoslávia derrotava por 3-1 a União Soviética no único jogo de desempate desta 1ª eliminatória. 
Veia goleadora de Puskas dá-se a conhecer ao Mundo
No dia seguinte (23 de julho) arrancaram os quartos-de-final. No Helsingen Pallokentta Stadium a Suécia sobe mais um degrau rumo à defesa do título, após vencer por 3-1 o combinado da Áustria, que até esteve a vencer por 1-0 até... 10 minutos do fim! No dia 24, no mesmo estádio, o Brasil despedia-se dos Jogos. O escrete até começou melhor, com Larry - sempre ele - a abrir o marcador aos 14 minutos. Já na segunda parte, aos 74 minutos, o defesa Zózimo - que mais tarde haveria de se sagrar bi-campeão do Mundo (em 58 e 62) - ampliou a vantagem, e pouca gente duvidaria que a aventura olímpica do Brasil não teria um novo capítulo nas meias-finais. Porém, a garra e força dos alemães veio ao de cima nos instantes finais, e um minuto depois do golo de Zózimo, Schroeder reduz para 1-2. Os brasileiros eram agora encostados à parede face à avalanche ofensiva dos germânicos. Postura que seria premiada a um minuto dos 90, quando Klug fez o empate a dois que obrigou a que se jogassem mais 30 minutos de futebol. Ai a RFA mandou, e com mais dois golos mandou os artistas brasileiros mais cedo para casa. A força tinha vencido o futebol arte. 
Em Kotka houve um autêntico vendaval. Um Vendaval de golos e de bom futebol, da responsabilidade da mágica Hungria. 7-1, o resultado com que os húngaros batiam os turcos, com realce para dois golos de Ferenc Puskas, a grande estrela magiar. Com a ajuda do goleador Zebec - mais um golo - a Jugoslávia derrotava por 5-3 a Dinamarca e continuava assim na caça ao ouro. 
Mais um recital de explêndido futebol orquestrado pelos mágicos magiares
30 000 pessoas acorreram ao Estádio Olímpico de Helsínquia para ver jogar aqueles húngaros que encantavam o planeta da bola. E em boa hora o fizeram, porque no encontro que abriu as meias-finais do evento assistiram a mais um belo recital de futebol orquestrado pelos artistas Puskas, Palotas, Czibor, ou Kocsis. 6-0, números mais do que expressivos do domínio húngaro sobre os suecos, que assim diziam adeus à possibilidade de revalidar o ceptro. Menos público (cerca de 25 000 pessoas) assistiu no dia seguinte ao triunfo da Jugoslávia sobre a RFA, com destaque para a exibição individual de Rajko Mitic, autor de dois dos três golos da sua seleção, que assim pela segunda Olimpíada consecutiva ia lutar pela medalha de ouro. 
Antes disso, a 1 de agosto, disputou-se no Estádio Olímpico da capital da Finlândia a discussão pela medalha de bronze, tendo a Suécia ficado então com o lugar mais baixo do pódio, depois de bater a RFA por 2-0, com golos de Rydell (aos 11 minutos), e Lofgren (à passagem do minuto 86).
Futebol-arte dos húngaros pintado de ouro
E no dia 2 de agosto perto de 60 000 pessoas lotaram o Estádio Olímpico para assistir à grande final. Favoritos à conquista do ouro? Talvez a Hungria, que pelo que tinha demonstrado até ali partia uns metros à frente do seu adversário. Mas este já havia mostrado momentos de grande futebol também, com exibições de gala (que o digam União Soviética e RFA)... além de que era detentor do melhor ataque da prova. Estavam assim lançados os dados para o que se esperava ser uma grande partida de futebol. Com duas boas equipas em campo o equilíbrio foi nota dominante do princípio ao fim, e mesmo com inúmeras oportunidades de golo de parte a parte o marcador permaneceu em branco durante os primeiros 45 minutos. Na etapa complementar o ritmo de jogo manteve-se, as oportunidades continuavam a surgir, mas os temíveis avançados dos dois lados da barricada teimavam em não abrir fogo. Até que aos 70 minutos surgiu - finalmente - em campo o génio de Ferenc Puskas. Dominando com arte a bola na entrada da área balcã, tirou dois adversários do caminho para posteriomente fuzilar o guarda-redes Vladimir Beara e abrir assim o marcador. O golo empolgou Puskas, que continuou a deslumbrar no relvado do Olímpico de Helsínquia, tendo a dois minutos do final efetuado um cruzamento fatal para a área contrária, onde apareceu Zoltan Czibor que aproveitando o desnorte defensivo dos jugoslavos rematou para o fundo das redes, selando assim o resultado final em 2-0, o qual coroava a Hungria como a nova campeã olímpica. O futebol-arte dos húngaros não acabaria aqui. Um ano mais tarde (1953) humilharam a poderosa Inglaterra em pleno Estádio de Wembley por 6-3, e em 1954 só não foram campeões do Mundo porque... a sorte nada quis com eles. 
A figura: Ferenc Puskas
Foi, sem margem para dúvidas, um dos maiores futebolistas da história do futebol. Ele foi o líder - dentro de campo - daquela mágica seleção da Hungria que encantou o Mundo na década de 50. A mesma Hungria que esteve quatro anos (entre 1950 e 1954) sem conhecer uma única derrota (!). Ferenc Puskas foi o maior símbolo futebolístico daquele país do leste europeu, um símbolo eterno, um símbolo que representa na perfeição uma das melhores equipas de futebol de todos os tempos. Nasceu em Budapeste, a 2 de abril de 1927, a iniciou a sua brilhante carreira com apenas 16 anos, em 1943, no Kispest. Em 1949 transfere-se para o gigante Honved, clube ao serviço do qual vence quatro campeonatos do seu país. Detentor de uma técnica magistral, aliada a um apurado instinto pelo golo, Puskas brilharia então ao serviço da seleção do seu país, cuja camisola envergou em 85 ocasiões, tendo marcado uma soma impressionante de 84 golos. Em termos coletivos a medalha de ouro em Helsínquia foi o momento mais cintilante da sua carreira ao serviço do seu país natal, tendo a maior deceção ocorrido dois anos mais tarde, no Campeonato do Mundo realizado na Suíça, onde a sorte nada quis com a super favorita Hungria, a melhor equipa daquela época, e a grande favorita à conquista do Mundo. Mesmo não vencendo o título coletivo Puskas foi eleito o melhor jogador desse Mundial, e por aquela altura não havia nenhum clube do planeta que não sonhasse tê-lo no seu plantel. O Major Galopante - alcunha surgida pelo facto de Puskas ter sido oficial do exêrcito húngaro - aproveitou nos finais dos anos 50 uma viagem do Honved a Espanha - para disputar um jogo da Taça dos Campeões Europeus (TCE) ante o Athletic Bilbao - para se libertar do bloco comunista que tomava conta do leste da Europa, e que impedia que talentosos jogadores como ele pudessem trabalhar ao serviço dos grandes clubes do Ocidente. Nessa viagem Puskas, e outros companheiros seus, como Kocsis, ou Czibor, refugiaram-se, digamos assim, em Espanha, recusando regressar ao seu país natal, e depois de muitas lutas burucráticas viram os seus certificados internacionais liberados pelas altas instâncias do futebol, tornando-se deste modo jogadores livres. Conhecedor do seu potencial o colosso Real Madrid não perdeu tempo a contratar o Major Galopante, corria o ano de 1958. Na capital espanhola Puskas juntou-se a outra lenda dos relvados, Di Stéfano, e juntos tornaram o Real Madrid ainda mais forte do que aquilo que já era. Com a camiseta blanca venceu duas TCE, e cinco campeonatos de Espanha. Ainda se naturalizou espanhol, tendo realizado quatro encontros com a roja. Depois de abandonar a carreira de futebolista foi treinador, tendo orientado um alargado leque de equipas de países como a Espanha, Paraguai, Grécia, Chile, Austrália, ou Estados Unidos da América. Viria a falecer a 17 de novembro de 2006, com 79 anos, e desde então a FIFA atribuiu o seu nome ao prémio que coroa o marcador do golo mais bonito de cada ano.
Resultados:
Pré-eliminatória
Jugoslávia - Índia: 10-1
União Soviética - Bulgária: 2-1
Roménia - Hungria: 1-2
Dinamarca - Grécia: 2-1
Polónia - França: 2-1
Egito - Chile: 5-4
Holanda - Brasil: 1-5
Itália - Estados Unidos da América: 8-0
Luxemburgo - Grã-Bretanha: 5-3
1ª eliminatória
Finlândia - Áustria: 3-4
RFA - Egito: 3-1
Jugoslávia - União Soviética: 5-5 / 3-1 (desempate)
Brasil - Luxemburgo: 2-1
Suécia - Noruega: 4-1
Hungria - Itália: 3-0
Dinamarca - Polónia: 2-0
Turquia - Antilhas Holandesas: 2-1
Quartos-de-final
Suécia - Áustria: 3-1
RFA - Brasil: 4-2
Hungria - Turquia: 7-1
Jugoslávia - Dinamarca: 5-3
Meias-finais
Hungria - Suécia: 6-0
Jugoslávia - RFA: 3-1
Jogo de atribuição da medalha de bronze
Suécia - RFA: 2-0
Final
Hungria - Jugoslávia: 2-0
Data: 2 de agosto de 1952
Estádio: Olímpico de Helsínquia (Finlândia)
Árbitro: Arthur Ellis (Inglaterra)
Hungria: Gyula Grosics; Jeno Buzansky e Gyula Lorant; Jozsef Boszik, Mihaly Lantos e Jozsef Zakarias; Nandor Hidegkuti, Sandor Kocsis, Peter Palotas, Ferenc Puskas e Zoltan Czibor. Treinador: Gusztav Sebes. 
Jugoslávia: Vladimir Beara; Branko Stankovic e Tomislav Crnkovic; Zlatko Cajkovski, Ivan Horvat e Vujadin Boskov; Tihomir Ognjanov, Rajko Mitic, Bernard Vukas, Stjepan Bobek e Branko Zebec. Treinador: Milorad Arsenijevic.
 Golos: 1-0 (Puskas, aos 70m), 2-0 (Czibor, aos 88m)
Legenda das fotografias:
1-Cartaz oficial dos Jogos Olímpicos de 1952
2- Branko Zebec, o melhor marcador do torneio olímpico, com sete golos
3- Lance do Brasil - Holanda
4-Larry, a grande figura da seleção brasileira em Helsínquia
5-Capitães dos Estados Unidos da América e da Itália trocam galhardetes antes do pontapé de saída
6-Imagem aérea do Estádio Olímpico de Helsínquia
7-A seleção do Brasil que fez a estreia em Jogos Olímpicos
8-Lance do RFA-Brasil
9-O lendário treinador húngaro Gusztav Sebes
10-Remate de Puskas na final
11-Ferenc Puskas, a figura do torneio olímpico de 1952
12-Mais um remate do Major Galopante na grande final
13-A mágica seleção da Hungria, faz a festa final
Nota: texto escrito em 22 de março de 2013 no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

O futebol nos... Jogos Olímpicos de Melbourne 1956

Em 1956 o torneio olímpico transpunha pela primeira vez  as fronteiras da Europa. Desde que havia sido oficializado em 1908 o futebol olímpico nunca havia sido jogado fora dos relvados do Velho Continente, o palco onde se assumia indiscutivelmente como ator principal do teatro desportivo. Fora deste continente o belo jogo parecia por aqueles dias ainda não ter adquirido o estatuto de desporto rei, sendo a exceção a América do Sul, onde há muito que já era tratado de forma principesca. Em termos olímpicos o ato de fé de que a modalidade ainda não era venerada a 100% - o mesmo será dizer que ainda não suscitava um interesse profundo - foi que nos Jogos de 1932, em Los Angeles, ela nem sequer fez parte do programa olímpico. Mas a meio do século XX tudo parecia estar a mudar, ou pelo menos a tentar.
Em 1956 os Jogos Olímpicos disputam-se na longínqua Austrália, mais concretamente na cidade de Melbourne, que assim testemunhou a primeira aparição das Olimpíadas no hemisfério sul. O facto de terem decorrido num local tão distante fez com que a esmagadora maioria das delegações tivesse enfrentado um duro desafio financeiro para levar um alargado leque de atletas à grande ilha do Pacífico. Assim sendo - e face às dificuldades financeiras para fazer uma viagem tão longa - a maior parte das nações fizeram-se representar por reduzidas comitivas, com pouquíssimos atletas, transformando a maior parte das competições que integravam o cartaz olímpico de 56 num enorme... deserto. Marcado por muitas ausências esteve igualmente o torneio olímpico de futebol, onde apenas 11 equipas - sim, somente 11 (!!!) - lutaram pelo ouro. Desde 1912, em Estocolomo, que o torneio olímpico não tinha tão poucos concorrentes! Sem dúvida que este não era o melhor cartão de visita para apresentar, e sobretudo fidelizar, o futebol noutros cantos do planeta que não na Europa e na América do Sul.

Outro aspeto que empobreceu muito o torneio olímpico de Melbourne foram as lutas políticas. Cerca de um mês antes do início dos Jogos a União Soviética invade a Hungria com a intenção de contestar uma manifestação popular, que ficou conhecida como a Revolução Húngara de 56, onde o povo magiar exigia uma maior autonomia da sua pátria em relação aos soviéticos. Por esta altura a lendária seleção húngara do início dos anos 50 - campeão olímpica em 1952, e vice campeã do Mundo em 1954 - já se havia desmembrado, com os seus melhores jogadores - entre outros Puskas, Czibor, ou Kocsis - a pedir asilo político a outros países onde continuariam as suas lendárias carreiras desportivas.
Para Melbourne viajaram apenas cinco seleções europeias, a maioria delas oriundas do leste, com destaque para a União Soviética, que pela segunda vez na sua história marcava presença nos Jogos, e para a Jugoslávia, a eterna vice-campeã olímpica, como mais à frente se iria confirmar... mais uma vez. Além destas também seguiram viagem para a Austrália os combinados da Grã-Bretanha, Alemanha (unificada !!!), e a Bulgária. Teoricamente deste grupo pensava-se que pudesse sair o novo campeão olímpico, até porque as restantes seis seleções pertenciam a uma espécie de sub-mundo do futebol, com poucas, ou nenhumas, provas dadas no cenário futebolístico internacional, como eram os casos da Tailândia, Índia, Indonésia, Japão, Estados Unidos da América, e a turma anfitriã, a Austrália. Estes eram os 11 participantes do desolador torneio olímpico de 56, e como já deu para ver da América do Sul nem uma única seleção se aventurou fazer a viagem até à terra dos cangurus, onde o soccer - como lá é conhecido o futebol - era ainda um verdadeiro enigma.
Novidade no torneio olímpico de 1956 o facto de a maioria das seleções ter tido a necessidade de passar por uma fase de qualificação para carimbar o passaporte para a fase final. 

Países de leste confirmam favoritismo... com algumas dificuldades pelo meio

Foi no peculiar Melbourne Olympic Park - de arquitetura oval (!) - que decorreram a esmagdora maioria das provas olímpicas de 1956, sendo uma delas o futebol. A 24 de novembro entram em campo União Soviética e a Alemanha unificada - uma das novidades do torneio. Germânicos que apesar de ostentaram o título de campeões do Mundo - conquistado dois anos antes na Suíça pelos alemães do ocidente, isto é, pela República Federal da Alemanha - apresentavam-se em Melbourne com uma equipa constituida por jovens jogadores amadores, sem qualquer experiência internacional. Orientada pela lenda da tática que em 54 havia conduzido os alemães ocidentais à épica conquista do Mundo, Sepp Herberger, a seleção teutónica fez a vida negra aos frios e desconhecidos soviéticos no encontro que abriu a primeira eliminatória do torneio. Aos 23 minutos Anatoli Issaev abriu o marcador de um jogo disputado às 14:30h da tarde... debaixo de um calor sufocante tipicamente australiano. Já na segunda parte, e muito perto do fim, os homens de leste carimbaram o ingresso nos quartos-de-final, quando à passagem do minuto 86 Eduard Streltsov fez o segundo tento da sua seleção. Porém, a boa performance dos germânicos seria justamente premiada com um golo, aos 89 minutos, em cima do apito final do inglês Robert Mann, por intermédio de Ernst Habig. 2-1 final, um triunfo sofrido de uma União Soviética que era uma verdadeira incógnita para o mundo ocidental. 

Olhavam para eles com desconfiança, muito devido ao seu posicionamento político perante o resto do mundo. O seu ainda pouco conhecido desempenho desportivo era classificado por muitos como científico e metódico, e para outros pouco atrativo sob o ponto de vista técnico. Assim era o futebol soviético, protagonizado por aquela misteriosa equipa que na sua camisola vermelha trazia impressa as siglas CCCP. Por trás da cortina de ferro do bloco comunista havia um novo mundo para descobrir sob o ponto de vista desportivo, o qual começou precisamente a deixar-se vislumbrar nestes Jogos de 1956, já que no final eles levariam para casa um impressionante número de 98 medalhas, entre as quais figurava a rodela de ouro que seria conquistada no futebol. Mas já lá iremos. 

A 26 de novembro perante uma desoladora assistência de pouco mais de 3500 pessoas a experiente Grã-Bretanha massacrava a para lá de modesta Tailândia - que fazia a sua estreia nas andanças olímpicas no que a futebol concerne - com nove golos sem resposta, com destaque para o hattrick de John Laybourne. 
Um dia mais tarde foi a vez da seleção da casa fazer não só a sua estreia em torneios olímpicos mas também num grande evento futebolístico internacional. Completamente desconhecido - para o mundo ocidental - o soccer australiano media forças com o Japão. Segundo crónicas da época os socceroos não se apresentaram no evento na sua melhor condição física, tendo iniciado a sua preparação apenas quatro semanas antes deste ter início. Contudo, apesar de mais fortes sob o ponto de vista técnico os japonenses não conseguiram furar a sólida defensiva local. E como quem não marca sofre aos 26 minutos Graham McMillan apontou - de grande penalidade - o primeiro golo da tarde para a Austrália. Na segunda parte os nipónicos bem tentaram dar a volta por cima, mas a sorte nada queria com eles, e à passagem do minuto 61 Frankie Loughran selou definitivamente o triunfo dos australianos que assim vivenciavam o primeiro momento dourado do seu soccer.

No dia 28 tinham início os quartos-de-final. Aproximadamente 5300 espetadores visionaram a segunda maior goleada verificada no torneio. A favorita Jugoslávia vergava os Estados Unidos da América por concludentes 9-1, com destaque para os hattricks de Muhamed Mujic, e Toza Veselinovic, este último que haveria de ser um dos três melhores marcadores da competição (juntamento com o indiano D'Souza, e o búlgaro Stoyanov), com um total de quatro remates certeiros.
No dia seguinte o fator surpresa pairou sobre o Melbourne Olympic Park. A União Soviética não iria além de um pobre empate a zero golos diante da modesta Indonésia (!) Exibindo um futebol fraco sob o ponto de vista técnico os soviéticos eram obrigados a um segundo jogo ante o combinado asiático marcado para dois dias mais tarde. Surpreedente foi também a vitória da Bulgária sobre a Grã-Bretanha, e logo por números a que os súbitos de Sua Majestade estavam pouco habituados. 6-1 para os búlgaros, que confirmavam assim a superioridade os países do leste europeu sobre a demais concorrência.
Empolgados com a vitória da primeira ronda cerca de 7500 australianos deslocaram-se ao anfiteatro olímpico para ver os socceroos em ação diante da Índia, que aparecia pela terceira vez consecutivo no torneio. Um confronto que ditou desde logo uma certeza: pela primeira vez uma seleção do oriente iria marcar presença nas meias finais de um torneio olímpico. A anteceder o duelo entre autralianos e indianos um episódio curioso, diria mesmo caricato, fez correr muita tinta. Os indianos queriam jogar descalços, à semelhança do que haviam tentado fazer no Campeonato do Mundo de 1938. Aí, a FIFA não permitiu que os atletas daquele país atuassem sem botas específicas para a prática do futebol. Só que em Melbourne quem mandava era o Comité Olímpico Internacional (COI), e como este continuava a defender o desporto amador contra o profissionalismo da FIFA deu aval para que os indianos jogassem da forma que preferissem! No entanto, e depois de muita discussão - com os australianos a protestar tal decisão do COI - os indianos concordariam em jogar de chuteiras. E o que é certo é que com ou sem botas a Índia humilhou a equipa da casa por 4-2, com destaque para três golos de Neville Stephen D' Souza. Quanto aos socceroos, e graças a uma paupérrima exibição, baseada num jogo violento para com os seus adversários, terminavam a sua aventura olímpica.  

Entretanto neste mesmo dia 1 de dezembro a União Soviética era obrigada a horas extras diante da Indonésia, depois do já citado 0-0 no primeiro jogo. Alertados para a surpresa oriental os soviéticos, mesmo sem encantar, puxaram dos seus galões e golearam os indonésios por claros 4-0, com realce para o bis de Sergei Salnikov. 
Este seria o último jogo em que os europeus mostrariam um futebol tecnicamente sombrio, já que nas meias finais o universo futebolístico ficaria finalmente a conhecer aquela que foi vincadamente uma das grandes seleções das décadas de 50 e 60 do século passado. 

Jugoslavos garantem presença na sua terceira final consecutiva

No dia 4 de dezembro o Melbourne Olympic Park era palco do Jugoslávia - Índia, o primeiro encontro alusivo às meias-finais do certame. Sem grandes dificuldades os europeus, mais experientes, e com maior poderio técnico-tático, bateram os asiáticos por claros 4-1, num jogo onde Papec foi a estrela da tarde ao apontar dois dos quatro golos jugoslavos. Os homens dos Balcãs marcavam assim presença na sua terceira final olímpica consecutiva. 
Um dia mais tarde apareceu então - finalmente - o perfume do futebol soviético. Os jogadores de leste mostraram ao planeta da bola o poderio do seu futebol, que sem ser de facto brilhante do ponto de vista técnico primava pela sagaz eficiência tática, pela força e precisão. Eles podiam não ter o encantador brilho técnico do lendário Uruguai das décadas de 20 e 30, por exemplo, mas apresentavam jogadas trabalhadas em laboratório, e um estudo prévio aprofundado sobre os seus adversários, facto que os iria rotular como os primeiros cientistas do futebol. Bom, mas voltando ao campo de batalha, o mesmo será dizer ao relvado do oval Melbourne Olympic Park, para recordar a curta mas merecida vitória soviética sobre a Bulgária, por 2-1, carimbada em prolongamento.

Búlgaros que caíram de pé, restando-lhes agora a luta pela medalha de bronze, cuja disputa decorreu a 7 de dezembro diante da Índia. 
Diante de pouco mais de 21 000 espetadores o combinado europeu finalizou a sua boa prestação neste torneio olímpico com um claro triunfo por três golos sem resposta, conquistado assim uma merecida medalha, a primeira do seu historial no que ao desporto rei diz respeito. 
Neste encontro o destaque individual foi para Todor Diev, autor de dois dos três tentos búlgaros. 
Quanto aos indianos este quarto lugar foi o maior feito do seu - ainda hoje - praticamente desconhecido futebol no plano internacional. 

União Soviética sobe ao lugar mais alto do pódio

E no dia 8 de dezembro o Melbourne Olympic Park registou a sua maior afluência, com quase 87 000 a marcarem presença na grande final do certame. Arbitrado pelo australiano Ron Wright o encontro foi muito equilibrado, ou não estivessem em campo as duas melhores seleções da prova. Equilíbrio que seria furado aos 48 minutos por Anatoli Ilyin, homem que entrou para a história do futebol soviético após apontar o único golo desta final olímpica, o golo que deu a primeira coroa de glória aos... cientistas do futebol. Naquele dia o Mundo ficou a conhecer uma equipa forte, com um fôlego inesgotável, comandada desde a baliza pelo imponente guarda-redes Lev Yashin, que com o seu equipamento negro, as suas enormes mãos, e a sua incrível agilidade entre os postes, impunha respeito a qualquer adversário. Foi neste ano que os soviéticos começaram a sair do seu reservado mundo, em busca da conquista de... novos mundos. Dois anos mais tarde brilhariam a grande altura no Mundial da Suécia, e em 1960 venceram a primeira edição do Campeonato da Europa. 
Quanto à Jugoslávia pela terceira olimpíada consecutiva fica com a prata! Parecia sina.

A figura: Lev Yashin

É apontado por muitos dos historiadores do belo jogo como o melhor guarda-redes de todos os tempos. Ele foi o esteio da geração dourada do futebol soviético, ficando eternizado no Olimpo do futebol como a Aranha Negra. Lev Yashin, o seu lendário nome, rapaz de modestas famílias nascido a 22 de outubro de 1929, em Moscovo, e que se deu a conhecer ao Mundo precisamente no início da década de 50, ao serviço do único clube cujas balizas defendeu ao longo de 20 anos de carreira, o Dínamo de Moscovo. Aos 14 anos trocou o hóquei sobre o gelo - a sua primeira paixão - pelo futebol, onde mostrou atributos até então nunca dantes vistos num guarda-redes. De bom porte atlético ele foi o primeiro keeper a sair sem medo aos pés dos temíveis avançados que ameaçavam a sua área. Dizem até que ele era capaz de ler a mente dos homens-golo... Era detentor de reflexos invejáveis e de um posicionamento tático perfeito entre os postes. Era a voz de comando das suas equipas, da baliza ele dava as ordens aos seus companheiros, já que lá atrás ele lia o jogo com uma mestria invulgar para um guardião. Durante 22 anos ele defendeu então as cores do Dínamo de Moscovo (entre 1950 e 1972), emblema ao serviço do qual conquistou cinco campeonatos soviéticos (1954, 1955, 1957, 1959 e 1963) e três taças da União Soviética (1953, 1967 e 1970). Ao serviço da seleção atuou em 78 ocasiões, tendo vencido a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 1956, e o Campeonato da Europa de 1960. Esteve ainda presente em três edições do Campeonato do Mundo (1958, 1962, e 1966), tendo como melhor resultado um quarto lugar - atrás do Magriços de Portugal - no Mundial de Inglaterra, em 66. Disputou um total de 812 jogos na carreira, tendo defendido um impressionante número de 150 grandes penalidades! Vestia-se sempre todo de preto, facto que lhe valeu a eterna alcunha de Aranha Negra. Em 1968 foi condecorado com a Ordem de Lênin pela sua brilhante carreira ao serviço do desporto soviético, tendo em 1971 colocado um ponto final no seu trajeto imaculado. Quando certa ocasião lhe perguntaram o segredo do seu sucesso respondeu que: «tudo se devia ao facto de fumar um cigarro e beber um copo de vodka antes de cada jogo», um ritual que o deixava mais calmo! Em 1975, foi eleito o atleta russo do século, e em 1998, a FIFA elego-o como o melhor guarda-redes do século XX. Em 1963 ele venceu o famoso galardão Bola de Ouro, sendo até hoje o único guarda-redes a conquistar este prémio! Em 1986 perdeu uma perna por causa de uma lesão no joelho.
Viria a faleceu no dia 21 de março de 1990, em Moscovo, vitimado por um cancro no estômago. No Estádio Luzhniki ergueu-se então uma estátua em sua homenagem.

Resultados

1ª Eliminatória

União Soviética - Alemanha: 2-1
(Issaev, aos 23m, Streltsov, aos 86m)
(Habi, aos 89m)

Grã-Bretanha - Tailândia: 9-0
(Laybourne, aos 30m, 82m, 85m, Twissell, aos 12m, aos 20m, Bromilow, aos 75m, aos 78m, Lewis, aos 21m, Topp, aos 90m)

Austrália - Japão: 2-0
(McMillan, aos 26m, Loughran, aos 61m)

Quartos-de-final

Jugoslávia - Estados Unidos da América: 9-1
(Veselinovic, aos 10, aos 84m, aos 90m, Mujic, aos 16, aos 35m, aos 55m, Antic, aos 12m, aos 73m, Papec, aos 20m)
(Zerhusen, aos 42m)

União Soviética - Indonésia: 0-0 / 4-0 (desempate)
(Salnikov, aos 19m, aos 59m, Ivanov, aos 19m, Netto, aos 43m)

Bulgária - Grã-Bretanha: 6-1
(Kolev, aos 40m, aos 85m, Stoyanov, aos 45m, aos 75m, aos 80m,Nikolov, aos 6m)
(Lewis, aos 30m)

Austrália - Índia: 2-4
(Morrow, aos 17m, aos 41m)
(D'Souza, aos 9m, aos 33m, aos 50m, Kittu, aos 80m)

Meias-finais

Jugoslávia - Índia: 4-1
(Papec, aos 54, aos 65m, Veselinovic, aos 57m, Salam (p.b.), aos 78m)
(D'Souza, aos 52m)

União Soviética - Bulgária: 2-1
(Streltsov, aos 112m, Tatushin, aos 116m)
(Kolev, aos 95m)

Jogo de atribuição da medalha de bronze

Bulgária - Índia: 3-0
(Diev, aos 37m, aos 60m, Stoyanov, aos 42m)

Final

União Soviética - Jugoslávia: 1-0

Data: 8 de dezembro de 1956

Estádio: Melbourne Olympic Park

Árbitro: R. Wright (Austrália)

União Soviética: Yashin; Baschaschkin, Ogognikov  e Kuznetsov; Netto e Maslenkin; Tatushin, Isaev, Simonian, Salinikov e Ilyin

Jugoslávia: Radenkovic; Koscak e Radovic; Santek, Spajic e Krstic; Sekularac, Antic, Papek, Veselinovic e Mujic

Golo: 1-0 (Ilyin, aos 48m)
Legenda das fotografias:
1-Cartaz oficial dos Jogos Olímpicos de 1956
2-fase do encontro entre Alemanha e União Soviética
3-O oval Melbourne Olympic Park
4-Bilhete do torneio olímpico de futebol de 1956
5-Britânicos levaram a melhor sobre os estreantes e frágeis tailandeses
6-O jugoslavo Toza Veselinovic, um dos três goleadores do torneio

7-Lance do duelo entre soviéticos e indonésios
8-Jugoslávia ultrapssa a Índia nas meias-finais
9-Lance do jogo de apuramento dos 3º e 4º lugares
10-A equilibrada final olímpica de 56
11-A estrela da companhia soviética, a Aranha Negra Lev Yashin
12-Lance do Austrália - Japão
13-Imagem da grande final...
14-... que coroou a União Soviética como a campeã olímpica de 1956
 
Nota: texto escrito em 19 de abril de 2013 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com