Museu Virtual do Futebol

O Dia em que o Rei foi à bola

 O primeiro troféu disputado em Portugal

Recordamos hoje na vitrina das “estórias futebolísticas” da bola lusitana um dos primeiros grandes momentos da vida do então jovem futebol em Portugal: o duelo entre as selecções do Porto e de Lisboa. Um facto histórico ocorrido a 2 de Março de 1894, no Porto, mais concretamente no desaparecido Campo Inglês (zona do Campo Alegre), que reuniu uma selecção de Lisboa composta por jogadores do Club Lisbonense, do Carcavelos Club e do Braço de Prata, e um combinado do Porto composto por atletas do Oporto Cricket Club. A partida foi organizada por Guilherme Pinto Basto, um profundo entusiasta do “belo jogo”, e a quem o futebol português muito deve, já que entre outros factos foi ele quem trouxe de Inglaterra (país onde estudava) para Portugal a primeira bola de futebol, objecto que desde logo suscitou um enorme interesse naqueles que com ele primeiramente tiveram contacto.
E pela primeira vez na história o vencedor levava para casa um troféu, neste caso a Taça D. Carlos I, uma oferta do citado monarca. Família real que, aliás, se encontrava no meio da assistência do célebre encontro, sendo que um dos episódios curiosos do mesmo relata que os jogadores tiveram de fazer um esforço suplementar em jogar um prolongamento pelo facto de Suas Majestades o Rei D. Carlos, e a Rainha D. Amélia (os quais se faziam acompanhar pelos príncipes D. Luís Filipe e D. Manuel) terem chegado ao evento a meio da 2ª parte. Como tal e para que os ilustres espectadores pudessem apreciar devidamente o espectáculo que ali se desenrolava foram jogados mais alguns minutos de uma contenda que seria ganha pela equipa de Lisboa, por 1-0. A taça seria entregue a Guilherme Pinto Basto.
Na fotografia que ilustra este texto pode ser vista a selecção de Lisboa que venceu este histórico encontro, a qual posa com a bonita taça que se assumiu como uma das peças de maior valor histórico do futebol lusitano.

Nota: texto escrito a 21 de janeiro de 2011 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

A estreia "desnorteada" da Selecção Nacional

Foi sob o signo do puro amadorismo e – de algum – desconhecimento global do jogo que a Selecção Nacional fez o seu baptismo na alta roda do futebol internacional. Uma efeméride ocorrida há quase 90 anos (!) no longínquo 18 de Dezembro de 1921. Nesse histórico dia um grupo de notáveis atletas e timoneiros na implantação do belo jogo no nosso país defendeu pela primeira vez o “emblema” das quinas num “match” internacional, tendo como madrinha desse baptismo a vizinha e poderosa Espanha.
Madrid e o estádio do Atlethic de Madrid – assim se chama o actual Atlético madrileno por ter sido fundado por bascos – testemunharam esse momento histórico do futebol luso. E tal como em outros tantos episódios da vida da nossa selecção também aquele Espanha – Portugal seria envolvido em polémica e quezílias desde o primeiro instante. A marcar a gigante onda de descontentamento a “política” da convocatória. Um dos maiores ases do pontapé da bola da altura, o belenense Artur José Pereira, recusou representar a nossa equipa pelo facto do seu irmão Francisco Pereira e o seu companheiro de equipa Alberto Rio não terem sido chamados.
Mas a polémica maior deu-se entre as cidades do Porto e de Lisboa. A começar pela recolha de fundos que a União Portuguesa de Futebol (organismo antecessor da actual Federação Portuguesa de Futebol) quis implementar com a disputa de um “match” entre as selecções das duas maiores cidades do país com o intuito de custear a viagem do combinado nacional a Madrid. A Associação de Futebol do Porto recusou desde logo esse jogo de angariação de fundos pois sabia de antemão que a Selecção Nacional iria ser composta por jogadores de Lisboa! E não andaria muito longe da verdade…
Portuenses que foram mais longe ao ameaçar o organismo máximo do futebol português que não permitiriam que nenhum jogador seu filiado participasse nesta estreia internacional de Portugal. Houve contudo um jogador que não acatou a ordem da entidade portuense, tendo viajado para a capital do país à revelia dos dirigentes nortenhos para se juntar à selecção nacional… que para os portuenses não era mais do que uma selecção de Lisboa! Artur Augusto era o nome do “desertor”, um homem que apesar de defender as cores do FC Porto era natural de Lisboa (!)
Ainda atiçados pela “guerra Norte-Sul” que se instalara em torno da estreia portuguesa além fronteiras os jornais do Porto lançavam provocações e lamentos sobre os seus “amigos” do sul. A revista Sporting, por exemplo, escrevia: «É para lamentar e até encher-se de pesar a alma de todos aqueles que amam o desporto e a sua terra, torrão abençoado e digno de melhor sorte, levado pela ambição, pela vaidade de meia dúzia de criaturas onde morreu o sentimento da mais elementar dignidade, a fazer-se representar em terras estranhas, fora do solo que amamos, por elementos cujos nomes foram escolhidos por simpatia, demonstrando à evidência um desconhecimento profundo de patriotismo, ligado ao maior desprezo pela causa pela qual tanto trabalhos…»
Quezílias à parte Portugal lá partiu para Madrid com um grupo de homens a quem muito o futebol nacional deve o ser. Nomes míticos como Ribeiro dos Reis, Jorge Vieira, ou o grande mestre Cândido de Oliveira fizeram parte desta primeira grande aventura. Nomes que mesmo estando possuídos de uma alegria e vontade desmedidas em levar futebolisticamente o nome de Portugal bem longe – e haveriam de consegui-lo com o passar dos anos – não foram capazes de impedir uma derrota na estreia no palco internacional deste desporto que ia já enlouquecendo multidões um pouco por todo o Mundo.
3-1 a favor da poderosa Espanha num campo pelado, duro e muitíssimo estreito (queixaram-se os portugueses) foi o resultado final deste baptismo internacional para as nossas cores. Curiosidade do acaso foi o facto do golo luso ter sido apontado pelo irmão do único jogador que não pertencia a Lisboa (!)… esse mesmo, Artur Augusto, cabendo a Alberto Augusto a honra de apontar o primeiro golo da história da Selecção Nacional, na sequência de uma grande penalidade, batedno o mítico guarda-redes espanhol “Don” Ricardo Zamora.
No Porto a derrota seria recebida com ironia… «a ansiedade dos desportistas portuenses em conhecer o resultado do desafio de Madrid foi satisfeita pelas 6 horas da tarde quando os nossos placards noticiaram que a Espanha tinha vencido o onze de Lisboa por 3-1. O resultado bastante honroso que o telégrafo nos anunciava era de molde a entusiasmar pessimistas e optimistas…»
Nota: Na fotografia o histórico “onze” que defrontou a Espanha nesse eterno dia 18 de Dezembro de 1921

Texto escrito em 10 de junho de 2011 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

O primeiro jogo oficial

A mulher peluda do Jardim Zoológico figurou
no primeiro jogo oficial do futebol em Portugal

Em viagens passadas a bordo da Máquina do Tempo fomos ao encontro daquela que é tida como a primeira aparição oficial do futebol em Portugal. Um histórico momento ocorrido em 1888, em Cascais (nos terrenos da Parada), protagonizado por um grupo de veraneantes proveniente da mais fina flor da alta sociedade portuguesa daquela época, onde na qual se destacava Guilherme Pinto Basto, o grande responsável pela introdução do futebol em terras lusitanas. Sobre os acontecimentos desse célebre final de tarde de um – qualquer – domingo de outubro já aqui foram traçadas umas linhas aquando da visita feita ao ilustre pai do futebol português, Guilherme Pinto Basto, eternizado no Museu Virtual do Futebol no cantinho destinado às “estrelas cintilantes”.
Não será demais recordar que segundo o próprio Pinto Basto – anos mais tarde – aquele primeiro contacto com a bola – trazida de Inglaterra pelos seus irmãos Eduardo e Frederico – não passou senão de um “ensaio” onde 28 fidalgos travaram conhecimento com o jogo que apaixonou os irmãos Pinto Basto aquando da passagem destes por terras inglesas. Foi digamos que uma espécie de aula ministrada pelos Pinto Basto ao seu ilustre leque de amigos sobre aquilo que viria tempos mais tarde a tornar-se no ópio do povo.
E não demorou muito para que o recém-nascido futebol – em Portugal – começasse a gatinhar. Poucos meses após o “ensaio” de Cascais realizou-se aquele que é considerado o primeiro grande duelo da modalidade no nosso país, o primeiro jogo a sério, o oposto do cenário descontraido e familiar edificado por aqueles 28 aristocratas nos terrenos da Parada. Recorrendo a alguns desses 28 elitistas Guilherme Pinto Basto montou uma equipa – não se sabe se com muito ou pouco jeito para encenar o “pontapé na bola”, o primeiro nome dado pelos populares lusitanos à modalidade – que ousou enfrentar os mestres do “football” moderno, vulgo os ingleses. Súbitos de “Sua Majestade” que constituiram um “team” formado por empregados do Cabo Submarino e da Casa Graham.
Lisboa e os terrenos do seu Campo Pequeno – na altura ainda sem toiros – presenciaram na tarde de 22 de janeiro de 1889 a batalha entre os fidalgos portugueses e os operários ingleses, tendo ao local ocorrido um vasto número de personagens possuídas por ávida curiosidade em presenciar o ato bárbaro de pontapear uma bola protagonizado por 22 homens.
Eternizados ficaram pois os seus nomes, sendo que pelos portugueses se apresentaram em campo: Guilherme Pinto Basto (sabe-se na qualidade de guarda redes), João Saldanha Pinto Basto, João Bregaro, Eduardo Romero, Eduardo Pinto Basto, Afonso Vilar, D. Simão de Sousa Coutinho (Borba), Duarte Pinto Basto, Frederico Pinto Basto, Fernando Pinto Basto, Augusto Moller e Henrique Vilar. 12 nomes do lado lusitano, presumindo-se que um deles tivesse sido suplente. Pela armada britânica entraram em campo: J. Frazer, J. Mason, C. Anderson. Wray. R. W. Watson, Rawstron, Govan, Briggs, F. Palmer, C. Cox e um outro jogador não identificado.
Pormenor curioso foram os equipamentos. Caricatos, na verdade! Trajes para todos os gostos e feitios. Houve quem levasse fatos de banhos às riscas (!) outros com endumentária de presidiários calçando sapatos no lugar de botas, e quase todos eles ostentando um peculiar barrete a fazer lembrar um vendedor de gelados deambulando pelas praias!
Táticas de jogo não parece que tenham existido, até porque o único objetivo era pontapear a bola para a frente na tentativa de a introduzir no “goal” adversário. Na plateia senhoras da alta sociedade com vestes de gala olhavam com chocada admiração as correrias bárbaras dos “gentelmens” lusitanos e dos trabalhdores britânicos. Pormenores mais detalhados da contenda são desconhecidos, apenas se sabe que os corajosos portugueses venceram, embora não se sabe por quantos nem quem foram os autores dos “goals”.
Desse histórico momento daquela tarde ventosa há no entanto uma relíquia ainda hoje guardada. Uma deliciosa e – muito – peculiar crónica publicada no “Jornal do Comércio” de 23 de janeiro de 1889. De autor desconhecido este é tido como o primeiro texto escrito em Portugal retratando os acontecimentos de um “match de football”, o qual foi ilustrado por uma não menos peculiar ilustração que também aqui hoje recordamos. Sem mais demoras aqui fica o “retrato escrito” daquele momento cujo título é senão mais do que uma curiosa combinação de palavras das emoções ali vividas:

«O “Match” no Campo Pequeno – A mulher peluda no Jardim Zoológico

Uma quantidade enorme de pessoas foi hoje ao Campo Pequeno assistir ao desafio, entre ingleses e portugueses, de futebol. Grande número de carruagens com elegantes senhoras, entre as quais se destacavam mademoiselle Ida Blanc, governando galhardamente, ao lado de sua mãe, uma soberba parelha de cavalos pretos. O resultado do jogo foi muito lisongeiro para os nossos compatriotas que conseguiram ganhar. Não faltaram os trambolhões e os rebolões do próprio jogo, mostrando todos os fortes mancebos, que nele tomaram parte, quão exímios são no “manejo” do pontapé, como disse uma elegante que, por casualidade, ficou ao pé de nós. Quase toda a gente, findo o futebol, foi passear ao Jardim Zoológico, onde se exibia a persa Mirra, a mulher peluda».


Uma crónica pituresca de um acontecimento que nas décadas seguintes do novo século que se aproximava haveria de se tornar num ritual comum das tardes domingueiras para as gentes da brava nação lusitana.

Legendas das fotografias:
1-A equipa portuguesa, com o pai do futebol português, Guilherme Pinto Basto, a figurar na fila de cima, em quarto lugar, da esquerda para a direito
2-O combinado inglês
3-A pisturesca ilustração que acompanhou a peculiar crónica do "match"

Nota: Texto escrito em 17 de fevereiro de 2012 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

O primeiro Campeonato de Portugal

É opinião partilhada por muitos dos estudiosos do fenómeno futebolístico do nosso burgo que os anos 20 do século passado trouxeram a maturidade ao então jovem futebol português. Com a expansão da mancha clubística um pouco por todo o país a modalidade começou a acorrentar a si contornos de maior competitividade e interesse com a disputa das primeiras competições ao nível de clubes. Longe pareciam já estar os tempos dos primeiros ensaios que procuravam decifrar os mistérios daquele jogo trazido de Inglaterra na década de 80 do século XIX por Guilherme Pinto Basto, com o povo mais do que familiarizado com a modalidade a mostrar-se nos inícios do século seguinte completamente rendido a ela!
Os duelos entre clubes vizinhos sucediam-se em catadupa, e em volta deles alastrava a ferverosa massa adepta que com o seu entusiasmo conferia uma vida singular às primeiras catedrais – o mesmo é dizer estádios – da bola então construídas.
O mapa futebolístico português começava pois a ser desenhado com maior vivacidade, pese embora com traços de cariz regional. Foram pois regionais os primeiros confrontos a “doer”, os primeiros títulos, as primeiras histórias...
A temporada de 1906/07 assinala o arranque do 1º Campeonato de Lisboa no qual participaram o popular CIF (Clube Internacional de Futebol) fundado pela família Pinto Basto, o Sport Lisboa, o Lisbon Cricket Club e o Carcavelos Club, cabendo a este último emblema a honra de inaugurar a lista de campeões regionais da capital do país.
Estava assim dado o pontapé de saída nas competições regionais, que com o passar dos anos se iam multiplicando por outras regiões nacionais. Com a popularidade dessas mesmas competições surgiu nos anos 20 como que um apelo à criação de uma prova de maior dimensão, um torneio capaz de transpor a fronteira da regionalização, por assim dizer, de colocar frente a frente os pesos pesados locais num certame de âmbito... nacional.
O título de rei da região era já pequeno demais, sabia a pouco, os clubes, os jogadores e sobretudo os adeptos queriam mais, queriam ser os melhores do país. A Associação de Futebol de Lisboa toma mesmo a iniciativa de desafiar a sua congénere do Porto para um “match” entre Benfica e FC Porto, um repto que no entanto seria recusado por estes últimos, muito por culpa do diferendo que opôs sulistas e nortenhos aquando da escolha dos jogadores para integrar a primeira seleção nacional que enfrentou a Espanha em 1921, espisódio esse aliás já aqui recordado no Museu Virtual do Futebol . Estava dado contudo o impulso para a criação de uma prova de cariz nacional, capaz de colocar em confronto os melhores clubes e os melhores atletas de cada região.

O nascimento do Campeonato de Portugal

E eis que na época de 1921/22 nasceu aquela que é considerada como a primeira competição de essência nacional: o Campeonato de Portugal. Vencê-lo significava ostentar a coroa de rei de Portugal no futebol. Não foi contudo um parto fácil, já que por aquelas alturas o futebol era desenvolvido de uma forma mais oficial e séria apenas nas associações de futebol de Lisboa e do Porto, e a espaços no Funchal e no Algarve, já que no resto do país a organização do futebol não era mais do que uma miragem. A União Portuguesa de Futebol (UPF) – antecessora da atual Federação Portuguesa de Futebol – sentiu pois algumas dificuldades em colocar em prática a sua ideia, dificuldades essas que no entanto não se afigurariam como entrave para a realização do primeiro CAMPEONATO DE PORTUGAL. Um campeonato integrado apenas pelos campeões regionais das duas associações que levavam mais a sério, por assim dizer, o fenómeno futebolístico em termos de competições organizadas, Lisboa e Porto, já que as associações do Funchal e do Algarve alegariam dificuldades económicas para explicar a não adesão à prova.
A representar as duas principais urbes de Portugal estiveram dois ilustres senhores do futebol lusitano, Sporting e o FC Porto. Ficou assente que o título nacional seria disputado em duas mãos, uma na capital outra na Cidade Invicta, cabendo a esta última as honras de receber o primeiro encontro.
No dia 4 de junho de 1922 o Porto vestiu-se de azul e branco na esperança de ver o seu clube ser o campeão de Portugal e acima de tudo levar a melhor sobre a “rival” Lisboa.
O relógio marcava 16h15 de uma tarde cinzenta salpicada com pingos de chuva. O público nortenho dava largas ao seu entusiasmo e paixão pelo emblema da cidade nas repletas bancadas do Campo da Constituição à espera de uma batalha – muitos encaravam-na dessa forma, ou não estivessem frente a frente os cavaleiros do Porto e de Lisboa – que deveria ter começado às 15h00, não fosse o atraso de um dos melhores jogadores portistas de então, João Nunes, que aproveitara aquele célebre domingo para dar um salto à... romaria do Senhor de Matosinhos. Pequeno atraso que não esmoreceu os intervenientes do encontro que sob a arbitragem de um inglês (Merick Barley) seria ganho pela equipa da casa por 2-1. Portistas que até estiveram a perder, na sequência de um golo de Emílio Ramos, aos 9 minutos, conseguindo no entanto dar a volta ao marcador graças a um “bis” de Tavares Bastos, primeiro aos 25 minutos e o segundo quase em cima do apito final, ao minuto 86.
De pronto foram lançados foguetes pelos eufóricos adeptos portuenses, sim portuenses e não portistas, porque esta foi uma vitória de toda a Cidade do Porto sobre a capital Lisboa, mais parecendo um S. João antecipado.
Sobre a histórica tarde o célebre Ribeiro dos Reis escreveria que: «o jogo decorreu en ambiente apaixonadissímo, de que os lisboetas, nno regresso, se queixaram amargamente». Pudera! Mas nada estava ainda perdida para os campeões de Lisboa.
No domingo seguinte (11 de junho) deu-se a segunda parte da batalha, desta feita em terras alfacinhas, mais precisamente no Campo Grande que em resposta ao cenário edificado uma semana antes no Porto se apresentou cheio como um ovo. Só que desta feita num ambiente 100 por cento hostil para os nortenhos. Outra coisa não seria de esperar, já que era agora a vez do Sporting jogar diante das suas gentes.
Para este jogo a UPF escolheu um árbitro espanhol (!), Montero de seu nome. Empolgados pelo seu público os leões vingaram a derrota na Constituição ao vencer por 2-0 com golos de Henrique Portela e Torres Pereira.

O “tira teimas” pendeu para o FC Porto

Com a contenda empatada a UPF viu-se forçada a agendar um terceiro e decisivo encontro
para uma semana mais tarde (18 de junho). Foi então sorteado o local do “tira teimas”, tendo a sorte ficado posteriormente do lado do FC Porto já que o palco da finalissíma foi o Campo do Bessa, situado no... Porto. Mas nem o facto de ter de viajar novamente até ao terreno do rival parece ter incomodado as gentes de Lisboa, e muito em particular a imprensa da capital, a qual a julgar pelo que viu no Campo Grande não tinha dúvida em rotular o Sporting como o principal candidato à vitória. «Vaticinamos nova vitória para o Sporting, pois o FC Porto é, inegavelmente, inferior», titulava o jornal desportivo “Os Sports”. Como estavam enganados.
Na véspera deste decisivo encontro Portugal escrevia uma das páginas mais belas da sua história com a conclusão da primeira travessia aérea entre Portugal e o Brasil protagonizada pela “dupla” composta por Gago Coutinho e Sacadura Cabral. No Porto, como em todo o país, certamente, estalaram foguetes para comemorar tal façanha, com o povo a sair em grande número para as ruas dando assim um colorido mais intenso à festa. Quem parece não ter achado muita graça à onda de festividades foi o Sporting, cujos jogadores se queixam não ter pregado o olho durante a noite devido aos ruidosos festejos. Propositadamente ou não esses festejos teriam contornos mais intensos junto ao hotel onde estava instalada a comitiva sportinguista. Casualidade ou não? O lisboeta “Os Sports” achava que não.
Dia de jogo e o Campo do Bessa a arrebentar pelas costuras... com os entusiastas adeptos do FC Porto, naturalmente. Ambiente quente que ainda ficou mais escaldante ao minuto 51 quando Balbino fez o primeiro golo da tarde para os portistas. Vantagem que não foi ampliada cinco minutos mais tarde devido ao preciosismo do árbitro Neves Eugénio, que por sinal era um dos notáveis jogadores/dirigentes do... Académico do Porto. O juíz manda repetir uma grande penalidade que Artur Augusto converte inicialmente em golo com a justificação de que não havia dado ordem para a sua marcação. Na repetição o mesmo Artur Augusto envia violentamente a bola à trave!
Talvez empolgado pela falha do rival o Sporting aventura-se no ataque e aos 70 minutos Emílio Ramos repõe a igualdade no marcador.
O relógio não parava e no final dos 90 minutos o marcador indicava uma igualdade a uma bola. Parecia maldição, mas ainda não havia campeão! Veio o prolongamento e o FC Porto voltou a adiantar-se no marcador à passagem do minuto 100, desta feita por João Nunes, o tal que no primeiro jogo havia chegado atrasado por ter dado um salto à romaria do Senhor de Matosinhos. Um pouco tardio ou não parece que o efeito da ida do jogador à festa do milagroso santo parecia dar agora os seus frutos! O Sporting esmoreceu e dois minutos depois o capitão dos portistas João de Brito deu a machadada final no jogo ao apontar o 3-1 final.
Quando Neves Eugénio apitou pela última vez a loucura foi total. O campo mais parecia uma bomba a explodir de alegria, o FC Porto sagrava-se CAMPEÃO DE PORTUGAL, o primeiro CAMPEÃO DE PORTUGAL. A festa prolongou-se pela madrugada dentro na Cidade Invicta. Para a eternidade ficavam os nomes de Lino Moreira (guarda-redes), Júlio Cradoso, Artur Augusto, José Mota, Velez Carneiro, Floreano Pereira, João de Brito, Balbino Silva, Alexandre Cal, Tavares Bastos, João Nunes, e Adolphe Cassaigne (treinador).

Nomes e números da final:

FC PORTO – SPORTING, 2-1
4-6-1922, Porto (Campo da Constituição)
Árbitro: Merick Barley (Inglês)
Marcadores: 0-1 Ramos (9), 1-1 Bastos (25), 2-1 Bastos (86)
FC Porto: Lino Moreira; Júlio Cardoso e Artur Augusto; José Mota, Velez Carneiro e Floreano Pereira; João Brito cap, Balbino Silva, Tavares Bastos, João Nunes e Alexandre Cal. Treinador: Adolphe Cassaigne
Sporting: Amadeu Cruz; Joaquim Ferreira e Jorge Vieira; João Francisco, José Filipe e Henrique Portela; Torres Pereira, Francisco Marques, Francisco Stromp cap, Emílio Ramos e José Leandro. Treinador: Charles Bell

SPORTING – FC PORTO, 2-0
11-6-1922, Lisboa (Campo Grande)
Árbitro: Montero (espanhol)
Marcadores: 1-0 Portela, 2-0 Pereira
Sporting: Amadeu Cruz; Joaquim Ferreira e Jorge Vieira; João Francisco, José Filipe e Henrique Portela; Torres Pereira, Jaime Gonçalves, Francisco Stromp cap, Emílio Ramos e José Leandro. Treinador: Charles Bell
FC Porto: Lino Moreira; Júlio Cardoso e Artur Augusto; José Mota, Velez Carneiro e Floreano Pereira; João Brito cap, Balbino Silva, Tavares Bastos, João Nunes e Alexandre Cal. Treinador: Adolphe Cassaigne

FC PORTO – SPORTING, 3-1 (após prolongamento)
18-6-1922, Porto (Campo do Bessa )
Árbitro: Neves Eugénio (Académico do Porto)
Marcadores: 1-0 Balbino (51), 1-1 Ramos (70), 2-1 Nunes (100), 3-1 Brito (102)
FC Porto: Lino Moreira; Júlio Cardoso e Artur Augusto; José Mota, Velez Carneiro e Floreano Pereira; João Brito cap, Balbino Silva, Alexandre Cal, Tavares Bastos e João Nunes. Treinador: Adolphe Cassaigne
Sporting: Amadeu Cruz; Joaquim Ferreira e Jorge Vieira; João Francisco, Filipe dos Santos e Henrique Portela; Torres Pereira, Jaime Gonçalves, Francisco Stromp cap, Emílio Ramos e José Leandro. Treinador: Charles Bell

Legenda das fotografias:
1-A equipa do FC Porto que venceu o primeiro Campeonato de Portugal
2-Tavares Bastos, autor dos dois golos do jogo da 1ª mão e um dos melhores jogadores portistas da época
3-A fachada principal do reduto dos Dragões, o Campo da Constituição...
4-...e uma vista aérea do Campo Grande (Lisboa)
5-A equipa do Sporting que vendeu cara a derrota na primeira prova de âmbito nacional organizada em Portugal

 Nota: Texto escrito a 5 de março de 2012 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

À quinta foi de vez: Portugal, finalmente, chega às vitórias

Contrariamente ao que diz o velho ditado de que «à terceira é sempre de vez» só à quinta tentativa é que a seleção portuguesa de futebol alcançou a primeira vitória da sua história. E fê-lo contra uma poderosa Itália que não muito tempo após este histórico momento do futebol lusitano haveria de dominar o planeta da bola na sequência da conquista de dois Campeonatos do Mundo consecutivos.
Antes do confronto com a “squadra azzurra” Portugal havia disputado quatro encontros particulares, todos diante da vizinha Espanha... e todos concluidos com derrotas para as cores portuguesas. Porém, na tarde de 28 de junho de 1925 a sorte mudou para a armada lusitana. Na “catedral” do Lumiar, em Lisboa, Portugal disputava mais um particular, desta feita diante de um novo adversário. Desafio que à boa moda portuguesa seria antecedido de alguns episódios caricatos, desde logo a chacota pública de que foi alvo a decisão do selecionador nacional de então, Ribeiro dos Reis, em levar os atletas escolhidos para um estágio. Militar de profissão Ribeiro dos Reis impôs então um rigoroso programa de treinos aos homens por si escolhidos, à moda daquilo o que se fazia... no exército! Foram realizados retiros rigorosos para localidades fora da capital, um não menos rigoroso regime de (uma saudável) alimentação, e duras caminhadas por serras e montes acompanhadas de longas sessões de exercícios físicos.
A opinião pública, espicaçada em parte pela imprensa da época e por alguns “inimigos” da seleção (!), lançava faíscas de ironia dizendo que tal procedimento mais «parecia a tropa!», ou que «o estágio é uma paródia, as massagens dão cabo dos homens de barba rija, ovomaltine e chocolates são para crianças!». Não se sabendo se terá sido ou não devido ao estágio o que é certo é que perante 16 000 almas Portugal bateu a Itália por 1-0, alcançando assim o primeiro triunfo da sua curta vida futebolística (recorde-se que a estreia da seleção havia sido em dezembro de 1921 diante da Espanha, em Madrid, capítulo esse que o Museu já aqui recordou noutras viagens ao passado). Esta vitória foi engolida em seco pelos críticos da época, pois... dali em diante os estágios foram uma constante para as equipas de futebol nacional. Ah, falta o golo, esse foi da autoria do sportinguista João Francisco Maia.
Novidade para a época foi também o facto da imprensa ter dado um destaque especial a este jogo, pois além de uma ampla cobertura dos acontecimentos nele ocorridos apresentou uma análise individual de cada um dos onze guerreiros lusitanos que entraram em campo. Uma banalidade nos dias de hoje pouco comum para aquela época levada a cabo pelo jornal O Sport de Lisboa.
Aqui fica pois na integra (com as “regras” ortográficas da época) essa histórica análise individual daqueles imortais heróis lusitanos:

Francisco Vieira, do Sport Lisboa e Benfica: Pareceu-nos possuido de um nervosismo, que não lhe conheciamos. Possivelmente, falta de confiança. Foi valente e arrojado. Teve algumas defesas de encaixe que lhe falharam, deixando resvalar a bola das mãos; valeu-lhe o facto de os avançados italianos não o carregarem. A par destes escapanços, e compensando-os, executou defesas de valor. E entrou amiude em acção, na segunda parte. As suas mais difíceis defesas foram, porém, realizadas no primeiro tempo, a dois livres. Em geral, viu o seu trabalho facilitado por não ser carregado. A característica marcante do ataque italiano – denunciar o remate – permitiu-lhe boas defesas. Foi brilhante, umas vezes; e mediocre, outras.



Anónio Pinho, do Casa Pia A.C.: Um começo difícil. Depois, achou-se. A formidável actuação do seu médio, reduziu-lhe sensivelmente o número de entradas em disputa de jogo: foi seguro.
No geral, segurança e valentia, comquanto pouco usado. Útil na defesa e feliz nas jogadas do contra-ataque.






Jorge Vieira, do Sporting Clube de Portugal: Em competência com uma aza perigosa e compenetrada, que gastou muita energia ao médio, Jorge foi obrigado a entrar em jogo muitas mais vezes que o seu companheiro. Sempre brilhante e sempre oportuno. Capitão magnífico; incitando e instruindo.






Raul Figueiredo, do Sporting Clube Olhanense: O melhor dos portuguêses; o mais brilhante em campo. O melhor dos nossos porque não há um erro sequer a desculpar-se-lhe; o mais brilhante em campo, porque de todos os jogadores italianos e nossos, foi aquele que melhor dominou a bola e aquele que executou com mais perfeição. Possue o estofo de internacional.






Augusto Silva, do Clube de Futebol “Os Belenenses”: No geral, foi um trabalhador esforçado, batido nas jogadas de defesa, lembremos que quando um médio-centro joga contra um trio interior bem compenetrado, como o de Itália, há-de forçosamente ter pouca acção nas jogadas de defesa; passa o tempo à procura da bola mas é batido naturalmente; e a intercepção quando se dá, deriva mais dum passe, mal colocado, por qualquer desses três homens, que pela própria acção do médio.
Ora, Silva foi batido na defesa e não conseguiu no decurso do jogo três aberturas às pontas. Dizendo-se que durante o encontro muitas e muitas vezes, Silva bateu o médio contrário, denunciou a abertura aos extremos, e acabou por dar um pontapé tortíssimo no adversário (???), cremos pronunciar a verdade, considerando natural a má saída do jogo da defesa e mal sucedido o jogo de contra-ataque que ele com inteligência esboçou.




César de Matos, do Clube de Futebol “Os Belenenses”: Receoso, desde os primeiros momentos. A aza direita italiana utilizou-o a seu bel prazer. Só nas jogadas altas César teve vantagem. Poucas, muito poucas vezes, César lançou o seu ponta. Mostrou-se pouco decidido nas entradas ao lançamento do extremo contrário.






Domingos Neves, do Sporting Clube Olhanense: O aspecto principal da sua exibição foi: apatia. Internou-se pouco. Centrando, cometeu várias vezes o erro de atirar em completas condições de desiquilibrio, originando assim um número elevado de pontapés altos e atrazados.
Foi batido pelo médio contrário por teimar em receber a bola sem ir ao seu encontro, isto é, esperar que ele fosse ter consigo, junto à linha lateral, onde estava postado.





Mário de Carvalho, do Sport Lisboa e Benfica: Pareceu-se muita a sua exibição com a de Augusto Silva. Foi muitas vezes mal sucedido. Recebia a bola do médio, esboçava um ataque, mas quando passava, dava à bola efeitos que não vinham ao caso. E, em geral, esqueceu-se de apontar às redes, principalmente no primeiro tempo.





 

João Francisco Maia, do Sporting Clube de Portugal: Apezar de ter marcado a bola, que deu a vitória às nossas novas côres, Maia foi um avançado-centro que teve a sua melhor acção na defesa, junto a qualquer da linha intermédia. Trabalhou muito jogo da defesa até à linha de ataque; chegando à altura dos seus companheiros da frente; foi umas vezes incompreendido; outras, incompreensível.
O mais esforçado de toda a linha de Portugal; constantemente em jogo, do príncipio até ao fim.





José Delfim, do Sporting Clube Olhanense: Foi o mais perfeito da linha da frente. As melhores avançadas foram obra sua. Dominou bem a bola.

É um jogador de grande futuro.






Manuel Fonseca, do Académico Futebol Clube (do Porto): Muitíssimo infeliz. A julgar pelo que fez nos treinos de Lisboa e das Caldas, deve ser atribuída a uma má tarde, a sua má exibição de quinta-feira. Talvez um tanto de nervosismo, proveniente da estreia.





 Legenda das fotografias:
1-O "onze" nacional saudando o público após a histórica vitória sobre a Itália
2,3,4,5,6,7,8,9,10,11,12- Um a um, os grandes obreiros do triunfo lusitano sobre a squadra azzurra

Nota: Texto escrito em 3 de abril de 2012 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

O pontapé de saída do "derby eterno"

1 de Dezembro de 1907 é uma data que se encontra impressa a letras de ouro na história do futebol português. Neste dia o Campo da Quinta Nova, em Carcavelos, é o palco da primeira batalha entre dois “recém nascidos” que com o passar dos anos se tornaram em gigantes do desporto mundial. Os seus nomes? Sport Lisboa e Benfica e Sporting Clube de Portugal.
Nesse dia tinha início o primeiro capítulo de uma rivalidade desmedida e apaixonante que todos os anos – pelos menos em duas ocasiões – divide a Cidade de Lisboa em duas barricadas, uma verde e outra vermelha. É o grande derby do futebol português, e um dos mais intensos do “desporto rei” a nível global, é o “derby eterno” como assim ficou eternamente popularizado.

E derby não é derby sem uma pitada de picardia para aguçar ainda mais o apetite da rivalidade, e desde a primeira hora que um Benfica – Sporting, ou vice-versa, foi envolto em polémicas. Neste primeiro confronto, referente à 3ª jornada do Campeonato Regional de Lisboa, o Sporting entrou em campo com oito ex-benfiquistas no seu “onze” (!), nomeadamente José da Cruz Viegas, Emílio de Carvalho, Albano dos Santos, António Couto, António Rosa Rodrigues, Daniel Queirós dos Santos, Henrique Costa, e Cândido Rosa Rodrigues. Ao que parece o Sporting terá oferecido a estes jogadores condições de higiene, digamos assim, que não existiam na casa do rival, tais como um banho quente no final da cada jogo e camisolas limpas no intervalo dos mesmos!

E seria curiosamente um dos ”traidores” – na boca dos benfiquistas – , mais precisamente Cândido Rosa Rodrigues, a entrar definitivamente para a história dos “derbys eternos” já que é da sua autoria o primeiro golo de um duelo entre os dois rivais lisboetas.

Episódio caricato neste jogo foi o facto de minutos após Corga ter restabelecido a igualdade no marcador os jogadores do Sporting terem abandonado o terreno de jogo devido aos fortes aguaceiros que se abateram sobre Carcavelos, tendo voltado ao “campo de batalha” apenas por imposição do árbitro da contenda, o inglês Burtenshaw. E voltariam para festejar de novo na sequência de um lance infortúnio do lendário capitão benfiquista Cosme Damião que ao introduzir a bola na sua própria baliza oferece o triunfo – por 2-1 – aos “leões”.

Para a eternidade ficam os nomes dos guerreiros da primeira de muitas e intensas batalhas pintadas em tons de verde e vermelho:
Benfica: Persónio, Luís Vieira, Leopoldo Mocho, Alves, Cosme Damião, Bragança, Bermudes, António Costa, Corga, António Meireles, e França.
Sporting: Emílio de Carvalho, Queirós dos Santos, Belo, Albano dos Santos, Couto, Nóbrego de Lima, António Rodrigues, Eagleson, Viegas, Cândido Rosa Rodrigues, e Henrique Costa.

 
Nota: texto escrito pelo autor do Museu Virtual do Futebol na Revista Futebolista, na sua então crónica "Máquina do tempo", em 22 de abril de 2011

Memórias de uma primeira vez...

A primeira grande aparição da Selecção Nacional de Portugal numa grande competição planetária deu-se em 1928, nos Jogos Olímpicos de Amesterdão. Não é demais recordar que na altura o torneio olímpico de futebol era a maior competição futebolística do Mundo, a qual de quatro em quatro anos juntava as melhores selecções do globo. Isto porque nem o Campeonato do Mundo nem o Campeonato da Europa haviam visto a luz do dia. Vencer os Jogos Olímpicos era o equivalente a vencer um Mundial nos dias de hoje. Daí para ver a importância dada por todo o país à participação lusitana nas olimpiadas de 1928.

A aventura teve início a 21 de Maio desse célebre ano, dia em que a comitiva lusa chefiada pelo lendário Ribeiro dos Reis e por Salazar Correia embarcou na Estação do Rossio com destino a Amesterdão, com uma escala feita em Paris, num total de 40 horas de comboio!!!
Chegados à Holanda ecos de descontentamento desde logo se fizeram ouvir pelos jogadores lusos em consequência da verdadeira espelunca em que foram despejados. Fraca acomodação que não impediu os estreantes portugueses liderados tecnicamente pelo “mestre” Cândido de Oliveira de brilhar na sua ante-estreia num grande palco do futebol a nível planetário.

E ante-estreia porque a nossa selecção teve de ultrapassar uma fase pré-eliminar diante do Chile. Um encontro que não começou nada bem para Portugal, que ainda antes dos 15 minutos da etapa inicial já perdia por 0-2! No entanto a garra lusa viria ao de cima ainda antes do final da 1ª parte, tendo Vítor Silva e Pepe feito os golos que dariam o empate com que se atingiu o intervalo.
No 2º tempo Portugal continua a brilhar, e o mesmo Pepe e Waldemar Mota fariam mais dois golos que colocariam o resultado final em 4-2 e garantiam o apuramento da selecção para a fase seguinte.

Aí o adversário daria pelo nome de Jugoslávia. Duelo que chegaria ao fim com mais uma vitória lusa, desta feita por 2-1, com golos de Vítor Silva e de Augusto Silva.
A partir daqui o sonho - de alcançar uma medalha - instalou-se na comitiva portuguesa e no povo que em Portugal lotava as praças das grandes cidades para conseguir apurar os resultados da selecção... pois na altura a televisão não passava de uma miragem e a rádio não fazia relatos futebolísticos.

Nos quartos-de-final calhou em sorte - ou azar como se viria a confirmar mais tarde - o Egipto. Africanos que dominariam este jogo, o qual terminaria com um triunfo destes por 2-1, tendo o tento português sido da autoria de Vítor Silva. Apesar de eliminada esta selecção nacional portuguesa jamais será esquecida, pois foi a primeira a levar a uma grande competição mundial a nossa bandeira, tendo sido recebida em Lisboa de forma apoteótica... como se tivesse vencido o título olímpico... que na verdade foi para o Uruguai.
Assim sendo nomes como Vítor Silva, Jorge Vieira, Waldemar Mota, Carlos Alves (o "luvas pretas", tio de João Alves), e o "imortal" Pepe ficarão para sempre gravados a letras de ouro na história do futebol lusitano.

Na imagem pode ver-se o célebre onze luso no relvado do Estádio Olímpico de Amesterdão.
Em cima da esquerda para a direita: Roquete, Armando Martins, José Manuel Martins, Vitor Silva, Jorge Vieira, Carlos Alves e Raúl de Figueiredo. Em baixo da esquerda para a direita: César de Matos, Augusto Silva, Pepe e Waldemar Mota.

Nota: texto escrito pelo autor do Museu Virtual do Futebol na Revista Futebolista, na sua crónica de então "Máquina do tempo", em 4 de março de 2011

A orquestra mais virtuosa do futebol lusitano

Equipas há que pelo virtuosismo desenhado num rectângulo de jogo são capazes de transportar a nossa imaginação para a “degustação” de um concerto de música clássica. Ao longo da sua história o futebol deu-nos muitos e grandes tenores, inolvidáveis maestros, ou incomparáveis solistas, mas raras vezes nos terá dado uma orquestra tão afinada e virtuosa como a dos “Cinco Violinos”.

Esta foi a designação dada pelo conceituado treinador/jornalista Tavares da Silva ao quinteto mais célebre do futebol português, e porque não dizê-lo do futebol mundial, formado por um grupo de notáveis e virtuosos jogadores de futebol que na década de 40 encantou multidões nos campos nacionais defendendo as cores do Sporting Clube de Portugal. Fernando Peyroteo, Vasques, Albano, Jesus Correia e José Travassos são os cinco famosos violinistas dessa memorável orquestra que entre 1946 e 1949 tornou o leão num animal impossível de domar.

Um quinteto que actuando no sector ofensivo do terreno de jogo ofereceu ao clube de Alvalade a glória na sequência de centenas de golos, saborosos títulos, e acima de tudo momentos deslumbrantes de futebol baseados num exímio entrosamento aliado a um elevado grau de qualidade futebolística de todos os seus elementos nunca dantes visto no “desporto rei”. Quem teve o privilégio de assistir aos recitais desta orquestra afirma não ter dúvidas em rotular este como um dos períodos mais dourados do futebol nacional, lamentando apenas que estes cinco artistas não tenham tido a oportunidade de actuar juntos mais do que as três épocas em que fizeram furor de leão ao peito.

Tempo suficiente para conferir ao Sporting a grandeza sonhada pelo seu fundador José de Alvalade. Com os “Cinco Violinos” em campo os leões foram sempre campeões, degulando no campo de batalha, domingo após domingo, adversários atrás de adversários, fossem eles quem fossem.
A saga destes homens também conheceu alguns episódios na Selecção Nacional, embora sem o sucesso granjeado com a camisola verde-e-branca.

Fernando Peyroteo era talvez a estrela mor dos violinos de Alvalade, o homem que dava as pinceladas finais nas obras de arte criadas pelo quinteto, o mesmo é dizer, o goleador da equipa. Para o grande mestre do futebol português, Cândido de Oliveira, ele era uma máquina de fazer golos. Ao longo da sua carreira fez mais de 500 golos, 529 para sermos mais precisos, sendo que destes 331 (mais 22 do que Eusébio) foram apontados no campeonato. Nasceu em Humpata, Angola, a 10 de Março de 1918, e estreou-se de leão ao peito a 12 de Outubro de 1937 num jogo diante do Benfica onde apontou dois golos, apresentando desde logo o seu cartão de visita. O seu poder de remate (forte e colocado) aliado a um excelente jogo de cabeça fizeram com por seis ocasiões fosse rei dos marcadores do campeonato nacional, e entre muitos outros factos históricos ficam os 9 golos apontados num só jogo ante o Leça.

A completar a orquestra figuarava ainda o “pintor Malhoa”, a alcunha recebida por Vasques, o jogador mais tecnicista da célebre equipa, o elemento mais artístico dos violinos que entre 1946 e 1959 apontou 221 golos pelo seu Sporting. Do Seixal veio o veloz Albano, um criativo senhor de um drible desconcertante que disputou mais de 500 jogos com a camisola dos leões.

Fabuloso foi também o Zé da Europa, ou melhor, José Travassos, um galã que entrava em campo sempre com o seu famoso penteado brilhantina que na qualidade de interior-direito criava obras de arte do outro Mundo que o levariam a tornar-se no primeiro jogador português a representar uma Selecção da Europa, ganhando assim a alcunha de Zé da Europa.

A fechar a orquestra o multifacetado Jesus Correia, que dividia o seu talento pelo futebol e pelo hóquei em patins, sendo que na primeira modalidade o Necas – como era tratado pelos seus colegas de equipa – além de ter apontado mais de 250 golos com as cores do leão fez furor através dos seus magistrosos cruzamentos para o letal Peyroteo.

Nota: texto escrito pelo autor do Museu Virtual do Futebol na Revista Futebolista, na sua crónica de então "Máquina do tempo", em 20 de junho de 2011

Primeiro título internacional do futebol português demorou 265 minutos a ser conquistado!

«Em 20 anos de futebol nunca vi nada assim!», foram as palavras proferidas pelo inglês Ted Smith logo após a esgotante e emocionante final da Taça Latina de 1950 que opôs o Benfica - por si tecnicamente orientado - aos franceses do Bordéus, um duelo que ficou sentenciado ao fim de... 265 minutos! Mais de 4 horas de futebol levadas à cena no palco do Estádio Nacional, que recebeu a 2ª edição de uma competição que a par da Taça Mitropa (competição jogada por clubes da Europa de leste) estaria na génese da Taça dos Campeões Europeus, prova esta que a UEFA implantaria na temporada de 1955/56. Taça Latina que nunca será demais recordar - pelo menos para os mais distraídos - era disputada por equipas de França, Itália, Espanha, e Portugal numa cidade a designar antecipadamente pela organização do certame, tendo em 1950 a escolha recaído em Lisboa, localidade que recebia as equipas do Bordéus, Atlético de Madrid, e Lázio, as quais juntamente com o combinado da casa, o Benfica, procuravam ocupar o torno do Barcelona, clube este que em 1949 havia sido coroado como o primeiro campeão da Taça Latina. E no dia 10 de junho, feriado em Portugal, as equipas do Benfica e da Lázio de Roma sobem ao bem tratado relvado da "sala de visitas" do futebol lusitano, o Estádio Nacional, para dar o pontapé de saída da 2ª edição da competição. Nesse dia, e mercê de uma magnífica exibição, os benfiquistas batem a "squadra" transalpina por expressivos 3-0, com golos de Carmona, Arsénio, e Rogério, todos apontados durante os primeiros 45 minutos. Vitória indiscutível, escreveram os analistas desportivos da época, ante uma Lázio visivelmente afetada pela ausência de alguns dos seus melhores atletas, que, por motivo de doença, haviam ficado "fora de combate". Indiscutível seria também o triunfo dos franceses do Bordéus ante os espanhóis do Atlético de Madrid, por 4-2, duelo ocorrido nesse mesmo dia 10 de junho. Ao contrário do que hoje em dia acontece as grandes competições da altura eram jogadas num curto espaço de tempo, pelo que a decisão da Taça Latina de 1950 foi agendada para o dia seguinte às meias-finais. Esse dia 11 de junho começava com os madrilenos do Atlético a levarem para casa o 3º lugar depois de vencerem uma desoladora Lázio por 2-1. E eis que finalmente Benfica e Bordéus entraram em cena para travar a primeira metade de uma batalha que haveria de ter contornos emocionantes. Os portugueses chegaram facilmente ao 2-0 nos instantes iniciais da contenda, graças à pontaria certeira de Arsénio e Corona. Porém, do outro lado da barricada estava um conjunto de fino retalhe, uma equipa de bom recorte técnico que ainda antes do intervalo daria a volta ao marcador! Seria então na condição de derrotado (2-3) que o Benfica voltaria ao campo para disputar a etapa final da empolgante batalha. Pegando nas rédeas do encontro os benfiquistas dominaram a seu bel-prazer os segundos 45 minutos, acabando por chegar ao justo golo do empate por intermédio de Pascoal. Face a esta igualdade as duas equipas tiveram de enfrentar um prolongamento de 30 minutos, tempo extra onde nada de novo surgiu, pelo que a organização agendou uma finalíssima para uma semana mais tarde.

Golo da vitória chegou aos 143 minutos da finalíssima!

18 de junho foi então o dia do novo confronto, tendo o Estádio Nacional registado uma afluência de 20 000 espetadores, um numero estranho para aqueles dias, já que a média de assistências do campeonato português não ultrapassava os 5 000 espetadores. Mas talvez "enfeitiçados" pelo espetáculo que Benfica e Bordéus haviam proporcionado uma semana estes 20 000 entusiastas terão pensado que as duas equipas pudessem prolongar aquela magia futebolística por mais 90 minutos... no mínimo. E não se enganariam, muito pelo contrário. Os lusos entraram melhor numa finalíssima que iria ficar gravada na "Grande Enciclopédia do Futebol" como um dos jogos mais dramáticos da história, enviando uma bola aos ferros da baliza francesa. Não marcaram os encarnados... marcaram os azuis de Bordéus quando o relógio marcava apenas 11 minutos de jogo. A perder os pupilos de Ted Smith partiram para cima do Bordéus com todas as suas forças e alma, valendo ao emblema gaulês uma soberba exibição do guardião do seu templo, o guarda-redes Astresse. O Benfica ia tentando sem êxito chegar ao golo, e além dos franceses enfrentava agora outro rival de peso, o relógio, que galgava a linha do tempo a um ritmo alucinante. Perante este cenário o público afeto ao Benfica ia perdendo a esperança de ver o seu clube triunfar na prestigiada competição internacional... e quando muitos, com um ar cabisbaixo, já se encaminhavam para fora da catedral do futebol lusitano, Arsénio faz o golo do empate, provocando uma imediata explosão de alegria nos que teimaram em ficar sentados nas bancadas de pedra do Jamor até ao apito final. O relógio marcava 90 minutos! Um golo apontado em cima da linha de meta que levaria as equipas para mais um prolongamento. 30 minutos onde nada se alterou, sendo que segundo os regulamentos da prova teria de ser jogado em seguida um pequeno prolongamento de 10 minutos para se encontrar o vencedor. Teimosamente as equipas permaneceriam empatadas nestes 10 minutos suplementares, pelo que tiveram se de jogar... mais 10 minutos! Também durante este novo período nada de relevante ocorreu no relvado do Jamor que aos poucos ia deixando de ser iluminado pelo sol. A noite espreitava sobre Lisboa numa época em que o principal estádio português não tinha iluminação artificial! E eis que no terceiro período de 10 minutos, numa altura em que os jogadores dos dois conjuntos há muito que tinham ficado sem forças, muitos já nem se mexiam (!), em que jogavam já quase sem luz solar, Julinho apareceu do nada para fazer o 2-1 e acabar de vez com aquela longa maratona futebolística. Já tinham passado 143 minutos (!) desde que o árbitro dera início à finalíssima. Com o apito final a festa estalou. 265 minutos - no total dos dois jogos - haviam sido precisos para coroar o Benfica como a primeira equipa portuguesa a vencer uma competição internacional. O público invadiu o relvado para abraçar os jogadores que já não tinham forças para erguer os braços em sinal de vitória. Um pouco a custo Rogério de Carvalho - também conhecido por Rogério Pipi - subiu a longa escadaria até à tribuna do Jamor para receber a Taça Latina de 1950. Para a história ficam os nomes dos heróis dessa primeira grande epopeia do futebol lusitano: Bastos (guarda-redes), Jacinto, Fernandes, Moreira, Félix, José da Costa, Corona, Arsénio, Julinho, Rogério, e Rosário.

Legenda das fotografias:
1-Rogério Pipi ergue a Taça Latina de 1950 na tribuna do Estádio Nacional
2-Fase do emocionante duelo entre franceses e portugueses

Nota: Texto escrito em 26 de julho de 2012 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

O primeiro rugido do leão!

O sucesso angariado pela 1ª edição do Campeonato de Portugal (21/22) fez com que na temporada seguinte o certame fosse desejado por mais associações regionais, as quais pretendiam ver os seus respetivos campeões lutar pela coroa de rei do futebol português. E em 1922/23 foram 6 as associações inscritas no Campeonato de Portugal dessa temporada, nomedamente as do Porto, Lisboa, Braga, Coimbra, Funchal, e Algarve. Recorde-se que na edição de estreia da competição apenas Lisboa e Porto aceitaram o desafio da União Portuguesa de Futebol (UPF) para dar o pontapé de saída no Campeonato de Portugal, o qual viria a ser arrecadado pelo FC Porto... à custa de um Sporting que em 22/23 viria a conhecer o seu primeiro momento de glória nesta prova. Mas já lá vamos.
Contrariamente ao sucedido em 21/22, em que apenas foi disputada a final entre os campeões regionais de Lisboa e Porto, respetivamente, Sporting e FC Porto, o Campeonato de Portugal de 22/23 conheceu pela primeira vez na sua então curta história de vida algumas eliminatórias antes do desafio final, devido, claro está, ao aumento do número de participantes. Coincidências ou não o que é certo é que os dois finalistas da temporada anterior, e principais favoritos à conquista do ceptro, foram poupados às eliminatórias iniciais!
Sporting de Braga e Académica de Coimbra, respetivamente os campeões das associações de Braga e de Coimbra, mediram forças no Campo do Bessa, no Porto, a 3 de junho de 1923, em jogo alusivo à 1ª eliminatória, tendo os estudantes levado a melhor sobre os seus oponentes, conforme comprova o resultado de 2-1 a seu favor.
Triunfo que permitiu à Académica subir mais um degrau na competição, enquanto que os bracarenses diziam adeus ao sonho de vencer o título. Na ronda seguinte os campeões de Coimbra enfrentaram os campeões do Algarve, o Lusitano de Vila Real de Santo António, um duelo que iria definir o quarto e último semi-finalista da competição, fase onde por isenção já estavam classificados FC Porto, Marítimo, e Sporting. E novamente pela margem mínima - desta feita por 3-2 - os academistas voltariam a fazer mais uma vez a festa, desta vez no Campo Grande, em Lisboa, já que por decisão da UPF todas as eliminatórias da 2ª edição do Campeonato de Portugal - incluíndo a final - seriam discutidas num único jogo, realizado em campo neutro. E chegavamos assim às meias-finais, já com os peso pesados do futebol lusitano em ação.

Casapiano Cândido de Oliveira torna-se leão na final antecipada

Fase essa onde os caprichos do sorteio ditaram um confronto entre os dois finalistas da temporada anterior, FC Porto e Sporting, duelo que desde logo seria rotulado como a final antecipada da competição. Coimbra seria então o palco escolhido para acolher o desafio marcado para o dia 17 de junho desse longínquo ano de 1923. As equipas foram recebidas em ambiente de festa, ou não estivessem numa localidade que vivia - e vive - permanentemente numa atmosfera festiva, graças aos rituais estudantis que dão um colorido diferente à bela cidade beijada pelo (rio) Mondego.
Sob os comandos técnicos do engenheiro luso-alemão Augusto Sabbo o Sporting chegava a esta meia final empolgado com a recente vitória obtida no Campeonato Regional de Lisboa sobre o Casa Pia, por 2-0. Pintada em tons de verde e azul Coimbra foi invadida por largas centenas de adeptos das duas equipas, que lotavam as ruas e cafés da cidade nas horas que antecederam o esperado duelo. Leões que para esta meia final receberam o apoio de alguém que naquela época era já uma pessoa muito especial no futebol português, nada mais nada menos do que Cândido de Oliveira, um dos grandes - senão mesmo o principal - impulsionadores da modalidade em solo lusitano, e que na altura desempenhava as funções de capitão do Casa Pia, o emblema derrotado pelo Sporting na final do Campeonato de Lisboa. Cândido de Oliveira demonstrou não só todo o seu apoio aos vizinhos lisboetas rumo à conquista do Campeonato de Portugal de 1923, como também se disponibilizou para servir de massagista aos jogadores leoninos na meia final diante do campeão da Associação de Futebol do Porto. Solidariedade de vizinhos, por certo! Massajados por Cândido os sportinguistas entraram no Campo dos Bentos dispostos a vingar a derrota da época anterior, e cedo deram mostras disso, na sequência de inúmeras incursões à baliza do portista Lino Moreira. Encostados às cordas os jogadores do FC Porto pouco mais faziam do que ver o seu adversário interpretar de forma magistral o jogo, acabando o minuto 23 por trazer justiça ao que vinha acontecendo no campo de batalha, altura em que João Francisco colocou os leões na frente. Na 2ª parte houve mais do mesmo, o Sporting continuou a dominar o inofensivo rival do norte, e coroando uma exibição soberba o capitão leonino, Francisco Stromp, marcou por duas vezes (aos minutos 56 e 72) e selou o resultado final em 3-0. Score expressivo que até poderia ter sido maior, segundo rezam as crónicas da época, uma vez que o árbitro do encontro, o inglês Rudolf Todd, poupou os portistas de uma humilhação bem maior, ao invalidar dois golos limpos aos sportinguistas por alegados fora de jogo, e perdoando duas grandes penalidades aos campeões da Invicta, sendo que numa delas chamou mesmo o capitão azul e branco, Alexandre Call, aconselhando-o a dizer aos seus companheiros que não cometessem... mais grandes penalidades. Ribeiro dos Reis, outro nome grande do futebol português, que esteve presente no encontro de Coimbra na qualidade de representente da UPF, confessou que ouviu posteriormente o árbitro dizer que perdoou duas grandes penalidades nítidas contra o FC Porto, castigos esses que não havia assinalado porque... era mais bonito ganhar assim!
Na outra meia final a Académica continuava a sua marcha triunfal na prova, e de novo em Lisboa, nesta ocasião no Campo da Palhavã, derrotou o Marítimo por 2-1, graças a dois remates vitoriosos de José Afonso e José Neto.

Viagem caricata termina com o título de campeão em dia de S. João

Sporting e Académica, os guerreiros que iriam lutar entre si pelo título de campeão de Portugal, cuja grande final seria agendada para Faro, localidade situada bem no sul do país... e de difícil alcance! Eram evidentes as lacunas ao nível das vias de comunicação que Portugal possuía por aqueles dias, e chegar desde os grandes centros urbanos situados no litoral até locais como Faro era o "cabo dos trabalhos", uma verdadeira aventura, como comprovam as viagens efetuadas pelas comitivas da Académica e do Sporting. A deslocação dos leões demorou 12 horas!!! Uma eternidade, de facto. Em crónica da época Júlio de Araújo conta os detalhes da caricata e longa viagem do Sporting desde Lisboa até Faro. «No barreiro tomamos a zorra (comboio) do Algarve, que se permite o luxo de carruagens de 1ª classe, sem luz e com insectos vários, cuja presença nos esperta de quando em vez para não esmorecer a cavaqueira. A União (Portuguesa de Futebol), numa possível boa intenção, marcou lugares à razão de 1$80, marcação que um amável revisor informou não ter importância de maior, quando outros sem terem pago os tais 1$80 se apossam dos lugares. A nossa carruagem foi finalmente invadida pelos malteses (adeptos), que de armas, bagagens, cestos e cestinhos sem instalaram tão comodamente, que receámos a morte por asfixia, cheiro a próximo e a queijos quem um deles transportava num cesto». Aventuras e desventuras vividas ao longo de 12 horas, como já foi dito, acabando - por fim - a comitiva leonina por chegar a Faro ao som de morteiros e foguetes - era dia de S. João - com 4 horas de atraso. A comitiva da Académica viveu situação idêntica, acabando por chegar à capital do Algarve quando faltavam apenas 6 horas para o início da grande final. Isto porque era dia de S. João, e foliões como eram, os jogadores estudantes da Académica aproveitavam as longas paragens do comboio nas estações para dar um pézinho de dança nos bailes que "aqui e ali" se desenrolavam! Folia academista que se resumiu apenas aos bailaricos, pois no campo de batalha, isto é, no retângulo de jogo, quem dançou e fez a festa foram os jogadores do Sporting. Sob a arbitragem do farense Eduardo Vieira os sportinguistas venceram com relativa facilidade uma Académica que mesmo tendo dado uma boa réplica não teve armas suficientes para contrariar a supremacia da equipa lisboeta, a qual com 25 minutos de jogo vencia já por 2-0. O primeiro tento surgiu aos 12 minutos, por intermédio do capitão Francisco Stromp, num pontapé forte após passe de Carlos Fernandes. Isto, depois do guarda redes academista, João Ferreira, ter efetuado um bom naipe de espantosas defesas que evitaram que o marcador tivesse sido inaugurado mais cedo. Seis minutos volvidos, na conversão de uma grande penalidade, Joaquim Ferreira faria o 2-0 com que se atingiu o intervalo. Antes da saída para o descanso os leões viram o azar bater-lhes à porta, quando à passagem da meia hora Francisco Stromp abandonou forçosamente o recinto de jogo devido a uma lesão. Na segunda etapa o encontro arrefeceu, poucas ocasiões dignas de sublinhado foram registadas, sendo a exceção o terceiro golo do Sporting, da autoria de Carlos Fernandes, quando estavam decorridos 53 minutos, e de novo na sequência de uma grande penalidade. 3-0, resultado final de uma partida dominada por completo por um enorme Sporting, que até podia ter saído de Faro com uma vitória mais gorda, não fosse a tarde de desatino de Jaime Gonçalves, que desperdiçaria uma série de golos... feitos. Mas pouco interessava, o Sporting havia vencido, e desta forma conquistado o seu primeiro título de campeão de Portugal, o primeiro título nacional conquistado pelos leões, que até então registavam no seu palmarés 4 títulos de campeões regionais de Lisboa.
Naturalmente que depois do jogo houve festa. O jantar juntaria as comitivas das dois clubes finalistas, num espírito de salutar convívio e camaradagem. Os leões ofereceriam uma taça de champanhe aos atletas vencidos, e na resposta o capitão da Académica, Ribeiro da Costa, faria um brinde aos novos campeões de Portugal, felicitando-os pelo triunfo, lembrando depois que o seu clube não se dedicava única e exclusivamente à prática do desporto, apontando a leitura e a adoração ao Deus Baco eram as prioridades dos estudantes de Coimbra! Francisco Stromp agradeceu e em seguida abriu uma sessão de desgarrada que se iria prolongar pela noite dentro.

A figura: Jorge Vieira

É profundamente discutível opinar sobre quem terá sido a grande figura do primeiro título nacional obtido pelo Sporting. Os leões possuiam no seu grupo atletas de notável qualidade, casos do guarda-redes Cipriano dos Santos, Joaquim Ferreira, Portela, João Francisco, Jorge Vieira, ou o lendário capitão Francisco Stromp, jogadores que formavam um grupo muito forte e coeso, como se verificou no trajeto vitorioso leonino neste Campeonato de Portugal de 22/23. O grupo foi mesmo a chave do sucesso, podemos dizer. Mas dentro deste grupo existia quanto a nós um homem que se impunha não só pela sua habilidade na condução do esférico mas sobretudo pelo carisma, e pela forma com que cedo se implantou na equipa principal do Sporting. Falamos de Jorge Vieira, o defesa esquerdo daquele célebre grupo, uma figura nascida em Lisboa nos finais do século XIX (1898) e que aos 16 anos era já titular absoluto da primeira equipa dos leões! O amor pelo Sporting teve início bem cedo, quando aos 9 anos de idade, e pela mão do seu irmão, se deslocou a pé desde Dafundo (zona de Lisboa onde vivia) até ao Campo da Quinta Nova para assistir a um pomposo Sporting - Sport Lisboa (um dos clubes que mais tarde daria origem ao Sport Lisboa e Benfica).
Em 1911 Jorge Vieira vestiu pela primeira vez a camisola do seu amado clube, num encontro de terceiras categorias. O estalar da I Guerra Mundial abriu-lhe as portas da primeira equipa, quando foi chamado a substituir o titular do lugar de defesa esquerdo, o inglês Sander, um engenheiro de telecomunicações que foi forçado a abandonar o Sporting para integrar o exêrcito do seu país no citado conflito bélico. Com apenas 16 anos Jorge Vieira agarrou o lugar, não mais o largando nos 17 anos seguintes! Fez a sua estreia na primeira equipa a 28 de março de 1915, e logo com uma prova de fogo pela frente, já que nesse dia o Sporting enfrentava o Benfica para a decisão final do Campeonato de Lisboa desse ano. 3-1, vitória dos leões, e Jorge Vieira sentia pela primeira vez o gosto de um título conquistado ao serviço do clube do seu coração. Colecionaria mais 6 títulos de camperão regional de Lisboa (em 18/19, 21/22, 22/23, 24/25, 27/28, e 30/31), além do ceptro de campeão de Portugal em 22/23. Fez cerca de 200 jogos com a camisola listada de verde e branco, terminando a sua carreira em 1932.
Mas não só no Sporting a estrela de Jorge Vieira brilhou. A seleção nacional de Portugal também usufruiu do talento do jogador. Ele foi um dos históricos atletas que participou no primeiro jogo internacional da seleção portuguesa, facto (já evocado pelo Museu Virtual do Futebol noutras viagens ao passado) ocorrido a 18 de dezenbro de 1921, em Madrid, diante da Espanha, tendo integrado também a equipa nacional que diante da Itália, a 28 de junho de 1925, obteve a primeira vitória para as cores lusitanas, episódio este também já aqui por nós foi recordado. O ponto alto da carreira internacional da carreira de Jorge Vieira aconteceu em 1928, ano em que defendeu as cores de Portugal no torneio de futebol dos Jogos Olímpicos de Amesterdão, na época a prova futebolística mais importante do planeta ao nível de seleções nacionais.
O conhecimento de Jorge Vieira sobre o jogo era tão vasto que até árbitro de futebol ele foi! E neste campo também a nível internacional ele viveu momentos importantes, como o ocorrido, por exemplo, em outubro de 1921, quando a União Espanhola de Futebol solicita à sua congénere portuguesa a nomeação de um árbitro para dirigir um escaldante Espanha - Bélgica, uma reedição do confronto decorrido um ano antes nos Jogos Olímpicos de Antuérpia, onde os belgas haviam alcançado o título de campeões olímpicos. A UPF aconselhou Jorge Vieira, o qual de pronto aceitou o convite, tendo posteriormente realizado uma exibição condizente com o grau de exigência deste duelo, o mesmo é dizer, que esteve impecável, e a prova disso é que no final do jogo realizado em Bilbao espanhóis e belgas enalteceram a atuação do português, que desta forma se tornava no primeiro árbitro luso internacional. Jorge Vieira viria a falecer a 6 de agosto de 1986.

Nomes e números do Campeonato de Portugal de 1922/23:

1ª eliminatória

Académica - Braga: 2-1

2ª eliminatória

Académica - Lusitano VRSA: 3-2

Meias-finais

Sporting - FC Porto: 3-0

Académica - Marítimo: 2-1

Final

Sporting - Académica: 3-0

24-6-1923, Faro (Santo Estádio)
Árbitro: Eduardo Vieira (Faro)
Marcadores: 1-0 Stromp (12m), 2-0 Ferreira (18m g.p.), 3-0 Ferreira (53m g.p.)
Sporting – Cipriano Nunes; Joaquim Ferreira e Jorge Vieira; José Leandro, Filipe dos Santos e Henrique Portela; Torres Pereira, Jaime Gonçalves, Francisco Stromp cap, João Francisco e Carlos Fernandes. Treinador: Augusto sabbo
Académica – João Ferreira; Júlio Ribeiro Costa cap e Francisco Prudêncio; Joaquim Miguel, Teófilo Esquível e António Galante; Guedes Pinto, Armando Batalha, Augusto Paes, Gil Vicente e José Neto.

Legenda das fotografias:
1-A equipa do Sporting que venceu o primeiro título nacional: Em baixo: Torres Pereira, Jaime Gonçalves, Francisco Stromp, João Francisco Maia, e Carlos Fernandes. No meio: José Leandro, Filipe dos Santos e Henrique Portela. Em cima: Joaquim Ferreira, Cipriano dos Santos e Jorge Vieira
2-Cândido de Oliveira, o grande mestre o futebol português, na altura capitão do Casa Pia, e que na meia final diante do FC Porto desempenhou funções de... massagista do Sporting.
3-O lendário capitão leonino Francisco Stromp
4-Jorge Vieira, um dos maiores símbolos da história do Sporting...
5-... que em outubro de 1921 arbitrou um Espanha - Bélgica, tornando-se assim no primeiro árbitro português internacional
 
Nota: Texto escrito em 12 de outubro de 2012 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Momentos altos da vida da Seleção Nacional...

JOGOS OLÍMPICOS/AMESTERDÃO 1928: A primeira grande aparição da Selecção Nacional de Portugal numa grande competição planetária deu-se em 1928. E fê-lo nos Jogos Olímpicos de Amesterdão (Holanda). Dizer que na época o torneio olímpico de futebol era a maior competição futebolística do Mundo, a qual de quatro em quatro anos juntava as melhores selecções do globo. Isto porque nem o Campeonato do Mundo nem o Campeonato da Europa haviam visto a luz do dia. Vencer os Jogos Olímpicos era o equivalente a vencer um Mundial nos dias de hoje. Daí para ver a importância dada por todo o país à participação lusitana nas olimpiadas de 1928. Chegados a Amesterdão os estreantes portugueses tiveram de ultrapassar uma fase pré-eliminar diante do Chile. Um encontro que não começou nada bem para Portugal, que muito cedo já perdia por 0-2. No entanto, a garra lusa viria ao de cima ainda antes do final da 1ª parte, tendo Vítor Silva e Pepe feito os golos que dariam o empate com que se atingiu o intervalo. Np 2º tempo Portugal continua a brilhar, e o mesmo Pepe e Waldemar Mota fariam mais dois golos que colocariam o resultado final em 4-2 e garantiam o pauramento da selecção para a fase seguinte. Aí o adversário daria pelo nome de Jugoslávia. Duelo esse que chegaria ao fim com mais uma vitória lusa, desta feita por 2-1, com golos de Vítor Silva e de Augusto Silva. A partir daqui o sonho instalou-se na comitiva portuguesa e no povo que ansiosamente lotava as praças das grandes cidades para conseguir apurar os resultados da selecção. Nos quartos-de-final calhou em sorte - ou azar como se viria a confirmar mais tarde - o Egipto. Africanos que dominariam este jogo, o qual terminaria com um triunfo dos egípcios por 2-1, tendo o tento português sido da autoria de Vítor Silva. Apesar de eliminada esta selecção nacional portuguesa jamais será esquecida, pois foi a primeira a levar a uma grande competição mundial a nossa bandeira. Nomes como Vítor Silva, Jorge Vieira, Waldemar Mota, Carlos Alves (o "luvas pretas", tio de João Alves), e o "imortal" Pepe ficarão para sempre gravados a letras de ouro na história do futebol lusitano.CAMPEONATO DO MUNDO/INGLATERRA 1966: É provavelmente a maior epopeia protagonizada por uma selecção nacional numa fase final de uma grande competição futebolística. Poucos são hoje - mesmo os que não eram nascidos na época - que não conhecem a saga dos Magriços de 66, como assim ficou conhecida a maior equipa das quinas de todos os tempos. Pela primeira vez a participar num Mundial Portugal enfrentou a experiente Hungria no seu jogo de estreia, tendo vencido por 3-1, com golos de José Augusto (2) e José Torres. No encontro seguinte nova vitória, desta feita ante a Bulgária, por 3-0, com tentos de Eusébio, José Torres e um auto-golo de Vutsov. Com estes dois resultados os Magriços estavam já apurados, de forma surpreendente para quem inicialmente nada dava por eles, para a fase seguinte. No derradeiro jogo do grupo Portugal enfrentou a selecção mais popular e poderosa do Mundo: o Brasil. Contrariando todas as previsões os bravos portugueses fariam mais uma exibição de luxo e ridicularizaram o Brasil do "rei" Pelé por 3-1, com dois golos de Eusébio e outro de Simões. E nos quartos-de-final veio talvez o jogos mais emotivo de sempre numa fase final de um Mundial: o Portugal - Coreia do Norte. Uma reviravolta impossível de 0-3 para 5-3 conferiu aos portugueses o estatuto de grande surpresa e revelação do torneio. E a Eusébio - que ante os coreanos apontou quatro golos (!) - o título de grande estrela do Mundial de 66. O sonho dos comandados do técnico brasileiro Otto Glória terminou de forma inglória na catedral de Wembley ante a selecção da casa. Inglaterra que venceria então por 2-1 os portugueses e avançavam assim para a grande final. Eusébio marcaria o tento de honra da selecção nesse encontro. A aventura nacional no certame terminaria com a conquista do 3º lugar, após uma vitória ante a ex-União Soviética por 2-1 no relvado sagrado de Wembley na sequência de golos de Eusébio - que para além de estrela-mor do torneio sagrou-se igualmente o melhor marcador. com 9 golos - e José Torres. Por mais anos que passem a nação lusitana jamais esquecerá nomes como Coluna, Simões, Hilário, José Pereira, José Augusto, José Torres e claro está o lendário Eusébio da Silva Ferreira.CAMPEONATO DA EUROPA/FRANÇA 1984: 20 anos depois da saga dos Magriços de 66 Portugal voltava a entrar na alta roda do futebol internacional, desta feita para marcar presença no Europeu de 84. Em França os portugueses brilhariam a grande altura, patenteando grandes exibicões que encantaram a Europa e o Mundo... pois em 1984 o Campeonato da Europa despertava já atenções no Mundo inteiro. Na sua estreia em Europeus Portugal enfrentou os detentores do título continental, a Alemanha Ocidental. Contra todas as previsões - a grande maioria dos teóricos do futebol dava uma vitória fácil para os alemães - a partida terminou empatada a zero! Um pontinho para os "Patrícios", como ficou conhecido o combinado nacional que esteve em França. No jogo seguinte novo empate, desta feita ante a vizinha e nãomenos poderosa Espanha, tendo o golo português, ou melhor, o golaço, sido apontado por Sousa. No jogo do tudo ou nada Portugal bateu a Roménia por 1-0 - golo de Néné - e avançava de forma surpreendente para as meias-finais da prova. Ai esbarrou com a equipa da casa, a forte França liderada pelo mago Platini. Portugal não se amedrontou, e em Marselha fez um jogo memorável, encontrando-se mesmo a poucos minutos do final a vencer por 2-1 (golos de Jordão). No entanto, o azar e a elevada qualidade técnica dos franceses virariam o jogo para um 2-3 final, afastando mais uma vez os portugueses de marcarem presença no jogo mais desejado do torneio. Mesmo assim ficámos com o 3º lugar, um resultado excelente. Gomes, Bento, Álvaro, João Pinto, Carlos Manuel, Sousa, Jordão, e o genial Chalana - eleito posteriormente para o onze tipo desse célebre Europeu - entraram a partir desse momento para o "Olimpo" do futebol de Portugal.CAMPEONATO DO MUNDO/MÉXICO 1986: Foi quiçá o momento mais embaraçoso do futebol português além fronteiras em termos de selecção. Divergências entre jogadores e dirigentes da Federação Portuguesa de Futebol no que concerne a prémios de jogo e outras questões burocráticas fizeram desta uma pobre participação numa fase final. A qualidade do Europeu 84 continuava lá, e a esta juntava-se ainda a estrela-emergente de um jovem de nome Paulo Futre que vinha asssim conferir mais poder à turma nacional. Contudo, nenhuma dessa qualidade foi aproveitada e Portugal saiu pela porta pequena do Mundial ainda na 1ª fase. Mesmo assim começou da melhor maneira. Digamos que foi uma pequena vingança sobre a Inglaterra. Um golo de Carlos Manuel selava um triunfo por 1-0 no jogo de estreia. Estava assim vingada a derrota do Mundial 66 diante dos súbitos de Sua Majestade. Mas a vergonha ainda estava para chegar para as cores nacionais, pois após a derrota com a Polónia (0-1) veio o desaire escandaloso ante Marrocos por 1-3 (golo português a ser aponato por Diamantino). O Mundial acabava da pior maneira para os "infantes" (assim ficou conhecido o grupo que esteve no México 86) seleccionados pelo "magriço de 66" José Torres. Mau de mais para ser verdade...CAMPEONATO DO MUNDO DE SUB-20/ARÁBIA SAUDITA 1989: Depois da vergonhosa campanha do México e dos apuramentos falhados para o Europeu 88 e o Mundial 90 era urgente repensar o futebol nacional. E porque não fazê-lo desde a sua base, isto é, desde os escalões jovens. E assim foi. Contratado um promissor treinador para coordenar todo o futebol jovem português, de nome Carlos Queirós, Portugal conheceu em 1989 o primeiro grande triunfo internacional da sua história, mesmo não sendo esta uma vitória ao nível do escalão sénior. Falamos do título Mundial conquistado na Arábia Saudita, no Mundial de Sub-20 ali realizado nesse ano. Os jovens portugueses venceriam na final, realizada no majestoso King Fahad Stadium, em Ryade, a Nigéria por 2-0, tornando-se desta forma CAMPEÕES DO MUNDO. O país saiu às ruas para festejar efusivamente esta conquista. Estavam assim lançadas as sementes para aquela que viria a tornar-se a Geração de Ouro do futebol português. A geração de Figo, Rui Costa, João Vieira Pinto, Fernando Couto, Paulo Sousa e de tantos, tantos outros que nos anos seguintes dariam tantas alegrias ao nosso povo. Da equipa campeão do Mundo em 89 destacam-se os jogadores João Vieira Pinto, Fernando Couto, Paulo Sousa, Bizarro, Tozé, Abel Silva, Hélio, Paulo Alves, Paulo Madeira, ou Folha.CAMPEONATO DO MUNDO DE SUB-20/PORTUGAL 1991: Mais um momento de ouro para o futebol jovem de Portugal. A FIFA concederia ao nosso país a honra de organizar o Mundial de sub-20 de 1991. Responsabilidade enorme, não só porque organizar um evento destes, aos olhos de todo o Mundo, é uma tarefa árdua, mas sobretudo porque teríamos de defender o título conquistado dois anos antes. E o país, e a selecção, responderam afirmativamente a este desafio. Não só organizamos um grande torneio sob todos os aspectos como acima de tudo sagramo-nos BI-CAMPEÕES DO MUNDO. A "Geração de Ouro" dava mais uma prova do seu valor e o país chorou de alegria na hora de comemorar. No dia da final, entre Portugal e Brasil, o antigo Estádio da Luz registou uma das suas maiores enchentes: 120 mil pessoas!!! 120 mil almas gritaram de alegria após uma sofrida vitória nas grandes penalidades sobre o país irmão: 4-2 (0-0 após prolongamento). Jogadores como Figo, Rui Costa, Peixe, Capucho, Toni, Jorge Costa, ou Paulo Torres saltariam para a grande montra do futebol mundial a partir deste dia.CAMPEONATO DA EUROPA/INGLATERRA 1996: 30 anos depois de ali ter brilhado no Mundial de 1966 Portugal voltava a pisar solo inglês. Desta vez para disputar o Europeu de 1996. Levando na bagagem um misto de experiência e juventude, isto é, a experiência de jogadores mais velhos como Oceano, Rui Correia, Vítor Paneira, Domingos, ou Jorge Cadete, aliada à frescura da "Geração de Ouro" traduzida nos nomes de Figo, Rui Costa, Fernando Couto, João Viera Pinto, Paulo Sousa e Vítor Baía, Portugal - orientado por António Oliveira - seria uma das boas selecções deste torneio. Terminaria a 1ª fase em 1º lugar do seu grupo, após um empate a um golo no jogo inaugural ante a campeã da Europa em título, a Dinamarca, com um golo de outro jovem talento emergente na altura, Sá Pinto; uma vitória por 1-0 ante a Turquia (golo de Fernando Couto); e uma goleada ante a Croácia por 3-0 (tentos de Domingos, Figo e João Vieira Pinto). Os críticos não desdenharam em apontar a turma nacional como a que melhor futebol havia praticado em toda a 1ª fase, tornando-a como tal numa das favoritas à conquista do "caneco". Em má hora o fizeram, pois nos quartos-de-final os frios e calculistas checos e uma desatenção da defesa portuguesa e do seu guarda-redes permitiu a Karel Poborsky marcar quiçá o golo mais genial da sua carreira: à entrada da pequena área aplicou um belo chapéu a Vítor Baía. Os portugueses perderam por 0-1 e diziam adeus ao Europeu que muitos diziam estar a destinado a eles.CAMPEONATO DA EUROPA/BÉLGICA-HOLANDA 2000: Com a "Geração de Ouro" no auge, jogadores como Figo, Rui Costa, ou Fernando Couto actuavam nas melhores equipas da Europa e eram colocados na prateleira dos melhores do Mundo, a juntar a eles notáveis como Vítor Baía - que já havia sido eleito o melhor guarda-redes da Europa -, Jorge Costa, Rui Jorge, Dimas, Paulo Bento, e os novatos (em termos de selecção) Nuno Gomes, Pauleta - que se viria a tornar mais tarde como o melhor marcador de sempre da selecção nacional -, ou Sérgio Conceição o combinado escolhido pelo seleccionador Humberto Coelho encantou uma vez mais o planeta do futebol. Exibições de gala, golos de belo efeito culminaram com 3 vitórias inquestionáveis na fase de grupos, duas delas perante selecções do "outro Mundo". No primeiro jogo assistiu-se a uma reviravolta que fez de certa forma lembrar o jogo de 66 com a Coreia do Norte, sendo que aqui Portugal perdia desde muito cedo com a Inglaterra por 0-2. Foi então que a classe de Figo e companhia veio ao de cima, tendo o mago que na altura actuava no campeonato espanhol apontado um golo fenomenal. Após uma arrancada do seu meio campo bate o inglês Seaman com um remate magistral fora da área. Um golo que correu o Mundo e que ainda hoje é recordado. João Vieira Pinto fez o 2-2 e já na 2ª parte Nuno Gomes faria o 3-2 final. Que grande vitória! No segundo encontro triunfo por 1-0 sobre a Roménia (golo de Costinha) e apuramento alcançado para a fase seguinte. No derradeiro jogo da fase de grupos Humberto Coelho jogou com as reservas e mesmo assim não deixou de humilhar a pobre Alemanha por 3-0 na "banheira" de Roterdão com três golos do talentoso Sérgio Conceição. Nos quartos-de-final nova vitória, desta feita diante da Turquia, por 2-0, com bis de Nuno Gomes. Nas meias-finais o reencontro com um velho inimigo dos relvados, a França, desta feita sem Platini, mas com outra super-estrela chamada Zidane. A revelação Nuno Gomes ainda colocou Portugal na frente mas depois de conseguir o empate a França viria a alcançar a passagem à final já no prolongamento num lance infeliz de Abel Xavier que meteu a mão na bola dentro da área. De nada valeram os duros protestos dos jogadores nacionais, pois Zidane converteria a penalidade e colocava a França (campeã do Mundo em título na altura) na final. Foi pena, pois esta geração merecia bem mais do que o 3º lugar do Euro 2000.CAMPEONATO DO MUNDO/COREIA DO SUL-JAPÃO 2002: Sob o comando de António Oliveira Portugal voltava a marcar em 2002 presença na fase final de um Mundial. E apetece dizer que depois da vergonha do México 86 veio a vergonha do Coreia/Japão 2002. Tidos como um dos candidatos ao título mundial a par de Brasil, Alemanha, Itália, ou Argentina, os portugueses desiludiram e muito e mais do que isso mostraram uma falta de fair-play enorme, envergonhando uma nação inteira. E o desastre começou no primeiro jogo perante os Estados Unidos da América... que ainda antes da meia hora de jogo já esmagavam Portugal por 3-0!!! Um golo de Beto e um auto-golo de um defensor norte-americano não chegaram para afastar a ideia de escândalo. No jogo seguinte a selecção de Oliveira ainda daria um ar de sua graça na sequência de uma goleada aplicada à Polónia por 4-0, com três golos de Pauleta e outro de Rui Costa. Mas foi sol de pouca dura. No jogo decisivo diante da equipa da casa, a Coreia do Sul, a equipa das quinas é derrotada por 0-1 e afastada do Mundial. Pior do que isso seria a indisciplina dos jogadores nacionais, com João Vieira Pinto (JVP) a agredir mesmo o árbitro do encontro. Após este Mundial uma nova revolução na selecção nacional iria surgir com a chegada do treinador brasileiro Luís Felipe Scolari. Jogadores outrora importantes como JVP, Paulo Bento, Pedro Barbosa, Vítor Baía, ou Jorge Costa não mais voltariam a vestir a camisola das quinas.CAMPEONATO DA EUROPA/PORTUGAL 2004: Scolari trouxe uma lufada de ar fresco à selecção. Trouxe disciplina, rigor e acima de tudo humildade.... coisa que havia faltado em 2002. O país engalanou-se para receber o Euro 2004, novos estádios foram construídos para acolher o certame, o povo vestiu-se com as cores nacionais, colocou bandeiras nas janelas, viveu-se uma alegria nunca antes vivida. Scolari reuniu um bom naipe de jogadores, aos veteranos Figo, Rui Costa, Fernando Couto, Pauleta e Rui Jorge juntou a juventude e qualidade de Ricardo Carvalho, Miguel, Paulo Ferreira, Ricardo, Nuno Valente, do luso-brasileiro Deco e de um tal menino prodígio de nome Cristiano Ronaldo. As coisas não começaram bem, com uma derrota no Estádio do Dragão (Porto) ante a Grécia por 1-2, com o golo lusitano a ser apontado por Cristiano Ronaldo. No jogo seguinte, com a Rússia, Scolari colocou em campo a massa humana do FC Porto - que nesse mesmo ano tinha sido Campeão da Europa - composta por Deco, Paulo Ferreira, Nuno Valente, Costinha, Maniche e Ricardo Carvalho em detrimento de Fernando Couto, Rui Jorge ou Rui Costa. A aposta foi ganha e o jogo também: 2-0 aos russos na Luz com golos de Maniche e Rui Costa (entrado na 2ª parte). No jogo decisivo do grupo mais uma prova de união e querer entre os jogadores nacionais, tendo a Espanha pago as favas em Alvalade ao ser derrotada por 1-0 com um golo de Nuno Gomes. Chegados aos quartos-de-final Portugal encontrou a velha conhecida Inglaterra, a qual viria mais uma vez a sofrer aos pés dos bravos lusitanos. Após um empate a dois dolos no final do prolongamento (os tentos nacionais foram da autoria de Postiga e Rui Costa), a selecção venceria (na Luz) os britânicos nas grande penalidades por 6-5, com o guardião Ricardo a defender o último penalty sem luvas! Nas meias-finais (em Alvalade) outra potência da bola tombou aos pés dos portugueses, a Holanda. 2-1, com golos de Cristiano Ronaldo e Maniche colocaram Portugal pela primeira vez numa grande final de um certame de calibre mundial. A oportunidade da "Geração de Ouro", ou parte dela, ganhar algo era única. Pela frente os portugueses tinham a Grécia, a tal equipa que no início da prova pregou aquela pequena partida ao vencer no Dragão. Pois bem, o nosso Europeu acabou como começou: com a vitória grega, desta feita por 1-0. O país chorou dias a fio...CAMPEONATO DO MUNDO/ALEMANHA 2006: O grupo de 2004 manteve-se na sua grande maioria para participar na aventura do Mundial de 2006. "O Brasil da Europa", como Portugal se tornou conhecido nos meandros do futebol mundial, passaria sem problemas a primeira fase da prova, com três vitória tranquilas que demonstravam mais do que a sua superioridade face aos adversários encontrados a qualidade do seu jogo. Angola, por 1-0 no primeiro jogo (golo de Pauleta), Irão, por 2-0 no segundo (golos de Deco e Cristiano Ronaldo), e finalmente no terceiro encontro 2-1 ao México (tento de Simão e Maniche) foram o cartão de visita luso na fase inicial do torneio. Nos oitavos-de-final caiu a Holanda com um tento solitário de Maniche. Na eliminatória seguinte de novo a Inglaterra, ansiosa por uma vingança sobre o combinado luso. Mas pouca sorte tiveram, chegados às grandes penalidades (após um 0-0 no prolongamento) tiveram a mesma sorte, ou azar neste caso, que em 2004 e perderiam por 3-1. Como em 66 Portugal voltava a marcar presença nas meias-finais de um Mundial e não havia um único português que na altura não sonhasse com a taça nas mãos do capitão Luís Figo. Pura ilusão. Se Portugal ao longo da história se havia tornado já no carrasco da Inglaterra em fases finais de Mundiais e Europeus (vitórias nos Euros de 2000, 2004, e nos Mundiais de 1986 e 2006, contra apenas uma derrota no Mundial de 1966) a França - adversária nas meias-finais deste Mundial - sagrava-se por natureza a nossa carrasca. Um golo de Zidane tirou Portugal da final de Berlim, e depopis do Euro 84 e do Euro 2000 a França voltava - numa meia-final - a afastar Portugal de atingir o sonho. Em Estugarda a selecção de Scolari jogava pelo orgulho e pela medalha de bronze, para deste modo igualar o feito dos Magriços em 66 mas em vão, pois a equipa da casa, Alemanha, venceria por 3-1 (golo luso foi de Nuno Gomes) e ficava com o 3º lugar do seu Mundial.CAMPEONATO DA EUROPA/SUÍÇA-ÁUSTRIA 2008: Já sem Luís Figo (que entretanto havia abandonado a selecção após o Mundial 2006) a batuta da equipa da quinas foi entregue ao "maestro" Cristiano Ronaldo. Sobre os seus ombros o atleta eleito no final de 2008 como o Melhor Jogador do Mundo tinha a responsabilidade de conduzir Portugal o mais longe possível... e o mais longe era na mente dos portugueses: serem campeões. Com o grupo reforçado com jogadores da craveira de Bruno Alves, Raúl Meireles, o luso-brasileiro Pepe, Bosingwa, Nani, Quaresma, e o incansável "todo-o-tereno" João Moutinho Portugal começou da melhor maneira a sua participação com um triunfo por 2-0 sobre a Turquia, com golos de Pepe e de Raúl Meireles. No jogo seguinte foi carimbado o passaporte para a fase seguinte na sequência de uma vitória sobre a República Checa por 3-1 - golos de Cristiano Ronaldo, Quaresma e Deco -, estando assim vingada a derrota no Euro 96... No derradeiro jogo derrota com uma das selecções anfitriãs, a Suíça, por 0-2. Após este jogo a "bomba" rebentou: Scolari anunciava que após o Euro 08 deixaria a selecção para aceitar um convite dos milionários do Chelsea. Os jogadores acusaram o desnorte pela notícia que os apanhou de surpresa, de certa forma, e perderiam nos quartos-de-final diante da Alemanha por 2-3, com os golos nacionais a pertencerem a Nuno Gomes (que desta forma se tornava no melhor marcador português em fases finais de Europeus: 4 golos no Euro 00, 1 no Euro 04, e outro no Euro 08) e Postiga. O sonho de conquistar algo grande no futebol sénior ficava mais uma vez adiado.CAMPEONATO DO MUNDO/ÁFRICA DO SUL 2010: Apesar de uma fase de qualificação bastante sofrida, com o apuramento a ser conseguido apenas num play-off com a Bósnia, as espectativas da nação lusitana em torno da sua selecção estava em alta nas vésperas do África do Sul 2010. Em relação à última presença numa fase final de uma grande competição, vulgo o Euro 2008, Portugal apresentou-se no primeiro Mundial realizado em solo africano com muitas caras novas, desde logo a do seleccionador nacional, Carlos Queiróz regressava à turma das quinas para render o "sargentão" Scolari que tão bons resultados havia conseguido com a nossa selecção. A fasquia estava alta para Queiróz, o qual não se intimidou com o desafio que tinha pela frente e à partida para África prometeu o céu à nação. O mesmo era dizer que o objectivo era igualar ou fazer melhor que em 2006, ou seja, chegar às meias-finais ou à final... Mas para lá chegar era preciso superar o "grupo da morte" deste Mundial, o qual era composto pelo gigante Brasil, pela sempre perigosa potência do futebol africano Costa do Marfim, e pelo "bombo da festa" chamado Coreia do Norte. Na estreia ante os africanos um jogo demasiado cauteloso de parte a parte acabou num pobre 0-0: Portugal não havia começado bem, longe disso, mas um ponto na estreia deixava ainda tudo em aberto para o que restava jogar. Seguiu-se o reencontro com a Coreia do Norte, país que em 1966 protagonizou com a selecção lusa um dos mais célebres encontros de futebol em fases finais de Campeonatos do Mundo, o tal do 5-3, com os quatro golos de Eusébio. Pois bem, em 2010 este duelo ficou novamente gravado nos anais da história dos Mundiais graças à goleada que Portugal aplicou aos frágeis asiáticos: 7-0! É verdade, 7-0, números que já não se usam nos dias de hoje, tendo os golos lusos sido da autoria de Tiago (2), Cristiano Ronaldo, Meireles, Simão, Liedson, e Hugo Almeida. A nação entrou novamente em euforia e o senhor que se seguia era o todo poderoso Brasil. Um empate bastava para os dois países irmãos se qualificarem para a fase seguinte... e assim foi. Mais um 0-0, aliás um pobre 0-0 deu o passaporte para os oitavos a ambos. E nos oitavos-de-final Portugal diria adeus ao Mundial após uma derrota mínima por 0-1 com aquela que haveria de se tornar na nova Campeã do Mundo, a Espanha. Uma derrota aceitável, já que os pupilos de Queiróz pouco ou nada fizeram para seguir em frente. No fundo a participação lusitana no África do Sul 2010 deixou algo a desejar, ficou no ar a sensação que com a qualidade de jogadores como Cristiano Ronaldo, Deco, Simão, Ricardo Carvalho, Bruno Alves, Raul Meireles, Pepe, ou Liedson muito mais além se poderia ter ido. Mas qualidade individual só não chega, pois humildade, espírito de grupo, e ambição são ingredientes fundamentais para se vencer em alta competição... e Portugal mais uma vez falhou neste capítulo. E a nação lusitana suspirava por... Scolari.
*CAMPEONATO DA EUROPA/POLÓNIA-UCRÂNIA 2012: A nau lusitana navegou em águas encrespadas no início da fase de qualificação para o Euro 2012 sob o comando de Carlos Queiróz. Um empate caseiro diante do modesto Chipre e uma derrota na gélida Noruega fizeram soar o alerta nas hostes portugueses que de imediato pediram a "cabeça" do homem que em 89 e 91 conduziu os sub-20 portugueses ao título mundial. A juntar às vozes de contestação do povo juntaram-se a de alguns jogadores influentes no combinado luso, que mais uma vez mostravam o seu descontentamento para com o trabalho de Queiróz. Os dirigentes federativos não tiveram outro remédio senão despedir o técnico que havia levado a seleção ao Mundial de África do Sul. Necessitava-se então de um "bombeiro" que pudesse ainda salvar Portugal de uma não qualificação para o Europeu, e a escolha recaiu sobre Paulo Bento, jovem técnico que havia realizado um trabalho de reconhecido mérito à frente do Sporting. Com um ou outro percalço pelo caminho, há boa moda portuguesa, claro está, o que é certo é que Bento conduziu Portugal a uma qualificação mais ao menos... tranquila. Para garantir o passaporte para a Polónia e a Ucrânia no verão de 2012 a seleção das quinas teve de passar por um play-off diante da velha conhecida Bósnia, que sucombiu aos pés de Ronaldo e companhia na sequência de uma pesada derrota - no Estádio da Luz - por 2-6, isto depois de na 1ª mão - realizada em solo bósnio - o reencontro entre as duas seleções - dois anos depois do play-off de acesso ao Mundial 2010 - ter terminado empatado a zero. Com algum sofrimento à mistura Portugal estava de novo na fase final de um Campeonato da Europa. E como sempre vinha acontecendo nas últimas participações lusas em fases finais de grandes competições a fasquia em torno da equipa das quinas era bem alta. Jogadores de qualidade abundavam, o treinador havia conseguido trazer tranquilidade e união ao grupo, e como tal não havia um português que não colocasse Portugal entre os favoritos à vitória. Contudo, os jogos de preparação antes da fase final diriam o contrário. A seleção não se encontrava, jogava mal, perdia, e as grandes estrelas como Cristiano Ronaldo pareciam ter entrado de férias de forma antecipada. O entusiasmo da nação arrefeceu, e ficou ainda mais frio depois de no jogo de estreia no Euro 2012 Portugal ter perdido em Lviv com a Alemanha por 0-1, mesmo não tendo realizado uma má exibição, antes pelo contrário. Para o segundo jogo do grupo, ante a Dinamarca, também em Lviv, os lusos deram o tudo por tudo para dar uma alegria a um país que vivia dias de angústia provocados por uma aguda crise económica. Com uma exibição bem conseguida os selecionados de Paulo Bento vencem os duros dinamarqueses por 3-2, com golos de Pepe, Postiga (que assim marcava em 3 fases finais consecutivas de Europeus, igualando o registo de Nuno Gomes), e de Silvestre Varela. Porém, Cristiano Ronaldo continuava... ausente! Mas por pouco tempo. O astro do Real Madrid calou todos os seus críticos no jogo seguinte, o decisivo duelo com uma Holanda, que no início da competição era apontada como umas das grandes favoritas ao título, mas com duas derrotas nos dois primeiros jogos daquele que foi considerado como o "grupo da morte" deste Europeu se tornou na grande desilusão da prova. Com uma exibição de luxo Cristiano Ronaldo conduziu Portugal a uma vitória incontestável por 2-1 - apontando os 2 tentos lusos -, garantindo a qualificação para a fase seguinte, e mais do que isso voltava a fazer acreditar que era possível Portugal chegar... ao título.
Com esta passagem Portugal tornava-se na seleção que mais vezes havia ultrapassado a fase de grupos em fases finais de Euros, 5 no total, sendo elas 1996, 2000, 2004, 2008, e agora 2012. Os portugueses faziam história!
E nos quartos-de-final, realizados em solo polaco (Varsóvia), os portugueses dominaram por completo uma República Checa que mais não fez do que defender, de modo a tentar retardar aquilo o que com o decorrer do jogo era mais do que inevitável: o golo português. Momento de felicidade que chegou já bem perto do final, e mais uma vez interpretado com mestria pelo mago Cristiano Ronaldo, que com os 2 golos ante a Holanda tornava-se - a par de Nuno Gomes - no melhor marcador português em fases finais dos Europeus. 1-0, vitória justa da melhor equipa em campo, e as meias finais eram uma realidade. Mas tal como 2 anos antes a euforia lusitana foi travada por aquela que era indiscutivelmente a melhor seleção do Mundo, a Espanha, campeã europeia em título - além de campeã mundial -. Os portugueses foram bravos no duelo ante os poderosos vizinhos. Anulando com mestria as pedras bases da "roja" os pupilos de Paulo Bento seguraram o 0-0 até ao final do prolongamento, acabando por ver o sonho de estar presente na final de Kiev fugir-lhes na lotaria das grandes penalidades. "Injustiça, injustiça", gritou Ronaldo no final. E foi, pelo que fez neste Euro Portugal merecia a final, e quem sabe algo mais. Os Deuses do Futebol assim não o quiseram, mas para sempre serão recordadas as magníficas exibições de jogadores como Pepe, Fábio Coentrão, João Moutinho, Nani, e Cristiano Ronaldo. A festa final deste Euro 2012 viria a ser feita pela Espanha, que assim se tornava na primeira seleção do Mundo a conquistar 3 grandes provas internacionais consecutivas: Euro 2008, Mundial 2010, e Euro 2012.  (*Nota: texto escrito em julho de 2012)

David vence Golias

A lendária expressão David contra Golias pairou sobre a 3ª edição do Campeonato de Portugal, disputado na temporada de 1923/24. E tal como na mitológica lenda o pequeno David venceu o gigante Golias, nascendo aqui uma tradição que teria muitos outros capítulos tanto no Campeonato de Portugal como na prova que lhe viria a suceder, a Taça de Portugal, onde as vitórias dos pequenos sobre os grandes clubes era - e continua a ser - rotulada de um triunfo de David contra Golias.
E o primeiro David do futebol lusitano veio do Alagrve, mais precisamente da cidade de Olhão, o berço do popular Olhanense, que nessa longínqua primavera de 24 alcançou o maior feito dos seus 100 anos de vida - festejados precisamente neste ano de 2012 -, o título de campeão de Portugal.
Na edição de 1923/24 do Campeonato de Portugal ficou bem patente a descentralização do futebol português, isto é, mais associações - Porto e Lisboa eram as associações de maior peso - envolveram-se na luta pela conquista do ceptro futebolístico de maior prestígio do país. Entre as associações que faziam a sua estreia estavam as de Santarém, Portalegre, e Viana do Castelo, cujos campeões regionais, respetivamente, Sporting de Tomar, União Portalegrense, e Vianense, se juntavam aos campeões do Porto (FC Porto), Lisboa (Vitória de Setúbal), Coimbra (Académica), Algarve (Olhanense), Funchal (Marítimo), e Braga (Sporting de Braga). Favorito a alcançar a glória? Talvez o FC Porto, poderoso emblema nortenho, recheado de algumas das maiores vedetas do futebol lusitano da época, casos de Tavares Bastos, Norman Hall, Velez Carneiro, Alexandre Cal, entre outros, que dois anos antes haviam ajudado o clube da Cidade Invicta a inaugurar a lista de campeões da jovem competição nacional.
E os portistas confirmariam logo na 1ª eliminatória o teórico favoritismo que sobre si recaía. No tarde de 18 de maio de 1924 o Campo da Constituição, no Porto, encheu-se para presenciar a vitória curta mas justa dos azuis e brancos sobre os estudantes da Académica de Coimbra, por 3-2. Noram Hall e Floreano Ferreira - este último por duas ocasiões - foram os heróis dessa tarde, ao apontar os golos da equipa do norte, que não ganhou para o susto a meio do duelo, altura em que um auto golo de José Mota colocou os academistas a vencer por 2-1. Contudo, o talento dos portistas acabaria por vir ao cima nos instantes finais.
Mais a norte, em Viana do Castelo, houve dérbi minhoto, entre o Vianense e o Braga. Gama seria a grande figura da tarde, já que da sua autoria seriam os dois únicos golos de um encontro que seria ganho pelos vianenses.
O resultado mais desnivelado desta eliminatória inicial seria protagonizado entre duas equipas estreantes. O Sporting de Tomar esmagava em Portalegre o União local por 9-0!
E no derradeiro duelo desta ronda inicial assistiu-se ao início da caminhada triunfal do campeão do Algarve, o Olhanense, neste Campeonato de Portugal de 1923/24. Reunindo um naipe de talentosos jogadores, onde se destacava - claramente - o centro campista Raul Tamanqueiro, os jogadores de Olhão venceram no seu Campo da Padinha o Vitória de Setúbal, o surpreendente campeão de Lisboa - deixando pelo caminho os gigantes do futebol lisboeta Sporting, Benfica e Belenenses -, por 1-0, graças a um tento do capitão Júlio Costa.

Lisboa rendida a Olhão

De forma estranha a União Portuguesa de Futebol decidiu que o embate das meias finais entre Olhanense e Sporting de Tomar haveria de ser disputado em Lisboa, e não na localidade de origem das duas equipas em questão! Tal decisão parece não ter afetado os rapazes de Olhão, que numa autêntica tarde de glória despachariam os seus homólogos de Tomar por expressivos 6-0 (!), deixando rendido ao seu futebol o muito público lisboeta que se deslocou ao Campo Grande para assistir à partida. Belo e Gralho, com três golos cada um na sua conta pessoal, foram os responsáveis da robusta vitória algarvia.
E em Viana do Castelo o FC Porto não ganhou - novamente - para o susto. José Barbosa fez explodir de alegria o Campo de Monserrate, quando colocou o Sport Clube Vianense em vantagem num jogo arbitrado pelo mestre Cândido de Oliveira, que na altura representava, enquanto jogador as cores do Casa Pia. Augusto Freire, verdadeiramente endiabrado, tratou de remar contra a maré, e por duas ocasiões bateu o guardião local Ramiro Pinto, dando assim a volta a um marcador que ficaria selado com o último golo portista, da autoria do luso-inglês Norman Hall.

Marítimo impotente para travar avalanche olhanense

Por caprichos do sorteio o Futebol Clube do Porto apurou-se automaticamente para a final do campeonato após o suado triunfo de Viana do Castelo, sendo que a outra vaga iria ser disputada numa espécie de play-off entre o Olhanense e o campeão da Madeira, o Marítimo, que ficara isento da 1ª eliminatória e da meia final.
Novamente no Campo Grande de Lisboa os campeões da Associação de Futebol do Algarve deram uma nova lição de futebol, de bem jogar, claro está. A sua equipa homogénea e coesa voltou a encantar a multidão, que começava a ficar rendida ao futebol tecnicamente requintado da estrela maior olhanense, Raul Tamanqueiro. Gralho, em duas ocasiões, Belo, Cassiano, e Falcate foram os marcadores dos tentos dos algarvios, que avançavam assim para a grande final, a qual iria ter novamente lugar no anfiteatro do Campo Grande, fazendo com que desta forma a capital portuguesa recebesse pela primeira vez a decisão de um Campeonato de Portugal.

Olhanense confirma favoritismo no encontro final

E eis que chegavámos à célebre tarde de 8 de junho de 1924. O dia da grande final. Uma partida que teve a particularidade de ser presenciada pelo chefe de Estado, o mesmo é dizer o Presidente da República, na época Teixeira Gomes, um algarvio nascido em Portimão amante do desporto - na sua juventude chegou a ser atleta - que "inaugurava" então uma prática que viria a ser comum nas grandes finais do futebol português dos anos e décadas seguintes: a presença da mais alta individualidade da nação no jogo final.
Com as bancadas do Campo Grande bem compostas não foi de admirar que a esmagadora maioria dos adeptos (lisboetas) tomasse partido das cores algarvias, não só pelo encantador futebol que o emblema de Olhão havia praticado ao longo da caminhada até à final, mas sobretudo porque do outro lado estava o rival - para os clubes da capital - do norte, o todo poderoso FC Porto. Portistas que apesar de todo o seu poderio nem eram considerados favoritos a vencer esta final! Como já dissemos, o futebol olhanense maravilhou os criticos da modalidade, que a julgar pelo que haviam visto não tinham dúvidas de que na teoria a balança (da vitória) pendia para os futebolistas algarvios. Teoria que conformaria a prática, pese embora este tenha sido um triunfo de David sobre Golias, pois não podemos sequer comparar a dimensão - e consequente palmarés - que separava os dois clubes.
Arbitrada por Germano de Vasconcelos, de Braga, a final começou da melhor maneira para o "onze" algarvio, que por intermédio de Delfino Graça - outros dos virtuosos jogadores orientados pelo jogador/treinador Júlio Costa - inauguraria o marcador. Emoção e bom futebol de parte a parte foram ingredientes verificados desde o apito incial, e ao quarto de hora os portistas chegariam à igualdade por um dos seus grandes artistas da época, Norman Hall.
Nem dois minutos volvidos e o árbitro bracarense assinalava grande penalidade a favor do FC Porto, a qual seria convertida em golo por Tavares Bastos.
Contudo, estavámos ainda muito longe do términus do encontro, e muita água ainda havia de rolar debaixo da ponte, ou melhor, a magia dos jogadores de Olhão ainda estava por aparecer. Colocada em campo essa magia havia de dar frutos ainda antes do intervalo quando Raul Tamanqueiro converte uma grande penalidade e coloca novamente tudo em pé de igualdade. Este seria o único golo apontado por Tamanqueiro durante esta campanha vitoriosa, um tento que premiava a fenomenal performance ao longo de toda a prova da estrela de Olhão, que para não variar foi o melhor jogador em campo na final do Campo Grande.
E após o intervalo só deu Olhanense. A superioridade dos algarvios foi por demais evidente, controlando de fio a pavio o encontro. Com naturalidade surgiu o 3-2 (da autoria de Gralho, que desta forma se tornava no melhor marcador da equipa, com seis golos), e o 4-2 (por intermédio de Belo). E mais poderiam ter sido, não fosse a excelente exibição do guarda redes portista Borges Avelar.
Após o apito final de Germano de Vasconcelos a festa estalou, do relvado às bancadas a alegria era imensa, o Olhanense acabava de se sagrar campeão de Portugal, David tinha vencido Golias.
Depois do encontro o Presidente da República mandou chamar ao seu camarote todos os jogadores e os árbitros, a todos apertando a mão, ao mesmo tempo que os felicitava, em especial ao astro Raul Tamanqueiro, a quem dirigiu palavras particulares de felicitação.

A figura: Raul Tamanqueiro

Ele foi um dos primeiros génios do então jovem futebol lusitano. Virtuoso médio, com uma genialidade criativa e uma rapidez fora do comum (dizem que era capaz de fintar a própria sombra) ele foi a figura principal do título olhanense de 1924. Raul Soares Figueiredo, o seu nome de batismo, Tamanqueiro (a alcunha que derivava do facto do seu pai trabalhar o ofício de sapateiro) se imortalizou nos campos de futebol que pisou.
Nasceu em 22 de janeiro de 1903, e sobre o seu berço ainda hoje existem dúvidas: terá sido em Lisboa ou em Setúbal? As opiniões dividem-se. Mas dúvidas não existem de que foi em terras setubalenses que deu os primeiros pontapés na bola, chamando de imediato à atenção de diversas figuras ligadas ao futebol daquela época. Uma dessas figuras foi Cândido Ventura, mítico presidente do Olhanense, que não sossegou enquanto não levou aquela "pérola" para o seu clube. Fez a estreia pelo emblema de Olhão a 16 de agosto de 1922, diante do Lusitano de Vila Real de Santo António, num encontro a contar para a Taça Nossa Senhora dos Mártires, em Castro Marim. Diz quem o viu jogar que era um jogador versátil e bastante ágil, e que mesmo sendo de estatura baixa era um excelente cabeceador.
Num tempo em que o futebol não era profissional, pelo menos oficialmente, pois muitos dos jogadores da época recebiam, às escondidas, claro está, ordenados para defender as cores "desde" ou "daquele" clube, Raul Tamanqueiro ganhava a vida como vendedor de peixe nas ruas de Olhão. No Olhanense esteve durante quatro temporadas, e além do Campeonato de Portugal de 1924 venceu ainda dois campeonatos regionais do Algarve, em 23/24, e 25/26.
A sua inolvidável performance no Campeonato de Portugal de 1924 fizeram-no chegar à seleção nacional no ano seguinte, tendo vestido pela primeira vez a camisola das quinas a 17 de maio desse ano, num jogo realizado em Lisboa ante a Espanha (derrota por 0-2).
A sua condição de grande artista da bola em meados dos anos 20 fizeram o Benfica assegurar no verão desse ano de 1925 a sua contratação. Em Lisboa, Tamanqueiro esteve três temporadas, recebendo secretamente dinheiro para jogar, ao mesmo tempo em que era... taxista. E seria no final da terceira temporada - 1927/28 - ao serviço do clube lisboeta que Raul Tamanqueiro iria viver um dos momentos mais importantes e marcantes da sua carreira. O selecionador nacional da altura, o mestre Cândido de Oliveira, chamou-o para representar Portugal no torneio mais importante do Mundo da época, os Jogos Olímpicos. Em Amesterdão, ao lado de lendas como Pepe, Jorge Vieira, Carlos Alves, Vítor Silva, Valdemar Mota, ou António Roquete, seria um dos responsáveis pela magnífica campanha lusitana, que terminou de forma inglória nos quartos de final aos pés do Egito.
Tamanqueiro vestiu por 17 ocasiões a camisola da seleção portuguesa, fazendo-o pela última vez a 23 de fevereiro no Porto, numa vitória (2-0) diante da França.
As saudades do Algarve fizeram-no nesse memorável ano de 1928 voltar para o Olhanense, clube onde jogaria até 1933. Pelo meio ainda deu um salto a Espanha, a Huelva mais precisamente, onde atuou como jogador/treinador do Recreativo. Pendurou as chuteiras em 1933/34, época em que se mudou para o Porto, onde viria a representar o Académico. Depois disso ainda foi treinador de Braga, e de União de Coimbra.
Morreu prematuramente aos 38 anos, de doença incurável, dizem.
O seu filho, Raul Figueiredo, seguiu-lhe as pisadas, chegando a internacional quando defendia as cores do Belenenses, facto que fez com que estes dois homens fossem os primeiros pai e filho a representar a seleção nacional de futebol.

Nomes e números do Campeonato de Portugal de 1923/24:

1ª eliminatória

Vianense - Braga: 2-0

FC Porto - Académica: 3-2

União Portalegrense - Sporting de Tomar: 0-9

Olhanense - Vitória Setúbal: 1-0

Meias finais

Olhanense - Sporting de Tomar: 6-0

Vianense - FC Porto: 1-3

Play-off de apuramento para a final

Olhanense - Marítimo: 5-1

Final

Olhanense - FC Porto: 4-2

Data: 8 de junho de 1924

Estádio: Campo Grande, em Lisboa

Árbitro: Germano de Vasconcelos (Braga)

Olhanense: Carlos Martins; Américo Martins e Falcate; Fausto Peres, Raul Tamanqueiro e Francisco Montenegro; Cassiano, Belo, José Gralho, Delfino Graça e Júlio Costa. Treinador: Júlio Costa

FC Porto: Borges Avelar; Álvaro Coelho e Tavares Bastos; Coelho da Costa, Velez Carneiro e Floreano Pereira; Alexandre Cal, Augusto Freire, Norman Hall, Augusto Ferreira “Simplício” e João Nunes. Treinador: Akos Tezler

Golos: 1-0 (Delfino Graça, aos 3m), 1-1 (Hall, aos 15m), 1-2 (Tavares Bastos, aos 17m), 2-2 (Tamanqueiro, aos 40m), 3-2 (Gralho, aos 67m), 4-2 (Belo, aos 85m)

Legenda das fotografias:
1-Equipa do Olhanense, campeã de Portugal em 1924
2-José Belo em ação, um dos artistas de Olhão
3-Tamanqueiro a cabecear o esférico
4-Noram Hall, um dos grandes jogadores do FC Porto da década de 20
5-A estrela Raul Tamanqueiro
6-A equipa do Sporting de Tomar, que alcançou o resultado mais expressivo da época de 1923/24
 
Nota: Texto escrito em 23 de novembro de 2012 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Em memória de Velez Carneiro

Depois de duas temporadas consecutivas a morar no sul do país o título mais importante do futebol português dos anos 20 e 30 do século XX voltou ao norte, na época de 1924/25. E fê-lo pela mão do emblema mais titulado desta região, o Futebol Clube do Porto, que desta forma enriquecia as suas vitrinas com a sua segunda coroa de campeão de Portugal. Tratou-se de uma conquista muito especial, deveras emotiva, já que na cabeça - e sobretudo no coração - dos jogadores portistas estava gravado o nome de um querido e valoroso companheiro de luta, morto dias antes do início da caminhada triunfal naquela que era já a competição mais popular do futebol lusitano. Velez Carneiro, talentoso atleta do FC Porto que viu a morte bater demasiado cedo à sua porta, na sequência de um ajuste de contas fatal ante um marido atraiçoado...Tragédia ocorrida a 18 de maio desse longínquo ano de 1925, quase duas semanas antes da realização (31 de maio) da 1ª ronda de uma prova alargada a 11 associações de futebol, nomeadamente Porto, Lisboa, Viana do Castelo, Braga, Coimbra, Portalegre, Funchal, Algarve, Aveiro, Santarém, e Beja, estas três últimas a fazerem a sua estreia nestas andanças. No entanto, e em cima do tiro de partida para a corrida ao título os representantes das associações de Santarém e Beja, respetivamente Leões de Santarém e Luso Beja, desistiram da competição, facto que possibilitou ao campeão de Lisboa, o Sporting, avançar imediatamente para as meias-finais, ficando isento das duas primeiras eliminatórias! 
Os restantes campeões regionais - à exceção de FC Porto e Marítimo - entraram então em campo no dia 31, sendo que no Campo do Raio, em Braga, o Sporting local era surpreendido pelos vizinhos minhotos do Vianense por 1-2, com os heróis de Viana do Castelo a darem pelos nomes de Lobo (fez o 0-1), e Gomes (apontou o 1-2).
Em Aveiro, no Campo de S. Domingos, o campeão do distrito, o Sporting de Espinho, sentia algumas dificuldades para derrotar os vice-campeões de Portugal da temporada de 22/23, a Académica de Coimbra. Os estudantes adiantaram-se no marcador por intermédio de Juvenal, tendo a primeira reação dos tigres da Costa Verde surgido dos pés de Simplício, que de grande penalidade repôs a igualdade. O tento da vitória espinhense foi apontado por António Rodrigues.
Massacre foi aquilo que os campeões em título, o Olhanense, fizeram ao Alentejo Football Clube, o campeão regional de Portalegre. No Campo da Padinha, em Olhão, os pupilos de Júlio Costa esmagaram por completo o combinado alentejano por 11-2!!! Destaque para José Gralho, autor de 6 dos 11 tentos dos algarvios.

Futuro campeão entra em ação

A prova conheceu o seu segundo capítulo no dia 7 de junho, com a realização da 2ª eliminatória. No Campo do Covelo, no Porto, a equipa local batia-se com o Vianense para discutir o acesso às meias finais. Portistas que se apresentavam com um novo treinador, o húngaro Akos Tezler, uma aposta pessoal do presidente azul e branco da altura, Domingos Almeida Soares, para substituir o francês Adolphe Cassaigne, o homem que, recorde-se, havia conduzido os rapazes da Invicta ao título de campeão de Portugal três anos antes. Diga-se que a contratação do treinador húngaro foi bastante controversa, já que o seu ordenado de 1000 escudos por mês era para muitos dirigentes e adeptos uma autêntica heresia (!), pois convém não esquecer que o profissionalismo no futebol era algo de absurdo naquele tempo. Pois bem, o que é certo é que esta se revelaria uma aposta ganha do presidente portista, como mais à frente iremos ver.
E o primeiro obstáculo ultrapassado foi pois o Vianense, que no Covelo perdeu por 1-4, tendo os golos do FC Porto sido apontados por Balbino da Silva e Flávio Laranjeira, com dois golos cada um na sua conta pessoal. 
Em Lisboa, no Campo Grande, o Olhanense deu mais uma prova do seu valor, da genialidade dos seus jogadores, ao vencer o Marítimo por 4-2, com Gralho a apontar mais dois golos, ele que haveria de ser o rei dos goleadores desta edição do Campeonato de Portugal, com 8 remates certeiros.

Meia final polémica

Olhanense que haveria de ser afastado da prova na ronda seguinte, isto é, nas meias-finais, pelo Sporting. Um afastamento inglório, e deveras polémico. No Campo Grande o árbitro Mário Simões, da Associação de Futebol do Funchal, foi a figura do encontro, ao levar o leão ao colo até à final! Quiçá querendo fazer justiça pela eliminação dos seus conterrâneos do Marítimo aos pés dos talentosos jogadores de Olhão Mário Simões inventou uma grande penalidade inexistente a favor do Sporting em cima do minuto 90! Na conversão o treinador-jogador Filipe dos Santos fez o único golo da partida, um golo que ficaria eternamente conhecido como o... "golo sombra". No final do jogo os sportinguistas sairam do campo debaixo de uma chuva de... assobios, tendo posteriomente o capitão leonino, Jorge Vieira, vindo a público pedir desculpas ao Olhanense pelo... erro do árbitro! Outros tempos, tempos em que futebol era tratado com cavalheirismo. Nesse mesmo dia 21 de junho, e de novo no Covelo (recinto do vizinho Salgueiros), o FC Porto repetia, ante o Espinho, o resultado aplicado ao Vianense na eliminatória anterior, ou seja, 4-1, com Flávio Laranjeira a fazer de novo o gosto ao pé em duas ocasiões, gesto imitado pelo seu companheiro de equipa Norman Hall.
O FC Porto de Tezler era uma equipa que praticava um futebol-espetáculo, algo que começava a encantar os adeptos dos dragões, os quais pareciam cada vez mais esquecerem-se do ordenado milionário que o técnico húngaro auferia na Invicta.

Repetição da final de 1922... com igual desfecho

Assim sendo FC Porto e Sporting voltavam a encontrar-se na final do campeonato, depois de terem medido forças pela primeira vez em 1922, na edição estreia da competição. Mas a disputa do ceptro nacional de 1925 começou muito antes dos jogadores entrarem em campo. Ambos os clubes gladiaram-se pelo local da final, sendo que os lisboetas queriam que o jogo decisivo fosse jogado ou em Santarém, ou em Coimbra, ao que os portistas responderam que só jogariam em Viana do Castelo! Por decisão da União Portuguesa de Futebol (UPF) venceram os azuis e brancos, isto quando faltavam apenas seis dias para o pontapé de saída do grande jogo! Mas muito ainda havia para fazer, até porque o Campo de Monserrate não reunia as condições necessárias para acolher um duelo daquela importância. Foi então que numa ação relâmpago se fizeram obras de melhoramento do recinto, desde bancadas, passando por tribunas centrais, e até camarotes (!), tudo pelo astronómico valor - para aqueles dias - de 12 contos de réis!
Tudo pronto no dia da final (28 de junho), sendo que dos 5000 lugares disponíveis em Monserrate 3000 eram preenchidos pelos adeptos do FC Porto. Da Cidade Invicta viajaram dezenas de automóveis, e a CP disponibilizou dois comboios especiais que partiram da Estação de S. Bento (no Porto) apinhados de entusiastas portistas. De Lisboa não viajaram mais do que centena e meia de adeptos em auxílio dos leões. Como se não bastasse as opiniões distintas em relação ao local da final, FC Porto e Sporting também discordaram em relação à nomeação do árbitro. Não querendo mais confusões a UPF decidiu nomear um juíz... galego, de seu nome Rafael Nuñez.
E foi pois num autêntico caldeirão azul e branco que se desenrolou o encontro, que teve na equipa nortenha a mais determinada em chegar ao triunfo. Com Velez Carneiro no pensamento os portistas queriam ganhar e dedicar assim o título de campeão ao recém desaparecido companheiro, e nesse sentido partiram com tudo para cima dos lisboetas desde o apito inicial do galego Nuñez. Sem espanto chegariam pois à vantagem aos 14 minutos por intermédio do capitão Hall após uma boa jogada de combinação com João Nunes. Do lado dos portistas destaque igualmente para a exibição do seu guarda-redes, o também húngaro Mihaly Siska, que numa época em que o profissionalismo era proibido chegava ao Porto para desempenhar a função de... mecânico dentista numa empresa de vinhos! Mais uma mentira piedosa do presidente do clube Domingos Almeida Soares, quando confrontado pelos seus pares de Direção dos rumores de que Siska - oriundo do Vasas de Budapeste - vinha para o clube ganhar um ordenado milionário. Soares retorquiu que não, que viera para Portugal para ser mecânico dentista, e que o clube não iria pagar um tostão àquele que mais tarde viria a ser considerado o primeiro grande guarda-redes do futebol português.
Voltando ao jogo da final para dizer que o Sporting ainda reagiu na etapa complementar. Aos 50 minutos Jaime Gonçalves empatou a contenda, mas a tarde era azul e branca. Nove minutos depois Rafael Nuñez assinalou grande penalidade contra os lisboetas, por uma alegada mão na bola de Martinho de Oliveira. Os leões protestaram ferozmente, mas de nada lhes valeu tal manifestação, pois Coelho Costa atirou o esférico para o fundo das redes de Cipriano Nunes. Estava feito o resultado final, 2-1, e tal como em 1922 o FC Porto vencia o Sporting e sagrava-se campeão de Portugal.
Festa rija estalou de imediato em Viana do Castelo, prolongando-se nas horas seguintes ao Porto, enquanto que em Lisboa reinava a... revolta.
O consagrado jornalista Ricardo Ornelas, do jornal Sport de Lisboa, escrevia o seguinte: «A vitória portuense foi merecida porque o FC Porto jogou efetivamente melhor que o representante de Lisboa e porque, a par dessa superiordade técnica, lutou pela vitória com entusiasmo e com alma, e demonstrou, a cada momento da partida, perfeita compenetração do encargo que lhe cabia pela representação da sua cidade. O Sporting, pelo contrário, jogou sem convicção. Saiu do campo vencido por factos que devia desprezar ou esquecer. Inferiorizou-se, deixando-se dominar por factores que lhe deviam dar coragem e ânimo. Preocupou-se com o público, potuense na maioria; influenciou-se com a alma dos adversários e desmoralizou-se com os erros do árbitro...», juíz galego cujo desempenho Ornelas descreveu como «simplesmente bárbaro», numa alusão clara à grande penalidade que originou o golo da vitória portista, castigo máximo que para os leões não teve razão de existir.
Como prémio de vitória os jogadores do FC Porto receberam máquinas Gillete de ouro, oferecidas pela empresa lisboeta (!) João Machado da Conceição e Companhia Lda, representantes da mundialmente afamada fábrica Gillete de Nova Iorque.

A figura: Velez Carneiro

Não jogou um único minuto durante a caminhada triunfal no Campeonato de Portugal de 24/25, é certo, mas foi tão campeão quanto os seus companheiros. Velez Carneiro foi impedido de conquistar o seu segundo título de campeão de Portugal por um marido atraiçoado, que na noite de 18 de maio de 1925 matou o valoroso atleta com um tiro na cabeça. Velez Carneiro nasceu em 1898, e começou o seu percurso futebolístico ao serviço do Sporting de Espinho, clube pelo qual se fez a sua estreia diante do... FC Porto, o seu futuro clube. Ingressou no emblema portuense em 1920, fazendo parte do conjunto que obteve a primeira vitória da história (3-2) sobre o Benfica. Médio ofensivo de gabadas qualidades técnico-táticas Velez Carneiro atingiu o ponto alto ao serviço dos dragões em 1922, altura em que ajudou a equipa a vencer o primeiro Campeonato de Portugal da história. E quando se preparava para arrecadar o seu segundo ceptro nacional foi... morto a tiro. Naquela trágica noite de 18 de maio o jovem jogador de 27 anos conversava com alguns amigos junto a uma das portas do Café Chave d' Ouro. Dele se abeirou posteriormente um indíviduo com cara de poucos amigos, que ao ouvido lhe disse qualquer coisa que mais ninguém terá escutado. Velez avisou os amigos que voltava dali a nada, e partiu pelos Congregados abaixo junto do tal sujeito. Os poucos que testemunharam tal crime terão visto dois homens a discutir vivamente debaixo de um lampião na Travessa dos Congregados, ao que se seguiram alguns empurrões, socos, pontapés, e por fim um tiro, uma bala que atingiu mortalmente - na cabeça - o talentoso futebolista. O assassino era Carmindo Ferreira Duarte, escriturário na empresa Minho e Douro, e ao que parece um marido traído pelos dotes extra futebolísticos de Velez!
O funeral do futebolista (ocorrido no dia 22 de maio) foi imponente, ou não fosse ele um dos ídolos do clube. O Jornal de Notícias desse dia escrevia: «Muito antes da hora marcada para a saída do féretro já o Campo de Jogos da Constituição regurgitava de pessoas. Depois de dar a volta ao campo, o féretro, conduzido pelos jogadores do team de que o finado fazia parte, foi colocado ao centro do campo, mantendo-se o público em silêncio durante cinco minutos, que foram observados religiosamente. Findo este recolhimento que impressionou, a Direcção do F. C. Porto procedeu à colocação da bandeira do seu clube sobre o féretro. O capitão da equipa, Hall, conduzia sobre uma almofada de cetim preto as medalhas oferecidas ao falecido jogador.»

Resultados

1ª Eliminatória

Sp. Braga - Vianense: 1-2

Sp. Espinho - Académica: 2-1

Olhanense - Alentejo FC: 11-2

2ª Eliminatória

FC Porto - Vianense: 4-1

Olhanense - Marítimo: 4-2

Meias-finais

FC Porto - Sp. Espinho: 4-1

Sporting - Olhanense: 1-0

Final

FC Porto - Sporting: 2-1

Data: 28 de junho de 1925

Estádio: Campo de Monserrate, em Viana do Castelo

Árbitro: Rafael Nuñez (Galiza)

FC Porto: Miguel Siska; Júlio Cardoso, Pedro Temudo; Humberto, Coelho da Costa, Floreano Pereira; Augusto Freire, Balbino da Silva, Flávio Laranjeira, Norman Hall, e João Nunes. Treinador: Akos Tezler

Sporting: Cipriano Nunes; Joaquim Ferreira, Jorge Vieira; José Leandro, Filipe dos Santos, Martinho de Oliveira; Torres Pereira, Jaime Gonçalves, Henrique Portela, João Francisco, e Emílio Ramos. Treinador: Filipe dos Santos

Golos: 1-0 (Hall, aos 14m), 1-1 (Jaime Gonçalves, aos 50m); 2-1 (Coelho da Costa, aos 59m)

Legenda das fotografias:
1-Equipa do FC Porto vencedora do Campeonato de Portugalde 24/25
2-Balbino da Silva, autor de dois golos ante o Vianense na 2ª eliminatória
3-Lance do polémico jogo Sporting - Olhanense
4-Outro lance, desta feita da grande final
5-Velez Carneiro
 
Nota: Texto escrito em 7 de janeiro de 2013 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com 

 

Bailinho da Madeira

Surpresa foi - indiscutivelmente - a palavra de ordem da 5ª edição do Campeonato de Portugal, ocorrida em 1926, na sequência do glorioso trajeto percorrido pelo Marítimo, o crónico campeão da Associação de Futebol da Madeira que mais do que vencer o título foi o responsável por uma das maiores humilhações da história do gigante FC Porto! Mas já lá iremos.
Esta edição fica ainda vincada pela acesa - e crescente - rivalidade entre as cidades do Porto e de Lisboa, rivalidade essa nem sempre bonita de se ver em espetáculos desportivos...
Campeonato de Portugal de 1926 que teve mais uma estreia em termos de aderentes, digamos assim, mais concretamente a Associação de Futebol de Vila Real, que se fez representar pelo seu campeão, o Sport Clube Vila Real. Equipa esta cuja sorte nada quis consigo, já que na 1ª eliminatória o azar bateu à porta dos vilarealenses ao colocar-lhes no caminho nada mais nada menos do que o campeão de Portugal em título, o poderoso FC Porto. No Campo do Covelo, a 5 de maio desse ano, os portistas esmagaram os transmontanos por 10-0 (!), sendo de destacar a veia goleadora do capitão de equipa Norman Hall, autor de oito tentos! Balbino da Silva encarregou-se de apontar os outros dois.
Nesse mesmo dia, mas em Lisboa, mediram forças no Campo Grande (recinto do Sporting) os campeões das associações de futebol de Aveiro e de Coimbra, respetivamente o Sporting de Espinho e o União de Coimbra, o vencedor surpresa do regional da cidade dos estudantes. Foi um duelo intenso e de vencedor incerto até bem perto do fim, onde os espinhenses estiveram grande parte do tempo em desvantagem no marcador, acabando, no entanto, já perto do fim, por dar a volta e vencer por 4-3.
Quanto ao Sporting de Braga o destino voltou a colocar-lhe no caminho o seu carrasco das duas edições anteriores, ou seja, o Vianense. Campeões de Viana do Castelo que em 1924 e 1925 haviam - curiosamente - então afastado os bracarenses na 1ª ronda da prova, só que há terceira veio a vingança dos homens da Cidade dos Arcebispos.Um golo solitário de Chelas selou a tal vingança bracarense sobre os vizinhos da Princesa do Lima, que desta forma superavam pela primeira vez a barreira da ronda inaugural.

Em Lisboa, e novamente no Campo Grande, assistiu-se a um dérbi alentejano, entre os campeões das associações de Portalegre e de Beja, respetivamente o Estrela e o Luso. Com arbitragem do lisboeta Ilídio Nogueira foi mais forte o conjunto do Baixo Alentejo, que graças a dois golos de Fausto e Martins avançava para os quartos-de-final.
Por último, entrou em campo o Belenenses, que poucas semanas havia angariado o direito de participar no Campeonato de Portugal em virtude da conquista do seu primeiro título de campeão da Associação de Futebol de Lisboa. Orientados tecnicamente pelo fundador do clube da Cruz de Cristo, Artur José Pereira, os jogadores belenenses não sentiram grandes dificuldades para afastar os Leões de Santarém, conforme traduz a expressiva vitória por 7-2, com destaque para os bis (dois golos) das grandes estrelas dos lisboetas daquela altura, Pepe e Rodolfo Faroleiro.

Belenenses que nos quartos-de-final, disputados no dia 16 de maio, voltou a mostrar o porquê de ter vencido com mérito o dificil Campeonato de Lisboa, onde superrou duros obstáculos, como por exemplo Sporting e Benfica! Não é para todos. Mas voltando ao Campeonato de Portugal, os azuis de Belém aplicaram uma nova goleada, desta feita ao Sporting de Espinho, que saiu do Campo Grande vergado a uma derrota de 1-4.
Mais a norte, no Porto, o crónico campeão local despachava o Sporting de Braga por 3-0, com golos de Balbino da Silva (dois) e Hall, o inglês que haveria de se sagrar o melhor marcador desta edição da prova. E por falar em campeões crónicos, em Setúbal (no Campo dos Arcos) entrou em campo o campeão do Algarve, o Olhanense - isento da 1ª eliminatória -, que iria golear por 5-0 o Luso Beja.

Marítimo humilha o FC Porto!

E chegavámos assim às meias-finais. Eliminatória esta onde de acordo com os regulamentos da União Portuguesa de Futebol (UPF) estava já o campeão da Madeira, o Marítimo, que tal como nas edições anteriores havia escapado às primeiras eliminatórias. Estranha foi a decisão do organismo que tutelava o futebol português em fazer com que o campeão da Associação de Futebol do Porto disputasse a sua meia final em Lisboa, e o campeão da associação da capital lutasse pelo acesso à final em terrenos portuenses! Sem se compreender esta caricata decisão da UPF o FC Porto lá teve de viajar para Lisboa para enfrentar o Marítimo... num ambiente para lá de hostil. No Campo Grande os portistas lutaram contra dois adversários, o conjunto oriundo da Madeira, e o público, afeto aos clubes da capital, que não se cansou de apupar e insultar os jogadores azuis-e-brancos ao longo da partida. Era visível o ódio de estimação que começava a crescer entre os adeptos dos clubes das duas maiores cidades do país, sendo que na memória dos lisboetas estava ainda bem fresca a final do Campeonato de Portugal de 1925, entre o FC Porto e o Sporting, último clube este que segundo a imprensa lisboeta - claro está - saíra prejudicado pela atuação do árbitro galego Rafael Nuñez.
Mas voltando ao duelo do Campo Grande - que estava cheio como um ovo - o que se assistiu ao longo de 90 minutos foi um autêntico vendaval madeirense! Quiçá afetados pela hostilidade do público local os portistas viveram uma tarde de pesadelo, um dos piores momentos da sua história, há que dizê-lo. Foram esmagados - a palavra mais simpática que encontramos para descrever os acontecimentos vividos naquela tarde - pelos madeirenses por 7-1! Sim, sete, e mais poderiam ter sido caso o melhor elementos dos desnorteados portistas não tivesse sido o seu lendário guarda-redes Mihaly Siska. Este resultado impensável causou delírio entre o público da capital, que festejou a vitória do Marítimo como se esta tivesse sido alcançada por um dos seus clubes de eleição.

A imprensa lisboeta também não perdeu - mais uma vez - a oportunidade de empolar este histórico acontecimento desportivo, ou melhor, a celébre tragédia portista. O Ecos do Sport - que deu grande destaque à partida - escrevia: «Esta é a verdade: Siska não foi batido só pelo ataque do Marítimo, mas, sobretudo, pela sua própria defesa. Siska foi o único no grupo do Porto que jogou. Ele teve, na realidade, um trabalho extenuante, porque os avançados da Madeira atiraram ao goal (baliza) quase quando e como quiseram. Assim desajudado qualquer guarda-redes sucumbia. A arbitragem de Ilídio Nogueira (de Lisboa) foi, quanto a nós, muito acertada, não se perturbando ante as ruidosas manifestações do público que, a todo o transe, queria fouls (faltas) contra o Porto».
Na cidade do Porto o resultado foi recebido com choque entre os adeptos do emblema azul-e-branco. Com a vergonha - diante de tamanha derrota - dezenas de sócios portistas rasgaram os seus cartões de associados, calcaram emblemas, queimaram bandeiras, e não pouparam críticas aos seus jogadores, dirigentes, e claro, ao treinador. O elo mais fraco acabou mesmo por ser o húngaro Akos Tezler, que um ano antes havia conduzido os portistas ao título de campeão de Portugal, acabando por ser despedido pouco depois desta trágica eliminatória, ao que parece por ter pedido um... aumento de ordenado após ter sido humilhado pelos rapazes da Madeira!
O rescaldo do jogo ante o Marítimo prolongou-se por mais alguns dias mais, tendo o presidente da Direção do clube da Invicta, Domingos Almeida Soares, saido a terreiro para não só lamentar tamanha derrota mas sobretudo para criticar a hostilidade com que o seu clube foi recebido em Lisboa, lamentando profundamente «a antipatia formidável que o sul mantém pelo norte».

Fundado no ano (1910) da implantação da República o Marítimo construía assim o momento mais sublime da sua ainda curta história de vida. Um momento presenciado por um jovem rapaz de 14 anos, que à socapa havia viajado incógnito no paquete Lima, o barco que transportou os madeirenses até ao continente. Vasco Nunes, o nome deste aventureiro de palmo e meio, que posteriormente contou à imprensa a sua recambulesca história. «Comprei um quilo de bolachas e uma garrafa de groga numa venda onde a minha mãe tem confiança, agarrei nos embrulhos e na trouxa, deitei a correr para o cais, meti-me numa lancha e fui para bordo, onde me escondi debaixo de um beliche. Já o barco tinha levantado ferro, senti-me agarrado pela grenha e pus-me a chorar. Era um criado, um malandro, que me bateu e levou ao comandante. Já o barco ia nas laturas de Porto Santo. Depois levaram-me para 3ª classe, onde os rapazes do Marítimo, sabendo do meu caso, me iam levar de comer. Quando chguei a Lisboa é que foi o diabo. Queríam entregar-me à polícia marítima e chegaram a meter-me no porão, onde tive medo de umas vacas muito grandes que lá estavam. Quem me salvou foi o José Ramos e o Domingos, o capitão do Marítimo. Foram ao comandante e pediram a minha liberdade, dizendo que se responsabilizavam por mim...». De pronto Vasco tornou-se na mascote da equipa, acompanhado de perto a caminhada gloriosa dos verde-rubros no campeonato, em cuja final encontraram os rapazes de Belém, que na meia-final haviam derrotado o Olhanense por uns curtos 2-1.

Final só durou 60 minutos!

A comitiva madeirense teve de fazer um esforço financeiro para permanecer no continente por mais duas semanas (!) até ao jogo da final. Jogo decisivo que a UPF agendou para o Porto, mais precisamente para o Campo do Ameal, propriedade do Progresso. Decisão que fez estalar o verniz entre jogadores e dirigentes belenenses. Cientes da intensa rivalidade entre Lisboa e Porto os homens da Cruz de Cristo receavam ser... mal recebidos na Invicta, e como tal protestaram o palco da final. A UPF fez ouvidos moucos e os belenenses lá foram contrariados para o Porto onde - tal como haviam previsto - foram recebidos com uma cruel hostilidade pelo público portuense. Adeptos estes que, esquecendo a humilhação que o Marítimo havia aplicado ao FC Porto semanas antes, tomaram partido do conjunto da Madeira do príncipio ao fim do jogo ocorrido a 6 de junho.
Os jogadores de Belém entraram no Ameal debaixo de um coro ruidoso de assobios e apupos, ambiente que desde logo os enervou, e condicionaria em grande parte do encontro. O portuense José Guimarães foi o árbitro de um jogo que até começou equilibrado, com luta intensa a meio campo. Com o avançar do relógio, e com os gritos de incentivo ao Marítimo como som de fundo, a partida foi endurecendo, o que favorecia os rapazes da ilha da Madeira, mais resistentes do ponto de vista físico. Madeirenses que aos 35 minutos dispuseram de uma oportunidade sublime para chegar à vantagem, na sequência de uma grande penalidade assinalada a castigar uma falta belenense. Oportunidade que seria desperdiçada, e o encontro lá continuou com o nulo no marcador até ao intervalo. Na etapa complementar o Belenenses entrou melhor, mas seria o Marítimo a chegar ao golo à passagem do minuto 55 por intermédio de José Fernandes, na cobrança de um livre direto.

Cinco minutos volvidos Ramos faria o 2-0, e o Campo do Ameal explodiu de alegria, ao mesmo tempo em que os jogadores lisboetas eram provocados e ridicularizados pelo público ali presente. Belenenses que protestaram vincadamente o segundo golo insular, alegando irregularidades. Augusto Silva, um dos melhores jogadores dos azuis, terá mesmo puxado o braço do árbitro, pedindo-lhe satisfações, ao que este sem mais demora deu ordem de expulsão ao belenense. Augusto Silva recusou-se a sair do campo, e a desordem instalou-se no Ameal. O público continuava a insultar os lisboetas, agora mais do que nunca, e só a intervenção pronta da polícia a cavalo terá evitado males maiores. Augusto Silva continuava a recusar sair do campo, e assim sendo, o árbitro, após consultar os dirigentes da UPF ali presentes, decidiu por encerrar o jogo, e consequentemente atribuir o título de campeão ao Marítimo.
A festa estalou de pronto. Era como se os madeirenses estivessem a jogar em casa! Os lisboetas não calaram a sua revolta, e no dia seguinte a imprensa da capital saia mais uma vez em defesa dos seus: «Caído o verniz da compustura, os facciosos portuenses deram largas ao seu despeito e ao seu rancor a Lisboa, os jogadores do Belenenses tiveram de passar por entre alas de público que os cobriu de vaias, dirigindo-lhes  os insultos mais soazes. Estiveram iminentes vários conflitos...», assim escrevia Ribeiro dos Reis no Sport de Lisboa.
No dia 10 de junho, a comitiva do Marítimo chega finalmente a casa. A ilha da Madeira parou por completo nesse dia para receber de forma apoteótica os seus heróis.

A figura: Norman Hall

O FC Porto pode até ter saído humilhado deste Campeonato de Portugal, mas o seu lendário capitão de equipa da época, Normal Hall, foi a figura da competição. Nasceu em Inglaterra, em finais do século XIX (12 de outubro de 1897), tendo aos oito anos de idade vindo com os seus pais para Portugal, onde iniciaria, tempos mais tarde, a sua brilhante carreira de futebolista no clube do seu coração, o FC Porto. Avançado habilidoso e eficaz Hall cedo se tornou num ídolo da fervorosa massa adepta do clube nortenho.
Em finais de 1919 passou a integrar a equipa principal do clube, sendo que para além de um notável jogador era um verdadeiro cavalheiro. Um gentleman, um exemplo de fair-play, sempre amável com os seus companheiros e cordeal com os adversários. Esta tornar-se-ia na sua imagem de marca. A sua estreia com a camisola do Porto foi histórica. Aconteceu a 4 de abril de 1920, em Lisboa, diante do Benfica, um jogo que os portistas venceram por 3-2, sendo esta a primeira vitória azul-e-branca alcançada no reduto do inimigo do sul.
Era um goleador nato, e a prova disso foram os seus 10 golos apontados neste Campeonato de Portugal de 1926, sendo oito deles no jogo diante do Vila Real. Foi capitão do FC Porto durante várias épocas, e no seu palmarés constam 12 títulos de campeão regional e um de campeão de Portugal (24/25). Despediu-se dos campos de futebol no início da década de 30, e dele ficou a memória de um grande desportista, de um homem honesto, um cavalheiro, portador de uma paixão desmedida pelo seu FC Porto.

Nomes e números do Campeonato de Portugal de 1925/26

1ª eliminatória

Sporting de Espinho - União de Coimbra: 4-3

FC Porto - Vila Real: 10-0

Braga - Vianense: 1-0

Luso Beja - Estrela de Portalegre: 2-0

Belenenses - Leões de Santarém: 7-2

Quartos-de-final

Belenenses - Sporting de Espinho: 4-1

FC Porto - Braga: 3-0

Olhanense - Luso Beja: 5-0

Meias-finais

Marítimo - FC Porto: 7-1

Belenenses - Olhanense: 2-1

Final

Marítimo - Belenenses: 2-0 (final dada por terminada aos 60 minutos)

Data: 6 de junho de 1926

Estádio: Campo do Ameal, no Porto

Árbitro: José Guimarães (do Porto)

Marítimo: Ângelo Ortega Fernandes; António Sousa e José Correia; Domingos Vasconcelos cap, Francisco Lopes e José de Sousa; José Ramos, António Alves, António Teixeira “Camarão”, Manuel Ramos e José Fernandes.Treinador: Ekker

Belenenses: Francisco Assis; Eduardo Azevedo e Júlio Marques; José Almeida, Augusto Silva cap e César Matos; Fernando António, Rodolfo Faroleiro, Silva Marques, José Manuel Soares “Pepe” e Alfredo Ramos. Treinador: Artur José Pereira

 Golos: 1-0 (Fernandes, aos 55m), 2-0 (Ramos, aos 60m)


Legenda das fotografias:
1-Equipa do Marítimo campeã de Portugal
2-Belenenses
3-Lance do jogo entre Marítimo e FC Porto
4-Página do jornal Ecos dos Sports, noticiando a tarde negra dos portistas
5-A capa do citado jornal, ilustrando o quinto golo madeirense
6-Lance do primeiro golo madeirense
7-Lance do segundo tento dos campeões de Portugal de 1926
8-Norman Hall
9-A festa madeirense aquando da chegada do Marítimo à ilha
 
Nota: Texto escrito em 23 de janeiro de 2013 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Nascimento da Associação de Futebol de Lisboa coincide com o único título conquistado pelo primeiro grande clube português

 

Trazido pela mão dos irmãos Pinto Basto em finais do século XIX o futebol em Portugal iniciou a sua curva ascendente no que a popularidade diz respeito nos inícios dos 100 anos que se seguiram, altura em que surgiram os primeiros duelos acesos entre os clubes que iam florescendo a uma velocidade estonteante, duelos que começavam a despoletar nos corações do povo lusitano a paixão por aquele belo jogo nascido em Inglaterra. O primeiro grande centro futebolístico português foi Lisboa, cidade que em finais do século XIX e princípios do século XX viu nascer uma série de clubes que ajudaram a enraizar o jogo na cultura lusitana. Nasceram as primeiras rivalidades clubísticas, os primeiros disputadíssimos torneios, e naturalmente as primeiras lendas dos retângulos de jogo. Contudo, e talvez porque fosse algo novo, a organização foi digamos que o calcanhar de aquiles do jovem futebol português. Nos anos iniciais as regras muitas vezes não eram respeitadas, causando o caos entre clubes, jogadores, e adeptos. Foi preciso esperar até 1910 para que finalmente o futebol fosse estruturado dos pés à cabeça, tendo para isso muito contribuido o nascimento da Associação de Futebol de Lisboa (AFL), a primeira associação do país, e para muitos a primeira entidade reguladora a sério do fenómeno futebolístico luso.
Na viagem de hoje ao passado vamos então recordar as incidências do primeiro Campeonato (regional) de Lisboa organizado pela AFL, e recordar o seu primeiro campeão oficial, aquele que na época era o clube mais bem estruturado do ainda criança futebol nacional.

Como já vimos as competições inter-clubes começaram a surgir um pouco por todos os quatro cantos da capital portuguesa nos inícios do século passado. Esta atividade não era mais do que o resultado dos elevados índices de popularidade que o futebol grangeava na urbe lisboeta. A imprensa começava a dar destaque aos jogos que se desenrolavam aqui e acolá, e com naturalidade surgiram pois os primeiros campeonatos regionais. Em meados de 1906 os principais emblemas lisboetas da época reúnem-se com a intenção de criar um organismo que orientasse e coordenasse uma grande competição. Dessa reunião nasce a Liga Football Association (LFA), o organismo (presidido por Joaquim Costa e secretariado por um tal de José de Alvalade, esse mesmo, o mentor do Sporting Clube de Portugal) que tutela o primeiro campeonato de Lisboa, cujo pontapé de saída foi dado na temporada de 1906/07. Grande dominador do futebol daqueles dias o Carcavelos Club - composto exclusivamente por jogadores ingleses a laborar no Cabo Submarino - conquistou o título, levando a melhor sobre o Benfica, o Lisbon Cricket, e o Clube Internacional de Futebol, popularmente conhecido como CIF.
A arte futebolística dos ingleses do Carcavelos seria vincada nas duas edições seguintes, com a obtenção de mais dois ceptros regionais, sendo que na temporada de 1907/08 o Campeonato de Lisboa passa a ser organizado por uma nova entidade, a Liga Portuguesa de Futebol (LPF), a sucessora da LFA. Januário Barreto, médico de profissão, árbitro, jogador, e ilustre dirigente desportivo - exerceu entre outros cargos o de presidente do Sport Lisboa - foi o primeiro presidente do recém-nascido organismo. Mas a vida da LPF seria curta.

Ainda antes do Benfica colocar em 1909/10 um ponto final no reinado de três anos consecutivos dos ingleses do Carcavelos Club na competição, mosquistos por cordas começaram a surgir em catadupa no seio do futebol lisboeta. Com as rivalidades entre clubes ao rubro, as águas agitavam-se entre adeptos, jogadores e dirigentes. A indisciplina reinava nas relações entre clubes, causadas por queixas contra árbitros, ou decisões da LPF. Os regulamentos raramente eram cumpridos. Os jogadores mudavam de camisola quando bem lhes apetecesse, os clubes desistiam a meio das provas, além de que a segurança não existia numa época em que as rivalidades levavam os adeptos a ultrapassar a fronteira que separa os bons costumes da selvajaria. Tudo isto, ao que se juntou a morte de Januário Barreto, levou a que em 1910 a LPF fechasse portas. O futebol vivia em tumulto, tal como aliás o próprio país, que se encontrava em transição do regimo monárquico para o da república. Tumulto cujo ponto final foi colocado a 23 de setembro desse longínquio 1910, dia em que nasce a Associação de Futebol de Lisboa, a entidade que haveria de dinamizar o futebol associativo em Portugal dali em diante.
AFL que tomou de imediato conta do Campeonato de Lisboa, tendo logo em 1910/11 chamado a si a organização do certame, que iria contar com a participação de sete clubes, nomedamente o CIF, o Benfica, o Sporting, o Campo de Ourique, o Império, o Lisboa Football Club, e o União Belenense. Notava-se a ausência de alguns clubes históricos dos primeiros anos de futebol em Portugal, desde logo os ingleses do Carcavelos Club, que preferiam agora competir apenas em jogos particulares (!), enquanto que emblemas como o Lisbon Cricket e o Gilman desapareciam, tendo os seus valorosos atletas rumado para outras paragens. O CIF, por exemplo, reforçou-se com alguns atletas do Lisbon Cricket, ao passo que o Império recebeu quase toda a equipa (!) do Gilman. A AFL organizou o primeiro Campeonato (oficial) de Lisboa em três categorias: primeiras, segundas, e terceiras, sendo que as duas últimas se equiparavam a uma espécie de campeonatos de reservas.

O primeiro "regional" lisboeta teve início a 13 de novembro de 1910, tendo logo na ronda inaugural surgido uma enorme supresa. O campeão da época anterior, o Benfica, foi derrotado em casa pelo União Belenense, por 2-3 (!), o único desaire dos encarnados liderados pelo seu presidente/treinador/jogador (!!!) Cosme Damião, mas que haveria de ser decisivo nas contas finais. Outro grande candidato ao título que iria tropeçar lá mais para a frente do campeonato era o Sporting, o clube aristocrata da sociedade lisboeta, o clube abastado financeiramente, que tinha nas suas fileiras alguns dos melhores jogadores lusos de então.
Os irmãos Stromp (Francisco e António) eram duas das principais estrelas leoninas, aos quais se juntavam os irmãos Catatau (António Rosa Rodrigues, e Cândido Rosa Rodrigues), responsáveis pela primeira grande traição do futebol lusitano no início do século passado.

Figuras de destaque dos primórdios do Benfica, António Rosa Rodrigues e Cândido Rosa Rodrigues desertaram do clube no final da temporada de 1906/07, rumo ao grande rival Sporting, que os aliciou com... banhos quentes e toalhas lavadas no final de cada jogo/treino (!), mordomias que o então pobre Benfica não possuia. Grande figura daquele Sporting era também Francisco dos Santos, o primeiro emigrante de sucesso do futebol português, a quem o Museu Virtual do Futebol já dedicou longas linhas numa outra visita ao passado. Só para relembrar os mais esquecidos Francisco dos Santos revelou-se como um cerebral médio-ofensivo no Casa Pia, em finais do século XIX, tendo posteriormente respresentado o Sport Lisboa - antecessor do Sport Lisboa e Benfica - antes de rumar ao estrangeiro para estudar... Belas Artes. Primeiro em Paris e depois em Roma, sendo que na Cidade Eterna para fazer face às enormes dificuldades financeiras vivenciadas arranjou emprego como... jogador de futebol. E em boa hora o fez, pois tornou-se de imediato numa referência do jovem calcio transalpino ao serviço da Lázio. No emblema da capital italiana destacou-se então, não sendo de admirar que a braçadeira de capitão lhe fosse entregue logo na primeira época! Foi um dos artistas do primeiro dérbi romano, entre Lázio e Roma, tendo o ilustre (jornal) Gazzetta dello Sport sublinhado que nesse jogo histórico estiveram em evidência dois jogadores... «o jovem Saraceni e o veterano Dos Santos, que com os seus 55 quilos foi, impressionante, dos melhores em campo...». De regresso a Portugal (em 1908) assinou pelo Sporting, ali terminando a sua brilhante carreira de futebolista, antes de se dedicar em exclusivo à atividade de escultor que o haveria de eternizar na História de Portugal.

Mas as estrelas só por si não ganham jogos, e o Sporting encontrou muitas dificuldades ao longo da sua caminhada no primeiro "regional" oficial de Lisboa. Dificuldades criadas sobretudo pelos seus dois maiores rivais, o Benfica, com quem perdeu na 6ª jornada por 5-1, e o CIF, que derrotaria os leões nos dois confrontos realizados, o primeiro (na 5ª jornada) por 1-0, e o segundo na 11ª ronda, por 2-0. Os desaires averbados nas 5ª e 6ª jornadas - diante dos seus principais rivais - ditaram praticamente o afastamento dos sportinguistas da luta pelo título, a qual foi quase de forma exclusiva protagonizada pelo CIF e pelo Benfica. Os duelos entre CIF e Benfica - cuja maior estrela era Cosme Damião - neste campeonato terminaram empatados, um a zero golos (na 2ª jornada), e outro a uma bola (na ronda número oito), pese embora a meta tenha sido cortada em primeiro lugar pelos primeiros, com um total de 22 pontos, contra os 20 dos encarnados.

Desta forma o CIF era assim coroado como o primeiro campeão oficial da AFL. Na última jornada do campeonato um facto caricato ocorreu no embate entre Benfica e Sporting, ocorrido no recinto do Lisboa Football Club, o Campo dos Castelos. A tarde futebolística teve início com uma partida das segundas categorias, cujo vencedor foi o Benfica, por 1-0. O público afeto ao Sporting não terá gostado da exibição do árbitro do encontro, queixando-se sobretudo do golo benfiquista, que segundo os leões teria sido apontado em fora de jogo. O ambiente estava incendiado, e mais ficou quando as primeiras categorias subiram ao retângulo de jogo. O Sporting abriu o marcador, mas logo depois o Benfica restabelece a igualdade em mais um lance... irregular, nas vozes leoninas. Estas sublinham uma carga evidente do marcador do golo benfiquista sobre o guarda-redes da casa, Gastão Pinto Basto. O árbitro do encontro, que por sinal era primo do guardião leonino, e que dava pelo nome de Eduardo Luís Pinto Basto, validou o tento, e a multidão em fúria invadiu o terreno de jogo. As cenas que se seguiram foram o que se pode chamar de um intenso combate de boxe (!) entre benfiquistas e sportinguistas. A AFL homologou a igualdade a uma bola, mas a Comissão de Árbitros não concordou, tendo então sido marcado um novo jogo entre ambas as equipas para 18 de julho de 1911, partida essa à qual o Sporting não compareceu, alegando num comunicado que «os benfiquistas não eram dignos de pisar as suas instalações»!

Bom, mas voltando ao campeão, ao CIF, o clube terminou a temporada de 1910/11 com um total de 10 vitórias alcançadas e apenas dois empates consentidos (ante o Benfica, como já vimos), tendo entre o seu grupo de notáveis jogadores destacado-se nomes como Eduardo Luis Pinto Basto, Merik Barley, W. Sissener, Augusto Sabbo, ou Luis Kruss Gomes. CIF que foi digamos que o primeiro grande clube de futebol em Portugal, sobretudo sob o ponto de vista estrutural, servindo de exemplo para muitos outros clubes que iriam nascer nos anos seguintes. Ligado diretamente aos introdutores do futebol em Portugal, os Pinto Basto, o CIF alcançou assim o único título oficial da sua hoje centenária vida, coincidindo com o nascimento de uma AFL que seria a semente para o crescimento do futebol português no plano organizativo. O exemplo organizativo da AFL deu origem a que mais tarde outras associações de futebol nascessem noutras regiões de Portugal que começavam também elas a ver os seus grupos futebolísticos darem os primeiros pontapés na bola de forma mais séria.

A figura: Eduardo Luís Pinto Basto

Oriundo da família responsável pela introdução do futebol em Portugal Eduardo Luís Pinto Basto foi para muitos a grande figura do primeiro campeonato oficial da AFL. Filho do pai do futebol português, Guilherme Pinto Basto, o homem que em 1884 trouxe de Inglaterra a primeira bola, e que em 1888 organizou o primeiro jogo - facto já mencionado pelo Museu Virtual do Futebol - Eduardo Luís Pinto Basto herdou do seu progenitor a paixão pelo desporto, e pelo futebol muito em particular. Além de jogador, foi árbitro, e dirigente, tendo sido um dos rostos da fundação do CIF. À semelhança do seu pai estudou em Inglaterra, onde teve contato com o belo jogo, e chegado a Portugal colocaria em prática esses conhecimentos, contribuindo e muito para o crescimento do futebol luso. O seu pai, Guilherme Pinto Basto, deu-nos a conhecer o jogo em finais do século XIX, ao passo que Eduardo ajudou a cimentá-lo nos inícios do século XX não só com a organização de jogos e torneios, mas também ao nível da própria estruturação deste fenómeno. Como jogador destingiu-se sobretudo na baliza, tal como o seu pai - mais um ponto em comum entre ambos -, tendo sido um dos primeiros grandes keepers lusos, brilhando com as cores do seu CIF, clube que ajudou a fundar juntamente com nomes sonantes da época como Carlos Villar, ou Joaquim Costa. CIF que foi o primeiro clube português a jogar além-fronteiras, facto ocorrido em 1907, quando os lisboetas foram à capital espanhola bater o Madrid FC - antecessor do Real Madrid - por 2-0. Eduardo Luís Pinto Basto estava na baliza. E na baliza estaria também em 1911 aquando da primeira visita de um clube estrangeiro a Portugal, no caso os franceses do Stade Bordelais, que enfrentaram em Lisboa além do CIF de Pinto Basto, o Benfica e uma seleção da AFL, que na baliza tinha... Eduardo Luíz Pinto Basto. AFL onde esta figura se distinguiu, quer como dirigente, quer como árbitro, tendo sido um dos juízes mais conceituados da época.
Nasceu a 6 de junho de 1886, precisamente dois anos antes do seu pai ter organizado o tal primeiro jogo de futebol em Portugal, nos terrenos da Parada, em Cascais. Faleceu em 1955.  

Números finais do primeiro Campeonato (oficial) de Lisboa 

1-CIF: 22 pontos
2-Benfica: 20 pontos
3-Sporting: 14 pontos
4-Campo de Ourique: 10 pontos
5-Império: 8 pontos
6-União Belenense: 6 pontos
7-Lisboa FC: 4 pontos

Resultados mais dilatados

Benfica - Lisboa FC: 15-0
Sporting - Lisboa FC: 14-0
CIF - Lisboa FC: 12-3
Campo de Ourique - CIF: 0-11

Legenda das fotografias:
1-Clube Internacional de Futebol, o popular CIF, o primeiro campeão da Associação de Futebol de Lisboa (AFL)
2-O notável dirigente desportivo Januário Barreto
3-Um dos primeiros escudos da AFL
4-Cosme Damião, a estrela do Benfica
5-Os irmãos Catatau
6-Jogo entre CIF e Sporting
7-Cosme Damião em ação contra o Império
8-Equipa do Benfica, vice campeã regional de 1911
9-Eduardo Luís Pinto Basto
10-Francisco dos Santos, uma das estrelas do primeiro campeonato da AFL
 
Nota: Texto escrito em 2 de abril de 2013 no blog: www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Nau de Belém chega à terra prometida

Depois de em 1926 ter estado muito perto de lá atracar, a nau de Belém alcançou um ano mais tarde a terra prometida do futebol português. Fundado precisamente oito anos antes (1919) por Artur José Pereira o Belenenses conquistava em 1927 o primeiro grande título de uma história que nas décadas seguintes haveria de ter (outros) inúmeros momentos de glória, os quais haveriam de fazer deste um dos mais populares e laureados emblemas de Portugal. Clube de Futebol "Os Belenenses" que levou então para casa o título de campeão de Portugal num ano (1927) em que aquela que já era a mais importante e querida competição lusitana conheceu profundas remodelações. O certame foi avolumado, isto é, alargado a mais clubes que não os campeões regionais. Inspirados no sucesso da FA Cup inglesa um trio de ilustres figuras do futebol (e do jornalismo desportivo) português daquele tempo, nomeadamente Ribeiro dos Reis, Ricardo Ornelas, e Cândido de Oliveira, propuseram então que mais clubes pudessem competir no Campeonato de Portugal, constituindo para isso uma comissão que traçou o novo regulamento da prova. Regulamento esse que propunha a edificação de um Torneio de Classificação a anteceder o campeonato, torneio esse dividido em 14 grupos espalhados um pouco por todo o país, sendo que os vencedores desses grupos iriam juntar-se a 15 clubes isentos - isenção que era concedida em face da classificação obtida por esses clubes no seio das respetivas associações distritais - e com lugar desde logo garantido na 6ª edição do Campeonato de Portugal. Nestes moldes um dado estava desde logo garantido: a prova nacional iria ter mais jogos, mais cidades envolvidas, e desde logo mais emoção. E assim foi.
A Federação Portuguesa de Futebol (FPF) - que assim passou a chamar-se desde 28 de maio de 1926, deixando para trás a designação de União Portuguesa de Futebol - deu luz verde à ideia dos três jornalistas/dirigentes desportivos e o campeonato arrancou a 6 de março de 1927.
Porém, falar do certame ganho pelo Belenenses obriga também a evocar a palavra polémica. Mais uma vez assistiu-se a uma dura batalha da guerra norte-sul... como iremos recordar lá mais para a frente desta viagem ao passado.

Sob a arbitragem de José Simões, os lisboetas do Império - estreantes na competição, fruto de terem sido um dos 14 vencedores dos grupos do Torneio de Classificação - esmagaram diante do seu público os alentejanos do Luso Beja, por 4-0. Este encontro foi disputado no Campo da Palhavã, recinto que neste mesmo dia assistiu a uma segunda partida da 1ª eliminatória do Campeonato de Portugal de 1927, entre o estreante Barreirense e o campeão de Portugal de 1924, o Olhanense. Barreirenses que foram uma das grandes surpresas do certame, ao apresentarem um futebol alegre e vistoso ministrado por um mestre da tática que havia feito furor num passado recente nos então retângulos lusos de terra batida. Augusto Sabbo, engenheiro luso-alemão profundo entendido dos meandros do belo jogo que em 1923 havia conduzido o Sporting à vitória final do Campeonato de Portugal, mas que problemas financeiros leoninos desviaram em meados de 1926 para o Barreiro, onde reunindo um grupo de operários construiu uma das mais belas equipas da história do emblema da margem sul do Tejo.

Voltando ao duelo entre Barreirense e Olhanense o que se assistiu na Palhavã foi um verdadeiro espetáculo de futebol ofensivo, de parte a parte, com os pupilos de Sabbo a levarem a melhor por 9-4! No plano individual deste hino de ataque às balizas destaque para o olhanense José Belo - um dos artistas do título nacional de 24 - que à sua conta apontou os quatro tentos da sua equipa, e para os operários do Barreiro José Correia, e João Pireza, respetivamente autores de quatro e três dos nove tentos barreirenses.
Mais a norte, em Viana do Castelo, o Campo de Monserrate chorou ao ver os portuenses do Progresso saírem da Princesa do Lima com um magro triunfo de 1-0 no bolso sobre o combinado local, o experiente - nestas andanças - Vianense.
Em Braga, no Campo do Raio, dois estreantes mediram forças, o Boavista e o Clube Galitos (de Aveiro). Fizeram a festa os portuenses graças a um triunfo por três golos sem resposta, com José Rodrigues Chelas a vestir o fato de herói após apontar dois tentos.
Outro histórico emblema da cidade do Porto participou pela primeira vez na mais popular competição nacional, de seu nome Sport Comércio e Salgueiros. A jogar em casa (Campo do Covelo) os salgueiristas golearam o representante da Associação de Vila Real, o Sport Clube Vila Real, por 4-0. Arbitrado pelo guarda-redes do Boavista (!), Manuel Sousa, conhecido no planeta da bola por Casoto, o Salgueiros entrou praticamente a vencer no encontro, quando à passagem do minuto três Fontes deu colorido ao marcador. Na segunda parte brilhou a grande altura Reis, autor dos restantes três golos da tarde (aos 55, 60, e 90m).
No Campo da Quinta Agrícola, em Coimbra, a Briosa - popular alcunha pela qual é conhecida a Académica coimbrã - despachou o Sporting de Espinho por 3-1, com a particularidade de dois dos três tentos academistas terem sido apontados por Albano Paulo, o homem que em 1939 iria conduzir - na condição de treinador - a Académica à vitória na edição de estreia da prova sucessora deste Campeonato de Portugal, a Taça de Portugal.

Pior sorte teve a outra equipa de Coimbra, o União, que em Lisboa saiu da prova vergado a uma pesada derrota aos pés do Casa Pia, por 5-0, tendo Gustavo Teixeira apontado quatro golos! E no Porto o popular Leixões também dava os primeiros passos no Campeonato de Portugal. No (campo do) Covelo os matosinhenses enfrentavam o Sporting de Braga, um habitual combatente nestas frentes, conjunto que levaria para a capital minhota um saboroso triunfo por 3-0, construido durante a etapa inicial, com golos de Cruz (aos cinco minutos) e Gumercindo (aos 20 e aos 42m). E por falar nas cidades de Braga e do Porto dois outros combinados oriundos destas urbes mediram forças entre si nesta ronda inicial. FC Porto e Estrela de Braga, assim se chamavam, tendo os portistas vencido com naturalidade os bracarenses por 11-0! Naturalidade porque a diferença - a diversos níveis - entre ambos os conjuntos era abismal.

No entanto a goleada mais dilatada desta 1ª eliminatória foi alcançada por outra das equipas sensação da prova, o Vitória de Setúbal, o surpreendente campeão regional de Lisboa (!) deste ano de 1927. No Campo dos Arcos (em Setúbal) os sadinos afastaram o Despertar Sport Clube de Beja por expressivos 12-0 (!), sim, uma dúzia de golos, cinco deles apontados por uma das estrelas do combinado orientado pelo inglês Arthur John, de sua graça Octávio Cambalacho.
E em Portalegre entrava em campo um leão financeiramente... moribundo. O gigante Sporting Clube de Portugal passava por uma crise financeira aguda, que - entre outros aspetos - levou à saída do treinador campeão Augusto Sabbo rumo ao Barreirense. A razão desta surpreendente dispensa alude ao elevado ordenado que Sabbo usufruia em Lisboa, 12 contos, que segundo a Direção leonina era incompatível com as finanças de um clube cujo orçamento era de 29 contos. Mesmo debilitado financeiramente o leão - agora treinado pelo seu carismático capitão Jorge Vieira - era ainda aguerrido no plano desportivo, conforme explica o resultado de 7-1 a seu favor sobre o SC Portalegre.
No derradeiro encontro desta eliminatória o futuro campeão entrou em campo. E fê-lo em Santarém, diante dos Leões locais, que por sua vez não tiveram armas para contrariar a superioridade da equipa-maravilha criada por Artur José Pereira, o fundador do clube e agora seu treinador, e onde pontificavam lendas como Eduardo Azevedo, César Matos, Augusto Silva, e um tal de Pepe. No Campo de São Lázaro um festival de futebol de ataque originou um triunfo merecido dos rapazes de Belém, por 9-1. Estava dado o primeiro passo de uma caminhada que iria ser triunfal.

Estreia do Benfica

Concluída a 1ª eliminatória a prova rumou aos oitavos-de-final, que tiveram a sua entrada em cena a 3 de abril. Dia em que entrou em ação o popular Benfica, um dos clubes mais afamados da capital, que fazia a sua estreia na competição. Treinados pelo lendário Ribeiro dos Reis - homem dos 7 ofícios dentro do futebol - os benfiquistas reuniram um bom grupo para atacar o campeonato, e levar o troféu de campeão para o... Montepio Geral! É verdade. Não tendo ainda um espaço para guardar os troféus conquistados os benfiquistas guardavam as suas relíquias no banco Montepio Geral! Outros tempos. No que concerne a nomes sonantes o Benfica de 1927 tinha vários, desde Mário Carvalho, passando por Ralph Bailão, até Raul Tamanqueiro, a grande estrela do Olhanense campeão de Portugal em 1924. No Campo do Raio, em Braga, o Benfica de Tamanqueiro e companhia sofreu a bom sofrer para vencer o Sporting local por 4-3, com os tentos benfiquistas a pertencerem a Pereira Nunes, António Gonçalves, Vítor Hugo, e José Simões.

E foi precisamente nos oitavos-de-final que a polémica vistou o Campeonato de Portugal, envolvendo, curiosamente, dois clubes da cidade do Porto. O primeiro caso aconteceu no Covelo, onde o Salgueiros bateu com a porta após graves erros do árbitro Ramon Folch (de Viana do Castelo) no encontro diante do Vitória de Setúbal. O duelo terminou com o triunfo sadino por 2-0 - golos de Octávio Cambalacho e Soares - mas iria ser mandado repetir após ter-se concluído que o árbitro prejudicou seriamente os salgueiristas. Estes, em forma de protesto, decidiram não comparecer no segundo encontro, pelo que a FPF não teve outro remédio senão atribuir a passagem de eliminatória ao Vitória. A guerra norte-sul, que havia despoletado logo na primeira edição da prova, conhecia aqui mais uma ardente batalha, com os nortenhos a queixarem-se de descriminação em relação aos sulistas.
Mas os combates entre o norte e o sul não se resumiram ao Salgueiros - Vitória de Setúbal. Muito longe disso. A grande polémica do campeonato envolveu o FC Porto e o Belenenses, equipas que se defrontaram no Campo da Palhavã nesta eliminatória, um jogo que para muitos era digno de uma final antecipada. Arbitrado pelo juíz da Associação de Futebol de Beja Doroteo Flecha Rodrigues, o jogo começou de feição aos portistas, que sem se deixarem impressionar pelo ambiente - mais uma vez - hostil que encontraram na capital rapidamente chegaram ao 2-0, com golos de Acácio Mesquita e de um tal de Fridolf Resberg. Último jogador este de nacionalidade norueguesa, e que viera para Portugal para abraçar a carreira de diplomata no Consulado da Noruega no Porto. Reza a lenda que Resberg certo dia passou pelo Campo da Constituição, apresentou-se ao treinador Akos Teszler e pediu para treinar com o clube. Pedido aceite Resberg convenceu os responsáveis azuis-e-brancos, que rapidamente o colocaram na frente de ataque da sua equipa principal, onde fez furor durante algum tempo, até ser chamado de volta para a sua longínqua e gélida Noruega.

Mas voltando aos (tristes) acontecimentos da Palhavã o diabólico Pepe pôs a cabeça em água aos defesas portistas, ao fazer dois golos. Um deles deu mesmo o triunfo ao Belenenses (3-2), uma vitória muito protestada pelos portistas que se queixaram da atuação tendenciosa do árbitro alentejano. Triunfo belenense que só foi alcançado no prolongamento depois de um 2-2 no final do tempo regulamentar. Tento do empate dos rapazes de Belém que surgiu em cima do minuto 90... em claro fora de jogo. Assim evocaram os responsáveis do FC Porto. O árbitro fez vista grossa e surgiu a necessidade de mais 30 minutos de batalha. Não satisfeito com esta pequena ajuda - na voz dos portistas - o árbitro decidiu aplicar o mesmo critério no golo da vitória lisboeta, apontado por Pepe... mais uma vez em nítido fora de jogo. Doroteo Flecha Rodrigues admitiu no final da partida ter errado a favor dos azuis de Belém no que diz respeito a este último tento!
Porém, em resposta às críticas do Porto as gentes de Lisboa - com FPF à cabeça - acusaram o clube nortenho de não cumprir os regulamentos, já que se havia apresentado em campo com três atletas estrangeiros (Mihaly Siska, Norman Hall, e Fridolf Resberg) quando a lei dizia que apenas podiam ser utilizados dois.

Os portistas não calaram a sua revolta e logo após a eliminação tornavam pública carta feroz, a qual dizia o seguinte: «Este campeonato serviu apenas para demonstrar as competências tacanhas a quem o futebol português está entregue. Segundo o seu regulamento nenhum grupo pode alinhar com mais de dois jogadores estrangeiros, mas como entendêssemos que o senhor Norman Hall é moralmente um jogador português, fizemos por intermédio da nossa associação uma exposição à FPF, citando que Norman Hall há 15 anos vem disputando pelo nosso clube os campeonatos do norte e tem sido incluído no grupo representativo da cidade desde 1918, isto é, muito antes da formação da FPF, acrescendo ainda a circunstância de residir em Portugal desde a idade de oito anos. Esta exposição, apreciada e discutida numa reunião do Comité Executivo do Campeonato de Portugal, teve resolução favorável, sendo qualificado o referido senhor Norman Hall como jogador português. Depois de termos jogado e vencido o Estrela de Braga, fomos indicados adversários do Belenenses, para os oitavos-de-final, a realizar em Lisboa. Alinhámos com Norman Hall e depois de uma exibição superior ao nosso adversário e em que o resultado deveria ser de dois golos a um, a nosso favor, o árbitro. senhor Flecha, de Beja, conseguiu, no final do tempo regulamentar, um empate a 2-2. Jogada a meia hora do desempate, fomos mais uma vez prejudicados com uma bola "off-side", que deu o resultado de 3-2 a favor do Belenenses. A arbitragem deste desafio levou-nos a um protesto junto da FPF, protesto que foi acompanhado de 500 escudos e sobre o qual a mesma federação até hoje nenhuma resposta deu, parecendo-nos que nenhuma resolução tomou, visto reconhecer que teria de anular o jogo, em face das declarações do árbitro, que involuntariamente nos tinha tirado uma vitória bem justa». 
Da FPF veio resposta a dizer simplesmente que o FC Porto não havia cumprido a lei ao alinhar com três estrangeiros. Sobre os 500 escudos nem uma palavra!!! E ponto final.

Alguns quarteirões mais à frente, isto é, no Campo Grande, o Sporting Clube de Portugal, do jogador/treinador Jorge Vieira, humilhava a Académica de Coimbra por 9-1, com destaque para os cinco golos de Filipe dos Santos. Mais a norte, no Porto, o Barreirense de Augusto Sabbo continuava a sua caminhada triunfal, sendo que desta feita a vítima deu pelo nome de Boavista Futebol Clube, clube este que no seu reduto - Campo do Bessa - perdeu por 0-2.
A 24 de abril disputou-se no Campo Grande o derradeiro desafio destes oitavos-de-final, o qual colocou frente a frente o Carcavelinhos ao Casa Pia, tendo vencido os primeiros por 3-1. Isento desta eliminatória ficou o detentor do título de campeão de Portugal e crónico campeão da Madeira, o Clube Sport Marítimo.

Campeões em título provam do próprio veneno

E por falar em Marítimo quis o destino que a defesa do título tivesse início com uma reedição da final do ano anterior, ante o Belenenses, que recorde-se, havia sido derrotado pelos madeirenses no Campo do Ameal por 0-2. Este reencontro foi digamos que uma vingança dos pupilos de Artur José Pereira, que diante do seu público, que lotou por completo o Campo do Lumiar, esmagou os campeões da Madeira e de Portugal por claros 8-1! Deram cor à goleada azul Silva Marques (3 golos), Pepe (2), Alfredo Ramos (2), e Augusto Silva. Este jogo fez ainda com que o Marítimo provasse do próprio veneno dado ao FC Porto um ano antes, quando nas meias-finais humilhou os portistas por 7-1. Desta feita foram os madeirenses a saborear uma amarga e pesada derrota!
Nas Amoreiras o Vitória de Setúbal ultrapassava mais um duro obstáculo rumo à final que iria alcançar muito justamente. O Sporting foi um osso duro de roer, mas Octávio Cambalacho, mais uma vez, fez estoirar a festa à beira do (rio) Sado graças a um único golo que derrotou os aparentemente falidos mas aguerridos leões.
Quanto ao eterno rival do Sporting, o Benfica, beneficiou de uma tarde verdadeiramente inspirada do seu avançado Jorge Tavares, autor de três dos cinco golos com que os pupilos de Ribeiro dos Reis afastaram os operários do Carcavelinhos. Por último, o Barreirense, que afastou o Império por 3-1.

Nova polémica nas meias-finais!

Como não há duas sem três polémica voltou a gritar-se a viva voz nas meias-finais do campeonato, disputadas a 15 de maio. Ambos os jogos realizaram-se no Campo do Lumiar, em Lisboa, sendo que no primeiro confronto o Vitória de Setúbal garantiu o passaporte para a final num encontro que só durou 44 minutos! Aníbal José fez o único golo do jogo a favor dos sadinos, que na voz do treinador barreirense, Augusto Sabbo, usaram e abusaram das entradas duras. Comportamento violento a juntar ao aparente irregular golo dos setubalenses ao cair do pano sobre a primeira parte que fez com que Sabbo ao minuto 44 ordenasse que os seus pupilos abandonassem o terreno de jogo em sinal de protesto, pelo que o árbitro lisboeta Ilídio Nogueira não teve outra hipótese senão dar por terminada e nomear os sadinos como os primeiros finalistas do campeonato. Horas mais tarde foi a vez do Belenenses assegurar a presença no jogo mais desejado do ano. Mas para o conseguir os pupilos de Artur José Pereira tiveram de sofrer a bom sofrer para eliminar um combativo Benfica. Com uma igualdade a zero golos no final dos 90 minutos o árbitro Silvestre Rosmaninho viu-se na necessidade de indicar mais 30 minutos de prolongamento, sendo que aqui os azuis de Belém levariam a melhor, com golos de Silva Marques (102 minutos) e Pepe (minuto 115).

 

Belenenses é o novo rei do futebol português em véspera de Santo António!

E foi precisamente no Lumiar que praticamente um mês depois foi disputada a grande final. Jogo decisivo que foi realizado a 12 de junho, a véspera da mais importante festa popular da capital portuguesa, Santo António, a quem - por certo - ambos os intervenientes terão solicitado ajuda divina na entrada para o retângulo de jogo. Tarde ventosa brindava a capital em dia de festa, e seria precisamente o vento um aliado - e um inimigo também - para os dois conjuntos envolvidos na final. Durante o primeiro tempo foi o Vitória de Setúbal a beneficiar da ajuda do vento, embora sem tirar proveito desse fator. Com um futebol apoiado, de passes curtos e desmarcações rápidas, os sadinos foram uma dor de cabeça para o guarda-redes belenense Francisco Assis na etapa inicial. João Santos foi o principal protagonista dos assaltos à baliza azul, desperdiçando de forma incrível - dizem as crónicas da época - um golo feito aos 27 minutos. E como quem não marca por norma sofre o Belenenses - agora jogando com o vento a seu favor - dominou por completo a segunda parte, domínio esse traduzido em golos. O primeiro surgiu por Augusto Silva, aos 63 minutos, a aproveitar da melhor maneira um cruzamento de César Matos, sendo que a machadada final foi dada na entrada para os derradeiros cinco minutos da contenda, graças a um bis de Silva Marques (aos 86 e aos 89 minutos).
O futebol cintilante do Belenenses era assim premiado com o ambicionado título de campeão de Portugal. Era caso para dizer que essa noite de Santo António iria ser duplamente festejada pelos apaixonados adeptos belenenses que na tarde de 12 de junho de 1927 lotaram por completo o Lumiar.

A figura: Pepe

Se tivessemos de escolher os 10 melhores futebolistas portugueses da primeira metade do século XX o seu nome inevitavelmente estaria lá. José Manuel Soares, eternizado no planeta da bola como Pepe, foi a grande figura do Campeonato de Portugal de 1927. A sua genialidade criativa e técnica ficaram bem patentes na caminhada triunfal do Belenenses. Sobre ele já traçámos noutras viagens ao passado longas linhas, e a sua memória repousa na vitrina das lendas deste Museu Virtual do Futebol. Aproveitando a vitória do Clube de Futebol "Os Belenenses" na principal prova portuguesa repescamos para este texto algumas das linhas biográficas por nós desenhadas aquando dessa visita a um menino que morreu cedo demais!
Ele foi um dos primeiros génios do futebol português como consequência natural da sua veia artística com a bola. Cedo se tornou num ídolo para a massa adepta lusitana que ia tendo o primeiro contacto com o belo jogo. Com dribles diabolicamente desconcertantes, com passes magistrais, ou com golos inimagináveis ele ganhou por direito próprio um lugar no Olimpo dos Deuses do futebol. A 30 de janeiro de 1908 no seio de uma família pobre de Belém (Lisboa) nasce aquele que viria a ser um dos maiores ídolos do futebol português na década de 20 do século passado.

A infância de José Manuel Soares foi pois de profunda miséria, sendo que a única alegria dos meninos daquele tempo era única e simplesmente a bola de futebol. E foi a jogar futebol na rua com uma bola de trapos que Pepe – alcunha que surgiu numa época em que a sua condição no desporto rei era já a de um talento confirmado – descobriu a sua vocação. Como tal ainda com tenra idade ingressa no clube da sua zona, o Belenenses, o emblema gravado no seu coração, sendo que com apenas 15 anos (!) é inscrito no Campeonato de Lisboa.
Não demoraria muito a sua ascensão até à equipa principal, a qual se daria um ano depois (1926) num confronto ante o Benfica no Campo das Amoreiras, duelo que terminaria 5-4 a favor do Belenenses, tendo Pepe apontado o golo do triunfo do seu clube. A sua exímia técnica aliada à sua velocidade estonteante e ao seu poderoso remate patenteados dali em diante fizeram com que fosse aclamado como o rei do futebol português.

De um dia para o outro Pepe tornou-se na alegria do povo. Em Belém, a zona onde continuava a residir numa pobre casa situada na Rua do Embaixador, não havia um único dia em que o seu nome fosse pronunciado com entusismo e vaidade. Mesmo sendo por aquela altura o habitante mais famoso de Belém o menino Pepe continuava humilde e... pobre, sim, porque o futebol não passava de uma brincadeira. Para ajudar a sua família foi trabalhar ainda moço para uma oficina de torneiro, para mais tarde passar a laborar no Centro de Aviação Naval. De aspecto franzino o menino que todos os dias levava para o emprego um triste caldo para retemperar forças fazia magia nos campos de futebol em cada fim-de-semana com as cores do seu Belenenses. Carregou os azuis de Lisboa às costas nas conquistas dos campeonatos de Portugal de 1927 e 1929, bem como noutros tantos campeonatos de Lisboa. Entre 1928 e 1931 sagra-se naturalmente o melhor marcador do campeonato lisboeta, sendo que na temporada de 30/31 estabelece um recorde de 36 golos apontados em 14 encontros disputados! Para a história, nessa mesma época, faz 10 dos 12 golos com que o Belenenses bate o Bom Sucesso.


Ele foi um dos notáveis que integrou o selecionado português na primeira grande aparição deste numa competição à escala mundial: os Jogos Olímpicos. 1928 é o ano que assinala esse feito, ano em que Portugal fica às portas de uma medalha nas Olímpiadas de Amesterdão.
Mas nem só o Belenenses tirou partido do génio de Pepe, a própria seleção nacional também lhe fica a dever muitas vitórias e momentos inolvidáveis. Por 12 ocasiões ele vestiu a camisola das quinas, tendo com ela apontado sete golos.

Consagrado a nível nacional e internacional a estrela de Pepe deixou de brilhar cedo, cedo demais, diria mesmo. Num dia como tantos outros o astro de Belém carrega na fria manhã de 24 de outubro de 1931 o almoço preparado por sua mãe. Almoço é maneira de dizer, pois no bolso levava somente uma triste sande de chouriço que tinha sobrado do jantar da véspera. Chegada a pausa para o repasto Pepe leva o alimento à boca e horas depois é dado como morto no Hospital da Marinha, local para onde foi transportado assim que começou a sentir violentas dores abdominais e a ter hemorragias. Morreria às 10h30 da manhã, com apenas 23 anos... e um futuro – com toda a certeza – risonho ficou por percorrer.

As causas da morte muita tinta fizeram correr nos dias seguintes. Houve quem tivesse apontado ao assassinato... por invejosos do seu valor e popularidade. O envenenamento contudo não ficou senão a dever-se a um lapso – fatal – de sua mãe, a qual em vez de colocar bicarbonato de sódio na refeição colocou potassa, substância que iria destruir por completo o estômago do atleta. Mãe e irmãs de Pepe que também haviam ingerido igual refeição, no entanto conseguiram escapar com vida, aparentemente por terem ingerido uma menor quantidade.
Pepe morreu e o país chorou dias a fio. O seu funeral foi uma prova colossal do carinho que o povo tinha por ele... 30.000 pessoas prestare-lhe uma última homenagem.

Nomes e números do Campeonato de Portugal de 1927

1ª eliminatória

Império - Luso Beja: 4-0

Vianense - Progresso: 0-1

Barreirense - Olhanense: 9-4

Boavista - Galitos: 3-0

Salgueiros - Vila Real: 4-0

Vitória de Setúbal - Despertar: 12-0

Académica - Sp. Espinho: 3-1

SC Portalegre - Sporting: 1-7

Leixões - Braga: 0-3

Casa Pia - União de Coimbra: 5-0

Leões de Santarém - Belenenses: 1-9

Estrela de Braga - FC Porto: 0-11

Oitavos-de-final

Império - Progresso: 7-0

Boavista - Barreirense: 0-2

Salgueiros - Vitória de Setúbal: 0-2

Sporting - Académica: 9-1

Braga - Benfica: 3-4

Carcavelinhos - Casa Pia: 3-1

Belenenses - FC Porto: 3-2

Quartos-de-final

Barreirense - Império: 3-1

Vitória de Setúbal - Sporting: 1-0

Benfica - Carcavelinhos: 5-0

Belenenses - Marítimo: 8-1

Meias-finais

Vitória de Setúbal - Barreirense: 1-0

Belenenses - Benfica: 2-0

Final

Belenenses - Vitória de Setúbal: 3-0

Data: 12 de junho de 1927

Estádio: Campo do Lumiar, em Lisboa

Árbitro: João dos Santos Júnior (lLisboa)

Belenenses: Assis, Eduardo Azevedo, Júlio Marques, Joaquim Almeida, Augusto Silva, César Matos, Fernando António, Alfredo Ramos, Silva Marques, Pepe, e José Luís. Treinador: Artur José Pereira

Vitória de Setúbal: Artur Augusto, Francisco Silva, Isidoro Rufino, Augusto José, Aníbal José, Matias Carlos, Eduardo Augusto, João dos Santos, Octávio Cambalacho, Armando Martins, e Nazaré. Treinador: Arthur John

Golos: 1-0 (Augusto Silva, aos 63m), 2-0 (Silva Marques, aos 86m), 3-0 (Silva Marques, aos 89m)

Legenda das fotografias:
1-Belenenses, o campeão de Portugal em 1927
2-Lance do jogo entre Barreirense e Olhanense
3-João Pireza, uma das estrelas do Barreiro
4-Sporting de Braga
5-Octávio Cambalacho, o goleador do Vitória de Setúbal em 1927
6-Equipa do Benfica, que fez a estreia no Campeonato de Portugal
7-O norueguês do FC Porto, Fridolf Resberg
8-Pepe tenta bater o guarda-redes portista Siska
9-Norman Hall, o seu nome haveria de causar polémica neste campeonato
10-O treinador Augusto Sabbo
11-Fase do jogo entre Vitória de Setúbal e Sporting
12-Primeira página do Eco dos Sports a noticiar o triunfo belenense na final
13-Pepe, a estrela de Belém...
14-...em ação...
15... e levado em ombros pela multidão

Nota: texto escrito em 22 de maio de 2013 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Há 100 anos a Académica conquistava o seu primeiro título numa competição pintada em tons de... azul e branco!

Assinala-se em 2013 o centenário da conquista do primeiro título oficial da popular Associação Académica de Coimbra. Um triunfo alcançado naquela que ainda hoje é tida como a primeira grande competição jogada a norte do (rio) Mondego. A Taça Monteiro da Costa, ou na voz de muitos, o primeiro Campeonato do Norte. Mas antes de recordarmos a façanha dos estudantes no longínquo ano de 1913 tornar-se-á impiedoso conhecer o início da história de uma prova cuja grande maioria dos seus capítulos se escreveu em tons de azul e branco. Precisamente as cores do FC Porto, o clube refundado em 1906 pelo homem que esteve na génese desta competição, José Monteiro da Costa, o seu nome.
Horticultor, tal como o seu pai, e membro da União de Jardineiros do Porto, José Monteiro da Costa deixara-se enfeitiçar pelo football em Inglaterra, para onde fora estudar - tal e qual outros tantos jovens portugueses, filhos de famílias aristocráticas que enquanto estudantes travaram conhecimento com o belo jogo nascido na Velha Albion. Viajando por outros países da Europa - França, ou Espanha - aprimorou o gosto - e o entendimento pelas regras - da modalidade, e na hora de regressar a casa partilhou com os seus velhos amigos que noutros pontos do Velho Continente havia descoberto o... futuro, futuro esse que se chamava football. Estes, empolgados com as histórias do amigo viajante, não tiveram dúvidas em segui-lo na ideia de criar um grupo que se dedicasse ao pontapé na bola. Não muito tempo depois funda-se o Grupo do Destino, composto por liberais, repúblicanos, foliões, cujo amor comum chamava-se agora football.
Vasculhando a curta história futebolística da sua cidade - que além do Grupo do Destino era interpretada apenas pelos grupos ingleses do Oporto Cricket e do Boavista Footballers - Monteiro da Costa descobre que em finais do então recém desaparecido século XIX houvera na Mui Nobre Invicta um outro clube, chamado Football Club do Porto.

Sem perder tempo, põe pés a caminho para procurar o mentor desse então extinto clube. António Nicolau de Almeida assim se chamava, afamado comerciante de vinhos, que em 1893 havia fundado o citado emblema tripeiro. Nicolau de Almeida que três anos mais tarde casar-se-ia, e a esposa assustada com as notícias chegadas de Inglaterra, de que aquele football havia causado nas ilhas britânicas durante aquele ano 13 mortes (!) suplicou ao seu amado esposo que deixasse de vez o jogo que este tanto amava. Nicolau de Almeida fez-lhe a vontade, e o Football Club do Porto morreu.
Seria ressuscitado por José Monteiro da Costa, que quando finalmente travou conhecimento com o fundador do clube recebeu deste um forte incentivo para reavivar o sonho nascido em 1893. Monteiro da Costa assim o fez, e a 2 de agosto de 1906 refunda aquele que é hoje em dia um dos mais afamados clubes nacionais e... internacionais.
Um trajeto que começou a ser desbravado precisamente pelo jovem Monteiro da Costa, que não se pouparia a esforços para fazer do renascido FC Porto um ícone desportivo de referência. Serviu o clube em múltiplas funções: foi jogador (no posto de guarda-redes), dirigente (foi o primeiro presidente oficial da história da coletividade), e principal financiador! Reza a lenda que Monteiro da Costa era o FC Porto, e vice-versa... «Ele era a alma do clube», disse um dia outro dos lendários elementos daquele Porto, neste caso Ivo Lemos. Este recordava Monteiro da Costa como um trabalhador exaustivo em prol do clube, «todos os dias, já noite alta, arrumava o humilde gabinete da sede do FC Porto e com os sobrolhos carrancudos de sono tomava a tipóia e regressava a casa. Para descanso curto! Sempre com a ânsia quente de fazer do FC Porto um clube maior, capaz de escaramuçar pela glória com quem quer que fosse».

Tudo o que tivesse a ver com o clube Monteiro da Costa chamava à sua responsabilidade, desde a constituição das equipas para os jogos até aos meros convites endereçados aos associados para assistiram aos empolgantes duelos futebolísticos. Fazia-o por pura e simples paixão, conta Ivo Lemos, que nas suas memórias descrevia o amigo Monteiro da Costa como uma figura aversa ao protagonismo.
Pelo que ele representava para o clube não demorou muito a que um grupo de associados metesse mãos à obra para homenagear o reinventor do FC Porto, ao propor a instituição de um troféu, que seria denominado de Taça Monteiro da Costa, e que dali em diante iria coroar o rei do futebol nortenho.
Um pouco contra a vontade do humilde homenageado - que nunca é demais recordar era avesso a exibicionismos pessoais - a ideia foi adiante, formando-se uma comissão de instituição da projetada competição, digamos assim. Comissão essa composta por Laurestim Froes Cruz, José Silva, José Marques e Silva, Adelino Costa, Vitorino Pinto, José Bacelar, e Ivo Lemos, estes quatro últimos para além de dirigentes eram igualmente notáveis footballers do emblema azul e branco.

Posteriormente fez-se uma subscrição entre os associados para adquirir um torféu que viria a custar 60 escudos, o qual seria concebido numa das mais afamadas ourivesarias da Cidade Invicta, a Monteiro & Filhos, situada na Rua do Bonjardim.
Contudo, quis o cruel destino que o homenageado não visse o pontapé de saída da sua competição. Monteiro da Costa adoece nos primeiros dias de janeiro de 1911, vindo a falecer no dia 30 desse mesmo mês com apenas 29 anos! A nação portista entra em pânico. E agora? Como é que o clube vai sobreviver sem o seu principal impulsionador, sem a sua figura central, sem a sua alma? Foram questões levantadas de imediato por associados e dirigentes do então jovem FC Porto. Temeu-se que pela segunda vez na sua história o clube fosse empurrado para uma morte prematura, medos que no entanto seriam eclipsados na Assembleia Geral de 16 de março desse ano de 1911, altura em que um punhado de seguidores do sonho de Monteiro da Costa decide continuar a aventura em memória do saudoso companheiro.
E é pois nesse embalo para o futuro que se edifica a primeira edição da Taça Monteiro da Costa, ou o primeiro Campeonato do Norte, como defendem alguns historiadores desportivos.

Portistas inauguram lista de campeões da Taça Monteiro da Costa... ou do Campeonato do Norte

Convidados para a estreia da citada competição, cujo vencedor teria à sua espera a denominação de campeão do norte (aquém Mondego), seriam os vizinhos do Boavista e do Leixões, para além, claro, do clube anfitrião, o FC Porto, que no final acabaria por fazer a festa... com contornos polémicos!
O certame abriu com um duelo entre matosinhenses e boavisteiros, a 26 de março, com os primeiros a bater sem apelo nem agrado os portuenses por 4-1. A 2 de abril entra em campo o FC Porto, cujos jogadores transportavam consigo a ambição sentimental de vencer aquele troféu tão especial. O oponente foi o Boavista. Resultado final: 3-1 para os portistas, mas com a polémica a estalar de imediato após o conturbado duelo, conforme retrataram os jornais da época: «Do príncipio ao fim, o jogo carregou sobre o campo do Boavista. Os jogadores deste clube tinham uma predilecção sobre os "marretas" e, pelos inúmeros trambulhões que davam, mais parecia assistir-se a um ensaio de acrobacia, que a um match oficial de futebol. Backs, half-backs e forwards entende (lá devem ter as suas razões) que jogador de football é atirar continuamente a bola para o ar. A fazerem excepção à regra contam-se Elísio Bessa, que esteve soberbo, revelando-se um admirável back e teve passagens magistrais; Bacelar e Cal; Megre tem um shoot muito calculado e bom, marcando os goals com muita precisão. Causou-nos decepção o jogo de Ivo Lemos; habituados a vê-lo jogar bem e a quase ser um Messias na hora do perigo, no domingo nem parecia o Ivo. E é pena que este se perdesse, pois era um bom elemento. Perdeu-se com a vaidade e a crença de que se apoderou, de ser um bom jogador...».

Críticas, e bem duras, também levou o árbitro do encontro, Eduardo Almeida Coquet, muito em particular oferecidas pel' Os Sports Illustrados, mas como quem não se sente não é filho de boa gente o juíz não perdeu tempo a responder publicamente ao autor da agreste crónica: «O senhor Pereira (autor da crónica) não dispensou a chocarrice, recurso dos que não têm razão. Começa por não atinar com o nome, e se o fez propositadamente demonstra bem a sua seriedade... O que não pouco ocorreu para a baralhada que o tal match resultou, foi a pouca disciplina do team do Boavista, que não respeitando as decisões do árbitro parece julgá-lo dispensável e uma parte da assistência, a que o Sr. Pereira se refere, esquecendo-se propositadamente de dizer que eram sócios do Boavista, a qual em companhia do Sr. Pereira invadiu o campo, o que não foi nada bonito. Foi para esses assistentes que um dos jogadores do FCP se voltou com um gesto obsceno, para o qual o Sr. Pereira teve olhos, não tendo ouvidos para o baixo insulto que primeiro desses assistentes partira, e sem o que não se justificaria o gesto... Esqueceu-se também o Sr. Pereira de dizer que o match terminou três minutos antes da hora, por ter o Boavista abandonado o campo, talvez para não informar que foi devido à atitude dessa mesma assistência, como o respectivo captain me declarou com palavras amigáveis, que lhe agradeço». 

Posteriormente, portistas e leixonenses mediriam forças no derradeiro jogo desta primeira edição da Taça Monteiro da Costa, um duelo que teve contornos de verdadeira final, pois quem vencesse seria coroado como o primeiro campeão do norte. Tal como se esperava foi um desafio muito intenso, e rezam as crónicas que o Leixões esteve várias vezes perto do golo, valendo aos portistas a magnífica exibição do seu guarda-redes, Manuel Valença. E como quem não marca sofre, o FC Porto chegaria ao golo - cujo autor se desconhece - um tento solitário que deu a primeira Taça Monteiro da Costa ao clube da Cidade Invicta, que assim se auto-proclamava o primeiro campeão nortenho do então jovem football.
Para a eternidade ficam pois os nomes dos seguintes campeões: Manuel Valença, Elísio Bessa, Vitorino Pinto, Mário Maçãs, Adelino Costa, Magalhães Bastos, José Bacelar, Camilo Moniz, Carlos Megre, João Cal, e Ivo Lemos. Jogadores treinados pelo mestre francês Adolphe Cassaigne, o homem que haveria de estar nas quatro restantes conquistas do portistas nesta prova.

Bi-campeonato conquistado à custa de goleadas

Na temporada seguinte (1911/12) disputou-se a segunda edição da Taça Monteiro da Costa, e desde logo uma novidade saltou à vista, a inclusão de mais um convidado, para o caso o team da Académica de Coimbra, que se juntava assim aos repetentes Leixões, Boavista, e claro, FC Porto. Último grupo este que sem dificuldades iria manter na sua posse o desejado troféu, já que massacrou por completo os seus oponentes no confronto direto com estes. O Boavista foi derrotado por 7-0 (com destaque individual para Carlos Megre, autor de quatro tentos), enquanto que o Leixões e Académica averbariam ante os avassaladores portistas concludentes desaires por 0-4 e 3-5, respetivamente.
Os heróis azuis e brancos foram praticamente os mesmos que na temporada anterior haviam oferecido ao clube o seu primeiro título oficial, isto é: Manuel Valença, Magalhães Bastos, Vitorino Pinto, Camilo Moniz, Mário Maçãs, Carlos Megre, Ivo Lemos, Adelino Costa, Penaforte, Vidal Pinheiro, e Camilo de Figueiredo, estes três últimos a saborear pela primeira vez o título de campeões do norte.

Académica de Coimbra surpreende o bi-campeão na sua própria casa

Na terceira edição do certame - realizada em fevereiro de 1913 - a surpresa aconteceu. Com os mesmos intervenientes da época transata, isto é, FC Porto, Leixões, Boavista, e Académica, poucos - sobretudo os adeptos portistas - pareciam ter dúvidas de que o troféu não continuasse a morar nas vitrinas dos azuis e brancos, ainda para mais depois destes terem cilindrado o Leixões no primeiro jogo por 8-0. A veia atacante dos portistas seria novamente vincada no encontro seguinte, ante o Boavista, desta feita por números mais suaves: 3-0. E a 10 de março desse ano a Constituição - a casa dos portistas -
engalanou-se para aquilo que se previa mais uma tarde de festa, mas que viria a terminar... em estado de choque! Os estudantes venceram por 3-1 e levaram a taça portista para a cidade do Mondego, alcançando assim o primeiro título da sua história, o ceptro de campeões do norte... aquém do Mondego, convém sublinhar. A imprensa da época voltou a usar e a abusar de dura ironia para com jogadores - do FC Porto, essencialmente - e árbitro da partida, conforme podemos recordar na pituresca crónica desse célebre desafio publicada n' Os Sports Illustrados:

«Se a concorrência aos desafios do Norte realizados até ao último domingo havia sido grande, a este dia foi verdadeiramente extraordinário. Jogava-se o match final do Campeonato e o interesse pelo resultado era enorme. A amenidade do dia, verdadeiramente primaveril, contribuiu, além disso, para a grande afluência que vimos no magnífico campo da Rua da Constituição. O jogo teve por vezes fases interessantes, e foi sempre seguido com extraordinário interesse por todos os que a ele assistiram. Não correu, é certo, com a regularidade que era de esperar e ao árbitro coube grande parte, senão toda a culpa deste facto. As faltas que sucessivamente deixou sem castigo e em especial os off-side de um dos quais resultou o terceiro golo contra o F. C. Porto, enervaram de tal forma os jogadores deste clube que o jogo tido pelo seu grupo foi, de certo por por diante, verdadeiramente desorientado. Se a falta de competência do árbitro justifica de certo modo o jogo feito pelo grupo do Porto, de forma nenhuma desculpa a falta de táctica, o enervamento e o desânimo que invadiram a maior partes dos seus jogadores. Chegámos a ver alguns cruzar os braços e negar-se absolutamente a jogar. No primeiro tempo, em que o F. C. Porto jogou com o vento contra, o jogo carregou quase sempre sobre o campo de Coimbra, especialmente no primeiro quarto de hora. Só os péssimos chutos dos forwards do Porto fizeram com que não se marcassem goals. Chegámos a ver dois jogadores desse grupo, exclusivamente sós com a bola nos pés a seis metros das balizas, e a atirarem a bola para fora, por ambos querem marcar. O Grupo de Coimbra defendia-se entretanto com grande energia e da primeira avançada que conseguiu fazer, devido a dois falhanços consecutivos de um back do Porto marcou o primeiro goal. Pouco depois marcava o segundo, de igual modo como o primeiro. Com este resultado terminou a primeira parte. Neste meio tempo não podemos deixar de censurar a falta de táctica do back esquerdo do Porto, Vitorino, que teima em avançar, deixando o seu companheiro absolutamente só, não obstante ter reconhecido o valor do grupo adversário e a falta de vista do árbitro. No segundo tempo o jogo esteve mais igual. O árbitro continuou a não ver as faltas cometidas, especialmente alguns off-side dos forwards de Coimbra. Entretanto, para compensar a falta de vista do referee, o back vitorino continuava a ir passear até à linha de forwards, o half esquerdo Camilo Figueiredo, cruzou os braços e deixou-se ficar mudo e quedo, e o Keeper Valença deixou propositadamente entrar o terceiro goal, por imaginar que um jogador adversário estava, como realmente estava, em off-side. O árbitro, porém, não se conformou e marcou o goal, apesar dos protestos dos jogadores do Porto. Não podemos também deixar de censurar a atitude do half esquerdo. A incompetência do árbitro não justifica de forma nenhuma o seu procedimento. Abandonar por completo os seus companheiros e deixando de jogar, sem se lembrar que um jogador de campo não pertence a si mas ao seu team e é uma falta de lealdade para com os seus colegas e uma desconsideração para com os adversários [...] Os forwards do Porto fizeram entretanto bastantes avançadas, mas o ponta-direita, Camilo Monis, que foi quem quase sempre chutou, enviava a bola para todos os lados menos para as balizas. O seu extremo nervosismo fez com que das numerosas bolas que chutou nem uma única fosse direita ao goal... O Grupo de Coimbra está esta época muito forte do que na época passada e mostrou ter muito treino. Tem elementos muito bons. Tem, é claro, alguns pontos fracos, mas no conjunto mostrou muito valor. É caso para felicitarmos a Académica de Coimbra, que conta no seu meio o team campeão dos grupos portugueses do Norte do País, e em especial o seu capitão Dr. Borja Santos, a quem se deve o resultado obtido».

Após o apito final a festa estalou entre os academistas, que ansiosamente partiram com o troféu na bagagem para a sua amada Coimbra, que nessa noite não pregou olho de tanto folia que viveu. Imortais ficaram pois os seguintes academistas: Durval de Morais, César Moniz Pereira, Sérgio Pereira, Agostinho Costa, António Borja Santos (o capitão dessa equipa), António Perdigão, Carlos Sampaio, Filipe Mendes, José Júlia da Costa, José Cardoso, e José Coelho. 

Na hora de escolher um dos seus dois amores Magalhães Bastos escolheu o FC Porto

Já convivendo com a concorrência da Associação de Futebol do Porto (AFP) - fundada em agosto de 1912 - a Taça Monteiro da Costa entrou, digamos que, em declínio a partir da temporada de 1913/14. Concorrência porque a AFP assim que viu a luz do dia idealizou de imediato a criação de um campeonato do norte... oficial. Isto é, organizado da cabeça aos pés sob a sua batuta. Ainda assim durante três épocas a competição instituida pelo FC Porto e a prova associativa dividiram o calendário futebolístico jogado a norte do Mondego. E por falar no conhecido rio foi precisamente na cidade por ele dividida, Coimbra, que decorreu a Taça Monteiro de Costa em 1914. E assim foi pelo facto de Académica ter vencido a prova na época anterior. Mais do que ficar marcada pelo regresso à normalidade no que toca ao campeão - que seria o FC Porto - esta edição ficaria eternamente célebre por um curioso momento de puro amor à camisola!

Numa altura em que os jogadores não estavam vinculados contratualmente aos seus clubes, podendo jogar livremente pelo emblema que bem entendessem durante a mesma época (!), o FC Porto partia para a capital da Beira Litoral desfalcado de um dos seus melhores elementos, Magalhães Bastos. 
Valoroso e dedicado atleta, José de Magalhães Bastos deixara o Porto - clube e a cidade - para se fixar em... Coimbra, para onde foi estudar Direito. Ora, na Invicta as cautelas eram agora muitas, não só porque a Académica havia provado na época anterior que no football não havia vencedores antecipados, e efetivamente porque tinha no seu grupo um naipe de bons jogadores, mas sobretudo porque se dizia à boca cheia que o magnífico defesa/médio Magalhães Bastos iria vestir de negro, o negro da Briosa Académica. O dia da final chegou, e assim que portistas e academistas entraram em campo vislumbrou-se Magalhães Bastos com a sua capa de estudante a cobrir-lhe o equipamento. Perante esta imagem os da casa não tinham dúvidas que o valoroso jogador estava do lado dos estudantes, mas rapidamente o entusiasmo derivado de tal visão deu lugar ao desânimo. De ar calmo, semblante alegre, Magalhães Bastos despe lentamente a capa negra que o cobria, entrega-o a um amigo e junta-se à... equipa do seu amado FC Porto. 

Reza a história que foi um momento emocionante, e alguns jogadores portistas não conseguiram mesmo conter as lágrimas perante esta autêntica prova de amor ao clube dada por um homem que anos mais tarde haveria de ser um renomeado juíz. O resultado desse jogo desconhece-se, apenas se sabe que o FC Porto reconquistou o troféu, trazendo-o de volta para a Invicta, de onde aliás nunca mais iria sair, até porque dizia o regulamento da Taça Monteiro da Costa que o clube que vencesse três vezes a competição ficaria para sempre na posse do troféu. 
1914 seria um ano agridoce para as cores azuis e brancas, já que a vitória na Taça Monteiro da Costa foi seguida de uma campanha dececionante na primeira edição do primeiro campeonato do norte oficial, isto é, organizado pela AFP. Nessa prova os portistas ficariam em segundo lugar, atrás do vizinho e rival Boavista. 

Académico do Porto estreia-se numa época de domínio avassalador dos portistas

Já com um papel secundário no panorama futebolístico do norte a quinta edição da Taça Monteiro da Costa não teve grande história. O FC Porto venceu de forma categórica o título pela quarta vez. De maneira categórica e fácil, há que sublinhá-lo, já que nunca os seus oponentes se terão apresentado tão fragilizados. Entre estes estava o Académico do Porto, equipa muito jovem e sem experiência nestas andanças que mesmo assim surpreendeu um experiente Leixões por impensáveis 7-0 (!) no jogo inaugural do certame. 
Leixonenses que tiveram uma prestação para lá de medíocre nesta edição, já que no confronto com os portistas seriam novamente derrotados, desta feita por 0-3. Sem Boavista e Académica de Coimbra, que declinaram o convite para participar uma vez mais na Taça Monteiro da Costa, FC Porto e Académico disputaram entre si a final na Constituição, tendo a vitória pertencido aos primeiros por escassos e renhidos 4-3. 
Ao que parece os inexperientes academistas fizeram uma grande exibição, mas terá faltado uma ponta de... experiência para vergar o poderoso combiando azul e branco, o qual nessa mesma temporada (14/15) iria vencer pela primeira vez o Campeonato do Norte... organizado pela AFP. 

Final igual ao princípio... 

E na época de 1915/16 a Taça Monteiro da Costa conhece o seu capítulo final. Quatro clubes inscreveram-se na última edição do certame, nomeadamente os anfitriões FC Porto, o regressado Boavista, o Académico do Porto, e a novidade Sport Grupo e Salgueiros, que mais tarde seria rebatizado de Sport Comércio e Salgueiros. Salgueiristas que tiveram o seu batismo de fogo ante os portistas, perdendo por 1-2. No encontro seguinte o Salgueiros deu mais uma prova da sua inexperiência ao ser batido por 1-4 pelo bem organizado team do Académico, emblema este que mais tarde seria batido pelo mesmo resultado pelo FC Porto. Na partida decisiva os portistas derrotaram por 2-0 o Boavista, encerrando assim a famosa competição da mesma maneira que a iniciaram, ou seja, a vencer. 

Legenda das fotografias: 
1-A Taça Monteiro da Costa
2-José Monteiro da Costa
3-Ivo Lemos
4-A comissão instaladora da Taça Monteiro da Costa
5-Equipa do FC Porto que venceu a primeira edição da competição
6-O valoroso guarda-redes Manuel Valença
7-O "onze" portista que em 1912 conquistou o bi-campeonato do norte
8-A medalha que os campeões da Taça Monteiro da Costa receberam em 1911/12
9-O conjunto da Académica de Coimbra em 1913, o intruso na lista de campeões
10-Momento do jogo final de 1913 entre Académica e FC Porto, com o público em cima do acontecimento!
11-O FC Porto campeão da Taça Monteiro da Costa em 1914
12-O lendário jogador Magalhães Bastos, figura central da quarta edição 
13-A turma do Boavista, a primeira campeã oficial do norte... segundo a Associação de Futebol do Porto
14-O diploma que acompanhava a medalha de campeão da Taça Monteiro da Costa atribuido a cada jogador
15-A última equipa do FC Porto a vencer a prova

Nota: Texto escrito em 1 de outubro de 2013 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com  

A revolta dos operários de Alcântara!

A revolta dos operários de Alcântara, bem que podia ser o nome de um filme da autoria do malogrado João César Monteiro, ou o título de uma notícia sensacionalista aludindo ao corte de salários ou a uma ação de despedimento coletivo - situações tão comuns no Portugal dos dias de hoje! - de uma qualquer empresa do popular bairro lisboeta. Mas não, não se trata de qualquer notícia bombástica ou de uma obra de ficção cinematográfica, mas antes de um facto - ainda que metaforizado - que surpreendeu o Portugal futebolístico no ano de 1928, e que ainda hoje é encarada como uma das vitórias mais sensacionais - e sobretudo inesperadas - alcançadas por um modesto emblema na centenária história do desporto rei lusitano. Fazemos alusão ao triunfo do Carcavelinhos Futebol Clube na primeira grande competição de nível nacional - vulgo, o Campeonato de Portugal - na temporada de 1927/28. Fundado em 1912 o Carcavelinhos vivia na sombra dos grandes do futebol lisboeta, o mesmo será dizer, do Sporting, do Benfica, e do Belenenses, sendo apoiado entusiasticamente por um pequeno grupo de operários do emblemático bairro de Alcântara. A popularidade do Carcavelinhos estava porém longe de significar que este pequeno clube pudesse alcançar a glória na exigente prova que era já o Campeonato de Portugal. Mas o que é certo, é que pé ante pé, os operários de Alcântara chegaram ao topo, escrevendo quiçá o capítulo mais entusiasmante da fábula David vence Golias da Grande Enciclopédia do Futebol Português.

Este Campeonato de Portugal fica ainda marcado pelos números expressivos, não só o elevado números de clubes participantes - além dos seus campeões regionais algumas associações, casos de Lisboa e Porto, inscreveram na prova os segundo, terceiro, e quarto classificados dos seus respetivos campeonatos - mas também pelo avolumado número de golos marcados. Uma nota de rodapé também para dizer que à semelhança da temporada transata voltou a instituir-se a Competição de Classificação, uma prova disputada à margem dos campeonatos regionais que servia para apurar mais um leque de clubes para o Campeonato de Portugal.

Vendaval de golos em Lisboa e no Porto

Campeonato de Portugal cuja primeira eliminatória decorreu no dia 4 de março de 1928, e logo com uma série de goleadas que fizeram com que este fosse o certame mais produtivo - no que a golos concerne - da história desta competição que em 1938/39 encerrou portas para dar lugar à atual Taça de Portugal. A maior avalanche de golos ocorreu em Lisboa, no Campo Grande, recinto que acolheu o desnivelado duelo entre o gigante Sporting e o Torres Novas, o respresentante da Associação de Futebol de Santarém saído da Competição de Classificação. Encontro que não teve grande história, ou melhor, a história foi escrita somente em tons de verde e branco, como comprova o pesado resultado de 18-0 (!), a maior goleada de sempre do Campeonato de Portugal. Jurado foi o leão mais feroz apontado à baliza do modesto Torres Novas, já que na sua conta pessoal registou cinco golos, seguido de muito perto por José Manuel Martins e Abrantes Mendes, ambos com quatro tentos.
A norte, no Porto, o emblema mais representativo da cidade, o Futebol Clube do Porto não quis ficar atrás do rival de Lisboa, e na receção - no Campo do Bessa - ao Vila Real alcançou um triunfo por 13-1, com o destaque individual a ir para os hattricks de Freire, Valdemar Mota, e Acácio Mesquita, sendo que este último iria sair deste campeonato consagrado como o melhor marcador dos dragões, com quatro tentos.

Campo do Bessa que nesse dia teve sessão tripla, ou seja, após o vendaval portista seguiu-se um novo vendaval, desta feita protagonizado pelos donos do recinto, o
Boavista, que esmagaram o Lusitano de Vildemoinhos - o representante da Associação de Futebol de Viseu que fazia a estreia na prova - por 8-0, ao passo que para encerrar a maratona futebolística do Bessa o também caloiro Leça Futebol Clube derrotava o experiente - nestas andanças - Sporting de Braga por 2-1, graças à veia goleadora do avançado João da Costa, o autor dos dois tentos leceiros.
Na cidade conhecida como a Princesa do Lima, isto é, Viana do Castelo, o emblema local, o Vianense, caiu aos pés de outra das equipas sensação deste campeonato, o Salgueiros, por 2-1.
Estreia auspiciosa teve também o Fafe - um dos dois representantes da Associação de Futebol de Braga - que em casa, no Campo de S. Jorge, derrotou também por 2-1 a Académica, graças a dois golos de Freitas. Vitória curta seria igualmente alcançada pelo Beira-Mar, de Aveiro, que no seu Campo de S. Domingos bateu os portuenses do Sport Progresso por 3-2. Quanto aos campeões de Portugal em título, o Belenenses, receberam no Campo Grande o Luso Beja, tendo uma tarde inspirada do avançado azul Severo Tiago, autor de três golos, ajudado os pupilos de Artur José Pereira a vencer o combinado alentejano - que até esteve a ganhar - por 7-1.

Também no Campo Grande, que à semelhança do Campo do Bessa foi palco de mais do que um jogo nesse dia, o Casa Pia - cuja estrela-mor era o guarda-redes António Roquete, jogador este que no verão de 1928 defendeu a baliza da seleção nacional portuguesa nos Jogos Olímpicos de Amesterdão - derrotou por 2-1 os setubalenses do Comércio e Indústria. No Barreiro, Bento de Almeida, José Correia, e Agrípio Cardoso, desenharam um triunfo por 3-0 do Barreirense orientado por Augusto Sabbo sobre o União de Lisboa.
Por fim, em Setúbal, o finalista vencido da edição anterior, o Vitória Futebol Clube, não dava hipótese aos representantes do Algarve, o Lusitano de Vila Real de Santo António, que saiu do Campo dos Arcos vergado a uma derrota por 6-1. Vitória de Setúbal que nessa temporada tinha nas suas fileiras um atleta chamado António Palhinhas, que anos mais tarde haveria de se distinguir como...árbitro de futebol, tendo sido ele o juíz da primeira final da Taça de Portugal, disputada em 1939, entre a Académica e o Benfica.

Salgueiristas de alma grande eliminam o poderoso vizinho FC Porto

Quase dois meses depois da realização da ronda inaugural foi dada luz verde para que entrasse em cena a ronda dos oitavos-de-final, e logo com uma enorme supresa a norte. No Campo do Ameal - recinto dos portuenses do Progresso - a balança do favoritismo pendia para o lado do FC Porto na antecâmara do duelo com os vizinhos do Salgueiros. Partida que começou a um ritmo elevado, sendo que logo ao minuto cinco os salgueiristas presentes no Ameal foram ao delírio na sequência de um golpe fatal de Fernando Castro, talentoso extremo-esquerdo de Paranhos que na época posterior a esta histórica campanha da sua equipa iria transferir-se para... o FC Porto, onde jogaria nas oito temporadas seguintes. Festa do Salgueiros que no entanto iria durar apenas um minuto, já que pouco depois da bola ter ido ao centro do terreno Acácio Mesquita restabeleceu o empate. O pequeno - grande - Sport Comércio e Salgueiros não se amedrontou com esta recuperação do gigante da Invicta, e ainda antes do intervalo voltou para a frente do marcador no seguimento de um lance infeliz do portista Augusto Freire, médio que introduziu o esférico na baliza à guarda do seu colega de equipa Mihaly Siska. 2-1 para o Salgueiros, que na etapa complementar segurou heroicamente aquela que seria uma vitória histórica, e para a qual muito contribuiram Soares, Faísca, Sousa, Coentro Faria, Francisco Castro, Evaristo, Ventura, Teixeira, Américo Marques Teixeira, Reis, e Alberto Augusto (este jogador foi, recorde-se, o autor do primeiro golo da história da seleção nacional), os onze magníficos salgueiristas de alma imensa...
Quiçá envergonhados pela derrota ante o modesto vizinho de Paranhos os portistas desafiaram - mês e meio depois - os salgueiristas para um novo duelo - particular, desta feita - para tentar vingar a humilhante derrota, mas aquele não era de facto um bom ano para o FC Porto defrontar o Salgueiros, que na Constituição arrancaria um empate a duas bolas.

Nesta ronda entraria em ação o Benfica - orientado pelo lendário Ribeiro dos Reis, clube cuja estrela principal era Raul Tamanqueiro -, que na deslocação ao terreno do Fafe venceu facilmente a equipa local por 6-1. Fácil também foi o triunfo dos leões - Sporting - sobre os vizinhos do Império, por 4-1. No recém inaugurado Campo do Restelo - propriedade do Belenenses - um bis de José Correia dava a vitória (2-0) do Barreirense sobre os gansos do Casa Pia, enquanto que a norte - no Porto - o Boavista socumbia aos pés do Vitória de Setúbal por 2-4, enquanto que a aventura do Leça terminava diante de um avassalador Belenenses, que no Ameal venceu os leceiros por 8-1. Por fim, em Aveiro, sob a arbitragem do portuense Armando Moura, o futuro campeão de Portugal vencia a equipa da casa, o Beira-Mar, por 3-0, e mal passava pela cabeça dos quase desconhecidos jogadores do emblema de Alcântara que esta seria o início de uma odisseia memorável.

Agressões, insultos, e expulsões na reedição da final de 1927

A 13 de maio deu-se o pontapé de saída nos quartos-de-final da prova, e quis o sorteio que Belenenses e Vitória de Setúbal reeditassem a final da época anterior, que recorde-se havia sorrido aos azuis do Restelo. Só que este foi tudo menos um jogo de futebol, mais se assemelhando a uma batalha campal entre jogadores dos dois lados, travada no Campo das Amoreiras. Pautado por uma constante troca de insultos e agressões que levaram o árbitro do encontro, Armando Moura, a ter de dar ordem de expulsão a alguns atletas, entre outros o internacional belenense César de Matos, que estava já selecionado por Cândido de Oliveira para representar as cores nacionais no Torneio Olímpico de Amesterdão dali a poucas semanas. Pelo facto de ser um lemento fundamental na equipa das quinas a Federação Portuguesa de Futebol perdoou o castigo ao jogador belenense, que assim embarcou na aventura olímpica. Ah, quanto ao resultado desportivo desta final antecipada - assim foi denominado por muitos dos especialistas da bola daquela época - saldou-se numa vitória setubalense por 4-1, com golos de Nazaré (2), Armando Martins, e Luís Xavier, para os rapazes do Sado, enquanto que o lendário Pepe fez o tento de honra dos campeões em título, que assim caiam por terra.

Também nas Amoreiras, mas sem problemas e de forma tranquila, o Sporting batia o Barreirense por 5-0, com tentos de José Manuel Martins, Jurado, João Francisco, Abrantes Mendes, e Agostinho Cervantes.
Épico e emotivo até final foi o Benfica - União da Madeira. Aos 18 minutos os insulares colocaram as Amoreiras em silêncio, na sequência do golo de João Tomás de Sousa. A cinco minutos do descanso Pedro Sousa amplia a vantagem madeirense, e o público da casa teme o pior.
Porém, na etapa complementar apareceu Mário de Carvalho, virtuoso avançado benfiquista, que logo aos dois minutos reduziu para 1-2. O União - que teria nesta a sua única aparição no Campeonato de Portugal - não se acanhou, e três minutos volvidos fez o 3-1, de novo por intermédio de João Tomás de Sousa. A partir daqui Ribeiro dos Reis deu ordem aos seus jogadores para atacarem de todas as formas e feitios a baliza de Manuel de Sousa - de facto esta equipa do União tinha muitos Sousa's! - e ao minuto 63 Jorge Tavares encurta para 2-3 a desvantagem encarnada. O último quarto de hora foi diabólico, muito por culpa de um autêntico diabo à solta no retângulo das Amoreiras, Mário de Caravalho, de seu nome. Com dois golos - aos minutos 75 e 80 - ofereceu ao seu Benfica a passagem à meia-final frente a um União que até final lutou por um resultado positivo.

No Porto, mais precisamente no Campo do Covelo, um confronto de outsiders. Salgueiros e Carcavelinhos, lutavam pela última vaga nas meias-finais. E se contra o FC Porto os salgueiristas haviam sido heróis, ante o conjunto da capital foram uma sombra de si próprios. Os rapazes de Alcântara fizeram o que quiseram dos portuenses, chegando com facilidade à goleada (8-1), com destaque para os três golos de José Domingos e de Carlos Canuto, sendo que este último acumulava as funções de treinador e jogador. Reis foi o autor do tento solitário dos salgueiristas que assim saiam de cena mais cedo do que imaginariam, ainda para mais depois de terem posto fora do comboio um dos favoritos a chegar à estação final.

O sonho começa a transformar-se em realidade

Face ao enquadramento das meias-finais poucos seriam aqueles que não visionavam já um duelo Sporting - Benfica na final do campeonato. Os leões tinham pela frente o Vitória sadino, enquanto que as águias mediam forças com o Carcavelinhos. Favoritos eram pois os grandes de Lisboa. Mas nem sempre a teoria se confirma na prática, pelo menos no caso do Benfica. Nas Amoreiras, a 24 de junho, o Carcavelinhos fez história, Com um futebol dinâmico e artístico o emblema de Alcântara trocou as voltas ao poderoso Benfica, tendo vencido por 3-0 - todos os golos foram apontados na segunda parte. José Domingos, por duas ocasiões, e Carlos Canuto fizeram o gosto ao pé. Acontecesse o que quer que fosse este campeonato já tinha sido marcado pela surpresa chamada Carcavelinhos. Mas a história ainda não estava toda contada.
No outro jogo, também no mítico Campo das Amoreiras, o Sporting derrotava o Vitória de Setúbal por 3-1, com golos de Abrantes Mendes, José Manuel Martins, e Agostinho Cervantes, alcançando assim a desejada final.

Sporting tinha o pensamento no Brasil... e acabou por viver um pesadelo na Palhavã

No dia 30 de junho de 1928 o Campo da Palhavã (Lisboa) era pela primeira vez na sua história palco de uma final do Campeonato de Portugal. Tudo estava preparado para que a festa final fosse pintada em tons de verde e branco, as cores do super-favorito Sporting, que teria como missão provar que o surpreendente trajeto vitorioso do pequeno clube de Alcântara não tinha sido senão um mero golpe de sorte. Como estavam enganados os leões orientados por Filipe dos Santos. Além disso a equipa leonina queria rapidamente decidir aquela final, pois já tinha as malas feitas para no dia seguinte à final fazer uma longa viagem até ao Brasil, país onde iria realizar uma digressão a convite do Fluminense. O passeio até Terras de Vera Cruz terá subido em demasia à cabeça dos jogadores sportinguistas, que não querendo de maneira alguma perder o bilhete de embarque no paquete que os haveria de levar até ao Rio de Janeiro logo trataram de tirar o pé de acelerador na final do campeonato, de modo a evitar lesões que os impedisse de ir passear até ao outro lado do Atlântico. Ousadia que haveria de sair cara ao Sporting.
Até porque do outro lado estava o Carcavelinbos, equipa que para o treinador/jornalista Ribeiro dos Reis, o qual nas meias-finais havia visto o seu Benfica ser eliminado pelo clube de Alcântara, jogava de fato macaco, à operário, pois claro. «Uma equipa que possuí um sistema de ataque verdadeiramente sui generis: eram simulações a passar a bola, simulações a recebê-la, jogadores em corrida para o esférico dando a impressão de o irem dominar mas deixando-o seguir para um companheiro que já previa a manha do movimento, era, enfim, toda uma série de lances em que imaginação se aguçava, rasgava, encantava», escrevia Ribeiro dos Reis na sua análise aos campeões de Portugal de 1928.

Bom, quanto ao jogo propriamente dito - rico ao nível da qualidade técnica, de parte a parte -, o Sporting até entrou melhor, com duas oportunidades flagrantes no primeiro quarto de hora, primeiro por José Manuel Martins, que com um remate forte levou o esférico a sair a escassos centímetros do poste da baliza de Gabriel Santos, e posteriormente por Abrantes Mendes, que isolado perante o guardião de Alcântara permitiu que este num ato de bravura lhe saisse aos pés e ficasse com a posse da bola. Depois disto só deu Carcavelinhos. A magia dos operários de Alcântara entrou em campo, e aos 20 minutos na sequência de uma boa jogada de entendimento José Domingos inaugurou o marcador.
No segundo tempo o Sporting correu atrás do prejuízo, e com apenas sete minutos jogados Abrantes Mendes repõe a igualdade. Pouco depois o árbitro lisboeta Silvestre Rosmaninho é obrigado a interromper o encontro devido aos confrontos físicos que jogadores de ambos os lados da barricada levavam a efeito. Durante alguns minutos a magia do futebol - do Carcavelinhos - deu lugar a tristes cenas de pugilato, na sequência de uma entrada violenta de José Manuel Martins sobre o guarda-redes Gabriel Santos. Serenados os ânimos voltou-se ao futebol, e à magia do Carcavelinhos, traduzida em mais um golo de José Domingos. Depois disto os pupilos de Carlos Canuto tomaram as devidas precauções defensivas, abrandando um pouco o ritmo frenético do seu peculiar estilo de jogar futebol. Mas nem assim o Sporting - com a cabeça no Brasil? Ainda? - aproveitou, muito por culpa da desinspiração do seu setor ofensivo. A machadada final foi dada por Manuel Rodrigues, aos 75 minutos, com o 3-1, e este mesmo jogar ainda viria a desperdiçar uma grande penalidade já perto do final. No cair do pano a festa estalou para os lados de Alcântara, bairro popular que nesse ano viveu uma segunda noite de Santo António, devido à carreira memorável de uma equipa de artistas operários.

A figura: Carlos Alves

Até à conquista do título de campeão de Portugal a maioria dos jogadores do Carcavelinhos era totalmente desconhecida do grande público afeto ao futebol lusitano. A excessão a este quase total anonimato era Carlos Alves, o defesa-direito daquela célebre equipa de operários, e para muitos o melhor jogador português de sempre nesta posição! Carlos Alves nasceu em Lisboa, a 10 de outubro de 1903, e o Carcavelinhos foi o seu primeiro grande amor no futebol. Estreou-se no combinado de Alcântara nessa temporada de 27/28, e logo com o título de campeão de Portugal. As suas soberbas exibições nessa epopeia convenceram o selecionador nacional da altura, Cândido de Oliveira, a convocá-lo para o Torneio Olímpico de Futebol de Amesterdão, na época o maior evento futebolístico a nível global. Era além disso a primeira vez que Portugal surgia na alta roda do futebol internacional. Talvez por isso 1928 tenha sido o ano dourado da carreira de Alves: campeão de Portugal e titular do onze nacional nos Jogos Olímpicos, onde a seleção haveria somente de cair nos quartos-de-final aos pés do Egito. Portugal fez uma campanha memorável, para a qual muito contribuiu o talento de lendas como Pepe, Valdemar Mota, Vítor Silva, Raul Tamanqueiro, Jorge Vieira, Augusto Silva, César de Matos, e claro, Carlos Alves, o luvas pretas! Assim ficou eternizado o defesa direito. A razão desta alcunha? Porque jogava sempre de luvas pretas. Mas porquê? Ao que parece antes da final do Campeonato de Portugal de 1928 uma admiradora dele se abeirou e disse que se as utilizasse seria campeão. Carlos assim o fez, e de facto foi campeão. Dali em diante nunca mais deixou de usar as luvas, fosse em que jogo fosse. Deram sorte. Ainda em relação aos Jogos Olímpicos de 1928 os críticos da altura nomearam Carlos Alves como o melhor defesa-direito do torneio em parceria com o espanhol Jacinto Quincoces. Um luxo, e uma honra. Quem o viu jogar disse que era um jogador diferente, um homem que refinou a posição de defesa-direito, priveligiando a classe no toque de bola em simultâneo com a destreza do desarme, em vez do habitual - até então - estilo duro - e quase violento - dos defesas de roubar a bola ao adversário. Tinha um pé direito fortíssimo, e foi autor de muitos golos ao longo da sua carreira, muitos deles de livre direto, arte da qual era mestre.

Defendeu com brio a camisola do Carcavelinhos até 1933, altura em que viaja para o Porto para defender as cores do Académico Futebol Clube, entre 1934 e 1936. Ao serviço dos academistas participa na primeira edição do Campeonato Nacional da 1ª Divisão (34/35), ganho pelo FC Porto, emblema que em 35/66 contrata o valoroso jogador. De azul e branco vestido o luvas pretas não foi feliz, já que problemas pulmonares o atiraram para um sanatório onde ficou internado durante dois anos, e como consequência colocou um ponto final numa carreira formidável.
Depois, foi para Faro, onde treinou o Farense, criando ai a famosa equipa "o 8º Exército" - assim apelidada pela larga invencibilidade em todo o Algarve -, mas devido ao seu feitio - dizem - conflituoso abriu guerra a muitos jogadores do clube algarvio, o que levou à sua saída.
Veio depois para Albergaria-a-Velha, para treinar o modesto emblema local, o Alba, o clube onde começou a despontar o seu neto, João (Alves), que haveria de abraçar a fama na década de 70 ao serviço de clubes como o Benfica, o Paris Saint-Germain, ou o Salamanca.
Carlos Alves - que foi internacional por Portugal em 18 ocasiões - viria a falecer a 12 de novembro de 1970.

Nomes e números do Campeonato de Portugal de 1928

1ª eliminatória

Vianense - Salgueiros: 1-2

FC Porto - Vila Real: 13-1

Boavista - Lusitano Vildemoinhos: 8-0

Leça - Sp. Braga: 2-1

Fafe - Académica: 2-1

Beira-Mar - Progresso: 3-2

Sporting - Torres Novas: 18-0

Casa Pia - Comércio e Indústria: 2-1

Belenenses - Luso Beja: 7-1

Barreirense - União Lisboa: 3-0

Vitória de Setúbal - Lusitano VRSA: 6-1

Oitavos-de-final

Beira-Mar - Carcavelinhos: 0-3

Leça - Belenenses: 1-8

Sporting - Império: 4-1

Casa Pia - Barreirense: 0-2

Salgueiros - FC Porto: 2-1

Fafe - Benfica: 1-6

Quartos-de-final

Belenenses - Vitória de Setúbal: 1-4

Sporting - Barreirense: 5-0

Salgueiros - Carcavelinhos: 1-8

Benfica - União da Madeira: 4-3

Meias-finais

Benfica - Carcavelinhos: 0-3

Sporting - Vitória de Setúbal: 3-1

Final

Carcavelinhos - Sporting: 3-1

Data: 30 de junho de 1928

Árbitro: Silvestre Rosmaninho (Lisboa)

Estádio: Campo da Palhavã, em Lisboa

Carcavelinhos: Gabriel Santos, Carlos Alves, Abreu, Artur Pereira, Daniel Vicente, Carlos Domingues, Manuel Abrantes, Armando Silva, Carlos Canuto, José Domingos, e Manuel Rodrigues. Treinador: Carlos Canuto.

Sporting: Cipriano Santos, António Penafiel, Jorge Vieira, Martinho de Oliveira, Serra e Moura, Matias Lopes, João Francisco, Abrantes Mendes, João Jurado, Agostinho Cervantes, e José Manuel Martins. Treinador: Filipe dos Santos

Golos: 1-0 (José Domingos, aos 20m), 1-1 (Abrantes Mendes, aos 52m), 2-1 (José Domingos, aos 53m), 3-1 (Manuel Rodrigues, aos 75m)

Legenda das fotografias:
1-O poster do Carcavelinhos, campeão de Portugal em 1928
2-Acácio Mesquita, o melhor marcador do FC Porto nesta edição
3-Belenense Severo Tiago espreita mais uma oportunidade de golo durante o encontro com o Luso Beja
4-O guarda-redes internacional do Casa Pia, António Roquete
5-Fase do emblemático jogo entre FC Porto e Salgueiros
6-A equipa do Benfica
7-Jogadores do Carcavelinhos em ação
8-Mário de carvalho, o herói do Benfica nos quartos-de-final
9-Carlos Canuto, jogador/treinador do Carcavelinhos, e mais tarde árbitro internacional
10-O conjunto do Sporting
11-Carlos Alves disputa um lance na final do campeonato
12-Mais um lance da final do Campo da Palhavã
13-Carlos Alves, com a camisola do Carcavelinhos...
14-... e com a do Académico do Porto
 
Nota: texto escrito em 3 de dezembro de 2013 no blog: www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com 

O primeiro xeque-mate boavisteiro foi há 100 anos

Histórica equipa do Boavista que em 1914 venceu a primeira edição do Campeonato do Porto

Nascidos no mesmo berço - a mui nobre cidade do Porto - Futebol Clube do Porto e Boavista Futebol Clube desde os primeiros anos de vida que ergueram entre si uma cortina de uma acérrima rivalidade bairrista que ao longo de mais de um século de história deu aso a inúmeros capítulos empolgantes e épicos. Rivalidade intensa que em diversas ocasiões ultrapassou as fronteiras das quatro linhas, como aconteceu, por exemplo, em 1912, ano em que a Associação de Futebol do Porto (AFP) é fundada - no dia 10 de agosto - por influência de portistas... e leixonenses. FC Porto e Leixões foram pois os dois emblemas responsáveis pela edificação daquela que é hoje em dia a maior associação distrital de futebol do país - no que a número de clubes e atletas diz respeito - deixando de lado desta empreitada histórica o outro grande clube da região, o Boavista Football Club, que ao que parece andava de candeias às avessas com os vizinhos azuis e brancos.

O emblema do
Boavista Football Club em 1914
Não tardou muito a surgir a vingança - por assim dizer - boavisteira, que menos de dois anos após a fundação da AFP ousou contrariar as leias da supremacia portista dentro da associação ao vencer a primeira edição do Campeonato do Porto. Feito assegurado há precisamente 100 anos, altura em que recém fundada AFP decide erguer o seu próprio campeonato, criando desde logo uma espécie de braço de ferro com a primeira competição que viu a luz do dia no norte do país, a Taça José Monteiro da Costa, prova sobre a qual o Museu Virtual do Futebol já dedicou largas linhas num passado não muito distante, e que, recorde-se, foi criada em memória do (re)fundador do FC Porto, precisamente José Monteiro da Costa, sendo esta durante a sua curta existência - entre 1910 e 1916 - encarada como o campeonato do Norte. Talvez por isso os portistas não terão dado grande importância ao primeiro regional do Porto, o qual foi olhado como uma prova de segundo plano, a julgar pelo facto de terem enviado a sua equipa de reservas para o prontapé de saída do campeonato organizado sob a égide da AFP. Pontapé de saída que seria dado a 4 de janeiro de 1914, no Campo do Bessa, a casa de um Boavista que na altura, ao que parece, (já) havia feito as pazes com os vizinhos da Constituição - a catedral que o FC Porto havia inaugurado precisamente um ano antes. E ao que parece pois os azuis e brancos num gesto de cortesia cederam um dos seus três guarda-redes aos vizinhos da avenida (da Boavista), neste caso Cecil Wright, que era a terceira escolha para a baliza dos dragões, atrás de Manuel Valença e de Peter Janson.

A equipa do FC Porto que socumbiu aos pés do Boavista
Pois bem, o Bessa encheu para ver as duas equipas mais representativas da cidade darem o citado pontapé de saída no Campeonato do Porto, que para além de boavisteiros e portistas teve igualmente como integrante o conjunto do Leixões. Como já foi dito a cabeça dos portistas estava na reconquista da Taça José Monteiro da Costa, perdida na temporada anterior para a Académica de Coimbra, pelo que no Campo do Bessa evoluiu com a camisola azul e branco um misto composto por habituais titulares e reservistas. Rezam no entanto as crónicas de então que apesar de «actuar desfalcadíssimo (o FC Porto) dominou a contenda, mas a falta de remate não lhe permitiu obter resultado favorável». A falta de remate e a tarde de verdadeira inspiração de... Cecil Wright, o inglês que os portistas cederam gentilmente aos boavisteiros, que ao que dizem fez intervenções... impossíveis, quiçá tentando mostrar - com algum sentimento de revolta à mistura - à casa mãe o erro que esta tinha cometido em autorizar a sua dispensa. Com a sua baliza bem segura e com um meio campo muito bem organizado sob a batuta de outro inglês, nesta caso Pye, o Boavista venceu o eterno rival por 2-1, dando assim o primeiro passo de uma caminhada que haveria de ser de glória.

Logotipo da AFP
Ainda longe de envergaram o tradicional - equipamento - xadrez  que os iria tornar populares não só em território nacional como em diversas paragens além fronteiras, os boavisteiros - que na época usavam camisola preta, calção branco, e meia preta - voltariam a entrar em campo no Regional da AFP a 25 de janeiro, dia em que receberam o frágil Leixões, a julgar pelo resultado de 9-0 com que os matosinhenses sairam do Bessa. Leixões que a 9 de fevereiro vendeu cara a derrota - caseira - diante do FC Porto por 2-3, fazendo desta forma com que o desafio alusivo à 4ª jornada, a realizar no Campo da Constituição entre portistas e boavisteiros, tivesse contornos de final, já que uma vitória - ou empate - dos visitantes dava-lhes praticamente o título de campeões, ao passo que um triunfo azul e branco relançava o interesse em redor da prova. O reduto do FC Porto encheu para presenciar o duelo do título, realizado a 1 de março, e ao que dizem as crónicas «renhido do princípio ao fim por duas equipas muito iguais». Os golos surgiram apenas na segunda parte, sendo o primeiro da autoria do boavisteiro Fernandes, na sequência de um pontapé de canto. Os portistas restabeleceram a igualdade por intermédio de Charles Allwood, não conseguindo traduzir em mais golos as suas restantes incursões à baliza de Cecil Wright, que mais uma vez foi a figura do jogo (!) ao defender quase tudo o que havia para defender. O guarda-redes do FC Porto emprestado ao Boavista segurou a preciosa igualdade a uma bola com que o jogo findou, e praticamente selou as contas do campeonato, que a 5 de abril encerraria com a definitiva consagração boavisteira no terreno do Leixões, traduzida em mais uma vitória - por números no entanto desconhecidos.
Com 7 pontos somados - contra apenas 5 do FC Porto - e um impressionante registo de 22 golos apontados e apenas dois sofridos o Boavista escrevia assim a sua primeira página de glória pela mão de imortais como Cecil Wright, A.Valente, Camposo, H. Valente, Nunes, Pye, Alvedos, Vasconcelos, Bastos, Reid, e Fernandes, os 11 heróis do título.

Nota: Texto escrito a 5 de maio de 2014 no blog: www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

A epopeia do primeiro título internacional de Portugal

 

O cartaz do Europeu de juniores de 61
O nascimento da Primavera de 1961 trouxe consigo a primeira grande conquista do futebol português no plano internacional: o título de campeão europeu de juniores. Um êxito consumado em território luso, que entre 28 de março e 9 de abril desse longínquo ano foi palco da 14ª edição do Torneio Internacional de Juniores da UEFA, a prova que antecedeu ao atual Campeonato da Europa de Sub-21. Treze seleções marcaram presença num certame que foi desenrolado nas cidades de Braga, Porto, Coimbra, Leiria, Évora e Lisboa. Entre esses 13 combinados nacionais encontrava-se o talentoso grupo português, formado por excelentes executantes, sendo que grande parte deles havia sido responsável pelo brilhante 3º lugar conquistado um ano antes no Europeu da categoria realizado na Áustria. Selecionado lusitano que em 1961 foi arquitetado por uma talentosa dupla de profundos conhecedores do desporto rei que então davam os primeiros passos nas suas notáveis carreiras. Um deles dava pelo nome de David Sequerra, jovem jornalista do Mundo Desportivo que com apenas 26 anos assumia as funções de selecionador nacional, enquanto que o outro era nem mais nem menos do que José Maria Pedroto, figura que após encerrar uma estupenda carreira de futebolista iniciava um não menos estupendo - e inigualável - percurso como mestre da tática - vulgo treinador. Dois homens que abriram então o caminho da glória do futebol lusitano no plano internacional, sobretudo ao nível dos escalões de formação, onde Portugal criou uma imagem vencedora nas décadas que se seguiram. Mas em 1961 seria porventura impensável ver a nação ibérica subir ao lugar mais alto do pódio fosse em que competição fosse. De tal modo que um misto de surpresa e alegria pairou sobre o Estádio da Luz a 8 de abril desse ano, dia em que os putos portugueses esmagaram a Polónia por 4-0 e sagraram-se campeões da Europa. Um sonho real que teve início cerca de duas semanas antes, quando no Porto, no Estádio das Antas, a seleção lusa alcançou um difícil empate a zero bolas diante de uma das grandes favoritas a vencer a competição, a Itália, em jogo a contar para o Grupo A. Em 2 de abril Portugal jogava o tudo ou nada no Estádio de Alvalade ante a Inglaterra. Sabendo da importância de uma vitória para seguir em frente os jovens portugueses colocaram em campo todo o seu talento, e munidos ainda de um forte espírito de união cilindraram a armada britânica por 4-0, com golos de António Simões, Mário Nunes e Serafim, este último com dois tentos na conta pessoal. Face a este pesado score de nada valeu a sofrida vitória dos italianos dois dias depois, em Braga, ante os ingleses, por 3-2, já que face à diferença entre golos marcados e sofridos os lusos ficaram com o primeiro lugar do grupo e o consequente passaporte para as meias-finais.



A Colónia Balnear Infantil "O Século", nos inícios
da década de 60
No início dos anos 60 Portugal ainda era um país com muitas carências: ao nível de infraestruturas, vias de comunicação, ou transportes, por exemplo. Não foi pois de admirar que o torneio se tivesse desenrolado sob diversos constrangimentos, sobretudo ao nível de alojamento das 13 equipas e do transporte das mesmas. Com parcos recursos financeiros para suportar as despesas inerentes ao torneio a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) optou por alojar as seleções participantes na Colónia Balnear Infantil "O Século", em São João do Estoril. Um alojamento modesto, sem grandes condições, onde os jogadores dormiam com os pés de fora, visto que as camas ali existentes eram destinadas a crianças! Descontente com esta situação a seleção italiana logo tratou de custear um hotel melhor para os seus atletas, escolhendo uma das melhores unidades hoteleiras da costa do Estoril. A juntar a estas condições o facto de as seleções viajarem de cidade em cidade em velhos comboios poeirentos... Era assim o Portugal de então. Apesar de todas estas barreiras estruturais a seleção nacional continuava o seu trajeto imaculado na prova, sendo que nas meias-finais defrontou a vizinha Espanha no Estádio José de Alvalade. Partida onde Serafim, avançado corpulento que pertencia aos quadros do FC Porto, voltou a ser o abono de família, apontando três dos quatro golos - o outro foi do capitão Crispim - com que a seleção afastou os espanhóis e garantiu assim a presença na final.



David Sequerra e Pedroto,
a dupla que arquitetou
o título europeu
de juniores em 1961
A campanha dos jovens lusos despertou grande euforia numa nação carente de vitórias desportivas. Diga-se em nota de rodapé que em termos de historial Portugal somava quatro vitórias, outros tantos empates, e igual número de derrotas nos 12 jogos que desde 1954 - ano em que este torneio da UEFA conheceu a sua primeira edição - havia disputado no Torneio Internacional de Juniores. Foi pois com profundo entusiasmo e atenção que os portugueses encararam a grande final de 8 de abril, no Estádio da Luz, protagonizada pelas seleções de Portugal e da Polónia. Sob arbitragem do espanhol José Ortiz de Mendibil os pupilos de José Maria Pedroto deram mais um recital de futebol, chegando à vantagem logo ao minuto 9 pelo inevitável Serafim. Este atleta haveria de ser a figura do dia, já que em mais três ocasiões - aos minutos 27, 49 e 78 - faria o gosto ao pé, consumando assim o primeiro grande título internacional do futebol português. Pelos seus 9 golos - que o consagraram o melhor marcador do torneio - Serafim foi naturalmente um dos rostos que viria a ganhar notoriedade no palco principal do futebol, isto é, no patamar sénior. Avançado possante e atlético ele tornar-se-ia nos anos seguintes titular indiscutível do FC Porto, formando uma veloz ala esquerda com Nóbrega. Em 1963 transferiu-se para o Benfica, naquela que foi a transferência mais cara até então do futebol português. Na Luz não deu seguimento ao seu potencial, visto que na equipa titular dos lisboetas figuravam nomes como Eusébio, José Torres, ou Simões.Ao serviço do Benfica só efetuou cinco jogos a contar para as competições europeias, todos eles referentes à Taça dos Campeões Europeus. A partir da época de 1966 / 67 passou a representar a Associação Académica de Coimbra. 

António Simões
Outro dos nomes que viria a fazer furor nos anos seguintes foi o de António Simões, veloz e hábil extremo do Benfica, clube onde viria a atingir a glória juntamente com Eusébio, Mário Coluna, José Torres, ou José Augusto, nomes que fizeram do clube da Luz um dos gigantes do futebol continental da década de 60. Fernando Peres, Oliveira Duarte, ou o guarda-redes Rui Teixeira, foram outros dos jovens campeões da Europa de 61 que vingaram no patamar sénior, edificando carreiras notáveis quer ao serviço dos seus respetivos clubes quer na principal seleção nacional. Neste último combinado o jogador daquela equipa de 1961 que mais se distinguiu foi talvez António Simões, que de quinas ao peito foi um dos protagonistas da epopeia portuguesa vivida no Campeonato do Mundo de 1966, realizado em Inglaterra, onde Portugal conquistou, como se sabe, um inesquecível 3º lugar. Terá pois algum cabimento dizer que a vitória da seleção de juniores em 61 abriu o caminho das vitórias internacionais do futebol português, o qual na década de 60 viu o Benfica sagra-se bi-campeão da Europa de clubes, o Sporting vencer a Taça dos Vencedores das Taças, e a já citada e formidável campanha de Portugal no Inglaterra 66. 

Serafim, o goleador
do torneio
Onda vitoriosa internacional que teve continuidade nas décadas seguintes, com as seleções jovens de Portugal a triunfarem em diversas competições organizadas pela UEFA e pela FIFA - destacando-se aqui os títulos de campeões mundiais de sub-20 em 1989 e 1991. 
 É pois justo dizer-se que tudo começou na Primavera de 61, graças à brilhante vitória alcançada por Rui Teixeira (FC Porto), João Melo (Benfica), Armelim Viegas (Académica), Amândio Gonçalves (Benfica), Santos Nogueira (Benfica), Valdemar Pacheco (FC Porto), Tito (Leões de Santarém), Faria (FC Porto), Calhau (Sanjoanense), Manuel Carriço (Vitória de Setúbal), Manuel Moreira (Leixões), Manuel Rodrigues (Belenenses), Oliveira Duarte (Sporting), José Crispim (Académica), Rebelo (Académica), Mário Nunes (Académica), Jorge Lopes (Benfica), José António (Barreirense), Serafim Pereira (FC Porto), Fernando Peres (Belenenses), Luís Mira (Barreirense) e António Simões (Benfica), os 22 atletas que sob o comando da jovem dupla David Sequerra e José Mania Pedroto venceram este Torneio Internacional de Juniores da UEFA. 

Os arquitetos do êxito: David Sequerra e Pedroto 

David Sequerra em 1961
Naturalmente que o talento dos 22 futebolistas selecionados para este Europeu de juniores foi fator fundamental para que a seleção alcançasse o título, mas a responsabilidade da descoberta e exploração desse talento deve ser repartida por dois homens: David Sequerra e José Maria Pedroto. O primeiro era, como já referimos, um jovem jornalista, especializado no futebol jovem. Este brilhante homem das letras - que integra a seleção de grandes mestres do jornalismo desportivo nacional (de todos os tempos), ao lado de Cândido de Oliveira, Homero Serpa, Cruz dos Santos, Aurélio Márcio, Neves de Sousa, ou Tavares da Silva - iniciou o seu percurso aos 20 anos, no Mundo Desportivo, jornal de referência da época onde dedicou especial atenção ao futebol de formação, criando para isso uma coluna no citado jornal intitulada "Acompanhando os Jovens". Os seus vastos conhecimentos no futebol de formação valeram-lhe então o convite da FPF para o cargo de selecionador nacional das equipas mais jovens de Portugal. E para o treino de campo David Sequerra escolheu em 1961 outro jovem, um homem que havia dado por encerrada uma notável carreira de futebolista - ao serviço de clubes como o Leixões, Lusitano de Vila Real de Santo António, Belenenses e FC Porto - precisamente um ano antes, de seu nome José Maria Pedroto.

O mestre Pedroto
Natural de Lamego, onde nasceu a 21 de outubro de 1928, Pedroto abraçava na seleção de juniores a sua primeira experiência como treinador principal. E desde logo vincou a sua veia de mestre, de revolucionário - no bom sentido -, de exímio líder que aliava profundos conhecimentos futebolísticos a um poder notável de motivação. Estes foram alguns dos condimentos que fizeram de Pedroto um mestre da tática, um dos melhores de todos os tempos do futebol português. Um vencedor, acima de tudo. Depois das seleções jovens o Zé do Boné - como ficou eternizado graças à peculiar indumentária habitual que usava no seu dia-a-dia - colocou a sua inteligência e visão avançada no tempo ao serviço de emblemas como a Académica, o Leixões, o Varzim, o Vitória de Setúbal, e o Boavista - sendo que nestes dois clubes alcançou êxitos nunca dantes vividos por estes emblemas. Mas seria ao serviço do clube do seu coração, o FC Porto, que atingiu o topo da montanha da glória. Para os portistas Pedroto significou a viragem. Pedroto fez do FC Porto um clube vencedor, criou uma mística que perdura até hoje na Invicta, um mística de conquistas, uma mística de glória. Pedroto abriu o caminho dos títulos ao clube azul e branco, um caminho que idealizado juntamente com o seu grande amigo Jorge Nuno Pinto da Costa, o homem que há mais de três décadas se mantém no comando do clube. É justo dizer-se que Pedroto foi um dos arquitetos do FC Porto dos dias de hoje, um clube de dimensão mundial. 

Números do Torneio Internacional de Juniores da UEFA de 1961
O capitão Crispim recebe a taça de campeão da Europa de 1961

Grupo A
Porto (Estádio das Antas): Portugal-Itália 0-0
Lisboa (Estádio de Alvalade): Portugal-Inglaterra 4-0
Braga (Estádio 28 de Maio): Itália-Inglaterra 3-2



Classificação:
1. Portugal – 3 pontos
2. Itália – 3 pontos
3. Inglaterra – 0 pontos

Grupo B
Lisboa (Estádio do Restelo): Turquia-Áustria 6-3
Lisboa (Estádio do Restelo): Turquia-Espanha 2-2
Coimbra (Estádio Municipal): Espanha-Áustria 6-1


Classificação:
1. Espanha – 3 pontos
2. Turquia – 3 pontos
3. Áustria – 0 pontos
Fase do Bélgica-Holanda jogado no Restelo
Grupo C
Leiria (Estádio Municipal): Alemanha-Bélgica 4-0
Braga (Estádio 28 de Maio): Roménia-Holanda 3-1
Lisboa (Estádio do Restelo): Bélgica-Holanda 1-1
Lisboa (Estádio de Alvalade): Alemanha-Roménia 0-0
Lisboa (Estádio da Luz): Alemanha-Holanda 3-0
Coimbra (Estádio Municipal): Roménia-Bélgica 1-0

Classificação:

1. Alemanha Ocidental – 5 pontos
2. Roménia – 5 pontos
3. Holanda – 1 ponto
4. Bélgica – 1 ponto

Grupo D
Leiria (Estádio Municipal): Polónia-França 4-1
Évora (Campo da Estrela): França-Grécia 3-2
Lisboa (Estádio da Luz): Polónia-Grécia 2-2

Classificação:

1. Polónia – 3 pontos
2. França – 2 pontos
3. Grécia – 1 ponto

Meias-finais
Lisboa (Estádio de Alvalade): Portugal-Espanha 4-1
Porto (Estádio das Antas): Polónia-Alemanha 2-1

3º/4º lugar
Lisboa (Estádio Nacional): Alemanha-Espanha 2-1
Um lance da grande final jogada no Estádio da Luz
Final
Lisboa (Estádio da Luz): Portugal - Polónia 4-0

A seleção nacional de juniores que em 1961 venceu o título europeu da categoria

Nota: Texto escrito em 22 de outubro de 2015 no blog: www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Taça Império e Taça Estádio: As "sementes" da Supertaça Cândido de Oliveira

A vistosa Taça Império
1944 é um ano marcante não só na história do futebol português como na história do desporto lusitano de uma forma geral. A 10 de junho desse ano eram oficialmente abertas as portas daquela que ainda hoje é considerada a mais emblemática sala de visitas do desporto de Portugal, o Estádio Nacional. Uma obra - à época - majestosa, que colocava a nação lusa em pé de igualdade com as maiores potências europeias de então, no que dizia respeito a infraestruturas desportivas modernas e de grande dimensão. Uma obra que teve o cunho do Estado Novo, nascida no berço da ditadura salazarista e cuja idealização remontou a 1933, altura em que na sessão de encerramento do Congresso dos Clubes Desportivos o presidente do Conselho, Oliveira Salazar, vincaria a importância do desporto enquanto veículo de educação da juventude com vista «ao crescimento de uma raça forte e sã que pudesse vir a defender o seu país». Concluída essa sua visão deixaria no ar uma promessa aos desportistas lusos: a construção de um Estádio Nacional! Um ano depois foi lançado o concurso para a edificação da catedral do desporto português, ficando definindo que esta seria erguida no Vale do Jamor e iria contemplar não só um moderno estádio como também um vasto leque de outras infraestruturas desportivas. O pontapé de saída na empreitada - projetada por (Eng.) Duarte Pacheco - foi dado em 1939, sendo que o apito final ocorreu cinco anos volvidos. Para a inauguração da obra uma pomposa festa foi agendada então para o dia 10 de junho de 1944, naquela que se constituiu como uma das maiores manifestações populares promovidas pelo Estado Novo e onde na qual marcaram presença cerca de 80.000 pessoas. Densa massa humana que preencheu as bancadas do imponente recinto que ali se inaugurava e que testemunhou o vasto programa festivo desenhado para celebrar a efeméride, programa esse pautado - sobretudo - por inúmeros desfiles de desportistas oriundos de inúmeras representações nacionais da Mocidade Portuguesa. 
Um dos muitos desfiles que ocorreram no dia
da inauguração do Estádio Nacional
Porém, o ponto alto da cerimónia foi protagonizado pelos dois mais laureados clubes da capital, Sporting e Benfica, emblemas que disputaram um sempre animado e intenso duelo futebolístico. Os leões subiam ao recém inaugurado tapete verde do Estádio Nacional na qualidade de campeões nacionais, ao passo que as águias o faziam enquanto detentores da Taça de Portugal. O prémio para o vencedor deste capítulo do dérbi eterno seria atribuído em dobro, isto é, o clube que chegasse ao fim na frente do marcador levaria para casa dois troféus, a Taça Império, instituída pela Federação Portuguesa de Futebol, e a Taça Estádio, oferecida por Salazar para celebrar a ocasião. E eis que a bola começa a rolar perante o olhar das bancadas que fervilhavam de entusiasmo. O Benfica teve um ligeiro ascendente no iníco do encontro, mas seria o Sporting a abrir o marcador quando estavam decorridos 10 minutos por intermédio do feroz leão Fernando Peyroteo, que assim batia pela primeira vez naquela tarde festiva o guardião Martins, escrevendo desde logo uma página na história do desporto nacional, e muito em particular do futebol luso, já que dos seus pés havia saído o primeiro de muitos remates certeiros que seriam desenhados no mítico palco. Já no segundo tempo Espírito Santo empataria a contenda, oferecendo desta forma aos presentes mais 30 minutos suplementares de futebol. Quase logo após o pontapé de saída do prolongamento Peyroteo voltou a fazer estragos na área encarnada ao fazer o seu segundo golo da tarde. Tento que animou os leões, que embalados chegariam ao 3-1 por intermédio de Eliseu. Julinho ainda iria reduzir para o Benfica, um golo que seria insuficiente para impedir a vitória sportinguista por 3-2. Nesse encontro as equipas alinharam com: Sporting - Azevedo, Manecas, Canário, Álvaro Cardoso, Barrosa, Eliseu, Mourão, António Marques, Peyroteo, Cruz e Albano. Benfica - Martins, César Ferreira, Carvalho, Jacinto, Albino, Francisco Ferreira, Espírito Santo, Arsénio, Julinho, Jaime e Rogério. 

Uma vista panorâmica do duelo entre Sporting e Benfica no dia 10 de junho de 1944

O Sporting arrecadava os dois troféus em disputa e mostrava o porquê de ser a melhor equipa do futebol português daquele tempo. Este simples jogo de futebol - e apontamento principal do cartaz festivo de propaganda fascista daquela tarde de junho de 44 - acabaria por servir de inspiração aos responsáveis vindouros do futebol português, os quais cerca de três décadas mais tarde se basearam nele para criar a terceira competição futebolística de maior importância do futebol português: a supertaça. Prova esta que desde 1979 é disputada pelo campeão nacional e pelo vencedor da Taça de Portugal, e que desde 1981 passou a chamar-se Supertaça Cândido de Oliveira, em homenagem a um dos maiores vultos da história do futebol em Portugal, precisamente o mestre Cândido de Oliveira.
Nota: Texto escrito em 11 de janeiro de 2016 no blog: www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

O dia em que o recém nascido Oriental introduziu em Portugal a numeração nas camisolas

A equipa do Oriental que em 1946 entrou na história do futebol português

 

Saber onde foi o ponto de partida “disto ou daquilo” é por vezes uma missão espinhosa para um historiador, seja ele de que área for. E no futebol essa incerteza que convive com os investigadores do esférico sobre um determinado facto é em muitas ocasiões uma realidade, ou não estivéssemos nós perante um fenómeno global em que nem sempre é fácil ter certezas absolutas se determinado facto aconteceu pela primeira vez “aqui ou ali”. É o caso da numeração nas camisolas, que ainda hoje suscita algumas dúvidas entre os historiadores sobre o local ou a(s) equipa(s) que pela primeira vez na história usou dorsais nas costas dos seus mantos sagrados – vulgo camisolas. Há quem aponte o ano de 1911 como aquele em que pela primeira vez jogadores de duas equipas surgiram no retângulo de jogo com as “costas” numeradas. Facto ocorrido, segundo reza a história, na Austrália, num jogo disputado em Sydney, entre os conjuntos do Sydney Leichardt e do HMS Powerfull. Uma moda que terá pegado de estaca em terras de cangurus, já que no ano seguinte todas as equipas do país foram obrigadas a usar numeração nos torneios oficiais em que competiam. 
Outros historiadores defendem que os números estampados nas costas das camisolas surgiram pela primeira vez nos Estados Unidos da América, nos anos 20, num jogo entre o Fall River Marksmen e o Saint Louis Vesper Buick. Certezas, certezas de onde foi a "primeira vez" não existem, sabendo-se apenas que a moda rapidamente pegou, e em finais dos anos 20 do século passado chegou (com toda a certeza) à Europa, mais concretamente à pátria do futebol moderno, Inglaterra, onde o Arsenal então orientado pelo lendário Herbert Chapman surgiu em campo para defrontar o Sheffield Wednesday a 25 de agosto de 1928 com as suas camisolas numeradas. Segundo a História, e no mesmo dia, o Chelsea defrontou o Swansea Town com as suas camisolas... numeradas! A única diferença entre os rivais londrinos residiu no facto de que o guarda-redes dos blues não usava número na sua camisola, contrariamente aos seus colegas de campo - cuja numeração ia do 2 ao 11. Já os gunners apresentavam a sua equipa numerada de 1 a 11. 
E em Portugal, quando é que a moda pegou? Quando é que uma equipa se apresentou com camisolas numeradas num jogo? Bom, é aqui que entronca a nossa história de hoje, o momento em que os números nas costas dos jogadores bailaram pela primeira vez num relvado lusitano.

Facto histórico que coincide com outro momento histórico para um não menos histórico - e perdoem-nos os nossos visitantes por usarmos e abusarmos desta palavra - clube lusitano, neste caso o Clube Oriental de Lisboa. Bem, sobre a história do Oriental não nos vamos alongar muito, até porque ela é rica e extensa, e não caberia neste artigo, vamos sim centrar-nos no primeiro passo futebolístico que este emblema deu e que entrou na história do futebol em Portugal. 
Relembrar apenas que o Oriental nasceu da fusão de três pequenos clubes da zona oriental de Lisboa, no caso o Clube Desportivo "Os Fósforos", o Marvilense Futebol Clube e o Chelas Futebol Clube. Uma união que visava um sonho: dotar a freguesia de Marvila de um grande clube. E assim nasceu a 8 de agosto de 1946 o Clube Oriental de Lisboa. O futebol foi desde o primeiro dia a modalidade rainha de um emblema que alcançou inúmeros momentos de glória - desde logo as presenças no palco principal do futebol luso, a 1ª Divisão, onde esteve por sete ocasiões. E foi precisamente ao serviço do desporto rei que o Oriental entrou para a História do futebol português no dia 15 de setembro de 1946. Uma jornada cheia de significado para o então recém nascido Oriental, que nessa tarde disputava diante do gigante Belenenses aquele que era o primeiro match da sua curta existência. Uma partida desenrolada no mítico Estádio das Salésias a contar para a ronda inaugural do Campeonato Regional de Lisboa da temporada de 1946/47. Rezam as crónicas que o recém criado Oriental vendeu muito cara a derrota (1-2) diante do emblema que nessa temporada haveria de conquistar o maior feito da sua história: o título de campeão nacional da 1ª Divisão
Mas nesse longínquo encontro do Regional lisboeta um pormenor histórico ressalta hoje, passados poucos mais de 70 anos, à nossa memória, isto é, o facto de pela primeira vez uma equipa de futebol ter usado números nas suas camisolas. E esse registo pertence ao Oriental, que mal gatinhava ainda e já se apresentava inovador. Aliás, na antecâmara deste encontro um dirigente do clube de Marvila, no caso Rui de Seixas, levantava um pouco do véu junto da imprensa da época ao dizer que o seu clube iria surgir nas Salésias com uma pequena surpresa, fazendo um apelo ao público para comparecer ao encontro pois iriam presenciar algo de inédito nos retângulos da bola lusitanos. O mistério lançado pelo dirigente orientalista foi então dissipado na tarde de 15 de setembro, quando os jogadores de Marvila surgiram no relvado com as camisolas numeradas de 1 a 11. E assim se fazia história no futebol português. A imprensa da época fez eco desta "primeira vez" que os números bailaram nas costas das camisolas de uma equipa em Portugal, tendo o mestre Cândido de Oliveira, por exemplo, escrito que «a decisão do Oriental de numerar os jogadores merece relevo e é digna de ser seguida por todos os clubes». Seria contudo só a partir da época de 1947/48 que a Federação Portuguesa de Futebol iria tornar obrigatório o uso de números nas camisolas.

Nota: Texto escrito em 21 de fevereiro de 2017 no blog: www.museuvirtualdofutebol.blogspot.pt