Museu Virtual do Futebol

Terá sido o Palmeiras o primeiro campeão mundial de clubes?

A recente polémica instalada em torno do número de títulos de campeão nacional alcançados pelo Sporting (18 ou 22) abre-nos hoje a porta para outro facto histórico que durante anos levantou - e continua a levantar - algumas dúvidas sobre a sua autenticidade e, por consequência, importância. Referimo-nos ao título conquistado pelo Palmeiras na Copa Rio Internacional de 1951, que é olhado hoje, com 65 anos de distância, como a primeira ocasião em que foi atribuído a um clube o estatuto de campeão mundial. É no entanto um facto encarado por muitos historiadores desportivos e/ou simples curiosos do fenómeno futebolístico com profunda insignificância, desprovido de veracidade, e como tal sem qualquer tipo de fundamento para sequer constar no Grande Atlas do Futebol planetário. Pelo contrário, outros sustentam que este longínquo torneio realizado em solo brasileiro foi o molde, a inspiração, do atual Campeonato do Mundo de Clubes organizado sob a batuta da FIFA, e que os contornos intencionais desse torneio oficializam o Palmeiras como o primeiro campeão mundial de clubes da história. Não existe, portanto, consenso para este facto histórico que hoje vamos recordar, e que só pela polémica instalada em seu redor merece, sem dúvida, ser retratado com algum detalhe nas vitrinas do Museu Virtual do Futebol.


Após uma derrota dolorosa é costume os jogadores, treinadores, dirigentes ou adeptos de uma equipa desejarem que o próximo jogo se realize o mais rápido possível no sentido de esquecer um capítulo sombrio ocorrido no presente. Terá sido este o pensamento dos dirigentes da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) quando em 1951 idealizaram aquele que inicialmente foi batizado de Torneio Mundial dos Campeões.
Por estes dias o Brasil ainda lutava para esquecer o pesadelo vivido um ano antes, quando o Uruguai roubou, em pleno Estádio do Maracanã, o título mundial aos anfitriões do maior evento chancelado pela FIFA. 
No sentido de limpar as lágrimas do provo brasileiro, a CBD projetou um outro torneio de dimensão planetária capaz de apagar as tristes memórias do Maracanazo de 1950. Um evento que agregasse a si alguns dos maiores clubes do Mundo de então, assim terão idealizado os dirigentes federativos. A ideia agradou de pronto aos membros da FIFA, tendo Ottorino Barassi, o braço direito do então presidente do organismo que tutela o futebol a nível global, Jules Rimet, dado o seu apoio para que o projeto fosse avante. 
 

Há, no entanto, uma nota importante a reter nesta história: a FIFA apoiou e autorização a realização do torneio mas não chamou a si a organização do mesmo, atribuindo essa responsabilidade à CBD. Por outras palavras, na época a FIFA não oficializou como seu este Torneio Mundial dos Campeões, facto que só por si gerou ao longo das décadas seguintes muitos pontos de interrogação sobre a veracidade da designação do Palmeiras como o primeiro campeão mundial de clubes da História. Mas voltando aos contornos desta nossa viagem ao passado, com o aval da FIFA dado, a CBD tratou de convidar alguns dos gigantes do futebol internacional de então, na sua esmagadora maioria campeões dos seus respetivos países. Uma das exceções foi o Real Madrid, que mesmo não sendo o detentor do título espanhol de 50/51 recebeu o convite para participar, algo que acabaria por não acontecer devido a incompatibilidades de ordem financeira. Tal como hoje, já naquela época o colosso espanhol exigia elevados cachets para desfilar o seu emblema fosse em que parte do planeta fosse! Também o campeão italiano de 50/51, o Milan, recusou o convite que recebeu para viajar para a América do Sul, dando prioridade à Taça Latina que nesse ano se disputava precisamente em solo italiano. Com a nega dos merengues e dos rossoneri o Torneio Mundial dos Campeões foi integrado pelos vencedores dos dois principais campeonatos estaduais do Brasil, Rio de Janeiro e São Paulo, no caso, e respetivamente, o Vasco da Gama e o Palmeiras, aos quais se juntaram os campeões do Uruguai (Nacional), de França (Nice), da Áustria (FK Austria de Viena), de Portugal (Sporting), a Juventus (escolhida para substituir o Milan) e ainda o vencedor da Taça da Jugoslávia da época (Estrela Vermelha). 

Os oito clubes foram divididos em dois grupos de quatro equipas cada, sendo que o Grupo A (integrado pelo Vasco da Gama, Sporting, Austria de Viena e Nacional) teve como cenário a Cidade Maravilhosa do Rio de Janeiro, tendo o palco da competição sido instalado no majestoso Estádio do Maracanã, o tal que no ano anterior amparou as lágrimas de mais de 200.000 brasileiros na sequência da trágica derrota da sua seleção diante do Uruguai. Em São Paulo, no Estádio do Pacaembu, realizaram-se os encontros do Grupo B (composto por Palmeiras, Estrela Vermelha, Nice e Juventus). A bola começou a rolar no dia 30 de junho, sendo que no Pacaembu o campeão paulista realizou uma segunda parte verdadeiramente demolidora diante do Nice, performance traduzida num expressivo score de 3-0, com golos de Aquiles, De León e Richard. Na outra partida, ocorrida no dia seguinte no mesmo local, a Juve sentiu algumas dificuldades para bater por 3-2 o Estrela Vermelha, tendo valido aos transalpinos a tarde inspirada da sua então estrela-mor, o atacante Giampiero Boniperti, autor de dois golos. O campeão italiano repetiu a dose dois mais tarde diante do Nice, sendo que desta feita o golo do triunfo (3-2) surgiu à passagem do minuto 70, por intermédio de Ermes Muccinelli. Com esta vitória a Juventus selava a qualificação para as meias-finais, já que de acordo com os regulamentos do torneio os dois primeiros de cada grupo avançavam para a fase de eliminação direta. No dia 5, e contra todas as expectativas o Palmeiras sentiu grandes dificuldades para bater o Estrela Vermelha por 2-1. O internacional jugoslavo Ognjanov colocou os europeus em vantagem. A perder, o Verdão teve então de puxar dos seus galões e ainda na primeira parte Aquiles empatou, para na etapa complementar Liminha consolidar a reviravolta e garantir a qualificação da sua equipa para as meias-finais. 


Faltava saber em que lugar os paulistas iriam terminar esta primeira fase, e talvez por isso o Pacaembu tenha registado uma afluência massiva de torcedores para assistir ao embate da última jornada da fase de grupos ante a poderosa Juve. Na realidade, assistiu-se a uma verdadeira avalanche italiana em direção à baliza paulista. 4-0 a favor dos italianos, o resultado final de uma partida onde brilhou a grande altura Giampiero Boniperti, que voltou a fazer o gosto ao pé em duas ocasiões. Ele que ainda hoje é um dos grandes nomes da história da Vecchia Signora, com mais de 400 jogos disputados com a equipa de Turim ao longo de 10 épocas e quase duas centenas de golos apontados (178 para sermos mais precisos). Boniperti que, refira-se a título de curiosidade, depois de abandonar os relvados enquanto futebolista foi durante largos anos dirigente da Juve, sendo hoje presidente honorário do clube. Foi ainda nos finais dos anos 90 eurodeputado eleito pelas listas da Forza Italia, o partido de Silvio Berlusconi. Com este expressivo triunfo a Juventus conquistava o topo do grupo, e iria medir forças com o segundo colocado do Grupo B, o Austria de Viena, ao passo que o Palmeiras iria enfrentar os conterrâneos do Vasco da Gama, vencedores de uma chave que tinha um Sporting que vivia ainda sob a aura gloriosa dos Cinco Violinos, ou Quatro Violinos, neste caso, porque a temível lança do mais famoso quinteto do futebol português, Fernando Peyroteo, havia-se retirado dois anos antes, restando Jesus Correia, Vasques, Albano e Travassos. A estes juntavam-se outros nomes de peso, casos de Mário Wilson, João Martins, Juca, Canário, Patalino e Ben David. Patalino e Ben David?  

Mas estes dois astros dos futebol português dos anos 40 e 50 não pertenciam aos quadros do Sporting, dirão, e com razão, os leitores mais atentos à história do belo jogo. Ambos os jogadores integraram a comitiva leonina que rumou ao Rio de Janeiro na condição de convidados, assim como Serafim, então jogador do Belenenses, que aceitou o convite para vestir de verde nos três jogos que os leões disputaram na meca do futebol brasileiro, o Maracanã. Treinados pelo inglês Randolph Galloway o Sporting partia como um dos mais sérios candidatos à vitória nesta Copa, mas na prática as coisas não correram de feição aquele que era então o grande emblema do futebol lusitano. Aliás, e em jeito de curiosidade, refira-se que em 1951 o Sporting havia vencido o primeiro de uma série de quatro títulos de campeão nacional consecutivos, que haveriam de dar ao clube de Alvalade o primeiro tetra da história do futebol português. Mas no Rio o prestígio do Sporting não se vislumbrou, e logo na estreia os leões sofreram uma das derrotas mais pesadas da prova às mãos do Vasco da Gama. 5-1, numa partida em que atuaram cinco homens que no ano anterior tinham vertido lágrimas naquele mesmo relvado do templo do Maracanã. Friaça, Eli, Maneca, Danilo e Barbosa, cinco jogadores que haviam sido vergados à mestria do Uruguai na final do Mundial de 1950, mas que desta vez saíram com motivos para sorrir do tapete verde sagrado da Cidade Maravilhosa. O tento de honra dos portugueses saiu dos pés de Patalino, um dos três jogadores convidados, e que na altura defendia as cores do seu querido Elvas. No outro encontro desta 1ª jornada o Austria de Viena esmagava por 4-0 o Nacional de Montevideu. 

Uruguaios que na ronda seguinte vingaram a derrota da estreia, ao aplicar um KO direto (vitória por 3-2) ao desolador Sporting que assim se despedia da possibilidade de lutar pelo título. Neste encontro brilhou mais uma vez o génio de Patalino, ele que aos dois minutos colocou os portugueses em vantagem no marcador, a qual seria no entanto sol de pouca dura, já que dez minutos volvidos Bernardes restabeleceu a vantagem. Pouco depois Jesus Correia recolocou os leões na frente, liderança que seria perdida após o intervalo, altura em que Ramires voltaria a colocar tudo de novo em pé de igualdade. O só seria desfeito a dois minutos do fim, quando Ambrois bateu o mítico Azevedo. A título de curiosidade diga-se que a capitanear a turma do Nacional estava o homem que um ano anos tinha recebido das mãos de Jules Rimet (então presidente da FIFA) o troféu de campeão mundial de seleções, de seu nome Obdulio Varela.  De pé quente estava o Vasco da Gama, que brindou o Austria de Viena com a mesma receita que havia aplicado ao Sporting na jornada de estreia, ou seja, 5-1, resultado que garantia aos cariocas desde logo a presença na fase seguinte.   A 7 de julho o Sporting despedia-se da Copa com mais um dissabor, desta feita diante do campeão austríaco, por 1-2. Adolf Huber apontou aos 83 minutos do encontro o golo da vitória dos vienenses, depois de Aurednik ter inaugurado o marcador ao minuto três e de Albano ter restabelecido a igualdade aos 46. Os leões saiam do Rio sem honra nem glória, ao passo que os austríacos carimbavam desta maneira o passaporte para as meias-finais. Isto, porque no outro encontro da terceira e última jornada da fase de grupos o Nacional caiu aos pés do Vasco da Gama por 2-1.

Palmeiras surpreendeu Vasco no duelo brasileiro

Pelo que havia feito até então e por jogar diante do seu público, o Vasco da Gama era olhado pela imprensa de então como o grande favorito a alcançar a final. Mas para isso teria de ultrapassar a dupla batalha diante dos conterrâneos do Palmeiras. E dupla porque de acordo com os regulamentos as meias finais seriam jogadas a duas mãos! No dia 12 de julho o Maracanã (lotado) acolheu então o primeiro duelo entre os rivais cariocas e paulistas, sendo que estes últimos para além de partirem como outsiders na bolsa das apostas debateram-se à última da hora com a ausência forçada do seu mítico guarda-redes Cattani, o qual seria substituído por Fábio Crippa. Mas, e como diz o ditado, um azar nunca vem só, e no decorrer do jogo o temível Aquiles é forçado a abandonar o relvado na sequência de um violento choque com o guardião vascaíno, Barbosa. Porém, o Palmeiras não baixou os braços e foi à luta. A atitude guerreira dos paulistas seria premiada com uma justa vitória por 2-1 (com os golos do Verdão a serem apontados por Richard e Liminha). No mesmo dia, mas no Pacaembu de São Paulo, a Juventus empatava a três bolas com o Austria de Viena, sendo de sublinhar a estupenda exibição individual do dinamarquês ao serviço dos transalpinos Karl Aage Praest, autor de dois golos. Dois dias depois, no mesmo local, as duas equipas voltaram a encontrar-se para o tira-teimas. Depois de um nulo ao intervalo a Juve teve um início de segunda parte verdadeiramente demolidor, e a prova disso é que aos 14 minutos já vencia por 3-0 (dois golos de Muccinelli e um de Boniperti). O melhor que o Austria conseguiu fazer foi reduzir na reta final da partida, mas já sem fôlego para impedir que os italianos fossem os primeiros a carimbar o passaporte para a final do Maracanã.    E neste templo da bola jogar-se-ia a segunda mão da outra meia final, com o Vasco a entrar em campo com a esperança de inverter o resultado negativo do primeiro encontro. Não conseguiu, porque o Palmeiras esteve simplesmente soberbo no plano defensivo, mantendo o nulo até final que lhe abriu as portas da final.

Vingança em tons de verde na génese do primeiro "título mundial" de clubes

Sob a arbitragem do austríaco Franz Grill, Palmeiras e Juventus subiram ao relvado de um Maracanã que - mais uma vez - apresentava uma numerosa moldura humana para disputar a primeira mão da final (nota: à semelhança das meias finais também a final foi disputada a duas mãos). A Juve procurava confirmar o favoritismo, até porque na fase de grupos já havia atropelado o Verdão por quatro golos sem resposta. No entanto, esta era uma final, além de que no futebol não há dois jogos iguais. E o Palmeiras viria a confirmar esta teoria por intermédio de Rodrigues, que aos 20 minutos do primeiro tempo bateu Giovanni Viola e selou o triunfo dos brasileiros. Quatro dias mais tarde - a 22 de julho - as duas equipas voltaram a medir forças no derradeiro jogo da competição. A Juventus precisava de marcar dois golos - e não sofrer nenhum - para erguer o troféu diante um estádio repleto que esperava um fim bem mais alegre do que aquele que ali havia acontecido um ano antes por altura do Campeonato do Mundo da FIFA. O dinamarquês Praest ainda colocou o gigante Maracanã em sentido quando aos 17 minutos bateu Crippa pela primeira vez. O fantasma de 1950 voltava assim a pairar sobre o Maracanã. No entanto, e no início da segunda parte Rodrigues aproveita da melhor maneira uma defesa incompleta de Viola - que não segurou um remate de Lima - para fazer o empate. A Juve não esmoreceu, e aos 18 minutos o goleador Boniperti (que seria o melhor marcador do torneio) voltaria a colocar os transalpinos na frente, os quais precisavam agora de mais um golo para levantar o caneco. Esse golo da glória acabou por não acontecer, ou melhor, ele surgiu, mas para o lado do Palmeiras, na sequência de uma magistral jogada individual de Liminha que só parou no fundo da baliza de Viola. 2-2, o resultado final. Com o apito final do francês Gaby Tordjman a festa estalou por todo o Brasil. O Palmeiras era campeão... do Mundo. Sim, do Mundo, foi dessa forma que toda a imprensa da época rotulou os paulistas. Com este título o Brasil inteiro sentia, de certa forma, que o Maracanazo de 1950 não tinha passado de um mero acidente de percurso de uma nação que queria revelar aos olhos do Mundo como a potência que se viria a confirmar nos anos e décadas seguintes.

Copa Rio de 51 foi o molde do atual Mundial de clubes da FIFA
 

No dia seguinte ao da segunda mão da final, o Palmeiras regressou a São Paulo. À espera da comitiva do Verdão estava uma cidade em peso. A Copa Rio Internacional de 1951 resultou num verdadeiro êxito desportivo, facto que terá levado nos anos seguintes outros pensadores do futebol planetário a organizar torneios de âmbito internacional entre clubes de continentes diferentes. Foi o caso do Torneio de Paris, cuja primeira edição foi realizada em 1957 entre equipas de França, Espanha, Alemanha e Brasil, e que durante alguns anos foi considerado como uma das mais importantes e prestigiadas competições internacionais de clubes. Aliás, muitos dos seus vencedores intitulavam-se mesmo campeões do Mundo.  Em 1960, a UEFA e a CONMEBOL uniram-se na criação de uma outra competição, a Taça Intercontinental, disputada (até 2004) entre os campeões das duas maiores provas de ambas as confederações, sendo que o vencedor deste troféu era encarado como o campeão mundial de clubes. No entanto, em 2005 a FIFA decide chamar a si a responsabilidade de coroar o rei do globo no que a clubes concerne, e de lá para cá organiza no final de cada ano civil o Mundial de Clubes, prova que junta os campeões das cinco confederações do Mundo. E aqui, sim, a nosso ver, podemos rotular o vencedor do Mundial da FIFA como um autêntico campeão mundial, já que no mesmo torneio estão representados clubes de todo o Mundo, contrariamente ao que acontecia com a Taça Intercontinental, que só incluía clubes de duas confederações. 

Mas voltando à Copa Rio de 51 para dizer que para muitos dos adeptos do futebol a nível planetário este torneio não passou disso mesmo... de um mero torneio internacional. No entanto, o Palmeiras sempre viu neste um dos principais motivos de orgulho da sua longa e rica história, intitulando-se desde sempre como o primeiro campeão do Mundo de clubes. Na tentativa de ver reconhecido por parte da FIFA este título uma delegação do Palmeiras construiu já no novo milénio um dossier com a intenção de ser remetido à FIFA no sentido de a entidade máxima do futebol planetário oficializar a conquista de 1951, e desta forma reconhecer o emblema paulista como o primeiro campeão mundial da história. Na resposta, a FIFA, então presidida por Joseph Blatter, reconheceu a vitória do Palmeiras como "de âmbito mundial", embora descartando-se de atribuir um carimbo oficial à efeméride, isto é, tal como em 1951 o organismo não chamou a si a responsabilidade do torneio, e como tal não atribuiu cariz oficial (no âmbito da FIFA) a esta conquista, como, aliás, acontece em relação à Taça Intercontinental, prova somente oficializada pela UEFA e pela CONMEBOL. Apesar de tudo, Blatter e a FIFA emitiram um certificado ao Palmeiras reconhecendo este como o vencedor do primeiro torneio de clubes de âmbito planetário. Parecer confuso? Talvez. Perante isto a questão mantém-se: será justo, ou credível, classificar o Palmeiras como o primeiro campeão do Mundo de clubes? Uns continuarão a dizer que sim, outros asseguram que não. 

            

 Nota: Texto escrito em 23 de dezembro de 2016 no blog: www.museuvirtualdofutebol@blogspot.com

 

Pro Vercelli: O berço do rei dos "capocannonieri" idealizado por um campeão olímpico de esgrima

Turim e Milão são mundialmente reconhecidos como os grandes centros do futebol italiano. As duas cidades repartem entre si a (esmagadora) maioria dos títulos nacionais e internacionais angariados pelas squadras transalpinas ao longo de mais de 100 anos de história. Porém, nem sempre as luzes da ribalta estiveram focadas nestas duas urbes do norte de Itália no que a futebol concerne. Houve um tempo - estendido ao longo de quase duas décadas - em que os olhares dos tifosi estavam cravados numa pequena localidade situada precisamente a meio caminho entre Milão e Turim. Uma localidade que mais do que revelar ao Mundo um dos primeiros gigantes do futebol italiano criou uma identidade própria que haveria de inspirar o então jovem calcio a partir rumo às conquistas que iriam ser alcançadas pelas gerações vindouras. Façamos então uma viagem até às primeiras décadas do século XX, mais concretamente até Vercelli, onde nos espera a mítica e inolvidável história della Pro. À semelhança do que aconteceu um pouco por todo o planeta o futebol (moderno) ancorou em Itália no porto de Génova, na reta final do século XIX, pela mão dos marinheiros e comerciantes ingleses que ali se deslocavam em trabalho. Naquela cidade portuária foram dados os primeiros passos do modern football nascido em Inglaterra, e foi ali que, de forma natural, acabaria por nascer em 1893 o primeiro senhor do futebol transalpino, o Genoa Cricket & Football Club. Na génese deste emblema estiveram pois cidadãos britânicos, que usavam o futebol para preencher os seus tempos livres. O Genoa 1893 - como ainda hoje é conhecido - fez uso da sua força e conhecimentos do jogo para arrecadar os primeiros títulos mais pomposos do calcio - o nome com que os italianos cedo batizaram o football, muito pelas parecenças que o jogo criado pelos ingleses tinha com o calcio fiorentino, que há muitos séculos se praticava no país da bota. Entre 1897 e 1907 o Genoa confirma o seu poderio ao conquistar seis dos seus nove títulos de campeão nacional, uma supremacia que foi ameaçada a espaços pelos também ingleses do Milan Cricket Fooball Club, a semente do Milan dos dias de hoje. Estas conquistas, quer de genoveses quer de milanistas, assentavam numa cultura muito britânica, ou seja, a filosofia de jogo interpretada por estes dois emblemas era uma fiel cópia daquela que era usada na Velha Albion, baseada no kick and rush. Itália não tinha pois uma identidade de jogo própria, algo que viria a mudar a partir de 1903 pela mão do hoje quase anónimo Pro-Vercelli.


Da ginástica ao futebol pela mão de um campeão olímpico de esgrima

A Società Ginnastica Pro-Vercelli nasceu em 1892, longe de imaginar que alguma vez o recém chegado a Itália futebol pudesse catapultar a cidade para os píncaros da fama. Na génese daquele que é um dos clubes mais antigos do país da bota esteve a ginástica, como aliás, a própria designação da coletividade indicava. Domenico Luppi, um professor de ginástica, é o progenitor do clube nascido na pequena cidade - com cerca de 45.000 habitantes na atualidade - da região de Piemonte. Luppi deu vida a um clube que no seu ADN incorporava ainda a esgrima, secção que iria revelar ao Mundo alguns nomes sonantes da história da esgrima italiana, como foi o caso de Marcello Bertinetti (na foto à direita), um cidadão nascido em Vercelli, em 1885, que atingiu a imortalidade após ter vencido duas medalhas de ouro olímpicas por equipas em 1924 (Jogos de Paris) e 1928 (Jogos de Amesterdão), isto para além de uma medalha de prata e outra de bronze - ambas na vertente coletiva - respetivamente nas Olimpíadas de Londres (1908) e Paris (1924). Bertinetti foi acima de tudo um desportista multifacetado, e para além da modalidade que o tornou célebre foi igualmente um... calciatore, traduzindo para a língua de Camões, um jogador de futebol. Desconhece-se, porém, se foi, ou não, um exímio intérprete do belo jogo, mas o que se sabe é que foi por sua influência que o futebol nasceu no seio da Pro Vercelli. Diz a história que após ter visionado in loco, em Turim, um encontro disputado pela Juventus, Marcello Bertinetti regressa à sua terra natal com a ideia de ali criar uma equipa de futebol. Nesse sentido procura os responsáveis da Società Ginnastica Pro-Vercelli para lhes apresentar a ideia, que de pronto seria aceite e oficialmente implantada em 1903, ano em que acontece a filiação do clube na Federação Italiana de Futebol. O primeiro encontro acontece a 3 de agosto desse ano no âmbito de um torneio triangular em honra de San Eusebio, o padroeiro da cidade, que juntou ainda as equipas do Forza e Costanza (de Novara) e do Audace (oriundo de Turim). A Pro saiu vencedora, dando assim o pontapé de saída rumo a duas décadas de glória.

Conquistar a Itália com a prata da casa sob uma identidade muito própria

Com a entrada da Pro Vercelli no então ainda muito jovem Mundo do futebol italiano, assistiu-se à primeira grande revolução a diversos níveis no país futebolístico, digamos assim. O primeiro deles fazia alusão à então invulgar política de formação do clube. Contrariamente aos outros emblemas italianos da época, a Pro Vercelli constrói a sua equipa com base única e exclusivamente em futebolistas nascidos na cidade, em atletas da casa, identificados com a cidade e acima de tudo com o clube. A Pro Vercelli implantava assim a filosofia, passo a expressão, da formação no futebol italiano. O clube presidido pelo conceituado advogado local Luigi Bozino edifica um então inédito plano de formação que passava pela criação de equipas de base, juniores, juvenis, iniciados, etc., como hoje em dia são conhecidos, e às quais eram atraídos os rapazes da terra. Mais do que moldar futebolistas locais com vista ao sucesso futuro do clube a política de formação cria de igual modo a mística que ajudou a Pro a alcançar e a permanecer durante quase duas décadas no topo do futebol italiano. Uma mística que englobava uma combinação de amor e orgulho na defesa da camisola do clube da terra e que era incutida nos bambini (rapazes) desde o momento em que estes entravam para os escalões mais jovens. Aliado a este aspeto veio o conceito tático. Também aqui a Pro Vercelli foi pioneira na história do futebol em Itália. Como já foi referido, as grandes equipas italianas da época, nomeadamente o Genoa 1893, a Juventus e o Milan - os três clubes que até 1908 haviam vencido o título de campeão nacional - apresentavam nas suas equipas diversos jogadores ingleses, a maior parte deles chegados a Itália por motivos profissionais que nada tinham a ver com o jogo. Como bons ingleses usavam e abusavam do kick and rush, típico estilo nado e criado em Inglaterra e que assentava - ou assenta - num estilo de jogo direto e físico. Em Vercelli seria criado um estilo diferente, de certa forma mais elegante e técnico, assente na posse de bola, e que no futuro viria a contagiar não só outras equipas transalpinas como a própria squadra azzurra (seleção nacional).


Da estreia oficial à glória nacional em apenas dois anos


Em 1906 a Pro Vercelli inicia o seu percurso oficial nos caminhos do futebol italiano. Isto é, passa a competir no segundo escalão nacional. Ali, permanece apenas um ano, alcançando a promoção ao principal escalão em 1906/07 depois de conquistar o ceptro secundário com um grupo formado exclusivamente por jogadores nascidos em Vercelli. Entre este grupo destacavam-se três futebolistas, três figuras que para os historiadores do belo jogo foram o esteio - dentro de campo - dos primeiros sucessos do clube de Piemonte. Giuseppe Milano, Pietro Leone e Guido Ara, formavam o então denominado de meio campo maravilha dos Leões de Vercelli como nos anos seguintes a mítica equipa seria conhecida em toda a Itália. Guido Ara era o capitão de equipa, e na voz de muitos historiadores é visto como o primeiro grande futebolista italiano, um tecnicista requintado que primava ainda por ser um exímio passador. Em 1907/08 a Pro faz a sua estreia no principal escalão de Itália. Uma estreia auspiciosa já que após superar a Juventus no campeonato regional de Piemonte o combinado de Vercelli é apurado para o campeonato nacional, levando a melhor sobre os campeões das regiões de Ligura (o Andrea Doria, de Génova) e da Lombardia (o Milanese). A Pro Vercelli vencia o seu primeiro scudetto (máximo título nacional). Pela primeira vez uma equipa 100 por cento de origem italiana (na imagem de cima) vencia o máximo galardão do futebol italiano, e mais do que isso todos os jogadores eram filhos de Vercelli. Os seus nomes são pois eternos: Innocenti, Salvaneschi, Celoria, Ara, Milan, Leone, Romussi, Frésia, Visconti, Rampini e Bertinetti, este último o introdutor do futebol no seio da Pro Vercelli e futuro campeão olímpico de esgrima, como já referimos. A façanha seria repetida na temporada seguinte, quando depois de levar a melhor no Regional de Piemonte sobre os dois gigantes de Turim, a Juve e o Torino, a Pro derrotou na final nacional, por um total de 4-2 (numa final disputada a duas mãos), os campeões da região da Lombardia, o Milanese. Por esta altura já toda a Itália se curvava diante dos Leões de Vercelli, ou os camisas brancas, como também era conhecido o clube. Neste aspeto há um capítulo curioso que merece ser evocado. Nos primeiros anos de atividade futebolística a Pro Vercelli utilizava um equipamento em tudo idêntico à Juventus, isto é, camisola com riscas verticais pretas e brancas, calção preto e meias pretas. Porém, a lavagem constante dos equipamentos fez com as riscas pretas da camisola fossem ficando esbatidas, quase impercetíveis, pelo que os responsáveis do emblema decidem posteriormente adotar o branco como única cor da camisola. Esta história dá aso a uma outra, que refere que a seleção italiana adotou (desde 1910) o branco como cor do seu equipamento alternativo em homenagem aquela que ainda hoje é vista como a primeira grande equipa de Itália, a Pro Vercelli.

Primeiro grande escândalo do calcio impediu a Pro de chegar ao tri


Na temporada de 1909/10 a Itália assiste aquele que é considerado o primeiro escândalo do seu futebol. O primeiro de muitos, ou não fosse a Itália um país rico no que a escândalos futebolísticos diz respeito. Nessa longínqua época o campeonato italiano sofre algumas alterações de figurino, desde logo o facto de deixar de existir uma final nacional que opunha os vencedores dos regionais para passar a haver uma prova semelhante ao que acontece na atualidade, ou seja, em que as equipas jogam entre si em sistema de poule, cujo vencedor é o conjunto que soma mais pontos. Este é considerado por como o ponto de partida da atual Serie A italiana. Foram nove as equipas que integraram a competição de 09/10, tendo no final o Inter de Milão e a Pro Vercelli dividido o primeiro lugar com 25 pontos somados. Face a este empate a Federação Italiana de Futebol (Federazione Italiana Giuco Calcio) decidiu agendar um play-off entre os dois combinados, uma finalíssima que iria determinar o campeão nacional. Com diversos jogadores seus envolvidos num torneio militar em Roma, a Pro solicitou à alta instância do futebol do seu país o adiamento do play-off, ao passo que o seu adversário, o Inter, fazia pressão para que esse adiamento não acontecesse. Medo ou desrespeito por parte dos milaneses? Ou ambos? O que é certo é que a FIGC ficou do lado do Inter - há quem ainda hoje defenda que razões extra futebol estiveram na origem desta decisão federativa - e o encontro acabou por se disputar a 24 de abril de 1910, como estava inicialmente agendado. Em forma de protesto o presidente da Pro Vercelli, Luigi Bozino (na imagem de cima), decide enviar para o duelo decisivo uma equipa composta por... crianças! Nessa tarde, em Vercelli, local da partida, e diante de pouquíssimos espectadores - numa prova de que a cidade estava ao lado do seu clube neste protesto - a Pro alinha com jogadores do seu escalão mais baixo, sendo que o jogador mais velho tinha somente 15 anos! Conclusão, o Inter esmagou os Leões, ou leãozinhos, neste caso, por 10-3, e conquistou o seu primeiro título nacional. Esta atitude da Pro Vercelli valeu-lhe inicialmente um castigo severo por parte da FIGC, que decide multar e suspender o emblema de Piemonte das competições futebolísticas. A intenção é posteriormente revogada, muito por ação de Guido Ara, que recolhe uma série de assinaturas junto dos grandes clubes italianos no sentido de reverter a decisão da federação, e já com Giuseppe Milano nas funções de treinador/jogador a Pro recupera o ceptro na época seguinte ao vencer a Serie A com 27 pontos, mais cinco que o vice-campeão Milan, onde pontificava o bombardeiro belga Louis van Hege. O quarto scudetto viajou para Vercelli em 1911/12, em mais um capítulo de evidente superioridade dos Leões.

Principal fornecedor de jogadores para a Squadra Azzurra

1912 é ainda o ano que marca a estreia oficial da seleção italiana numa grande competição internacional, no caso o Torneio Olímpico, que na época era tão só a prova futebolística mais importante do planeta. Para as Olimpíadas que nesse ano se realizaram em Estocolmo o selecionador italiano, o então jovem (com apenas 26 anos) Vittorio Pozzo, convoca 18 jogadores, sendo que sete deles (Felice Berardo, Angelo Binaschi, Pietro Leone, Giuseppe Milano, Modesto Valle, Felice Milano e Carlo Rampini) pertencem aos quadros da Pro Vercelli, que é desta forma o emblema mais representado na Squadra Azzurra que competiu na Suécia. Em 1913 a Itália defronta (num amigável) a Bélgica com um onze em que nove jogadores são da Pro Vercelli, numa demonstração, mais uma, inequívoca do poderio do clube de Piemonte no cenário principal do calcio. A primeira parte da época dourada da Pro Vercelli é encerrada em 1912/13 com a conquista do tricampeonato, do quinto scudetto da sua jovem existência. Pouco depois estourava a I Guerra Mundial, que um pouco por toda a Europa encostaria para canto a bola de futebol. O campeonato italiano é interrompido em 1915 - após o surpreendente Casale e o Genoa 1893 terem conquistado a coroa de reis de Itália - e volta somente na temporada de 1919/20 quando a Europa lambia ainda as feridas provocadas pela Guerra. Porém, as armas não mataram a mística de Vercelli e da sua Pro, que ressurge no grande palco do calcio com uma nova geração vencedora orientada - desde o banco - pela antiga lenda Guido Ara. Jovens talentosos nascidos nas escolas da Pro que levam a melhor sobre a concorrência na temporada de 1920/21, arrecadando desta forma o sexto título nacional do clube de Piemonte. Entre estes jovens talentos encontra-se o defesa Virginio Rosetta, que em 1923 troca Vercelli por Turim, e a Pro pela Juve a troco de 50 mil liras, naquela que ainda hoje é considerada a primeira transferência (envolvendo dinheiro) do futebol italiano. Eram os primeiros sinais do profissionalismo que estava prestes a vigorar (também) em Itália. Rosetta volta a ser um dos esteios na conquista do sétimo e último scudetto pela Pro em 1921/22.
Rei dos capocannonieri nasceu em Vercelli e revelou-se ao Mundo na Pro


A 29 de setembro de 1913 já a Pro Vercelli ostentava nas suas vitrinas cinco títulos de campeão italiano. É neste dia que nasce, na pequena Vercelli, um dos cidadãos mais nobres desta cidade: Silvio Piola (na imagem ao lado com a camisola da Pro). Tal como tantos outros bambini Silvio desperta para o futebol no mítico clube da sua terra. O seu talento faz com que aos 16 anos seja incorporado na equipa principal da Pro! Sobre o terreno de jogo atua como avançado, e o seu faro pelo golo aliado à sua perícia técnica despertam cedo a cobiça de outros emblemas de Itália. Piola atua pela Pro Vercelli entre 1929 e 1935, envergando a camisola branca em 127 jogos, tendo apontado 51 golos. Piola detém ainda hoje uma série de recordes em Itália. Um deles reside no facto de ser o jogador mais jovem a apontar um poker (quatro golos) numa só partida, algo que aconteceu diante do Alexandria, numa altura em que este astro tinha apenas 18 anos. Já foi referido que no início dos anos 20 o profissionalismo começava a bater à porta de Itália, tendo a Pro, que apesar de desportivamente ser uma potência do país, não era de todo um clube rico, muito longe disso na verdade, sofrido na pele as consequências desse mesmo profissionalismo. A Pro era um clube que vivia da sua (rica) formação. Apenas. Assim, os clubes economicamente mais abastados, oriundos de Turim, Milão e Roma, lançavam o isco às principais pérolas dos clubes mais modestos, sob o ponto de vista económico, voltamos a repetir, como era o caso da Pro Vercelli. Rosetta foi, como já vimos, o primeiro jogador a ser transferido por uma verba monetária em Itália, sendo que Piola não demorou muito a seguir-lhe o caminho. Reza a história que a Lázio namorou o jogador vezes sem conta, e não desistiu enquanto não o levou para Roma. Perante isto, e quiçá pressentindo que sem a sua principal estrela e com o profissionalismo a tomar conta do futebol em Itália, o presidente da Pro, Luigi Bozino, disse em certa ocasião que «não vendemos Piola por nenhum dinheiro deste Mundo. Se o vendermos a Pro Vercelli vai entrar em declive». Mais do que uma promessa (aos adeptos) esta declaração seria uma espécie de premonição do que iria acontecer em 1934, ano em que a Lazio leva Piola de Vircelli para a capital do Império. Uma transferência envolta em alguma polémica, pois segundo alguns historiadores a ida de Silvio Piola para Roma resultou de uma imposição do ditador Benito Mussolini, adepto confesso dos laziale. Piola e a Pro Vercelli seguiram caminhos diferentes nos anos seguintes. O jogador iria tornar-se numa lenda do calcio, já que para além de ter sido a principal referência da Squadra Azzurra na conquista do Campeonato do Mundo de 1938 é ainda hoje o jogador com mais golos na história da Serie A: 274 golos em 537 jogos disputados no principal escalão do futebol transalpino. Quanto à Pro, foi despromovida da Serie A curiosamente na época de 1934/35, a primeira sem Piola, e nunca mais, até hoje, lá regressou. Os oitenta anos seguintes foram passados a deambular pelos escalões secundários e regionais (!) do calcio. Hoje, a Pro Vercelli milita na Serie B, onde sobrevive - quase de forma anónima - na sombra de um passado de glória hoje ignorado pela esmagadora maioria dos tifosi. Não deixa de ser no entanto curioso que ao olhar para a lista de campeões da história do calcio o nome da Pro figure atrás de Milan, Juventus, Inter e Genoa 1893, com sete títulos de campeão no seu currículo, bem à frente de algumas das atuais potências italianas, casos da Roma (3 títulos), Lazio (2), Napoli (2) ou Fiorentina (2).

Nota: Texto escrito em 8 de setembro de 2016 no blog: www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Cidades do Futebol - Manchester: a capital mundial do "Beautiful Game"

Um retrato da cidade industrial de Manchester
em meados do século XIX
Madrid pode até ser o berço do emblema que detém o maior número de títulos da Taça/Liga dos Campeões Europeus; Barcelona pode reclamar para si o epíteto de cidade onde ao belo jogo é dado um toque artístico por génios que seguem as pisadas de Salvador Dali ou Antoni Gaudi; Munique o local onde a modalidade é interpretada com força, rigor e mestria; mas é em Manchester que o futebol tem a sua capital. É nesta cidade inglesa que iniciamos hoje aquela que se espera ser uma longa e entusiasmante viagem pelas "cidades do futebol" espalhadas pelo globo, abrindo desta forma uma nova vitrina no Museu Virtual do Futebol, onde na qual iremos (tentar) conhecer alguns contornos da história do envolvimento dessas mesmas cidades com o hoje denominado desporto rei do planeta, os símbolos e os nomes que fizeram com que esses locais sejam atualmente verdadeiros santuários do beautiful game, as lendárias batalhas que ali se travaram, e muito mais factos para (re)descobrir nesta viagem que hoje dá o seu pontapé de saída. Viajemos pois até ao início da segunda metade do século XIX, até Manchester, o berço da Revolução Industrial, local onde o jogo sofreu a sua primeira grande transformação desde que havia nascido no seio das escolas e universidades do sul de Inglaterra. Apesar de ter nascido em berço aristocrático, rapidamente a modalidade abraçou as classes mais pobres da sociedade britânica de então. O futebol prontamente passou a ser o principal entretenimento da classe operária (funcionários de fábricas, de armazéns, etc.), dos seguidores da igreja e dos meninos de rua. E foi este o cenário erguido precisamente nas cidades mais industriais do norte de Inglaterra, situadas nos condados das West Midlands e de Lancashire. Em diversas cidades desta região o football enraizou-se e popularizou-se na cultura britânica, e onde, por consequência, nasceram os primeiros clubes, foram criadas as primeiras competições, e onde se atingiu o patamar do profissionalismo. Manchester foi uma dessas urbes onde o jovem futebol se transformou, em que passou de divertimento exclusivo do meio escolar aristocrático para um fenómeno sócio-cultural de massas. Foi pois com naturalidade que surgiram os primeiros clubes, uns formados por elementos ligados à igreja, outros pela classe operária que proliferava em Manchester e seus arredores. E foi precisamente um emblema criado por operários a primeira coletividade futebolística revelada ao Mundo pela cidade de Manchester: o Hulme Athenaeum. Um facto achado recentemente - em 2014 -, altura em que o investigador desportivo Gary James descobriu que a centenária teoria, por assim dizer, de que o Turton Football Club - fundado em 1871 - era o clube mais antigo do condado de Lancashire não estava correta. Após meses a fio a vasculhar arquivos, o investigador da Manchester Metropolitan University chegaria à conclusão de que na realidade foi em novembro de 1863 que a cidade conheceu o seu primeiro emblema, precisamente o Hulme Athenaeum, um clube fundado pela classe operária. Isto, numa altura em que o jogo praticamente ainda não havia ultrapassado as paredes das escolas e universidades, ficando aqui a prova de que Manchester teve de facto um papel fundamental na expansão do futebol a outros extratos sociais.
Enquanto grande e importante centro industrial que era, Manchester atraía cidadãos provenientes de vários pontos do Reino Unido em busca de trabalho, homens e rapazes que nos seus tempos livres experimentavam aquele a quem um dia alguém viria a chamar de ópio do povo, o football.

Os embriões dos dois filhos pródigos de Manchester: o City e o United 

Durante a segunda metade do século XIX foram muitos os clubes que foram criados na região de Manchester, mas dois, em particular, haveriam de conferir à cidade o estatuto de capital... mundial do futebol. Falar desses dois emblemas implica, naturalmente, abordar as origens de cada um deles, dos primeiros passos rumo à glória e popularidade mundial que hoje em dia abraçam. No seio de um grupo de trabalhadores ferroviários de Newton Heath surgiu em 1878 aquele que décadas mais tarde haveria de se tornar um gigante do futebol planetário, o Manchester United, então batizado de Newton Heath Lancashire and Yorkshire Railway Football Club. Nos seus primeiros dois anos de vida este emblema disputou vários encontros com outros grupos de trabalhadores ferroviários, partidas essas decorridas sob o signo do divertimento e do convívio entre esta específica classe operária. Os registos históricos indicam que o primeiro duelo mais a sério travado pelo emblema dos ferroviários ocorreu em novembro de 1880, altura em que um combinado de reservas do Bolton Wanderers esmagou em North Road o team de Manchester por 6-0. North Road foi pois uma das primeira catedrais - o mesmo será dizer estádios - desta cidade, com capacidade para 12.000 pessoas, tendo sido esta a primeira casa do Newton Heath, que ali atuou desde a sua fundação até 1893. Durante este período North Road foi palco de diversos encontros inseridos nas primeiras competições oficiais do futebol inglês, entre outras a Lancashire Cup, cuja primeira edição ocorreu na temporada de 1879-1880.

Curiosamente seria neste preciso ano de 1880 que no seio da igreja anglicana iria nascer o St. Mark's (West Gorton) Football Club, nada mais nada menos do que a semente do atual Manchester City. O St. Mark's nasceu com a missão de combater os problemas sociais que assolavam a comunidade mais fragilizada da cidade. Idealizado pelos capelões da igreja de St. Mark's, o primeiro registo de um jogo deste emblema remonta a novembro desse preciso ano de 1880, altura em que defrontou uma equipa oriunda de uma igreja de Macclesfield.
Além de importante centro industrial, Manchester era já por estes dias um dinâmico centro futebolístico. A futura Football League teria as suas origens nesta cidade. A Profissional Footballers Association (Associação de Futebol Profissional) e a International Board (a entidade que estabelece as regras de jogo) tiveram Manchester como berço. Foi ainda durante esta década que se formou (1884) a Manchester Football Association que coordenou não só algumas das primeiras competições oficiais que foram disputadas no país como, e sobretudo, teve um papel preponderante para cimentar uma cultura futebolística nos britânicos. Entretanto, em 1884 o ainda jovem St. Mark's funde-se com o Gorton Athletic, uma união que no entanto duraria pouco tempo. Após a separação o St. Mark's passaria a denominar-se de Gorton Athletic Football Club, enquanto que o Gorton Athletic reformulou-se como West Gorton Athletic. 1887 é um ano marcante na vida do Gorton AFC, altura em que o clube abraça o profissionalismo, procedendo desde logo a novas mudanças. Uma nova alteração de nome seria a primeira delas, tendo o emblema ligado à igreja passado a designar-se Ardwick Football Clube, sendo que a segunda aludiu à passagem para aquela que seria a primeira grande catedral - em termos de dimensões - de Manchester, o Hyde Road Stadium. Com capacidade para 40.000 pessoas o recinto testemunhou os primeiros lampejos de glória daquele que viria a designar-se em 1894 Manchester City.
Imagem das primeiras batalhas futebolísticas travadas em Manchester
Ainda antes de abordarmos este facto, será importante nesta viagem ao passado frisar que 1881 é outro ano marcante na história do futebol de Manchester, e dos seus dois maiores símbolos em particular, já que a 12 de novembro St Mark's (West Gorton) Football Club é batido pelo Newton Heath por 3-0 num jogo descrito pela crítica de então como "agradável". Dos dois emblemas o Newton Heath é o primeiro a participar em competições oficiais, no caso a Alliance League - uma prova que nos seus anos iniciais rivalizou com a Football League, esta última criada uma temporada mais cedo (1888/89) do que a primeira liga - e a emergente FA Cup (Taça de Inglaterra), facto ocorrido na época de 1889/90. Na temporada seguinte foi a vez do Ardwick - sucessor do St Mark's (West Gorton) - fazer a sua estreia na FA Cup e na Alliance League. Com a extinção desta última competição os dois emblemas juntaram-se à Football League, sendo que, ainda no que concerne a factos estatísticos, o Newton Heath foi o primeiro clube a pisar terrenos da First Division (1892/93), ao passo que o seu vizinho da cidade só o viria a fazer no final do século, mais concretamente na época de 1889/1900, e já sob a designação de Manchester City. 
Apesar de nascidos em diferentes extratos sociais - um teve como berço a classe operária do setor ferroviário, enquanto que outro veio ao Mundo através da igreja - os dois clubes tiveram em comum o facto de terem enfrentado profundas crises financeiras que os iria obrigar a alterar a sua identidade. O primeiro a fazê-lo foi o Ardwick, que em 1894 altera a sua designação para Manchester City Football Club, ao passo que o Newton Heath ressurge em 1902 na qualidade de Manchester United Football Club.

Manchester revela ao Mundo a primeira superstar do jogo 

Um poster de Billy Meredith
com as cores do City
De lá para cá muitos foram os nomes que envergaram com distinção os dois mantos sagrados de Manchester. Alguns fizeram-no mesmo ao serviço dos dois vizinhos da cidade. Um desses nomes é apontado por muitos historiadores desportivos como o primeiro grande ícone do futebol planetário! Billy Meredith, a sua graça. Galês de nascimento (1874), Meredith foi a primeira lenda de ambos os emblemas, tendo ao serviço dos dois alcançado a glória. Sobre ele, o Museu Virtual do Futebol traçou em anteriores viagens ao passado longas linhas, algumas das quais trazemos hoje a esta nova rubrica.
William Henry Meredith é descrito nas páginas esbatidas dos jornais e livros daqueles (hoje) longínquos dias de finais do século XIX e princípios do século XX como o mago dos primórdios do futebol. Billy, diminutivo de William, trabalhou como mineiro na sua terra natal (Chirk), ocupando os seus tempos livres a correr atrás de uma bola pelos campos verdes de Black Park. A sua requintada perícia técnica com o esférico fez-se desde logo sobressair, e com apenas 16 anos veste a sua primeira camisola no planeta da bola, mais precisamente a do clube local, o Chik AAA Football Club. Era um jogador diferente dos demais, tratava o esférico de uma forma encantadora, cativando todos aqueles que o viam jogar. Numa altura em que o profissionalismo começava a aparecer Billy não resistiu à possibilidade de ganhar algum dinheiro fazendo aquilo que mais gostava, jogar futebol. Com 18 anos muda-se então para o poderoso Northwich Victoria, emblema que disputa a principal liga galesa, defendendo as cores do clube somente durante dois anos, voltando posteriormente para a sua cidade natal, e para o Chirk AAA, ao mesmo tempo em que regressa ao duro trabalho nas minas. A sua perícia apaixonou adeptos de vários cantos não só do País de Gales como do restante Reino Unido, tendo, com naturalidade, surgido inúmeros convites de clubes da Velha Albion para o seu concurso. E é aqui que o novo Manchester City entra em ação. Em 1894 o clube contrata Billy, que enquanto atleta amador viajava para Manchester ao fim de semana para atuar com o seu novo clube, ao passo que durante a semana exercia a dura profissão de mineiro. Foi assim durante dois anos. A estreia pelo City aconteceu em novembro desse ano de 1894, em casa do Newcastle United, sendo que uma semana mais tarde faz o debute ante os adeptos do clube numa partida diante do rival da cidade, o Newton Heath, dérbi que terminou com o triunfo desta última equipa por 5-2, sendo que os dois golos do City foram apontados por Meredith, que no final dessa temporada de estreia marcou 12 tentos em 18 aparições.

Meredith com as cores do United
Na época de 1898/99 ele guiou o clube no assalto à promoção ao principal escalão do futebol inglês, e pelo caminho deixou a marca pessoal de quatro hattricks (!), terminando a temporada com um total de 29 remates certeiros. Depois de uma certa instabilidade na First Division - o City foi relegado na temporada de 1901/02 - o clube de Manchester atinge a glória em 1903/04, altura em que vence o troféu mais prestigiado do país, e do Mundo por aqueles dias, a FA Cup (Taça de Inglaterra). Billy Meredith assinou exibições majestosas ao longo da caminhada triunfal até ao Crystal Palace Stadium - o principal estádio londrino da época - onde curiosamente o esperava o Bolton Wanderers, o primeiro clube que o quis levar para Inglaterra. Diante de 62.000 pessoas o City levou a melhor, graças a Billy Meredith, que aos 23 minutos fez o único golo da partida, oferecendo assim ao seu clube a primeira coroa de glória da sua história. Ao clube e à cidade de Manchester, que através do City vencia o primeiro de muitos e pomposos títulos que iria arrecadar ao longo da história. A época de 1903/04 fica ainda assinalada pela chegada à cidade de um homem que faz igualmente parte da história dos dois emblemas, Ernest Mangnall. Natural de Bolton (1866) ele foi o único homem que até aos dias de hoje treinou o City e o United. Depois de três temporadas no Burnley, onde iniciou a sua carreira de técnico, Magnall seria contratado pelo United em 1903, que na altura percorria os caminhos da Second Division. Três anos depois da sua chegada a Bank Street - a segunda casa do clube, após a saída de North Road em 1893 - o técnico conduziu o Manchester United ao principal escalão do futebol inglês, após 13 anos de ausência. Esta não seria contudo a primeira grande alegria do técnico, que em 1907/08 iria tornar-se no primeiro treinador a vencer um grande título ao serviço do United: a First Division. Magnall entrava assim para a história do clube, ao vencer o primeiro grande título da sua história, e o primeiro título de campeão nacional da própria história da cidade de Manchester.

Primeiro grande escândalo do futebol leva Meredith do City para... o United

Meredith com o manto
sagrado do País de Gales
Este êxito inicial do United foi alcançado muito graças à performance da grande estrela do futebol britânico - e não só - de então: Billy Meredith! Ao longo de décadas foram muitas as figuras do futebol apelidadas de traidores pelos adeptos dos dois emblemas, na sequência da troca de camisolas entre o City e o United, ou vice-versa. Também aqui Meredith entrou na história, por ter sido o primeiro jogador a atuar pelos dois emblemas da cidade, uma troca envolta em alguma polémica, já que resultou daquele que é considerado como o primeiro grande escândalo do futebol a nível mundial, e que envolveu a então grande estrela do jogo. Corria o ano de 1905 quando Meredith terá tentado subornar Alex Leake, o capitão do Aston Villa - com 10 libras -, para que este influencia-se os seus companheiros no sentido de facilitar uma vitória crucial do City na corrida ao título inglês desse ano. O caso foi descoberto e o City entrou em litígio com o seu capitão e principal referência da equipa, tendo este, em jeito de vingança, denunciado outros casos de corrupção no seio do clube, facto que levou à sua saída de Hyde Park. O astro galês deixava o City com um impressionante registo de 145 golos marcados em 338 jogos disputados ao longo dos oito anos em que envergou a camisola blue sky. O United viu a saída de Meredith do seu vizinho como a grande oportunidade para colocar o clube no caminho da glória. O emblema disponibilizou então 500 libras para pagar à Football Association a multa que levantava a suspensão do atleta. Dinheiro bem gasto, terão, por certo, pensado pouco depois os dirigentes do Manchester United, já que Meredith rapidamente assumiu o papel de estrela da companhia, conduzindo através do seu invulgar talento o clube a inúmeras conquistas. Fez a sua estreia pelo United a 1 de janeiro de 1907, ante o Aston Villa - o clube que o tramou no caso dos subornos - saindo dos seus pés de mago o cruzamento para Sandy Turnbull fazer o único golo com que clube de Manchester venceu a partida.

Imagem da final da Taça de Inglaterra
de 1909, vencida pelo United
Com as cores do Manchester United, Billy Meredith conquistou a esmagadora maioria dos títulos logrados na sua carreira, tendo o primeiro deles ocorrido na temporada de 1907/08, altura em que vence o já referido campeonato nacional. Feito repetido em 1910/11. Mas a jóia da coroa era mesma a FA Cup, competição que o galês iria vencer ao serviço do United em 1909, quando no Crystal Palace Stadium o United venceu por 1-0 a Bristol City, tendo o obreiro desse triunfo sido o príncipe dos pontas, como também era já conhecido Meredith. O jogador ficou eternizado na história do futebol não só pela sua talentosa forma de interpretar o belo jogo como também pelo facto de ter jogador até quase aos 50 anos de idade! É verdade. 49 anos e oito meses, era esta a idade precisa no dia em que o galês fez as suas despedidas dos relvados, fazendo-o com as cores do... Manchester City. Em 1921 ele abandona o United com 35 golos marcados em mais de 335 jogos disputados, e regressa ao vizinho City onde joga até quase aos 50 anos (em 1924). Em 1923 ele ainda leva o City às meias-finais da FA Cup, precisamente um ano depois de ter representado o País de Gales pela última vez, com 48 anos, tornando-se assim no jogador mais velho a vestir o manto sagrado galês. O seu derradeiro encontro pelo City aconteceu a 29 de março de 1924, num duelo diante do Newcastle United, precisamente o clube que apadrinhou a estreia de Meredith em 1894. 40 anos tinham passado desde então! Penduradas as chuteiras comprou um hotel em Manchester, dedicando-se à hotelaria, vindo a falecer a 19 de abril de 1958.

Ernest Mangnall, o único homem
que treinou os dois principais
clubes de Manchester
O galês foi a principal referência do United dentro do retângulo de jogo, mas o arquiteto destes êxitos - dois campeonatos e uma FA Cup - foi, sem margem para dúvida, Ernest Mangnall, o primeiro grande manager do clube. Após nove temporadas à frente dos destinos do United, Magnall choca a cidade ao atravessar a rua para a casa do vizinho, isto é, assumir o comando técnico do City. O treinador abandonava o Manchester United envolto num clima de alguma polémica, já que no confronto entre os dois vizinhos da cidade ocorrido em setembro de 1912, o qual foi ganho pelo City (1-0), Mangnall não conseguiu disfarçar a alegria pela vitória do adversário! Um sinal, por certo, da mudança que viria a acontecer na temporada de 1912/13. A estadia do técnico em Hyde Road não foi, contudo, tão feliz quanto havia sido em Bank Street, e muito por culpa da I Grande Guerra Mundial, que além de roubar alguns dos melhores jogadores britânicos de então, parou as competições futebolísticas entre 1916 e 1919. Ernest Mangnall orientou pela última vez o City em 1924, colocando um ponto final em oito temporadas sem a obtenção de qualquer coroa de glória. No total orientou os dois emblemas de Manchester em 821 ocasiões (471 pelo United e 350 pelo City), sendo até hoje o único treinador que trabalhou nos dois clubes, como já foi dito.

E eis que se ergue majestosamente o Teatro dos Sonhos

Um desenho de Old Trafford no início da sua existência
1910 é outro ano digno de registo na história do futebol de Manchester. Diríamos mesmo na história do futebol internacional. Ano este em que é oficialmente inaugurado aquele que é hoje um dos mais célebres estádios de futebol do Mundo, palco de centenas de inesquecíveis capítulos da história do jogo, a esmagadora maioria deles escritos em tons de vermelho, branco e preto, as cores adotadas pelo United: o Old Trafford. A obtenção dos títulos de campeão nacional (1908) e da FA Cup (1909) fez com que os dirigentes do Manchester United elevassem a fasquia da ambição. Queriam mais vitórias, mais títulos, e por consequência mais prestígio, mas para tal era preciso uma casa mais moderna e funcional do que Bank Street, e nesse sentido foi projetado o Old Trafford. Este recinto acabou por ser um sonho concretizado do homem que em 1902 salvou o Newton Heath da bancarrota, e que posteriormente mudou o nome do clube para Manchester United. Esse mesmo homem (John Henry Davies) que após as primeiras conquistas do reformulado emblema afirmou que Bank Street não se adequava à grandeza de uma equipa vencedora como a do United. Do seu próprio bolso doou uma grande parte da verba que seria usada para a construção de Old Trafford, um projeto da autoria do arquiteto Archibald Leitch. Com o passar das décadas o estádio, inicialmente projetado para aproximadamente 60.000 pessoas, tornar-se-ia num local de culto para os adeptos do United, que aqui testemunharam a ascensão global do clube.
Aspeto de uma das bancadas de Old Trafford após o bombardeamento de 1941
Old Trafford sofreu inúmeras mudanças ao longo de mais de 100 anos de vida. Mudanças consequentes de momentos de glória, mas também de momentos de tristeza. O primeiro momento de dor aconteceu no início da década de 40, altura em que deflagrava a Segunda Guerra Mundial. Em 1941, na sequência de bombardeamentos ao Reino Unido, Old Trafford é atingido, e quase é destruído. Esse facto obrigou a que o recinto fosse praticamente reconstruído, e até 1949 o City albergou no seu estádio - Maine Road - o seu eterno vizinho e rival United. Bonito gesto, sem dúvida. Na reconstrução o estádio foi ampliado, chegando em certos períodos da sua história a albergar 80.000 pessoas. Os grandes eventos desportivos planetários realizados em Inglaterra na segunda metade do século XX, mais concretamente o Campeonato do Mundo de 1966 e o Campeonato da Europa de 1996, usaram Old Trafford como palco, e nesse sentido, em cada um desses eventos, o estádio foi sofrendo melhorias (em 1973 foi totalmente coberto, por exemplo), que fizeram com que hoje - com uma lotação de 75.790 espectadores - este seja um dos recintos desportivos mais modernos e belos do Mundo. A juntar à componente visual, por assim dizer, esta catedral carrega consigo uma mística ímpar, muito devido ao trajeto que o United foi fazendo ao longo do século XX, em especial nas décadas de 50, 60, 80 e 90, onde atingiu a glória nacional e internacional, a qual faria de si um emblema amado em todo o planeta. Destacar um jogo emblemático da história deste recinto é uma tarefa árdua, pois foram muitos as noites e tardes de glória que o United aqui viveu, facto que um dia levou uma das maiores lendas do clube, Bobby Charlton, a apelidar o estádio de Teatro dos Sonhos. O nome ficou... para a eternidade. Old Trafford é ainda hoje o estádio com maior afluência de toda a Premier League, sendo que o Manchester United é dos poucos clubes a nível mundial que quase não vende bilhetes para os seus jogos caseiros, já que estes são adquiridos no início de cada temporada pelos seus sócios.

Da tragédia à glória, eis o caminho trilhado por Matt Busby ao serviço do United

Ironia do destino: depois de ter jogado no
City e no Liverpool (grandes rivais do United)
Matt Busby atingiu a glória em Old Trafford
1928 é outro ano vincado na vida futebolística de Manchester. Ali chegava um jovem escocês oriundo de uma família humilde de Orbiston, que haveria de dar o primeiro passo para que a cidade seja hoje vista como a capital do futebol internacional. Alexander Mattew Busby, de seu nome. Nasceu em maio de 1909, tendo cedo ficado órfão de pai, uma das muitas vítimas da Primeira Guerra Mundial. Para ajudar a mãe e as três irmãs, Matt, como era conhecido, seguiu as pisadas do progenitor, e com 16 anos foi trabalhar para as minas. Nos tempos livres, dedicava-se ao football, a sua grande paixão. Destacou-se enquanto centro-campista em clubes locais, facto que despertou o interesse do gigante escocês Rangers, clube ligado à comunidade protestante de Glasgow, que só não contratou Busby porque descobriu que este era católico! Viajou então para Manchester, onde assinou um vínculo profissional com o City. Tinha então 18 anos de idade. Com a camisola blue sky Matt Busby - o seu nome de guerra - disputou 227 jogos entre 1928 e 1936, sendo que esmagadora maioria destes encontros foi desenrolada no principal escalão do futebol inglês, a First Divison. Pelos citizens prova por uma única vez o sabor de uma grande conquista, no caso a FA Cup de 1934, quando em Wembley o City derrotou o Portsmouth por 2-1 e arrecadou o segundo troféu da sua história no seio da popular competição. Em 1936 é transferido por um valor de 8.000 libras para o Liverpool, onde esteve somente três temporadas, nas quais coletivamente não conheceu qualquer alegria. A Segunda Guerra Mundial colocou um ponto final na carreira de Busby, obrigado a alistar-se no Regimento Real de Liverpool. Em meados dos anos 40 Matt Busby é contactado pelo seu amigo Louis Rocca, então dirigente do Manchester United, que o convida a assumir o comando técnico do clube. Algo que acontece em fevereiro de 1945, sendo que dali para a frente nada seria como dantes. Busby, na altura com 36 anos, transformou por completo o United, fazendo deste um emblema competitivo, que proporcionava aos seus adeptos - e não só - grandiosos espetáculos, ou não fosse o escocês um fervoroso adepto do jogo bonito. Centrou em si as decisões importantes do clube, quer no que concerne ao treino, quer na política de contratações e vendas de jogadores.

Matt Busby ergue um dos muitos
troféus conquistados por si ao serviço dos red devils
O primeiro grande sucesso é obtido em 1948, ano em que guia o United à conquista da FA Cup - vitória em Wembley, por 4-2, sobre o Blackpool, onde então pontificava o lendário Stanley Matthews - que colocava o fim de um jejum de 37 anos (!) no diz que diz respeito a títulos para o clube de Manchester. Dirigindo um grupo de jogadores formado antes da Segunda Grande Guerra Mundial, Busby alcança um novo sucesso nacional quatro anos mais tarde, quando vence a First Division com 57 pontos. Este ceptro colocaria um ponto final numa geração onde sobressaiam nomes como Johnny Berry, John Downie, Stan Pearson, ou o goleador Jack Rowley (que ao serviço do United apontou 182 golos em 380 encontros disputados). E é a partir deste ponto que a revolução do escocês ao leme do clube conhece o seu ponto de viragem. Com o fim de uma geração de jogadores, Busby sentiu que tinha de começar do zero a construir uma equipa competitiva, brilhante sobre o ponto de vista técnico, e sobretudo capaz de ombrear com qualquer que fosse o adversário. É então que faz uma aposta vincada na formação do United, promovendo uma série de jovens jogadores oriundos das camadas jovens, casos de Dennis Viollet, Bobby Charlton, Roger Byrne, Jackie Blanchflower, Harry Gregg, ou Duncan Edwards, este último considerado um verdadeiro génio dos relvados. Matt Busby moldou à sua maneira este grupo, e transformaria o United numa das equipas mais temidas e brilhantes não só de Inglaterra como do resto do Velho Continente. E assim nasciam os Busby Babes. Os frutos desta mudança começaram a ser colhidos em 1956, quando o Manchester United venceu a liga com mais 11 pontos que o segundo colocado, o Blackpool. No ano seguinte os bebés do técnico escocês repetem a façanha, entrando assim para a história como a primeira equipa da cidade a alcançar dois títulos de campeão nacional consecutivos. Inglaterra estava já conquistada, e o próximo passo seria a Europa.
A última fotografia dos Busby Babes antes da tragédia de Munique
A Taça dos Clubes Campeões Europeus vivia em finais dos anos 50 os seus primeiros tempos de vida. O Real Madrid havia dominado as primeiras duas edições da prova, mas em 57/58 os espanhóis tinham um adversário de peso no assalto à reconquista do título, precisamente o Manchester United de Matt Busby. Os miúdos ingleses encantavam a Europa com o seu futebol virtuoso, até que a tragédia bateu-lhes à porta. No dia 6 de fevereiro de 1958 o United regressava de Belgrado, onde havia empatado a três bolas diante do Estrela Vermelha em partida da segunda mão dos quartos de final da competição organizada pela UEFA. A delegação do clube, que além de jogadores, treinadores, e dirigentes, era ainda composta por vários jornalistas, fez escala em Munique, para reabastecer a aeronave Airspeed AS-57 Ambassador que os iria levar de regresso a casa. Naquele dia a cidade alemã era coberta por um gélido manto branco (neve). O avião do United tentou, sem sucesso, levantar voo por duas ocasiões, mas o comandante e o co-piloto teimosamente recusaram-se a pernoitar em Munique, dadas as péssimas condições climatéricas para fazer a viagem até Manchester.

A imagem do Airspeed AS-57 que transportava
a comitiva do United após o acidente
Deram início então a uma terceira tentativa de levantar voo, a qual viria a revelar-se fatal. Numa pista de gelo o avião não consegue a velocidade suficiente para descolar e embate contra o gradeamento do aeroporto, incendiando-se quase logo de seguida. Duas dezenas de passageiros perderam a vida, entre eles oito jogadores do United, sendo que a grande estrela da equipa, Duncan Edwards, viria a falecer no hospital de Munique 15 dias depois do acidente. O próprio Matt Busby esteve vários dias internado, entre a vida e a morte. O escocês viria a recuperar, e no regresso a uma casa que ainda chorava a morte dos seus entes queridos lançou uma emocionada promessa: «Dêem-me cinco anos que eu irei construir a melhor equipa de sempre do United». Dito e feito. Com a ajuda de Bobby Charlton - um dos sobreviventes do acidente de Munique - em campo, Busby reconstruiu o clube. Formou novos talentos, uma espécie de segunda geração dos Busby Babes, onde pontificavam nomes como Nobby Stiles, Dennis Law, ou George Best - o filho pródigo de Belfast -, alcançando, de novo, o patamar da glória. O primeiro sucesso depois da tragédia de Munique ocorreu em 1963, na catedral do futebol britânico, Wembley, onde o United ao bater o Leicester City por 3-1 voltava a colocar as mãos da famosa FA Cup. Dois anos mais tarde reconduz o emblema ao topo da liga inglesa, terminando o campeonato com os mesmos pontos (61) do que o Leeds United, mas com melhor goal-avarege, facto que conferiu aos red devils - como entretanto começavam a ficar conhecidos os jogadores do United um pouco por todo o Velho Continente - o sexto título de campeão nacional da sua história.

Prisioneiro de guerra alemão torna-se herói do City

Bert Trautmann, uma lenda do City
Os anos 50 ficaram sublinhados na história de Manchester pelo aparecimento nos retângulos de jogo britânicos de uma das maiores lendas da história do City. Mais do que uma lenda este homem é um herói, e a sua história de vida é típica de um filme ao estilo de "Fuga para a Vitória". Bernhard Carl Trautmann, um cidadão alemão nascido (1923) em Bremen defendeu a baliza dos Citizens em mais de 500 ocasiões, entre 1949 e 1964, mas antes de calçar as luvas a sua vida conheceu capítulos peculiares que davam aso à realização do tal filme. Trautmann viveu uma juventude difícil, muito por culpa da Segunda Guerra Mundial, que o aprisionou na flor da idade. Durante o conflito bélico o jovem Trautmann foi paraquedista da Força Aérea Alemã, tendo combatido durante três anos na Frente Oriental, sendo que o seu desempenho enquanto soldado mereceu-lhe a atribuição de algumas mensões honrosas, entre outras a medalha da Cruz de Ferro. Na Frente Oriental foi capturado pelos britânicos e feito seu prisioneiro de guerra. Foi então transferido para um campo de prisioneiros de guerra em Ashton-in-Makerfield (Lancashire), onde acabaria por ser uma das principais atrações dos habitantes locais devido aos seus dotes... futebolísticos. Ante equipas amadoras locais, Trautmann revelou-se um brilhante guardião da baliza dos prisioneiros de guerra, acabando em 1948, ano em que foi libertado, por recusar a repatriação, optando por continuar em Inglaterra, onde abraçou um emprego na agricultura, ao mesmo tempo em que passou a defender as balizas do emblema amdor de St. Helens Town. No plano desportivo rapidamente Bernhard Trautmann, que em Lanchashire passou a ser conhecido como Bert, chamou a atenção de emblemas de maior projeção, entre eles o Manchester City, que em 1949 o contrata. No entanto, esta esteve longe de ser uma aquisição pacífica, já que os adeptos dos citizens não viam com bons olhos o facto de a sua equipa principal ser integrada por um descendente do império nazi. As feridas da guerra estavam ainda bem abertas, e os próprios jogadores do City fincaram o pé à contratação de Trautmann.

Jogadores do City amparam Bert Trautmann,
que jogou 17 minutos com o pescoço fraturado na
final da FA Cup de 1956
Fizeram-se abaixo assinados em toda a cidade contra a contratação do antigo prisioneiro de guerra alemão, as comunidades judaícas da cidadão fizeram manifestações nas ruas, mas a perícia do alemão na baliza acabou por silenciar as vozes de protesto, e com o tempo acabaria por tornar-se num dos jogadores mais queridos da massa adepta do City! É caso para dizer que o futebol curou as feridas da guerra. Em 1956 Bert Trautmann entra na história do próprio futebol inglês, não só porque foi eleito o melhor jogador da First Division desse ano ou por ter vencido a FA Cup ao serviço do City, mas porque o fez (neste último facto)... com o pescoço partido! A pouco mais de um quarto de hora do término da final disputada entre o Manchester City e o Birmingham City, Trautmann fratura o pescoço após uma saída aos pés de um avançado contrário. Visivelmente afetado o alemão decide continuar no jogo, em sofrimento, ajudando a sua equipa a conquistar aquela que era a terceira Taça de Inglaterra da história dos blue sky. No final, Trautmann foi levado em ombros pelos seus colegas de equipa, não só pela brilhante exibição que fez nessa tarde em Wembley, mas pelo ato heróico que o transformou em lenda do futebol inglês. Viria a falecer em 2013, aos 89 anos.

Manchester festeja a glória europeia em dose dupla!

Um jogo do City nos anos 40
Os finais dos anos 60 atraíram até Manchester os holofotes da fama, não só pelo encanto que a segunda geração dos Busby Babes provocava em todos os adeptos do belo jogo, mas igualmente pelo facto de o Manchester City viver então o melhor período da sua história. Recuando um pouco no tempo, os anos 30 e 40 poucas ou nenhumas alegrias futebolísticas conferiram à cidade de Manchester. As exceções foram as já referidas FA Cup's arrecadadas pelo City em 1934 e pelo United em 1948, bem como o título da First Division que os Citizens conquistaram em 1937, o primeiro - no âmbito deste competição - da história do clube cujo domicílio era já Maine Road, estádio inaugurado em 1923 e que foi durante oito décadas a fortaleza do City. O letal avançado irlandês Peter Doherty foi um dos principais obreiros do título de campeão nacional dos blue sky em 36/37, já que dos impressionantes 107 golos marcados pela equipa nessa temporada 30 foram da sua autoria. Na época seguinte o City não evitou a descida de divisão (!), sendo este um exemplo da inconstância - entre o êxito e o fracasso - exibida pelo clube ao longo da maior parte da sua existência, ficando assim, de certa forma, explicado o facto de ter caminhado quase sempre na sombra do vizinho United. Mas tal não aconteceu em 1967/68, temporada em que se assiste a uma intensa luta entre os dois emblemas de Manchester pela conquista do título nacional, tendo o City levado a melhor sobre os Busby Babes por apenas dois pontos de diferença (58 contra os 56 do United, que foi vice-campeão).

Bobby Charlton ajuda a carregar o troféu mais emblemático
do legado de Matt Busby no Manchester United
Porém, não foram apenas os Citizens a ter razões para sorrir na referida season, já que os Red Devils confirmaram o estatuto de gigantes do futebol continental após baterem em Wembley o Benfica de Eusébio e companhia na final da Taça dos Campeões Europeus. Uma vitória expressiva (4-1) do United, que assim se tornava no primeiro clube inglês a sagrar-se campeão europeu. Foi uma noite memorável para Charlton, Best, Kidd e Stiles, alguns dos Busby Babes que encantavam por aquela altura o Planeta da Bola. O título continental era como um prémio ao talento, ao trabalho e à crença demonstrados por Matt Busby ao longo das últimas duas décadas, onde nas quais catapultou o United para o patamar de grande equipa internacional. Hoje, olhando para trás, não será descabido dizer que foi com Busby - que nesse ano de 1968 seria armado cavaleiro britânico - que os red devils começaram a atingir a dimensão mundial de que atualmente goza. Dimensão esta que seria cimentada - ou até mesmo ampliada - cerca de duas décadas mais tarde, por intermédio de outro mestre da tática escocês: Alex Ferguson.
Não querendo continuar na sombra do seu vizinho e rival United, o City parte em 1969/70 rumo aquela que até hoje é a sua única proeza internacional: a conquista da Taça dos Vencedores das Taças, então a segunda prova mais importante da UEFA.


Jogadores do City erguem nos céus de Viena
o seu único (até à data) troféu europeu
 
Esta vitória surge na sequência do triunfo (1-0) obtido na final da FA Cup de 1969, diante do Leicester City. Uma dupla de treinadores arquitetou este êxito internacional: Joe Mercer e Malcom Allison. Durante cerca de oito anos estes dois homens proporcionaram aos adeptos do City vivenciar aquela que é hoje vista como a primeira era dourada da história do emblema, culminada com a subida ao segundo patamar mais importante do futebol continental, como consequência da conquista da referida Taça das Taças. Feito alcançado em Viena, no Estádio do Prater, onde o Manchester City bateu os polacos do Górnik Zabrze por 2-1. Neste grupo vencedor destacava-se um extremo de habilidade notável, capaz de rivalizar com uma das grandes estrelas do rival de Manchester, George Best, e a voz de comando da dupla Mercer/Allison dentro do retângulo de jogo. Mike Summerbee, de seu nome. 1969/70 fica ainda marcada pela primeira conquista da Taça da Liga por uma equipa de Manchester, neste caso o City - viveu uma temporada de glória, sem dúvida - que ao derrotar em Wembley o West Bromwich Albion por 2-1 arrecadou o terceiro troféu mais importante do futebol inglês.
Após terem alcançado a consagração internacional ambos os emblemas entraram numa crise de êxitos na década de 70, tendo as exceções ocorrido em 1976, ano em que o City trouxe para Manchester uma nova Taça da Liga (após ter batido em Wembley o Newcastle United por 2-1), e em 1977, quando um United muito longe da fama e glória alcançadas na década de 60 - em 74/75 passou mesmo pela Second Division - derrotou na final da FA Cup aquela que era não só a melhor equipa da Velha Albion mas também do futebol continental, o Liverpool, de Bob Paisley. O decréscimo de vitórias, e por consequência de títulos, dos dois combinados de Manchester muito se ficou a dever à saída dos arquitetos da glória nacional e internacional dos anos 60 e princípios dos 70.

Estátua de Sir Matt Busby
em Old Trafford
O United ficou órfão do homem que o tornou gigante à escala mundial, Matt Busby. Ao fim de 25 anos de trabalho de campo, Sir Matt Busby decide abandonar os bancos, passando a exercer o cargo de diretor-geral do clube, sendo que em 1980 chega mesmo à presidência dos red devils. Em 1994, aquele que ainda hoje é visto como o criador do Manchester United enquanto emblema de dimensão planetária falecia vítima de leucemia. A cidade e o clube jamais o esquecerão, sendo exemplo disso o facto de uma das ruas nas imediações de Old Trafford ter sido batizada com o seu nome, para além de junto ao mítico estádio existir a estátua de uma lenda da tática que enquanto jogador vestiu as camisolas dos dois grandes rivais do United, o City, no plano local, e o Liverpool, a nível nacional. Ironia do destino. E se em Old Trafford a saída do mentor do grande Manchester United da década de 60 trouxe aos adeptos do clube uma década e meia de sofrimento, em Maine Road a saída da dupla Mercer/Allison - em 1972 - deu aso a uma longa travessia no deserto de cerca de 40 anos! Quatro décadas onde o City foi caminhando de forma tímida na First Division - e algumas épocas na Second Division - na sequência de resultados modestos. Pior do que isso os adeptos citizens testemunharam o renascimento do United que pela mão de um outro génio escocês regressou ao topo do futebol planetário na década de 90. No verão de 1986 chega a Manchester um promissor treinador escocês proveniente do modesto Aberdeen. Modesto em termos de dimensão, em comparação com os dois gigantes da Escócia, isto é, o Rangers e o Celtic, já que no cenário desportivo da Escócia dos anos 80 os reds eram um verdadeiro tormento para os emblemas de Glasgow. O grande responsável pelo meteórico crescimento do Aberdeen foi um ex-jogador do Rangers que a meio dos anos 70 iniciou uma brilhante carreira de treinador que o haveria de conduzir à imortalidade. Alexander Chapman Ferguson, de seu nome completo.

Um outro cidadão escocês devolve a glória mundial ao United

Alex Ferguson celebra com o seu
capitão de equipa (Brian Robson) a conquista
do seu primeiro troféu ao serviço do United, a FA Cup
Depois de passagens pelos bancos do East Stirlingshire e do St. Mirren na segunda metade da década de 70, Alex Ferguson, como mundialmente se deu a conhecer ao Mundo, assumiu em 1978 os destinos do Aberdeen, levando este emblema não só ao topo do futebol escocês - com a conquista de três campeonatos nacionais, quatro Taças da Escócia e uma Taça da Liga - como do próprio desporto rei continental na sequência de um épico e surpreendente triunfo sobre o colosso Real Madrid na final da Taça das Taças de 1983. O trabalho realizado por Ferguson em Aberdeen chamou, naturalmente, à atenção dos grandes emblemas britânicos, e em 1986 o Manchester United contrata o promissor técnico, então com 45 anos, com o objetivo claro de recolocar o clube no topo do futebol e acabar com o domínio avassalador do grande rival - a nível nacional - Liverpool. Os primeiros anos de trabalho de Ferguson em Old Trafford não foram fáceis, muito pelo contrário. Os (bons) resultados tardavam em aparecer, o Liverpool continuava a colecionar títulos, soma esta que fazia com que os adeptos do United começassem a perder a paciência com o técnico, tendo muitos deles exigido à Direção a cabeça do escocês. Em boa hora os responsáveis do clube travarem este ímpeto dos supporters, pois em 1990 chegou o primeiro de muitos troféus (a FA Cup) que Ferguson iria dar ao United, e mais do que isso estava dado o primeiro passo para que os inquilinos de Old Trafford se tornassem nos anos seguintes num dos emblemas mais populares e poderosos do Mundo. Os anos 90 comprovaram a mestria de Ferguson enquanto formador e condutor de equipas, já que seis dos dez campeonatos - da Premier League - da citada década foram ganhos pelo United, enquanto que a FA Cup seria levada para o museu do clube em quatro ocasiões, e a Taça da Liga por uma ocasião. Contando com jogadores de craveira internacional como Brian Robson, Eric Cantona, Roy Keane, Peter Schmeichel, ou Mark Hughs, aos quais juntou alguns diamantes por si lapidados que haviam sido extraídos da formação do clube, tais como os irmãos Neville (Phil e Gary), Nicky Butt, Paul Scholes, Ryan Giggs, ou David Beckham, o escocês reconduziu o United à glória internacional.

Ferguson e os seus Fergie Babes viveram uma noite
louca em Barcelona
O primeiro passo foi dado em 1991, quando na Banheira de Roterdão os red devils derrotaram o Barcelona de Cruyff na final da Taça das Taças, fazendo desta forma que o regresso dos clubes ingleses às competições europeias - após cinco épocas de ausência devido ao castigo que lhes foi imposto pela UEFA na sequência da tragédia do Heysel, em 1985 -, enquanto que o segundo ocorreu já perto do final do século XX, numa noite épica vivida em Barcelona. Uma noite que encerrou uma temporada (98/99) de sonho para o Manchster United, que entrava para a restrita galeria mundial dos clubes que haviam vencido o treble, isto é, o campeonato nacional, a principal taça nacional e a mais famosa de todas as competições uefeiras, a Taça dos Campeões Europeus, então já denominada de Liga dos Campeões. Uma vitória lendária, ao nível de um conto de fadas, que teve como palco o Camp Nou de Barcelona, onde aos 90 minutos o United perdia por 1-0 diante do Bayern de Munique. Num ápice tudo mudou. No período de descontos os red devils deram a volta ao marcador e trouxeram de novo a taça das orelhas grandes para Manchester. Fergie tinha definitivamente conquistado o coração dos adeptos, tornando-se assim num digno sucessor do seu compatriota Matt Busby. Tal como este, Alex Ferguson recebeu da realeza inglesa o reconhecimento pelo seu majestoso trabalho, ao ser armado cavaleiro britânico. Estava contudo ainda muito longe de terminar a história do agora Sir Alex Ferguson ao serviço de um clube que já no novo milénio iria ser engolido pelo sistema capitalista que entretanto se começava a apoderar do futebol planetário.

Cristiano Ronaldo, o génio por detrás da terceira
Taça/Liga dos Campeões Europeus do United
Perante a partida de alguns dos seus melhores talentos para outras paragens, o escocês respondia com contratações cirúrgicas de novos génios, como por exemplo, Cristiano Ronaldo, em 2003. O português, formado nas escolas do Sporting, mostrou-se um digno herdeiro da mítica camisola número 7 do United, eternizada por lendas como George Best, Brian Robson, Eric Cantona, ou David Beckham. Com o astro luso no comando das operações, Ferguson fartou-se de ganhar na primeira década do século XXI, conforme atestam as sete Premier Leagues arrecadadas, as três Taças da Liga e uma outra FA Cup. Por esta altura, já o United era visto como o clube mais rico e famoso do Mundo - com mais de 330 milhões de seguidores -, e mais ficou quando numa noite chuvosa em Moscovo, Fergie deu ao clube - em 2008 - a sua terceira Taça/Liga dos Campeões Europeus após um triunfo nas grandes penalidades sobre o milionário Chelsea de Roman Abramovich. Após quase três décadas de glória Sir Alex Ferguson decide em 2013 afastar-se do campo de batalha, colocando um ponto final numa carreira ímpar. E tal como havia acontecido com Busby no início da década de 70 também o adeus de Fergie parece ter trazido alguma instabilidade ao clube, que de lá para cá tem andado arredado do caminho do êxito.
Em meados dos anos 90 do século passado o futebol passou a ser alvo da cobiça dos grandes grupos económicos mundiais, ou por multimilionários que viam no belo jogo uma forma de triunfar no que ao plano financeiro diz respeito. Foi, contudo, já no novo milénio que o futebol passou a ser visto como uma indústria, uma máquina de fazer muito, mas muito, dinheiro. Um pouco por todo o Mundo largas dezenas de clubes foram sendo comprados pelo sistema capitalista que tomou conta da modalidade, e transformados em novas potências da bola. Alguns desses clubes viviam na sombra dos grandes emblemas do planeta, mas com a chegada dos petrodólares do Oriente passaram a fazer parte da elite do futebol, ombreando com, e até superando, gigantes como o Barcelona, Real Madrid, Bayern de Munique, ou o próprio Manchester United.

Petrodólares permitem que o City passe a olhar olhos nos olhos o vizinho United

Roberto Mancini e Mansour Bin Zayed, a dupla
que devolveu a glória ao City já no novo Milénio
Um desses novos ricos foi precisamente o Manchester City, clube que em 2008 é comprado pelo multimilionário árabe Mansour Bin Zayed, que chega à cidade do condado de Lancashire com a ambição de fazer dos sky blues a melhor equipa do Mundo. Nesse sentido, foram desde então contratados diversos futebolistas de topo, casos de Carlos Tévez (ao rival United), Yaya Touré, Joe Hart, Patrick Vieira, Kun Aguero, ou David Silva, que sob a orientação de treinadores consagrados como Roberto Mancini, ou mais recentemente Manuel Pellegrini, devolveram a glória, pelo menos a nível interno, aos citizens, como compravam as duas Premier Leagues conquistadas (em 2011/12 e 2013/14), a FA Cup de 2010/11 e as Taças da Liga de 2013/14 e 2015/16. O City vive desta forma a segunda era dourada da sua centenária vida. Hoje, graças ao investimento de Mansour Bin Zayed, os citizens podem finalmente olhar olhos nos olhos o seu vizinho e grande rival da cidade, ambicionado por estes dias colocar as mãos no troféu mais desejado a nível mundial por clubes e jogadores, a Taça/Liga dos Campeões Europeus.
Porém, existem adeptos que não se revêem nesta política capitalista que impera no futebol atual. Adeptos que continuam enamorados pelo romantismo que durante décadas pairou sobre o futebol um pouco por todo o Mundo. Com a compra do United em 2005, pelo multimilionário Malcon Glazer, um grupo de adeptos dos red devils decidiu mostrar o seu descontentamento perante este facto, e fundaram o Football Club United of Manchester. Recusando a ideia de integrar o universo do futebol enquanto indústria manipulada pelo grande capital, este clube espelha o tal lado romântico e puro do football, sendo gerido pelos próprios associados, que fim-de-semana após fim-de-semana apoiam a equipa nas competições semi-profissionais do futebol britânico.
Um cumprimento antes
de um dérbi de Manchester
nos anos 40
Conforme o próprio nome faz referência o City sempre foi o clube com mais adeptos na cidade de Manchester, mas o United é um dos emblemas com mais supporters espalhados pelo Mundo! Ao longo da sua centenária história os dois vizinhos e rivais da cidade já se defrontaram em mais de 170 ocasiões - 171 para sermos mais precisos - até ao dia em que escrevemos estas linhas. Em termos de vitórias a balança pende claramente para os red devils, que venceram os citizens por 71 vezes, enquanto que o contrário ocorreu em 49 ocasiões. Registaram-se 51 empates entre os dois filhos pródigos de Manchester. Wayne Rooney, atual estrela do Manchester United, é o futebolista com mais golos (11) apontados no dérbi da cidade, enquanto que o galês Ryan Giggs é o jogador que mais vezes (36) entrou em campo para jogar o clássico de Manchester. Como já foi dito nas primeiras linhas desta visita virtual, esta cidade assumiu desde cedo um papel preponderante na popularização e cimentação do football na cultura britânica. Não é pois à toa que o Museu Nacional do Futebol inglês esteja situado em Manchester, sendo que nas suas vitrinas estão guardados centenas de capítulos não só do football local como de outros cantos do Mundo, factos que fazem com que quem o visita se sinta realmente na capital mundial do futebol.

Portugal dá-se a conhecer ao Mundo enquanto potência do futebol em Old Trafford 

Eusébio leva dois húngaros ao
tapete verde de Old Trafford
no Mundial de 1966
Conforme já foi dito nas últimas linhas, Manchester foi ao longo da sua história palco de centenas de lendárias batalhas futebolísticas, algumas delas integradas nas mais importantes competições do belo jogo à escala planetária. 1966 é um ano especial para o futebol inglês. É o ano em que os inventores do futebol moderno organizam e vencem a competição desportiva mais importante do globo, o Campeonato do Mundo da FIFA. Mas se Booby Charlton, Nobby Stiles, Martin Peters, ou Bobby Moore podem ter erguido a Jules Rimet Cup no final do certame, Portugal e um tal de Eusébio ficaram na retina dos entusiastas do futebol como as figuras maiores desse Mundial. Até a entrada para este evento a seleção portuguesa era uma quase desconhecida do planeta da bola, chegando à Velha Albion como um dos combinados menos cotados à vitória final da oitava edição do Campeonato do Mundo. Manchester iria provar o contrário. Foi nesta cidade que o selecionado luso mostrou o seu potencial futebolístico a nível internacional. Integrada no Grupo 3, juntamente com a Bulgária, a Hungria e o super favorito Brasil, onde pontificava o astro Pelé, a seleção de Portugal deu início a uma inesquecível aventura em Old Trafford, quando a 13 de julho de 66 enfrentou e bateu por 3-1 a favorita Hungria, graças a golos de José Augusto e José Torres. Para aqueles que olhavam para este como um mero golpe de sorte de principiante - uma vez que os lusos faziam a sua estreia na competição da FIFA - Eusébio contrariou no jogo seguinte esses mesmos olhares desconfiados, ao guiar a seleção portuguesa a uma nova vitória, desta feita diante da Bulgária, por 3-0 - com golos de Eusébio, Torres e Vutsov (na própria baliza). A epopeia lusa teve continuidade em Liverpool, que assistiu às históricas vitórias ante o Brasil e a Coreia do Norte, terminando em lágrimas na catedral do futebol - Wembley - aos pés dos donos da casa. Para além desses dois jogos iniciais da campanha lusa, Manchester e o seu mítico Old Trafford receberam um outro encontro nesse Mundial de 66, o qual colocou frente a frente a Hungria e a Bulgária (3-1).

Alemães voltam a fazer estragos no Teatro dos Sonhos

Moller, Scholl e Klinsmann iniciaram em Old Trafford
os festejos da conquista do Euro 96
Já aqui foi dito que o mítico estádio de Old Trafford viveu ao longo da sua história dezenas de tardes e noites memoráveis. Porém, outros episódios de profunda dor foram escritos na vida do recinto, como por exemplo os dias, meses e anos seguintes à tragédia de Munique em 1958, ou o bombardeamento pelos caças alemães em 1941. Mais de cinco décadas passadas deste triste momento que obrigou a uma profunda remodelação no estádio, eis que um grupo de alemães voltou a fazer estragos na catedral mais emblemática de Manchester. Desta feita não eram caças da Força Aérea germânica, mas um naipe de talentos futebolísticos que às ordens do mestre da tática Berti Vogts conduziu uma Alemanha (unificada) à glória continental. Nomes como Jurgen Klinsmann, Andy Moller, Matthias Sammer, ou Thomas Hassler iniciaram a caminhada vitoriosa em Old Trafford, onde realizaram quatro dos seis jogos disputados no Campeonato da Europa de 1996, que iria terminar da melhor forma em Wembley, onde após um triunfo por 2-1 sobre a República Checa - graças a um golo dourado de Oliver Bierhoff - coroou nesse ano os alemães como reis da Europa.
Manchester, e o seu Old Trafford mais precisamente, são locais onde os tiffosi italianos viveram bons e maus momentos da sua história. Neste último aspeto foi curiosamente no Europeu de 96 que a Itália - então vice-campeã do Mundo - disse adeus à possibilidade de seguir para os quartos-de-final da competição, após um nulo ante a futura campeã europeia, a Alemanha, no derradeiro e decisivo encontro do Grupo C - da primeira fase. Melhores memórias terão os adeptos do Milan, já que numa final 100 por cento italiana - ante a Juventus - somaram o seu sexto título da Taça/Liga dos Campeões após o ucraniano Andy Shevchenko ter convertido com êxito a última grande penalidade da série de tiros ao alvo com que a final foi decidida. Cinco anos volvidos, Manchester voltou a ser palco de decisões de uma competição uefeira, no caso a Taça UEFA, cuja decisão foi agendada para o novíssimo e moderno Estádio Cidade de Manchester, um recinto com capacidade para 55.000 pessoas inaugurado em 2002 para os Jogos da Commonwealth e que desde então passou a ser a casa do City. O batismo europeu do City of Manchester Stadium - hoje em dia por razões comerciais rebatizado como Etihad Stadium - ficou marcado pelo triunfo (2-0) dos russos do Zenit sobre os protestantes do Rangers nessa final da UEFA de 2008.
 
Nota: Texto escrito em 19 de abril de 2016 no blog: www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com 

"Il Grande Bologna" solta o primeiro grito de vitória do futebol italiano além fronteiras

Il Grande Bologna entra em campo para fazer história
Durante décadas o futebol italiano viu refletidos sobre si os holofotes da fama e do prestígio do Planeta da Bola. As suas equipas encantaram e dominaram o Mundo com dezenas conquistas e feitos inesquecíveis que fizeram - e fazem - desta uma das nações mais fortes da história do belo jogo. Sobretudo durante as décadas de 80 e 90 do século passado, em que o calcio comandou o pelotão futebolístico internacional. A Serie A - o principal escalão do futebol italiano - foi durante mais de 20 anos uma verdadeira passerelle de estrelas. Alguns dos maiores vultos da história do jogo passearam classe pelos relvados de Itália nas décadas de ouro do calcio, casos de Diego Maradona, Michel Platini, Zico, Roberto Mancini, Gianluca Vialli, Roberto Baggio, Paolo Rossi, Sócrates, Falcão, Lottar Matthaus, Ruud Gullit, Marco Van Basten, entre tantos outros. Jogar em Itália, no melhor campeonato nacional do globo, era a cereja no topo do bolo para qualquer futebolista. O poderio e mediatismo das squadras transalpinas no decorrer das duas referidas décadas refletia-se igualmente nas eurotaças da UEFA com a conquista de quase duas dezenas de títulos continentais e cerca de trinta presenças em finais.


O poderio do futebol italiano na Europa
durante as décadas de 80 e 90 é evidente nesta imagem
Para quem gosta de estatística estes factos podem ser facilmente atestados com números que impressionam à primeira vista. Vejamos. Na Taça dos Clubes Campeões Europeus a nação da bota arrecadou cinco títulos, três por intermédio do Milan (1989, 1990 e 1994) e dois pela Juventus (1985 e 1996), para além de ter marcado presença em mais sete finais (perdidas), três pela Juve (1983, 1997 e 1998), duas pelos milanistas (1993 e 1995), e uma por Roma e Sampdoria (respetivamente em 1984 e 1992). Naquela que foi durante anos a fio a segunda competição mais importante da UEFA, a Taça dos Vencedores das Taças, o futebol italiano subiu por quatro ocasiões ao lugar mais alto do pódio: Juventus (1984), Sampdoria (1990), Parma (1993) e Lázio (1999), tendo perdido ainda um par de finais, em 1989 (Sampdoria) e 1995 (Parma). Seria no entanto na terceira competição uefeira - a Taça UEFA - que o calcio exerceu nestes 20 anos um domínio quase absoluto, conforme expressam os oito títulos conquistados (o Nápoles em 1989; a Juventus em 1990 e 1993; o Inter em 1991, 1994 e 1998; e o Parma em 1995 e 1999) em dez finais disputadas. A prova mais evidente de que a Itália era rainha e senhora da Taça UEFA ocorreu nos anos de 1990, 1991, 1995 e 1998, altura em que as finais desta competição foram 100 por cento italianas, ou seja, disputadas por duas equipas do mesmo país. O poderio transalpino é traduzido noutros dados, como por exemplo o facto de a Juventus ter sido a primeira equipa do Velho Continente a conquistar os três troféus da UEFA, quando em 1985 juntou a Taça dos Campeões Europeus (TCE) à Taça dos Vencedores das Taças (TVT) de 1984 e à Taça UEFA de 1977; ou ainda a época de 1989/90, cujas finais europeias foram vencidas por equipas italianas: Milan (TCE), Sampdoria (TVT) e Juventus (Taça UEFA). Sem dúvidas que este foram anos de um domínio avassalador, que a juntar às conquistas das décadas de 60 e 70 (quatro TCE, duas TVT, uma Taça UEFA e uma Taça das Cidades com Feira) fazem da Itália um dos países mais laureados da Europa futebolística no que a clubes concerne, somente suplantado por Espanha e Inglaterra. Hoje em dia, o calcio vive na sombra do seu passado glorioso, quer no plano internacional, onde luta com dificuldades ante os emblemas das nações mais poderosas do continente (Espanha, Inglaterra e Alemanha), quer no aspeto interno, onde o seu campeonato perdeu brilho, emoção, e sobretudo glamour.

Il Grande Bologna coloca a Itália no mapa da Europa do futebol

Esta longa introdução remete-nos para a nossa história de hoje: o ponto de partida da gloriosa caminhada europeia das equipas italianas. Início esse que nos leva até um clube lendário, que hoje deambula entre a Serie A e a Serie B, mas que durante mais de uma década encantou os tiffosi de todo o... Mundo. Bologna Football Club, ou Il Grande Bologna dos anos 30, a primeira equipa transalpina a conhecer a glória internacional. Para muitos dos historiadores do belo jogo o legado desse mítico e longínquo Bologna rivaliza com o do Grande Torino da década de 40, da mágica equipa que se eclipsou tragicamente no desastre aéreo de Superga em 1949. Qual destas duas equipas foi a melhor é uma pergunta difícil de responder, sendo apenas certo que ambas tiveram um papel preponderante na dinamização e popularização do calcio a nível internacional.
No vale do Rio Pó ergue-se Bologna (ou Bolonha no idioma de Camões), cidade que no outono de 1909 vê nascer um dos principais baluartes da sua história, o Bologna Football Club.

A equipa do Bologna que em 1924/25 conquistou, sob a alçada do treinador austríaco Felsner, o primeiro scudetto da história do clube

 

Emilio Arnstein, um cidadão oriundo da Boêmia (atual República Checa) é a principal figura que esteve na génese da criação do emblema rossoblú (azul e vermelho, as cores que os bolonheses adotaram desde a sua fundação), contando para isso com a cumplicidade dos italianos Arrigo Gradi e Leone Vicenzi, e do suíço Louis Rauch, sendo que este último seria o primeiro presidente da história do clube. Após uma primeira década de vida a competir ao nível regional, o Bologna entra nos anos 20 com a ambição de galgar os muros da sua região e conquistar a Itália. Os seus dirigentes sonham alto, aspiram ombrear com as melhores equipas do país, onde então se destacavam o Genoa e o Pro Vercelli, nomes que haviam dominado as duas primeiras décadas do calcio no plano nacional. Nesse sentido urge que o clube transponha a fronteira do amadorismo para o profissionalismo que começava a imperar no futebol transalpino, e o primeiro passo é dado na contratação de um homem oriundo da escola do Danúbio, para muitos a região do Velho Continente onde o futebol atingia a sua perfeição no plano técnico e tático. Do triângulo composto por Áustria, Hungria e Boêmia (mais tarde batizada de Checoslováquia) foram extraídos durante grande parte da primeira metade do século XX alguns diamantes raros no que ao desporto rei diz respeito. Jogadores, treinadores, ou simplesmente pensadores do jogo que o levaram para patamares da excelência e da beleza nunca dantes vistos no Velho Continente.



Hermann Felsner, o criador
d' Il Grande Bologna
Os dirigentes do Bologna estavam cientes de que para edificar o clube vencedor que tinham em mente era preciso trazer para a cidade que alberga a universidade mais antiga do Mundo um desses filósofos danubianos da bola. Decidem então colocar um anúncio num jornal de Viena, em busca de um timoneiro para o projeto de sucesso que idealizavam. Receberam várias respostas, e na sequência disso Arrigo Gradi, um dos co-fundadores do clube, decide viajar até à capital da Áustria para analisar in loco os candidatos selecionados. A escola final recaíu num antigo jogador do Wiener Sport Club, Hermann Felsner, de seu nome. Este cidadão austríaco chega a Itália em 1920 e de pronto revoluciona o modo de jogar e de pensar dos rossoblú. Felsner desde logo se revelou um profundo conhecedor do futebol, introduziu novos métodos de treino, ou não fosse ele um especialista no campo da preparação física, aos quais aliou os seus vastos conhecimentos no plano tático. Felsner reconstruiu o clube, criou as bases daquele que viria a ser Il Grande Bologna das décadas seguintes. Sob a sua batuta o Stadio Sterlino - uma das primeiras casas do Bologna - passou a ser palco de magistrais sinfonias futebolísticas interpretadas por uma orquestra formada por notáveis figuras moldadas pelo génio do treinador austríaco. Nomes como Giuseppe della Valle, Augusto Baldini, Gastoni Baldi, ou Cesare Alberti rapidamente se tornaram em futebolistas de renome em Itália, e mais do que isso em homens capazes de conduzir o Bologna à glória sonhada. Em 1920/21 é dado do primeiro sinal ambição dos rossoblú, com a conquista do primeiro lugar do Grupo Regional do Norte do Campeonato Italiano - que até meados dos finais dos anos 20 foi disputado em várias fases, sendo que os vencedores das etapas regionais disputavam mais à frente eliminatórias nacionais que apuravam o campeão. O talento de Felsner para moldar jogadores de inegável talento atinge, quiçá, o seu apogeu em 1923, altura em que descobre num modesto clube amador local, o Fortitudo, um artista que haveria de escrever o seu nome no livro de ouro do futebol italiano: Angelo Schiavio.


Angelo Schiavio, a estrela maior
d' Il Grande Bologna
Este astro atuou durante 16 temporadas (1922-1938) no Bologna, tendo apontado 242 golos em 348 encontros disputados. 109 desses golos foram apontados no principal escalão italiano, onde vestiu a maglia rossoblú em 179 ocasiões. Foi o melhor marcador do campeonato em 31/32, altura em que apontou 25 golos. Schiavio foi o nome sonante de um Bologna que tornou reais as aspirações de glória dos seus dirigentes em 1928/29, época em que venceu o primeiro dos seus sete scudettos - título nacional - que detém até hoje. A equipa do vale do Rio Pó venceu numa primeira fase a Liga do Norte, com 34 pontos, superando a então potência do calcio Pro Vercelli, e uma Juventus que dava os primeiros sinais do gigante internacional que viria a tornar-se nas décadas seguintes. Esta classificação permitiu ao Bologna disputar a final do campeonato com o vencedor do Grupo do Sul, o Alba Roma, tendo vencido os dois jogos do play-off de apuramento do campeão nacional. Estava dado o primeiro passo no caminho da glória. Nos anos seguintes os rossoblú ocuparam sempre a carruagem da frente do futebol transalpino, lutando taco a taco com os melhores pela reconquista do ceptro. Algo que viria a surgir no final da década (1929) quando o doutor Felsner - assim chamado pelos tiffosi bolonheses não só pelo facto de ser licenciado em Direito mas sobretudo pelos seus amplos conhecimentos futebolísticos - conduz o clube a um novo título nacional, depois de levar a melhor numa épica final ante o Torino - decidida apenas num terceiro jogo e quase em cima do apito final (minuto 82) por intermédio de Giuseppe Muzzioli. A Itália curvava-se diante do futebol tecnicamente e taticamente refinado do Bologna - assente na filosofia da escola danubiana com alguns traços do futebol inglês - idealizado por Felsner, um homem de personalidade forte, que tinha bebido grande parte da sua sabedoria na pátria do futebol, Inglaterra, onde havia aprendido com os melhores antes de deixar a sua marca no Planeta da Bola através da criação d' Il Grande Bologna. O austríaco abandonaria a sua obra de arte em 1931, abrindo caminho para que outros elevassem o clube a patamares mais altos e mais pomposos. Por esta altura não só a Itália fazia vénias ao emblema rossoblú, cuja lenda atravessava o (Oceano) Atlântico conforme ficou comprovado pelos convites que surgiram da Argentina e do Brasil no final da década, para que as duas equipas finalistas do campeonato transalpino de 28/29 enfrentassem as melhores equipas daqueles dois países.

Rossoblú fazem tremer a Europa do futebol


Bologna em ação contra o velho rival
Juventus, na luta pelo trono do futebol
  transalpino
Os finais da década de 20 conheceram aquela que é considerada como a progenitora das atuais competições europeias: a Taça Mitropa. Sobre esta hoje desaparecida prova já traçámos longas linhas em recentes viagens ao passado, e nela evoluíram algumas das primeiras lendas do futebol continental como Mathias Sindelar, Rudolf Hiden, Raymond Braine, Giuseppe Meazza, ou Frantisek Plánicka. Disputada pelos melhores conjuntos da Áustria, Hungria, Checoslováquia e Itália - no fundo as maiores potências futebolísticas da Europa de então - a Mitropa Cup era já a competição mais popular do Velho Continente no início da década de 30. Vencê-la era o equivalente a subir ao trono da Europa no que a clubes dizia respeito. Por esta altura Hermann Felsner havia dado o seu lugar ao húngaro Gyula Lelovics, outro profundo conhecedor da mítica escola danubiana que mais não fez do que seguir o trabalho deixado pelo austríaco. Entretanto, o grupo rossoblú era reforçado com nomes que haveriam de deixar a sua marca na história do clube e do próprio jogo, tais como o defesa uruguaio Francisco Fedullo, o guarda-redes Mario Gianni, ou o extremo Carlo Reguzzoni. Em 1932 o Bologna participa pela primeira vez na famosa competição continental, na qualidade de vice-campeão italiano - atrás do campeão Juventus - facto que entraria para a história, ou melhor, uma presença que haveria de iniciar a gloriosa história do futebol italiano nas competições europeias.
O principal campeonato italiano havia somente terminado somente há uma semana quando a squadra orientada por Gyula Lelovics entrou em campo para defrontar os campeões da Checoslováquia, o Sparta de Praga, em partida dos quartos-de-final. Checos que na primeira mão viajaram até Itália sem o patrão da sua defesa, Kada Pesek, para enfrentar Il Grande Bologna. Na baliza surgia Mario Gianni, a quem chamavam de gato mágico, assim apelidado pelas espetaculares e acrobáticas estiradas que marcavam a sua imagem de futebolista, enquanto no setor recuado brilhavam o futuro bi-campeão do Mundo Eraldo onzeglio, Felice Gasperi, e o uruguaio Francisco Fedullo. No meio campo, dois jogadores comandavam majestosamente as operações: Gastoni Baldi, e Gastone Martelli. Estes dois jogadores serviam de forma sublime a linha avançada daquele memorável conjunto, linha essa formada por nomes como Bruno Maini, o uruguaio Raffaele Sansone, e Angelo Schiavio, a estrela mais brilhante daquela lendária equipa. Este último jogador foi um dos destaques no embate ante o Sparta, que o Bologna venceu por claros e expressivos 5-0. Reguzzoni abriu o marcador nos minutos iniciais, seguido de dois golos de Maini e um de Schiavio, tendo a nota artística final sido assinada por Baldi na etapa complementar. 

A medalha que simboliza a conquista
da Mitropa Cup em 32
No encontro da segunda mão os checoslovacos ainda tentaram o impossível, e aos 30 minutos do primeiro tempo já haviam marcado dois golos - por Nejedly e por Donati, este último um auto-golo - que traziam esperança ao combinado orientado pelo lendário John Dick. Aos 15 minutos da segunda parte Podrazil fez o 3-0 final, resultado insuficiente para afastar o vice-campeão de Itália. Nas meias-finais, a squadra de Lelovics enfrentou o First Viena, conjunto que na primeira mão visitou o Stadio Littorale - a nova casa do Bologna, que hoje em dia é denominada de Estádio Renato Dall' Ara - tendo ali perdido por 2-0, com golos de Maini e Sansone, num jogo que fica marcado pelo facto de Schiavio ter atuado fisicamente limitado. Ele que havia sido o melhor marcador do campeonato italiano em 1931/32, com um total de 25 remates certeiros.
Uma semana mais tarde, no Hohe Warte Stadium, em Viena, os austríacos fizeram uma exibição de gala, um jogo perfeito, que mesmo assim não chegou para ir além de uma magra e insuficiente vitória por 1-0.

A edição de 1932 da Taça Mitropa ficou marcada pela polémica meia-final entre a Juventus e o Slavia de Praga, uma autêntica batalha campal que levou a organização da prova a afastar estes dois clubes e a entregar o título de campeão ao Bologna que assim soltava o primeiro grito de vitória além do futebol italiano no plano internacional. O Bologna tornava-se assim na primeira squadra transalpina a vencer uma competição europeia sob o signo da magia e criatividade técnico-tática que caracterizava o seu estilo de jogo.

Fotografia histórica: A equipa do Bologna que em 1932
conquistou o primeiro título europeu de clubes para Itália

 

Dois anos mais tarde, e sob a orientação do húngaro Lajos Kovács, Il Grande Bologna volta a mostrar a sua... grandeza no plano internacional. A equipa volta a conquistar a Europa na sequência de um novo triunfo na Mitropa Cup. Contudo, a campanha não começou de maneira fácil, já que na primeira ronda os húngaros do Bocskai foram um osso duro de roer. No jogo da primeira mão, no Stadio del Litorialle, o combinado magiar surgiu no relvado com uma defesa de ferro, só derrubada pela arte e força de Carlo Reguzzoni e da grande estrela da equipa, Angelo Schiavio. Na segunda mão foi a vez do setor defensivo dos italianos brilhar, segurando a avalanche ofensiva dos húngaros que tiveram em Jeno Vincze a sua maior figura, sendo dele um dos golos com que o Bocskai derrotou o Bologna, por 2-1. Resultado, contudo, insuficiente para passar aos quartos-de-final, já que o tento de Reguzzoni fez estalar a festa entre a comitiva transaplina.
Tranquila foi a passagem do Bologna às meias-finais, já que na primeira mão dos quartos-de-final, diante do seu público, o clube transalpino humilhou por completo o Rapid de Viena. 6-1 foi o resultado de uma partida onde os atacantes Reguzzoni e Schiavio estiveram em claro destaque ao apontarem os golos da sua equipa. Em Viena, o Rapid adiantou-se cedo no marcador, por intermédio de Binder, logo aos dois minutos, dando ideia de que o milagre poderia acontecer, mas Reguzzoni logo tratou de arrefecer o ímpeto dos locais com o golo do empate, de nada valendo os três golos de Binder no segundo tempo.

Final da Taça Mitropa de 1934
As meias-finais comprovaram que o Bologna era de facto uma das grandes equipas da Europa dos anos 30. Que o diga o (então) poderoso Ferencvaros, que na primeira mão não foi além de um empate caseiro antes os italianos, que por sua vez no jogo de volta esmagaram por completo os húngaros na sequência de um robusto triunfo por 5-1, com relevo para as exibições de Fedullo e Schiavio, este último autor de dois golos. Assim chegávamos a mais uma final, onde surgiu pela segunda vez - no espaço de três anos - Il Grande Bologna, que no entanto se viu a braços com o azar na partida da primeira mão da final da edição de 1934, já que por motivos de lesão a sua maior estrela, Angelo Schiavio, não pôde viajar para Viena. No entanto, e em contrário ao que se esperava, os italianos não ficariam fragilizados por esse facto, já que ao intervalo venciam o seu oponente por duas bolas a zero. No segundo tempo, e no curto espaço de seis minutos, o Admira - adversário da final - deu a volta ao marcador, o qual não mais viria a ser alterado até final, graças a uma magnífica exibição do gato mágico Mario Gianni. Na segunda mão, e já com o seu capitão e estrela-mor Schiavio em campo, o Bologna dominou por completo os acontecimentos. Jogada de baixo de um calor infernal a partida foi de sentido único, o da baliza forasteira, com sucessivos lances de perigo a ocorreram junto da baliza à guarda de Platzer. O perigo número um na área vienense dava pelo nome de Carlo Reguzzoni - jogador que o lendário mestre da tática Hugo Meisl classificou, na época, como o melhor extremo do futebol continental -, que neste encontro esteve verdadeiramente endiabrado. Apontou três dos cinco golos com que o Bologna venceu o seu oponente, mas poderia ter marcado muitos mais, tais foram as ocasiões em que assustou Platzer. Com este hattrick Reguzzoni elevaria para 10 o número de golos marcados na competição, facto que fez dele o melhor da edição de 1934 da Mitropa. Quando o árbitro inglês Arthur James Jewell apitou para o final do encontro os 25 000 espectadores presentes no Stadio del Littoriale explodiram de alegria: Il Grande Bologna era de novo campeão da Europa.
1934 foi de facto um ano inolvidável para o futebol italiano, pois à conquista do Campeonato do Mundo pela seleção nacional seguiu-se mais um capítulo da história triunfal d' Il Grande Bologna. Curioso é que nestes dois factos um homem esteve em destaque, Angelo Schiavio. Foi dele o golo da vitória da Squadra Azzurra na final de Roma ante a Checoslováquia e por sua influência o Bologna subia de novo ao trono do futebol continental.
O grupo que em 1934 voltou a subir ao trono do futebol europeu
A supremacia dos bolonheses continuou a fazer-se sentir no restantes anos da década de 30, sobretudo no plano interno onde sob a orientação de outro nome que ficou na história do clube, o húngaro Árpád Weisz, interromperam uma série de cinco títulos nacionais consecutivos da Juventus vencendo os scudettos de 1936 e 1937. A era dourada deste emblema estava longe de terminar, pois até 1941 Il Grande Bologna voltou a rugir bem alto no panorama nacional. Conduzido pelo homem que construi a lenda, Hermann Felsner, a equipa venceu os campeonatos de 39 e 41, antes de passar o testemunho artístico no que à interpretação do jogo alude a outro grande squadrone: Il Grande Torino.
 
Nota: texto escrito em 7 de março de 2016 no blog: www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com 

Joe Lydon - O futebolista com queda para o boxe que fez história no grande palco do desporto planetário

Joseph Lydon
O Grande Atlas do futebol está bem composto no que toca a exemplos de futebolistas que exibiram as suas qualidades atléticas ao serviço de outras modalidades em paralelo - ou não - com a prática do desporto rei. O talento desportivo multifacetado de alguns desses atletas foi mesmo testemunhado em grandes competições - nacionais e internacionais. Contudo, muito poucos foram aqueles que obtiveram sucesso em mais do que uma disciplina desportiva, ou modalidade, assim que pisaram o palco de um evento desportivo à escala planetária, como é o caso dos Jogos Olímpicos (  JO). E neste sentido a história leva-nos ao ano de 1904, altura em que a cidade norte-americana de Saint Louis acolheu a terceira edição das Olimpíadas da Era Moderna. Um evento manchado pelo racismo e pelo papel secundário que o desporto - enquanto fenómeno de massas - desempenhou em Saint Louis. Tal como havia acontecido em Paris, quatro anos antes, os Jogos Olímpicos de 1904 não foram mais do que um mero apontamento da Exposição Universal, intitulada de Louisiana Purchase Exibition, que decorreu naquela cidade do Estado de Missouri. Muito pior do que a deselegância com que o desporto foi ali tratado surge o facto de as Olimpíadas de Saint Louis terem ficado para a história como um dos mais vincados exemplos - senão mesmo o mais saliente - de racismo/preconceito racial presente na centenária história das Olimpíadas, ficando até hoje conhecidas como os "Dias Antropológicos". Esta denominação aponta para o facto dos Jogos de 1904 terem servido quase única exclusivamente para entreter os indivíduos de raça branca que se deslocavam à feira internacional, os quais se divertiam a ver os empregados do certame, onde entre os quais figuravam mexicanos, negros, índios, filipinos, ou pigmeus, a competir entre si em caricatas atividades inseridas nas ditas Olimpíadas. Algumas dessas atividades eram na realidade pouco desportivas, diga-se na verdade, já que do ridículo e racista programa olímpico, se é que assim o podemos chamar, havia uma prova que consistia em cuspir tabaco!!! 
Bom, para além desta triste imagem social a história diz-nos que em Saint Louis também se jogou futebol, ou soccer, como lá - EUA - é denominado o desporto rei. Mas tal como outras modalidades - ou pseudo modalidades como as cuspidelas de tabaco - foi de mero entretenimento e demonstração. Tal como nos Jogos de Paris, em 1900, o futebol foi introduzido no cartaz olímpico de forma experimental, não oficial. Três foram as equipas que deram vida ao torneio de futebol de 1904 - que ainda hoje, e à semelhança do torneio de 1900, não é reconhecido pela FIFA -, duas delas representantes de estabelecimentos de ensino norte-americanos, o Christian Brothers College e a Saint Rose Parish (School), e um clube oriundo do Canadá, o Galt Football Club, último emblema este que viria - facilmente - a subir ao lugar mais alto do pódio do torneio olímpico de futebol (episódio este do qual já falámos de maneira mais detalhada numa outra viagem ao passado do belo jogo).

Equipa do Christian Brothers College em 1902, dois anos antes de ter conseguido a prata na Olimpíadas de Saint Louis

Mas se a história da epopeia do Galt FC já reside nas vitrinas virtuais do nosso Museu importa agora ir de encontro a uma nova história extraída do torneio de futebol da caricata terceira edição dos JO, história essa que alude então ao êxito multifacetado obtido por um dos atletas intervenientes no evento. Joseph Lydon, poderá então considerar-se o primeiro atleta a abraçar o sucesso em mais do que uma disciplina desportiva no mesmo evento, neste caso num evento de dimensão global, como são as Olimpíadas. Nascido em Swinford (Irlanda), a 2 de fevereiro de 1878, foi um dos nove filhos do casal James Lydon e Mary Ann Lavi, que em finais do século XIX deixou para trás a sua pátria em direção aos Estados Unidos da América, em busca de uma vida melhor para a sua família. Saint Louis passou então a ser a casa de Joseph Lydon, tendo ai desenvolvido a sua aptidão para a prática desportiva. Joe, como era chamado, desde cedo mostrou dotes em várias modalidades, entre elas o boxe e o futebol, as quais representou no palco olímpico de 1904. Na primeira delas, Joe Lydon - que em Saint Louis competiu em representação dos Estados Unidos da América - alcançou a medalha de bronze, na categoria de pesos-médios (de 57 a 67 quilos), depois de nas meias-finais ter sido derrotado pelo também norte-americano Harry Spanger, derrota que lhe valeu de imediato a referida medalha, uma vez que o torneio desta categoria de pugilismo era constituído por apenas quatro atletas, e a organização decidiu dividir o bronze pelos dois derrotados nas meias-finais. Facto ocorrido a 21 de setembro desse ano.

A medalha de prata que Lydon
conquistou com o Christian Brothers College
Quase dois meses depois - os JO de 1904 foram dos mais longos da história: a abertura ocorreu a 1 de julho e o encerramento a 23 de novembro! - Joe Lydon mostrava aos visitantes da Exposição Universal os seus dotes de futebolista. Do alto dos seus 26 anos ele era um dos nomes principais da equipa Christian Brothers College, constituída na sua essência por alunos daquele estabelecimento de ensino, cuja inexperiência no soccer ficaria bem patente no jogo de abertura do torneio, como demonstra a goleada de 7-0 sofrida ante a experiente - e sobretudo mais habilidosa - equipa do Galt, na época tão só a melhor equipa canadiana. A experiência de Lydon no futebol fazia dele não só a figura principal do frágil combinado estudantil de Saint Louis como também o líder do grupo, já que além de jogador ele era igualmente o treinador. Depois do Galt ter dado no jogo seguinte uma nova prova da sua por demais superioridade - goleou os também estudantes do Saint Rose Parish por 4-0 - e dessa forma ter matematicamente garantido o ouro olímpico, a (medalha de) prata seria disputada pelas duas formações académicas que atuavam em casa. E foram precisos três encontros (!) para decidir quem ficava com a prata e com o bronze, já que depois de dois teimosos empates a zero a negra confirmou o Christian Brothers College como vice-campeão do torneio de futebol, após um triunfo de 2-0. Depois da medalha de bronze no boxe, Lydon arrecadava a medalha de prata no futebol na mesma Olimpíada, tornando-se desta forma no primeiro futebolista a fazê-lo num grande evento desportivo de dimensão global.
Reza a lenda que a façanha olímpica deste irlandês radicado em Terras de Tio Sam poderia ter contornos mais admiráveis caso ele participasse nas provas de atletismo, modalidade em que, segundo a História desportiva de Saint Louis, ele era igualmente um talentoso atleta. A testemunhar este dado estão vários recordes obtidos por si nos anos de 1903 e 1904 em provas nacionais. Números e façanhas que faziam deste homem um dos mais afamados desportistas dos Estados Unidos da América, segundo relatos da própria imprensa da época. Trágico seira o seu desaparecimento em 1937, quando a 20 de agosto desse ano foi encontrado morto em sua casa: com o abdómen perfurado por uma bala disparada por... si próprio.
 
Texto escrito em 14 de janeiro de 2016 no blog: www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

A Taça Latina (parte III)

Cartoon do jornal francês L'Équipe, com
a caracterização das principais estrelas
dos candidatos à conquista
da Taça Latina de 1955
Após um ano de interregno (1954) a Taça Latina voltou em 1955 a integrar o calendário futebolístico dos emblemas do sul do Velho Continente. Paris foi pela segunda vez o palco escolhido para que as estrelas dos campeões de Espanha, Itália, e França, respetivamente, o Real Madrid, o Milan, e o Stade Reims, medissem forças. A estes juntou-se aquela que haveria de ser a equipa sensação desta sexta edição da competição, o Belenenses, conjunto que chegava à capital gaulesa como vice-campeão de Portugal. O campeão nacional luso da temporada 1954/55, o Benfica, ao invés de lutar pela Taça Latina preferiu viajar até ao Brasil para disputar o Torneio Charles Miller, dai o nome dos azuis do Restelo ter figurado num cartaz de autêntico luxo, desde logo marcado pela presença na Cidade de Luz de um conjunto de estrelas do planeta da bola, de verdadeiros magos do futebol, entre outros o italiano Cesare Maldini, os suecos Nils Liedholm, e Gunnar Nordhal, o uruguaio Juan Schiaffino, o francês Raymond Kopa, os espanhóis Gento, Rial e Miguel Muñoz, e o argentino Alfredo Di Stéfano, este último para muitos era já o melhor futebolista do Mundo de então, e é nessa qualidade que chega a Paris debaixo dos holofotes da fama. Porém, nenhuma dessas estrelas brilhou de uma forma tão cintilante quanto a do belenense Matateu, o homem que encantou os parisienses com as suas arrancadas felinas e serpenteantes adornadas com a beleza do seu fortíssimo pontapé canhão

A imagem de Matateu a sair em
do terreno como sobrolho aberto
em consequência da violência madrilena 
Matateu saiu do anonimato para se tornar no jogador sensação do torneio, no mais aplaudido e também no... mais castigado pela dureza dos adversários. Matateu e Belenenses assumiram o papel mais relevante desta edição, pese embora o clube português não tenha ido além do último lugar da classificação final. Ficaram no entanto duas excelentes exibições, tendo a primeira delas ocorrida a 22 de junho diante do poderoso Real Madrid, conjunto que encontrava o Belenenses pela sexta vez na história, sendo que as cinco anteriores haviam sido em caráter amistoso, com o saldo de duas vitórias para cada lado e um empate. E contra todas as previsões iniciais no Parque dos Princípes o Belenenses soltou-se, partiu para cima do poderoso conjunto merengue, atacando sempre com muito perigo a baliza de Alonso. Di Pace e Dimas dispararam mesmo uma bomba cada um deles ao poste da baliza dos campeões de Espanha, e a avalanche azul era de tal maneira intensa que em múltiplos períodos do jogo os belenenses chegaram a ter 10 homens plantados no meio campo madrileno! E o sufoco era maior sempre que Matateu pegava na bola. Um autêntico quebra-cabeças para a defesa dos madrilenos ao longo dos 90 minutos. Perante a impotência em parar as investidas do génio nascido em Moçambique os defensores do Real Madrid só encontaram uma maneira de travar o endiabrado Matateu: recorrendo à falta. Ou melhor, recorrendo a violentas entradas, sendo que numa delas Marquitos colocou o astro moçambicano fora de combate durante sete minutos no sentido deste receber assistência – abriu o sobrolho e teve de ser suturado naquele instante com quatro pontos – fora do retângulo de jogo. O Belenenses jogava e o Real Madrid sofria, mas tal tendência não se viria a verificar no marcador, já que aos 14 minutos Zarragá bateu o guardião José Pereira e fez o primeiro tento da noite. Já no segundo tempo, aos 60 minutos, Payá ampliou a vantagem para os campeões de Espanha, garantindo assim a passagem ao encontro decisivo. Um triunfo falso, injusto, o qual não traduziu o que se passou em campo, conforme traduziu no dia seguinte a imprensa gaulesa. Quanto a Matateu, foi elevado à categoria de herói, de grande estrela do jogo, de tal maneira que o jornal Le Figaro escrevia no dia seguinte que: “Os portugueses tiveram um grande jogador: Matateu, sólido de pernas e senhor de assombrosa agilidade”. Já a revista Miroir Sprint dizia que “Di Stéfano perdeu o sorriso devido ao negro Matateu”. A estrela argentina havia sido eclipsada pelo grande Matateu. 
 
Milan e Stade Reims lutam
pela presença na final
No outro duelo da meia-final houve a necessidade de se realizarem dois prolongamentos para apurar o outro finalista, sendo que ao minuto 148 o Stade Reims de Raymond Kopa e do mestre da tática Albert Batteux fez o 3-2 final com que afastou o Milan do jogo decisivo.
E na partida de apuramentos dos terceiros e quarto lugares o futebol harmonioso do Belenenses voltou a pairar sobre o relvado do Parque dos Princípes diante dos milanistas. Os portugueses jogaram melhor, dominaram, mas... era o Milan que marcava. Aos 16 minutos os italianos abrem o marcador, mas pouco depois o árbitro anula mal um golo aos belenenses, de nada valendo os protestos destes. Aliás, queixas em relação à arbitragem o Belenenses teve de sobra, sobretudo no jogo diante do Real Madrid, onde o juiz fez vista grossa à violência dos madrilenos sobre os lusos. Mas voltando à partida ante os italianos, aos 75 minutos estes aumentam a vantagem, mas volvidos apenas dois minutos aparece o génio de Matateu, que um pouco combalido devido às violentas entradas que havia sofrido na véspera realizou uma exibição um pouco mais contida em relação ao jogo com os espanhóis. Mesmo assim foi aplaudido entusiasticamente pelo público parisiense, sobretudo após o magistral passe que fez a Dimas para este reduzir a desvantagem. Porém, aos 83 minutos o Milan sentenciou o jogo com o 3-1 final, mais um resultado injusto para aquilo o que se verificou no relvado, onde os portugueses foram nitidamente melhores. O último lugar da classificação esteve longe de refletir o que os azuis do Restelo fizeram em campo, muito longe.
Capitães do Stade Reims e do Real Madrid
cumprimentam-se antes da final
No dia 26 de junho Real Madrid e Stade Reims subiram ao relvado da catedral do futebol francês para discutir o título. Héctor Rial seria a grande estrela da noite ao apontar os dois únicos golos do encontro – um em cada metade – a favor dos merengues que assim venciam a sua primeira Taça Latina. Este seria o primeiro encontro entre Real Madrid e Stade Reims no espaço de um ano, já que em 1956, naquele mesmo local, ambos os conjuntos voltariam a encontra-se numa final, desta feita na primeira edição da recém criada Taça dos Clubes Campeões Europeus (TCCE). Este seria na verdade o início de um reinado de sete anos consecutivos dos madrilenos na Europa do futebol, já que à Taça Latina de 1955 o clube presidido então por Don Santiago Bernabéu somou seis TCCE consecutivas até 1960! Foi obra!

Nomes e números:

Meias-finais

Recortes da imprensa a dar eco da epopeia do Belenenses e de Mateteu em Paris
Real Madrid (Espanha) – Belenenses (Portugal): 2-0
Stade Reims (França) – Milan (Itália): 3-2

Jogo de apuramentos dos 3º e 4º lugares

Milan (Itália) – Belenenses (Portugal): 3-1

Final

Real Madrid (Espanha) – Stade Reims (França): 2-0

Data: 26 de junho de 1955
Estádio: Parque dos Princípes, em Paris (França)
Árbitro: Joaquim Campos (Portugal)
Real Madrid: Juan Alonso, Joaquín Navarro, Joaquín Oliva, Ragel Lesmes, Miguel Muñóz, José María Zárraga, Luis Molowny, José Luis Pérez Payá, Alfredo Di Stéfano, Héctor Rial, e Francisco Gento. Treinador: José Villalonga.

Stade Reims: Paul Sinibaldi, Simon Zimny, Robert Jonquet, Raoul Giraudo, Armand Penverne, Robert Siatka, Michel Hidalgo, Léon Glovacki, Raymond Kopa, René Bliard, e Jean Templin. Treinador: Albert Batteux.

Golos: 1-0 (Rial, aos 7m), 2-0 (Rial, aos 69m).
A equipa do Real Madrid que em 55 venceu a sua primeira Taça Latina

1956 e 1957: O eclipse da Taça Latina perante o brilho da recém-criada Taça dos Clubes Campeões Europeus

Na primeira meia-final o Milan bateu o Benfica...
A criação da Taça dos Campeões Europeus (TCE) por intermédio da UEFA na temporada de 1955/56 apressou a queda da Taça Latina. Os campeões nacionais do sul do Velho Continente depressa perceberam que a competição uefeira era bem mais atrativa e competitiva que a Taça Latina, uma prova restrita a quatro participantes, pouco competitiva, em contraposto com a TCE, um certame sonhado para todos os campeões nacionais da Europa, bem mais competitiva, como tal. O desinteresse pela Taça Latina verificou-se desde logo na edição de 1956, quando apenas dois dos quatro campeões nacionais dos países que integravam a competição criada em 1949 mostraram vontade em participar. Nice (França) e Athletic de Bilbao (Espanha) foram os dois campeões nacionais que aceitaram deslocar-se a Milão, a sede da sétima edição do certame. Quanto aos restantes envolvidos, o Benfica representou Portugal em substituição do campeão FC Porto que preferiu concentrar-se na competição da UEFA, ao passo que o Milan representou Itália, já que o campeão transalpino de 55/56, a Fiorentina, decidiu poupar forças para a TCE da época seguinte. 
 
... enquanto que na segunda os bascos do Athletic
despacharam os gauleses do Nice
No dia 29 de junho subiram ao relvado da Arena Civica as equipas do Benfica e do Milan, tendo o conjunto italiano sido muito superior ao português ao longo dos 90 minutos. Sob o olhar de 5000 espetadores o primeiro golo surgiu aos 18 minutos, por intermédio de Mariani, após cruzamento de Frignani. A cinco minutos do intervalo o uruguaio Pepe Schiaffino – campeão do Mundo em 1950 – ampliou a vantagem perante a apatia dos lisboetas. Mário Coluna ainda reduziu a desvantagem pouco depois do início do segundo tempo, mas aquela era uma tarde em que futebol ofensivo do Milan haveria de dar mais frutos. Schiaffino voltou a fazer o gosto ao pé aos 12 minutos, para cinco minutos volvidos Caiado dar uma nova esperança ao Benfica após bater pela segunda vez o guardião Buffon. À passagem da meia hora da etapa complementar Bagnoli fez o 4-2 final que apurou os transaplinos para o encontro decisivo. Na outra meia final o Athletic despachou o Nice por duas bolas a zero.
A franceses e portugueses não restou outra alternativa senão lutar pelo último lugar do pódio, tendo havido a necessidade de se jogar um prolongamento de 30 minutos, já que no final do tempo regulamentar o marcador indicava um teimoso empate a zero bolas. No tempo extra a sorte sorrido aos lisboetas que na sequência de golos de Cavém e José Águas levaram para casa o terceiro lugar. 
 
Fase da final de 1956 entre milanistas e bascos
A final, disputada a 3 de julho foi resolvida nos últimos 10 minutos de jogo, isto porque até então o resultado era de 1-1, sendo que Bagnoli deu vantagem ao Milan aos 21 minutos e Artexte empatou aos 50. Aos 80 Dal Monte desfez o empate, facto que galvanizou ainda mais os italianos que a dois minutos do fim deram a última machadada nas aspirações dos bascos na sequência de um golo de Schiaffino que selou o triunfo milasta. Cinco anos depois a Taça Latina estava de regresso a Itália.
No ano seguinte a prova teve a sua derradeira aparição no calendário internacional. E se Madrid teve a honra de abrir as cerimónias ao receber a primeira edição da Taça Latina em 1957 teve a missão de dizer adeus à competição. Para a despedida a capital espanhola recebeu os quatro campeões nacionais dos países que deram vida à Taça Latina, nomeadamente, o Real Madrid (Espanha), o Milan (Itália), o Benfica (Portugal), e o Saint-Étienne (França). A final jogou-se entre as duas equipas ibéricas, tendo um lance genial do... génio Alfredo Di Stéfano decidido a contenda a favor dos madrilenos, que juntavam a Taça Latina à TCE conquistada nesse ano de 1957. E assim caia o pano sobre uma competição que apesar de ter tido vida curta conheceu múltiplos momentos de magia futebolística.

Nomes e números (edição de 1956):

Meias-finais

Milan (Itália) – Benfica (Portugal): 4-2
Athletic Bilbao (Espanha) – Nice (França): 2-0

Jogo de atribuição dos 3º e 4º lugares

Benfica (Portugal) – Nice (França): 2-1

Final

Milan (Itália) – Athletic Bilbao (Espanha): 3-1

Data: 3 de julho de 1956
Estádio: Arena Civica, em Milão (Itália)
Árbitro: Maurice Guigue (França)

Milan: Lorenzo Buffon, Eros Fassetta, Francesco Zagatti, Nils Liedholm, Cesare Maldini, Luigi Radice, Amos Mariani, Osvaldo Bagnoli, Giorgio Dal Monte, Juan Alberto Schiaffino, e Amleto Frignani. Treinador: Héctor Puricelli.

Athletic Bilbao: Carmelo Cedrún, José Orúe, Trapeo, Mauri Ugartemendia, Jesús Garay, José María Maguregui, José Artetxe, Felix Markaida, Eneko Arieta, Ignacio Uribe, e Piru Gaínza. Treinador: Ferdinand Daucík.

Golos: 1-0 (Bagnoli, ao 21m), 1-1 (Artexte, aos 50m), 2-1 (Dal Monte, aos 80m), 3-1 (Schiaffino, aos 88m).
O onze do Milan que venceu o Athletic de Bilbao na final de 1956

Nomes e números (edição de 1957):

Meias-finais

Benfica (Portugal) – Saint-Étienne (França): 1-0
Real Madrid (Espanha) – Milan (Itália): 5-1

Jogo de atribuição dos 3º e 4º lugares

Milan (Itália) – Saint-Étienne (França): 4-3
Final

Real Madrid (Espanha) – Benfica (Portugal): 1-0

Data: 23 de junho de 1957
Estádio: Santiago Bernabéu, em Madrid (Espanha)
Árbitro: Marcel Lequesne (França)

Real Madrid: Juan Alonso, Manuel Torres, Marquitos, Rafael Lesmes, Miguel Muñóz, Antonio Ruiz Cervilla, Joseito, Raymond Kopa, Alfredo Di Stéfano, Héctor Rial, e Francisco Gento. Treinador: José Villalonga.

Benfica: José Bastos, Francisco Calado, Manuel Francisco Serra, Ângelo, Zézinho, Alfredo, Francisco Palmeiro, Mário Coluna, José Águas, Salvador Martins, e Domiciano Cavém. Treinador: Otto Glória.

Golo: 1-0 (Di Stéfano, aos 50m).
Real Madrid posa para a eternidade com a última Taça Latina da história

A Taça Latina (parte II)

Gre-No-Li, o trio sueco que conduziu o Milan
à glória na terceira edição da Taça Latina
Depois de Espanha e Portugal terem acolhido as duas primeiras edições da Taça Latina foi a vez de Itália abrir as portas a uma competição que havia já subido ao patamar internacional da fama futebolística. Turim e Milão foram as duas cidades que sedearam um certame que na sua terceira edição contou com os campeões nacionais de Itália, Portugal, e Espanha, respetivamente o Milan, o Sporting, e o Atlético de Madrid. Os campeões de França, o Nice, não marcaram presença, tendo a nação gaulesa sido representada pelo Lille. A primeira meia-final teve lugar em Milão, a 20 de junho, tendo o Estádio de San Siro como palco de um confronto que colocou frente a frente a turma da casa, o Milan, e o Atlético de Madrid. Milanistas em cuja formação brilhava um trio de craques nórdicos, três jogadores que marcaram uma geração – uma grande geração, há que sublinhá-lo – do futebol da Suécia, o país de onde eram originários Gunnar Gren, Gunnar Nordhal, e Nils Liedholm, os três artistas em questão. A sintonia entre os três era perfeita, tendo sido traduzida em épicos momentos futebolísticos, tanto ao serviço da seleção sueca como do Milan, emblema onde o trio Gre-No-Li – como seria batizado – encantou os tiffosi ao longo de seis temporadas. E na meia-final ante o Atlético os três suecos foram peças fundamentais para a conquista de um triunfo expressivo por parte do Milan, que inaugurou o marcador à passagem do minuto 18 por intermédio de Renosto. Quatro minutos volvidos foi a vez de Nordhal dilatar o marcador. No segundo tempo os campeões de Itália, que como curiosidade neste jogo vestiram uma camisola azul, contrariando assim a tradicional maglia rossenera – camisola negra e encarnada –, chegaram ao 3-0 de novo por intermédio de Renosto, aos 53 minutos. Com o jogo praticamente ganho o Milan abrandou e permitiu a Carlsson reduzir – aos 70 minutos – e dar alguma esperança aos espanhóis. Porém, e de modo a não sofrer uma desilusão, os italianos voltaram à carga, e aos 74 minutos Renosto fez o seu terceiro golo da tarde, selando assim o marcador em 4-1 a favor da sua equipa que assim avançava para a final.

O "violino" Vasques
No dia seguinte, no Stadio Comunale de Turim, Sporting e Lille deram vida a uma partida que terminou empatada por falta de... iluminação! No final do tempo regulamentar as equipas empatavam a uma bola – o tento dos portugueses foi marcado pelo violino Vasques, aos 56 minutos – sendo que com a noite a cair sobre Turim e o facto de o estádio não ter iluminação artificial fez com que a organização agendasse uma partida de desempate para o dia seguinte. Jogo este onde a festa do golo foi uma constante. Por uma dezena de ocasiões a bola beijou as malhas das duas balizas, seis por intermédio dos franceses e quatro pelos portugueses, que assim eram afastados da final. Vasques foi mais uma vez o leão em destaque, já que três dos quatro tentos sportinguistas foram da sua autoria, sendo o outro apontado por Caldeira.
Treinado pelo inglês Randolph Galloway o Sporting chegou a Itália em cima do encontro com o Lille, facto que a juntar ao aspeto de ter de disputar com os franceses dois jogos no período de 24 horas colocou os leões fisicamente... de rastos. O cansaço físico foi pois o principal adversário do Sporting na partida de apuramento dos 3º e 4º lugares diante dos madrilenos, ocorrida em San Siro, diante de 10.000 espetadores e apitada pelo italiano Giuseppe Carpani. Travassos ainda disfarçou o desgaste leonino quando aos oito minutos bateu Dauder e abriu o marcador. Sol de pouca dura, já que cinco minutos passados Carlsson repôs a igualdade com que atingiu o intervalo. No segundo tempo os portugueses caíram de produção, facto aproveitado pelos campeões de Espanha – orientados pelo mago Helenio Herrera – para fazer dois golos na reta final da partida que lhes concederam o lugar mais baixo do pódio.

O trio de arbitragem com os capitães do Milan e do Atlético de Madrid
antes do pontapé de saída da meia-final
O mesmo San Siro foi a 24 de junho o palco da grande final da prova, uma final sem grande história, já que o emblema da casa, o Milan atropelou autenticamente um Lille que pouca ou nenhuma resistência ofereceu ao longo dos 90 minutos. Ao intervalo a vantagem (3-0) milanista pecava por escassa, dado o caudal ofensivo que os pupilos de Lajos Czeizler evidenciavam. Nordhal, aos 32 e 37 minutos, e Burino, aos 40 minutos, foram os marcadores do Milan. Na segunda metade os italianos mantiveram a toada ofensiva, quase asfixiante sobre a baliza de Pierre Angel, postura premiada com a obtenção de mais dois golos – um por intermédio de Gunnar Nordhal e outro de Annovazzi. Com o apito final do suíço Eugen Scherz chegou a natural explosão de alegria dos tiffosi que lotaram as bancadas de San Siro. O Milan vencia assim de forma inquestionável a primeira das suas duas Taças Latinas.

Nomes e números:

Foto de jornal que retrata o primeiro golo milanista diante dos madrilenos
Meias-finais

Milan (Itália) – Atlético de Madrid (Espanha): 4-1
Sporting (Portugal) – Lille (França): 1-1/4-6 (desempate)

Jogo de atribuição dos 3º e 4º lugares

Atlético de Madrid (Espanha) – Sporting (Portugal): 3-1

Final

Milan (Itália) – Lille (França): 5-0

Data: 24 de junho de 1951
Estádio: San Siro, em Milão (Itália)
Árbitro: Eugen Scherz (Suíça)

Milan: Lorenzo Buffon, Arturo Silvestri, Andrea Bonomi, Carlo Annovazzi, Omero Tognon, Benigno De Grandi, Renzo Burini, Gunnar Gren, Gunnar Nordahl, Nils Liedholm, e Albano Vicariotto. Treinador: Lajos Czeizler.

Lille: Pierre Angel, Jacques Van Cappelen, Guy Poitevin, Albert Dubreucq, Marceau Somerlinck, Cor van der Hart, Erik Kuld Jensen, Bolek Tempowski, André Strappe, Jean Vincent, e Jean Lechantre. Treinador: André Cheuva.

Golos: 1-0 (Nordhal, aos 32m), 2-0 (Burini, aos 40m), 3-0 (Nordhal, aos 37m), 4-0 (Nordhal, aos 67m), 5-0 (Annovazzi, aos 70m).
A famosa squadra do Milan que triunfou na Taça Latina de 1951

1952: Visca el Barça!

Fase do jogo entre Barça e Juve
Dando seguimento ao sistema de rotatividade no que concerne ao acolhimento da Taça Latina por parte das quatro nações que integravam a competição, em 1952 foi a vez da França, e mais em concreto a deslumbrante cidade de Paris, servir de palco para receber os campeões nacionais de Itália, Portugal, Espanha, e claro, França, respetivamente, a Juventus, o Sporting, o Barcelona, e o Nice. Seria precisamente esta última equipa abrir as cerimónias, juntamente com os campeões de Portugal, no dia 25 de junho. A particularidade nesta quarta edição prendeu-se com o facto de que pela primeira vez se jogou à noite, com iluminação artificial. Assim foi pois desenrolado o duelo entre franceses e portugueses no Parque dos Príncipes, o qual teve início praticamente com o golo dos rapazes da Côte d' Azur, logo ao minuto oito, por intermédio de Carré. A iluminação parece ter encadeado os jogadores do Sporting que ao intervalo perdiam por 3-0! Na segunda parte os leões ainda reagiram, e no espaço de três minutos – entre os 62 e os 64 minutos – reduziram a desvantagem por intermédio de Veríssimo e Albano, mas logo depois Carré aplicava o golpe de morte ao fazer o 4-2 final.

O cartaz da grande final
No dia seguinte foi a vez do Barça e da Juve subirem ao relvado da catedral do futebol gaulês, para protagonizarem um encontro emotivo e cheio de golos. O Barcelona entrou ao ataque e logo ao minuto três Manchón fez o primeiro da noite, para à passagem dos 20 minutos Basora ampliar a vantagem catalã. À beira do descanso o inspirado Boniperti reduziu a desvantagem, mas no reatamento o mágico húngaro Kubala voltou a distanciar o Barça no marcador. O ataque dos campeões de Espanha estava endiabrado, e quatro minutos volvidos Basora fez o 4-1. A Vecchia Signora não baixou os braços e de novo Boniperti fez o gosto ao pé a dez minutos do apito final do francês Vincenti. Dois minutos antes do segundo tento transalpino Hansen desperdiçou uma grande penalidade a favor da Juve, ao permitir a defesa do mítico guardião Ramallets. 4-2 a favor do Barça que assim lograva atingir a sua segunda final da Taça Latina.
No encontro de atribuição dos terceiro e quarto lugares o Sporting voltou a andar à deriva no relvado do Parque dos Princípes. Com apenas 15 minutos de jogo disputados os lisboetas já perdiam por 3-0 (!) ante a Juventus – com golos de Boniperti (5m), Hansen (7m), e Vivolo (15m). Ainda antes do descanso João Martins – o tal que alguns anos mais tarde viria a apontar o primeiro golo da história das competições europeias organizadas pela UEFA – reduziu, e já na segunda parte o mesmo jogador fez de novo o gosto ao pé para selar o resultado final em 2-3. Treinados pela antiga lenda do futebol húngaro Gyorgy Sarosi – que havia brilhado em diversas edições da Taça Mitropa ao serviço do Ferencvaros – a Juve levava para casa o prémio de consolação, o terceiro lugar.

A loucura na chegada dos campeões à Catalunha
No dia 29 de junho e sob a arbitragem do português Rui dos Santos os holofotes do Parque dos Princípes centraram-se nas estrelas do Barcelona e do Nice, os dois finalistas da quarta edição da Taça Latina. Assistiu-se a uma partida equilibrada, em que o nulo teimava em não sair do marcador, um jogo em que os catalães encontraram pela frente uma equipa que contrariamente ao que havia feito a Juve na meia-final se opôs com vigor às investidas do perigoso ataque dos campeões de Espanha. Foi preciso esperar até ao minuto 79, altura em que o capitão César apontou o único golo do encontro a favor do Barça que assim arrecadava a sua segunda coroa de glória continental. Esta foi aliás uma temporada muito especial para o Barcelona, eternizada como a época das “5 Copas”. Cinco vitórias noutras tantas competições disputadas, um saldo que conferiu a imortalidade à equipa treinada pelo checoslovaco Ferdinand Daucik. À Taça Latina juntavam-se os títulos de campeão de Espanha, o de vencedor da Copa del Rey (Taça de Espanha), da Copa Eva Duarte (antecessora da atual supertaça espanhola), e da Copa Martini & Rossi (na época um torneio muito afamado em terras espanholas). Rezam as crónicas que a viagem dos catalães de Paris até Barcelona foi feita em clima de apoteose, com uma verdadeira caravana de carros e de motos a acompanhar os novos campeões da... Europa. A loucursa subiu de tom assim que a equipa chegou à Cidade Condal, onde a esperavam milhares de adeptos, orgulhosos dos seus rapazes. Com a taça nas mãos o capitão César subiu até à varanda do ayuntamiento – câmara municipal – para partilhar a doce conquista com o povo catalão.

Nomes e números:

Meias-finais

Nice (França) – Sporting (Portugal): 4-2
Barcelona (Espanha) – Juventus (Itália): 4-2

Jogo de atribuição dos 3º e 4º lugares

Juventus (Itália) – Sporting (Portugal): 3-2

Final

Barcelona (Espanha) – Nice (França): 1-0

Data: 29 de junho de 1952
Estádio: Parque dos Princípes, em Paris (França)
Árbitro: Rui dos Santos (Portugal)

Barcelona: Antoni Ramallets, Cheché Martín, Gustavo Biosca, Josep Seguer, Andreu Bosch Pujol, Jaime Escudero, Estanislao Basora, César Rodríguez, Ladislao Kubala, Emilio Aldecoa, e Eduardo Manchón. Treinador: Ferdinand Daucik.

Nice: Marcel Domingo, Mohamed Firoud, Alphonse Martinez, Pancho Gonzales, Guy Poitevin, Jean Belver, Jean Courteaux, Victor Nurenberg, Désiré Carré, Antoine Bonifaci, e Abdelaziz Ben Tifour. Treinador: Numa Andoire.

Golo: 1-0 (César, aos 79m).
Foi de camisola branca (ironia do destino) que o Barcelona somou
o seu segundo triunfo na Taça Latina

1953: Triunfo do futebol champanhe

Albert Batteux assiste do banco à exibição
da sua obra de arte
França, nação aristocrata, repleta de glamour, apaixonada pelas artes, e que olhou - durante várias décadas - com indiferença, e algum desprezo, o futebol, modalidade tão popular noutros pontos do globo mas que em terras gaulesas demorou a criar raízes. Foi preciso esperar até à década de 50 para ver o futebol despertar nos franceses uma ponta de curiosidade e ao mesmo tempo de fascínio! Tudo graças a Albert Batteux, uma ilustre figura considerada como o pai do futebol francês. O homem que lançou as sementes das gerações vencedoras do futebol gaulês, de Platini a Zidane, o criador de um estilo de jogo tecnicamente elegante eternizado como... o futebol champanhe. Foi precisamente este o estilo que imperou na quinta edição da Taça Latina, que pela segunda vez decorreu em solo português, desta feita, e para além de Lisboa, também na cidade do Porto. A capital engalanou-se no dia 4 de junho de 1953 para ver o seu Sporting – campeão nacional em título – iniciar uma campanha que se sonhava ser de glória. Na verdade, toda a nação sportinguista suspirava pelo título que faltava conquistar aos leões, precisamente a prova internacional. No entanto, no Estádio Nacional as coisas não correram de feição aos pupilos de Randolph Galloway na meia-final diante do Milan, equipa que marcou presença no evento em substituição do campeão italiano de então, o Inter. A partida não começou da melhor forma para os portugueses, os quais cedo se viram privados de Joaquim Pacheco que teve de abandonar o campo por lesão. Ora, como na altura não eram permitidas substituições os lisboetas tiveram de jogar o resto do encontro com menos um jogador. Mesmo assim, Vasques, a um minuto do intervalo, inaugurou o marcador, que seria igualado aos 66 minutos por intermédio de um dos três suecos dos milanistas, neste caso Gunnar Nordhal. A jogar com mais um elemento os italianos intensificaram a pressão sobre os rapazes de Galloway e volvidos quatro minutos o mesmo Nordhal colocaria o Milan na liderança do marcador. Oito minutos depois o guardião Carlos Gomes tornou-se herói ao defender uma grande penalidade apontada por Nils Liedholm, mantendo desta forma o Sporting vivo em campo. Este lance galvanizou os portugueses, e eis que a um minuto dos 90 João Martins fez explodir de alegria as bancadas ao restabelecer a igualdade. Perante isto houve então a necessidade de um prolongamento, período este onde os locais começaram melhor, já que o endiabrado Martins voltou a festejar um golo. Porém, a quatro minutos do término do tempo extra, e quando os leões já pensavam na final, eis que Liedholm aparece em off-side para... fazer o empate. De nada valeram os protestos leoninos, que assim eram obrigados a um novo prolongamento, este mais curto, de 10 minutos. E no derradeiro minuto deste segundo tempo extra Frignani despejou um verdadeiro balde de água gelada sobre os lisboetas ao fazer o golo do triunfo milanista, o 4-3 final.

O Napoleão do futebol francês:
Raymond Kopa
Na outra meia-final, disputada no Porto, eis que surgiu o tal futebol champanhe protagonizado pelos campeões de França, o Stade Reims. Idealizado por Albert Batteux este estilo futebolístico encantou a Europa graças à sua beleza técnico-tática. No retângulo de jogo onze monsieurs davam vida ao inovador esquema de Batteux, mas um particular destacava-se dos demais, Raymond Kopa, de seu nome. O Napoleão do futebol gaulês, como ficou eternizado na história, era a grande estrela daquele pequeno clube que conquistou os franceses – e o resto do Velho Continente – na década de 50. Ele foi um dos principais responsáveis pela passagem do Reims à final da Taça Latina de 1953 após bater o Valência – representante espanhol na ausência do campeão Barcelona – por 2-1.
Valência que no jogo de atribuição dos terceiro e quartos lugares não teve garras para travar um aguerrido Sporting, que de orgulho ferido esmagou os espanhóis por 4-1, com golos de Vasques e Martins, cada um deles com dois tentos na conta pessoal.
A final, arbitrada pelo portuense Viera da Costa, foi mais um recital de bem jogar do Stade Reims. Logo aos 31 minutos Kopa abriu o marcador perante um Milan a quem nem o talentoso trio de suecos – Gunnar Gren, Gunnar Nordhal, e Nils Liedholm – valeria para evitar uma concludente derrota por 3-0. Méano, aos 53 minutos, e de novo Raymond Kopa, à passagem do minuto 75, derão expressão ao merecido triunfo do... futebol champanhe do Stade Reims.

Números e nomes:

Meias-finais

Sporting (Portugal) – Milan (Itália): 3-4
Stade Reims (França) – Valência (Espanha): 2-1

Jogo de atribuição dos terceiro e quarto lugares

Sporting (Portugal) – Valência (Espanha): 4-1

Final

Stade Reims (França) – Milan (Itália): 3-0

Data: 7 de junho de 1953
Árbitro: Vieira da Costa (Portugal)
Estádio: Nacional, em Lisboa (Portugal)

Stade Reims: Paul Sinibaldi, Simon Zimny, Roger Marche, Armand Penverne, Robert Jonquet, Raymond Cicci, Abraham Appel, Léon Glovacki, Raymond Kopa, Jean Templin, e Francis Méano: Treinador: Albert Batteux.

Milan: Lorenzo Buffon, Arturo Silvestri, Francesco Zagatti, Carlo Annovazzi, Omero Tognon, Celestino Celio, Renzo Burini, Gunnar Gren, Gunnar Nordahl, Nils Liedholm, e Amleto Frignani. Treinador: Mario Sperone.

Golos: 1-0 (Kopa, aos 31m), 2-0 (Méano, aos 53m), 3-0 (Kopa, aos 75m).
Stade Reims posa com a Taça Latina de 53 

DEDICADO À MEMÓRIA DO MEU PAI...

A Taça Latina (parte I)

A Taça Latina
O sucesso obtido pela Taça Mitropa na década de 30 do século passado reacendeu o interesse dos povos do sul da Europa no sentido de erguer uma competição internacional ao nível de clubes. A primeira tentativa surgiu mesmo na época em que a competição idealizada pelo austríaco Hugo Meisl vivia a sua era dourada (1927-1939). Tentativa essa que foi feita pelo espanhol Alberto Fernàndez, um jornalista que na altura apresentou a ideia de criar uma competição extra-muros que agregasse a si as seleções do sul do Velho Continente, proposta que na época foi recebida com profundo desinteresse pelas federações, acabando por ficar metida na gaveta por mais de duas décadas. Altura em que outro espanhol voltaria à carga, agora com argumentos de maior peso, desde logo porque na memória da cada vez mais numerosa família futebolística europeia estava o êxito que havia sido gerado em torno da Taça Mitropa. Foi pois olhando para o sucesso angariado pela lendária competição da Europa Central que o presidente da Real Frederación Española de Fútbol, Alberto Muñoz Calero, colocou em cima da mesa o projeto de criar uma grande competição que reunisse os campeões nacionais de Espanha, França, Itália, e Portugal. Competição essa que seria então batizada de Taça Latina. Abra-se no entanto aqui uma parêntese para referir que muitos historiadores desportivos defendem que a ideia de criar a competição nasceu em Portugal, e cujo progenitor da ideia seria o histórico jogador, dirigente e jornalista Ribeiro dos Reis, figura que terá proposto aos jornais Os Sports e A Bola a criação de um torneio anual disputado entre os campeões dos dois países ibéricos – Portugal e Espanha.
São pois diferentes as versões sobre o nascimento de uma prova que iria ver a luz do dia em 1949, tendo ficado definido pelo comité organizador – numa reunião realizada em Barcelona a 2 de janeiro de 1949 – que o torneio seria disputado num único país e que o formato do mesmo seria composto por um sistema de eliminatórias, ou seja, meias-finais, jogo de apuramento dos 3º e 4º lugares, e final.

Alberto Muñoz Calero
Madrid e Barcelona foram então as cidades escolhidas para dar vida à 1ª edição da Taça Latina, que foi integrada pelo Barcelona, Stade Reims, Sporting, e Torino, campeões nacionais dos seus respetivos países. Os italianos surgiam em Espanha vestidos de luto, em consequência da tragédia ocorrida a 4 de maio desse ano de 1949, altura em que depois de um jogo amigável realizado em Lisboa, diante do Benfica, o avião que transportava a comitiva do Toro de regresso a casa embateu contra uma das torres da Basílica de Superga, vitimando todos os que seguiam a bordo. A tragédia chocou o Mundo, em especial o Planeta da Bola, já que aquele acidente fazia desaparecer a mais talentosa equipa italiana da época, e uma das mais fortes do Velho Continente, eternizada como Il Grande Torino. Órfão dos seus maiores craques foi com uma equipa constituída à base de jovens jogadores oriundos dos escalões de formação – com uma média de 17 anos de idade – que o Torino se apresentou em campo no dia 26 de junho, no Estádio Metropolitano, na capital espanhola, para defrontar os campeões de Portugal, o Sporting. Equipa esta onde brilhava um famoso quinteto avançado, conhecido como os Cinco Violinos. Fernando Peyroteo, Jesus Correia, Albano, Vasques, e Travassos formavam então o famoso quinteto que atuando no setor ofensivo do terreno de jogo ofereceu ao clube de Alvalade a glória na sequência de centenas de golos, saborosos títulos, e acima de tudo momentos deslumbrantes de futebol baseados num exímio entrosamento aliado a um elevado grau de qualidade futebolística de todos os seus elementos nunca dantes visto no desporto rei. Quem teve o privilégio de assistir aos recitais desta orquestra afirmava não ter dúvidas em rotular este como um dos períodos mais dourados do futebol português, e do Sporting em particular, lamentando apenas que estes cinco artistas não tenham tido a oportunidade de atuar juntos mais do que as três épocas em que fizeram furor de leão ao peito.

O famoso quinteto avançado do Sporting eternizado como os Cinco Violinos

Em Madrid os lisboetas encontraram um público hostil, que durante os 90 minutos mostrou uma vincada simpatia pelos jovens jogadores italianos, em claro sinal de solidariedade pelo que havia acontecido meses antes. Transalpinos que apesar da sua inexperiência venderam cara a derrota frente aos portugueses. 3-1 foi o resultado final deste duelo, sendo de destacar a exibição individual de Fernando Peyroteo, o temível matador dos leões, autor dos três golos da sua equipa, apontados aos 15, 26, e 48 minutos. Este último foi mesmo o último golo de Peyroteo com a camisola leonina, já que na temporada seguinte o famoso jogador decidiu deixar o clube após 12 gloriosas temporadas. 
 
Estanislao Basora
Na outra partida das meias-finais, disputada no Camp de Les Corts, em Barcelona, a equipa da casa não teve dificuldades em despachar os campeões de França, o Stade Reims, por 5-0. O resultado traduziu a superioridade evindenciada pelos catalães ao longo dos 90 minutos, sendo que ao intervalo o resultado até pecava por ser curto (2-0) em virtude da avalanche ofensiva que até então se havia verificado da parte dos campeões de Espanha. Seguer, aos seis minutos abriu, de cabeça, o marcador, e Nicolau, aos 25 minutos, aproveitou um erro do guardião Paul Sinibaldi para ampliar o score. Na etapa complementar César fez o gosto ao pé por duas ocasiões no espaço de 10 minutos e desde logo sentenciou a questão. Tempo houve ainda para os adeptos catalães vibrarem com mais um golo da sua equipa, da autoria de Canal, após um passe magistral de Seguer. No final do encontro o treinador dos franceses, Henri Roessier, lamentou o pesado resultado averbado pela sua equipa: «o 4-1 tinha sido melhor do que o 5-0». disse.
Uma semana mais tarde disputaram-se os dois últimos jogos desta primeira edição da Taça Latina. O primeiro colocou frente a frente em Les Corts (Barcelona) os derrotados das meias-finais, o Torino e o Stade Reims. Tal como haviam feito diante do Sporting os jovens italianos lutaram com bravura, apesar da sua inexperiência, postura que seria premiada com um triunfo por 5-3, garantindo assim o terceiro lugar.

O jornal A Marca titulando
o triunfo dos catalães
Em Madrid o Estádio de Chamartin acolheu 30.000 espetadores – onde entre os quais se destacou a presença do presidente da FIFA, Jules Rimet – que ali acorreram para assistir à grande final da competição. O Barça enfrentava aquela que muitos dos especialistas em matéria futebolística apontavam como a grande favorita ao triunfo final, a equipa do Sporting. A magnífica exibição coletiva dos leões – orientados pelo mestre Cândido de Oliveira – uma semana antes diante do Torino – sobretudo do seu quinteto ofensivo – havia deixado os espanhóis literalmente de boca aberta! Porém, e contrariamente ao sucedido ante o Torino, os portugueses encontraram muitas dificuldades para travar o ímpeto ofensivo do Barcelona. E não fosse uma soberba performance do guarda-redes Azevedo o Sporting teria saído de Chamartín humilhado. Logo aos 10 minutos do encontro Seguer abriu o marcador para os catalães, dando o melhor seguimento a um cruzamento de Basora. À passagem do minuto 26 Jesus Correia empatou a contenda após passe de Albano, repondo a igualdade com que se atingiu o descanso. Aos quatro minutos da segunda parte Basora recolocou o Barça na frente do marcador, o qual até final não mais se iria alterar, pese embora Jesus Correia tenha, já perto do final, desperdiçado uma ocasião soberana para voltar a igualar o encontro.
Na verdade, também o Barcelona teve algumas oportunidades para ampliar a sua vantagem, esbarrando sempre na verdadeira muralha em que se transformou Azevedo. De tal maneira que no rescaldo do jogo o herói da final, Basora, disse: «Azevedo tornou possível o equilíbrio de jogo a que o Sporting logrou chegar, mercê da confiança que as suas magníficas defesas lhe deu. Com outro guarda-redes, os portugueses ter-se-iam afundado na primeira meia-hora». Mesmo tendo conquistado o seu primeiro título internacional em casa do velho e eterno inimigo Real Madrid os jogadores do Barcelona seriam aplaudidos de pé pelo público, enquanto que os portugueses foram recebidos em Lisboa em apoteose pelos seus adeptos.

Nomes e números:

Meias-finais

Sporting (Portugal) – Torino (Itália): 3-1
Barcelona (Espanha) – Stade Reims (França): 5-0

Jogo de atribuição dos 3º e 4º lugares

Torino (Itália) – Stade Reims (França): 5-3

O onze do Barcelona que em Madrid conquistou a 1ª edição da Taça Latina
 
Final

Barcelona (Espanha) – Sporting (Portugal): 2-1

Data: 3 de julho de 1949
Árbitro: Victor Sdez (França)
Estádio: Chamartin, em Madrid (Espanha)

Barcelona: Juan Zambudio Velasco, Francisco Calvet, Curta, Calo, Gonzalvo III, Gonzalvo II, Estanislao Basora, Josep Seguer, Josep Canal Viñas, César Rodríguez, e Alfonso Navarro. Treinador: Enrique Fernández Viola.

Sporting: João Azevedo, Octávio Barrosa, Manecas, Juvenal, Carlos Canário, Veríssimo, Jesus Correia, Manuel Vasques, Fernando Peyroteo, José Travassos, e Albano. Treinador: Cândido de Oliveira.

Golos: 1-0 (Seguer, aos 10m), 1-1 (Jesus Correia, aos 27m), 2-1 (Basora, aos 59m).

1950: Benfica vence a longa maratona de Lisboa

Rogério Pipi ergue
na tribuna do Estádio Nacional
a Taça Latina
Em 1950 foi a vez de Portugal, e a cidade de Lisboa, mais concretamente, receber a competição internacional. A capital lusa engalanou-se para receber os campeões nacionais de França, Espanha, e Portugal, respetivamente, o Bordéus, o Atlético de Madrid, e o Benfica, equipas às quais se juntou a Lazio, conjunto italiano que viajou para território luso em substituição do campeão de Itália de 49/50, a Juventus, que declinou o convite da organização. O Estádio Nacional, inaugurado seis anos antes, foi o palco escolhido para o desenrolar do certame. De referir que esta segunda edição ficou marcada pelo facto de alguns dos melhores jogadores dos combinados participantes, mais concretamente os das equipas espanhola e italiana, terem estado ausentes, uma vez que na mesma altura decorria do outro lado do Atlântico – no Brasil, mais precisamente – o Campeonato do Mundo da FIFA. Perante este facto a organização da Taça Latina abriu um precedente ao permitir que as equipas mais despidas de craques se reforçassem com jogadores de outros conjuntos.
E no dia 10 de junho, feriado em Portugal, as equipas do Benfica e da Lazio de Roma sobem ao bem tratado relvado da "sala de visitas" do futebol lusitano, o Estádio Nacional, para dar o pontapé de saída da 2ª edição da competição. Nesse dia, e mercê de uma magnífica exibição, os benfiquistas batem a squadra transalpina por expressivos 3-0, com golos de Carmona, Arsénio, e Rogério, todos apontados durante os primeiros 45 minutos. Vitória indiscutível, escreveram os analistas desportivos da época, ante uma Lazio visivelmente afetada pela ausência de alguns dos seus melhores atletas, que, como já referimos, se encontravam no Brasil ao serviço da seleção de Itália. Indiscutível seria também o triunfo dos franceses do Bordéus ante os espanhóis do Atlético de Madrid, por 4-2, duelo ocorrido nesse mesmo dia 10 de junho.
Benfica e Bordéus lutam pela posse do esférico na final de 50
 
Ao contrário do que se havia verificado na edição de estreia o jogo de atribuição dos terceiro e quarto lugares e a final foram disputados no dia seguinte!!! Esse dia 11 de junho começava com os madrilenos do Atlético a levarem para casa o 3º lugar depois de vencerem uma desoladora Lazio por 2-1.

E eis que finalmente Benfica e Bordéus entraram em cena para travar a primeira metade de uma batalha que haveria de ter contornos emocionantes. Os portugueses chegaram facilmente ao 2-0 nos instantes iniciais da contenda, graças à pontaria certeira de Arsénio e Corona, respetivamente aos 4 e 17 minutos. Porém, do outro lado da barricada estava um conjunto de fino recorte técnico que ainda antes do intervalo daria a volta ao marcador, graças a um bis de André Doye e a um remate certeiro de René Persillon a dois minutos dos 45. Seria então na condição de derrotado (2-3) que o Benfica voltaria ao campo para disputar a etapa final da empolgante batalha. Pegando nas rédeas do encontro os benfiquistas dominaram a seu bel-prazer os segundos 45 minutos, acabando por chegar ao justo golo do empate por intermédio de Rogério à passagem do 55. Face a esta igualdade as duas equipas tiveram de enfrentar um prolongamento de 30 minutos, tempo extra onde nada de novo surgiu, pelo que a organização agendou uma finalíssima para uma semana mais tarde.

A alegria dos benfiquistas
contrasta com
a tristeza de um francês
18 de junho foi então o dia do novo confronto, tendo o Estádio Nacional registado uma afluência de 20 000 espetadores, um número estranho para aqueles dias, já que a média de assistências do campeonato português não ultrapassava os 5 000 espetadores. Mas talvez "enfeitiçados" pelo espetáculo que Benfica e Bordéus haviam proporcionado uma semana estes 20 000 entusiastas terão pensado que as duas equipas pudessem prolongar aquela magia futebolística por mais 90 minutos... no mínimo. E não se enganariam, muito pelo contrário. Os lusos entraram melhor numa finalíssima que iria ficar gravada na Grande Enciclopédia do Futebol como um dos jogos mais dramáticos da história, enviando uma bola aos ferros da baliza francesa. Não marcaram os encarnados... marcaram os azuis de Bordéus quando o relógio marcava apenas 11 minutos de jogo, por intermédio de Kargu. A perder, os pupilos de Ted Smith partiram para cima do Bordéus com todas as suas forças e alma, valendo ao emblema gaulês uma soberba exibição do guardião do seu templo, o guarda-redes Astresses. O Benfica ia tentando sem êxito chegar ao golo, e além dos franceses enfrentava agora outro rival de peso, o relógio, que galgava a linha do tempo a um ritmo alucinante. Perante este cenário o público afeto ao Benfica ia perdendo a esperança de ver o seu clube triunfar na (já) prestigiada competição internacional... e quando muitos, com um ar cabisbaixo, já se encaminhavam para fora da catedral do futebol lusitano, Arsénio faz o golo do empate aos 89 minutos, provocando uma imediata explosão de alegria nos que teimaram em ficar sentados nas bancadas de pedra do Jamor até ao apito final. 
A equipa do Benfica que no relvado do Estádio Nacional conquistou o primeiro título internacional para o futebol português
 
O relógio marcava 90 minutos! Um golo apontado em cima da linha de meta que levaria as equipas para mais um prolongamento. 30 minutos onde nada se alterou, sendo que segundo os regulamentos da prova teria de ser jogado em seguida um pequeno prolongamento de 10 minutos para se encontrar o vencedor. Teimosamente as equipas permaneceriam empatadas nestes 10 minutos suplementares, pelo que tiveram se de jogar... mais 10 minutos! Também durante este novo período nada de relevante ocorreu no relvado do Jamor que aos poucos ia deixando de ser iluminado pelo sol. A noite espreitava sobre Lisboa numa época em que o principal estádio português não tinha iluminação artificial! E eis que no terceiro período de 10 minutos (!), numa altura em que os jogadores dos dois conjuntos há muito que tinham ficado sem forças, muitos já nem se mexiam (!), em que jogavam já quase sem luz solar, Julinho apareceu do nada para fazer o 2-1 e acabar de vez com aquela longa maratona futebolística.

Já tinham passado 143 minutos (!) desde que o árbitro dera início à finalíssima. Com o apito final a festa estalou. 265 minutos - no total dos dois jogos - haviam sido precisos para coroar o Benfica como a primeira equipa portuguesa a vencer uma competição internacional. O público invadiu o relvado para abraçar os jogadores que já não tinham forças para sequer erguer os braços em sinal de vitória. Um pouco a custo Rogério de Carvalho - também conhecido por Rogério Pipi - subiu a longa escadaria até à tribuna do Jamor para receber a Taça Latina de 1950. No fim o treinador inglês do Benfica, Ted Smith, disse que «em 20 anos de futebol nunca vi nada assim!».

Nomes e números

Meias-finais

Benfica (Portugal) – Lazio (Itália): 3-0
Bordéus (França) – Atlético de Madrid (Espanha): 4-2

Jogo de atribuição dos 3º e 4º lugares

Atlético de Madrid (Espanha) – Lazio (Itália): 2-1

Final

Benfica (Portugal) – Bordéus (França): 3-3

Data: 11 de julho de 1950
Estádio: Nacional, em Lisboa (Portugal)
Árbitro: ?

Benfica: José Bastos, Jacinto, Joaquim Fernandes, Félix, Francisco Moreira, José da Costa, Rogério Pipi, Eduardo José Corona, Arsénio, Julinho, e Pascoal. Treinador: Ted Smith.

Bordéus: Jean-Guy Astresses, Manuel Garriga, Mérignac, Ben Kaddour M'Barek, Jean Swiatek, René Gallice, René Persillon, Mustapha Ben M'Barek, Édouard Kargu, Guy Meynieu, André Doye. Treinador: André Gérard.

Golos: 1-0 (Arsénio, aos 4m), 2-0 (Corona, aos 17m), 2-1 (Doye, aos 21m), 2-2 (Doye, aos 36m), 2-3 (Pesillon, aos 43m), 3-3 (Rogério, aos 55m).

Finalíssima

Benfica (Portugal) – Bordéus (França): 2-1

Data: 18 de julho de 1950
Estádio: Nacional, em Lisboa (Portugal)
Árbitro: Giacomo Bertolio (Itália)

Benfica: José Bastos, Jacinto, Joaquim Fernandes, Félix, Francisco Moreira, José da Costa, Rogério Pipi, Eduardo José Corona, Arsénio, Julinho, Rosário. Treinador: Ted Smith.

Bordéus: Jean-Guy Astresses, Manuel Garriga, Mérignac, Ben Kaddour M'Barek, Jean Swiatek, René Gallice, René Persillon, Mustapha Ben M'Barek, Édouard Kargu, Guy Meynieu, André Doye. Treinador: André Gérard.

Golos: 0-1 (Kargu, aos 11m), 1-1 (Arsénio, aos 89m), 2-1 (Julinho, aos 143m).
 
Nota: Texto escrito em 8 de julho de 2015 no blog: www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com 

Os anos dourados (1927-1939) da Taça Mitropa - A primeira montra de estrelas do futebol europeu (parte VI)

Capitão do Ferencvaros recebe uma coroa
de flores a simbolizar o triunfo
na Mitropa Cup de 1937
E eis que chegamos ao derradeiro capítulo da era dourada da Mitropa Cup. À derradeira viagem pela história daquela que é considerada a mãe das atuais competições europeias de clubes. 1937 marca então o início desta nossa última etapa, um ano em que a Taça Mitropa voltou a expandir as suas fronteiras, desta feita até à Roménia, a sétima nação a fazer parte da história da competição idealizada por Hugo Meisl. Romenos que participaram pela primeira vez no certame continental com apenas uma equipa, o seu campeão nacional de então, no caso o Venus de Bucareste. Regresso saudado foi o da Jugoslávia, país cujos clubes haviam participado na primeira edição do certame, em 1927. Face ao regresso de jugoslavos e à estreia dos romenos a organização teve de reajustar o número de vagas da competição, sendo que as quatro nações mais poderosas – Checoslováquia, Itália, Hungria, e Áustria –, diga-mos assim, passaram a ter três representantes ao invés dos quatro habituais.
A primeira grande surpresa da 11ª edição da prova foi protagonizada pelos campeões da Suíça, o Grasshopper de Zurique, clube que afastou uma das equipas revelação da temporada transata, os checoslovacos do Prostejov. Na primeira mão, em solo helvético, vitória mínima (4-3) garantida por Alfred Bickel, um dos craques suíços que um ano mais tarde ajudou a sua seleção a derrubar a poderosa Alemanha no Campeonato do Mundo de França. Na segunda mão a estrela foi o defesa Sirio Vernati, cuja magnífica exibição ajudou os gafanhotos de Zurique a obterem uma igualdade a duas bolas que garantiu a passagem aos quartos-de-final.

Contrariamente à edição anterior os combinados suíços parecem ter levado mais a sério esta nova participação, a julgar pelas enormes dificuldades causadas a emblemas com outra estaleca. O Young Fellows esteve quase a seguir o caminho dos vizinhos do Grasshopper, obrigando outro gigante do futebol europeu de então, o First Viena, a um play-off para desempatar uma eliminatória que teve início na capital da Áustria com uma curta vitória do First por 2-1. Os helvéticos abriram de forma surpreendente o marcador, mas Gschweidl empatou na sequência de um belíssimo remate. Belo foi igualmente o tento do triunfo, da autoria do extremo Molzer, que driblou meia equipa do Young Fellows até introduzir a bola no fundo da baliza forasteira. Em Zurique o Young Fellows marcou cedo, igualando desta forma a eliminatória que seria decidida então num play-off. Encontro este que voltou a ser realizado em Zurique, e que teve em Gschweidl a chave do triunfo (2-0) dos austríacos. Este jogador apontou os dois golos da sua equipa, deslumbrou a assistência com o seu futebol, com dribles diabólicos e passes magistrais, sendo unanimemente considerado então como o man of the match
 
Sindelar dispara para... o fundo da baliza
Quem parece não ter tido grandes dificuldades para também seguir em frente foram os campeões em título, o Austria de Viena, que afastaram o teoricamente complicado conjunto do Bologna. Teoricamente porque na prática o campeão de Itália foi vulgarizado pela equipa de Sindelar, sobretudo na segunda mão. Em Bolonha, no primeiro encontro, a defesa superou-se ao ataque, isto é, a postura defensiva com que o Austria entrou em campo levou a melhor sobre o estilo ofensivo patenteado pelos italianos. Contudo, e apesar de mais ofensivo, o Bologna não conseguiu superar a bem escalonada defesa contrária, onde Sesta e Mock ditaram leis. E lá na frente havia... Sindelar, quem mais. Apontou um golo e deu outro a marcar, edificando assim uma importante vitória por 2-1 em território inimigo. Na segunda mão Sindi deu um festival de bem jogar. Logo ao terceiro minuto da partida disparou uma autêntica bala de canhão a mais de 30 metros que só parou no fundo das redes bolonhesas. A soberba exibição do Homem de Papel a juntar ao hattrick obtido por Walter Nausch ajudou a construir uma goleada de 5-1, que selou a passagem à ronda seguinte.
Embate de titãs aconteceu em Praga, onde o Slavia, campeão checoslovaco da época anterior, recebia o Ferencvaros. Dois pesos pesados do futebol continental que começaram por empatar a duas bolas, numa partida em que os locais atacavam e os forasteiros contra-atacavam. Na segunda mão, em Budapeste, Toldi e Sarosi foram os grandes obreiros de uma vitória por 3-1 de um Ferencvaros que exerceu do príncipio ao fim um domínio avassalador sobre o seu oponente. Domínio esse expresso em apenas três golos, e dizemos apenas três porque na baliza dos checoslovacos estava uma lenda chamada Frantisek Planicka, que evitou uma catástrofe bem maior. 
 
Um autêntico passeio foi o que o Ujpest fez nesta primeira ronda, já que o sorteio ditou que os terceiros colocados do campeonato húngaro defrontassem os caloiros do Venus de Bucareste. A capital romena acolheu o duelo da primeira mão, um jogo cheio de golos, 10 para sermos mais precisos, seis para o Ujpest e quatro para os locais, sendo de destacar a exibição individual da estrela-mor dos visitantes, Gyula Zsengeller, autor de três golos. No encontro de volta, e atuando diante do seu público, o Ujpest assumiu o controlo absoluto dos acontecimentos, tendo alcançado com toda a naturalidade um novo e avolumado triunfo, desta feita por 4-1. Quanto a Zsengeller, ele foi autor de mais um par de golos e de uma estupenda exibição. Era indiscutivelmente um dos maiores talentos do futebol húngaro de então.
Outro embate de gigantes opôs os campeões da Áustria, o Admira, aos vice-campeões da Checoslováquia, o Sparta de Praga. Na primeira mão o Admira esteve melhor, mas falhou em demasia sempre que se encontrava próximo da baliza dos checoslovacos. Um remate pleno de êxito de Stoiber foi a exceção numa floresta de oportunidades perdidas pelo conjunto da casa. A igualdade final a um golo surgiu por intermédio de um jovem talento de 18 anos, Karel Senecky, avançado de posição no campo de batalha, que não obstante a sua tenra idade assumiu nesta edição da Mitropa o estatuto de estrela principal da equipa de Praga. Isto porque Raymond Braine regressou ao seu país, enquanto que Nejedly começava a dar sinais de alguma... veterania, passando mais jogos na bancada do que em campo, por opção técnica. Na segunda mão o jovem Senecky voltou a dar nas vistas, inaugurando o marcador logo aos oito minutos. Porém, o Admira não se fez rogado por estar a atuar no inferno checoslovaco, chamando a si o controlo do encontro e chegando com naturalidade à vantagem no marcador graças aos golos de Hahnemann e Vogl. Zeman iria empatar já perto do fim, fazendo o 2-2 final, facto que obrigou a um terceiro jogo de desempate, jogo esse onde o Admira foi nitidamente melhor, sobretudo na segunda parte, período em que apontou os dois únicos golos da tarde, da autoria de Vogl e Schilling.
A equipa da Lazio de Roma que participou na edição de 1937 da Taça Mitropa
Duas equipas italianas fizeram em 1937 a sua estreia nestas andanças da Taça Mitropa, o Génova e a Lazio. Os romanos tinham no internacional italiano Silvio Piola a sua principal referência, jogador que esteve em destaque na partida da primeira mão perante os húngaros do MTK. Piola apontou aos 57 minutos, um golo precioso para os laziale no terreno do adversário, o qual não conseguiu melhor do que igualar o marcador ao minuto 70. Piola voltou a estar em vincado destaque na partida de Roma, ao apontar dois dos três golos de vantagem que a Lazio dispunha ao intervalo sobre o seu oponente. Na segunda parte os romanos relaxaram, e foi aí que brilhou outra estrela, esta do lado oposto, Cseh, assim, se chamava. O avançado do MTK de Budapeste fez a vida negra ao setor mais recuado dos italianos, sendo que por duas ocasiões bateu o guardião Blason, golos que no entanto não seriam suficientes para adiar o adeus húngaro à competição.
Quem também entrou com o pé direito na prova foi o Génova, equipa cujo futebol de cariz ofensivo causou mossa nos jugoslavos do Gradjanski de Zagreb. Neste plano há a sublinhar as exibições dos atacantes Mario Perazzolo e Luigi Scarabello, e do defesa Giuseppe Bigogno, três dos principais responsáveis pela passagem dos genoveses aos quartos-de-final.

Um dos embates mais apetecidos dos quartos-de-final opôs o Ferencvaros ao First Viena, uma eliminatória dominada pelos dois... setores recuados. O resultado da primeira mão, realizada em Budapeste, cedo foi construído, tendo o primeiro golo surgido aos nove minutos para os visitantes. Antes da meia hora o Ferencvaros recuperou e colocou-se em vantagem, graças a dois remates certeiros dos goleadores Toldi e Sarosi, que fizeram assim o resultado final de uma partida onde as duas defesas estiveram quase intransponíveis. A segunda mão desenrolou-se na mesma toada, ou seja, os avançados de ambos os lados da barricada tiveram imensas dificuldades para furar as barreiras defensivas. O momento de exceção ocorreu aos 11 minutos, altura em que Pollak fez o único golo do encontro a favor dos austríacos. Depois disso os dois conjuntos fecharam as respetivas balizas a sete chaves, sendo que para o fazer o Ferencvaros até fez recuar o seu goleador principal, Sarosi! Face a estes dois resultado impôs-se a realização de um play-off, sendo que ai os húngaros foram mais atrevidos, empurrando o First para a sua zona defensiva, um pressing que haveria de dar os seus frutos em duas ocasiões, ambas concretizadas por Toldi, que assim teve um papel fundamental na vitória e no consequente apuramento do vice-campeão da Hungria para a ronda seguinte.

Gyula Zsengeller
E se o rigor defensivo havia imperado no duelo entre Ferencvaros e First Viena, o estilo ofensivo foi nota dominante durante a primeira mão da eliminatória entre Austria de Viena e Ujpest. 5-4 a favor dos vienenses naquele que foi um jogo de verdadeiro hino ao golo, onde duas figuras se destacaram das demais: Sindelar, do lado dos austríacos, autor de um golo e de uma exibição – mais uma – divinal, e Gyula Zsengeller, cuja qualidade técnica aliada ao seu remate explosivo aproveitou as fragilidades da defesa local. Resultado final: 5-4 a favor do Austria, num jogo em que o golo e o futebol espetáculo foram uma constante. Na segunda mão os vienenses mudaram o chip, ou seja, fecharam-se na sua zona defensiva na tentativa de guardar a magra vantagem que traziam de casa, optando por explorar as situações de contra-ataque. E foi precisamente nos lances de contra-ataque que esteve a chave para um novo triunfo austríaco. E o homem do jogo foi... Sindelar, sempre ele, a comandar as operações na hora de semear o pânico na defesa contrária, fez um golo simplesmente fenomenal – um poderoso remate a 25 metros de distância que surpreendeu o guardião da casa – e esteve na origem do segundo tento – apontado por Jerusalem – que deu ao Austria uma vantagem de 2-0. O Ujpest ainda reduziu, mas era já tarde demais para evitar a eliminação.
Mais fácil, muito mais, foi o triunfo da Lazio sobre os suíços do Grasshopper. Na primeira mão, na capital italiana, um vendaval varreu com a turma helvética. Vendaval que teve um nome: Silvio Piola. Fez três golos e deu outros a marcar, contribuindo desta forma para uma expressiva vitória laziale por 6-1. Com este score a viagem a Zurique tornou-se pois um verdadeiro passeio para os homens de Jozsef Viola, o húngaro que na época treinava a Lazio. Cientes de que a eliminatória estava no papo, os romanos relaxaram, e permitiram que os suíços se despedissem do certame com um triunfo por 3-2, sendo de destacar no plano individual Alfred Bickel, uma das grandes estrelas do futebol da Suíça de então, que neste encontro apontou dois golos.
Espetáculo vergonhoso, é assim que podemos caracterizar a eliminatória entre o Admira de Viena e o Génova, uma eliminatória onde o futebol esteve ausente para dar lugar à violência. Uma verdadeira batalha campal definiu a primeira mão, em Viena, onde jogadores de ambas as equipas passaram os 90 minutos a agredirem-se perante a complacência do árbitro de um jogo que terminou empatado (2-2). Perante isto o encontro da segunda mão esteve em dúvida, já que a polícia de Génova não garantiu as mínimas condições de segurança para os intervenientes no duelo de volta. Desta forma o Comité da Mitropa decidiu não realizar o encontro, punindo os dois conjuntos com a exclusão da prova, facto que fez com que a Lazio ficasse desde logo apurada para a final, já que ficava assim sem adversário na meia-final.

Fase esta onde se realizou apenas um encontro, aquele que colocou frente a frente o Austria de Viena e o Ferencvaros. Na viagem à capital austríaca Emil Rauchmaul, treinador do Ferencvaros usou uma tática semelhante à do primeiro jogo ante o First Viena, uma tática onde fez recuar para o centro da defesa o avançado Sarosi. No duelo ante o Austria este jogador teve uma tarefa específica: travar Sindelar. Tarefa árdua e... ineficaz, já que o Mozart do Futebol fez o que quis durante os 90 minutos do seu marcador de serviço. Sindi conduziu – de novo – a sua equipa rumo a uma vitória concludente e merecida, já que durante todo o encontro os vienenses foram os únicos que de facto quiseram vencer, exibindo uma postura nitidamente ofensiva aliada a uma qualidade técnica primorosa. O resultado desta combinação foi um triunfo por 4-1.
Na segunda mão os papéis inverteram-se. Os magiares dominaram do princípio ao fim a partida, atacando vezes sem contra a baliza austríaca, mostrando bem o porquê de terem terminado o campeonato da Hungria da temporada anterior com um registo de 102 golos apontados!!! A linda da frente do Ferencvaros vulgarizou o Austria, apontando seis golos que viraram a eliminatória e deram aos húngaros o bilhete para a final.

Silvio Piola
Jogo decisivo, ou melhor, jogos decisivos – uma vez que a final era jogada em duas mãos – que foram um verdadeiro deslumbre no que a futebol e a golos diz respeito. Dois homens protagonizaram um duelo particular muito especial durante esta dupla final: Sarosi, pelo lado dos húngaros, e Piola, do lado da Lazio. Na primeira mão, em Budapeste, Gyorgy Sarosi foi o herói, apontando um hattrick na segunda metade da partida que contribuiu para um triunfo por 4-2 a favor do combiando da casa. E se o futebol ofensivo havia sido uma constante – de parte a parte – na primeira mão, o mesmo aconteceu no jogo de volta, em Roma, onde a Lazio cedo se lançou ao ataque na tentativa de agarrar o seu primeiro troféu continental. Giovanni Costa fez o o 1-0 logo aos 4 minutos, mas a festa laziale não iria durar mais do que um minuto, já que pouco depois de a bola ir ao centro Sarosi cava uma grande penalidade que o próprio iria converter em golo. O mesmo jogador, três minutos depois, silencia os 35.000 espectadores presentes no Estádio Nacional do Partido Fascista, ao apontar o 2-1. Foi então que emergiu no relvado toda a genialidade de Silvio Piola, que praticamente sozinho destruiu até final da primeira parte a turma visitante. Apontou dois golos, e foi preponderante na obtenção de um quarto golo aos 35 minutos, da autoria de Camolese. Porém, do outro lado ainda estava outro avançado de créditos firmados, Toldi, que aos 37 minutos arrefece as emoções laziales ao apontar o 3-4 com que se atingiu o intervalo que chegou em bom tempo para fazer descansar um pouco os corações dos espectadores daquele duelo eletrizante. Na segunda parte o chavão que diz que os “grandes génios do futebol também falham” acabou por vir ao de cima e ditar, de certa forma, o desfecho final desta... final. Aos 61 minutos o árbitro suíço Hans Wuthrich assinala uma grande penalidade a favor da Lazio, castigo esse que Piola... iria desperdiçar! Este lance iria afetar os romanos, que não mais se encontraram, facto aproveitado por... Sarosi, para dar a machadada final, primeiro ao oferecer um golo a Lázár, aos 71 minutos, e em cima do minuto 80 ele próprio fez um novo golo nesta final, que daria garantia assim o segundo ceptro continental ao Ferencvaros. Nove dos golos apontados pelos húngaros nos dois encontros da final seis haviam sido da autoria de Gyorgy Sarosi, que desta forma subia também ao lugar mais alto do pódio da lista dos melhores marcadores desta edição da Mitropa Cup – com um total de 12 remates certeiros.

Números e nomes:

1ª Eliminatória (1ª e 2ª mãos)

Slavia Praga (Checoslováquia) - Ferencvaros: 2-2/1-3
First Viena (Áustria) - Young Fellows (Suíça): 2-1/0-1/2-0 (desempate)
Bologna (Itália) - Austria Viena (Áustria): 1-2/1-5
Venus Bucureste (Roménia) - Ujpest (Hungria): 4-6/1-4
Admira Viena (Áustria) - Sparta Praga (Checoslováquia): 1-1/2-2/2-0 (desempate)
Génova (Itália) - Gradanski (Jugoslávia): 3-1/3-0
MTK (Hungria) - Lazio (Itália): 1-1/2-3
Grasshopper (Suíça) - Prostejov (Checoslováquia): 4-3/2-2

Quartos-de-final (1ª e 2ª mãos)

Ferencvaros (Hungria) - First Viena (Áustria): 2-1/0-1/2-1 (desempate)
Austria Viena (Áustria) - Ujpest (Hungria): 5-4/2-1
Lazio (Itália) - Grasshopper (Suíça): 6-1/2-3
Admira Viena (Áustria) - Génova (Itália): 2-2/*

*Ambas as equipas foram suspensas por conduta violenta

Meias-finais (1ª e 2ª mãos)

Austria Viena (Áustria) – Ferencvaros (Hungria): 4-1/1-6

*Nota: Lazio ficou automaticamente apurada para a final por não ter adversário nas meias-finais
Em 1937 a taça voltou a Budapeste pela mão do Ferencvaros

Final (1ª mão)

Ferencvaros (Hungria) – Lazio (Itália): 4-2

Data: 12 de setembro de 1937
Estádio: Ulloi ut, em Budapeste (Hungria)
Árbitro: Gustav Krist

Ferencvaros: Jószef Háda, Sándor Tátrai, Lajos Korányi, Béla Magda, Gyula Polgár, Béla Székely, Mihai Tanzer, Gyula Kiss, Gyorgy Sarosi (c), Géza Toldi, e Tibor Kemény. Treinador: Emil Rauchmaul.

Lazio: Giacomo Blason, Benedicto Zacconi, Alfredo Monza, Giuseppe Baldo, Giuseppe Viani, Luigi Milano, Umberto Busani, Libero Marchini, Silvio Piola (c), Bruno Camolese, e Giovanni Costa. Treinador: József Viola.

Golos: 1-0 (Toldi, aos 20m), 1-1 (Busani, aos 26m), 2-1 (Sarosi, aos 53m), 3-1 (Sarosi, aos 59m), 3-2 (Piola, aos 63m), 4-2 (Sarosi, aos 72m).

Final 2ª (mão)

Lazio (Itália) – Ferencvaros (Hungria): 4-5

Data: 24 de outubro de 1937
Estádio: Nazionale, em Roma (Itália)
Árbitro: Hans Wuthrich (Suíça)

Lazio: Vincenzo Provera, Benedicto Zacconi, Alfredo Monza, Giuseppe Baldo, Giuseppe Viani, Luigi Milano, Umberto Busani, Libero Marchini, Silvio Piola (c), Bruno Camolese, e Giovanni Costa. Treinador: József Viola.

Ferencvaros: Jószef Háda, Sándor Tátrai, Lajos Korányi, Béla Magda, Gyula Polgár, Gyula Lázár, Mihai Tanzer, Gyula Kiss, Gyorgy Sarosi (c), Géza Toldi, e Tibor Kemény. Treinador: Emil Rauchmaul.

Golos: 1-0 (Costa, aos 4m), 1-1 (Sarosi, aos 5m), 1-2 (Sarosi, aos 8m), 2-2 (Piola, aos 18m), 3-2 (Piola, aos 23m), 4-2 (Camolese, aos 35m), 4-3 (Toldi, aos 37m), 4-4 (Lázár, aos 71m), 4-5 (Sarosi, aos 80m)

1938 e 1939: Guerra derrota a Mitropa Cup

Pepi Bican, a estrela da Taça Mitropa de 1938
O eclodir da II Guerra Mundial era por alturas de 1938 um facto praticamente consumado. Pelo menos assim indicavam as orientações político-militares do Velho Continente. Em 12 março de 1938 dá-se o Anschluss, que significa a anexação da Áustria pela Alemanha nazi, e aqui começa de certa forma também o desmoronamento da Mitropa Cup. Com esta anexação a nação austríaca perde a sua total independência, inclusive no futebol. Deste modo a edição de 1938 da Taça Mitropa já não irá contar com a participação dos clubes austríacos, eles que tantas páginas douradas ajudaram a escrever desde 1927, ano em que a competição viu a luz do dia. A morte de Hugo Meisl (criador da Mitropa), em 1937, também foi um duro golpe na sobrevivência da prova. Foi por isso num cenário triste que se ergueu a edição de 1938, edição essa que iria consagrar pela primeira vez na história da prova o Slavia de Praga como campeão, muito devido à ação individual de um tal de Josef Bican. Pepi, como era conhecido pelos companheiros de equipa e adeptos, foi o abono de família do Slavia, apontando 10 dos 25 golos que os checoslovacos apontaram no percurso rumo à glória. Nesse percurso alguns episódios – hoje lendários – saltam à memória, como é o exemplo o jogo da primeira mão dos quartos-de-final ante o campeão italiano da temporada anterior, a Ambrosiana-Inter, que em Praga sofreu uma verdadeira humilhação, como se comprova pelo resultado de 9-0 a favor do Slavia. Neste encontro a estrela foi Pepi Bican, um cidadão austríaco naturalizado checoslovaco, autor de quatro dos nove tentos do Slavia. A final seria disputada ante os campeões da temporada transata, o Ferencvaros, clube à partida favorito a ganhar a taça pela terceira vez na sua história, ainda para mais depois de ter empatado a duas bolas no encontro da primeira mão, em Praga. Mas da teoria à prática o caminho foi longo para Sarosi e companhia, que iriam cair aos pés do novo campeão por 2-0.

Bela Gutmann
A ausência de dados mais concretos sobre as duas últimas edições da Era dourada (1927-1939) da Taça Mitropa faz-nos atalhar o caminho até 1939, ano em que a prova entra na reta final do seu período áureo. A edição de 1939 contou apenas com oito equipas, algo que já não acontecia desde 1933. A taça, essa foi entregue ao Ujpest, equipa húngara orientada por um tal de Bela Guttman, um mestre da tática que duas décadas mais tarde iria conhecer de novo a glória europeia, desta feita no âmbito das eurotaças tuteladas por uma UEFA que iria nascer em 1954, ao serviço do Benfica. Ujpest que em campo foi conduzido ao triunfo final por outro mestre, este na arte de manuesar o esférico, de seu nome Gyula Zsengeller, o qual com nove tentos apontados ao longo da prova arrecadou o título de melhor marcador. A final foi jogada por duas equipas húngaras, o Ujpest e o Ferencvaros, último clube que foi humilhado (derrota por 4-1) no seu reduto no encontro da primeira mão, com destaque para a exibição individual de Zsengeller – autor de dois golos. A igualdade a duas bolas no encontro de volta foi suficiente para o Ujpest levantar a segunda Mitropa Cup da sua história. Entretanto, em setembro de 1939 a Alemanha invade a Polónia e tem início a II Guerra Mundial, conflito bélico que iria durar até 1945. A Europa era pois um terreno muito perigoso, pese embora oito emblemas aventureiros provenientes da Roménia, Hungria, e da Jugoslávia – os clubes de Itália e da Checoslováquia não participaram – deram vida à edição de 1940, a qual não viria a ter um campeão, pois a final entre o Rapid de Bucareste e o Ferencvaros acabou por não se realizar precisamente devido ao conflito bélico que assolava o Velho Continente. Assim, a bola parou de rolar no âmbito da Taça Mitropa. Um interregno que durou até 1955, altura em que a histórica competição regressou, mas já sem a força e a mística alcançada na década de 30. Além disso, à porta estava a Taça dos Clubes Campeões Europeus, certame criado pela UEFA, e que iria agregar a si a esmagadora maioria das nações – e respetivos clubes – da Europa. Mesmo passando para um plano secundário, a Mitropa manteve-se viva até 1992, moribunda, quase ignorada, mas viva, sendo que até ao seu final não passou de um mero torneio disputado sobretudo por equipas da Série B italiana e alguns combinados da Áustria, Hungria, ou Jugoslávia, que entretanto foram perdendo fulgor na Europa do futebol.

Números e nomes (edição de 1938):

1ª Eliminatória (1ª e 2ª mãos)

Kladno (Checoslováquia) - HASK Zagreb (Jugoslávia): 3-1/2-1
Zidenice (Checoslováquia) – Ferencvaros (Hungria): 3-1/0-3
Génova (Itália) - Sparta Praga (Checoslováquia): 4-2/1-1
Beogradski (Jugoslávia) - Slavia Praga (Checoslováquia): 2-3/1-2
MTK Budapeste (Hungria) - Juventus (Itália): 3-3/1-6
Ujpest (Hungria) - Rapid Bucareste (Roménia): 4-1/0-4
Ambrosiana-Inter (Itália) - Kispesti (Hungria): 4-2/1-1
Ripensia Timisoara (Roménia) – Milan (Itália): 3-0/1-3

Quartos-de-final (1ª e 2ª mãos)

Ferencvaros (Hungria) - Ripensia Timisoara (Roménia): 5-4/4-1
Juventus (Itália) - Kladno (Checoslováquia): 4-2/2-1
Slavia Praga (Checoslováquia) – Ambrosiana-Inter (Itália): 9-0/1-3
Génova (Itália) - Rapid Bucareste (Roménia): 3-0/1-2

Meias-finais (1ª e 2ª mãos)

Génova (Itália) - Slavia Praga (Checoslováquia): 4-2/0-4
Juventus (Itália) – Ferencvaros (Hungria): 3-2/0-2
1938 marca a única vitória do Slavia de Praga na Taça Mitropa

Final (1ª mão)

Slavia Praga (Checoslováquia) – Ferencvaros (Hungria): 2-2

Data: 4 de setembro de 1938
Estádio: Strahov, em Praga (Checoslováquia)
Árbitro: Henry Mee (Inglaterra)

Slavia Praga: Alexej Boksay, Antonin Cerny, Ferdinand Daucik (c), Karel Prucha, Karol Daucik, Vlastimil Kopecky, Vaclav Horak, Ladislav Simunek, Josef Bican, Vojtech Bradac, e Rudolf Vytlacil. Treinador: Jan Reichardt.

Ferencvaros: Jozsef Hada, Sandor Tátrai, Gyula Pólgar, Béla Magda, Béla Sarosi, Gyula Lazar, Mihai Tanzer, Gyula Kiss, Gyorgy Sarosi (c), Géza Toldi, e Tibor Kemény. Treinador: Gyorgy Hlavay.

Golos: 01- (Kemény, aos 30m), 1-1 (Bican, aos 36m), 2-1 (Simunek, aos 44m), 2-2 (Kiss, aos 63m)

Final (2ª mão)

Ferencvaros (Hungria) – Slavia Praga (Checoslováquia): 0-2

Data: 11 de setembro de 1938
Estádio: Ulloi ut, em Budapeste (Hungria)
Árbitro: Arthur Jewell (Inglaterra)

Ferencvaros: Jozsef Hada, Sandor Tátrai, Gyula Pólgar, Béla Magda, Béla Sarosi, Gyula Lazar, Mihai Tanzer, Gyula Kiss, Gyorgy Sarosi (c), Géza Toldi, e Tibor Kemény. Treinador: Gyorgy Hlavay.

Slavia Praga: Alexej Boksay, Antonin Cerny, Ferdinand Daucik (c), Karel Prucha, Otakar Nozir, Vlastimil Kopecky, Bedrich Vacek, Ladislav Simunek, Josef Bican, Vojtech Bradac, e Rudolf Vytlacil. Treinador: Jan Reichardt.

Golos: 0-1 (Vytlacil, aos 57m), 0-2 (Simunek, aos 71m).

Números e nomes (edição de 1939):

Quartos-de-final (1ª e 2ª mãos)

Venus Bucareste (Roménia) - Bologna (Itália): 1-0/0-5
Ferencvaros (Hungria) - Sparta Praga (Checoslováquia): 2-3/2-0
Beogradski (Jugoslávia) - Slavia Praga (Checoslováquia): 3-0/1-2
Ambrosiana-Inter (Itália) – Ujpest (Hungria): 2-1/0-3

Meias-finais (1ª e 2ª mãos)

Bologna (Itália) – Ferencvaros (Hungria): 3-1/1-4
Beogradski (Jugoslávia) – Ujpest (Hungria): 4-2/1-7
A vitória do Ujpest (equipa da imagem) encerrou a era dourada da Mitropa

Final (1ª mão)

Ferencvaros (Hungria) – Ujpest (Hungria): 1-4

Data: 23 de julho de 1939
Estádio: Ulloi ut, em Budapeste (Hungria)
Árbitro: Gustav Krist (Checoslováquia)

Ferencvaros: József Háda, Sándor Tátrai, Kornél Szoyka, Béla Magda, Béla Sarosi, Gyula Lázár, Mihai Tanzer, Gyula Kiss, Gyorgy Sarosi (c), Géza Toldi, e László Gyetvai. Treinador: Gyorgy Hlavay.

Ujpest: Ferenc Sziklai, Gyula Futó (c), Jeno Fekete, Antal Szalay, Gyorgy Szucs, Istvan Balogh, Sándor Ádám, Jeno Vincze, Gyula Zsengeller, Lipót Kállai, e Géza Kocsis. Treinador: Bela Guttman.

Golos: 0-1 (Zsengeller, aos 9m), 0-2 (Kocsis, aos 10m), 0-3 (Kocsis, aos 53m), 1-3 (Sarosi, aos 73m); 1-4 (Zsengeller, aos 74m).

Final (2ª mão)

Ujpest (Hungria) – Ferencvaros (Hungria): 2-2

Data: 20 de julho de 1939
Estádio: Megyeri út, em Budapeste (Hungria)
Árbitro: Generoso Dattilo (Itália)

Ujpest: Ferenc Sziklai, Gyula Futó (c), Jeno Fekete, Antal Szalay, Gyorgy Szucs, Istvan Balogh, Sándor Ádám, Jeno Vincze, Gyula Zsengeller, Lipót Kállai, e Géza Kocsis. Treinador: Bela Guttman.

Ferencvaros: József Pálinkás, Sándor Tátrai, Kornél Szoyka, Gyula Pólgar, Béla Sarosi, Gyula Lázár, Mihály Biró, Gyula Kiss, Gyorgy Sarosi (c), Istvan Kiszely, e László Gyetvai. Treinador: Gyorgy Hlavay.

Golos: 0-1 (Kiszely, aos 15m), 0-2 (Kiszely, aos 29m), 1-2 (Ádám, aos 54m), 2-2 (Balogh, aos 82m)
 
Nota: Texto escrito em 8 de junho de 2015 no blog: www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com 

Os anos dourados (1927-1939) da Taça Mitropa - A primeira montra de estrelas do futebol europeu (parte V)

Matthias Sindelar, uma das maiores figuras da história
da Taça Mitropa tenta aqui passar pelos

defesas do Ferencvaros na meia-final de 1935
Iniciamos hoje a penúltima de uma série de seis viagens pela era dourada (1927-1939) da Mitropa Cup, a competição progenitora das atuais eurotaças. E a nossa primeira paragem nesta nova incursão ao passado da prova idealizada por Hugo Meisl dá-se em 1935, ano em que um célebre cidadão belga centrou em si as luzes da ribalta da 9ª edição da competição continental.O seu nome? Raymond Braine, foi ele o general que conduziu o exército do Sparta de Praga à conquista da Europa do futebol pela segunda vez na história do mítico clube checoslovaco. Com uma técnica sublime aliada a um apurado faro para o golo, ele foi o ás de trunfo do Sparta de Ferro para dizimar a feroz concorrência. Sparta que apareceu nesta edição da Mitropa na condição de vice-campeão da Checoslováquia, tendo na primeira ronda enfrentado outro antigo campeão do certame continental, os austríacos do First Viena. O primeiro embate deu-se na Áustria, tendo o Sparta oferecido o jogo ao inimigo, isto é, permitiu que o First controlasse do princípio ao fim o rumo dos acontecimentos, optando por jogar apenas em contra-ataque, criando uma série de lances venenosos que semeavam o pânico no último reduto vienense. Num desses lances Nejedly marcou o golo que valeu um precioso empate (1-1) com que os checoslovacos deixaram a capital austríaca. Na segunda mão, tudo foi diferente. O Sparta assumiu o jogo, partindo com toda a sua armada para cima dos vienenses, que pouco puderam fazer para evitar a derrota (5-3) e a consequente eliminação. No plano individual Braine e Olidich Zajiek dividiram o protagonismo: o primeiro foi o cérebro da equipa, ao passo que o segundo assumiu o papel de goleador, ao apontar três dos cinco golos do emblema de Praga.
Raymond Braine, a grande figura
da 9ª edição da Taça Mitropa
E por falar na capital da então Checoslováquia, a outra equipa desta cidade, o Slavia, também entrou com o pé direito na edição de 1935 da Taça Mitropa, após vencer os estreantes do Szegedi, modesto clube húngaro que foi arrasado na primeira mão da eliminatória pelo endiabrado Kopecky, autor de três dos quatro golos com que os campeões da Checoslováquia bateram (4-1) o quarto classificado do campeonato húngaro na sua própria casa. Com a passagem à fase seguinte praticamente assegurada o Slavia relaxou na segunda mão, permitindo que o Szegedi saísse de Praga com uma vitória por 1-0. 
A grande surpresa desta primeira ronda foi protagonizada por outro caloiro nestas andanças, o Zidenice, que surgia na competição por via do terceiro posto conquistado no campeonato da Checoslováquia. Na entrada para a eliminatória o papel do Zidenice na prova não seria mais do que um mero participante, até porque o oponente dava pelo nome de Rapid de Viena, campeão da Áustria, e um dos grandes candidatos ao triunfo final. A surpresa começou a ser desenhada na primeira mão, quando diante do seu público o Zidenice chegou ao intervalo a vencer os austríacos por 3-0, com a particularidade destes três golos terem sido apontados por Vaclav Prusa. Na segunda parte o Rapid puxou dos seus galões e conseguiu reduzir para 2-3, resultado que encerrou o marcador, e que fazia sonhar o campeão da Áustria com uma reviravolta fácil no seu estádio. Como estavam enganados! Em Viena, o Zidenice alcançou um empate a duas bolas – ao intervalo vencia por 2-1 –, garantindo uma impensável qualificação para os quartos-de-final, colocando assim rostos de espanto na Europa do futebol.
A edição de 1935 da Mitropa Cup foi de má memória para a maioria dos conjuntos austríacos. Depois do Rapid e do First Viena terem dito adeus à competição logo na primeira eliminatória, o Admira foi pelo mesmo caminho, após cair com estrondo aos pés do MTK de Budapeste por um total de 9-4. Um desfecho que inicialmente até não era de todo previsível, já que em Viena o Admira venceu por 3-2 o seu adversário. Somente 3-2, há que sublinhá-lo, pois o desperdício foi uma característica evidente na performance do vice-campeão austríaco ao longo de toda a partida. Com muito menos oportunidades de golo mas tremendamente eficazes na hora de rematar à baliza os húngaros apontaram dois preciosos golos que lhes deram grandes esperanças para o embate da segunda mão, golos esses apontados por Heinrich Muller, jogador de nacionalidade... austríaca. O jogo de volta resumiu-se ao vendaval ofensivo do MTK, vendaval esse que demorou 45 minutos a surgir, já que ao intervalo o Admira vencia por 1-0. Os segundos 45 minutos foram então explosivos para a turma da casa, que apontou sete golos, três deles por intermédio de Cseh.
Ai está Sindelar em mais um ataque
às redes contrárias
A exceção ao pobre desempenho das equipas austríacas nesta 9ª edição da Mitropa foi o Austria de Viena, conjunto cuja estrela principal dava pelo nome de Matthias Sindelar, o Mozart do futebol, como ainda hoje é conhecido. O Austria, que aparecia nesta competição pelo facto de ter vencido a taça do seu país, mediu forças com os italianos da Ambrosiana-Inter, reeditando assim a final de 1933 da Taça Mitropa. Mais do que a reedição da citada final ocorrida dois anos antes este jogo marcou o reencontro de dois dos maiores génios do futebol internacional daqueles dias, Sindelar e Giuseppe Mezza. Levou a melhor o austríaco, que esteve envolvido nos cinco golos com que a sua equipa derrotou (5-2) os transalpinos. No encontro de volta, em Viena, Sindi realizou mais uma soberba exibição, culminada com a obtenção dos três golos com que o Austria derrotou, mais uma vez, os vice-campeões de Itália.
Quem também saiu humilhada da prova logo na primeira ronda foi a Roma, que depositava na sua estrela-mor, Enrique Guaita, as esperanças em afastar os húngaros do Ferencvaros. E a primeira mão, jogada na capital italiana, até nem correu mal, já que um triunfo por 3-1, com o destaque individual a ir para Scopelli, autor de dois golos. Em Budapeste o descalabro aconteceu. Uma exibição verdadeiramente assombrosa – no bom sentido – de Gyorgy Sarosi abriu caminho à goleada de 8-0 (!) oferecido pelo vice-campeão da Hungria à squadra orientada por Luigi Barbesino. Sarosi marcou por quatro vezes – três delas de grande penalidade – abrindo desta forma o caminho até... à grande final.
O onze da Fiorentina que em 1935 fez a estreia do emblema viola nas competições europeias
Estreia absoluta nestas andanças europeias teve a Fiorentina, que a 16 de junho de 1935 media forças com o campeão da Hungria, o Ujpest, em território inimigo. Mas nem este facto amedrontou os ragazzi de Florença, sobretudo os dois extremos da equipa viola, Comini e Gringa, os quais além de terem feito os dois únicos golos do jogo semearam inúmeras vezes o pânico no reduto defensivo dos locais. Em Florença o Ujpest arriscou tudo na tentativa de corrigir o resultado negativo averbado em casa, exibindo uma postura totalmente ofensiva. Porém, e uma vez mais, os italianos não baixaram a guarda, e responderam na mesma moeda. O resultado final deste duelo de parada e resposta foi um novo triunfo da Fiorentina, desta feita por 4-3, com três dos golos viola a serem da autoria de Cesare Augusto Fasanelli.
Passagem de eliminatória relativamente tranquila tiveram os penta campeões italianos, a Juventus, que se desenvencilhou dos checoslovacos do Viktoria Plzen por 8-4 – no total das duas mãos. Na Checoslováquia a Vecchia Signora empatou a três bolas, enquanto que em Turim o Viktoria foi autenticamente atropelado por 5-1, sendo aqui de sublinhar a magnífica exibição individual de Giovanni Ferrari.
Página do jornal que retatou o massacre
do Ferencvaros à Roma
A Taça Mitropa de 1935 foi farta em resultados avolumados. À semelhança do que havia ocorrido na primeira ronda, os quartos-de-final foram férteis em goleadas. A maior delas foi obtida pelos futuros campeões, o Sparta de Praga, cujo tridente ofensivo – Nejedly, Facsinek, e Braine – abateu o muro viola com sete tiros certeiros. A segunda mão foi pois um passeio para os checolosvacos, que jogando de forma descontraída – demasiado até – permitiram que a Fiorentina se despedisse do certame com uma vitória (3-1.) Melhor destino teve a outra equipa italiana por esta altura ainda em prova, a Juventus, que da viagem até Budapeste trouxe uma confortável vitória por 3-1. Uma vitória heróica há que referi-lo, já que a Juve jogou com menos um homem desde os 40 minutos. Neste jogo a linha da frente dos transalpinos esteve diabólica, em particular Ferrari, autor de um golo e de uma belíssima exibição. Na segunda mão Ferrari voltou a fazer o gosto ao pé, e depois disso foi a vez da defesa – edificada por Foni, Rosetta, Bertolini, e Monti – da Juve brilhar a grande altura ao travar a esmagadora maioria dos venenosos ataques dos contrários, que só por uma vez conseguiram bater o guardião Valinasso.
Quem continuou a surpreender a Europa futebolística foi o Zidenice, cujo futebol mais físico causou mossa ao Ferencvaros, uma equipa tecnicamente mais evoluída que os checoslovacos. 4-2 a favor do surpreendente Zidencie, foi o score final da primeira mão. Em Budapeste os vice-campeões húngaros deram a volta à eliminatória, e que volta (!), conforme expressa o pesado marcador de 6-1 a seu favor, com Toldi e Sarosi em evidência ao apontarem, cada um deles, dois golos. Mais equilibrado foi o duelo entre o Austria de Viena e o Slavia de Praga, resolvido num jogo extra. Mas já lá vamos. Na primeira mão, ocorrida em Praga, o Slavia venceu por 1-0, enquanto que na volta, em Viena, o Austria derrotou o seu oponente por 2-1. Surgiu então a necessidade de um play-off, jogo decisivo este em que Sindelar voltou a estar magnífico. Jogou (muito) e fez jogar todos os seus companheiros, uma estupenda exibição coletiva que foi concluída com uma robusta vitória por 5-2. Sindi fez um dos golos.
Gyorgy Sarosi, estrela do Ferencvaros
e melhor marcador (9 golos)
da Taça Mitropa de 1935
Necessidade de um jogo de desempate voltou a surgir nas meias-finais, mais concretamente no braço de ferro entre Sparta de Praga e Juventus. Na primeira mão, realizada na capital da então Checoslováquia, o setor recuado dos anfitriões exibiu-se a um nível perfeito, impedido com classe que a temível linha avançada dos transalpinos causasse estragos na baliza à guarda de Klenovec. A Juve saiu de Praga derrotada por 2-0. E mais do que isso viu-se impedida de utilizar Monti na segunda mão, já que o ítalo-argentino recebeu ordem de expulsão no jogo do Estádio Strahov. A segunda mão teve contornos dramáticos. Com dois golos de Borel a Juventus igualou a eliminatória, mas à passagem do minuto 52 Nejedly gelou o tiffosi presentes no Stadio Benito Mussolini, em Turim, ao reduzir para 1-2 e recolocar o Sparta na frente do combate. Depois disto o jogo teve quase única e exclusivamente sentido único, o da baliza forasteira, e aos 85 minutos a Juve ganha uma grande penalidade a seu favor. Castigo máximo que no entanto seria salvo pelo guardião Klenovec, uma defesa festejada como se de um golo se tratasse, já que a passagem à final estava praticamente assegurada. No entanto, os jogos só terminam quando o árbitro apita, e em cima do minuto 90 Borel volta a faturar, levando a decisão para um play-off. No duelo decisivo voltou a brilhar a estrela de Raymond Braine, jogador que ao longo de 90 minutos causou enormes calafrios na defesa da Vecchia Signora. O avançado belga apontou dois golos e viu ainda os seus companheiros baterem Valinasso em mais três ocasiões, perfazendo desta forma um resultado final de 5-1 a favor dos checoslovacos.
Toldi remata para o fundo das redes e coloca
o Ferencvaros na final
Na outra meia-final o Ferencvaros voltou a mostrar que me casa era uma equipa imbatível e acima disso tremendamente eficaz no plano ofensivo. No entanto, a turma de Budapeste começou por sofrer às mãos do Mozart do futebol, ou melhor, aos pés de Sindelar, jogador este que abriu o marcador no Ulloi Ut Stadium. Depois disto o goleador e capitão de equipa Gyorgy Sarosi mostrou todo o seu talento finalizador, contribuindo com dois golos para a reviravolta no marcador. Sarosi que haveria de sagrar-se o melhor marcador desta edição, com nove remates certeiros. Sindelar ainda reduziu, mas a dez minutos do final Kiss fez o 4-2 final para os húngaros. Em Viena assistiu-se a um encontro de alto nível técnico, um jogaço de futebol, como se diz na gíria. Sindelar, quem mais poderia ser, abriu o marcador para o Austria, emblema que aos 58 minutos vencia por 3-1 e desta forma empatava a eliminatória. Porém, na reta final, apareceu Toldi, que fez o seu segundo golo da tarde e mais do que isso garantiu que o Ferencvaros iria marcar presença na final da Mitropa.
O bilhete da 1ª mão da final da Taça Mitropa de 1935
Final essa que começou por ser discutida em Budapeste, onde mais uma vez o Ferencvaros ditou leis. Com apenas 30 minutos jogados já os húngaros lideravam o marcador, e logo por dois golos de diferença! Pareciam assim encaminhados para a glória final. Mas, ainda faltava muito para que essa glória fosse alcançada. Faltava um segundo jogo, e ainda a segunda parte da primeira mão, 45 minutos estes que foram terríveis para o Ferencvaros. Em primeiro lugar, o emblema da capital da Hungria ficou privado do seu grande goleador, Sarosi, que abandonou o retângulo de jogo por lesão, e pior do que isso viu o matador do adversário, Raymond Braine, reduzir para 1-2 aos 71 minutos, selando assim o resultado final. Na segunda mão, e mesmo com Sarosi recuperado, o Ferencvaros não se conseguiu impor ao Sparta de ferro, que logo aos 26 minutos inaugurava o marcador por intermédio de Faczinek. A reviravolta na eliminatória foi conformada pela grande estrela desta edição da Mitropa Cup, Raymond Braine. Aos 34 minutos o belga fez o 2-0, e já no segundo tempo, aos 69 minutos, fez um novo golo, carimbando assim não só a vitória no jogo como na competição. O Sparta, primeiro vencedor da competição europeia, voltava a erguer o troféu, juntando-se assim – na altura – aos italianos do Bologna na condição de clube que em mais ocasiões triunfou na prova idealizada por Hugo Meisl.

Números e nomes:

1ª Eliminatória (1ª e 2ª mãos)

Admira Viena (Áustria) – MTK Budapeste (Hungria): 3-2/1-7
Viktoria Plzen (Checoslováquia) - Juventus (Itália): 3-3/1-5
First Viena (Áustria) - Sparta Praga (Checoslováquia): 1-1/3-5
Ujpest (Hungria) – Fiorentina (Itália): 0-2/3-4
Rapid Viena (Áustria) - Zidenice (Checoslováquia): 2-2/2-3
Roma (Itália) - Ferencvaros (Hungria): 3-1/0-8
Szegedi (Hungria) - Slavia Praga (Checoslováquia): 1-4/1-0
Ambrosiana-Inter (Itália) - Austria Viena (Áustria): 2-5/1-3

Quartos-de-final (1ª e 2ª mãos)

MTK Budapeste (Hungria) - Juventus (Itália): 1-3/1-1
Sparta Praga (Checoslováquia) – Fiorentina (Itália): 7-1/1-3
Zidenice (Checoslováquia) – Ferencvaros (Hungria): 4-2/1-6
Slavia Praga (Checoslováquia) - Austria Viena (Áustria): 1-0/1-2/2-5 (desempate)

Meias-finais (1ª e 2ª mãos)

Ferencvaros (Hungria) - Austria Viena (Áustria): 4-2/2-3
Sparta Praga (Checoslováquia) - Juventus (Itália): 2-0/1-3/5-1 (desempate)

Final (1ª mão)

Ferencvaros (Hungria) – Sparta Praga (Checoslováquia): 2-1

Data: 8 de setembro de 1935
Estádio: Ulloi Ut, em Budapeste (Hungria)
Árbitro: William Walter Walden (Inglaterra)

Ferencvaros: Jozsef Háda, Gyula Polgár, Lajos Korányi, Károly Mikes, János Móré, Nándor Bán, Mihai Tanzer, Gyula Kiss, Gyorgy Sarosi (c), Géza Toldi, e Tibor Kemény. Treinador: Zoltan Blum.

Sparta Praga: Bohumil Klenovec, Jaroslav Burgr (c), Josef Ctyroky, Josef Kostalek, Jaroslav Boucek, Erich Srbek, Ferdinand Faczinek, Oldrich Zajucek, Raymond Braine, Oldrich Nejedly, e Geza Kalocsay. Treinador: Frantisek Sedlacek.

Golos: 1-0 (Toldi, aos 16m), 2-0 (Kiss, aos 27m), 2-1 (Braine, aos 71m).

Final (2ª mão)

Sparta Praga (Checoslováquia) – Ferencvaros (Hungria): 3-0

Data: 15 de setembro de 1935
Estádio: Strahov, em Praga (Checoslováquia)
Árbitro: Albert Foo (Inglaterra)

Sparta Praga: Bohumil Klenovec, Jaroslav Burgr (c), Josef Ctyroky, Josef Kostalek, Jaroslav Boucek, Erich Srbek, Ferdinand Faczinek, Oldrich Zajucek, Raymond Braine, Oldrich Nejedly, e Geza Kalocsay. Treinador: Frantisek Sedlacek.

Ferencvaros: Jozsef Háda, Gyula Polgár, Lajos Korányi, Károly Mikes, János Móré, Nándor Bán, Mihai Tanzer, Gyula Kiss, Gyorgy Sarosi (c), Géza Toldi, e Tibor Kemény. Treinador: Zoltan Blum.

Golos: 1-0 (Faczinek, aos 26m), 2-0 (Braine, aos 34m), 3-0 (Braine, aos 69m).
A turma do Sparta de Praga que em 1935 conquistou a segunda Taça Mitropa para o lendário clube

1936: Suíços entram em campo

Uma verdadeira relíquia: a medalha
atribuida aos campeões
da Taça Mitropa de 1936
A grande novidade da 10ª edição da Taça Mitropa foi a inclusão de uma nova nação na competição: a Suíça. Os helvéticos fizeram-se representar por quatro clubes que pouca ou nenhuma luta deram aos seus oponentes, numa demonstração clara de que no plano futebolístico a Suíça estava ainda muito longe de países como a Checoslováquia, a Hungria, a Áustria, e a Itália. Para acolher os emblemas suíços no certame o comité organizador da Mitropa teve a necessidade de incluir uma ronda pré-eliminar no calendário da edição de 1936, ronda essa disputada entre os quatro representantes da nação estreante e os quartos classificados dos campeonatos nacionais dos quatro países habituais da prova. E as memórias da estreia dos cavaleiros helvéticos nestas andanças europeias resume-se a uma palavra: goleada. Sem grandes dificuldades o Zidenice (Checoslováquia), o Phobus (Hungria), o Austria de Viena (Áustria), e o Torino (Itália) afastaram de forma concludente, isto é, na sequência de vitórias avolumadas, respetivamente o Lausanne-Sports, o Young Fellows, o FC Bern, e o Grasshopper de Zurique. 
 
Chegados à 1ª eliminatória um dos embates mais apetecíveis opunha os campeões húngaros, o MTK de Budapeste, aos vice-campeões da Áustria, o First Viena. Na primeira mão, ocorrida na capital da Hungria, esta última equipa mostrou o porquê de ter tido a defesa menos batida – apenas 25 golos consentidos – no campeonato austríaco de 35/36, ao barrar com êxito todas as investidas húngaras à sua baliza. Mais do que isso fizeram dois golos, por intermédio de Franz Erdl, que praticamente sentenciaram a eliminatória. Na segunda mão assistiu-se a mais uma grande exibição do First, e em particular de Gschweild, que além de ter apontado um dos cinco golos da sua equipa deu outros a marcar na sequência de belas jogadas individuais.
O First não foi a única equipa de Viena a fazer a festa da passagem aos quartos-de-final. O Austria, liderado pelo astro Matthias Sindelar, iniciou uma caminhada que seria de glória ante os campeões italianos de 1935/36, o Bologna, equipa esta que tinha colocado um ponto final num reinado de cinco anos consecutivos da Juventus no campeonato transalpino. Na primeira mão, jogada em Itália, os bolonheses exibiram-se a grande nível no plano defensivo, conseguindo anular os movimentos da grande estrela austríaca, Sindelar, pese embora ao nível atacante não tenham conseguido marcar mais do que dois golos, facto que a juntar ao golo sofrido fazia com que os detentores do scudetto levassem uma vantagem demasiado curta na bagagem para a segunda mão. Jogo este onde, e como seria de esperar, os austríacos entraram a todo o gás, chegando ao intervalo com uma vantagem de dois golos. Na segunda parte o Bologna surgiu mais atrevido no retângulo de jogo, mas foi o Austria, ou melhor, foi Sindelar, que deu a machadada final nas aspirações italianas. Duas jogadas magistrais do Homem de Papel culminaram na obtenção de dois golos – um deles da sua própria autoria e outro de Camillo Jerusalem – que selaram o resultado final em 4-0 a fazer dos austríacos, que desta forma continuavam em prova. 
 
Sindelar, sempre ele, a causar calafrios
na defesa do Bologna
Outra equipa italiana que ficou pelo caminho foi o Torino, que fazia a sua estreia nas competições europeias. A presença do emblema de Turim na Taça Mitropa de 36 é apontada por muitos historiadores desportivos como o início da lenda de Il Grande Torino, de um legado que iria durar até 1949, ano em que um trágico acidente aéreo eclipsou do mapa do futebol aquele que foi o conjunto mais brilhante do futebol italiano da segunda metade da década de 30 e dos anos 40 do século passado. Mas voltando à edição de 1936 da Mitropa, o Torino até nem entrou mal no duelo ante os húngaros do Ujpest, que do mítico recinto dos italianos, o Stadio Filadelfia, sairam derrotados por duas bolas a zero. Na segunda mão o Ujpest deu a volta à eliminatória, e muito devido à ação de uma jovem estrela que emergia então no emblema húngaro, estrela essa que dava pelo nome de Gyula Zsengeller, avançado que muito contribuiu para o robusto triunfo por 5-0 que abriu a porta dos quartos (-de-final) aos vice-campeões da Hungria.
Os campeões em título, o Sparta de Praga, chegavam à edição de 1936 da Taça Mitropa com a moral em alta, não só porque eram os detentores do troféu continental mas sobretudo porque haviam colocado um ponto final no domínio de três anos consecutivos dos vizinhos e rivais do Slavia no campeonato da Checoslováquia. No entanto, e contra todas as previsões iniciais, o Sparta enfrentou algumas dificuldades na eliminatória ante os estreantes do Phobus. De forma confortável os campões checoslovacos venceram, em casa, o encontro da primeira mão, por 5-2, com destaque para os dois golos de Nejedly, mas no jogo de volta foram surpreendentemente dominados pelos húngaros, que ao minuto 87 venciam por 4-1, e com este cenário impunha-se a necessidade de um play-off para desempatar a contenda. Contudo, nos segundos finais do jogo, surgiu o inspirado Nejedly, que com um remate fatal fez o 2-4 final que classificou o Sparta para a ronda seguinte. Foi por pouco que o campeão não caiu à primeira. 
 
Embate entre Roma e Rapid
Franz Binder foi o herói do Rapid de Viena no jogo da primeira ante os italianos da Roma. Com dois golos na conta pessoal o avançado austríaco contribiu assim para um triunfo de 3-1 da sua equipa, resultado que no entanto não foi suficiente para avançar na competição, já que na capital transalpina a turma local goleou por 5-1.
Outro dos grandes destaques individuais desta 10ª edição da Taça Mitropa foi o italiano Giuseppe Meazza, a grande estrela da Ambrosiana-Inter e da Squadra Azzura da década de 30. Peppino, como era carinhosamente tratado pelos companheiros de equipa e pelos adeptos da bola, foi a principal figura da eliminatória ante os checoslovacos do Zidenice, ao apontar sete (!) dos 11 golos com que os transalpinos afastaram sem dificuldade – com um resultado global de 11-3 – o quarto classificado do campeonato checoslovaco da temporada anterior. Meazza que seria o melhor marcador desta edição, com 10 tentos.
Pautado pelo equilíbrio foi o embate entre o Ferencvaros e o Slavia de Praga. Na primeira mão, em Budapeste, os vice-campeões da Mitropa da época anterior exerceram um domínio avassalador sobre o seu oponente, performance essa expressa numa vitória por 5-2, sendo que quatro dos cinco golos dos húngaros foram apontados pelo matador Gyorgy Sarosi. Na segunda mão inverteram-se os papéis, com o Slavia a cilindrar o seu oponente por 4-0 e a garantir desta forma a passagem à ronda seguinte. 
 
Por fim, a grande surpresa desta 1ª eliminatória, a eliminação do campeão austríaco, o Admira, diante dos estreantes checoslovacos do Prostejov. A surpresa, ou escândalo, como então foi descrita este embate, começou a ser desenhado em Viena, bela cidade de onde o Prostejov saiu com um triunfo de... 4-0!!! Drozd foi o grande herói dos novatos checoslovacos, ao apontar um hattrick nesta partida. Na segunda mão o Admira ainda tentou consertar os tremendos estragos feitos pelos checoslovacos em Viena, sendo que com apenas 10 minutos jogados já Bican e Hahnemann haviam colocado os campeões da Áustria a vencer por 2-0. No entanto, e depois desta entrada fulgurante do Admira, o Prostejov aguentou-se, foi travando os ataques do seu adversário, e aos 67 minutos reduziu para 1-2, sentenciando quase de imediato a eliminatória. O golo dos anfitriões despoletou a fúria dos vienenses, que até final viram cinco dos seus jogadores serem expulsos por comportamento violento. Que triste fim para o campeão da Áustria.

"Peppino" Meazza,
aqui a evidenciar toda a sua genialidade
O futebol italiano começava nos anos 30 a mostrar a sua tendência para a rigidez defensiva que hoje em dia o caracteriza. No duelo da primeira mão dos quartos-de-final a Ambrosiana-Inter abdicou por completo do seu setor atacante para passar 90 minutos a jogar... à defesa diante do First Viena. Perante o ferrolho italiano só por duas ocasiões os austríacos conseguiram marcar, garantindo assim uma vitória justa mas que se iria revelar demasiado curta na viagem para Milão. Aqui, a Ambrosiana-Inter mudou o chip e assumiu desde cedo o controlo do jogo, levando o perigo por diversas ocasiões à baliza contrária. A igualdade a uma bola registada ao intervalo não traduzia aquilo o que se havia passado no relvado durante os primeiros 45 minutos, onde os italianos foram nitidamente melhores. Porém, a justiça acabaria por chegar na etapa complementar, onde a Ambrosiana-Inter repetiu a dose e esmagou por completo o First, apontando três golos que selaram o marcador em 4-1 e acima de tudo garantiram a presença nas meias-finais.
A outra equipa italiana ainda em prova, a Roma, saiu de cena de forma inglória. Realizou uma magnífica exibição em Praga, diante do Sparta, na primeira mão da eliminatória, exibição essa que no entanto não ficou traduzida num resultado positivo muito por culpa do seu inexperiente guarda-redes de 17 anos, Fulvio Bernardini, que na hora h sucumbiu ao poder de fogo dos atacantes Braine e Nejedly. Seria pois com uma desvantagem de 0-3 que a Roma iria receber na segunda mão os detentores do ceptro, num jogo que começou de forma eletrizante com dois golos logo nos primeiros dois minutos! Os romanos abriram o marcador mal o árbitro deu início ao duelo, sendo que no minuto seguinte o Sparta empatou. Depois disto os checoslovacos remeteram-se à defesa, e até final o resultado não mais foi alterado.
A aventura dos estreantes do Prostejov terminou aos pés do Ujpest, última equipa esta que sob o comando da jovem estrela Gyula Zsengeller dominou ambas partidas da eliminatória, acabando por vencer com um total de 3-0.
Em Viena, o Austria precisou apenas de 45 minutos para garantir uma confortável vitória por 3-0 no encontro da primeira mão diante do Slavia de Praga. Sindelar, Sesta, e Nausch foram os homens golos dos austríacos, que na segunda mão exibiram-se de forma majestosa no plano defensivo, consentindo apenas um golo aos vice-campeões da Checoslováquia.

A talentosa squadra da Ambrosiana-Inter que chegou às meias-finais da Mitropa em 36

 

Milão testemunhou um grande jogo de futebol protagonizada pela Ambrosiana-Inter e pelo Sparta de Praga, a contar para a primeira mão das meias-finais. Os campeões da nação de leste beneficiaram de uma intervenção infeliz do defesa transalpino Ernesto Mascheroni para se colocarem em vantagem logo aos 9 minutos, vantagem essa que seria ampliada três minutos depois pelo temível dianteiro belga Braine. Os nerazzurri reagiram bem, e à passagem do quarto de hora Ferrari reduziu. Até ao intervalo a avalanche italiana iria causar mais estragos junto da baliza de Klenovec, primeiro por Meazza, aos 31 minutos, e posteriormente por intermédio de Ferraris, que ao minuto 35 colocou a Ambrosiana-Inter em vantagem. No entanto, do outro lado estavam dois dos maiores goleadores do futebol continental de então, Raymond Braine e Oldrich Nejedly. Este último empatou a partida a quatro minutos do descanso, ao passo que o belga recolocou o Sparta na liderança aos 72 minutos. Zaycek deu a machadada final aos 84 minutos, selando o marcador em 5-3 a favor do Sparta, que assim tinha caminho aberto para uma nova final. Em Praga, na segunda mão, os italianos ainda lutaram por um final feliz, mas do outro lado Braine teve uma nova tarde verdadeiramente diabólica, apontando dois dos três golos com que o Sparta obteve um novo triunfo e carimbou a passagem ao encontro decisivo.

E se Braine foi o herói da meia-final entre Sparta e Ambrosiana-Inter, Sindelar não quis ficar atrás do belga e vestiu também ele a capa de herói da eliminatória entre o Austria de Viena e o Ujpest. No entanto, a primeira mão, ocorrida na Hungria, ficou manchada pela violência, primeiro entre jogadores de ambas as equipas, e depois entre adeptos. De tal modo que a polícia foi chamada a intervir no sentido de evitar uma batalha campal. No plano desportivo, o Austria levou a melhor, por 2-1. Na segunda mão o talentoso Gyula Zsengeller ainda deu esperanças ao Ujpest, depois de inaugurar o marcador no Estádio do Prater. A entrada fulgurante dos húngaros seria no entanto sol de pouca dura, já que depois disto apareceu... Matthias Sindelar. O Mozart do futebol liderou o assalto do Austria à baliza húngara, apontando dois golos e dando outros a marcar, contribuindo, e muito, para que o Austria vencesse por claros 5-2 e garantisse a presença em mais uma final.

Liderado pelo Mozart do Futebol - Matthias Sindelar - o Austria de Viena
voltou em 1936 a subir ao topo da Europa do futebol

 

A 6 de setembro de 1936 o Estádio do Prater, em Viena, recebeu 42.000 espetadores ansiosos por ver aquele que se previa ser um hino ao futebol espetáculo, prevendo-se emoção e golos em catadupa. O Sparta chegava à capital da Áustria com um invejável registo de uma centena de golos apontados em 26 partidas disputadas – repartidas entre o campeonato checoslovaco e a Mitropa Cup!!! Porém, a veia goleadora dos rapazes de Praga não se fez notar, muito devido à soberba performance da defesa local, que anulou com mestria os perigosos avançados Braine e Nejedly. Não querendo ficar atrás do setor homólogo, também a defesa do Sparta esteve impecável na hora de travar... Sindelar. Resultado final: 0-0. Em Praga, uma semana mais tarde, o Estádio Strahov foi pequeno demais para o número de entusiastas que não quiseram perder o segundo assalto da grande final. Mais uma vez o Austria esteve intransponível no plano defensivo, sendo aqui de destacar a aexibição do defesa Mock que bloqueou com garra e arte todas as tentativas de Raymond Braine importunar o guardião Zohrer. Karl Sesta fez o mesmo com Nejedly. Do lado oposto do campo estava Sindelar, que aos 67 minutos pegou na bola e como que num ápice de magia colocou-a magistralmente nos pés de Jerusalem que fez o único golo do jogo, o golo da vitória, o golo do segundo título continental para o Austria de Viena.

Nomes e números:

Pré-Eliminatória (1ª e 2ª mãos)

Zidenice (Checoslováquia) - Lausanne-Sports (Suíça): 5-0/1-2
Young Fellows (Suíça) Phobus (Hungria): 0-3/2-6
FC Bern (Suíça) – Torino (Itália): 1-4/1-7
Austria Viena (Áustria) - Grasshopper (Suíça): 3-1/1-1

1ª Eliminatória (1ª e 2ª mãos)

MTK Budapeste (Hungria) - First Viena (Áustria): 0-2/1-5
Zidenice (Checoslováquia) – Ambrosiana-Inter (Itália): 2-3/1-8
Sparta Praga (Checoslováquia) - Phobus (Hungria): 5-2/2-4
Rapid Viena (Áustria) – Roma (Itália): 3-1/1-5
Admira (Áustria) - Prostejov (Checoslováquia): 0-4/3-2
Torino (Itália) – Ujpest (Hungria): 2-0/0-5
Bologna (Itália) - Austria Viena (Áustria): 2-1/0-4
Ferencvaros (Hungria) - Slavia Praga (Checoslováquia): 5-2/0-4

Quartos-de-final (1ª e 2ª mãos)

First Viena (Áustria) – Ambrosiana-Inter (Itália): 2-0/1-4
Austria Viena (Áustria) - Slavia Praga (Checoslováquia): 3-0/0-1
Sparta Praga (Checoslováquia) - Roma (Itália): 3-0/1-1
Prostejov (Checoslováquia) – Ujpest (Hungria): 0-1/0-2

Meias-finais (1ª e 2ª mãos)

Ambrosiana-Inter (Itália) - Sparta Praga (Checoslováquia): 3-5/2-3
Ujpest (Hungria) - Austria Viena (Áustria): 1-2/2-5

Final (1ª mão)

Austria Viena (Áustria) – Sparta Praga (Checoslováquia): 0-0

Data: 6 de setembro de 1936
Estádio: Prater, em Viena (Áustria)
Árbitro: Giuseppe Scarpi (Itália)

Austria Viena: Rudolf Zohrer, Karl Andritz, Karl Sesta, Karl Adamek, Johann Mock, Walter Nausch (c), Franz Riegler, Josef Stroh, Matthias Sindelar, Camillo Jerusalem, e Rudolf Viertl. Treinador: Jeno Konrad.

Sparta Praga: Bohumil Klenovec, Jaroslav Burgr (c), Josef Ctyroky, Josef Kostalek, Jaroslav Boucek, Ludovit Rado, Ferdinand Faczinek, Oldrich Zajucek, Raymond Braine, Oldrich Nejedly, e Geza Kalocsay. Treinador: Frantisek Sedlacek.

Final (2ª mão)

Sparta Praga (Checoslováquia) – Austria Viena (Áustria): 0-1

Data: 13 de setembro de 1936
Estádio: Strahov, em Praga (Checoslováquia)
Árbitro: Rinaldo Barlassina (Itália)

Sparta Praga: Bohumil Klenovec, Jaroslav Burgr (c), Josef Ctyroky, Josef Kostalek, Jaroslav Boucek, Ludovit Rado, Ferdinand Faczinek, Oldrich Zajucek, Raymond Braine, Oldrich Nejedly, e Geza Kalocsay. Treinador: Frantisek Sedlacek.

Austria Viena: Rudolf Zohrer, Karl Andritz, Karl Sesta, Karl Adamek, Johann Mock, Walter Nausch (c), Franz Riegler, Josef Stroh, Matthias Sindelar, Camillo Jerusalem, e Rudolf Viertl. Treinador: Jeno Konrad.

Golo: 0-1 (Jerusalem, aos 67m)
 
Nota: Texto escrito em 28 de maio de 2015 no blog: www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com 

Os anos dourados (1927-1939) da Taça Mitropa - A primeira montra de estrelas do futebol europeu (parte IV)

Matthias Sindelar, um dos mais virtuosos
futebolistas da História e a grande figura
da edição de 1933 da Mitropa Cup
Um céu repleto de estrelas, assim era vista a Taça Mitropa nos inícios dos anos 30. Uma deslumbrante constelação de estrelas dava cor a uma competição que em 1933 partia para sua sétima edição, e onde na qual aquela que foi talvez a estrela mais cintilante da história da Mitropa Cup teve a sua primeira aparição. Matthias Sindelar de seu nome, o Homem de Papel, ou o Mozart do futebol austríaco, uma lenda que vive na memória dos (poucos) comuns mortais - ainda entre nós - que o viram atuar e no imaginário de todos aqueles que lamentam não ter vivido no tempo em que este imortal do futebol espalhou (a sua) magia pelos retângulos do Velho Continente. Sindi - como era carinhosamente tratado pelos seus amigos e companheiros de equipa - foi então a estrela mais reluzente - não só pelo futebol que mostrou mas igualmente pela influência que teve na condução do seu Austria de Viena ao triunfo no certame - daquela que foi a edição da Taça Mitropa que mais figurais lendárias do futebol internacional das décadas de 20 e 30 reuniu ao seu redor. Nomes como Raymond Braine, István Avar, Raimundo Orsi, Josef Silný, Frantisek Plánicka, Giampiero Combi, ou Giuseppe Meazza, foram algumas das personagens mais famosas de um certame que atestou - uma vez mais - a mestria e o poderio do futebol austríaco de então, na sequência do triunfo final alcançado pelo estreante - no que concerne à Mitropa Cup - Austria de Viena. Liderado por aquele que era já considerado então o futebolista mais virtuoso da Áustria, Sindelar, o clube de Viena não teve contudo um trajeto livre de dificuldades até ao momento em que ergueu o troféu. Na primeira ronda o obstáculo deu pelo nome de Slavia de Praga, os campeões da Checoslováquia, cujo ponto forte estava na baliza: Frantisek Plánicka. Na primeira mão, realizada em Praga, o Austria pôde dar-se por satisfeito por ter regressado a casa com uma derrota de apenas 3-1. E dizemos apenas porque segundo rezam as crónicas de então o trio de avançados dos checoslovacos, Svoboda, Sobotka, e Kopecky - cada um deles com um golo apontado neste encontro - foi uma persistente dor de cabeça para a defensiva forasteira. Na segunda mão inverteu-se o cenário, com o Austria a dominar por completo um jogo onde Matthias Sindelar deslumbrou a assistência e... os adversários! Uma exibição soberba do Homem de Papel - assim chamado devido à sua estrutura física franzina - guiou os vienenses a um triunfo por 3-0, um score que só não foi mais avolumado devido à grande exibição do mãos de ferro Plánicka. Rudolf Viertl, com dois golos, e Sindelar com um, foram os homens que derrubaram a muralha checoslovaca rumo às meias-finais.

Raimundo Orsi
E se o embate entre checoslovacos e austríacos havia sido - no cômputo das duas mãos - equilibrado, o jogo entre os campeões italianos e húngaros, respetivamente, a Juventus e o Ujpest, foi notoriamente desnivelado.  Um resultado total de 10-4 assim o comprovou. Na primeira mão, ocorrida em Budapeste, a Juve chegou à meia hora da etapa inicial a vencer por 4-0! No jogo de volta o ítalo-argentino Raimundo Orsi assumiu o papel de estrela da companhia, ao apontar quatro dos seis golos - o resultado final foi de 6-2 - com que os transalpinos despacharam os húngaros. Orsi, que também tinha marcado um golo no início deste duplo embate, perfazia assim um total de cinco remates certeiros, que lhe iriam conferir a par de Sindelar, Kloz, e Meazza o título de melhor marcador da edição de 1933 da Mitropa.
Quem também teve motivos para festejar nesta primeira ronda foi a outra equipa italiana em prova, a Ambrosiana-Inter, que se desenvencilhou dos campeões da Áustria, o First de Viena, por um total de 4-1. Porém, na primeira mão, na capital austríaca, o emblema de Milão não teve vida fácil, devendo ao seu guarda-redes, Carlo Ceresoli, o facto de ter saído derrotado pela margem mínima (1-0). Na segunda mão uma exibição de gala de Giuseppe Meazza acabou com as aspirações dos conterrâneos de Mozart. Secundado de forma brilhante pelos extremos Frione e Levratto, Il Peppino, como era conhecido, apontou três dos quatro golos da sua squadra, que assim avançava para a fase seguinte, onde iria enfrentar o Sparta de Praga, conjunto este que graças à sua temível linha avançada formada por Raymond Braine, Josef Silný, Nejedly, e Frantisek Kloz afastou com dois triunfos mínimos (3-2 e 2-1) mas inteiramente merecidos o MTK de Budapeste.
A equipa da Juventus que na meia-final foi varrida por um vendaval chamado... Sindelar
A primeira mão das meias-finais praticamente decifrou quais os finalistas da edição de 1933 da Taça Mitropa, tal foi a robusta vantagem que as equipas que atuaram diante do seu público alcançaram. Em Viena, Sindelar voltou a fazer das suas. Que o diga Luis Monti, que teve a ingrata tarefa de marcar o Homem de Papel, que no encontro da capital austríaca esteve verdadeiramente endiabrado, sendo da sua autoria o golo madrugador - apontado aos três minutos - que violou a baliza de Combi. A veia artística de Sindi espicaçou a fúria dos italianos, que ao longo de todo o encontro recorreram a inúmeras entradas violentas para travar o astro austríaco. Numa dessa entradas o marcador direto do craque do Austria de Viena, Monti, recebeu ordem de expulsão por parte do árbitro húngaro Arpad Keil, já perto do final de uma partida que terminou com o triunfo por 3-0 dos vencedores da Taça da Áustria da época 32/33 - Sindelar bisou e Viktor Spechtl apontou o terceiro ainda antes do intervalo.
E se o Homem de Papel foi o herói do jogo de Viena, o guarda-redes austríaco Johann Billich centrou em si as atenções na partida de Turim, disputada no Stadio Benito Mussolini. Como lhe competia a Juventus entrou em campo disposta a provar que a tarefa de dar a volta ao marcador não era uma missão de todo impossível, com o trio ofensivo formado por Ferrari, Borel, e Cesarini a criar um sem número de oportunidades junto da baliza forasteira. Porém, esta era guardada de maneira heróica por Billich que só por uma vez foi buscar a bola ao fundo das redes, na sequência de um remate fulminante de Giovanni Ferrari, aos 21 minutos. Golo que foi sol de pouca dura, já que volvidos apenas nove minutos Josef Stroh restabeleceu a igualdade no marcador que até final não mais iria sofrer alterações, não obstante da avalanche ofensiva patenteada pela Juve na etapa complementar.

Attilio Demaria
Em Milão, Attilio Demaria foi a estrela do primeiro round entre a Ambrosiana-Inter e o Sparta de Praga. O ítalo-argentino apontou três dos quatro golos com que os italianos derrotaram (4-1) os checoslovacos. Este jogo teve a particularidade de conhecer duas partes bem distintas. A primeira foi desenvolvida num ritmo frenético por parte da turma da casa, que ao intervalo já vencia por 4-0, ao passo que a segunda foi lenta e desprovida de grandes interesses - a exceção foi talvez o golo do Sparta, apontado por Nejedly - muito por culpa do extremo calor que abraçou Milão.
E se o calor havia massacrado os jogadores da Ambrosiana-Inter na primeira mão, em Praga o massacre foi protagonizado pelos futebolistas do Sparta, que durante 90 minutos não largaram a baliza de Ceresoli. Ataques atrás de ataques resumiram um encontro de sentido - quase - único, o da baliza dos transalpinos, que muito tiveram de suar para sair da capital da Checoslováquia com uma preciosa igualdade a duas bolas, resultados que assim lhes garantia a presença na final. Frantisek Klos marcou os dois golos do Sparta, enquanto que do outro lado Demaria voltou a ser o abono de família da squadra de Milão, ao apontar mais um golo, o seu quarto no confronto com os checoslovacos.

Sindelar e Meazza, duas lendas
do futebol mundial dos anos 30,
posam juntos antes da final
Mitropa Cup de 1933
A 3 de setembro de 1933 a Europa do futebol acordou envolta num clima de entusiasmo, já que nesse dia dois dos maiores futebolistas de então iriam enfrentar-se na primeira mão da final da Mitropa Cup. Giuseppe Meazza e Matthias Sindelar, respetivamente as estrelas principais da Ambrosiana-Inter e do Austria de Viena. Ambos, Il Peppino e Sindi, jogaram de forma magistral, como lhes era característico, num jogo marcado pelo drama e pela postura heróica dos futebolistas daquele tempo. O azar bateu à porta dos italianos, que cedo se viram privados do atacante Felicio Levratto, o qual teve de abandonar por largos minutos o relvado por lesão, numa altura em que as substituições ainda não eram permitidas.
A jogar com menos um elemento os transalpinos não deixaram porém de atacar a baliza de Billich, sempre com perigo, e quase sempre por intermédio do génio Meazza. Fazendo jus a um velho ditado popular português, "água mole em pedra dura tanto bate até que fura", Il Peppino iria inaugurar o marcador a cinco minutos do intervalo, período em que para espanto da multidão presente na Arena Civica, Levratto retorna ao relvado - lesionado - para, no minuto seguinte, fazer o 2-0, naquele que foi um ato de coragem e paixão pelo emblema que carregava ao peito. No segundo tempo os papéis inverteram-se.
O Austria passou a controlar o jogo, postura essa que seria premiada com um golo, apontado por Rudolf Viertl, aos 77 minutos. 2-1, vitória da Ambrosiana-Inter, que partia assim para Viena com uma magra vantagem na bagagem. E como seria insuficiente...

As três equipas - o Austria de Viena, a Ambrosina-Inter, e o trio de arbitragem - que deram vida à final  de 1933 posam juntas antes do pontapé de saída

 

Apenas cinco dias mais tarde as duas formações voltaram a medir forças, desta feita no Estádio do Prater - que havia sido inaugurado dois anos antes. Um embate que se resumiu em duas palavras: Matthias Sindelar. Simplesmente divina a atuação do Homem de Papel, que em cima do intervalo converteu uma grande penalidade que colocava a eliminatória em igualdade. Com sucessivos dribles diabólicos sobre os seus adversários, Sindi foi um quebra-cabeças constante para o último reduto dos nerazzurri, sendo que aos 80 minutos o génio austríaco levou a multidão ao delírio na sequência de uma soberba jogada individual que foi concluída com a bola a beijar o fundo das redes de Ceresoli. Este era, contudo, um duelo de astros, e quase na jogada seguinte Giuseppe Meazza também tirou um coelho da cartola, fazendo o 1-2, numa altura em que a Ambrosiana-Inter estava reduzida a nove homens, já que minutos antes dois jogadores seus - Allemandi e Demaria - haviam sido expulsos pelo árbitro checoslovaco Frantisek Cejnar. E eis que quando os 58 000 espectadores presentes no Prater de Viena já imaginavam um terceiro jogo para decidir quem iria ficar com o título de campeão, Matthias Sindelar, sempre ele, edifica um magnífico remate em vólei que termina no fundo da baliza italiana, quando o relógio marcava 88 minutos. Todo o estádio entrou em delírio perante aquela obra de arte criada pelo artista vienense. Um golo que mais do que conferir o título ao Austria Viena conferia a Sindi o estatuto de imortal do belo jogo.

Números e nomes:

Quartos-de-final (1ª e 2ª mãos)

Ujpest (Hungria) - Juventus (Itália): 2-4/2-6

Slavia Praga (Checoslováquia) - Austria Viena (Áustria): 3-1/0-3

MTK Budapeste (Hungria) - Sparta Praga (Checoslováquia): 2-3/1-2

First Viena (Áustria) - Ambrosiana-Inter (Itália): 1-0/0-4

Meias-finais (1ª e 2ª mãos)

Ambrosiana-Inter (Itália) - Sparta Praga (Checoslováquia): 4-1/2-2

Austria Viena (Áustria) - Juventus (Itália): 3-0/1-1

Final (1ª mão)

Ambrosiana-Inter (Itália) - Austria Viena (Áustria): 2-1

Data: 3 de setembro de 1933
Estádio: Arena Civica, em Milão (Itália)
Árbitro: Ferenc Klug (Hungria)

Ambrosiana-Inter: Carlo Ceresoli, Paolo Agosteo, Luigi Allemandi, Alfredo Pitto, Ricardo Faccio, Armando Castellazzi, Francisco Frione, Renato De Manzano, Giuseppe Meazza (c), Attilio Demaria, e Felice Levratto. Treinador: Árpád Weisz.

Austria Viena: Johann Billich, Karl Graf, Walter Nausch (c), Matthias Majemnik, Johann Mock, Karl Gall, Josef Molzer, Josef Stroh, Matthias Sindelar, Camillo Jerusalem, e Rudolf Viertl. Treinador: Josef Blum.

Golos: 1-0 (Meazza, aos 40m), 2-0 (Levratto, aos 41m), 2-1 (Viertl, aos 77m)

Final (2ª mão)

Austria Viena (Áustria) - Ambrosiana-Inter (Itália): 3-1

Data: 8 de setembro de 1933
Estádio: Prater, em Viena (Áustria)
Árbitro: Frantisek Cejnar (Checoslováquia)

Austria Viena: Johann Billich, Karl Graf, Walter Nausch (c), Matthias Majemnik, Johann Mock, Karl Adamek, Josef Molzer, Josef Stroh, Matthias Sindelar, Camillo Jerusalem, e Rudolf Viertl. Treinador: Josef Blum.

Ambrosiana-Inter: Carlo Ceresoli, Paolo Agosteo, Luigi Allemandi, Alfredo Pitto, Ricardo Faccio, Giuseppe Viani, Francisco Frione, Pietro Serantoni, Giuseppe Meazza (c), Attilio Demaria, e Armando Castellazzi. Treinador: Árpád Weisz.

Golos: 1-0 (Sindelar, aos 45), 2-0 (Sindelar, aos 80m), 2-1 (Meazza, aos 85m), 3-1 (Sindelar, aos 88m)

Matthias Sindelar - o primeiro jogar na fila de cima, a contar da esquerda para a direita - foi o ilustre condutor
que levou o Austria de Viena à conquista da Taça Mitropa de 1933

 

1934: O alargamento da grande montra europeia de clubes

Carlo Reguzzoni, o melhor marcador
da edição de 1934 da competição
A popularidade da Taça Mitropa na Europa do futebol na década de 30 era por demais evidente. O interesse em torno da competição - quer da parte dos clubes, quer da parte dos adeptos - subida de edição para edição. Ciente deste facto a organização decide em 1934 duplicar o número de participantes, passando de 8 para 16 os pretendentes ao trono da competição. Uma verdadeira Liga dos Campeões dos anos 30, com mais jogos, maior competitividade, e um maior número de estrelas envolvidas, era este o panorama da oitava edição da Mitropa.
Cada um dos quatro países envolvidos na competição passava agora a dispor de quatro vagas a serem ocupadas pelo campeão, vice-campeão, terceiro e quarto classificados, sendo que no caso da Áustria uma dessas vagas era ocupada pelo vencedor da taça. Com o aumento do número de clubes a competição europeia criada por Hugo Meisl conheceu alguns emblemas novos em 1934. Um desses caloiros foi o Floridsdorfer, da Áustria, que logo na primeira ronda evidenciou toda a sua inexperiência internacional ao ser copiosamente goleado por um resultado global de 10-1 pelos antigos campeões da prova, os húngaros do Ferencvaros, com o destaque individual deste confronto desnivelado a ir para o avançado do clube de Budapeste, Gyorgy Sarosi, autor de três dos dez tentos da sua equipa, a qual no jogo da segunda mão, disputado no mítico estádio Hohe Warte, em Viena, atuou para 800 pessoas, num recinto que tinha capacidade para acolher 40 000, constituindo-se este como um dos registos mais baixos - em termos de assistência - da história da era dourada da Mitropa Cup
Estreia auspiciosa tiveram os checoslovacos do Kladno, que protagonizariam a maior surpresa desta primeira eliminatória ao afastar os vice-campeões da temporada anterior, a Ambrosiana-Inter. Na primeira mão, os italianos arrancaram uma igualdade a uma bola no terreno do adversário, sendo impensável que no encontro de volta, em Milão, pudessem deixar escapar a oportunidade de continuar a sua caminhada rumo a uma nova final, no mínimo! Na verdade, Meazza e seus companheiros estavam enganados, já que uma exibição letal do ex-avançado do Sparta de Praga, Frantisek Kloz - um dos melhores marcadores da edição anterior - ajudou o Kladno a vencer em Itália por 3-2 e colocar desta forma a Europa do futebol em estado de choque! Pudera.

Angelo Schiavio remata para o fundo das redes húngaras
Passagem de eliminatória complicada teria o futuro campeão da prova, os também italianos do Bologna, que não tiveram vida fácil diante dos húngaros do Bocskai, que no jogo da primeira mão, no Stadio del Litorialle - atualmente denominado de Renato dall'Ara - se apresentou com uma defesa de ferro, só derrubada pela arte e força de Carlo Reguzzoni e da grande estrela da equipa, Angelo Schiavio. Na segunda mão foi a vez do setor defensivo dos italianos brilhar, segurando a avalanche ofensiva dos húngaros que tiveram em Jeno Vincze a sua maior figura, sendo dele um dos golos com que o Bocskai derrotou o Bologna, por 2-1. Resultado, contudo, insuficiente para passar aos quartos-de-final, já que o tento de Reguzzoni fez estalar a festa entre a comitiva transaplina. A primeira de muitas festas para os rapazes comandados pelo húngaro Lajos Kovács ao longo desta edição.
Outra das surpresas desta primeira ronda foi a eliminação dos campeões em título, o Austria de Viena, aos pés dos húngaros do Ujpest. Privados do seu capitão de equipa, Walter Nausch, por se encontrar lesionado, os austríacos foram derrotados pelo mesmo score (2-1) nos dois embates, onde ficou vincada a robustez defensiva do vice-campeão magiar.
Tranquila foi a passagem dos campeões de Itália, a Juventus, diante dos frágeis checoslovacos do FK Teplice, enquanto que o equilíbrio surgiu em dois dos restantes duelos desta primeira eliminatória, decididos num terceiro, quarto, quinto, e sexto jogos!!! Sem a sua estrela-mor, Anton Schall, os campeões da Áustria, o Admira de Viena, enfrentaram os estreantes do Nápoles, que na primeira mão causou surpresa ao empatar a zero bolas no terreno do adversário. Na cidade do sul de Itália verificou-se um novo empate no jogo de volta, desta feita com golos, 2-2, tendo os napolitanos estado em vantagem grande parte do tempo por 2-0, score que até poderia ser mais avolumado não fosse a tarde inspirada do guardião Peter Platzer. Porém, na reta final da partida apareceu Adolf Vogl, que com dois golos obrigou à necessidade de se realizar um terceiro e decisivo duelo. Ato este que decorreu em campo neutro, em Zurique mais concretamente, tendo ai o Admira vincado o porquê de ter vencido com distinção o competitivo campeonato austríaco na temporada anterior. 5-0, foi o pesado resultado com que os vienenses afastaram os italianos, com destaque para as magníficas performances de Stoiber, Sigl, e - mais uma vez - Vogl.

Raymond Braine, uma das grandes
estrelas do Sparta Praga
Renhida foi também a eliminatória entre o MTK de Budapeste e o Sparta de Praga. Na primeira mão, na capital da Checoslováquia, os húngaros surpreenderam o seu oponente com um triunfo por 2-1, enquanto que no jogo de volta foi a vez do belga Raymond Braine e do checoslovaco Nejedly guiarem o Sparta até um triunfo por 5-4, empatando assim a eliminatória, o que obrigou a um jogo de desempate. E aqui surgiu a polémica. O MTK protestou a utilização por parte do Sparta do jogador Facsinek no encontro do play-off de desempate, partida essa que os checoslovacos haviam vencido por 5-2. Na sequência desse protesto o comité organizador da Mitropa decidiu anular os três jogos da eliminatória disputados entre estes dois clubes, obrigando a que tudo fosse repetido, ou seja, a eliminatória iria começar do zero! No primeiro jogo o MTK venceu em casa por 2-1, enquanto que uma semana mais tarde o Sparta aplicou ao adversário o mesmo resultado, obrigando a um novo jogo de desempate. Para não variar, o equilíbrio foi a nota dominante numa eliminatória que teimava em não ser fechada, conforme traduz o resultado final de 1-1. Perante tal facto, os organizadores da prova tiveram de proceder a um sorteio para decidir quem avançaria para os quartos-de-final, tendo a sorte bafejado o Sparta Praga.
Pior sorte teve a outra equipa de Praga, o Slavia, que perdeu o braço de ferro com o Rapid de Viena.

Gyorgy Sarosi
Gyorgy Sarosi foi a vedeta do jogo da primeira mão dos quartos-de final entre o Ferencvaros e o surpreendente Kladno, ao apontar três dos seis golos com que a sua equipa esmagou (6-0) os checoslovacos, os quais na segunda mão estiveram muito perto de alcançar o impossível, como comprova o triunfo por 4-1, num jogo em que a linha defensiva dos húngaros mostrou não estar à altura da sua congénere ofensiva.  
Com a preciosa ajuda do melhor marcador do campeonato italiano da temporada transata, Felice Borel, a Juventus alcançou uma saborosa vitória - todas o são, naturalmente - em casa do Ujpest, por 3-1, com o citado atleta a fazer o gosto ao pé em duas ocasiões. Na segunda mão uma exibição categórica dos irmãos gémeos Mario e Giovanni Varglien no setor defensivo da Vecchia Signora impediu que o ataque dos húngaros fizesse estragos de maior em Turim, tendo o encontro terminado com um empate a uma bola, com Borel a apontar o tento dos italianos que assim seguiam em frente. Tranquila foi a passagem do Bologna, que na primeira mão, diante do seu público, humilhou por completo o Rapid de Viena. 6-1 foi o resultado de uma partida onde os atacantes Reguzzoni e Schiavio estiveram em claro destaque ao apontarem os golos da sua equipa. Em Viena, o Rapid adiantou-se cedo no marcador, por intermédio de Binder, logo aos dois minutos, dando ideia de que o milagre poderia acontecer, mas Reguzzoni logo tratou de arrefecer o ímpeto dos locais com o golo do empate, de nada valendo os três golos de Binder no segundo tempo.
Em grande forma estava por esta altura o Admira de Viena, que na receção ao Sparta de Praga aplicou a chapa 4 com uma classe meritória inquestionável, numa partida onde no plano individual sobressaiu o austríaco Wilhelm Hahnemann. Na segunda mão, e contrariamente ao que se previa, foi o Admira a entrar mais atrevido no jogo, tendo o bis de Karl Durspekt colocado os visitantes a vencer por 2-0 ao intervalo. Com a passagem às meias finais mais do que assegurada os vienenses abrandaram na segunda parte, permitindo que os checoslovacos concluíssem a sua participação na Mitropa Cup de 1934 com uma vitória (3-2).
Capitães do Ferencvaros e do Bologna posam para a posteridade junto da equipa de arbitragem
antes do início da primeira mão da meia-final
O primeiro embate das meias-finais comprovou que o Bologna era de facto uma das grandes equipas da Europa dos anos 30. Que o diga o Ferencvaros, que na primeira mão não foi além de um empate caseiro antes os italianos, que por sua vez no jogo de volta esmagaram por completo os húngaros na sequência de um robusto triunfo por 5-1, com relevo para as exibições de Fedullo e Schiavio, este último autor de dois golos. Na outra meia-final o Admira de Viena deu uma nova prova da sua condição de belíssima equipa. Com 50 minutos cravados no relógio - na partida da primeira mão - a turma austríaca já vencia a Juventus por 3-0. Um golo tardio de Orsi fechou o marcador em 3-1 para a turma da casa, um golo que dava assim alguma esperança ao campeão italiano. Juve que na segunda mão dominou por completo a partida, sendo que numa altura em que estavam decorridos 30 minutos de jogo o marcador indicava já uma vantagem de dois golos para os transalpinos - com golos de Borel e Orsi - que assim empatavam a eliminatória. Contudo, na aproximação ao intervalo, um contra-ataque letal do Admira foi concluído com êxito por Vogl. Um golo que selou a qualificação dos austríacos para a final, já que no segundo tempo a turma orientada por Hans Skolaut fechou-se a sete chaves na sua zona defensiva, travando de todas as formas e feitios os sucessivos ataques dos juventinos.

Fase da partida entre Bologna e Admira Viena
E assim chegávamos a mais uma final, onde surgiu pela segunda vez - no espaço de três anos - Il Grande Bologna, clube que, recorde-se, dois anos antes havia vencido a competição sem precisar de jogar a final, devido ao castigo imposto pela organização aos outros integrantes - Juventus e Slavia de Praga - de uma das semi-finais. Bologna que se viu a braços com o azar na partida da primeira mão da final da edição de 1934, já que por motivos de lesão a sua maior estrela, Angelo Schiavio, não pôde viajar para Viena. No entanto, e em contrário ao que se esperava, os italianos não ficariam fragilizados por esse facto, já que ao intervalo venciam o seu oponente por duas bolas a zero. No segundo tempo, e no curto espaço de seis minutos, o Admira deu a volta ao marcador, o qual não mais viria a ser alterado até final, graças a uma magnífica exibição do guardião bolonhês Mario Gianni. Na segunda mão, e já com o seu capitão e estrela-mor Schavio em campo, o Bologna dominou por completo os acontecimentos. Jogada de baixo de um calor infernal a partida foi de sentido único, o da baliza forasteira, com sucessivos lances de perigo a ocorreram junto da baliza à guarda de Platzer. O perigo número um na área vienense dava pelo nome de Carlo Reguzzoni, que neste encontro esteve verdadeiramente endiabrado. Apontou três dos cinco golos com que o Bologna venceu o seu oponente, mas poderia ter marcado muitos mais, tais foram as ocasiões em que assustou Platzer. Com este hattrick Reguzzoni elevaria para 10 o número de golos marcados na competição, facto que fez dele o melhor da edição de 1934 da Mitropa. Quando o árbitro inglês Arthur James Jewell apitou para o final do encontro os 25 000 espectadores presentes no Stadio del Littoriale explodiram de alegria: Il Grande Bologna era de novo campeão da Europa.
Depois da conquista do Mundo - na sequência do triunfo da Squadra Azzura no Campeonato do Mundo da FIFA - o futebol italiano arrecadava agora a coroa europeia no que a clubes dizia respeito. Memorável.

Números e nomes: 

Oitavos-de-final (1ª e 2ª mãos)

Ferencvaros (Hungria) - Floridsdorfer (Áustria): 8-0/2-1

Kladno (Checoslováquia) - Ambrosiana-Inter (Itália): 1-1/3-2

Bologna (Itália) - Bocskay (Hungria): 2-0/1-2

Slavia Praga (Checoslováquia) - Rapid Viena (Áustria): 1-3/1-1

Austria Viena (Áustria) - Ujpest (Hungria): 1-2/1-2

Juventus (Itália) - Teplice (Checoslováquia): 4-2/1-0

Admira Viena (Áustria) - Nápoles (Itália): 0-0/2-2/5-0 (desempate)

MTK Budapeste (Hungria) - Sparta Praga (Checoslováquia): 2-1/1-2/1-1 (Sparta vence por sorteio)

Quartos-de-final (1ª e 2ª mãos)

Ferencvaros (Hungria) - Kladno (Checoslováquia): 6-0/1-4

Ujpest (Hungria) - Juventus (Itália): 1-3/1-1

Bologna (Itália) - Rapid Viena (Áustria): 6-1/1-4

Admira Viena (Áustria) - Sparta Praga (Checoslováquia): 4-0/2-3

Meias-finais (1ª e 2ª mãos)
Recorte de um jornal da época dando conta do embate entre o Bologna e o Ferencvaros
Ferencvaros (Hungria) - Bologna (Itália): 1-1/1-5

Admira Viena (Áustria) - Juventus (Itália): 3-1/1-2

Final (1ª mão)

Admira Viena (Áustria) - Bologna (Itália): 3-2

Data: 5 de setembro de 1934
Estádio: Prater, em Viena (Áustria)
Árbitro: William Walden (Inglaterra)

Admira Viena: Peter Platzer, Robert Pavlicek, Anton Janda, Johann Urbanek, Karl Hummeberger, Josef Mirschitzka, Ignaz Sigl (c), Wilhelm Hahnemann, Karl Stoiber, Anton Schall, e Adolf Vogl. Treinador: Hans Skolaut.

Bologna: Mario Gianni, Eraldo Monzeglio, Felice Gasperi, Mario Montesanto (c), Aldo Donati, Giordano Corsi, Bruno Maini, Raffaele Sansone, Aldo Spivach, Francisco Fedullo, e Carlo Reguzzoni. Treinador: Lajos Kovács.

Golos: 0-1 (Spivach, aos 7m), 0-2 (Reguzzoni, aos 25m), 1-2 (Stoiber, aos 56m), 2-2 (Vogl, aos 58m), 3-2 (Schall, aos 60m)

Final (2ª mão)

Bologna (Itália) - Admira Viena (Áustria): 5-1

Data: 9 de setembro de 1934
Estádio: Del Littoriale, em Bolonha (Itália)
Árbitro: Arthur James Jewell (Inglaterra)

Bologna: Mario Gianni, Eraldo Monzeglio, Felice Gasperi, Mario Montesanto, Aldo Donati, Giordano Corsi, Bruno Maini, Raffaele Sansone, Angelo Schiavio (c), Francisco Fedullo, e Carlo Reguzzoni. Treinador: Lajos Kovács.

Admira Viena: Peter Platzer, Robert Pavlicek, Anton Janda, Johann Urbanek, Karl Hummeberger, Josef Mirschitzka, Karl Durspekt, Wilhelm Hahnemann, Karl Stoiber, Anton Schall, e Adolf Vogl (c). Treinador: Hans Skolaut.

Golos: 1-0 (Maini, aos 21m), 1-1 (Vogl, aos 32m), 2-1 (Reguzzoni, aos 33m), 3-1 (Reguzzoni, aos 40m), 4-1 (Fedullo, aos 84m), 5-1 (Reguzzoni, aos 88m).
 

A squadra do Bologna que pela segunda vez no curto espaço de três anos conquistou a coroa do futebol europeu

Texto escrito em 10 de abril de 2015 no blog: www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Os anos dourados (1927-1939) da Taça Mitropa - A primeira montra de estrelas do futebol europeu (parte III)

Juventus e Sparta de Praga precisaram de um terceiro jogo
para desempatar uma eliminatória equilibrada
pautada pelo futebol espetáculo
Contrariamente ao que havia ficado definido na edição anterior, o campeão em título da Mitropa Cup não teve presença garantida na competição do ano seguinte! Desconhecidas foram, no entanto, as razões deste inesperado volte face que fez com que o campeão de 1930, o Rapid de Viena, se visse assim impossibilitado de defender o ceptro conquistado. Isto, porque em termos domésticos os vienenses não foram além um terceiro lugar no campeonato nacional, ficando atrás do campeão First Viena e do Wiener, este último emblema vencedor da Taça da Austria. No entanto, quedar-se por um terceiro lugar na liga austríaca não era vergonha para ninguém, muito pelo contrário, já que por aqueles dias este era dos campeonatos mais competitivos e fartos em qualidade técnico-tática do Velho Continente, com equipas como o Admira Viena, o Austria de Viena, o Rapid, o Wiener, ou o First Football Club a lutarem entre si de igual para igual pela posse do trono futebolístico daquele país. First Viena cujo setor mais recuado era o principal abastecedor da célebre seleção austríaca dos anos 30, eternizada na história como o Wunderteam (equipa maravilha), onde pontificavam os defesas Josef Blum, Karl Rainer, e Leopold Hofmann. A extrema qualidade que abundava nas zonas mais recuadas do esquema tático do First Viena foi um fator fundamental para a caminhada triunfal que este conjunto trilhou nesta quinta edição da Taça Mitropa. Logo na primeira ronda os campeões austríacos provaram que eram uma equipa muito difícil de transpor, conforme explica o facto de terem deixado os húngaros do Bocskai - que faziam a sua estreia na prova - a zeros no duplo confronto travado com estes. 7-0, no conjunto das duas mãos, deixaram desde logo antever que o First Viena seria um dos principais candidatos a suceder ao Rapid de Viena na lista de campeões da Mitropa. Este não foi contudo o único duelo áustro-húngaro na edição de 1931, já que o sorteio ditou que Wiener e MTK de Budapeste lutassem entre si por um lugar nas meias-finais. A capital da Hungria acolheu o primeiro encontro, o qual se traduziu numa enorme surpresa, já que os experientes húngaros - em questões de Taça Mitropa - foram esmagados no seu reduto pelos caloiros do Wiener, que na sua baliza tinha nada mais nada menos do que o guarda-redes do Wunderteam de Hugo Meisl, de seu nome Rudolf Hiden. Porém, no plano individual o sublinhado deste primeiro jogo vai para o alemão Richard Hanke e para o austríaco Henri Hiltl, cada um deles com dois golos somados na conta pessoal de um encontro que terminou com um dilatado score de 5-1 a favor dos visitantes. Este último jogador, que no terreno de jogo atuava como um letal ponta de lança, foi o melhor marcador da edição de 1931, com sete remates certeiros no total.
No encontro da segunda mão os austríacos relaxaram... em demasia. Aos 47 minutos já perdiam por 3-0 (!), resultado que naquele período poderia ter contornos mais volumosos, não fosse o guardião Rudolf Hiden estar em tarde inspirada. Porém, à passagem do 82º minuto Richard Hanke sossegou os adeptos da casa ao reduzir para 1-3 e garantir deste modo a passagem da sua equipa à fase seguinte.


Apesar de ter sido a grande figura da eliminatória entre
o Slavia e a Roma, o mítico guarda-redes Plánicka
não evitou a queda da sua equipa à primeira
Estreia memorável nestas andanças tiveram os vice-campeões italianos de 1931, a Roma, conjunto que tinha no avançado croata naturalizado italiano, Rodolfo Volk, a sua maior estrela. Ele que na Serie A havia comprovado o seu estatuto de goleador ao apontar 29 golos que o tornaram no bombardeiro-mor do calcio nessa época. Romanos que então eram treinados pelo inglês Herbert Burgess, que enquanto jogador se havia notabilizado ao serviço dos dois clubes de Manchester, primeiro o City, e posteriormente o United, tendo ao serviço de ambos vencido campeonatos e taças de Inglaterra, sendo hoje dos poucos homens que conseguiram erguer troféus ao serviço dos rivais de Manchester. Depois de uma breve passagem pela Hungria, ao serviço do MTK, onde iniciou a sua carreira de treinador, Burgess rumou a Itália em 1922, tendo ali trabalhado até 1932 ao serviço de Milan, Padova e da Roma. Último emblema este que não poderia ter tido melhor estreia na Mitropa Cup, já que na ronda inaugural afastou com classe o favorito Slavia de Praga, o campeão checoslovaco desse ano, onde pontificava, entre outros, o majestoso guarda-redes Frantisek Plánicka. Ele que foi o grande herói da sua equipa ao longo dos dois jogos da eliminatória, o responsável pelo facto de se terem registado tão poucos golos neste embate. Na primeira mão o resultado cifrou-se numa igualdade a uma bola, com Volk a fazer o golo dos romanos num jogo em que Plánicka defendeu quase tudo o que havia para defender. O mesmo Volk iria fazer o golo do triunfo (2-1) no encontro de volta, na capital transalpina, garantindo assim uma suada passagem da Roma diante de um Slavia que teve, mais uma vez, um Plánicka inspirado na hora de parar os perigosos ataques de Volk e companhia, não conseguindo, contudo, evitar a eliminação da sua equipa. 
Equilibrado e muito bem interpretado foi o embate entre os campeões italianos, a Juventus, e os vice-campeões da Checoslováquia, o Sparta de Praga. Juve que nesse ano de 1931 iniciou um reinado de cinco anos consecutivos na Serie A italiana, cinco títulos de campeão de Itália seguidos que constituíram um recorde até hoje insuperável. Com um tridente ofensivo - composto por Josef Silný, Nejedly, e Raymond Braine - de impor respeito a qualquer que fosse o adversário o Sparta caiu em Turim no encontro da primeira mão, por 2-1. O belga Braine ainda colocou a turma de Praga em vantagem ao minuto 17, mas a Vecchia Signora soube reagir e à passagem da meia hora Cesarini restabeleceu a igualdade. Os visitantes estiveram muito perto da vitória, mas Raymond Braine iria desperdiçar uma grande penalidade, ou melhor, o guarda-redes Sclavi - que nesta eliminatória rendeu o mítico Giampiero Combi - intercetou o remate do avançado belga. E como quem não marca sofre - por norma é sempre assim... - aos 88 minutos Munerati deu o triunfo à Juve. 
Na segunda mão o equilíbrio e o espetáculo voltaram a surgir de mãos dadas, agora na capital da Checoslováquia, onde o tridente ofensivo do Sparta apenas por uma vez conseguiu ultrapassar o sólido muro defensivo dos italianos, cujos pilares eram os catedráticos Umberto Caligaris e Virginio Rosetta, duas figuras destacadas no êxito que a Squadra Azzura iria obter três anos mais tarde no Campeonato do Mundo da FIFA. O único golo deste segundo jogo foi apontado por Braine, aos 16 minutos, tendo desta forma sido necessário recorrer-se a um terceiro encontro para encontrar o quarto e último semi-finalista. Partida essa que teve lugar em campo neutro, tendo Viena sido o palco escolhido. E se o futebol bonito e emocionante marcou os dois primeiros jogos deste embate, a indisciplina tomou conta do play-off, com o árbitro suíço René Mercet - o mesmo que em 1934 iria beneficiar de forma escandalosa a Itália no jogo dos quartos-de-final do Campeonato do Mundo ante a Espanha - a dar ordem de expulsão a quatro jogadores, três deles pertencentes à Juventus, que no final dos 90 minutos saiu derrotada por 3-2, e desta forma dizia adeus à Mitropa Cup.

Final 100% austríaca após duas semi-finais distintas


Fase do encontro entre a Roma e o First Viena
A caminhada do First Viena rumo à glória continuava a pautar-se pela ausência de obstáculos de grau de dificuldade elevado. Se na primeira eliminatória a equipa vienense havia despachado facilmente os húngaros do Bocskai, nas meia-finais os austríacos voltaram a deparar-se com inúmeras obséquias de uma Roma que esteve muito aquém das exibições patenteadas ante o Slavia. Depois de uma vitória por 3-2 na capital transalpina o First Viena voltou aplicar a chapa três no encontro de volta, com o destaque individual a ir inteiro para Leopold Marta, autor de dois dos três golos com que o combinado do técnico Ferdinand Frithum bateu (3-1) a Roma. E se o First Viena não teve grandes dificuldades para chegar à final, o mesmo não puderam dizer os seus compatriotas do Wiener, que necessitaram de um terceiro jogo para afastar o Sparta de Praga. Contudo, esta última equipa saiu na frente da eliminatória, quando em Viena - na primeira mão - mostrou toda a sua qualidade. Com dois golos da sua autoria o jovem Nejedly brilhou. 3-2 foi o resultado final a favor dos checoslovacos. Na segunda mão deu-se o inverso, ou seja, foi o futebol tecnicamente evoluído do Wiener que ditou leis. E se a estrela de Nejedly havia brilhado em Viena, a do goleador Henri Hiltl iluminou o retângulo de jogo do Estádio Letna. Autor de um hattrick, Hiltl contribuiu, e muito, para que a sua equipa vencesse a partida, por 4-3, e levasse desta forma a decisão para um terceiro jogo. Os instantes finais do jogo da segunda mão foram dramáticos, já que a cinco minutos dos 90 um empate a três golos subsistia no marcador, sendo que com este resultado era o Sparta que avançava para a final. Contudo, aos 88 minutos, Hiltl faz o seu terceiro golo da tarde, e fechava o marcador em 4-3 a favor da sua equipa. Este mesmo jogador seria decisivo no play-off, ao contribuir com mais um golo para uma vitória por 2-0 dos austríacos que assim se juntavam aos também... austríacos do First, facto que desde logo entrou na história da Mitropa Cup, pois até então nunca duas equipas do mesmo país se haviam defrontado no encontro decisivo. Ora ai estava a resposta à pergunta inicialmente feita aquando do nosso embarque para esta longa e deslumbrante viagem pela história da Mitropa: qual o país que melhor interpretava o jogo? Hungria, Checoslováquia, ou Áustria? Por esta altura não restavam dúvidas, Áustria era a resposta.

"Rudi" Hiden
A jogar em casa emprestada (Zurique) o Wiener entrou a todo o gás no encontro da primeira mão da grande final, chegando a uma vantagem de dois golos sem resposta numa altura em que o relógio marcava somente 22 minutos. Porém, à passagem da meia hora os papéis inverteram-se e o First passou a tomar conta dos acontecimentos, destacando-se o papel do cerebral centro-campista Fritz Gschweidl, astro que comandou a sua equipa no assalto à baliza do talentoso guarda-redes Rudolf Hiden, que até final do encontro iria buscar o esférico por três ocasiões ao fundo das suas redes. Hiden, que nunca será por demais recordar, foi um dos monstros das balizas da década de 30, um guardião de craveira internacional nascido a 9 de março de 1909, na cidade de Graz, tendo-se dado a conhecer ao planeta da bola no Grazer, transferindo-se em 1927 para a capital austríaca, onde assinou um contrato profissional com o Wiener. Rudi, como era conhecido entre os seus colegas de profissão, fica ligado a um facto curioso da história do futebol, no que a transferências de jogadores diz respeito. Contrariamente ao que hoje acontece, a Inglaterra daquele tempo via com maus olhos a contratação de jogadores estrangeiros para os seus clubes, talvez porque os britânicos continuavam a achar que eram os mestres dos belo jogo, e que ninguém melhor do que eles o sabia interpretar de forma técnico-tática majestosa. Nem todos, porém, pensavam assim. Quiçá rendido às exibições que "Rudi" Hiden fez quer ao serviço do seu clube na Mitropa Cup, quer ao serviço do Wunderteam de Hugo Meisl, o lendário treinador do Arsenal de Londres, Herbert Chapman, exigiu ao seu clube a contratação do guardião austríaco. Exigência travada pela Associação de Futebolistas Ingleses, que recorrendo à lei que impunha restrições à contratação de cidadãos estrangeiros por parte de empresas britânicas, impede a transferência de Hiden. Não foi para Londres mas foi para Paris, a deslumbrante capital francesa que em 1933 o recebeu de braços abertos, tratando-o de maneira principesca, como se de uma estrela da pintura, da literatura, ou da dança se tratasse. Durante sete anos Hiden foi uma das estrelas que mais brilhou na Cidade Luz, defendendo com mestria as cores do então maior símbolo desportivo da capital gaulesa, o Racing Club de Paris, emblema com o qual venceu um campeonato (1936) e três taças de França (1936, 1939, e 1940). De volta aos acontecimentos da final da Taça Mitropa de 1931, a segunda mão desta fase, ocorrida no Hohe Warte Stadium, ficou marcada por mais uma grande exibição dos jogadores do First Viena, que ao intervalo já venciam por duas bolas a zero, ficando assim cada vez mais perto da glória. De nada valeu, pois, o tento de Richard Hanke a meio da segunda parte, já que a taça iria parar às mãos de Josef Blum, o capitão do First Viena. 

Números e nomes:

Quartos-de-final (1ª e 2ª mãos)

First Viena (Áustria) - Bocskai (Hungria): 3-0/4-0

Slavia Praga (Checoslováquia) - Roma (Itália): 1-1/1-2

Wiener (Áustria) - MK Budapeste (Hungria): 5-1/1-3

Juventus (Itália) - Sparta Praga (Checoslováquia): 2-1/0-1/2-3 (desempate)
A equipa da Roma que alcançou as meias-finais da Taça Mitropa de 1931
Meias-finais (1ª e 2ª mãos)

First Viena (Áustria) - Roma (Itália): 3-2/3-1

Sparta Praga (Checoslováquia) - Wiener (Áustria): 3-2/3-4/0-2 (desempate)

Final (1ª mão)

Wiener (Áustria) - First Viena (Áustria): 2-3

Data: 8 de novembro de 1931

Árbitro: Francesco Mattea (Itália)

Estádio: Hardturm, em Zurique (Suíça)

Wiener: Rudolf Hiden, Johann Becher, Karl Sesta, Georg Braun, Ernst Lowinger, Rudolf Kubesch, Franz Cisar, Heinrich Muller, Henri Hiltl, Richard Hanke, e Karl Huber (c). Treinador: Karl Geyer.

First Viena: Karl Horeschovsky, Karl Rainer, Josef Blum (c), Willibald Schamus, Leopold Hofamann, Leonhard Machu, Anton Brosenbauer, Josef Adelbrecht, Fritz Gschweidl, Gustav Togel, e Franz Erdl. Treinador: Ferdinand Frithum.

Golos: 1-0 (Hanke, aos 2m), 2-0 (Muller, aos 22m), 2-1 (Togel, aos 30m), 2-2 (Adelbrecht, aos 63m), 2-3 (Becher, aos 87m na p.b.)

Final (2ª mão)

First Viena (Áustria) - Wiener (Áustria): 2-1

Data: 12 de novembro de 1931

Estádio: Hohe Warte, em Viena (Áustria)

Árbitro: Rinaldo Barlassina (Itália)

First Viena: Karl Horeschovsky, Karl Rainer, Josef Blum (c), Willibald Schamus, Leopold Hofamann, Leonhard Machu, Anton Brosenbauer, Josef Adelbrecht, Fritz Gschweidl, Gustav Togel, e Franz Erdl. Treinador: Ferdinand Frithum.

Wiener: Rudolf Hiden, Johann Becher, Karl Sesta, Georg Braun, Ernst Lowinger, Rudolf Kubesch, Wilhelm Cutti, Heinrich Muller, Henri Hiltl, Richard Hanke, e Karl Huber (c). Treinador: Karl Geyer.

Golos: 1-0 (Erdl, aos 6m), 2-0 (Erdl, aos 41m), 2-1 (Hanke, aos 65m).
Em 1931 a Mitropa Cup permaneceu na capital austríaca, mudando apenas de dono,
que passava a ser agora o First Viena

1932: Il Grande Bologna sagra-se campeão sem precisar de jogar a final

Angelo Schiavio, a estrela mais cintilante
da história do Bologna FC
Os anos 30 do século passado ficam marcados pelo amplo domínio do futebol italiano no patamar internacional. Domínio esse traduzido, e sobretudo, ao nível de seleções, já que neste período a Squadra Azzura edificada pelo mestre da tática Vittorio Pozzo alcançou dois títulos mundiais (1934 e 1938), uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 1936, e um par de ceptros na Coupe Internationale Européenne (1930 e 1935). No entanto, ao nível de clubes a mestria dos transalpinos mostrou-se de uma forma mais tímida à Europa do belo jogo, com apenas duas incursões ao lugar mais alto do pódio da máxima competição continental. E fê-lo por intermédio de uma squadra célebre, um famoso squadrone como ainda hoje é recordado, uma equipa que segundo reza a lenda fazia tremer o Mundo sempre que entrava em campo! Bologna Football Club, Il Grande Bologna dos anos 30. Construída pelo treinador austríaco Hermann Felsner esta mítica equipa lutou taco a taco com a Juventus pelo trono do futebol italiano ao longo da citada década, tendo alcançado a glória, o mesmo será dizer o scudetto (título de campeão nacional) em três ocasiões. Antes, nos anos 20, altura da chegada de Felsner à cidade de Bolonha, havia já vencido por duas ocasiões a Seria A italiana. E se Felsner deitou à terra as sementes daquele que haveria de se tornar num dos gigantes do futebol italiano ao longo de três décadas (20, 30, e 40), o húngaro Gyula Lelovics colheu os primeiros frutos de glória... internacional. Na verdade, o Bologna foi o primeiro emblema transalpino a conhecer a glória extra-muros, o primeiro e único, isto no que diz respeito à era dourada (1927-1939) da Taça Mitropa. Em 1932 surge o primeiro de dois títulos internacionais conquistados pelo emblema do norte de Itália, numa (edição da) Taça Mitropa que ficou marcada por uma forte onda de violência dentro do retângulo de jogo. A vitória do Bologna significou ainda um corte no domínio que as equipas da Europa Central vinham exercendo na Mitropa. Bologna que se qualificou para a sexta edição da competição internacional pelo facto de ter ficado com o segundo lugar da Serie A de 1931/32, atrás da campeã Juventus. 
Principal campeonato italiano que havia somente terminado há uma semana quando a squadra orientada por Gyula Lelovics entrou em campo para defrontar os campeões da Checoslováquia, o Sparta de Praga. Equipa esta que na primeira mão viajou até Itália sem o patrão da sua defesa, Kada Pesek, para enfrentar uma equipa cuja base era composta por jogadores de extrema qualidade, os quais marcaram, indiscutivelmente, uma era de glamour no calcio transaplino. 

Cinco estrelas de uma equipa (Bologna)... cinco estrelas!
Na baliza surgia Mario Gianni, a quem chamavam de gato mágico, assim apelidado pelas espetaculares e acrobáticas estiradas que marcavam a sua imagem de futebolista, enquanto no setor recuado brilhavam o futuro bi-campeão do Mundo Eraldo Monzeglio, Felice Gasperi, e o uruguaio Francisco Fedullo. No meio campo, dois jogadores comandavam majestosamente as operações: Gastoni Baldi, e Gastone Martelli. Estes dois jogadores serviam de forma sublime a linha avançada daquele memorável conjunto, linha essa formada por nomes como Bruno Maini, o uruguaio Raffaele Sansone, e Angelo Schiavio, este último tido como a estrela mais brilhante daquela lendária equipa. Schiavio foi um dos principais alicerces do êxito da seleção italiana no Mundial de 1934, saindo dos seus pés o golo da vitória na final ante a Checoslováquia. Schiavio é não só uma das lendas eternas do calcio italiano, mas também visto como o maior jogador da história do Bologna, o único clube que este avançado natural - precisamente - da cidade de Bolonha representou ao longo de 16 temporadas. Com a maglia rosso e blu (camisola vermelha e azul) atuou em 337 ocasiões, tendo apontado 247 golos, sendo ainda hoje o calciatore (futebolista) com mais jogos e golos ao serviço do clube. Schiavio que foi um dos jogadores em destaque no embate ante o Sparta, que o Bologna venceu por claros e expressivos 5-0. Reguzzoni abriu o marcador nos minutos iniciais, seguido de dois golos de Maini e um de Schiavio, tendo a nota artística final sido assinada por Baldi na etapa complementar. 
No encontro da segunda mão os checoslovacos ainda tentaram o impossível, e aos 30 minutos do primeiro tempo já haviam marcado dois golos - por Nejedly e por Donati, este último um auto-golo - que traziam esperança ao combinado de John Dick. Aos 15 minutos da segunda parte Podrazil fez o 3-0 final, resultado insuficiente para afastar o vice-campeão de Itália. 

Cesarini, o argentino naturalizado italiano
que se consagrou como o melhor marcador
da edição de 1932 da Mitropa, com 5 golos
O adversário do Bologna na meia-final foi nada mais nada menos do que o campeão em título da Mitropa, o First Viena, que nos quartos-de-final se desenvencilhou dos húngaros do Ujpest. Franz Schonwetter foi autor de um hattrick no encontro da primeira mão, dando assim uma importante ajuda para que o First levasse de vencido o seu oponente por 5-3. Vantagem que viria a ser fortemente protegida no jogo de volta, onde a defesa austríaca fechou a sete chaves a sua baliza, não permitindo que os vice-campeões da Hungria a violassem por mais do que uma ocasião. 1-1 foi o score final, e o First Viena continuava assim a sua caminhada europeia. Quem também apresentou uma defesa de ferro na primeira mão da ronda inaugural da Taça Mitropa de 1932 foi a Juventus. Os campeões de Itália esmagaram por 4-0 os campeões da Hungria, o Ferencvaros, um triunfo que foi edificado a partir de uma regída solidez defensiva personificada em Caligaris e Rosetta, uma dupla que anunlou na perfeição os perigosos avançados magiares József Takács e Turay. Lá na frente a Juve contava igualmente com atletas de vulto, casos dos oriundi Raimondo Orsi (argentino naturalizado italiano), Pedro "Pietro" Sernagiotto (brasileiro naturalizado italiano), e de Renato Cesarini (argentino naturalizado italiano), os autores dos quatro tentos da Vecchia Signora neste jogo, sendo que este último jogador fez o gosto ao pé por duas ocasiões. No jogo da segunda mão, e como seria de esperar, o Ferencvaros entrou forte, e nos primeiros 20 minutos conseguiu cavar duas grandes penalidades, convertidas posteriormente por Sarosi. As esperanças húngaras iriam contudo morrer nos pés dos talentosos jogadores juventinos oriundos da América do Sul, os tais oriundi (nome dado aos descendentes de emigrantes italianos nascidos na região mais a sul do continente americano). Orsi com um golo, e Cesarini com dois, deram a volta ao marcador, e garantiram que pela primeira vez a Juventus superava a barreira da primeira eliminatória na Mitropa, de nada valendo um último golo do Ferencvaros. 
A última equipa a juntar-se ao leque de semi-finalistas foi o Slavia de Praga, conjunto que afastou os campeões da Áustria, o Admira de Viena, por um resultado global de 3-1. 

Batalhas campais em Praga e em Turim deixam Bologna sem adversário na final

Aqui se prepara um jogador do Sparta para ceifar
de forma violenta um italiano. Imagens como esta
foram uma constante ao longo da meia final
A violência no terreno de jogo ganhou contornos vincados nesta edição da prova no duelo - na verdadeira ascensão da palavra - entre o Sparta de Praga e a Juventus. Entradas duras que levaram a algumas cenas de pancadaria entre jogadores de ambos os conjuntos foram uma constante ao longo da eliminatória, facto que levou a organização da Mitropa Cup a aplicar uma dura e até então inédita sanção. Em Praga jogou-se a primeira mão, jogo este onde o Slavia entrou mais ofensivo, postura que ao intervalo era refletida no marcador com uma vantagem de dois golos. Na etapa complementar a partida foi interrompida em variadas ocasiões devido a desentendimentos acesos entre jogadores e treinadores de ambos os lados da barricada. Ainda assim, o Sparta fez funcionar o marcador em mais um par de ocasiões, garantindo um robusto triunfo por 4-0. Em Turim a violência subiu de tom. Assim que entraram em campo os jogadores do Slavia foram brindados com diversos objetos provenientes das bancadas, enquanto que ainda antes do apito inicial os próprios jogadores da Juventus recusaram-se, pura e simplesmente, a cumprimentar os seus adversários. O jogo em si foi mais um capítulo de extrema violência, com entradas duras em catadupa, seguidas de agressões entre jogadores. Claramente, o futebol há muito que tinha passado para segundo plano. Orsi e Cesarini ainda marcaram para a Juventus, mas de nada valeriam estes golos. Os italianos estavam afastados da final... e os checoslovacos também! Isto, porque a organização da Mitropa decidiu castigar ambas as equipas, com a exclusão imediata, entregando o título de campeão do certame de 1932 ao Bologna, equipa que na outra meia-final havia ultrapassado o First Viena. Na primeira mão, disputada em Bolonha, os italianos venceram por 2-0, com golos de Maini e Sansone, num jogo que fica marcado pelo facto de Schiavio ter atuado fisicamente limitado. Ele que havia sido o melhor marcador do campeonato italiano em 1931/32, com um total de 25 remates certeiros. 
Uma semana mais tarde, no Hohe Warte Stadium, em Viena, os austríacos fizeram uma exibição de gala, um jogo perfeito, que mesmo assim não chegou para ir além de uma magra e insuficiente vitória por 1-0.   

Números e nomes:

Quartos-de-final (1ª e 2ª mãos)

Slavia Praga (Checoslováquia) - Admira Viena (Áustria): 3-0/0-1

Bologna (Itália) - Sparta Praga (Checoslováquia): 5-0/0-3

Juventus (Itália) - Ferencvaros (Hungria): 4-0/3-3

First Viena (Áustria) - Ujpest (Hungria): 5-3/1-1

Meias-finais (1ª e 2ª mãos)

Bologna (Itália) - First Viena (Áustria): 2-0/0-1

Sparta Praga (Checoslováquia) - Juventus (Itália): 4-0/0-2* 

*Nota: Ambas as equipas foram desqualificadas pela organização devido à conduta violenta exibida durante a eliminatória, facto que permitiu ao outro finalista, o Bologna, sair desde logo vencedor desta edição de 1932 
Il Grande Bologna dos anos 30, uma das mais virtuosas equipas da história do Calcio
que em 1932 venceu a primeira de duas Taças Mitropa (nota: na imagem aparece a equipa de 1932)

Os anos dourados (1927-1939) da Taça Mitropa - A primeira montra de estrelas do futebol europeu (parte II)

Fase do jogo entre a Juventus e a Ambrosiana-Inter
na qual estava em discussão um lugar
na Mitropa Cup de 1929
Em 1929 abriram-se as portas da Taça Mitropa para os clubes italianos. Esta foi a novidade mais significativa da terceira edição da competição. O clima de tensão que se vivia na então Jugoslávia fez com que a organização da competição opta-se por não incluir os emblemas daquele país na edição de 29, convidando para o lugar destes os combinados oriundos de Itália. Nação cujo campeonato nacional abraçara neste período o profissionalismo, à semelhança do que ocorrera em Inglaterra na região central da Europa. A inclusão dos clubes transalpinos na Mitropa Cup acrescentou, de certa forma, uma maior elegância e virtuosismo técnico à competição, já que a Itália havia surgido - em finais da década de 20 - na senda internacional como uma poderosa potência futebolística que interpretava o jogo de forma majestosa. Os anos 30 iriam confirmar tudo isto... 
Itália, ou neste caso a federação italiana de futebol, que se viu obrigada a promover um play-off de qualificação para a Taça Mitropa de 1929, já que foram quartos os clubes que mostraram desde logo interesse em participar. O curioso é que nenhum destes quatro emblemas assumia por aqueles dias o papel de gigante do calcio, por outras palavras, nenhum deles era então uma equipa de topo. Esse estatuto pertencia ao Bologna, campeão italiano em 28/29, uma equipa perfeita sob todos os aspetos onde sobressaia, entre outros, Angelo Schiavio, um dos melhores futebolistas transalpinos da década de 30. Bologna que simplesmente declinou o convite para participar na Taça Mitropa, alegadamente por preferir realizar um passeio - digressão - pela América do Sul! Assim, e sem o poderoso Bologna Football Club em jogo, a Juventus, o Inter de Milão - na altura denominado de Ambrosiana-Inter -, o Milan, e o Génova lutaram entre si pelos dois bilhetes de acesso à competição continental. No primeiro encontro, a Juventus só necessitou de 90 minutos para afastar a Ambrosiana-Inter do seu caminho, já que após uma derrota por 1-0 em Turim a equipa de Milão desistiu de discutir a eliminatória num segundo encontro! A última vaga para a Taça Mitropa foi alcançada por... sorteio! Depois de empates (2-2 na primeira mão e 1-1 na segunda) entre si, Milan e Génova foram atirados para as teias de um sorteio, tendo a sorte bafejado esta última equipa.



O guarda-redes italiano Combi trava mais um ataque
do poderoso Slavia de Praga
.
Para além dos clubes italianos mais duas estreias ocorreram na terceira edição da prova, o First Viena, que se apresentava no certame depois de ter vencido a Taça da Áustria, e o Ujpest, que surgia aqui no lugar dos campeões da Mitropa Cup do ano anterior, o Ferencvaros. Ujpest que na primeira mão da ronda inaugural - ocorrida a 22 de junho de 1929 - despachou categoricamente os checoslovacos do Sparta de Praga por 6-1, com a particularidade do avançado István Avar - um romeno naturalizado húngaro - ter feito três golos, ele que haveria de se sagrar o melhor marcador desta edição da competição, com uma dezena de tentos apontados. Na segunda mão, uma vitória por 2-0 do Sparta foi insuficiente para evitar o adeus prematuro dos campeões da primeira edição da Mitropa. Estreia brilhante teve igualmente o First Viena, emblema que espantou a então Europa do futebol ao afastar por um total de 6-1 os campeões húngaros do MTK de Budapeste, sobretudo pela categórica vitória por 4-1 obtida na capital da Hungria, onde sobressaiu o médio criativo Friedrich Gshweidl, autor de dois golos na eliminatória. First Viena que na competição interna durante esse ano de 1929 apresentou um impressionante registo em termos ofensivos, com 76 golos marcados em 22 encontros realizados. Os eternos vice-campeões da Mitropa Cup - pelo menos até então eram vistos desta forma -, o Rapid de Viena - campeão austríaco em 1929 - derrotou o Génova por um resultado total - no conjunto das duas eliminatórias - de 5-1, enquanto que em Turim o talentoso Slavia de Praga encontrou algumas dificuldades perante uma Juventus onde se destacava na baliza um tal de Giampiero Combi, que hoje em dia repousa na Olimpo dos Deuses do Futebol. 1-0, venceu a Juve, graças a uma soberda exibição de Combi. Uma vitória que no entanto se afigurou demasiado curta com vista a uma viagem tranquila até Praga, a casa do Slavia, que à semelhança do rival Sparta era orientado por um treinador escocês, neste caso Jake Madden, que enquanto jogador defendeu as cores do Dumbarton e do Celtic de Glasgow, além de ter representado a seleção da Escócia em cinco ocasiões, duas delas como capitão de equipa, e que em 1909, após ter encerrado a sua carreira de futebolista, decide partir à aventura para a Checoslováquia, onde, e tal como o seu compatriota John Dick (do Sparta), teve um papel preponderante na dinamização do futebol daquele país da Europa Central. Edificou um temível Slavia, um conjunto que triturava adversários, tanto no plano interno como extreno. Recorrendo aos números, Madden oriuntou o clube de Praga em 169 ocasiões na liga doméstica, tendo obtido 134 triunfos, enquanto que no plano internacional disputou 429 partidas - oficiais e particulares - tendo vencido 304 delas. Impressionante. 
No embate da segunda mão com  a Juventus o herói deu pelo nome de Frantisek Junek, autor de dois dos três tentos que levaram os checoslovacos até às meias-finais.

Jake Madden
A 25 e 28 de agosto teve lugar a primeira mão das meias-finais, sendo que em Viena assistiu-se a um duelo empolgante entre o First e o Slavia de Praga. Aliás, ambas as meias-finais foram disputadas sob o signo do futebol espetáculo. O First Viena dominou amplamente o encontro da capital austríaca, mas uma exibição portentosa de Antónin Puc - autor de dois golos - e do guarda-redes Frantisek Plánicka deu origem a uma vitória mínima (3-2) da equipa da casa. 
Puc que voltou a fazer das suas na segunda mão, realizada em setembro, sendo da sua autoria dois dos quatro golos com que o Slavia derrotou (4-2) com muito esforço um combativo First de Viena. 
Rapid de Viena e Ujpest necessitaram de um terceiro jogo para decidir qual das equipas iria acompanhar o Slavia na grande final. 
A grande estrela deste confronto, sobretudo no play-off de desempate, foi o goleador István Avar, autor de um hattrick que colocou os estreantes do Ujpest no jogo decisivo. Num breve registo biográfico sobre uma das estrelas mais brilhantes - senão mesmo a mais cintilante - da terceira edição da Taça Mitropa, é de sublinhar István Avar nasceu em Arad, na Roménia, a 28 de maio de 1905, tendo representado a seleção romena em duas ocasiões entre 1926 e 1927. A sua veia goleadora chamou à atenção das grandes equipas do futebol continental de então, tendo em 1928 assinado um contrato profissional com o Ujpest, emblema que representou ao longo de seis épocas. Com este clube atuou em centena e meia de jogos, tendo marcado 161 golos. Naturalizou-se húngaro, tendo atuado em 21 ocasiões pela seleção magiar entre 1929 e 1935, tendo nesse período apontado um total de 24 golos com a camisola nacional húngara.

István Avar, o goleador
da edição de 1929
da Taça Mitropa,
com 10 golos

A 13 de novembro de 1929 o Estádio Hungária Korut acolheu 18.000 pessoas que começaram por presenciar uma primeira parte equilibrada, conforme traduz a igualdade a uma bola no marcador ao intervalo. Porém, no segundo tempo uma exibição avassaladora da equipa da casa aniquilou por completo os jogadores do Slavia. Com quatro golos o Ujpest construiu uma robusta vitória 5-1, resultado que lhe dava sérias hipóteses de levantar o troféu. Ao nível particular este encontro fica marcado pela soberba performance do defesa húngaro Ferenc Borsanyi. Ele, que havia sido igualmente uma peça fundamental no play-off de desempate ante o Rapid de Viena. A 16 de novembro o Estádio Letna, em Praga, recebeu o jogo da segunda mão, e tal como lhe era pedido o Slavia entrou a todo o gás na tentativa de anular a pesada desvantagem que trazia da Hungria. Aos 28 minutos Junek abriu o marcador para os da casa, que no início do segundo tempo iriam aumentar a vantagem com um golo de Josef Kratochvil, na transformação de uma grande penalidade, golo este que fazia renascer a esperança entre os checoslovacos, que precisavam agora de apenas dois golos para empatar a final e quem sabe levar a decisão para um terceiro encontro. Porém, e mais uma vez, a estrela do goleador da terceira edição da Mitropa Cup, István Avar, iria voltar a brilhar. Antes de Avar dar nas vistas Gábor Szábo reduziu aos 84 minutos a desvantagem dos húngaros nesta partida, sendo que dois minutos depois Avar colocou de vez um ponto final nas aspirações do conjunto checoslovaco em erguer a taça. 2-2, o resultado final, um empate com sabor a vitória para o Ujpest, que assim sucedia aos compatriotas do Ferencvaros como campeão daquela que era já a competição internacional de clubes mais popular do Velho Continente.

Números e nomes:

Quartos-de-final (1ª e 2ª mãos)

Ujpest (Hungria) - Sparta Praga (Checoslováquia): 6-1/0-2

MTK Budapeste (Hungria) - First Vienna (Áustria): 1-4 /1-2

Rapid Viena (Áustria) - Génova (Itália): 5-1/0-0

Juventus (Itália) - Slavia Praga (Checoslováquia): 1-0/0-3

Meias-finais (1ª e 2ª mãos)

First Vienna (Áustria) - Slavia Praga (Checoslováquia): 3-2/2-4

Ujpest (Hungria) - Rapid Viena (Áustria): 2-1/2-3/3-1 (desempate)

Final (1ª mão)

Ujpest (Hungria) - Slavia Praga (Checoslováquia): 5-1

Data: 3 de novembro de 1929
Estádio: Hungária Korut (Hungria)
Árbitro: Eugen Braun (Áustria)

Ujpest: János Aknai, Károly Kovágó, Jozsef Fogl (c), Ferenc Borsanyi, János Koves, János Víg-Wilhelm, Albert Strock, István Avar, István Meszáros, Illés Spitz, e Gábor Szábo. Treinador: Lajos Bányai.

Slavia Praga: Frantisek Plánicka, Ladislav Zenisek, Antonín Novák, Antonín Vodicka, Josef Pleticha (c), Karel Cipera, Frantisek Junek, Bohumil Joska, Frantisek Svoboda, Antonín Puc, e Josef Kratochvil. Treinador: Jake Madden.

Golos: 1-0 (Spitz, aos 42m), 1-1 (Puc, aos 44m), 2-1 (Avar, aos 60m), 3-1 (Strock, aos 67m), 4-1 (Szábo, aos 69m), 5-1 (Spitz, aos 80m)

Final (2ª mão)

Slavia Praga (Checoslováquia) - Ujpest (Hungria): 2-2

Data: 17 de novembro de 1929
Estádio: Letna, em Praga (Checoslováquia)
Árbitro: Eugen Braun (Áustria)

Slavia Praga: Frantisek Plánicka, Ladislav Zenisek, Antonín Novák, Antonín Vodicka, Josef Pleticha (c), Karel Cipera, Frantisek Junek, Bohumil Joska, Frantisek Svoboda, Antonín Puc, e Josef Kratochvil. Treinador: Jake Madden.

Ujpest: János Aknai, Károly Kovágó, Jozsef Fogl (c), Ferenc Borsanyi, János Koves, János Víg-Wilhelm, Albert Strock, István Avar, István Meszáros, Illés Spitz, e Gábor Szábo. Treinador: Lajos Bányai.

Golos: 1-0 (Junek, aos 28m), 2-0 (Kratochvil, aos 57m), 2-1 (Szábo, aos 84m), 2-2 (Avar, aos 86m). 

Os onze heróis que em 1929 conquistaram o título mais pomposo da história dos húngaros do Ujpest

1930: Taça Mitropa viaja finalmente para a nação que a idealizou, no ano em que uma estrela italiana começou a brilhar no céu internacional


Giuseppe Meazza, uma das maiores estrelas
do futebol internacional da década de 30
foi a grande estrela da quarta
edição da Mitropa Cup




Finalistas vencidos nas duas primeiras edições, semi-finalistas em 1929, eis à quarta tentativa o Rapid de Viena viu finalmente a luz ao fundo do túnel, o mesmo será dizer, venceu a Mitropa, levando desta forma o troféu pela primeira vez para o país que sonhou uma competição onde começavam a despontar estrelas em catadupa. Em 1930 surge aquela que é considerada como a primeira lenda do futebol italiano, o primeiro grande ídolo dos tiffosi, de seu nome Giuseppe Meazza. Nascido em Milão, a 23 de agosto de 1910, Peppino, como carinhosamente era tratado por colegas e adeptos, cedo mostrou os seus deslumbrantes atributos de futebolista, tendo com apenas 17 anos conquistado a titularidade no Ambrosiana-Inter, clube cuja camisola envergou em mais de 400 ocasiões - 408 para sermos mais precisos, distribuídas entre jogos oficiais e particulares - ao longo de 17 anos, tendo marcado 287 tentos. Em 1940 como que apunhala o clube que o revelou ao Mundo após assinar pelo vizinho e eterno inimigo, o Milan, onde esteve durante duas temporadas, Jogou ainda pela Juventus, Varese, e Atalanta. É um dos melhores marcadores de todos os tempos da Serie A - o principal campeonato transalpino - com 367 golos apontados em 216 partidas realizadas. Pela Squadra Azzurra atuou em 53 jogos, tendo feito balançar as redes adversárias por 33 ocasiões. Entre as suas numerosas conquistas destacam-se os dois títulos de campeão do Mundo - obtidos em 1934 e 1938 - com a nazionale italiana. Com 20 anos Peppino Meazza fez então a sua primeira aparição na montra do futebol continental ao nível de clubes, fazendo-o na qualidade de principal figura da Ambrosiana-Inter, emblema que surgia nesta edição da Taça Mitropa na qualidade de campeão de Itália. 
Ditou o sorteio que logo na primeira ronda os italianos defrontassem os campeões em título, o Ujpest, duelo que haveria de ter contornos históricos.

A equipa da Ambrosiana-Inter (de Milão) que disputou a edição número quatro da Mitropa Cup
Quatro jogos foram necessários para decidir quem seguia para as meias-finais, ou a Ambrosiana-Inter, ou o Ujpest. A primeira mão, em Budapeste, ficou marcada por uma exibição memorável de Meazza, astro que apontou dois dos quatro golos com que a sua equipa deixou a capital húngara. 4-2 o resultado final de um encontro épico. Igualmente bem jogada foi a partida da segunda mão, em Milão, com a vingança do Ujpest servida em bandeja igual à que os italianos haviam oferecido ao seu rival em Budapeste, ou seja, 4-2 a favor dos campeões da Mitropa. Em jeito de nota de rodapé será importante dizer que em 1930 a organização da competição continental decidiu que o vencedor da Mitropa Cup teria sempre lugar assegurado na edição seguinte, independentemente de vencer ou não o seu campeonato nacional. Voltando ao tira-teimas entre Ambrosiana-Inter e Ujpest para recordar que o primeiro jogo de desempate foi pautado pela postura extremamente defensiva que ambas as equipas apresentaram no terreno. Um encontro onde as principais estrelas dos dois combinados, István Avar do lado húngaro, e Meazza do lado italiano, foram totalmente neutralizadas pelas rígidas defesas. 1-1 foi o resultado final que obrigou assim a um novo play-off. Este quarto duelo primou pela emoção, espetáculo, e fartura de golos. Os italianos tiveram uma entrada demolidora, chegando com relativa facilidade ao 3-0, graças a dois golos de Meazza e um de Leopoldo Conti. Porém, do outro lado da barricada não estava uma equipa qualquer, e num abrir e fechar de olhos o Ujpest chegou à igualdade, muito devido à inspiração de Avar, autor de dois tentos. Os húngaros estavam muito melhor sobre o retângulo de jogo, mas no futebol nem sempre vence quem joga melhor e foi precisamente isto o que aconteceu. A Ambrosiana-Inter, quase sem querer, e numa altura de jogo em que era dominada pelo seu oponente, chegou ao 5-3, arrumando - finalmente - a questão a seu favor.

O belga Raymond Braine semeia o perigo
na sequência de mais um ataque do Sparta
Destino contrário ao do emblema de Milão teve a outra equipa transalpina em prova, o Génova, que depois de um empate a um golo na primeira mão, em casa, foi goleada em território austríaco pelos futuros campeões, o Rapid de Viena. O azar bateu à porta dos genoveses ao minuto 40 da partida da segunda mão, altura em que o seu principal esteio, o seu notável guarda-redes Manlio Bacigalupo, sofre uma grave lesão que o obriga a abandonar o terreno, sendo substituído por um jogador de campo - na altura as substituições estavam ainda muito longe de ser permitidas. O Rapid aproveitou a inexperiência do guardião improvisado para chegar à goleada, com realce para o bis de Weselik e Wessely. Giuseppe Meazza não foi a única estrela a emergir nesta quarta edição da Mitropa. No Sparta de Praga orientado por John Dick aparecia um prodígio belga, avançado, de nome Raymond Braine, um verdadeiro terror para os guarda-redes oponentes. Natural de Antuérpia, Braine vestiu durante seis épocas a camisola do clube checoslovaco, assumindo-se desde logo como uma das suas principais estrelas a par de Karel "Kada" Pasek, ou Josef Silny. O belga realizou um total de 106 encontros pelo emblema de Praga, tendo apontado 128 golos. Um deles ocorreu precisamente no embate da primeira mão dos quartos-de-final da Mitropa Cup de 1930, ante o First Viena, o tento que selou um magro mas justo triunfo (2-1) dos vice-campeões da Checoslováquia. Na segunda mão, em Viena, nova vitória do Sparta de Ferro, desta feita por 3-2, sendo que com apenas 20 minutos de jogo os checoslovacos já lideravam o marcador por 3-1. À festa do apuramento para as meias-finais os adeptos do Sparta rejubilaram com o afastamento do seu grande rival, o Slavia, que caiu aos pés do Ferencvaros após uma eliminatória muito equilibrada.

Ambrosiana-Inter coloca anúncio em jornal para recrutar um guarda-redes para o duelo das meias-finais!


Pietro Miglio, o guarda-redes
que a Ambrosiana-Inter contratou
através de um anúncio de jornal!
Facto insólito ocorreu numa das meias-finais da prova. Poucos dias antes da partida da segunda mão com o Sparta de Praga a turma da Ambrosiana-Inter vê-se privada dos seus dois guarda-redes, Smerzi e Degani, ambos a contas com graves lesões. Os nerazzurri viram-se então forçados a colocar um anúncio num jornal desportivo (!) com a finalidade de encontrar um keeper para o que restava da temporada. Não se sabe ao certo quantos candidatos apareceram, mas o que se sabe é que a escolha recaiu em Pietro Miglio, que atuava numa equipa amadora de Turim, o Crocetta. A inexperiência do Miglio na alta roda internacional - e profissional - acabaria por deixar marcas na eliminatória, já que depois de uma igualdade a dois golos na primeira mão, em Milão, o descalabro ocorreu em Praga, onde o Sparta além de dominar amplamente o encontro graças a soberbas exibições de Braine e Kada humilhou os italianos com uma goleada de 6-1. À Ambrosiana-Inter restou a consolação de ver a sua estrela-mor, Giuseppe Meazza, ter alcançado o título de goleador da Taça Mitropa de 1930, com sete remates certeiros. A outra meia-final foi uma repetição do jogo decisivo da segunda edição da prova, entre Ferencvaros e o Rapid de Viena, tendo na altura os húngaros sido mais felizes. Dois anos demorou a vingança dos austríacos, que no encontro da primeira mão beneficiaram do facto de terem pela frente um adversário que apesar de ter mais posse de bola cometeu demasiados erros no capítulo da finalização. Resultado: 5-1 a favor dos vienenses, com o destaque individual a recair sobre Matthias Kaburek, autor de um hattrick, e com isto a final estava ali ao virar da esquina. Na segunda mão, em Budapeste,a defesa do Rapid ditou leis, apresentando-se praticamente intransponível, e dizemos praticamente porque somente por uma ocasião o Ferencvaros conseguiu bater o guardião Bugala. 

À terceira tentativa o Rapid ergueu finalmente a Taça Mitropa


Karl Rappan
O dinamarquês Sophus Hansen foi o árbitro escolhido pela organização para dirigir os dois encontros da final da Mitropa Cup de 1930. No dia 2 de novembro o Estádio Letna acolhe o primeiro encontro, o qual ficou marcado pela excelente exibição do guardião vienense, Josef Bugala, e pela eficácia do contra-ataque da sua equipa, que em duas ocasiões fez balançar as redes do guardião checoslovaco Belik na sequência de jogadas de contra-golpe. O Rapid de Viena estava assim bem lançado para finalmente colocar as mãos numa taça que lhe havia escapado nas duas primeiras edições, sendo que no encontro da segunda mão entrou em campo com uma postura distinta da que foi patenteada em Praga. Lançados ao ataque desde o apito inicial de Hansen, os jogadores do Rapid cedo chegaram à vantagem, por intermédio de Kaburek, logo ao minuto sete. No esteio da defesa vienense militava um homem que um par de décadas mais tarde haveria de atingir o patamar das celebridades futebolísticas, já que é da sua autoria a conhecida tática do... ferrolho, a(s) base(s) do catenaccio que os italianos tornaram célebre a partir dos anos 60. Karl Rappan era o seu nome. No Hohe Warte Stadium de Viena não brilhou o génio do belga Raymond Braine mas em seu lugar apareceu o inspirado Josef Kostalek, que nos espaço de três minutos (entre os minutos 25 e 27) apontou dois golos que fizeram tremer os austríacos. Tremedeira que na segunda parte iria ter um fim, quando ao minuto 67 Smistik fez o 2-2 que praticamente garantiu o título, de nada valendo um terceiro golo de Kostalek. 
Depois de duas finais perdidas o Rapid de Viena era por fim campeão da Mitropa, ou na realidade daquela altura... campeão da Europa.

Números e nomes:

Quartos-de-final (1ª e ª mãos) 

Slavia Praga (Checoslováquia) – Ferencvaros (Hungria): 2-2/0-1 

Sparta Praga (Checoslováquia) - First Viena (Áustria): 2-1/3-2

Génova (Itália) - Rapid Viena (Áustria): 1-1/1-6 

Ujpest (Hungria) – Ambrosiana-Inter (Itália): 2-4/4-2/1-1/3-5 (desempate)

Meias-finais (1ª e 2ª mãos) 

Ambrosiana-Inter (Itália) - Sparta Praga (Checoslováquia): 2-2/1-6 

Rapid Viena (Áustria) - Ferencvaros (Hungria): 5-1/0-1

Final (1ª mão)

Sparta Praga (Checoslováquia) - Rapid Viena (Áustria): 0-2

Data: 2 de novembro de 1930 

Estádio: Letna, em Praga (Checoslováquia)

Árbitro: Sophus Hansen (Dinamarca)

Sparta Praga: Ladislav Belik, Jaroslav Brugr, Antonín Hojer, Madelon, Kada (c), Erich Srbek, Adolf Patek, Josef Kostalek, Raymond Braine, Josef Silný, e Karel Hejma. Treinador: John Dick. 

Rapid Viena: Josef Bugala, Roman Schramseis, Leopold Czejka, Karl Rappan, Josef Smistik, Johann Vana, Willibald Kirbes, Franz Weselik, Matthias Kaburek, Johann Luef, e Ferdinand Wesely (c). Treinador: Edi Bauer.

Golos: 0-1 (Luef, aos 9m), 0-2 (Wesely, aos 57m)

Final (2ª mão)

Rapid Viena (Áustria) - Sparta Praga (Checoslováquia): 2-3

Data: 11 de novembro de 1930

Estádio: Hohe Warte, em Viena (Áustria)

Árbitro: Sophus Hansen (Dinamarca)

Rapid Viena: Josef Bugala, Roman Schramseis, Leopold Czejka, Karl Rappan, Josef Smistik, Johann Vana, Willibald Kirbes, Franz Weselik, Matthias Kaburek, Johann Luef, e Ferdinand Wesely (c). Treinador: Edi Bauer.

Sparta Praga: Ladislav Belik, Jaroslav Brugr, Josef Ctyroky, Madelon, Kada (c), Erich Srbek, Karel Podrazil, Josef Kostalek, Raymond Braine, Josef Silný, e Karel Hejma. Treinador: John Dick. 

Golos: 1-0 (Kaburek, aos 7m), 1-1 (Kostalek, aos 25m), 1-2 (Kostalek, aos 27m), 2-2 (Smistik, aos 67), 2-3 (Kostalek, aos 87m).

À terceira tentativa (numa final) o Rapid de Viena conseguiu levar o troféu para casa

Os anos dourados (1927-1939) da Taça Mitropa - A primeira montra de estrelas do futebol europeu (parte I)

A Taça Mitropa
Atualmente, a Champions League (da UEFA) é sem margem de dúvida o palco de sonho que qualquer futebolista deseja pisar. É a grande montra do futebol planetário, onde se passeiam com glamour os maiores artistas do belo jogo. Messi, Cristiano Ronaldo, Neymar, Ibrahimovic, Suárez, Pirlo, Bale, Casillas, Benzema, Gotze, Neuer, ou Hazard são apenas algumas das mega estrelas que hoje desfilam na passerelle da prova rainha da UEFA. Antes deles muitas outras lendas do jogo exibiram a sua classe numa prova que em 2016 irá cumprir 60 anos de vida, e onde na qual estão escritos centenas de capítulos dourados da história da modalidade. Como alguém diz: o melhor futebol do Mundo está ali, na Champions League (ou Liga dos Campeões, na língua de Camões). Está, e arriscamos dizer que... dificilmente algum dia irá deixar de estar. O sonho teve início nos anos 50, coincidente com o nascimento da UEFA (1954), altura em que um leque de personalidades ligadas ao futebol de então idealizaram, ou sonharam, esta será mesmo a melhor definição para o que então se passou, reunir os melhores clubes - e consequentemente os melhores futebolistas - do Velho Continente em torno de uma competição. Entre esses sonhadores encontravam-se os ilustres Don Santiago Bernabéu - então presidente do Real Madrid - e Henri Delaunay, jornalista francês por muitos considerado o verdadeiro pai das competições europeias, quer de clubes, quer de seleções. Assim, na época de 1955/56 arrancava oficialmente aquela que com o passar dos anos se tornou na prova mais importante de clubes do planeta da bola, a Taça dos Clubes Campeões Europeus, hoje denominada de Liga dos Campeões Europeus. 
Este foi contudo um sonho recalcado (!), um sonho inspirado num outro sonho tornado realidade um par de décadas antes quando no leste da Europa se disputou a primeira competição europeia de clubes da história, que agregou a si algumas das melhores equipas e atletas daquele tempo. Eis a Taça Mitropa, a precursora das competições europeias chanceladas pela UEFA. Numa (longa) viagem ao passado vamos (tentar) desfiar as memórias daquela que foi - sem dúvida - a primeira (grande) Liga dos Campeões da história. 

Hugo Meisl: O pai das competições europeias de clubes e de seleções?


Hugo Meisl, mais do que um dos melhores
mestres da tática de todos os tempos,
ele foi o mentor das competições continentais
As opiniões dividem-se quando se discute sobre qual a grande potência do futebol europeu dos anos 20 e 30 do século passado. Para muitos - sobretudo para os britânicos - os melhores intérpretes dos desporto rei eram os ingleses, eles foram os (re)criadores do futebol moderno, criaram as leis, as (primeiras) táticas, e também as primeiras lendas. Contudo, como em tudo na vida, por vezes o aprendiz supera o mestre, e na voz de muitos historiadores do belo jogo o melhor futebol daquelas décadas era jogado na região do (rio) Danúbio. Três nações interpretavam a modalidade com elegância e mestria ímpares. Áustria, Checoslováquia, e Hungria, eram na época encaradas como as nações onde o jogo tocava o céu em termos de perfeição. Mas qual delas o fazia melhor? Qual dos nobres emblemas destes três países era capaz de se sentar no trono do futebol continental? Poderá, eventualmente, ter sido esta a questão que passou pela cabeça de Hugo Meisl,  um cidadão nascido em 1881 na antiga região da Boêmia - hoje território pertencente à República Checa - que nos inícios do século passado se destacou como um dos mais prestigiados estudiosos do jogo. Oriundo de uma família de comerciantes judeus, Meisl cedo deixou o seu lar para prosseguir os seus estudos em Viena, a capital austríaca, onde a sua paixão pelo futebol cedo começou a ganhar vincados contornos. A sua ligação ao jogo começou pela prática do mesmo, envergando - desde que em finais do século XIX assentou arraiais na capital da Áustria - a camisola do Vienna Cricket and Football Club. Fê-lo até 1905, altura em que se tornou árbitro, e posteriormente dirigente da Federação Austríaca de Futebol. Era pois uma figura multifacetada dentro do meio futebolístico daquele país. Mas seria na qualidade de treinador que o seu nome iria atingir o Olimpo dos Deuses. Corria o ano de 1912 quando Meisl assumiu as funções de selecionador da equipa nacional da Áustria, começando a edificar a partir de então não só a melhor seleção de todos os tempos daquele país, como uma das mais brilhantes da história centenária da modalidade. Seleção essa que encantou o Mundo nos anos 20 e 30, e que ficou eternizada como o Wunderteam (a equipa maravilha). Além de um notável estudioso e revolucionário - no bom sentido - mestre da tática, vulgo, treinador, Hugo Meisl era um visionário, característica que aplicou com mestria quer na evolução tática que implementou na sua seleção, quer na criação de provas que fomentassem a competição entre seleções e clubes. 


Meisl (à direita) posa
com a Mitropa Cup
Nesse sentido, em 1927 Meisl viu não uma, mas duas das suas ideias pioneiras atingirem o patamar da realidade. Assim, era dado o pontapé de saída da Taça Internacional e da Taça Mitropa. A primeira - cuja história já foi evocada pelo Museu Virtual do Futebol numa anterior viagem ao passado - destinava-se às seleções da Europa Central, ao passo que a segunda foi equacionada para os clubes oriundos da citada região continental - sim, porque os mestres ingleses continuavam, teimosamente, fechados na sua concha, orgulhosamente sós, e convencidos de que eram os melhores do Mundo no que a futebol dizia respeito, não precisando de provar essa teórica supremacia no campo de batalha, isto é, nos retângulos de jogo. Como facilmente podemos vislumbrar, quer a Taça Internacional quer a Taça Mitropa foram, respetivamente, as sementes dos atuais Campeonato da Europa e Liga dos Campeões da UEFA. Mas será que Meisl foi mesmo pai das eurotaças? As dúvidas são poucas em torno desta questão, já que grande parte dos historiadores sustenta que ele foi o mentor das competições continentais, tendo a UEFA - assim que nasceu - recriado a(s) ideia(s) da lendária figura que viria a falecer em Viena no ano de 1937, mas... há quem pense o contrário, ou seja, tal como Henri Delaunay plagiou, por assim dizer, a ideia de Meisl, também este se terá inspirado na Chalange Cup, certame criado pelo inglês John Gramlick que entre 1897 e 1911 foi disputado por clubes do Império Austro-Húngaro, para erguer tanto a Mitropa Cup como a Coupe Internationale Européene (o nome de batismo da Taça Internacional). Mentor ou não das provas continentais, o que é certo é que Hugo Meisl teve um papel fundamental na dinamização da ligação competitiva entre clubes e nações do Velho Continente

1927: A primeira edição da Taça Mitropa


Johann Horvath, uma das principais
figuras do Rapid Viena e da seleção
austríaca nas décadas de 20 e 30
A ideia de Hugo Meisl era simples: colocar frente a frente as melhores equipas dos campeonatos nacionais (profissionais) da Europa Central, para entre si disputar o título continental, isto é, é Taça Mitropa, cuja designação faz precisamente alusão aos países daquele eixo do continente, por outras palavras, Mitropa é uma contração da expressão alemã Mitteleuropa, que traduzido para português significa Europa Central. As linhas gerais da nova competição foram traçadas numa reunião realizada em Veneza a 17 de julho de 1927. À competição podiam aderir somente os países que tivessem instituído o profissionalismo nos seus respetivos campeonatos. Depois da Inglaterra - que continuava renitente em abraçar os restantes vizinhos continentais no sentido de organizar e participar em provas internacionais oficiais - o ter feito, a Áustria foi o segundo país europeu a criar uma liga profissional, facto ocorrido em 1924. A esta seguiu-se a Hungria (1925), a Checoslováquia (1926) e a Jugoslávia (1927), precisamente os quatro países que participaram do pontapé de saída da primeira edição da Mitropa Cup. Idealizada num sistema de eliminatórias a duas mãos, com um jogo em casa e outro fora, a competição foi integrada pelos campeões e vice-campeões nacionais dos quatro países envolvidos. 14 de agosto de 1927 é pois um dia histórico para a... histórica prova, com a ocorrência dos 1ª eliminatória - equivalente aos quartos-de-final. Viena, Praga, e Belgrado foram as cidades que serviram de palco para os primeiros embates de um certame que desde cedo deixou bem vincado o poderio do futebol praticado por austríacos e checoslovacos. Na capital austríaca um autêntico vendaval de golos varreu desde logo com os jugoslavos do Hajduk Split da prova, vendaval esse protagonizado pelo lendário conjunto do Rapid de Viena, que nas suas fileiras contava com alguns dos mitos que formaram o Wunderteam de Hugo Meisl na década seguinte, casos de Pepi Smistik, Franz Weselik, ou Johann Horvath. 8-1, o resultado da avalanche austríaca, com destaque para o hattrick de Johann Hoffmann. O futebol austríaco vivia por estes dias indiscutivelmente alguns dos seus melhores dias - embora o melhor ainda estava para acontecer, como iriam comprovar os inícios dos anos 30 - pelo que a viagem a Split para disputar a segunda mão mais não foi do que um passeio para os vienenses, que graças a um novo golo de Hoffmann obtiveram uma nova vitória - esta mais magra, por 1-0 - que garantiu a presença nas meias-finais. 


John Dick
Nem todos os ingleses estavam de costas voltadas para o que se passava no resto da Europa no que a futebol dizia respeito. John Dick, um escocês de berço que enquanto futebolista se notabilizou ao serviço do Arsenal (cuja camisola envergou por mais de 250 ocasiões), e que na sequência de uma digressão do clube londrino pela Europa Central se terá - dizem - deixado encantar pelo futebol que se praticava naquela região, era um desses britânicos cuja mente estava aberta para outros futebóis. Após ter pendurado as chuteiras partiu à aventura para aquelas bandas, começando por treinar o Deutscher, da Boêmia, onde foi campeão. Assentou posteriormente arraiais na Checoslováquia, em 1919, tendo desde logo assumido um papel de destaque na dinamização do futebol naquele país. Assumiu o comando do Sparta de Praga, edificando uma equipa lendária, praticamente imbatível, e que ficou conhecida como o Zelezná Sparta, que na tradução para português significa Sparta de Ferro. Um conjunto forte fisicamente cujo futebol ofensivo esmagou adversários atrás de adversários, sobretudo na competição interna, onde os homens da capital venceram cinco campeonatos consecutivos sob as ordens de Dick. Super potência interna o Sparta mostrou-se igualmente sedutor e poderoso na Mitropa Cup, começando por bater em casa nos quartos-de-final, sem apelo nem agrado, o campeão da Áustria, o Admira de Viena, por 5-1. Entre as figuras maiores do conjunto de John Dick destacava-se Josef Silny - que seria um dos principais responsáveis pela chegada da seleção checoslovaca à final do Campeonato do Mundo de 1934. Na viagem à capital austríaca, para disputar o encontro da segunda mão, uma chuva de golos caiu sobre o relvado do Hohe Warte. 5-3 a favor dos vienenses, resultado que mesmo assim não chegou para afastar os homens de John Dick das meias-finais. Do lado dos checoslovacos um homem voltou a evidenciar a sua veia goleadora nesta eliminatória: Evzen Vesely, autor de dois golos, repetindo assim a receita do encontro da primeira mão, onde havia marcado outros dois tentos. Ele que até nem era titular absoluto deste Zelezná Sparta!


Gyorgy Orth
A outra grande nação futebolística da Europa Central daqueles anos era a Hungria. No entanto, nesta primeira edição da Mitropa Cup os húngaros não se fizeram representar pelo seu melhor conjunto de então, o Ferencvaros, outra máquina de jogar (bom) futebol. O MTK de Budapeste foi o combinado daquele país que melhor desempenho obteve neste arranque da Mitropa, ao alcançar um lugar entre os quatro melhores conjuntos. Na primeira ronda despacharam os vice-campeões da Jugoslávia, o BSK Belgrado, por um total de 8-2 no conjunto da eliminatória (com 4-2 na primeira e 4-0 na segunda), sendo que no plano individual o sublinhado deste embate vai para o húngaro Gyorgy Orth, autor de três dos oito golos do conjunto de Budapeste, figura esta que após ter encerrado a sua brilhante carreira de futebolista (em 1928) enveredou pela vida de treinador, tornando-se então num autêntico globetrotter, saltando de país para país, de continente para continente, acabando os seus dias na cidade do Porto, onde viria a falecer em 1962, numa altura em que orientava a turma do FC Porto.
O derradeiro embate destes quartos-de-final colocou frente a frente os vice-campeões da Hungria e da Checoslováquia, respetivamente o Ujpest e o Slavia de Praga. Neste último emblema despontava aquele que hoje em dia é considerado como um dos melhores guarda-redes de todos os tempos do futebol internacional, de seu nome Frantisek Plánicka. E se este homem fechava - com classe - a sete chaves a baliza, lá na frente Antonin Puc aterrorizava os guardiões contrários com o seu instinto matador. Puc, esse mesmo, o homem que em 1934 assustou o ditador Benito Mussolini após ter colocado a Checoslováquia na frente do marcador na final do Campeonato do Mundo de Itália... ante a Squadra Azzurra. Na edição de estreia da Mitropa Cup Antonin Puc iria brilhar sobretudo no encontro da segunda mão, na Hungria, quando apontou os dois golos da sua equipa que valeram um empate a duas bolas, e o consequente carimbo de acesso às meias-finais.

Equilíbrio foi nota dominante nas meias-finais


Exibição de gala do guardião Plánicka
não chegou para apurar o Slavia de Praga para a final
A rivalidade existente entre austríacos, húngaros, e checoslovacos subiu de tom nas meias-finais da competição, fase esta onde ficou evidente a dificuldade em decifrar qual das três nações era a mais forte no contexto futebolístico da época, tal o equilíbrio que se verificou nas meias-finais. Aqui podemos até falar na estrelinha da sorte, que acabou por se posicionar ao lado dos futuros campeões, o Sparta de Praga, que depois dois empates (2-2 e 0-0) ante o MTK de Budapeste foram dispensados de discutir um terceiro encontro - de desempate - devido a uma inscrição irregular de um atleta húngaro, neste caso o extremo-direito Kálmán Konrad, que pelo facto de nessa temporada ter aliando pelos norte-americanos dos Brooklyn Wanderers estava impedido de representar outro clube nessa época. O jogador e o clube não deram ouvidos à lei, e no terceiro jogo lá estava Konrad do lado do MTK, ato que iria custar caro ao combinado de Budapeste, já que a organização decidiu anular o encontro e qualificar diretamente o Sparta para a final.
No outro jogo o Rapid de Viena teve de suar para ultrapassar uma autêntica fortaleza chamada... Frantisek Plánicka. O célebre guardião nascido em Praga defendeu tudo o que havia para defender nas duas partidas da eliminatória. Ou quase tudo. Sobretudo na primeira mão, na capital da então Checoslováquia, onde as suas espetaculares defesas garantiram um empate a duas bolas. Bem bom, tendo em conta a verdadeira avalanche ofensiva que os austríacos edificaram ao longo do encontro junto da baliza checoslovaca. Na segunda volta uma nova exibição de gala de Plánicka não evitou o adeus do Slavia à competição. 2-1 a favor do Rapid que desta forma se juntava ao Sparta na primeira final da Mitropa Cup.

Campeão encontrado na... primeira mão


Josef Silný, o melhor marcador
da primeira Mitropa Cup
No dia 30 de outubro de 1927 o Estádio Letna, em Praga, foi pequeno demais para acolher os 25.000 espectadores que ali se deslocaram para assistir ao embate entre Sparta de Praga e Rapid de Viena. A turma da casa não poderia ter tido melhor início de jogo, já que logo na primeira jogada o capitão Karel Pesek, conhecido entre os colegas por Kada, abriu o marcador. Ambas as equipas entraram em campo algo nervosas, desconcentradas na sua zona defensiva, de tal maneira que aos 15 minutos o marcador já tinha funcionado por três vezes, duas para o Sparta e uma para o Rapid. Atuando ambos num peculiar esquema tático de 2-3-5 os dois conjuntos ainda apontariam mais dois golos até ao descanso. 3-2 era o resultado ao intervalo. Na etapa complementar o jogo foi amplamente dominado pelos homens de John Dick, cujo futebol ofensivo e tremendamente eficaz causaria estragos na defensiva austríaca em mais três ocasiões, com destaque para a pontaria letal de Josef Silný, autor de dois golos, ele que se iria consagrar como o melhor marcador desta primeira edição da Mitropa Cup, com cinco golos. 6-2, o score final, e o campeão estava praticamente encontrado, já que o Rapid de Viena precisava de um verdadeiro milagre para inverter o rumo dos acontecimentos no encontro de volta, o qual teria lugar a 13 de novembro. Pressentindo que o grande Sparta dos anos 20 e 30 estava prestes a entrar para a história do futebol continental, os adeptos do clube invadiram o relvado no final da partida para carregar em ombros os... futuros campeões. E de facto confirmou-se que a tarefa do Rapid em dar a volta à eliminatória era uma tarefa muito complicada. A turma vienense até deu alguma esperança aos adeptos presentes no Hohe Warte Stadium, quando ao minuto cinco Franz Weselik colocou a sua equipa em vantagem. Porém, só no segundo tempo é que o Rapid voltaria a balançar as redes dos checoslovacos, graças a um golo de Luef. A esperança voltava assim a renascer para os comandados de Edi Bauer, que neste segundo encontro atuou como jogador-treinador. Porém, o goleador da equipa de Praga, Silný, voltou a fazer das suas, e aos 81 minutos acabou de vez com as dúvidas quanto ao campeão da competição, fazendo o 1-2 final. O Sparta de Ferro era desta forma coroado como o primeiro rei do futebol continental.
A acesa rivalidade entre países - com cenas de violência em grande parte dos jogos - e a falta de fair-play foram aspetos amplamente notados ao longo desta primeira edição. A provar isso o facto de na cerimónia da entrega da taça de campeão o capitão do Sparta, Kada, ter sido apedrejado pelos adeptos do Rapid (!) e não fosse a rápida intervenção dos agentes da autoridade ali presentes e os recém consagrados vencedores da Mitropa Cup dificilmente teriam saído com vida do estádio Hohe Warte.

Números e nomes:

Quartos-de-final (1ª e 2ª mãos) 

MTK Budapeste (Hungria) – BSK Belgrado (Jugoslávia): 4-2/4-0 

Rapid Viena (Áustria) - Hajduk Split (Jugoslávia): 8-1/1-0

Sparta Praga (Checoslováquia) - Admira Viena (Áustria): 5-1/3-5

Slavia Praga (Checoslováquia) – Ujpest (Hungria): 4-0/2-2 

Meias-finais (1ª e 2ª mãos)  

Slavia Praha (Checoslováquia) - Rapid Viena (Áustria): 2-2/1-2

MTK Budapeste (Hungria) - Sparta Praga (Checoslováquia): 2-2/0-0 (Sparta avança para a final pelo facto de o MTK ter sido castigado por ter alinhado com um jogador impedido de atuar no terceiro jogo) 

Goleado em Praga na primeira mão da final o Rapid de Viena praticamente disse adeus
à possibilidade de colocar a mão num troféu que haveria de conquistar em 1930

Final (1ª mão)
Sparta Praga (Checoslováquia) - Rapid Viena (Áustria). 6-2
Data: 30 de outubro de 1927
Estádio: Letna, em Praga (Checoslováquia)
Árbitro: Raphaël Van Praag (Bélgica)
Sparta Praga: František Hochmann, Jaroslav Burgr, Antonín Perner, František Kolenatý, Káda (c), Ferdinand Hajný, Adolf Patek, Josef Šíma, Josef Miclík, Josef Silný, e Josef Horejs.Treinador: John Dick.
Rapid Viena: Walter Feigl, Otto Jellinek, Leopold Czejka, Josef Madlmayer, Josef Smistik, Leopold Nitsch (c), Karl Wondrak, Franz Weselik, Richard Kuthan, Johann Horvath, e Ferdinand Wesely. Treinador: Edi Bauer.
Golos: 1-0 (Kada, ao 1m), 2-0 (Šíma, aos 14m) 2-1 (Weselik, aos 15m), 3-1 (Silný, aos 33m), 3-2 (Wesely, aos 34m), 4-2 (Patek, aos 62m), 5-2 (Silný, aos 76m) 6-2 (Patek, aos 78m).
Final (2ª mão)
Rapid Viena (Áustria) - Sparta Praga (Checoslováquia): 2-1
Data: 13 de novembro de 1927
Estádio: Hohe Warte, em Viena (Áustria)
Árbitro: Willem Eymers (Holanda).
Rapid Viena: Walter Feigl, Roman Schramseis, Leopold Nitsch (c), Johann Richter, Josef Smistik, Josef Madlmayer, Edi Bauer, Johann Horvath, Franz Weselik, Johann Luef, e Ferdinand Wesely. Treinador: Edi Bauer.
Sparta: Praga: František Hochmann, Jaroslav Burgr, Antonín Perner, František Kolenatý, Káda (c), Ferdinand Hajný, Adolf Patek, Josef Šíma, Josef Miclík, Josef Silný, e Josef Horejs. Treinador: John Dick. 
Golos: 1-0 (Weselik, aos 5m), 2-0 (Luef, aos 55m), 2-1 (Silný, aos 81m).
O temível Sparta de Ferro, equipa construída pelo mestre da tática escocês John Dick, que em 1927 venceu a primeira edição da Mitropa Cup

1928: Judeus de Budapeste entram na história do futebol 
Ferencvaros em ação durante a sua caminhada
rumo à glória na segunda edição da Taça Mitropa
O sucesso da primeira edição da Mitropa Cup confirmou-se no ano seguinte, quando num formato idêntico oito equipas lutaram pelo ceptro. No entanto, algumas supresas saltaram à vista no quadro dos quartos-de-final. Desde logo, a ausência do campeão em título, o Sparta de Praga, conjunto que devido à má campanha interna - ficou em terceiro lugar do seu campeonato nacional - viu-se impedido de defender a taça. Outra novidade foi a estreia - na competição - dos húngaros do Ferencvaros, equipa de Budapeste apoiada pela comunidade judaíca daquele país. Ferencvaros das décadas de 20 e 30 que se pode considerar como a semente do que o futebol húngaro viria a colher (sobretudo) na década de 50, um estilo de fina classe, encantador, revolucionário sob o ponto de vista tático, e que teria o seu ponto alto na citada década de 50, através dos eternos Mágicos Magiares (alcunha dada à seleção húngara desses anos). Ferencvaros cujo plantel era composto por algumas das primeiras lendas do futebol magiar, casos do implacável defesa Márton Bukovi, e do demolidor avançado-centro József Takács, sendo que este último haveria de se sagrar o máximo goleador desta segunda edição graças aos seus 10 golos. A veia goleadora de Takács e do Ferencvaros fez-se notar logo na primeira eliminatória, quando os jugoslavos do BSK Belgrado foram esmagados por um total - no conjunto das duas mãos - de 13-1. Takács e Turay, repartiram entre si o papel de carrascos do combinado da Jugoslávia, ao apontarem, cada um deles, seis golos. 

Com 10 golos apontados, o húngaro
József Takács foi o melhor marcador
da segunda edição da prova
Estreia igualmente auspiciosa teve o campeão da Checoslováquia de 1928, o Viktoria Zizkov, que na ronda inaugural despachou o Gradanski de Zagreb por um total de 8-4, vitória que foi consumada na segunda mão, graças a uma robusta vitória por 6-1 que apagou a má imagem deixada no encontro de ida na Jugoslávia - derrota por 2-3. Igualmente poderoso e talentoso apresentou-se o campeão austríaco, o Admira de Viena, que nas suas fileiras com um jovem e fino avançado de nome Anton Schall, o qual haveria de ser uma das peças fundamentais do Wunderteam de Hugo Meisl. Schall ajudou a eliminar o Slavia de Praga da fortaleza Frantisek Plánicka, com um resultado total de 6-4. E no derradeiro encontro alusivo aos quartos-de-final o finalista vencido da edição de estreia, o Rapid de Viena necessitou de fazer horas extras para garantir um lugar entre os quatro semi-finalistas. Depois de um triunfo na primeira mão em Viena por 6-4, o Rapid caiu em Budapeste diante do MTK por 3-1, facto que obrigou a organização a agendar um terceiro jogo para desempatar a contenda. Numa partida de desempate onde cautelas e caldos de galinha ditaram leis - ambas as equipas arriscaram pouco - foi o defesa Anton Sitschel a ir lá à frente fazer o único golo do duelo e dar assim a passagem da eliminatória à sua equipa. 

Rapid Viena volta a fazer horas extras para alcançar de novo a final

Contrariamente ao que era esperado, a julgar pela força ofensiva que ambas as equipas patenteavam, o embate entre o Admira de Viena e o Ferencvaros ficou um pouco aquém do esperado em termos de golos. Somente por quatros ocasiões, no conjunto das duas mãos, a bola beijou as malhas das duas balizas, numa eliminatória demasiado... defensiva. Na primeira mão, em Viena, o Ferencvaros dominou por completo o jogo, com Takács a selar tardiamente um curto mas justo triunfo por 2-1. Na partida de volta, em Budapeste, uma exibição magnífica do guardião do Admira fez com que os húngaros apenas por uma ocasião chegassem ao golo, mais do que suficiente para garantir um lugar na final. 
No outro encontro das meias-finais o Rapid de Viena voltou a necessitar de fazer horas extras para lograr alcançar a sua segunda final consecutiva. A primeira mão do embate com os checoslovacos do Viktoria Zizkov - realizada em Praga - foi um jogo de loucos! O defesa Karl Steiner colocou a turma da casa em vantagem, mas pouco depois o inspirado Franz Weselik fez um hattrick num abrir e fechar de olhos que colocou os vienenses a vencer por 3-1. Sol de pouca dura, já que Jan Dvoracek não quis ficar atrás de Weselik e também ele fez três golos de rajada que deram a vitória ao... Viktoria. No encontro da segunda mão, Karel Podrazil estragou a festa aos vienenses, que ao minuto 64 desse embate venciam por 3-1, resultado que lhes dava a qualificação para a final. Porém, esse seria um minuto fatídico para os planos do rapid, já que Podrazil fez o resultado final (3-2) e obrigou a que um terceiro jogo - de desempate - fosse necessário. No play-off o Rapid de Viena realizou uma exibição de gala, sobretudo Johann Horvath que com dois golos na conta pessoal ajudou a sua equipa a construir um triunfo por 3-1 e assegurar assim a presença numa nova final. 

Ferencvaros demolidor resolve questão na 1ª mão

Fase da grande final de 1928, entre o Rapid de Viena
e o Ferencvaros
A primeira mão da grande final foi jogada a 28 de outubro de 1928, em Budapeste, perante 25.000 pessoas. O italiano Albino Carraro foi o árbitro de um encontro... sem história. Ou melhor, um jogo cuja história resume-se quase exclusivamente ao festival de golos apontados pela equipa da casa, que praticamente naquele dia assegurou o título. 7-1, foi o resultado final, e tal como na edição anterior o Rapid de Viena morria na praia logo no rescaldo do primeiro jogo da final. No plano individual o sublinhado vai para os três golos do artilheiro da segunda edição da Mitropa Cup, József Takács, que assim chegava à dezena de remates certeiros. 
Em Viena, no Hohe Warte Stadium unicamente cumpriu-se calendário, até porque se na época anterior a reviravolta do Rapid diante do Sparta de Praga foi uma tarefa para lá de complicada, em 1928 afigurava-se como uma missão impossível. Mesmo assim os vienenses lutaram por um resultado positivo, que os fizesse sair da competição de cabeça erguida. Venceram por 5-3, resultado insuficiente para impedir que o Ferencvaros fizesse a festa. Este triunfo marca aliás o início de uma era dourada para a equipa de Budapeste, que até ao estalar da II Guerra Mundial iria vencer ainda mais cinco títulos de campeão da Checoslováquia, outras tantas taças daquele país, e uma segunda Taça Mitropa (1937). 

Números e nomes:

Quartos-de-final (1ª e 2ª mãos)
Admira Viena (Áustria) - Slavia Praga (Áustria): 3-1/3-3

BSK Belgrado (Jugoslávia) – Ferencvaros (Hungria): 0-7/1-6

Gradanski Zagreb (Jugoslávia) - Viktoria Zizkov (Checoslováquia): 3-2/1-6

Rapid Viena (Áustria) – MTK Budapeste (Hungria): 6-4/1-3(1-0 (desempate) 

Meias-finais (1ª e 2ª mãos) 

Admira Viena (Áustria) – Ferencvaros (Hungria): 1-2/0-1

Viktoria Zizkov (Checoslováquia) - Rapid Viena (Áustria): 4-3/2-3/1-3 (desempate)  

Final (1ª mão)

Ferencvaros (Hungria) - Rapid Viena (Áustria): 7-1 

Data: 28 de outubro de 1928 
Estádio: Ulloi Uti, em Budapeste (Hungria) 
Árbitro: Albino Carraro (Itália)

Ferencvaros: Ignác Amsel, Géza Takács, János Hungler (c), Károly Furmann, Márton BukoviElemér Berkessy, Imre Koszta, József Takács, József Turay, Ferenc Szedlacsik, e Vilmos Kohut. Treinador: Istvan Tóth 

Rapid Viena: Franz Hribar, Roman Schramseis, Franz Kral, Josef Frühwirth, Josef Smistik, Josef Madlmayer, Willibald Kirbes, Franz Weselik, Johann Hoffmann,Johann Horvath, e Ferdinand Wesely (c). Treinador: Edi Bauer. 

Golos: 1-0 (Szedlacsik, aos 15m), 2-0 (Takács, aos 18m), 3-0 (Szedlacsik, aos 20m), 4-0 (Kohut, aos 56m), 5-0 (Kohut, aos 58m), 6-0 (Takács, aos 64m), 7-0 (Takácks, aos 76m), 7-1 (Horvath, aos 85m) 

Final (2ª mão)

Rapid Viena (Áustria) - Ferencvaros (Hungria): 5-3

Data: 11 de novembro de 1928
Estádio: Hohe Warte, em Viena (Áustria)
Árbitro: Albino Carraro (Itália)

Rapid Viena: Franz Hribar, Roman Schramseis, Anton Witschel, Johann Hoffmann, Josef Madlmayer, Josef Fruhwirth, Willibald Kirbes, Franz Weselikm Richard Kuthan, Johann Horvath, e Ferdinand Wesely (c). Treinador: Edi Bauer.

Ferencvaros: Ignác Amsel, Géza Takács, János Hungler (c), Károly Furmann, Márton Bukovi, Elemér Bersessy, Imre Koszta, József Takács, József Turay, Ferenc Szedlacsik, e Vilmos Kohut. Treinador: István Tóth.

Golos: 1-0 (Kirbes, aos 5m), 2-0 (Kirbes, aos 22m), 2-1 (Kohut, aos 33m), 2-2 (Turay, aos 36m), 3-2 (Wesely, aos 37m), 4-2 (Weselik, aos 50m), 5-2 (Wesely, aos 53m(, 5-3 (Szedlacsik, aos 79m).
O demolidor Ferencvaros (26 golos marcados em seis encontros disputados) que em 1928
venceu a sua primeira Mitropa Cup

Há 100 anos uma bola de futebol promoveu a paz numa noite de Natal muito especial

"O Natal é quando um homem quer", uma expressão que tem tanto de verdade como de mentira, pois se para uns a paz, a fraternidade, e a alegria próprias da quadra natalícia podem ser repartidas pelos 365 dias do ano, para outros somente nesta época do ano é que estes valores são tidos em conta, passando nos restantes dias a imperar o ódio, a disputa, a inveja, ou a intriga. Esta pequena introdução serve para desfiar a nossa história de hoje, uma bonita história, que infelizmente teve uma breve aparição naquele que foi o primeiro grande conflito bélico à escola planetária. "Trégua de Natal", assim é recordada hoje, um pouco por todo o Mundo, a história que nestes dias cumpre 100 anos. Centrada no Velho Continente, a I Grande Guerra Mundial teve início no verão de 1914 - 28 de julho para sermos mais precisos - tendo durado até 11 de novembro de 1918. Confronto bélico que nestes quatro longos anos ceifou a vida de milhões de cidadãos, espalhando um clima de terror nunca dantes visto em solo europeu. Porém, por alturas do Natal desse longínquo e tenebroso ano de 1914 as armas foram postas de lado, tendo o ódio sido substituído pela amizade e pela paz. Há 100 anos atrás, nesta precisa altura do ano, de forma espontânea, as tropas britânicas e alemãs - os dois inimigos que se gladiavam numa luta sangrenta - deram as mãos! Os primeiros sinais de paz natalícia começaram a surgir na região de Ypres, na Bélgica, onde as tropas dos dois lados da trincheira surgiram juntas a entoar canções de Natal, a trocar presentes entre si - diz-se que os alemães ofereceram aos inimigos britânicos cigarros e brandy - ao mesmo tempo em que decoravam as trincheiras com velas e enfeites natalícios. Debaixo de temperaturas negativas o calor humano da amizade e da paz fez-se notar entre homens que até ali se odiavam num clima de guerra que até então nunca se havia visto. Esse momento ficou eternizado como a "Trégua de Natal".
Momento alto dessa história trégua natalícia foi quando alemães e britânicos resolveram pegar numa bola de futebol para dar vida a um amigável jogo de futebol. O belo jogo como veículo promotor da paz! O resultado desse célebre encontro - e o pormenor que menos importa frisar nesta bonita história de Natal - cifrou-se numa vitória germânica por 3-2. Diz-se que o jogo terminou quando a bola furou numa cerca de arame farpado, sendo que este clima de paz e harmonia terminaria assim que a quadra natalícia se cumpriu. Pouco depois, o assustador barulho das armas voltou a fazer-se ouvir...

Natal é efetivamente quando o homem deseja, independentemente das circunstâncias em que se encontre. Promover a paz, a fraternidade, e a alegria desta quadra no restantes 364 dias do ano depende apenas de nós.

Nota: texto escrito a 24 de dezembro de 2014 no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

«Porque é que não ficaste na cabine de imprensa?»

A histórica seleção cubana que marcou presença no Mundial de 1938, com o guarda-redes Benito Carvajales (o protagnista desta aventura) no centro da fotografia

 

«Porque não ficaste na cabine de imprensa?». A pergunta que ainda hoje paira no quotidiano cubano remete-nos para o capítulo dourado da modesta história futebolística daquele país insular localizado no mar do Caribe. Proferida com uma boa dose de humor - há quem a evoque com contornos anedóticos! - esta questão praticamente resume a carreira internacional da principal personagem da história que em seguida iremos recordar. Viajemos até 1938, a França mais precisamente, país que nesse ano acolhia a terceira edição do Campeonato do Mundo da FIFA. Entre os 15 participantes algumas novidades saltavam à vista. Desde logo a seleção de Cuba, completamente desconhecida do panorama internacional de então, que chegava a França por via... administrativa! Passamos a explicar. México e Estados Unidos da América, no fundo as grandes potências da região da América do Norte - hoje tutelada em termos futebolísticos pela CONCACAF - boicotaram a presença no Mundial em face de um protesto - cujas razões desconhecemos - com a FIFA, posição que seria apoiada por El Salvador e a Costa Rica, seleções estas que declinaram o convite da entidade máxima reguladora do futebol planetário para viajar até à Europa.
Porém, nem todos se colocaram ao lado de mexicanos e norte-americanos neste braço de ferro com a FIFA. Cuba aceitou o convite do organismo então presidido por Jules Rimet, partindo assim para aquela que é ainda hoje vista como a sua maior aventura no futebol internacional.

Capitães de Cuba e da Roménia trocam galhardetes antes
do início de um momento histórico para o (ainda hoje)
desconhecido futebol cubano
E quem julgava que os cubanos iriam ser os bombos da festa do certame enganou-se por completo. Apesar da sua pouco - ou nenhuma - experiência internacional, e do facto de levar a França um grupo muito reduzido ao nível de recursos humanos - a seleção foi composta por apenas 15 jogadores - os caribenhos foram uns dignos representantes do futebol do norte do continente americano. Na verdade, foram considerados como a surpresa da Coupe do Monde! Então disputada por eliminatórias, a fase final do Mundial de 1938 ditou que na primeira ronda - alusiva aos oitavos de final - a estreante Cuba enfrentasse a experiente Roménia, combinado que havia marcado presença nas duas primeiras edições do Campeonato do Mundo. O Stade Chapou, em Toulouse, foi o palco de um duelo que seria considerado como um dos mais emotivos do torneio de 38. Os cubanos sofreram o primeiro golpe aos 35 minutos, quando Silviu Bindea fez o primeiro golo do encontro. Ainda antes da saída para o descanso Héctor Socorro fez algo que para muitos seria impensável no lançamento do jogo: um golo para Cuba. E se por esta altura o espanto já tomava - por certo - conta dos 7000 espetadores presentes no Stade Chapou a surpresa subiu de tom quando aos 69 minutos Magriña colocou os caribenhos em vantagem! E foi a partir daqui que entrou em ação o personagem principal da nossa história de hoje: Benito Carvajales, o guarda-redes cubano.
Com um punhado de defesas notáveis ele travou nos minutos que se seguiram uma verdadeira avalanche romena. Porém, a dois minutos dos 90 Barátky descobriu o antídoto para contornar o inspirado portero cubano, levando desta forma a partida para prolongamento. Nesse período os cubanos voltaram a entrar melhor - sim, os espetadores continuavam de boca aberta! - tendo Socorro feito o 3-2 aos 103 minutos. Dois  minutos volvidos um potente remate de Dobay voltou a colocar tudo em pé de igualdade, obrigando que três dias mais tarde as duas seleções medissem novamente forças no jogo de desempate.
Antes disso Benito Carvajales voltou a atrair a si as luzes da ribalta. Em declarações à imprensa ele vestiu a pele de cartomante (!) ao prever que a sua seleção iria vencer a partida do tira teimas por 2-1. E não é que adivinhou mesmo! «O jogo dos romenos já não tem qualquer tipo de segredos para nós. Por isso, prevejo uma vitória da nossa equipa por 2-1. Adiós caballeros», lançou em tom provocatório o portero cubano, que pelo protagonismo obtido no primeiro embate seria convidado por uma rádio do seu país para comentar as incidências do segundo jogo. Foi uma espécie de prémio que Carvajales não quis desperdiçar, quiçá encantando com a possibilidade de enveredar por uma carreira que hoje em dia é tão comum entre antigas personagens do Planeta da Bola, a de comentador desportivo.

Fase do encontro entre romenos e cubanos
E Carvajales lá foi para a cabine de imprensa no jogo de desempate (também disputado em Toulouse), tendo assistido de camarote a mais uma exibição surpreendente dos seus companheiros, e sobretudo de um muito em particular: Juan Ayra, o homem que o selecionador José Tapia escolheu para substituir o guarda-redes/comentador. Ayra foi o espetáculo dentro do próprio espetáculo, evitando de todas as formas e feitios que os romenos conseguissem por mais do que uma vez violar as suas redes, acabando por ser considerado o principal obreiro da histórica vitória por 2-1 (Héctor Socorro e Tomas Fernandez foram os autores dos golos cubanos) da seleção de Cuba, que desta forma avançava para os quartos-de-final, onde iria medir forças com a Suécia, num encontro marcado para Antibes.
Para o jogo com os suecos regressou Carvajales, quiçá desencantado com a posição de comentador, ou vislumbrando então a possibilidade de voltar a atrair a si o protagonismo consequente de uma nova vitória. Só que do outro lado estava uma das melhores equipas europeias da época, a Suécia, seleção que destruiu por completo os sonhos cubanos em continuar a aventura mundialista. 8-0, o resultado final a favor dos nórdicos. E destruiu igualmente a fama granjeada por Carvajales, quiçá desencantado com a posição de comentador, ou vislumbrando a possibilidade de voltar a atrair a si o protagonismo consequente de uma nova vitória. Só que do outro lado estava uma das melhores equipas europeias da época, a Suécia, seleção que destruiu por completo os sonhos cubanos em continuar a aventura mundialista. 8-0, o resultado final a favor dos nórdicos. Quanto a Carvajales, que nessa tarde de avalanche praticamente não fez outra coisa se não ir buscar a bola ao fundo da sua baliza, assim que regressou a Cuba recebeu de pronto alguns mimos menos simpáticos, houve mesmo quem lhe atirasse em tom provocatório: «Porque não ficaste na cabine de imprensa?».

O pontapé de saída de uma paixão centenária

Imagem histórica do primeiro jogo
da seleção brasileira
No que a futebol diz respeito, 2014 afigura-se como um ano que ficará gravado a letras de ouro na história do Brasil. Uma previsão extraída não só pelo facto da nação sul-americana acolher o evento desportivo de maior cartaz nos dias de hoje, vulgo, o Campeonato do Mundo da FIFA - e a ele aliado o facto de o poderem vencer - mas também pela constatação de que neste ano são comemorados 100 anos em torno de uma paixão internacional chamada... seleção. Internacional, sim, já que com o passar dos anos a seleção brasileira seduziu centenas de milhares de adeptos um pouco por todo o planeta da bola. Bom, a bordo da máquina do tempo viajamos até 1914, ano em que o futebol passa a ser tutelado de uma forma mais séria por um país que com ele havia travado conhecimento precisamente 30 anos antes (1894), no dia em que o jovem Charles Miller regressa de Inglaterra - país para onde havia ido estudar - com uma bola debaixo do braço. A partir daquele dia nada voltou a ser como dantes em terras de Vera Cruz. E em 1914 o futebol começou a ser tutelado de forma mais séria graças à fundação da Federação Brasileira de Sports, o primeiro órgão que geriu, por assim dizer, a popular modalidade. E seria pois este novo órgão o responsável pela criação nesse ano do primeiro combinado que representou as cores do Brasil numa partida de cariz internacional.
O histórico onze brasileiro composto por: Píndaro, Marcos, e Nery (fila de cima);
Sylvio Lagreca, Rubens Salles, e Rolando (fila do meio); Osvaldo Gomes,
Abelardo, Friedenreich, Osman, e Formiga

A efeméride deu-se então a 21 de julho desse longínquo 1914, o dia em que nasceu a seleção! O berço foi a Cidade Maravilhosa, o mesmo é dizer Rio de Janeiro, mais concretamente o Estádio das Laranjeiras - na altura ainda inacabado, isto é, sem bancadas, já que somente em 1919 seria concluído com o intuito de acolher a terceira edição do Campeonato Sul-Americano. O adversário do primeiro onze nacional brasileiro foi o Exeter City, team profissional inglês que à última da hora - ao que parece - resolve extender uma digressão pela Argentina até ao Rio de Janeiro, onde seriam agendados três encontros, um ante uma equipa de ingleses que viviam na cidade, outro diante de um clube local - presume-se que o Fluminense - e por fim um duelo contra um grupo composto pelos melhores jogadores da época das duas maiores cidades do país, São Paulo e o Rio de Janeiro, que juntos formaram então a primeira seleção brasileira.
Orientada sob o ponto de vista técnico por dois desses onze craques nacionais, nomeadamente Sylvio Lagreca e Rubens Salles, a seleção venceria os profissionais ingleses por 2-0, graças a golos de Oswaldo Gomes, e Osman, que levaram ao delírio um grupo de cerca de 3000 adeptos, que de pé, em volta do retângulo de jogo, bem aperaltados - reza a lenda que os torcedores tiraram dos armários os seus melhores fatos para ver jogar os mestres ingleses, os inventores do futebol moderno - presenciaram um momento histórico. Quanto ao jogo em si, e ainda de acordo com os poucos relatos da época, a técnica brasileira levou a melhor sobre a dureza britânica, sendo que uma das principais estrelas do team da casa, Arthur Friedenreich, chegou mesmo a perder dois dentes (!) após uma entrada violenta de um defensor europeu.


Brasileiros tentam chegar ao gol...
Os melhores momentos desse histórico momento foram eternizados - de forma quase telegráfica (!) - pelo jornal carioca Correio da Manhã, os quais passamos a transcrever na integra: O "toss" foi favorável ao "team" local, que escolhe o lado favorável ao sol, do lado direito das arquibancadas. Nos primeiros cinco minutos, o jogo fica preso no meio de campo, sem vantagem aparente para nenhuma das equipes. O goleiro brasileiro Marcos faz defesa fácil. É o primeiro chute a gol da partida. Pouco depois, Lagreca comete o primeiro "corner" do "match". O público fica apreensivo, afinal os profissionais do Exeter City são exímios batedores de "corner". Marcos faz ótima defesa "shootando" a "esphera" dos pés dos atacantes da ala esquerda profissional. Nova "bella" defesa do grande "keeper" brasileiro, que mostra não estar disposto a vender barato o "goal" dos profissionais. Os brasileiros começam a atacar com mais constância e se aproximam das últimas linhas adversárias. Xavier dá um "centro" rasteiro, que passa diante do "goal" adversário, sem que Abelardo, bem colocado, se aproveitasse dele. Mais um "corner" é marcado contra os brasileiros após perigoso ataque de Hunter. No entanto, Marcos faz outra linda defesa. O goleiro inglês Loram faz ótima rebatida após o "shoot" de Abelardo. O "match" prossegue ardoroso, brasileiros e ingleses tentam ficar à frente uns dos outro. 


Goleiro Marcos atento a mais uma investida
dos mestres ingleses à sua baliza
O estupendo par de "backs" nacional e Rubens, "pivot" de toda a equipe, tiram o "team" de situações difíceis. Gol de Oswaldo Gomes para o Brasil. Goal! Hurrah! Brasileiros! Após tabela com Osman, Xavier dá belo "centro" para Friedenreich. Ele tenta dar o "shoot", mas é derrubado pelas costas por um "half" profissional. Com o brasileiro no chão, Strettle acerta o "center" patrício no lado esquerdo do rosto. Xavier aproveita e faz uma ótima "puxada" em "centro". Abelardo impede habilmente o "keeper" inglês de aparar a bola, que sobra para Oswaldo carregar no peito e, já dentro do "goal" inimigo, confirma o primeiro ponto brasileiro com um "shoot" que sacode a rede. As arquibancadas tremem de entusiasmo, mas o público, cego pela emoção, não vê Friedenreich estendido no chão, ferido pelo pontapé que errou o alvo. O center é levado por seus patrícios com a cara banhada em sangue. O "manager" do Exeter entra em campo e passa uma esponja molhada no rosto do jogador que, amparado, sai de campo. Quando todos pensavam que terminaríamos a partida com dez defensores, Friedenreich reentra em campo, deixando de lado seu sofrimento físico, com a camisa tinta, o rosto ferido e o olho esquerdo sem poder abrir. O jogo recomeça com ataque dos brasileiros. Os profissionais evidenciam os intentos de desfazer a diferença. Gol de Osman para o Brasil. Goal! Hurrah! Brasileiros! Friedenreich recebe bom passe, aproxima-se do "goal" contrário e, apesar de estar bem colocado para "shootar", prefere entregar a "esphera" para Osman, mais bem situado, que com um violento "shoot", consegue o segundo "goal" brasileiro. O público não sabe mais o que fazer. Chapéus são atirados ao campo em comemoração. 


O team inglês do Exeter City
Revoltados com a arbitragem, Lagan e Fort deixam o campo. Rubens Salles acena para o juiz com a mão pedindo que ele pare a partida. O capitão Rigby corre para buscar seus comandados, que não demoram para voltar a campo. Em novo lance do ataque brasileiro, o "keeper" do Exeter tem dificuldade para defender o "kick" de Abelardo. Ele já tem mais trabalho que o goleiro brasileiro Marcos. Termina a primeira parte do "match" com vantagem brasileira por 2 a 0. Iniciou-se o segundo "half-time"! Friedenreich perde chute cruzado na porta do "goal" adversário. Se o craque estivesse com a vista completa, poderia ter ampliado a vantagem brasileira. Osman avança por sua ala, mas acaba "shootando" para fora da área do "goal" do Exeter. A defesa brasileira se destaca neste "half". O "center-half" Rubens não perde uma defesa. Marcos atira-se sobre os inimigos, arrancando-lhes a "esphera", e jogou-a para os "halves" a três quartos do campo. Os ingleses perdem a paciência com a arbitragem. Lagan, com gestos de braço, ameaça usar meios físicos contra o juiz. Fim de jogo! Brasil vence por 2 a 0 os profissionais do Exeter City! Viva o "sport" brasileiro! Hurrah! Um grupo de cerca de 30 moças esperam Friedenreich, ainda bastante machucado, sair de campo e o abraçam, em um gesto tocante. O povo vibra intensamente com a "heroicidade" praticada pelos seus compatriotas!


A estrela brasileira Friedenreich sai do campo
com... menos dois dentes!
Arbitrado pelo inglês Harry Robinson este encontro nunca foi oficializado pela FIFA, entendendo a entidade que tutela o futebol mundial que assim nunca o foi pelo facto de ter sido jogado contra um clube, e não ante uma seleção!
Há 100 anos atrás este pode até ter sido um jogo banal para o emblema inglês, mas hoje... ele assume contornos de glória e de uma certa vaidade, pois eles foram os primeiros adversários da famosa seleção do Brasil, que nesse dia histórico trajou de camisola branca com mangas azuis, calções brancos, e meias pretas. Eternos são pois os nomes dos onze pioneiros que iniciaram o percurso lendário daquela que para muitos é a seleção mais virtuosa da história do futebol.


Marcos Carneiro de Mendonça: Mais do que ter sido o primeiro homem a defender a baliza da seleção, Marcos foi para muitos o primeiro grande goleiro brasileiro. Viveu na mesma época de lendas como Friedenreich, ou Neco, e com eles rivalizou em termos de pouplaridade. Nasceu no dia de Natal de 1894, em Cataguases (Estado de Minas Gerais), tendo iniciado uma brilhante carreira no Haddock Lobo, em 1907, então popular emblema do famoso bairro carioca da Tijuca que mais tarde viria a fundir-se com o América do Rio. Ao serviço deste clube Marcos venceu o seu primeiro título, o campeonato carioca de 1913, ceptro alcançado contra aquele que viria a ser o emblema da sua vida, o Fluminense. O casamento com o Flu dá-se em 1914, precisamente o ano em que a seleção efetuou o seu primeiro desafio, tendo permanecido nas Laranjeiras (casa do Fluminense) até 1922, ano em que encerrou a carreira. Pelo tricolor carioca atuou em 127 ocasiões e foi por três vezes campeão estadual (1917, 1918, e 1919). Ao serviço do Brasil ele ainda hoje detém o recorde do goleiro mais jovem e vestir a camisola da seleção, facto ocorrido extamente no dia 21 de julho de 1914, quando o Brasil efetuou o seu primeiro jogo. Marcos tinha então 19 anos. Pelo combinado nacional ele iria brilhar noutros episódios da história, como por exemplo em 1919, ano em que o Brasil vence o seu primeiro Campeonato Sul-Americano - hoje demominado de Copa América. Iria repetir a vitória na maior competição de seleções da América do Sul três anos mais tarde, precisamente no ano (1922) em que decidiu parar de jogar, tendo anos mais tarde assumido a presidência do seu Fluminense, cargo que desempenhou com orgulho em simultâneo com o de historiador. Viria a falecer no Rio de Janeiro a 19 de outubro de 1988.


Píndaro de Carvalho: Viveu a sua carreira de jogador entre os dois eternos inimigos do Rio de Janeiro, o Flamengo e o Fluminense. Exibiu-se com destaque ao lado de Nery na zaga brasileira naquela história tarde de 21 de julho de 1914, anulando com classe as investidas dos mestres ingleses à baliza de Marcos. Píndaro de Carvalho Rodrigues nasceu em São Paulo a 1 de junho de 1892, tendo entre 1910 e 1911 vestido a camisola do Fluminense, clube por quem atuou em nove ocasiões. Depois disso mudou-se para o rival Flamengo, onde viria a construir uma pomposa carreira até 1922, altura em que decidiu parar de jogar. Ao serviço do Mengão foi tetra campeão carioca (1914, 1915, 1920, e 1921), sendo que com a seleção viveu a sua maior alegria quando em 1919 foi um dos responsáveis pela conquista do Campeonato Sul-Americano, na sequência de um duelo emocionante - e desgastante - ante o Uruguai, realizado precisamente nas Laranjeiras, onde o combinado nacional brasileiro fez a sua primeira aparição internacional. Como treinador a página mais brilhante da carreira de Píndaro foi escrita em 1930, quando dirigiu a seleção brasileira no primeiro Campeonato do Mundo da FIFA, realizado no Uruguai. Brilhante é modo de dizer, já que a seleção teve uma atuação dececionante, não conseguindo passar da fase de grupos! Nem sempre os bons jogadores dão em bons mestres da tática. Píndaro de Carvalho que o diga. 


Nery: Do Flamengo para a primeira seleção, eis a dupla de defesas composta por Píndaro de Carvalho e Nery. Considerados os defesas mais completos do futebol brasileiro daquele tempo ambos deram boa conta das investidas inglesas ao goal de Marcos naquele lendário dia 21 de julho. Emanuel Augusto Nery nasceu a 25 de dezembro de 1892 no Rio de Janeiro, e tal como o seu parceiro de zaga, Píndaro de Carvalho, começou a sua carreira em 1910, no Fluminense, onde apenas - e à semelhança de Píndaro - permaneceu até 1911, já que um desentendimento com a equipa técnica do tricolor carioca fez com que nove jogadores - Nery e Píndaro foram dois deles - abandonassem o barco. Remaram então até ao Flamengo, clube que na altura se dedicava somente ao...remo. Ali chegados instituiram a secção de futebol, e o resto é... história. Ao serviço daquele que com o passar dos tempos haveria de ser tornar no emblema mais pouplar do Brasil, Nery venceu dois campeonatos estaduais (1914, e 1915) antes de se retirar os retângulos de jogo em 1919. Faleceu a 5 de novembro de 1927.


Sylvio Lagreca: Foi uma figura multifacetada dos primeiros anos do futebol brasileiro. De jogador, passando por treinador, e terminando em árbitro, Lagreca fez um pouco de tudo. Juntamente com o seu companheiro de equipa Rubens Salles ele foi o treinador da seleção brasileira no célebre confronto com a equipa inglesa do Exeter City. 
Voltaria a desempenhar o cargo - acumulado com o de jogador - nas primeiras duas edições do Campeonato Sul-Americando, em 1916, e 1917. Jogou a maior parte da sua carreira na Associação Atlética de São Bento, clube do Estado de São Paulo, cidade esta onde viria a falecer a 29 de abril de 1966.



Rubens Salles: Foi o outro técnico da seleção no embate ante o Exeter City. Tal como Lagreca atuava como médio, e é tido a par de nomes como Friedenreich, de Neco, e do prórpio pai do futebol brasileiro, Charles Miller, como um dos melhores atletas dos primeiros anos de reinado da modalidade em terras de Vera Cruz. Nascido a 14 de outubro de 1891 na cidade paulista de São Manuel, Salles atuou toda a sua carreira no Paulistano, um dos melhores emblemas paulistas - e do restante território do Brasil - do primeiro quarto do século XX. Por seis vezes foi campeão paulista ao serviço deste clube (1908, 1913, 1916, 1917, 1918, e 1919), e reza a lenda que era perito em executar passes de profundidade com extrema perícia. Abandonou os relvados em 1920 para abraçar a carreira de treinador - a tempo inteiro - em 1930, guiando o São Paulo ao título de campeão paulista em 1931.

Rolando: Sobre o doutor Rolando de Lamare pouca informação existe em torno da sua relação com a bola. Sabe-se apenas que foi um dos imortais que participou no encontro ante o Exeter City, e que foi três vezes campeão estadual pelo Botafogo (1907, 1910, e 1912), antes de se formar em medicina e assumir uma distinta carreira como médico urulogista e professor universitário.

Abelardo: Colocando em campo uma tática para lá de ofensiva, como traduz o 2-3-5 usado, a primeira seleção brasileira tinha em Abelardo o seu primeiro homem na hora de atacar a baliza inglesa. Aberlado de Lamare, familiar - não se sabe qual o grau de parentesco - de Rolando, era um avançdo robusto, dizem até que bastante duro na hora de disputar os lances com os adversários, o que lhe terá valido alguns castigos ao longo da carreira. 
Era senhor de um remate poderoso, que fizeram dele, por exemplo, o melhor marcador do campeonato carioca de 1910 ao serviço do Botafogo. 


Oswaldo Gomes: Para a eternidade o seu nome irá ser lembrado na história do futebol brasileiro... e internacional, porque não dizê-lo?!. Dos seus pés nasceu o primeiro golo da história da seleção, quando decorria o minuto 20 do embate com o Exeter City. Nasceu precisamente na cidade onde este facto histórico foi registado, o Rio de Janeiro, a 30 de abril de 1888. O seu nome assume contornos de lenda não só para o combinado nacional como também para o Fluminense, o seu clube de sempre, no qual conquistou oito títulos de campeão estadual (1906, 1907, 1908, 1909, 1911, 1971, 1918, e 1919), que fazem com que seja o jogador mais titulado da história do Cariocão. Disputou quase 200 jogos (189 para sermos mais precisos) pelo Flu e apontou 38 golos. 
Fora dos relvados distingiu-se como presidente da Confederação Brasileira dos Desportos, precisamente um ano depois de ter comandado - na qualidade de treinador - a seleção no Campeonato Sul-Americano. 

Arthur Friendenreich: Sobre a primeira grande estrela do futebol brasileiro - e um dos primeiros astros do futebol global - já muito se escreveu no Museu Virtual do Futebol. Porém nunca será por demais recordar que este filho de pai alemão e mãe brasileira, nascido em São Paulo a 18 de julho de 1892, começou a destacar-se pela imaginação, técnica, estilo e pela capacidade de improvisar. Em 1919 foi apelidado pelos uruguaios de El Tigre por ter encantado as multidões com o seu futebol arte na Copa América que nesse ano foi conquistada precisamente pelo Brasil comandado por Friedenreich.
Jogava como avançado-centro, e foi o inventor de novas e belas jogadas no na altura jovem futebol brasileiro, como o drible curto e a finta de corpo.
Foi campeão paulista em sete ocasiões, seis das quais ao serviço do Paulistano, e outra pelo São Paulo da Floresta (clube que anos mais tarde se viria a chamar São Paulo FC). Por oito vezes foi o melhor marcador do campeonato paulista, a maior parte delas envergando as cores do Paulistano.
Era considerado pelos cronistas da altura como um jogador inteligente dentro de campo, e talvez tenha sido o jogador mais objetivo da sua época. Parecia conhecer todos os segredos do futebol e sabia quando e como ia marcar um golo. No ano de 1925, regressou da Europa (após uma digressão com o Paulistano) catalogado como um dos melhores jogadores do Mundo, depois de vencer por este clube nove dos dez jogos aí disputados. A sua conquista mais importante com a camisola do Brasil foi a conquista da Copa América de 1919.
Sobre a sua figura há uma dúvida que ainda hoje paira no ar, ou seja, será ele o maior goleador de todos os tempos? Há quem diga que sim e há quem diga que não. Uma dúvida que infelizmente não pode ser desfeita, já que existem poucos, ou mesmo nenhuns, dados que provem que Fried tem mais golos do que Pelé, que é, como se sabe, oficialmente considerado pela FIFA como o jogador que fez mais golos na história do futebol. Reza a lenda que El Tigre terá marcado 1239 golos.
Nota: Sobre os jogadores Osman e Formiga não foram encontrados dados biográficos.  
Para a história fica pois a ficha técnica do embate entre a primeira seleção do Brasil e o Exeter City:

BRASIL: Marcos de Mendonça, Píndaro e Nery; Lagreca, Rubens Salles e Rolando; Abelardo, Oswaldo Gomes, Friendereich, Osman e Formiga.

EXETER CITY: Loran, Jack Fort e Strettle; Rigny, Lagan e Hardin; Hold, Whittaker, Hunter, Lovett e Goodwin.

O molde original da Liga das Nações

Hugo Meisl, o mentor
da Taça Internacional
Recentemente a UEFA anunciou a criação da Liga das Nações, uma competição destinada a seleções nacionais que irá entrar em ação no ano de 2018. Trata-se de uma prova que vai ser disputada nos intervalos das fases de qualificações para os campeonatos do Mundo e da Europa, e que substituirá os jogos amigáveis que por norma as seleções europeias levam a cabo sempre que não participam em partidas de caráter oficial. Será disputada entre setembro - ano par - e maio - ano ímpar - sendo que os quatro primeiros classificados terão bilhete garantido para o Campeonato da Europa seguinte.
Bom, estas são algumas das características de um modelo de competição que, na verdade, não é original! Nos anos 20 do século passado um visionário do belo jogo concebeu a ideia de criar uma grande competição continental que envolvesse algumas das melhores seleções da época. Essa ilustre figura era Hugo Meisl, que além de ser um dos mais reputados e talentosos mestres da tática da primeira metade do século XX, foi ainda um dos principais dinamizadores das competições internacionais, quer ao nível de clubes - com a criação da Taça MITROPA - quer ao nível de seleções, com a edificação desta Coupe Internationale européenne, o nome de batismo do molde original da recém criada Liga das Nações. 


A Taça
Antonín Svehla
E tal como a Liga das Nações, a Taça Internacional era jogada num sistema de poule, onde todos jogavam contra todos, sendo o vencedor a seleção que - naturalmente - somasse o maior número de pontos no final desse campeonato internacional disputado a duas voltas, com jogos em casa e fora, em tudo semelhante a um campeonato nacional.O campeão da prova recebia a vistosa Taça Antonín Svehla - elaborada em cristal -, que assim foi batizada em honra do doador do troféu, o primeiro-ministro da Checoslováquia, Antonín Svehla. Um dos aspetos negativos na curta história de uma competição que para muitos esteve ainda na génese do atual Campeonato da Europa terá sido a excessiva demora com que a mesma se desenrolava, sendo que por exemplo as duas derradeiras edições demoraram - respetivamente - cinco e seis anos a serem concluídas! De ressalvar que a Taça Internacional era integrada por um pequeno leque de seleções, alguns dos melhores combinados nacionais daquele tempo, com exceção da Inglaterra, que teimosamente continuava fechada no seu Mundo em relação ao resto do... Mundo. 

Lendária Squadra Azzurra de Pozzo inaugura a lista de campeões

Vittorio Pozzo, o arquiteto
da lendária Squadra Azzurra
da década de 30
A primeira edição arrancou a 18 de setembro de 1927, quando em Praga a Checoslováquia venceu a Áustria de Hugo Meisl por 2-1. A conclusão da edição de estreia da Coupe Internationale européenne deu-se a 11 de maio de 1930, em Budapeste, com a Itália a cilindrar a Hungria por 5-0, com um hattrick da sua estrela Giuseppe Meazza. No total foram 20 jogos, decorridos entre 1927 e 1930, consagrando uma seleção que haveria de dominar o Mundo na década seguinte, uma seleção arquitetada por uma das maiores lendas de todos os tempos no que ao treino e interpretação do jogo dizia respeito, de seu nome Vittorio Pozzo, que a par de Hugo Meisl e do inglês Herbert Chapman forma o trio de treinadores de maior talento da primeira metade do século XX. Esta primeira edição fica igualmente marcada por um certo equilíbrio na comeptição entre as melhores seleções, como facilmente se pode comprovar pela classificação final, tendo a Squadra Azzurra levado ao melhor sobre a Áustria de Hugo Meisl e a Checoslováquia por apenas um ponto, sendo por isso épico o tal último encontro em Budapeste, no qual a Hungria partia igualmente com aspirações à conquista do troféu, precisando somente de um triunfo para o conseguir. Como já vimos, tal não aconteceu, já que a Itália começava a dar mostras daquilo o que iria produzir na década seguinte. Para muitos, esta primeira vitória internacional dos italianos serviu de embalo para os triunfos da Nazionale nos campeonatos do Mundo de 1934, de 1938, e nos Jogos Olímpicos de Berlim (1936), e reza a lenda que no regresso a casa - viagem longa de comboio entre Budapeste e Roma - após a conquista da Taça Internacional Pozzo terá deixado cair o troféu, do qual terá saltado uma lasca, e sem que ninguém se apercebesse - tal era a alegria que tomava conta da delegação italiana - apanhou a dita lasca e meteu-a no bolso, confessando décadas mais tarde na sua autobiografia que tal objeto se tornou no seu amuleto dali em diante, no amuleto com que venceu os Mundiais de 34, de 38, e as Olimpíadas de 36. 
Uma última nota sobre esta edição de estreia para para falar de outra equipa maravilha dos anos 30, a Áustria, de Hugo Meisl, cujo futebol encantador granjeou precisamente o rótulo de Wunderteam... a equipa maravilha. Foi aquela inesquecível Wunderteam que aplicou à campeã Itália as suas duas únicas derrotas ao longo da prova, 1-0 em Bolonha, e 3-0 em Viena.

Classificação:

1-Itália: 11 pontos
2-Áustria: 10 pontos
3-Checoslováquia: 10 pontos
4-Hungria: 9 pontos
5-Suíça: 0 pontos

Uma Wunder... conquista

Pintura do Wunderteam de Hugo Meisl
A segunda edição da Taça Internacional foi conquistada pela tal equipa histórica austríaca, por um grupo de homens que interpretavam o jogo de uma forma sublime, transpondo para os relvados uma técnica apurada aliada a uma rapidez de movimentos estonteantes, encantando desta maneira todos aqueles que tiveram o privilégio de os ver atuar. Esse grupo de artistas ficou eternizado como a Wunderteam, a equipa maravilha, traduzindo para a língua de Camões. Edificada pelo lendário treinador Hugo Meisl - o criador desta Taça Intercontinental, recorde-se - a Wunderteam só por uma ocasião conheceu a derrota na caminhada vitoriosa nesta segunda edição da prova, logo no primeiro encontro do certame, em Milão, no dia 22 de fevereiro de 1931, diante dos campeões em título, a Itália, por 1-2. Milão, que três anos mais tarde haveria de ser novamente uma cidade de más recordações para os jogadores de Meisl, já que ali, no San Siro, seriam injustamente derrotados pela Itália de Pozzo na meia-final do Campeonato do Mundo de 34. Injustamente, porque não só foram melhores que os transalpinos - há quem defenda que a Áustria era de longe a melhor equipa desse Mundial - mas sobretudo porque uma arbitragem vergonhosa do suíço Rene Mercet - reza a lenda que a mando de Mussolini - atirou a Wunderteam para fora da competição. 

Matthias Sindelar, a estrela do Wunderteam
Mas voltando à segunda edição da Taça Internacional para referir que esta foi a edição mais curta da... curta história do evento. Teve início, como já vimos, a 22 de fevereiro de 1931, e final a 28 de outubro de 1932, dia em que a Checoslováquia derrotou em Praga a Itália por 2-1. Destaque ainda nesta edição para os primeiros pontos conquistados pelo Suíça, que na edição de estreia haviam ficado a zeros. Comandados pelos talentosos irmãos Abegglen - Max e Trello - os helvéticos somaram cinco pontos, fruto de dois triunfos - ante a Checoslováquia e a Hungria - e um empate surpreendente perante os campeões em título, a Itália.
Transalpinos que além da derrota de Praga foram vergados ao vistoso futebol austríaco em Viena, com as luzes da ribalta desse encontro - que terminou com a vitória da turma de Meisl por 2-1 - a centrarem-se na grande estrela daquela inesquecível seleção, Matthias Sindelar, o virtuoso homem de papel, sobre quem o Museu já falou noutras viagens ao passado, e que nesse encontro faria os dois golos da sua equipa. Sobre esta célebre equipa austríaca muitos historidores do belo jogo defendem ter sido a fonte de inspiração para o futebol total edificado pela Holanda na década de 70. 
O inesquecível Wunderteam da Áustria que em 1932 venceu a Taça Internacional

Classificação:

1-Áustria: 11 pontos
2-Itália: 9 pontos
3-Hungria: 8 pontos
4-Checoslováquia: 7 pontos
5-Suíça: 5 pontos

Campeões do Mundo prolongam festejos


Golos de Schiavio e Meazza deram
início à caminhada triunfal da
Squadra Azzurra na 3ª edição do torneio
Com mais ao menos polémica - por influência do ditador Benito Mussolini - a Itália havia conquistado o Mundo em 1934, isto é, o Mundial organizado pela FIFA. Este feito coincidiu no tempo com a reconquista da Taça Internacional, que com a extinção da competição, em 1960, fez da Squadra Azzurra a nação mais titulada. Na verdade, a caminhada triunfal dos pupilos de Vittorio Pozzo começou cerca de um ano antes da consagração planetária em Roma, quando a 2 de abril de 1933 a terceira edição da Coupe Internationale européenne arrancou em Genebra com uma vitória italiana sobre a Suíça por 3-0, com golos de duas das maiores estrelas da Azzurra, Angelo Schiavio (2) e Giuseppe Meazza. O derradeiro encontro do certame ocorreu mais de um ano após a conquista do Mundial de 1934, quando a 24 de novembro de 1935 os italianos empataram - em Milão - a dois golos ante a Hungria, prologando assim, de certa forma, a festa iniciada em Roma no dia 10 de junho de 34, quando um triunfo por 2-1 sobre a Checoslováquia permitiu aos italianos alcançarem o topo do Mundo pela primeira vez. A década de 30 foi, como já referimos no início desta viagem ao passado, o período dourado do calcio italiano, com o domínio absoluto em todas as competições em que a squadra edificada pelo mestre Pozzo participou. O cheiro da pólvora proveniente das armas que edificaram a II Grande Guerra Mundial fez desaparecer o perfume futebolístico daqueles mágicos anos 30. As nuvens negras do confronto bélico eclipsaram estrelas como Sindelar, Meazza, Schiavio, Hiden, Monti, Combi, Orsi, os irmãos Abegglen, ou os mestres da tática Meisl e Pozzo, que por direito próprio ganharam para sempre um lugar no Olimpo dos Deuses do desporto rei

Classificação:

1-Itália: 11 pontos
2-Áustria: 9 pontos
3-Hungria: 9 pontos
4-Checoslováquia: 8 pontos
5-Suíça: 3 pontos
 
Uma quarta edição da Taça Internacional arrancou a 22 de março de 1936, tendo-se realizado até abril de 1938 mais de uma dezena de encontros. Porém, a chegada da guerra (1939) aliada à anexação político-militar da Áustria por parte da Alemanha fez com que o torneio não chegasse ao fim. 

Mágicos magiares apresentam-se ao Mundo

Major Puskas parece estar a ensinar
aos seus companheiros de seleção
como se faz um golo de belo efeito
Com o desaparecimento do mapa futebolístico internacional da Áustria e da Itália abriu-se a porta da fama - e da glória - a uma outra equipa lendária do planeta da bola, a Hungria. Após mais de uma década de interrupção eis que a 21 de abril de 1948 a Taça Internacional estava de volta, e com novas figuras. Nesse dia a Hungria esmagava em Budapeste a Suíça por 7-4, com dois golos de um até então desconhecido - para o futebol internacional - Ferenc Puskas. Estava dado o primeiro passo de uma caminhada que haveria de terminar em glória...em 13 de dezembro de 1953, data do último jogo desta quinta edição. Cinco anos foram precisos para coroar a Hungria de Puskas, Czibor, Hidgkuti, ou Koczis, jogadores que sob as ordens do mestre da tática Gusztav Sebes, edificaram uma das mais belas equipas da história do jogo, um conjunto de artistas que praticou um futebol de fino recorte técnico e tático, uma seleção que na opinião de muitos historiadores foi a melhor... do Mundo da década de 50, melhor até que o Brasil de 1958, orquestrado pelas então estrelas emergentes Pelé, e Garrincha. 1953 foi um ano inolvidável para o futebol húngaro, não só porque venceu este título continental - um ano antes havia conquistado o ouro olímpico em Helsínquia - mas sobretudo porque os magiares humilharam os inventores do futebol, a Inglaterra, na sua própria casa, na catedral de Wembley, jogo esse - que terminou com uma categória vitória magiar por 6-3 - já evocado pelo Museu Virtual do Futebol noutras viagens históricas. Porém, do sonho ao pesadelo o trajeto foi curto para um um grupo de lendários intérpretes do jogo que ficaram eternizados como os Mágicos Magiares, pois no - chuvoso - verão de 54 deram de caras com o azar... na final do Campeonato do Mundo, onde uma inferior - em todos os sentidos - Alemanha protagonizou o Milagre de Berna, o milagre que impediu as estrelas húngaras de subir aos céus do planeta da bola, o mesmo será dizer, de conquistar um Mundial que lhes estava previamente destinado. 
Os Mágicos Magiares, uma das mais brilhantes equipas que o Mundo conheceu


Classificação

1-Hungria: 11 pontos
2-Checoslováquia: 9 pontos
3-Áustria: 9 pontos
4-Itália: 8 pontos
5-Suíça: 3 pontos 

Escola de Leste encerra a história da Taça Internacional

Masopust, o maior jogador checo de todos os tempos
conduz os esférico
A sexta e última edição da Taça Internacional surgiu com algumas mudanças. Desde logo o troféu seria rebatizado, passando a chamar-se Dr. Gero Cup, em memória do presidente da Federação Austríaca de Futebol, Josef Gero, que em 1954 havia falecido de forma repentina. Outra novidade era o aumento para seis equipas, juntandando-se aos cinco países fundadores a Jugoslávia - que no seu grupo contava com um jogador chamado Bora Milutinovic, que quatro décadas mais tarde haveria de entrar para a história do futebol por ser o técnico com mais presenças consecutivas em fases finais de Campeonatos do Mundo. E seria precisamente a seleção austríaca, bem longe no que a qualidade dizia respeito à Wunderteam de Meisl na década de 30, que a 27 de março de 1955 dava o pontapé de saída nesta última edição, sendo derrotada (2-3) em Brno pelos futuros campeões da competição, a Chescoslováquia. Apesar de não ser tão encantadora como a Hungria - na opinião de muitos - a seleção checa foi digamos que a última intérpreta da famosa escola do Leste europeu, uma escola que escreveu dezenas das mais brilhantes páginas da história do jogo, graças a um estilo técnico-tático muito próprio, um estilo onde o futebol espetáculo era aliado à esquemas táticos revolucionários e inovadores. A última Taça Internacional terminaria a 6 de janeiro de 1960, em Nápoles, com a Itália a bater a Suíça por 3-0, quase dois meses depois da Checoslováquia - liderada no relvado pela estrela Masopust - ter assegurado matematicamente o título graças a um trinfro sobre esta mesma Itália por 2-1. 
Quiçá inspirada na competição idealizada e criada por Hugo Meisl nos finais da década de 20, a UEFA - fundada em 1954 - lançou em 1960 o Campeonato da Europa, prova aberta a todas as nações europeias, bem diferente desta Coupe Internationale européenne, que apesar de ter tido vida curta foi disputada por alguns dos melhores jogadores, treinadores, e equipas do planeta do futebol... de todos os tempos. 
Checoslováquia, os derradeiros campeões da Coupe Internationale européenne


Classificação:

1-Checoslováquia: 16 pontos
2-Hungria: 15 pontos
3-Áustria: 11 pontos
4-Jugoslávia: 9 pontos
5-Itália: 7 pontos
6-Suíça: 2 pontos 

A primeira traição numa relação com mais de um século de existência

 

Alfonso Albéniz (com a camisola do Barça) é o primeiro na fila de cima
a contar da esquerda para a direita

 

Desconhece-se por completo se foi um bom, médio, ou mau intérprete do belo jogo, já que os ecos da sua perfomance com uma bola nos pés são uma autêntica raridade. A única certeza em relação à sua figura é de que ele foi o primeiro traidor de uma centenária e apaixonante relação que hoje em dia centra em si os olhares de todo o planeta da bola. O nome do traidor? Alfonso Albéniz, o homem que em 1902 leva a cabo o então banal ato de se transferir de um clube para outro, mas que hoje seria encarado como um pecado mortal: trocou o FC Barcelona pelo Madrid FC, último emblema este que mais tarde seria rebatizado com Real Madrid. 
Alfonso Albéniz Jordana, de seu nome completo, nasceu precisamente em Barcelona, a 1 de janeiro de 1886, sendo o mais velhos dos três filhos do famoso compositor catalão Isaac Albéniz. Ainda com a tenra idade de 16 anos o jovem Albéniz é convidado a integrar o team do não menos jovem FC Barcelona, emblema da cidade que havia visto a luz do dia em 1899 pela mão do suíço Hans Gamper. Estávamos em 1901, uma época onde a esmagadora maioria dos países do globo dava ainda os primeiros pontapés na bola que há mais de três décadas deixava os britânicos loucos de entusiasmo.
Começavam pois a nascer as primeiras competições entre clubes no plano interno, despoletavam rivalidades que iriam perdurar até aos dias de hoje, e os primeiros génios da bola mostravam-se ao Mundo. Não se sabe - e voltamos a sublinhá-lo - se terá sido o caso de Alfonso Albéniz, certo é que ele foi preponderante numa das primeiras conquistas daquele que é hoje um colosso do futebol planetário, o Barça, que a 6 de janeiro de 1902 vencia a Copa Macaya após um triunfo por 4-2 ante o Hispania. Albéniz fez a sua estreia pelos blue grana nesse encontro, tendo da sua autoria sido o primeiro golo catalão nessa tarde de glória. Que estreia!

Cerca de quatro meses depois dessa epopeia dá-se o primeiro encontro entre aqueles que com o passar dos anos se converteram em inimigos de morte, protagonistas de uma relação que apaixona adeptos não de Espanha como da restante aldeia global. FC Barcelona e Madrid FC enfrentam-se pela primeira vez num jogo oficial, referente às meias-finais da primeira edição da Copa de la Coronación - mais tarde rebatizada como Copa del Rey - e que terminaria com a vitória catalã por 3-1. O Barça viria a perder a final ante os bascos do Club Viscaya por 1-2, tendo sido esse o derradeiro encontro de Albéniz com a camisola blue grana. Uma semana depois faz as malas e parte para a capital, para ai continuar a sua vida académica, e consigo levou a paixão pelo jovem football, não sendo de estranhar que assim que chega a Madrid um dos seus primeiros atos é vestir o manto sagrado do Madrid Foot Ball Club. A notícia é dada da seguinte forma em breves linhas:  
 

«Hemos sabido que ha ingresado en la Sociedad Madrid Foot Ball Club el notable y entusiasta jugador señor Albéniz, que perteneció al Barcelona y, además, otros buenos jugadores cuyos nombres sentimos no recordar, pero ya los citaremos en las reseñas de los partidos en que tomen parte.»

Contudo, Albéniz nunca chegou a vestir de branco em termos oficiais, sabendo-se apenas que não muito mais tarde passaria a integrar a direção do clube merengue. Como dirigente distinguiu-se ainda na qualidade de presidente do Colégio Nacional de Árbitros, cargo que ocupava aquando da realização da primeira edição do Campeonato Nacional de Espanha, na temporada de 1928/29, cerca de uma década antes de vir a falecer em solo português, mais concretamente no Estoril. Depois de Albéniz largas dezenas de outros jogadores fizeram a arriscada viagem entre Barcelona e Madrid, e vice-versa, algumas dessas viagens mais mediáticas do que outras, casos da de Michael Laudrup, Bernd Schuster, Luís Enrique, ou de Luís Figo, quiçá a mais atribulada da história.

14 avançados em campo e... nenhum golo marcado!

30 de Novembro de 1872, dia em que foi disputado em Glasgow (Escócia) o primeiro jogo internacional entre selecções "A", mais precisamente entre a Escócia, que alinhou com um sistema táctico de 2-2-6, e a Inglaterra, que utilizou o velho sistema 1-1-8. Uma partida que apesar de contar com 14 avançados em campo terminou surpreendentemente empatada a zero!
Curiosidade ainda nesse encontro o facto de após o intervalo o guarda-redes inglês Robert Barker e o extremo William John Maynard terem trocado de posições no terreno de jogo.

O primeiro guarda-redes a marcar um golo num jogo internacional

O escocês James McAulay (1860-1943) foi um dos mais brilhantes guarda-redes do futebol escocês, tendo defendido a baliza do seu país por oito vezes, a partir de 1883. Antes disso, em 1882, quando a Escócia derrotou o País de Gales por 5-0, em Glasgow, no dia 25 de Março, McAulay fez a sua estreia internacional como... avançado-centro, tendo marcado um golo. Este guardião do Dumbarton FC também demonstrou a sua veia goleadora ao serviço deste clube em diversas ocasiões. Engenheiro de profissão terminou prematuramente a sua carreira desportiva quando em 1887 foi trabalhar para a Birmania (actualmente conhecida como Myanmar).

Pai e filho vencem juntos a Taça da Irlanda

Durante a final da Taça da Irlanda de 1886, onde o conjunto do Distillery FC (de Belfast) venceu o Limavady FC, esta última equipa alinhou no seu 11 com três pares de irmãos, mais concretamente John e “Tom” Fleming, “Matt” e “Bob” Douglas, e John e Joseph Sherrard. No entanto, a curiosidade maior deste desafio residiu no facto de o Distillery FC ter alinhado com uma dupla defensiva composta por pai e filho !!! Os seus nomes eram Wilson Sr. e Wilson Jr., O pai (capitão de equipa) Matthew tinha 45 anos e o seu filho Robert tinha 19. Ambos jogaram também na selecção irlandesa.

Irlandês marca 10 golos num jogo da taça

No dia 7 de Novembro de 1891 o Ulster FC (equipa de Belfast) derrotou o Milltown por 16-0(!!!) em jogo a contar para a 3ª eliminatória da Taça da Irlanda do Norte. Facto curioso neste encontro prendeu-se com o jogador Robert McIlvenny, o qual apontou nada mais nada menos do que 10 golos (!!!), um recorde que ainda hoje prevalece na segunda maior competição do futebol da Irlanda do Norte.

Campeão encontrado após... seis prolongamentos

A final do campeonato francês de 1902, disputado entre o Racing Club de France (de Paris) e o Racing Club de Roubaix, ocorrida na localidade de Bécon-les-Bruyères, a 20 de Abril do citado ano, terminou (no tempo regulamentar) empatada a três golos. Depois de consultado o árbitro, o inglês John Wood, as duas equipas chegaram a acordo para jogar um prolongamento de 15 minutos para desfazer a igualdade. Período extra este que não seria suficiente para ser encontrado um campeão, o qual seria apurado após... o sexto prolongamento (!), altura em que o centro-campista inglês Peacock apontou o golo que daria o título ao Roubaix. Tal facto ocorreu ao minuto 175!

34 jogos sem perder... e 25 sem ganhar!

O Preston North End (Inglaterra) estabeleceu o primeiro recorde mundial de vitórias consecutivas numa prova oficial ao permanecer invicto durante 23 jogos consecutivos na Liga Inglesa. Três anos mais tarde esta mesma equipa mateve-se invicta durante 15 encontros seguidos, sendo que em 1896 foi supreado pelo campeão argentino, o Lomas Athletic Club, que esteve sem conhecer a derrota durante 29 jogos consecutivos. O recorde dos argentinos foi superado em 1899 pelo Glasgow Rangers (Escócia) que obteve a façanha de permanecer invicto durante 34 partidas consecutivas no escalão maior escocês. Por outro lado o recorde negativo do século XIX é pertença dos também escoceses do Dumbarton que em 25 encontros seguidos contabilizaram outras tantas derrotas, corria a temporada de 1891/92.

Um golo por espectador

Durante o início da segunda volta do campeonato belga alusivo à temporada de 1898/99 o Racing Club enfrentou o Athletic and Running Club em inferiodade numérica (10 jogadores) desde... o apito inicial do árbitro. Resultado final: 3-0 a favor desta última equipa. Mas o facto mais caricato desse encontro disputado debaixo de condições meteorológicas péssimas assentou em que ao recinto apenas se deslocaram... três espectadores! É verdade. Ora, sendo assim as estatísticas apontam que a partida teve um golo por espectador! Outros tempos...

Campeão no futebol... e no atletismo

Quando em 1898 o Orgryte ganhou o campeonato sueco pela terceira vez consecutiva no lado direito da sua defesa actuava Paul M. Pehrson. Até aqui nada de mais. A curiosidade reside no facto deste atleta ter sido dois anos antes campeão nacional sueco de... atletismo nos 1.500m e 10.000m!

A primeira grande tragédia do planeta do futebol


Nem só de inolvidáveis momentos de glória e magia se escreveu a longínqua e rica história do futebol. Momentos houve em que a festa do “desporto rei” foi manchada com sangue e lágrimas dando assim origem a um capítulo mais negro da sua história.O capítulo das grandes tragédias, o qual a Máquina do Tempo irá hoje visitar recordando aquele que foi o primeiro grande desastre ocorrido num estádio de futebol. Uma triste efeméride passada muito antes das tragédias de Heysel Park (1985) e de Hillsborough (1989) – só para citar as mais “famosas” -, mais concretamente no ano de 1902, quando a 5 de Abril o Ibrox Stadium de Glasgow era palco de um empolgante derby entre a selecção local, a Escócia, e a sua eterna inimiga Inglaterra a contar para o Campeonato Britânico (uma espécie de Campeonato da Europa jogado apenas entre as selecções das ilhas britânicas).Nesse dia o recinto do Glasgow Rangers engalanou-se para receber 68 mil pessoas. Estava cheio como um ovo! O estádio havia sido recentemente ampliado com a construção de uma bancada nova com capacidade para 20 mil espectadores, uma infraestrutura de madeira e ferro com mais de 75 metros de altura que curiosamente era inaugurada nesse preciso dia.A chama ferverosa dos adeptos fazia-se sentir a cada toque de bola dos jogadores de ambos os lados, até que subitamente aos 51 minutos a nova bancada cedeu! Centenas de pessoas foram engolidas pelo alçapão que se formou. 25 morreram e mais de 500 ficaram feridas. A festa do futebol dava lugar a um cenário dantesco com os feridos a serem socorridos e os mortos dali retirados (conforme pode ser visto na gravura que faz o retrato da tragédia).Depois de meia hora de terror o jogo foi retomado, e apenas o foi por uma questão de segurança, para evitar que o pânico subisse de tom entre os restantes espectadores e dessa forma tentassem sair do estádio em massa pondo em perigo não só as suas vidas como também atrapalhando a acção daqueles que faziam o trabalho de resgate.1-1 foi o resultado final deste confronto... talvez o facto mais insignificante daquela trágica tarde.

Prémio Nobel da Física e... futebolista nos tempos livres

O dinamarquês Niels Henrik David Bohr (1885 – 1962) viu o seu notável trabalho desenvolvido na área da física ser premiado em 1922 com o Prémio Nobel. Que tem isto a ver com futebol (?), perguntarão por certo os visitantes do Museu. Alguma terá, na realidade, já que além de um ilustre homem da ciência Niels Bohr (na imagem) foi um entusiasta praticante do... desporto rei, tendo desenvolvido uma curta carreira como amador ao serviço do AB Copenhaga nos "intervalos" das suas investigações científicas. Curiosamente uma das estrelas dessa mesma equipa era o irmão mais novo de Niels, Harald August Bohr, atleta este que em 1908 ajudou a seleção da Dinamarca a conquistar a medalha de prata no Torneio de Futebol dos Jogos Olímpicos de Londres.

A primeira indeminização da História do futebol

Quando a 12 de março de 1881 as equipas do Moyola Park FC Castledawson e do Alexander FC Limavady se enfrentaram num duelo alusivo à Taça da Irlanda um dos jogadores desta última equipa sofreu uma fratura numa das pernas em consequência de uma entrada mais dura de um rival. Quatro dias depois a Federação Irlandesa de Futebol decidiu que o jogador lesionado tinha de ser indemnizado em... 1 libra, o equivalente atual a 1 euro e 20 cêntimos! No entanto, este era um valor alto para aquela altura, se atendermos ao facto de que um bilhete para um jogo de futebol custava 12 cêntimos!  

Os primeiros africanos numa final da Taça de Inglaterra

A final da Taça de Inglaterra de 1874, que colocou frente a frente as equipas do Oxford University e do Royal Engineers, que os primeiros venceram por 2-0, foi a primeira a ser disputada por jogadores nascidos em África.
Os pioneiros foram os irmãos Rawson, William Stepney (na imagem) e Herbert Edward, nascidos em África do Sul, e que curiosamente nesta final defendiam cores distintas: William jogava pelo Oxford University, enquanto que o seu irmão mais velho atuava nos Royal Engineers.

Ninguém sabia que o guarda-redes só tinha um olho!

Quando no dia 25 de março de 1876 a Escócia derrotou o País de Gales por 4-0 a baliza escocesa foi ocupada por James Lang, um homem que só tinha um olho... mas que até então toda a gente desconhecia! A razão deste secretismo seria mais tarde desvendada pelo próprio Lang com o facto de não querer que os seus adversários se aproveitassem «da sua inferioridade física».

Inglaterra inicia jogo só com 10 jogadores

Os vizinhos Inglaterra e País de Gales defrontaram-se pela primeira vez a 18 de janeiro de 1879, num jogo que ficou marcado pela forte interpérie e pelo facto de os ingleses terem dado o pontapé de saída com apenas 10 jogadores! Assim o foi porque o médio William Edwin Clegg avisou que chegaria um pouco mais tarde (!!!), já que o comboio que o transportava desde Sheffield circulava com atraso. Numa época em que não se convocavam jogadores suplentes (apenas os 11 titulares) Clegg entrou em campo quando a partida levava já 20 minutos decorridos...

71 golos em dois jogos da taça!

Em dois encontros (ocorridos no mesmo dia) de uma eliminatória da Taça da Escócia alusiva à temporada de 1884/85 foram apontados nada mais nada menos do que 71 golos! O Arbroath FC bateu o Bon Accord por 36-0, ao passo que o Dundee Harp derrotou o Aberdeen Rovers por 35-0

O primeiro duelo dos velhos inimigos da América do Sul


Brasil-Argentina, ou vice-versa, é sem margem para dúvidas um dos maiores clássicos do futebol mundial.  
O primeiro embate dos dois velhos e eternos inimigos está prestes a alcançar o centenário, já que viu a luz do dia em Buenos Aires a 10 de setembro de 1914, tendo os argentinos vencido por 3-0.

Numeração nas camisolas

Contariamente ao que vigorou durante muitos anos na História do Futebol não foi em 1930 que as camisolas dos futebolistas surgiram pela primeira vez com números. 1911 é efetivamente o ano em que se começou a utilizarar os dorsais nas costas dos jogadores, facto ocorrido na Austrália durante uma partida de futebol... australiano (uma mistura de rugby e futebol). O exemplo foi seguido tempos depois pelo soccer local, com as equipas do Sydney Leichardt e do HMS Powerful a serem as primeiras - nesta modalidade - a usar números nas costas dos jogadores. A verdade acima de tudo...

Aston Villa foi o primeiro campeão inglês... só com jogadores ingleses no seu plantel!

Foram precisos esperar 22 anos para ver um clube inglês vencer o título de campeão nacional - desde a fundação do campeonato - com um plantel composto só por jogadores ingleses!
O feito pertenceu ao Aston Villa, que na temporada de 1909/10 ficou com o primeiro lugar do campeonato mais antigo do Mundo.
Até então todos os outros campeões haviam tido pelo menos um jogador estrangeiro nos seus respetivos grupos de trabalho.

Campeão num ano... e despromovido no seguinte!

O Liverpool alcançou o título inglês na temporada de 1902/03. Até aqui nada demais, atendendo ao facto de estarmos a falar de um dos grandes emblemas do futebol global. Acontece é que na temporada seguinte (1903/04) os reds foram penúltimos e... desceram de divisão!

Athletic de Bilbao vence Taça do Rei sem... jogar um único encontro!

Em 1914 o Athletic de Bilbao não precisou de suar a camisola para levantar aquele que na época era o único troféu disputado em Espanha, a Taça do Rei. Nos quartos-de-final os bascos ficaram isentos, qualificando-se assim para as meias-finais onde o seu adversário, o Espanyol de Barcelona, não compareceu, permitindo aos de Bilbao seguir para a grande final. Agendado para o Hipódromo de Madrid o encontro decisivo da Copa acabou por não se disputar, já que a outra meia final, marcada para a manhã do dia da final, entre o Espanyol de Madrid e o Moncloa, não se realizou, tendo a Real Federação Espanhola atribuido o título ao Athletic, que não precisou de jogar um só minuto para o conquistar!

O estádio mais antigo do Mundo


É na cidade inglesa de Sheffield que (ainda) vive o estádio de futebol mais antigo do planeta. Trata-se do Sandygate Road, pertença do Hallam Football Club (também ele um dos emblemas mais velhos do Mundo), recinto este que nasceu em 1804, criado para acolher jogos de críquete. Cinco décadas mais tarde começou a receber os primeiros jogos de futebol, sendo que a sua inauguração oficial remonta ao dia 26 de dezembro de 1860 (faz hoje precisamente 152 anos), num jogo que opôs os dois clubes mais velhos do planeta, o Sheffield FC (o mais antigo) e o Hallam FC.

Os primeiros jogadores remunerados

Scots John Love e Fergus Suter foram os primeiros jogadores da história a receber dinheiro pelos seus préstimos ao futebol. Ambos atuavam no Darwin quando em 1879 num jogo a contar para a Taça de Inglaterra ajudaram a sua equipa a bater o poderoso - na época - Old Etonians, recebendo posteriormente um prémio monetário. Este gesto iria anos mais tarde influenciar o profissionalismo do futebol em terras britânicas.

A primeira taça do futebol

Em 1871 disputou-se aquela que é considerada a primeira grande competição mundial de futebol, a Challenge Cup. Inglaterra (mais precisamente o Kennington Oval de Londres) foi o palco da disputa entre o Wanderers e o Royal Engineers, tendo a vitória sorrido à primeira equipa, por 1-0, com o único tento deste duelo patrocinado pela recém criada Football Association sido apontado por C.A. Alcook, nada mais nada menos do que o mentor da... Challenge Cup.