Museu Virtual do Futebol

Joe Gaetjens


Passamos agora para o secção das estrelas cintilantes. São aqueles jogadores que apesar de não terem atingido o olimpo do futebol tal como os deuses Eusébio, Pelé, Maradona, Garrincha, Cruyff, Beckenbauer, Bobby Charlton, Lev Yashin, Zico, Platini, Puskas, entre outros, foram igualmente ídolos dentro das quatro linhas. Os seus golos e as suas jogadas ficaram retidos na memória de todos aqueles que os viram actuar. De tal maneira que os seus nomes fazem parte da grande história do futebol mundial. Começamos esta primeira visita pela secção das estrelas cintilantes por um nome quase desconhecido para o comum adepto do futebol. Mas certamente que os mais atentos e apaixonados pelo fenómeno da bola saberão quem foi Joe Gaetjens. Nascido a 19 de Março de 1924, na cidade de Port-au-Prince, no Haiti, fruto de uma relação entre uma haitiana e um belga, Joe foi não só o melhor jogador haitiano de todos os tempos como também há quem o considere o melhor de sempre... dos Estados Unidos da América. É verdade. Isto porque Joe Gaetjens foi um dos grandes nomes que vestiu a camisola da selecção norte-americana. Joe emigrou para terras do Tio Sam no final da década de 40 do século passado, mais concretamente para Nova Iorque, cidade para onde foi graças ao facto de ter ganho uma Bolsa de Estudo, que lhe foi atribuída pelo Governo do Haiti, para estudar Contabilidade na Big Apple. Apesar de nos Estados Unidos da América nunca ter havido uma grande tradição ao nível do futebol, (ou do Soccer, nome este pelo qual o futebol é denominado nos EUA), Joe continuou, nos seus tempos livres, a divertir-se com o seu passatempo favorito do Haiti, ou seja, jogar futebol. Os seus dotes futebolísticos fizeram com que fosse recrutado para uma das melhores equipas da Liga Americana da altura, o Brookhattan. E a estreia não podia ter corrido melhor, já que no seu ano de caloiro na Liga Americana, Joe sagrou-se campeão, e foi considerado pelos críticos de então como uma das maiores revelações desse ano. Facto este que não foi indiferente à Federação Norte-Americana de Futebol (U.S. Soccer), que o recrutou de imediato para a sua selecção principal que daí a poucos meses iria disputar o Campeonato do Mundo de 1950, que teria lugar no Brasil.

O herói de Belo Horizonte

Competição esta onde Joe actuou como titular indiscutível pela equipa americana nos três jogos que esta realizou. Mas houve um em que Joe mais se destacou, um jogo que o tornou conhecido um pouco por todo o mundo da bola, um golo que o fez entrar nos anais da história do futebol. Jogo este disputado a 29 de Junho de 1950, na cidade de Belo Horizonte, e que colocou frente a frente as selecções dos Estados Unidos da América e da Inglaterra. Ingleses que participavam pela primeira vez na sua história na fase final de um Campeonato do Mundo, tendo sido apontados, a par do Brasil, como os grandes favoritos à vitória final. Se assim era, para muitos o jogo contra os E.U.A. não passaria de um jogo de treino, eram favas contadas, como se costuma dizer. Tudo porque, os americanos tinham uma das equipas mais fracas desse Mundial, além disso não tinham grandes pregaminhos no Desporto Rei, como ainda hoje acontece. Mas nesse dia tudo saiu ao contrário à poderosa equipa inglesa, que viria a sofrer uma das derrotas mais humilhantes de toda a sua história, que os levou a serem afastados da última fase desse Mundial 50. E quem foi o carrasco dos ingleses em Belo Horizonte, ou melhor, quem foi o herói do dia na bela cidade brasileira? Esse mesmo, Joe Gaetjens, foi ele que aos 39 minutos desse histórico E.U.A. - Inglaterra desferiu um potente remate de fora da área que deixou pregado ao solo o excelente guarda-redes inglês Bert Williams, fazendo assim o golo solitário (pode-se ver na segunda imagem Joe a ser levado em ombros pelos seus colegas de equipa após ter marcado esse golo) de um jogo que muitos dizem ter sido o momento mais mágico de sempre do futebol norte-amaricano. Gaetjens tinha entrado para a história desse Mundial, e não foi de estranhar que após essa fase final o haitiano de nascimento fosse convidado a jogar no futebol europeu, mais concretamente em França, onde actuou entre 1950 e 1954 ao serviço do Troyes. Uma carreira na Europa que não lhe trouxe grande sucesso, pelo que em 1954 Joe regressou ao seu país natal, o Haiti, e ainda jogou algumas vezes pela selecção deste pequeno país, mas sem o brilho alcançado em 1950 ao serviço da equipa dos E.U.A.

Morto pelo regime ditatorial

Apesar de Joe nunca ter sido um activista político, a sua família trabalhou para Louis Dejoie, o grande rival do ditador haitiano da altura François "Papa Doc" Duvalier, facto este que custou caro a Joe, que foi preso pelo ditador em 8 de Julho de 1964 , tendo sido posteriormente executado juntamente com outros presos políticos da altura (não se sabe da data dessa execução ao certo). Apesar de nunca ter obtido a cidadania norte-americana, Joe Gaetjens entrou em 1976 para o Livro de Ouro do futebol dos E.U.A (National Soccer Hall of Fame).

 NOTA: Texto escrito em Abril de 2006 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Alexi Lalas

Num país onde o futebol não assume o estatuto de "estrela principal", longe disso, não deixa de ser por isso que o ilustre futebolista que hoje visitamos assume um papel de destaque na história do desporto rei ao nível mundial. Falamos de Alexi Lalas, esse mesmo, uma das grandes figuras do futebol (ou soccer como lá é denominado) norte-americano de todos os tempos. Nascido a 1 de Junho de 1970, no Estado de Michigan, Panayotis Alexander Lalas (o seu nome completo) viria a tornar-se num dos mais populares jogadores norte-americanos do "pontapé na bola". De tal maneira que já este ano foi "imortalizado" no National Soccer Hall of Fame (Museu de Futebol dos Estados Unidos da América) , espaço onde reside a história do soccer americano.
Este defesa-central ficou igualmente célebre pelo seu visual pouco habitual para um jogador de futebol, ostentando uma farta cabeleira loira acompanhada por umas não menos longas barbas igualmente loiras.
O seu estilo mais pareceia o de uma estrela de rock, "profissão" esta que aliás também viria - embora tivesse durado pouco tempo - a ser desempenhada pela estrela norte-americana.
Como futebolista Lalas começou a sua carreira ao serviço do University Rutgers, uma equipa dos campeonatos universitários dos EUA. Mas seria com a camisola da selecção americana que Alexi conseguiria brilhar a grande altura e se tornaria mundialmente conhecido. Em 6 de Maio de 1990 fez a sua estreia oficial ante a selecção vizinha do Cánada. Quatro anos mais tarde seria um dos grandes protagonistas da selecção yankee no Mundial que teve lugar precisamente nos EUA. Lalas ajudou a sua equipa a chegar aos oitavos-de-final da competição, caíndo aos pés daquela que viria a tornar-se na equipa vencedora desse memorável Mundial, o Brasil. Nos EUA 1994 Lalas foi um dos totalistas (4 jogos) da equipa norte-americana.
A sua brilhante prestação nesse Mundial valeu-lhe a transferência para o Calcio italiano, mais precisamente para o Pádova. No entanto, a sua carreira em Itália seria curta, apenas um ano (época 1994/95), já que por lá fez mais sucesso enquanto cantor de rock do que propriamente como futebolista.
Voltaria então ao seu país, para ser uma das estrelas da então recém criada Liga Norte-Americana (Major Soccer League), onde representou as equipas do New England Revolution (de 1996 a 1997) , do MetroStars de Nova Iorque (1998), do Kansas City Wizards (1999) e finalmente do Los Angeles Galaxy (de 2001 a 2003), clube pelo qual se retiraria difinitivamente do futebol enquanto jogador. Seria ao serviço dos Galaxy que Alexi se sagraria campeão da MLS Cup em 2002.
Pela selecção norte-americana estaria presente ainda no Mundial de França, em 1998, embora não tivesse feito um único jogo. Com a camisa dos States jogaria ainda duas Olímpiadas, uma em 1992 (em Barcelona) e outra em 1996 (em Atlanta). No total, Lalas jogou pelos EUA 96 vezes, tendo feito nove golos.
Depois de abandonar a carreira de futebolista Lalas tornou-se dirigente desportivo, primeiro ao serviço dos San Jose Earthquakes, depois dos MetrosStars (clube onde exerceu funções de presidente) e por último regressaria aos LA Galaxy, clube este onde se maném na qualidade de dirigente.
Paralelamete a tudo isto Lalas gravou já três álbuns de grande sucesso com a sua banda, The Gypsies.

NOTA: Texto publicado 15 de Setembro de 2006 no blog www.museuvirtualdefutebol.blogspot.com

Saeed Owairan

Senhores visitantes, uma vez que estamos na secção destinada às “estrelas cintilantes” do futebol mundial vamos aproveitar o “balanço” e continuar por aqui para fazer uma breve visita a outro “imortal” da bola. Certamente que, para muitos dos ilustres visitantes do Museu, este nome não diz absolutamente nada. Perguntarão: «Mas quem foi?», «Onde jogou, o que fez para merecer tal distinção?», pois bem, sosseguem, eu passo a contar de uma forma breve a história deste bravo “filho do deserto”.
Saeed Owairan nasceu a 19 de Agosto de 1967 na Arábia Saudita e desde cedo deu provas de que poderia tornar-se num grande artista da bola. E assim foi. Pena foi que o Mundo Ocidental raras vezes tivesse o privilégio de ver este homem com a bola nos pés. Daí, talvez, ser ainda hoje um ilustre desconhecido para os amantes do futebol ocidental. Saeed desenvolveu toda a sua carreira futebolística no seu país, numa época em que os grandes clubes europeus ainda estavam pouco virados para o mercado asiático.
Mas vamos ao que interessa, vamos ao grande momento que este homem viveu enquanto artista da bola, ou melhor, ao grande momento que ele proporcionou aos adeptos do futebol. Estavámos em 1994, mais concretamente no Mundial de Futebol que nesse ano teve lugar nos Estados Unidos da América. Saeed Owairan era um dos 23 jogadores que integravam a estreante – em Mundiais - selecção da Arábia Saudita, equipa que se viria a tornar numa das grandes revelações da prova.
Mas o grande momento de Saeed ocorreu no Estádio RFK, em Washington, onde se jogava a última partida do grupo E entre a Arábia Saudita e a Bélgica. O relógio batia 5 minutos de jogo e a bola chega aos pés de Saeed, que estava posicionado ainda bem dentro do seu meio-campo. E eis que com a “redondinha” nos pés Saeed resolve sair a jogar – ainda muito longe da baliza belga à guarda de Preud'Homme - com uma rapidez espantosa. Tira do caminho uma autêntica “floresta” de belgas, com uma série de dribles espantosos, deliciosos, que só param à entrada da pequena área belga, altura em que Saeed disfere o golpe final, o golo, o golo que seria justamente considerado como o mais belo, o mais inacreditável – se assim o quiserem definir – daquele Mundial.
Desde logo o tento de Owairan foi comparado ao de Maradona no México 1986 diante da Inglaterra, em que o astro argentino finta mais de meia equipa inglesa desde o seu meio-campo e fez aquele que muitos consideram como o melhor golo de sempre de um Campeonato do Mundo. O melhor até ao de Saeed Owairan surgir, que quanto a nós não é em nada inferior ao de Diego Maradona, muito pelo contrário.
Anos mais tarde após o EUA 1994 a FIFA elegeu o golo de Saeed como o sexto melhor de sempre da história dos Mundiais. Injusto, na nossa opinião, pois se fosse um jogador italiano, francês, brasileiro, ou inglês a marca-lo a FIFA não teria problemas em considerar este golo tão bom como o de Maradona. Enfim. Como aqui no Museu não toleramos injustiças, classificamos o golaço de Owairan, a par do de Maradona, como o melhor de sempre num Mundial.
Owairan jogou por 50 vezes com a camisola da Arábia Saudita e apontou 24 golos. Nos EUA 1994 alinhou nos quatro jogos da sua equipa, diante da Holanda (1-2), de Marrocos (2-1),da Bélgica (1-0) e da Suécia (1-3), último jogo este referente aos oitavos-de-final da prova, e que ditou o afastamento da surpreendente Arábia Saudita do Mundial. Jogaria ainda quatro anos mais tarde no Mundial de 1998, realizado em França, tendo aí efectuado dois encontros, ante a Dinamarca (0-1) e a França (0-4). Saeed jogou toda a sua carreira no Al Shabab, clube da cidade de Riyadh.
Nas duas primeiras imagens vê-se o jogo que tornou célebre Owairan, precisamente o ocorrido diante da Bélgica em 1994. Na última imagem o encontro diante da França no Mundial de 1998.

NOTA: Texto publicado em 18 de Setembro de 2006 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Adelino "Billy" Gonsalves

De volta ao corredor das “estrelas cintilantes”, vamos hoje conhecer um homem que muitodos críticos do futebol a nível internacional consideram como o melhor jogador norte-americano de todos os tempos. Estamos a falar de Adelino Gonsalves, ou melhor, Billy Gonsalves, o “nome de guerra” que o tornou célebre nas décadas de 20 e 30 do século passado, não só no futebol norte-americano como também no futebol internacional.
Descendente de portugueses (como o próprio nome indica) Adelino “Billy” Gonsalves nasceu a 10 de Agosto de 1908, em Portsmouth (Rhode Island, Estados Unidos da América) dois anos depois de os seus pais se terem mudado da ilha da Madeira para os Estados Unidos da América (EUA). Poucos anos depois de Billy ter nascido a família mudou-se para o estado de Massachusetts, mais precisamente para Fall River. Um local povoado por muitos emigrantes ingleses e escoceses que trabalhavam nas fábricas de têxteis lá existentes e que faziam do futebol o seu principal “divertimento”. Esta era também a cidade do poderoso clube Fall River Rovers, uma super-potência futebolística dos EUA dos princípios do século XX. Foi este o clube que captou Billy, que antes de tornar futebolista foi não só um talentoso pugilista como também um excelente jogador de basebol. Billy, alcunha dada ao jovem Adelino Gonsalves pelos jogadores escoceses e ingleses do Fall River Rovers, rapidamente ficou conhecido pelo seu poderoso remate e inúmeros clubes tentaram contrata-lo para os seus quadros. Com 1,88m de altura (um gigante para a época), ele igualmente um jogador muito bom no jogo aéreo e possuía uma magnífico controle de bola. Apesar de ter as características ideais para um 'matador', ele era mais conhecido pelas suas assistências. Prova disso é que seus companheiros de ataque eram frequentemente os melhores marcadores dos campeonatos onde competiam. Com Bert Patenaude formaria uma dupla “letal” no Fall River Rovers, ajudando o clube a vencer a US Open Cup (o título mais importante dos EUA) por duas ocasiões (1930 e 1931).
Ele venceria esta prova por mais seis vezes - em representação de outros emblemas norte-americanos - , um recorde que perdura até aos dias de hoje.
Depois do Fall River Rovers actuaria, ao longo de 14 anos de carreira, em mais nove equipas, entre outras o Lusitania Recreation, Brooklyn Hispano, The Boston Wonder Workers, New Bedford Whalers, New York Yankees, St. Louis Central Breweries ou o St. Louis Shamrocks, sendo que nestes dois últimos clubes actuou na Major Soccer Leage (MSL), o principal campeonato norte-americano. Em todas estas equipas Billy coleccionou diversos títulos, quer nacionais quer distritais.
Numa altura em que a MSL atraia alguns dos melhores jogadores ingleses e escoceses, não foi pois de estranhar que a selecção nacional dos EUA que disputou o Campeonato do Mundo de 1930 (no Uruguai) fosse composta na sua maioria por atletas oriundos destes dois países.
Selecção esta que brilharia a grande altura nesse Mundial - o primeiro da história -, tendo conquistado um brilhante e surpreendente 3º lugar, a melhor classificação de sempre de uma selecção dos EUA em fases finais de Campeonatos do Mundo. A boa participação dos “yankees” deveu-se, pois, ao facto de a equipa contar com muitos jogadores britânicos naturalizados, mas a grande estrela da companhia era nada mais nada menos do que Adelino “Billy” Gonsalves. Apesar de não ter feito nenhum golo nesse Mundial, ele chamaria à atenção dos grandes especialistas em matéria de futebol (jornalistas, treinadores, dirigentes, jogadores e adeptos).
Após o Mundial, o seleccionado norte-americano fez uma série de jogos amigáveis no Brasil, e o desempenho de Gonsalves foi tão bom que o Botafogo chegou a oferecer-lhe um contrato, mas o americano preferiu voltar para seu país. Quatro anos mais tarde (1934), Billy jogaria novamente uma fase final de um Mundial ao serviço dos EUA, desta feita em Itália, onde mais uma vez deixou uma excelente impressão, tendo recebido propostas de várias equipas transalpinas, que seriam recusadas, pois ele preferiu – mais uma vez – voltar para os “states”, onde jogaria até aos 38 anos de idade. É considerado por muitos como o maior e melhor jogador norte-americano de todos os tempos, tendo sido apelidado de o “Babe Ruth (o maior jogador de basebol dos EUA da história) do soccer (futebol) norte-americano”. Dele disse um dia outro célebre jogador norte-americano - de nome Jack Hynes -,... «Pelé foi um fenomenal jogador, mas não era nada comparado com Billy Gonsalves...»! E esta, hein?
Esta lenda do futebol norte-americano e internacional morreu em Nova Jersey, a 17 de Julho de 1977, com 69 anos de idade. O seu nome e memória continuam bem vivos no “National Soccer Hall of Fame” (Museu do Futebol dos EUA, em Oneonta, Estado de Nova Iorque), inaugurado em 1950, tendo Billy sido um dos primeiros nomes a integrar um museu que hoje em dia agrega inumeras lendas que passaram pelo “soccer das terras do Tio Sam”, tais como Pelé, Beckenbauer, Carlos Alberto, Eusébio, entre outros...
 
                                             

Legendas das fotografias:

1- Adelino "Billy" Gonsalves
2- Equipa dos EUA que consquistou o 3º lugar no Mundial de 1930 (no Uruguai)
3- Medalha (de Billy) do 3º lugar no Mundial de 1930
4- O "cantinho" de Gonsalves no Museu do Futebol dos EUA
5- A camisola que Billy envergou nos Lusitania Recreation, a qual se encontra exposta no Museu do Futebol dos EUA
6- Várias medalhas (consequentes dos muitois títulos arrecadados) conquistadas por Gonsalves, também expostas no Museu do Futebol dos EUA)

7- Billy ao lado de outra estrela da turma norte-americana que participou no Mundial de 1930, Bert Patenaude, nesta foto a bordo do navio que os levou ao Uruguai

NOTA: Texto escrito em 26 de Janeiro de 2007 no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

Zé Carlos

Depois de quatro referências do passado, nomeadamente os americanos Joe Gaetjens, Billy Gonsalves e Alexi Lalas, e ainda o saudita Saeed Owairan, o Museu Virtual do Futebol convida novamente os seus ilustres visitantes a dar uma olhadela à vitrina das Estrelas Cintilantes para ficar a conhecer um dos melhores futebolistas a actuar presentemente no futebol português.
Um jogador de fina classe que apesar de não ser tão conhecido, ou badalado, como Ronaldinho, Drogba, Deco ou Cristiano Ronaldo merece uma chamada de atenção pela qualidade do futebol que tem exibido nos relvados portugueses (e não só). Um craque (no verdadeiro significado da palavra) que me fez voltar a idolatrar jogadores de futebol, algo que eu já não fazia desde os meus tempos de infância, altura em que tinha como grandes referências jogadores como Paulo Futre, João Pinto (do FC Porto), Diego El Pibe Maradona, ou o baixinho Romário.
Pois bem, hoje o meu ídolo dá pelo nome de Zé Carlos, o matador que enverga as cores do Sporting de Braga. Um ponta-de-lança como poucos no futebol mundial, inteligente e mortífero, que alia uma elevada qualidade técnica a um apurado instinto de matador (goleador), características que lhe valeram a alcunha de Zé do Gol.
José Carlos Santos Silva, ou Zé Carlos, ou ainda Zé do Gol, como já vimos, nasceu no Brasil a 19 de Março de 1975, na cidade de Duque de Caxias (região do Rio de Janeiro) e desde cedo prendeu a atenção de alguns clubes cariocas. Não foi de estranhar que um dos gigantes do Rio de Janeiro, o Botafogo, o contratasse para os seus quadros. No clube que o revelou para o mundo Zé do Gol cumpriria cinco temporadas (1996, 1997, 1998, 1999 e 2000), tendo feito uma parelha mortífera no ataque do alvi-negro carioca com Túlio Maravilha. Nesta equipa, Zé Carlos foi campeão do Campeonato Carioca de Futebol de 1997 e do Torneio Rio-São Paulo de 1998.
Em 2001 trocou a cidade maravilhosa (Rio) pela pacata cidade de Campinas (arredores de São Paulo) para representar o Guarani, clube onde não seria lá muito feliz, pois inexplicavelmente passaria mais tempo no banco do que no relvado a fazer aquilo que melhor sabe, golos.
Apesar de pouco utilizado no clube de Campinas, as qualidades de Zé do Gol não passaram despercebidas à Europa do futebol, e em 2002 o brasileiro ruma ao Velho Continente para representar os turcos do Malatyaspor. Primeira experiência na Europa que não correria lá muito bem ao goleador brasileiro, já que em seis partidas realizadas apenas apontou um golo.
Uma "falsa partida" no futebol europeu que o faria regressar a casa, para defender as cores daquele que é para muitos o maior emblema do Brasil, o Flamengo. E no rubro-negro carioca poderemos dizer que Zé do Gol viveu as duas melhores épocas (2003 e 2004) da sua carreira, tendo conquistado não só a titularidade como também apontado muitos golos, factos que o tornaram num ídolo da exigente torcida do clube, tal e qual como um dia o foram Zico, Junior, Bebeto ou Romário.
As magníficas temporadas no Flamengo valeram-lhe uma transferência milionária para o futebol asiático, mais em concreto para a Coreia do Sul, onde representou o Steelers, clube onde também conquistou o coração dos adeptos.
Porém, as saudades de casa falariam mais alto e em 2006 regressa novamente ao Brasil para representar o Juventude de Caxias do Sul, onde faria uma soberda época, sendo que em 17 jogos apontou 10 golos pelo clube sulista. "Cartão de visita" que lhe valeria novo salto para a Europa, desta feita para o futebol português, onde chegou a meio da temporada 2005/06 para representar o Marítimo da Madeira. Contratado no chamado "mercado de inverno" fez 16 jogos (14 como títular), apontou 7 golos, e as suas boas prestações não deixaram ninguém indiferente. De tal maneira que no início desta época o Sporting de Braga abriu os cordões à bolsa para o contratar, sendo actualmente um dos jogadores mais valiosos da equipa comandada por Jorge Costa quer no Campeonato Nacional, quer na Taça de Portugal, quer ainda na Taça Uefa, competições onde o Zé do Gol tem dado nas vistas.
O número 77 do Braga é daqueles jogadores que faz levantar plateias, não só na minha modesta opinião como também na de grandes analistas do Desporto Rei, como por exemplo o conceituado Luís Freitas Lobo, que após a brilhante exibição de Zé do Gol no recente confronto europeu entre o Braga e os italianos do Parma (onde o brasileiro apontou o único golo do desafio) escreveu a seguinte crónica:
«O segredo do bom ponta-de-lança
Últimos dez minutos, o 0-0 parecia uma fatalidade, quando Zé Carlos viu cair do céu uma bola
perdida no coração da área do Parma. Sentiu a pressão do defesa italiano, resistiu à tentação de rematar logo e com um sublime toque com o peito, tirou o defesa do lance, ganhou espaço, centímetros preciosos, e, frio, bateu Bucci. Um lance perfeito para definir um bom ponta-de-lança. Inteligente e mortífero. Mais do que o remate, o que previamente caracteriza um grande goleador, é a qualidade do primeiro toque quando recebe a bola. Sem esse bem feito, raramente existe o remate. Ou melhor, se existe, não será com a mesma qualidade.
Pensem bem, e reparem como os grandes pontas-de-lança raramente rematam de primeira. Claro, se tiver de ser, rematam de qualquer maneira, mas no geral, a qualidade de recepção-primeiro toque é que é decisiva para libertar-se da marcação apertada, tirar o defesa do caminho, ganhar-lhe o espaço e o timing decisivo para, logo a seguir, num espaço curto, soltar o remate. É este o segredo que faz um grande avançado.
Zé Carlos explicou-o na perfeição, com picardia, técnica e frieza. Há mais exemplos nos nossos relvados, mas este merece uma página inteira num manual de bom futebol
».



Pois é, é por tudo isto que hoje trago aqui o retrato deste grande jogador, por quem tenho uma grande admiração, um atleta que é uma raridade no futebol moderno. Viva o Zé do Gol.
Legenda das fotografias:
1- Zé Carlos aquando da sua apresentação no Sp. Braga
2- Envergando as cores do Marítimo
3- Treinando com o seu companheiro de ataque Maciel (no Sp. Braga)
4- O golo narrado por Luís Freitas Lobo (no jogo com o Parma para os 1/16 final da Taça Uefa)
5- Na altura em que jogava no Juventude de Caxias do Sul
 
NOTA: Texto escrito em 9 de Março de 2007 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

John Charles

Quando falamos no País de Gales em termos desportivos o que nos vem em primeiro lugar à memória é a palavra rugby. De facto, esta é a modalidade onde os galeses são uns verdadeiros "ases", já que possuem uma das melhores selecções do Mundo.
Bom, mas nem só de rugby se fez, ou se vai fazendo, a história desportiva deste pequeno país britânico. O futebol, apesar de em termos de popularidade ser ultrapassado pelo rugby, também já trouxe grandes alegrias ao povo galês. Grandes alegrias e grandes jogadores, e é para falar sobre um desses atletas que o Museu Virtual do Futebol abre hoje as suas portas. Um jogador que não é um jogador qualquer, mas sim o maior futebolista galês de todos os tempos, de seu nome John Charles.
Nascido a 24 de Dezembro de 1931, em Swansea, Charles formou-se enquanto jogador nas camadas jovens do clube homónimo desta cidade galesa. Aos 16 anos transferiu-se para Inglaterra, para representar o Leeds United, onde começou a jogar como centro-campista. Na sua primeira passagem pelo Leeds Charles jogou de 1947 até 1957. Transferiu-se depois para a Juventus de Turim, onde esteve até 1962. Regressou a Inglaterra, e de novo ao Leeds United, clube que representou na temporada de 1962/63. Na época seguinte viajou de novo até Itália, desta feita para actuar durante um ano pelo Como, tendo terminado a sua gloriosa carreira no seu país, mais precisamente no Cardiff City, onde jogou até 1966. Quer a jogar a médio-centro quer a avançado-centro, John Charles foi o jogador galês mais completo de sempre. Ídolo no Leeds e no Cardiff City, tornou-se no primeiro jogador britânico a ter sucesso no estrangeiro, mais precisamente em Itália, onde passou cinco magníficos anos ao serviço da Juve. Clube onde conquistou os únicos títulos da sua carreira, mais concretamente 3 campeonatos (1958, 1960 e 1961) e 2 Taças de Itália (1959 e 1960). Alinhou em 155 jogos com a camisola da Juve, tendo apontado 93 golos, sendo que em 1958 foi mesmo o melhor marcador do campeonato italiano, com 28 tentos. Era tão adorado em Turim que os adeptos da "Velha Senhora" (como é apelidada a Juventus) o baptizaram de o "Gigante Gentil", numa alusão à sua altura (1.88m) e ao seu cavalheirismo.
Aliás, numa recente sondagem realizada junto dos adeptos da Juve Charles foi eleito como o segundo melhor futebolista estrangeiro de todos os tempos a actuar pelo clube, perdendo o primeiro lugar para o francês Michel Platini.
Ainda em 1958 foi galardoado com os prémios de Futebolista Europeu do Ano e de Futebolista Mais Valioso da Europa. Ao serviço do Leeds United Charles realizou 329 jogos e marcou 157 golos, tendo sido o melhor marcador do campeonato inglês em 1957, com 38 golos. Pelo Cardiff City jogou 66 vezes e apontou 19 tentos.
Mas nem só ao serviço da Juve a estrela do gigante Charles brilhou a grande altura. Pela selecção do País de Gales o jogador também espalhou magia. Aliás, ele foi a chave do período de maior sucesso da selecção galesa, que culminaria com a presença da equipa no Campeonato do Mundo de Futebol de 1958, realizado na Suécia. O mesmo Mundial que revelou ao Mundo jogadores como os brasileiros Pélé e Garrincha. Esta foi, até à data, a única participação de uma equipa galesa numa fase final de uma grande competição à escala planetária. Infelizmente, uma lesão impediu Charles de jogar aquele que poderia ser o jogo da sua vida, o jogo que opós o País de Gales ao Brasil, a contar para os ¼ de final desse Mundial. O resultado é o que toda a gente sabe, os brasileiros (que nesse Mundial iriam conquistar o primeiro dos cinco títulos mundiais que possuem) venceram por 1-0, com um golo de um jovem prodígio de 17 anos chamado Pélé. Nesse Mundial Charles jogou os três primeiros jogos da sua selecção, a qual representou por 38 ocasiões, e por quem marcou 15 golos. A estreia com a camisola do País de Gales deu-se em 1954, num jogo com a Irlanda. Tinha então 17 anos.
Outro dado curioso sobre o gigante galês prende-se com o facto de a transferência deste do Leeds para a Juve, em 1957, por 70 000 libras, ter constituido na altura um recorde, tornando-se na transferência mais cara de sempre na Grã-Bretanha.
A sua transferência para o Cardiff City tonou-se muito importante para o futebol galês, pois numa terra onde os heróis desportivos costumam jogar tradicionalmente com uma bola oval (de rugby), ele aumentou, como nenhum outro jogador havia feito ou fez depois, a importância do futebol naquele país. Em 2002, já como vice-presidente da Federação Galesa de Futebol, ele recebeu o título de Cavaleiro do Império Britânico. Viria a falecer a 21 de Fevereiro de 2004, na cidade de Wakefield, com 72 anos de idade, vitima de uma embolia. Ele foi o grande rei do futebol galês.

Legenda das fotografias:

1- O "cromo" oficial de Charles no Mundial de 1958
2- O "Gigante Gentil" ao serviço da Juventus
3- A selecção galesa que esteve presente no Mundial 1958, onde Charles assumia o papel de estrela
4- Ao serviço do Leeds United

NOTA: Texto escrito em 28 de Março de 2007 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

René Higuita

Como qualquer outra criança que adorava o futebol eu sonhei ser um dia um Deus da Bola. É verdade. No recreio da escola, na rua, dava largas ao meu sonho, participando em alegres e bem disputados, por vezes, jogos de futebol com a malta amiga da altura. Com o passar dos anos esse sonho foi ficando cada vez mais distante, e foi substituído entretanto por outro sonho, o jornalismo desportivo. No entanto, a paixão pelo belo jogo não morreu, muito pelo contrário, foi crescendo cada vez mais e mais.
Bem, mas voltando novamente até aos meus dias de catraio, e como dizia, sonhei ser um jogador de futebol. Mas um jogador que dentro de campo assume sempre uma função especial, aquele a quem os experts da matéria apelidam de homem solitário. Já devem saber de quem estou a falar. Isso mesmo o guarda-redes. Sonhava em ser o número 1 de uma grande equipa. Primeiramente, e por influência do meu velho, que é um ferrenho deste clube, sonhei em ser guarda-redes de um dos meus clubes do coração, o clube da minha cidade, o Ermesinde Sport Clube. Depois "auto-transferi-me" para o gigante FC Porto, "cheguei" à selecção nacional, e "atingi" o ponto máximo quando "joguei" pelo Nápoles, clube que na época era só uma das superpotências do futebol europeu. Um clube que era comandado por um dos meus heróis, Diego Armando Maradona. Que belo sonho este, não acham? eheheheheheh. Pois, mas estes eram os meus sonhos com 10, 11, 12, ou 13 anos. Mas como aspirante a guarda-redes também tinha Ídolos. Em Portugal, gostava do Mlynarczyck, que na altura jogava no FC Porto, do Damas, que dava as "últimas" enquanto redes do Portimonense, do Jorge Martins, guardião das redes do Belenenses, e claro do número 1 do meu querido Ermesinde Sport Clube, o brasileiro Omar. A nível internacional admirava sobretudo um homem, um louco dizem ainda hoje muitos, mas talvez tenha sido essa loucura que me fez idolatra-lo anos a fio. René Higuita, era assim o nome do homem que eu imitava nas jogatanas de rua com os meus compinchas. polémico, astuto, louco, drogado, este homem faz inevitavelmente parte da história mundial do futebol. Está para o seu país, a Colômbia, como Eusébio está para Portugal ou Pélé para o Brasil.
José René Higuita Zapata, nasceu em Medellín, a 17 de Agosto de 1966. O seu particular estilo de jogo, os triunfos obtidos nos seus primeiros anos como profissional, e a sua peculiar personalidade, converteram-no no maior Ídolo do seu país durante os anos 90.
Posteriormente Higuita viu-se envolvido em numerosos escândalos que paulatinamente o levaram ao declínio da sua brilhante carreira desportiva.
Apesar de todo, Higuita é reconhecido como um dos melhores guarda-redes da história do futebol sul-americano e uma figura chave na ascensão da Colômbia dentro do panorama futebolístico internacional.
Nasceu em Castilla, um bairro pobre da cidade de Medellín. Foi filho de uma mãe solteira, Maria Dioselina Higuita, de quem tomou o apelido. Esta morreria vários anos depois, o que fez com que René permanecera ao lado da sua avó Ana Felisa. A sua infância foi atravessada por grandes dificuldades económicas, e como tal teve de trabalhar como vendedor de jornais.
A sua carreira desportiva teve início no Atlético Nacional, e em 1981 fez parte da selecção Antioquia de sub-16 dirigida por Luis Alfonso Marroquín, que seria campeã da Colômbia. Foi convocado então para a selecção nacional juvenil da Colômbia, com a qual se qualificaria para o Campeonato do Mundo Juvenil, na Russia, em 1985. Nesse ano o Nacional cedeu-o por empréstimo ao Millionarios, onde teve uma temporada notável.
Em 1986 regressaria ao Nacional, que começou a ser treinado por Francisco Maturana e sob a sua batuta Higuita conquistaria vários títulos. No dia 31 de Maio de 1989, com Higuita na baliza, o Atlético Nacional proclamou-se campeão da Copa Libertadores da América, o primeiro triunfo neste torneio para uma equipa colombiana. A final, jogada contra o Olimpia de Paraguay, em Bogotá, foi decidida após a marcação de grandes penalidades, com Higuita a defender vários e a dar assim a vitória à sua equipa.
Em 1992 viajou até Espanha para jogar no Real Valladolid, mas não teve sorte, pois passou mais jogos no banco do que no relvado. Regressou outra vez ao Nacional, com o qual se sagrou campeão da Colômbia em 1994. Em 1995 alcança de novo a final da Copa Libertadores da América, a qual o Atlético Nacional perdeu com o Grémio de Portoalegre. Nesse torneio recorde-se que nas meias-finais contra o River Plate, num jogo disputado em Medellín, um livre directo apontado por si acabou no fundo das redes dos argentinos, um golo que empatava assim a eliminatória, a qual seria mais tarde desempatada através do recurso às grandes penalidades onde Higuita brilhou mais uma vez.
Higuita jogaria depois no Club Veracruz do México, e mais tarde no Aucas do Equador.
Em Novembro de 2004 participou no jogo de despedida do seu colega paraguaio José Luis Chilavert. Também esteve presente na despedida de Diego Armando Maradona.
Higuita também é hoje recordado por ser um dos pioneiros dos guarda-redes goleadores, durante a sua carreira profissional marcou 41 golos (37 de penaltie e 4 na conversão de livres directos) em jogos oficiais.
René Higuita foi convocado pela primeira vez à selecção principal da Colômbia em 1987, para disputar a Copa América de 1987.

O melhor momento da carreira que o haveria de crucificar para sempre

Em 1989 com a selecção colombiana conseguiu qualificar-se para o Campeonato do Mundo de futebol, que um ano mais tarde iria decorrer em Itália. Nesse Mundial defendeu uma grande penalidade contra a Jugoslávia. A Colômbia qualificou-se para os oitavos-de-final, onde iria jogar com a surpresa da prova, os Camarões, de Roger Milla. Esse jogo vai ficar eternamente gravado na memória de Higuita, e de todos os fãs do futebol. Durante o prolongamento a bola chega tranquilamente até Higuita que resolve fazer uma das suas jogadas habituais, ou seja, sair a jogar como se fosse um qualquer Garrincha ou Cristiano Ronaldo, a fintar tudo e todos os que lhe aparecessem pela frente. Teve azar, perdeu a bola para Roger Milla que não desperdiçaria a oportunidade de marcar golo e colocar a sua equipa nos quartos-de-final. A Colômbia estava eliminada por um erro mortal de Higuita. O outro grande momento da sua carreira foi vivido a l 7 de Setembro de 1995 na catedral do futebol mundial, o Estádio de Wembley. Durante uma partida amigável entre a Colômbia e a Inglaterra, Higuita defendeu um remate de Jamie Redknapp com uma acrobática defesa à escorpião, uma manobra que ficou imortalizada na história do futebol.
Defendeu as cores da Colômbia em 68 vezes. A sua última convocatória foi para a Copa América de 1999.
Os seus escândalos públicos começaram em 1991 quando foi visitar à prisão o barão da droga Pablo Escobar, de quem se declarou publicamente amigo do peito. Mas o mais grave de todos ocorreu em 4 de Junho de 1993 quando foi preso por estar implicado num rapto da filha de uma figura pública colombiana importante. Esteve seis meses preso, e chegou a iniciar uma greve de fome como forma de protesto.
Mais tarde viu-se envolvido numa zaragata (socos e pontapés) com o jornalista desportivo Cesar Augusto.
A 23 de Novembro de 2004 acusou cocaína num teste realizado depois de um jogo da sua equipa da altura, o Aucas. Como consequência a Federação Equatoriana de Futebol suspende-o por seis meses.
No primeiro semestre de 2005, Higuita participou no "reality show ""La isla de los famosos". Participaria ainda noutros programas deste género, devido à sua originalidade e... loucura. O futebol era já nesta altura uma mera recordação para si.
Recentemente chocou a Colômbia inteira quando apareceu com uma nova cara. Fez uma operação plástica ao rosto que chocou o país, já que parecia-se mais com um travesti do que com o verdadeiro René Higuita.
O "homem escorpião" no seu melhor e no seu pior!
 
NOTA: Texto escrito em 29 de Maio de 2007 no blog

Frank Borghi

Já aqui falámos daquela que é considerada até hoje como a maior surpresa – ou o maior escândalo – de todos os tempos do futebol Mundial, mais precisamente da vitória dos amadores dos Estados Unidos da América (EUA) sobre a gigante Inglaterra (por 1-0) no Mundial de 1950 (ver post Grandes Clássicos da Bola (1), de Abril de 2007).
Já aqui falámos também do homem que tornou essa surpresa possível (o autor do golo), de seu nome Joe Gaetjens (ver post Estrelas Cintilantes (1), de Abril de 2006).
Hoje iremos visitar outro dos heróis de Belo Horizonte (localidade brasileira onde decorreu esse célebre jogo), mais precisamente Frank Borghi, o homem que brilhantemente defendeu nesse Campeonato do Mundo, e em particular no desafio ante os ingleses, as redes dos EUA.
Descendente de italianos Borghi nasceu a 9 de Abril de 1925, em St. Louis, estado de Missouri, e foi um dos mais brilhantes guarda-redes norte-americanos de todos os tempos apesar de somente ter vestido por nove vezes a camisola da selecção principal dos EUA. Curiosamente começou a sua carreira desportiva como jogador de basebol.
No entanto, a paixão pelo soccer (futebol) era enorme em St. Louis, localidade onde havia um grande número de jogadores e equipas de futebol, e Frank não tardou em dedicar-se a 100% ao desporto rei. Aliás, na década de 50 St.Louis era considerada o “o grande viveiro do futebol” dos EUA, a localidade onde se encontravam os melhores jogadores do país. Curioso também é o facto de Borghi ter escolhido a posição de guarda-redes pela força do seu lançamento de braços (pela razão de ter actuado na posição de lançador nos tempos em que jogava basebal). Com os braços ele conseguia colocar a bola em qualquer posição do campo, e diz quem o viu jogador que nunca usou o pontapé para colocar a bola em campo.
Como profissional jogou pelos St. Louis Simpkins-Ford onde venceu duas US Open Cup's, em 1948 e 1950. Mas o grande momento da sua carreira foi a chamada à selecção dos EUA que disputou o Mundial de 1950, que decorreu no Brasil.
Uma equipa formada exclusivamente por jogadores amadores, que partiu para o Brasil apenas com o intuito de aprender um pouco mais sobre o futebol com os mestres do Brasil, Inglaterra, Itália, Espanha, Suécia, ou Uruguai, as potências da altura.
A fragilidade da equipa norte-americana era de tal maneira evidente que a Inglaterra encarou o desafio com os soccer boys como um mero treino. Uma decisão que saiu cara aos inventores do futebol já que em Belo Horizonte os EUA, que na noite anterior ao jogo tuinham ficado na farra até altas horas da madrugada, bateram os ingleses por 1-0. A par de Gaetjens (o autor do golo) Borghi foi o herói da tarde ao defender tudo o que havia para defender. Ele defendeu ainda a baliza dos EUA nos outros dois jogos que a equipa disputou nesse Mundial. Em 1976 ele foi incluído no United States National Soccer Hall of Fame (Museu do Futebol dos EUA).

Legenda das fotografias:

1- Frank Borghi envergando a camisola dos EUA
2. O histórico "11" que derrotou a poderosa Inglaterra por 1-0 no Mundial de 1950
3- Envergando as cores do St. Louis Simpkins-Ford

NOTA: texto escrito em 19 de Outubro de 2007 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Bert Patenaude

A lenda que hoje vamos recordar nasceu no longínquo ano de 1909, mais precisamente no dia 4 de Novembro, em Fall River, no Estado de Massachusetts, Estados Unidos da América.
Filho de pais franco-canadienses Bertram Albert Patenaude, ou simplesmente Bert Patenaude, foi um dos mais brilhantes futebolistas norte-americanos das décadas de 20 e 30 do século passado.
Jogou a nível profissional na antiga American Soccer League, onde apontou 114 golos em 158 jogos realizados. Ganhou por três vezes a US Open Cup (competição mais importante da época do futebol norte-americano), duas pelos Fall River Marksmen (1930 e 1931), e uma pelo St. Louis Central Breweries FC (em 1935), equipas onde fez dupla com outro astro da bola dos Estados Unidos, Billy Gonsalves, de quem já falámos aqui no Museu. Patenaude jogaria ainda pelos New York Yankees e os New York Giants.


O primeiro hattrick da história dos Mundiais pertence-lhe...

Mas o grande momento da carreira deste avançado aconteceu em 1930, durante o 1º Campeonato do Mundo da FIFA, que decorreu, como se sabe, no Uruguai. Juntamente com Gonsalves, McGhee e Florie, Patenaude formou umas das equipas mais fortes da história do soccer (futebol) dos Estados Unidos.
Nesse Mundial, mais precisamente no dia 17 de Julho, Patenaude entrou para a história do futebol planetário ao ter sido o primeiro jogador numa fase final desta competição a apontar três golos (o popularmente chamado hattrick) num só jogo. Tal feito ocorreu diante do Paraguai, jogo disputado em Montevideo que os Estados Unidos da América venceriam por 3-0, com os golos de Patenaude a serem apontados aos 10, 15 e 50 minutos.
Esta foi uma descoberta recente, pois até 2006 a FIFA atrbuía o primeiro hattrick de um Mundial ao argentino Guillermo Stabile. A entidade máxima do futebol Mundial corrigiu esse erro graças a dados fornecidos por historiadores e fãs da modalidade, assim como a uma extensa investigação seguida da confirmação pela federação de futebol dos Estados Unidos.
No Mundial de 1930 Bert Patenaude marcaria ainda contra a Bélgica no segundo e penúltimo jogo que a sua selecção realizaria no Uruguai, tendo sido eliminada nas meias-finais da prova pela Argentina por expresivos 6-1.
Patenaude marcou seis golos (quatro dos quais no Mundial de 30) em apenas quatro partidas ao serviço da selecção de seu país (três no Mundial de 30 e outra num jogo particular diante do Brasil). Curiosamente, a presença dos Estados Unidos no Mundial de 1930 foi a melhor participação deste país até aos dias de hoje, já que alcançaram o 3º lugar, ficando apenas atrás do campeão Uruguai e da vice-campeã Argentina.
O avançado entrou para o Hall of Fame do futebol de seu país em 1971. Morreria três anos depois.
Legendas das fotografias:
1- Bert Patenaude
2- Fase do jogo entre a Argentina e os Estados Unidos da América a contar para as meias-finais do Mundial de 1930
 
NOTA: Texto escrito em 21 de Dezembro de 2007 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Aldo Donelli

A nossa estrela cintilante de hoje foi um dos melhores futebolistas norte-americanos das décadas de 20 e 30 do século passado. O seu nome é Aldo Teo Donelli, um descendente de emigrantes italianos nascido a 22 de Julho de 1907, em Morgan, no Estado da Pennsylvania, nos Estados Unidos da América.
Popularmente conhecido como Aldo "Buff" Donelli, pela sua admiração pelo artista "Buffalo" Bill Cody, este jogador começou a sua brilhante carreira de futebolista aos 15 anos, no Morgan Strasser, clube que representou de 1922 a 1928 na Liga Amadora de Pittsburgh. Este avançado-centro jogou sempre como amador. Mudou-se posteriormente, em 1929, para o Heidelberg, ajudando este clube a vencer (na temporada 1928/29) a US Amateur Cup, marcando cinco golos na final ante o Newark First Germans, cujo resultado final ficou em 9-0.Além do soccer (futebol) Donelli praticou ainda futebol americano, actuando pela Duquesne University entre 1926 e 1929.

Nos princípios dos anos 30 quando defendia as cores de uma equipa de futebol da localidade de Curry foi seleccionado para representar a selecção dos Estados Unidos da América no Mundial de 1934, que decorreu em Itália.
Neste último país marcaria quatro golos no jogo de qualificação para a fase final do Mundial contra o México. Já na dita fase final da competição o combinado norte-americano enfrentaria a poderosa equipa da casa, a Itália, no Estádio do Partido Nacional Fascista, em Roma, tendo o resultado final cifrado-se num esmagador 7-1 a favor dos transalpinos, que como se sabe iriam sagrar-se pela primeira vez na sua história campeões do Mundo nesse Mundial. O tento de honra dos Estados Unidos da América no duelo ante a Itála seria apontado por Donelli, aos 57 minutos. Estes dois jogos seriam os únicos que Donelli faria pela selecção dos Estados Unidos.
Em 1935 ele jogou como convidado pelos New York Americans quando esta equipa fez uma digressão pelo México. De regresso aos Estados Unidos concentrou-se no futebol americano, tendo treinado as equipas dos Pittsburgh Steelers e dos Cleveland Rams, ambos da National Football League (principal campeonato de futebol americano dos Estados Unidos). Retirou-se definitivamente do futebol em 1944 quando actuou pelo Morgan Strasser na Open Cup final desse mesmo ano contra o Brooklyn Hispano. Em 1954 o seu nome foi incluido no National Soccer Hall (museu de futebol dos Estados Unidos da América). Morreria a 9 de Agosto de 1994, em Fort Lauderdale, na Florida.
Legendas das fotografias:
1- Aldo "Buff" Donelli
2- Selecção dos Estados Unidos da América entrando em campo para defrontar a Itália no Mundial de 1934

NOTA: Texto escrito em 30 de Dezembro de 2007 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Preguinho

Poucos saberão que a estrela que hoje vamos visitar foi um dos pioneiros – senão mesmo o principal – da gloriosa história da selecção do Brasil em fases finais dos Mundiais de futebol. Ele foi nada mais nada menos do que o autor do primeiro golo do combinado brasileiro em Campeonatos do Mundo da FIFA. Falamos de João Coelho Netto, conhecido no planeta da bola como Preguinho.
Nasceu no Rio de Janeiro, a 8 de Fevereiro de 1905 e faleceu na mesma cidade a 1 de Outubro de 1979. Foi um dos 14 filhos do famoso escritor Coelho Netto.
Preguinho foi um dos mais brilhantes e populares avançados do futebol canarinho das décadas de 20 e 30 do século passado. Durante a sua gloriosa carreira actuou unicamente pelo Fluminense, do Rio de Janeiro, numa primeira fase de 1925 a 1935, e numa outra fase de 1937 a 1938.
Dedicou a este clube toda a sua vida, já que a sua família era uma das mais influentes deste emblema carioca, já antes dele nascer, tendo sido inscrito como sócio número 20 do tricolor.
Foi um atleta completo. Disputou oito modalidades desportivas pelo Fluminense, mais concretamente, futebol, voleibol, basquetebol, pólo aquático, saltos ornamentais, natação, hóquei em patins e atletismo.
É um dos maiores artilheiros do Fluminense de todos os tempos, com 184 golos marcados.
Foi o melhor marcador do clube nos campeonatos cariocas de 1928, 1929, 1930, 1931 e 1932, sendo que em 1930 e 1932 foi o artilheiro do Campeonato Carioca.
Recusou sempre receber dinheiro do clube, permanecendo como amador mesmo após a profissionalização do futebol.
Uma (das muitas) história curiosa remonta ao ano de 1925, quando depois de nadar a prova dos 600 metros, e consequentemente ajudar o Fluminense a sagrar-se tricampeão estadual de natação, foi de táxi às Laranjeiras (zona onde fica situado o estádio do clube) a tempo de jogar contra o São Cristóvão e ganhar o título do Torneio Início. Preguinho era assim...
Um dos jogos inesquecíveis de Preguinho foi o Fla-Flu de 1928. O guarda-redes Amado, do Flamengo, desafiou-o na semana do clássico com um telegrama onde dizia: "Amanhã será canja. Não farás nenhum golo". Preguinho entrou em campo enraivecido e aos 2 minutos de partida fez o primeiro, de longa distância. O segundo foi de calcanhar, depois de a bola ter escorregado das mãos de Amado. O Flu venceu por 4-1 e Preguinho saiu de campo de alma lavada.
Mas o golo de sua vida, como ele dizia sempre, foi marcado a 7 de Dezembro de 1930, no dia em que o Botafogo se sagrou campeão da cidade. Preguinho recebeu a bola no seu meio-campo e ao ver o guarda-redes adversário adiantado fez-lhe um chapéu como Pelé tentou fazer no Mundial de 1970 contra a Checoslováquia.
Trouxe para o Fluminense 387 medalhas e 55 títulos nas oito modalidades que praticava. Tais façanhas fizeram dele o mais festejado atleta tricolor e, em 1952, o clube concedeu-lhe o primeiro título de grande benemérito atleta, o facto que mais o orgulhou até a sua morte.
No futebol foi campeão carioca em 1924, 1936, 1937 e 1938.
A paixão de Preguinho pelo futebol começou a diminuir com o aparecimento do profissionalismo em 1933. Ele, que sempre considerou o futebol um divertimento, e jogava apenas por prazer, jamais se profissionalizou e sofreu muito quando foi adoptada a lei que só permitia aos amadores jogarem três vezes numa equipa profissional.

O primeiro golo do Brasil em Mundiais

Em 1930 ele entrou definitivamente, como jogador de futebol, para a galeria dos grandes ídolos do Brasil. Foi o autor do primeiro golo da selecção brasileira num Campeonato do Mundo, num jogo contra a Jugoslávia (derrota do Brasil por 1-2), no Mundial de 1930. No jogo seguinte da competição, ante a Bolívia, marcou dois dos quatro golos da vitória brasileira (4-0). Uma selecção que não era... uma selecção, mas sim um conjunto de jogadores oriundos de equipas do Rio de Janeiro, uma vez que uma zanga interna entre a Confederação Brasileira dos Desportos (CBD) e a Associação Paulista de Desportos Atléticos não permitiu que a selecção que foi ao primeiro Mundial da FIFA contasse com a força máxima.
De São Paulo, apenas o jogador do Santos, Araken Patuska, quis participar. Ficaram de fora grandes craques, como Friendereich, Feitiço, Nestor, Amílcar e outros.
Para além de ter sido o autor do primeiro golo do escrete em fase finais do Mundial, Preguinho ficaria ainda na história por ter sido o melhor marcador do Brasil na competição de 1930 (com 3 golos) e por ter capitaneado essa equipa.
Morreu quase na miséria, em 1979, num pequeno e modesto apartamento nas Laranjeiras, no Rio de Janeiro.
Legenda das fotografias:
1- João Coelho Netto, o popular Preguinho
2- Com as cores do clube do seu coração: o Fluminense
3- Momento histórico para o futebol brasileiro: a selecção do Brasil entra em campo para disputar o seu primeiro jogo na fase final de um Mundial
4- O "onze" que defrontou a Bolívia no Mundial de 1930
 
NOTA: Texto escrito em 4 de Janeiro de 2008 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Lucien Laurent

O seu nome ficará perpetuado na história do desporto rei, em especial a dos Campeonatos do Mundo de Futebol. Da sua autoria foi o primeiro golo numa fase final de um Mundial, um feito ocorrido em Montevideo, no Uruguai, em 1930. Falamos de Lucien Laurent, um cidadão francês nascido a 10 de Dezembro de 1907, em Saint-Maur-des-Fossés, uma localidade situada nos arredores de Paris. Entre 1921 e 1930 Laurent jogou no clube semi-profissional Cercle Athlétique de Paris, assinando mais tarde pela equipa do Sochaux, clube que como se sabe está ligado à empresa de automóveis Peugeut, onde Laurent era empregado.
E voltando ao Uruguai, em 1930, para dizer que no jogo de abertura do primeiro Mundial da Fifa, entre a França e o México, este mediano jogador francês, até então totalmente desconhecido, entrou para a história. Corria o minuto 19 desse encontro quando Laurent num remate em vólei apontou o primeiro golo desse encontro, e desse Mundial. Este feito o primeiro golo da história de um Campeonato do Mundo. A França venceria esse jogo por 4-1, tendo perdido a possibilidade de apuramento para a segunda fase da prova após ter sido derrotada posteriormente pela Argentina e pelo Chile.
Lucien Laurent jogou por 10 vezes com a camisola da França, tendo apontado apenas um golo, precisamente o do Mundial de 1930. Com a chegada da II Grande Guerra Mundial foi chamado pelo exército francês, tendo sido feito prisioneiro pelos alemães durante três anos.
Como futebolista jogaria ainda pelo Club Français (entre 1933 e 1934), FC Mulhouse (entre 1935 e 1936), Rennes (entre 1937 e 1939), Estrasburgo (entre 1939 e 1943), Toulouse (1937, e entre 1943 e 1946), terminado a sua carreira no Besançon, em 1946. Morreria com a bonita idade de 97 anos, a 11 de Abril de 2005.


Legendas das fotografias:
1- Lucien Laurent
2- Equipa da França no Mundial de 1930, Laurent é o segundo da fila de baixo da direita para a esquerda
3- A nossa estrela com a bonita idade de 97 anos

NOTA: Texto escrito em 22 de Fevereiro de 2008 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Guillermo Stábile

Vamos hoje visitar outro herói da bola da primeira metade do século passado, mais precisamente dos anos 20 e 30. Um homem que viu o seu nome ser perpetuado no Atlas do Futebol Mundial por ter sido o primeiro artilheiro de um Campeonato do Mundo. Esse homem é Guillermo Stábile, nascido a 7 de Janeiro de 1905 em Buenos Aires, na Argentina. Goleador eximio Stábile começou a sua carreira no Club Atlético Huracán, de Buenos Aires, onde actuou como atleta amador entre 1920 e 1930. Por este emblema das pampas conquistou inúmeros títulos amadores, pois convém referir que a 1ª Divisão Nacional argentina apenas seria fundada em 1931.
1930 seria o ano em que Stábile se daria a conhecer ao Mundo inteiro. O ano em que foi convocado para representar a sua selecção no primeiro Mundial de futebol da FIFA, no Uruguai, onde se sagrou vice-campeão do Mundo. E se o Uruguai venceu o título mundial Stábile venceria o título de melhor marcador da competição, com um total de oito golos apontados em quatro jogos realizados. Estes seriam, aliás, os únicos jogos em que vestiria a camisola do seu país.
Fez o seu primeiro jogo no Mundial de 1930 diante do México, substituindo o habitual titular da linha avançada das pampas Roberto Cherro que se lesionara no primeiro encontro da sua equipa na competição. O jogo diante dos mexicanos terminou com a vitória da Argentina por 6-3 e Stábile marcou... três golos. No último jogo da fase de grupos os argentinos defrontaram o Chile e venceram por 3-1, com Stábile a fazer o gosto ao pé por duas vezes.
Nas meias-finais a Argentina esmagou os Estados Unidos da América por 6-1 e o nosso craque de hoje apontou mais dois golos, ajudando desta forma a sua equipa a chegar à final.
E no dia 30 de Junho de 1930 Uruguai e Argentina subiram ao relvado do majestoso Estádio Centenário, em Montevideo, para disputar o primeiro título mundial da história. O resultado final, como já aqui aludimos em várias ocasiões, cifrou-se num 4-2 a favor dos charruas, com Stábile a deixar a sua marca pessoal no encontro ao apontar o segundo golo argentino.
Sagrava-se desta forma como o primeiro melhor marcador da história de um Mundial.
A excelente campanha no Uruguai valeram-lhe vários convites de equipas europeias, tendo na temporada de 1930/31 defendido as cores dos italianos do Génova, onde permaneceria até 1935. Mudaria-se depois para o Nápoles, onde apenas jogaria uma temporada (1935/36).
De 1936 a 1939 actuou em França, no Red Star de Paris, clube onde findou a sua carreira de futebolista.
Após pendurar as chuteiras tornou-se treinador, e também nesta área o seu nome brilharia a grande altura. Foi seleccionador argentino entre 1939 e 1960 tendo vencido seis Copas Américas (1941, 1945, 1946, 1947, 1955 e1957)!!! Antes de pegar nos comandos da selecção do seu país trabalhou como treinador/jogador no Génova (1931/32) e como treinador no Red Star de Paris (de 1937 a 1940). Na Argentina orientou as equipas do Huracán (entre 1940 e 1949) e do Racing Club (entre 1949 a 1960). Faleceu na sua cidade natal a 27 de Dezembro de 1966.

NOTA: Texto escrito em 16 de Abril de 2008 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Vinha

Depois de um – longo – período de férias o Museu Virtual de Futebol volta a abrir as suas portas aos apaixonados pelo belo jogo da bola. E regressamos com uma visita a um jogador que fez as minhas delícias de garoto. Um homem que para os mais familiarizados com a história do futebol foi um verdadeiro matreco da bola, um tosco, daqueles jogadores a quem a bola só atrapalha. Sim, até pode ser verdade, de craque da bola ele tinha muito pouco, ou mesmo nada. Mas tinha o que hoje em dia falta a muitas vedetas, ou pseudo-vedetas, do planeta da bola: humildade, companheirismo, trabalhador incansável, e sobretudo... uma alma enorme. Aliadas ao seu aspecto – físico – invulgar para um jogador de futebol estas características fizeram deste nobre cidadão um dos meus ídolos dentro do mundo do futebol. Senhoras e senhores visitantes fiquem nas próximas linhas com Alves Nilo Marcos Lima Fortes, popularmente conhecido no futebol como Vinha.
Nascido em Cabo Verde a 6 de Novembro de 1966 este gigante chegou a Portugal para representar o Atlético Clube de Portugal na temporada de 1988/89. E digo gigante não por ter sido, e volto a frisar a ideia, um mago da bola mas sim pela sua estampa física. O Vinha era – e continua a sê-lo - um rapaz alto, muito alto, alto demais para um jogador de futebol, com 1.93m (!!!) e muito magrinho. Na Tapadinha ficou duas temporadas antes de se mudar para o clube que o haveria de tornar famoso, o Salgueiros. A sua época de estreia pelo velho salgueiral, em 1990/91, coincide com a melhor fase vivida pelo popular clube portuense em toda a sua história, a época em que os encarnados do Norte terminaram o campeonato no 5º lugar, o que daria direito à participação na Taça UEFA da temporada seguinte. A época em que eu me deixei encantar pela Alma Salgueirista, em que me tornei membro da grande e nobre família salgueirista. A história do meu amor (à primeira vista) pelo Salgueiros já a confessei aqui em Janeiro passado, altura em que falei deste muito querido emblema portuense. Recordei também na altura alguns jogadores dessa mágica equipa que alcançou a qualificação para as competições europeias, tais como o Pedro Reis, o Rui França, o Leão, o Madureira, o Milovac ou o Nikolic. Mas houve um que me chamou à atenção, não só pela sua invulgar figura, muito alto, com uma corrida desengonçada, muito trapalhão com a bola nos pés, mas sobretudo pela sua alma, pela sua entrega ao jogo. Sim, era o Vinha, um homem que personificava como ninguém o verdadeiro significado do que era a alma salgueirista. Trabalhador humilde e dedicado ele era um dos jogadores mais queridos da massa associativa do clube. Um verdadeiro cavalheiro do futebol. Na época de estreia pelo Salgueiros fez 26 jogos e apontou 7 golos. Apesar de jogar como avançado esta foi a temporada em que fez mais vezes o gosto ao pé, dando para ver que de facto o Vinha era tudo menos um grande goleador. Ele era o operário daquela grande equipa, o rapaz humilde, envergonhado, que quando a bola lhe chegava aos pés, ou à cabeça, tratava de fazer o melhor que podia com ela para ajudar a sua equipa a atingir os objectivos. Era daqueles jogadores que não queria protagonismo mas sim ajudar a equipa... sempre. Era isso que me fascinava no Vinha, a sua postura em campo.
Na aventura europeia do Salgueiros participou nos dois jogos na eliminatória com os franceses do Cannes, ficando desde logo o seu nome gravado a letras de ouro na história do clube.
De aspecto frágil relembro um dos papéis principais deste homem noutro episódio da história do salgueiral, mais concretamente na última jornada do campeonato da época de 1992/93 no terreno do Espinho onde a poucos minutos do fim o Salgueiros perdia por 0-1 e com aquele resultado estava matematicamente na 2ª Divisão. E eis que no último minuto do encontro o desengonçado Vinha estica a sua perna longa e põe a bola no fundo da baliza espinhense fazendo o 1-1 final que manteve o Salgueiros na 1ª Divisão. E ainda hoje recordo esse momento, em que de rádio ao ouvido pulei de alegria gritando o nome do herói cabo-verdiano.
Esse golo terá ajudado, por certo, a que na temporada seguinte o FC Porto tenha ido a casa do vizinho Salgueiros contratar o gigante Vinha. E de azul e branco equipado o cabo-verdiano não podia ter tido melhor estreia, quando no encontro da 2ª mão da Supertaça Cândido de Oliveira, ante o Benfica, disputado nas Antas, entrou em campo já na 2ª parte e aos 84 minutos fez o único golo do jogo, empatando naquele momento a “eliminatória” da supertaça, já que na 1ª mão os benfiquistas haviam vencido também por 1-0. Alguns meses mais tarde o FC Porto venceria a prova que seria decidida numa finalissíma realizada em Coimbra. Alguns dias depois do golo da supertaça Vinha voltaria a ser carrasco do Benfica, quando o FC Porto recebeu na 1ª jornada do campeonato os seus rivais de Lisboa. A girafa cabo-verdiana marcaria de cabeça o primeiro golo desse jogo que terminaria empatado a três golos. Confirmaria alguns meses mais tarde a sua vocação para marcar golos aos grandes de Lisboa quando nas Antas fez um dos dois golos com que o FC Porto bateu o Sporting. Outro grande momento de azul e branco vestido aconteceu no final dessa temporada quando participou na vitória do emblema nortenho na finalissíma da Taça de Portugal também diante do Sporting (a final tinha terminado empatada a zero) que foi concluida com um resultado de 2-1. Vinha foi suplente utilizado nesse dia, vencendo assim o primeiro dos seus dois únicos troféus conquistados ao serviço dos dragões (o outro foi a supertaça).
Depois dessa época seria dispensado pelos portistas, tendo então regressado ao seu Salgueiros onde cumpriu mais quatro temporadas. Na 1ª Divisão fez mais de 150 jogos pelo seu clube de coração. Após a saída do clube de Paranhos, em 1997/98, teria ainda curtas passagens pelos escalões secundários do futebol português, mais concretamente pelo Paços de Ferreira, Lousada, Imortal e Tirsense, clube este que há poucas semanas atrás tinha sido o último em que Vinha havia jogado. Isto porque com o anunciado regresso do futebol sénior do Salgueiros foi anunciado que o gigante cabo-verdiano iria integrar o plantel do clube na 2ª Divisão Distrital da época 2008/09. Este regresso de Vinha ao futebol, aos 41 anos de idade, não tem senão a ver com o facto de querer ajudar o Salgueiros a reconquistar o seu espaço no futebol nacional. Mais uma vez Vinha mostrou que os grandes jogadores não se medem apenas pelas qualidades técnicas mas também pelas qualidades humanas, e neste aspecto este homem é um Senhor.


Legendas das fotografias:
1- O "cromo" de Vinha
2- Integrando um "11" do seu Salgueiros (Vinha é o segundo da fila de cima a contar da esquerda para a direita)

NOTA: Texto escrito em 22 de Setembro de 2008 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Bart McGhee

Depois de algum tempo em que estivemos arredados das maravilhosas histórias do mundo da bola, e desde já pedimos por isso desculpas aos nossos habituais visitantes, o museu aproveita hoje o ditado “ano novo, vida nova” para também ele regressar aos seus contos futebolísticos.
E fazemo-lo com uma longa viagem até às primeiras décadas do século passado para descobrir um pouco da história de um dos grandes heróis norte-americanos dessa altura, de seu nome Bartholomew McGhee.
Conhecido nos meandros da bola como Bart (diminuitivo de Bartholomew) este homem nasceu na Escócia, mais concretamente em Edimburgo, no dia 30 de Abril de 1899, sendo filho do famoso futebolista internacional escocês James McGhee.
Em 1912, a bordo do navio Caledonia, Bart e o seu irmão mais velho, Jim, emigraram para os Estados Unidos da América (EUA), juntando-se a seu pai que dois anos antes havia partido para terras do Tio Sam em busca de uma vida melhor.
Chegado aos States o mais novo membro do clã McGhee, que contava nessa época com 19 anos de idade, começou a mostrar os seus dotes futebolísticos nos New York Shipbuilding, equipa amadora de New Jersey. Corria então a temporada de 1917/18.
Aí ele permaneceria por mais uma época até se mudar para o Wolfenden Shore, onde ficaria até 1921. A partir de 1922 outros clubes se seguiram na sua gloriosa carreira depois de abandonar esta equipa, nomeadamente os conjuntos profissionais (da American Soccer League) do Philadelphia Hibernian, o New York Field Club, o Fleisher Yarn, o Indiana Flooring, os New York Nationals, o Philadelphia Field Club (por empréstimo dos Nationals) e os New York Giants.
Em termos de títulos Bart, que jogava como extremo-esquerdo, alcançaria em 1928, com a camisola dos New York Nationals, a vitória na US Open Cup, naquele tempo a prova mais importante dos EUA. No ano seguinte venceria a Lewis Cup, competição pertencente à American Soccer League (ASL).
Segundo estatísticas da ASL Bart McGhee participou em pelos menos 350 jogos e apontou 137 golos entre 1921 e 1931, ano este em que pendurou as chuteiras ao serviço do New York Shipbuilding.
Mas aquele que é considerado o seu maior feito ocorreu com a camisola da selecção dos EUA, com a qual se tornou num jogador lendário para aquelas bandas. Considerado um dos melhores jogadores norte-americanos da altura não foi de estranhar que Bart tivesse sido convocado para a equipa norte-americana que disputou o primeiro Campeonato do Mundo da FIFA, que em 1930 decorreu no Uruguai. Juntamente com Billy Gonsalves, Jimmy Gallagher, Tom Florie e Bert Patenaude a nossa figura de hoje fez desta aquela que para muitos é considerada a melhor selecção dos EUA de sempre! Equipa que chegaria até à medalha de bronze dessa competição. O maior feito do soccer dos States até à data.
Bart McGhee seria imoralizado nesse Mundial pelo faco de ter sido dele o primeiro golo dos EUA numa fase final, apontado no primeiro jogo do grupo face à Bélgica. Nesse encontro realizado no Parque Central de Montevideo ele faria mais um golo dos três que os EUA bateram o combinado belga. Jogaria ainda as outras duas partidas da sua selecção nesse Mundial, diante do Paraguai e da Argentina, este último referente às meias-finais.
Estes seriam os únicos jogos em que Bart vestiria as cores da selecção do país que em 1912 o acolheu.
Em 1986 o seu nome seria introduzido no National Soccer Hall of Fame (museu de futebol dos EUA). Infelizmente não teve a felicidade e orgulho de presenciar esse justo momento, pois havia já deixado o mundo dos vivos precisamente há 30 anos à data de hoje.
Uma última nota para dizer que Bart e o seu pai James são os únicos jogadores a nível mundial com laços familiares deste género, ou seja, pai e filho, a defenderem as cores de dois países diferentes em jogos internacionais.

NOTA: Texto escrito em 8 de Janeiro de 2009 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Santana

Sosseguem os habituais visitantes do Museu quanto a um eventual fecho de portas deste espaço dedicado única e exclusivamente ao belo jogo. Nada disso. O Museu continua vivo... apenas o facto de o relógio não parar e o trabalho abundar com fartura têm sido impeditivos da fonte futebolística deste local jorrar com mais frequência.
No entanto, hoje essa tendência é contrariada e vamos entrar na máquina do tempo e fazer uma viagem até às décadas de 50 e 60 do século passado do futebol português para recordar um dos seus artistas mais virtuosos. Joaquim Santana Silva Guimarães, é o nome da lenda dos relvados que hoje visitaremos. Um nome que esteve ligado à época dourada do SL Benfica, a época onde o emblema lisboeta se deu a conhecer ao Mundo com o seu futebol mágico e demolidor personificado na conquista de vários títulos nacionais e internacionais. Este homem foi um dos principais operários do grande Benfica de 60, a gloriosa equipa que alcançou a fama ao marcar presença em cinco finais da prova rainha do futebol europeu na citada década, tendo vencido duas delas. Mas já lá vamos...
Santana, nome pelo qual se tornou famoso, foi uma das muitas pérolas achadas pelo futebol português nas suas ex-colónias africanas, neste caso Angola.
Nasceu a 22 de Março de 1936, no Lobito, tendo iniciado a sua aventura futebolística no Sport Clube de Catumbela onde ai começou a dar nas vistas, pese embora lhe tivesse sido colocada a alcunha de molengão, por guardar em demasia a bola para si fazendo ouvidos moucos a quem pedia um passe ou um centro e de muitas vezes jogar a passo. No entanto, o seu futebol era sinónimo de magia, ouro puro, não sendo de estranhar que na temporada de 54/55 fosse transferido para Portugal, realizando assim o sonho de qualquer menino nascido nas colónias lusitanas. E o seu destino foi nada mais nada menos do que o poderoso e popular SL Benfica.
Chegado à Luz teve de corrigir alguns dos seus defeitos, entre os quais o egoísmo de que era acusado aquando espalhava magia pelos campos angolanos. De forma determinada e humilde não só superou esses defeitos como aprimorou as suas técnicas de avançado, depressa se tornando numa das pérolas dos escalões de formação do emblema lisboeta. Realizaria duas épocas nas categorias de aspirantes e júniores onde alcançaria uma média de um golo apontado por jogo.
A 21 de Outubro de 1956 dá-se um dos grandes momentos da vida de Santana, dia em que finalmente vestiu a camisola da equipa principal do Benfica num encontro na Luz diante do Caldas que terminou com o triunfo dos encarnados por 1-0.
Naquela época o clube da Luz tinha já uma autêntica constelação de estrelas pelo que um eventual lugar de titular no 11 era uma tarefa extremamente árdua de alcançar, para não dizer impossível. Santana sabia-o, e com humildade e trabalho saberia esperar pela sua vez para se afirmar definitivamente como titular daquele célebre conjunto.
Foi preciso aguardar até ao final da temporada 58/59 para ver este pequeno – homem de baixa estatura física – grande jogador conquistar uma titularidade traduzida em magníficas exibições que o tornariam numa lenda eterna do clube.

Um dos heróis de Berna

60/61 seria uma época histórica para o Benfica. A época em que o clube ergueu a sua primeira Taça dos Clubes Campeões Europeus (TCE). O local dessa conquista foi o mítico Estádio Wankdorf, em Berna (Suíça), onde na sua primeira grande aparição numa final europeia os encarnados derrotariam o FC Barcelona por 3-2. Nomes como José Águas, Mário Coluna, Cavém, ou Costa Pereira entrariam para sempre no olimpo dos Deuses da bola. A estes juntava-se o nome de Joaquim Santana, o outrora conhecido como molengão de Catumbela fazia uma exibição de gala nessa final e ergueria também bem alto nos céus de Berna a TCE.
Na temporada seguinte o Benfica atingiria de novo o jogo decisivo entre os clubes do Velho Continente, desta feita ante o penta-campeão da Europa Real Madrid, em Amesterdão (Holanda), embora sem Santana no 11, vencendo a sua segunda TCE. Isto, porque nessa equipa figurava já um senhor de seu nome... Eusébio da Silva Ferreira. Pois é, o pantera negra agarraria o lugar de Santana definitivamente, e embora mesmo não participando no jogo final este último jogador foi igualmente considerado campeão europeu em 61/62, uma vez que fez alguns jogos dessa epopeia vitoriosa.
Tapado por Eusébio as aparições de Santana no 11 titular do Benfica seriam cada vez menos, e não fosse isso estariamos hoje quiçá a falar de um galático da bola da dimensão de Pelé, Garrincha, Leónidas, Maradona, Cruyff, Best, Meazza, Platini, ou do próprio Eusébio.
Nas suas aparições esporádicas na equipa titular do Benfica Santana brilhava, e foi assim no jogo da 1ª mão da Taça Intercontinental diante do Santos... de Pelé. Nesse encontro Santana marcaria os dois golos da sua equipa na derrota tangencial (2-3). Na segunda partida assistiu-se a uma exibição demolidarora do jovem Pelé que conduziu a sua equipa a uma goleada de 6-2, a qual significaria a conquista da Intercontinental. Santana marcaria um dos golos do Benfica, o outro seria da autoria de Eusébio.
Em 62/63 pisaria o sagrado relvado do mítico Wembley para disputar a final da TCE diante do Milan. Não teve a mesma sorte de duas épocas antes pois a sua equipa perderia o troféu para o conjunto italiano depois de uma derrota por 1-2.
Com o passar dos anos Santana teria cada vez mais dificuldades em impor-se no 11 encarnado e já na fase descendente da sua carreira experimentou brilhar em clubes de menor dimensão do futebol português, casos do Salgueiros e do Freamunde.
Mesmo não atingindo a fama de águia ao peito de um Eusébio, de um Coluna, de um José Águas, ou de um Simões, Santana foi um dos maiores atletas de sempre que passaram por este clube. Contabilizou 225 jogos (num total de 12 épocas) e apontou 93 golos com as cores do Benfica. Na sua vitrina, e para além das duas TCE, guardaria ainda 7 Campeonatos Nacionais (1956/57, 1960/61, 1962/63, 1963/64, 1964/65 e 1966/67) e 3 Taças de Portugal (1958/59, 1961/62 e 1963/64).
Actuaria ainda pela selecção de Portugal em cinco ocasiões. Viria a falecer em 1989.
Curiosidades em números...

.Primeiro jogo pelos seniores do Benfica: 21 de Outubro de 1956 ante o Caldas, na Luz (vitória por 1-0). Treinado por Otto Glória.
.Último jogo pelo Benfica: 24 de Março de 1968 ante a Sanjoanense, na Luz (vitória por 2-1). Treinado por Otto Glória.
.Primeiro golo ao serviço do Benfica: 22 de Junho de 1957 diante do Oriental, na Luz (vitória por 7-0).
.Último golo pelo Benfica: 30 de Outubro de 1966 diante da Ovarense, em Ovar
(vitória por 6-0).
Primeiro jogo pelo Benfica na Europa: 29 de Setembro de 1960 ante o Hearts (Escócia), em Edimburgo (vitória por 2-1). Treinado por Béla Guttmann.
.Último jogo pelo Benfica na Europa: 30 de Setembro de 1965, ante o Dudelange (Luxemburgo), em em Esch-sur-Alzette (vitória por 8-0). Treinado Por Béla Guttmann.
.Primeiro golo europeu ao serviço do Benfica: 6 de Novembro de 1960, diante do Ujpest (Hungria), na Luz (vitória por 6-2).
.Último golo europeu ao serviço do Benfica: 30 de Setembro de 1965, diante do Dudelange (Luxemburgo), em Esch-sur-Alzette (vitória por 8-0).
Estreia pela Selecção Nacional: 8 de Maio de 1960, diante da Jugoslávia (para a fase de qualificação para o Europeu de 1960), em Lisboa. Treinado por José Maria Antunes.
Último jogo pela selecção: 23 de Janeiro de 1963, diante da Bulgária (para a fase de qualificação para o Euro 1964), em Roma. Treinado por José Maria Antunes.
.Primeiro golo pela selecção: 8 de Maio de 1960, diante da Jugoslávia, em Lisboa.
.Último golo pela selecção: 8 de Maio de 1960, ante a Jugoslávia, em Lisboa.
Legendas das fotografias:
1- Joaquim Santana com as cores do SL Benfica
2- Segurando a TCE juntamente com Coluna e Águas
3- A célebre equipa do Benfica da década de 60, com Santana na fila de baixo

NOTA: Texto escrito em 4 de Junho de 2009 no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

Carmel Busuttil

À semelhança do que vulgarmente acontece todos os anos em cada início de temporada com milhares de futebolistas por esse Mundo fora também eu mudei de clube recentemente... mais concretamente dos “solteiros” para os “casados”... ehehehehe...
É verdade, dei o “nó”, casei-me, um momento único, de grande beleza e emotividade, e só por si inesquecível na minha vida ocorrido a 18 de Setembro passado. Como consequência desse acontecimento viajei até Malta, em lua-de-mel pois claro está, onde tive o prazer de conhecer esta pequena mas bela ilha mediterrânica. Mas não vai ser sobre a minha lua-de-mel que aqui vou entrar em detalhes, nada disso, mas sim falar de alguns aspectos do futebol maltês que me despertaram curiosidade.
Como já disse noutras ocasiões Malta é um dos parentes pobres do futebol europeu. Um país sem expressão futebolítica. Conhecido nos meandros da bola como aquele pequeno e simpático país habituado a levar goleadas dos seus oponentes, isto quer ao nível de selecção quer de clubes. Ao contrário da esmagadora maioria dos países europeus Malta não tem história no futebol, isto é, não tem conquistas. Mas nem tudo é pintado em tons de negro no desporto-rei daquela ilha.
E a nossa história de hoje começa na sequência de uma visita que durante a minha lua-de-mel efectuei à simpática e bela cidade de Mdina, bem no interior da ilha. Deambulando por aquela cidade de traço árabe entrei a certa altura no Museu das Personalidades Maltesas. Passando os olhos pelas paredes do edifício nada de novo inicialmente... fotografias de políticos históricos, figuras ligadas à igreja, artistas das mais diversas áreas... até que dei de caras com um retrato de um jogador de futebol!!! «Curioso!», pensei de imedito, um futebolista no meio de aristrocatas, figuras do Clero, entre outras personalidades históricas do país. Ao aproximar-me do seu retrato e verificar o seu nome a sua imagem não me foi nada estranha, mesmo nada, pois à memória saltaram-me desde logo imagens das décadas de 80 e 90, em especial os jogos em que a selecção de Malta era protagonista, e este homem a sua principal figura. Falo de Carmel Busuttil, o eterno e mágico “número 7” maltês, considerado a maior figura de todos os tempos do futebol da pequena ilha.
Nascido a 29 de Fevereiro de 1964 em Rabat Carmel iniciou a sua tragectória desportiva no emblema na sua cidade natal, o Rabat Ajax.
Em 1979 subiu à categoria sénior do clube, onde por lá ficou até 1987. Esta fase coincidiu com a etapa mais gloriosa da agremiação desportiva, com a obtenção dos dois únicos títulos de campeão nacional do seu palmarés, mais precisamente em 1985 e 1986. Neste último ano o Rabat Ajax fez a dobradinha, isto é, ao campeonato juntou a Taça de Malta.
Carmel Busuttil seria o grande obreiro dessas épicas conquistas para o até então quase sem expressão no futebol da ilha Rabat Ajax. Por este emblema jogou 106 partidas e apontou 47 golos, tendo sido o melhor marcador do campeonato em 86/87 com 10 remates certeiros.
O médio-ofensivo fantasista começou então a ser alvo de cobiça por parte de emblemas estrangeiros, em especial de Itália, muito pela proximidade geográfica de Malta ao país transalpino. No entanto, Il Busu, alcunha pelo qual ficou conhecido entre os seus compatriotas, não foi mostrar o seu futebol para o então considerado melhor campeonato do Mundo, a Série A, mas sim para os amadores do Nuova Verbania, emblema do norte de Itália, onde apenas permaneceu uma temporada (87/88), tendo efectuado 20 partidas e apontado 8 tentos.
Nas seis épocas seguintes jogaria ao mais alto nível no principal campeonato profissional belga, ao serviço do Genk, onde se tornou num dos jogadores-chave deste clube. Busuttil deixaria a Bélgica em 1994 com um total de 166 jogos efectuados e 45 golos apontados.
Regressaria à sua ilha, com um estatuto de verdadeiro ídolo, para representar o Sliema Wanderers. Até 2001, ano em que pendurou as botas, Il Busu ajudou o emblema de Sliema a conquistar o título nacional de 95/96 e a taça de 99/00.
Ao serviço da selecção maltesa actuaria por 111 ocasiões e apontaria 23 golos.
Em termos de prémios individuais seria galardoado por duas vezes, em 82/83 e 85/86, como o futebolista do ano em Malta, e em 2003, dois anos depois do seu retiro, foi reconhecido pela UEFA como o melhor futebolista maltês de sempre.
Apesar de ter pendurado as botas não abandonaria o desporto que o tornou célebre, tendo em 2003 criado a sua própria academia de futebol, a The Buzu Football School.
Abraçaria ainda a carreira de treinador, tendo-a iniciado ao serviço de equipas do futebol escolar maltês, para mais tarde orientar a equipa sénior do Pietà Hotspurs no principal campeonato nacional do país. Entre 2003 e 2005 foi convidado pelo então seleccionador de Malta, o alemão Horst Heese, para ser seu adjunto no leme da equipa nacional. Actualmente desempenha somente funções de ténico no Pietà Hotsuprs.


Legendas das fotografias:
1- Carmel Busuttil emvergando a camisola da selecção Maltesa
2- O plantel do Rabat Ajax de 85/86, o qual conquistou a dobradinha (campeonato e taça), com Il Busu como estrela-mor
3 - Homenageado pelo Estado Maltês

NOTA: Texto escrito em 7 de Outubro de 2009 no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Mihaly Siska

É por muitos considerado como o primeiro grande guarda-redes do futebol português. Alto e de uma enorme envergadura física deixou atrás de si um rasto de pura classe e talento na arte de bem defender as balizas. Isto numa época em que o “desporto-rei” lusitano não era mais do que uma criança a dar os primeiros passos.
Falamos do lendário Mihaly Siska, o húngaro de nascença mas português de alma e coração que se notabilizou no primeiro quarto do século XX ao serviço do Futebol Clube do Porto.
Como já vimos nasceu na Hungria, em 1906, mas viveu a maior parte da sua vida no nosso país, para onde emigrou aos 18 anos de idade pela mão do seu compatriota Akos Tezler, um conceituado treinador de futebol daquela época.
E veio para jogar futebol ao serviço do popular clube nortenho, transferindo-se do “gigante” húngaro do Vasas de Budapeste. A sua contratação causou de imediato polémica cá no nosso burgo, uma vez que lhe havia sido atribuída uma verba mensal de 1000 escudos. Um escândalo, pois não podemos esquecer que na época o futebol português era totalmente amador. Como tal, Siska não se assumiu como profissional de futebol, tendo aceite então um emprego na Sociedade dos Vinhos Borges & Irmão como mecânico.
Paralelamente a este cargo executava com mestria aquilo que na verdade o havia trazido ao nosso país: jogar à bola. As suas exibições com a camisola dos dragões foram lendárias. Rezam as crónicas que foi por sua influência que o FC Porto conquistou inúmeros e importantes triunfos ao longo dos dez anos em que este homem defendeu as redes azuis-e-brancas. Uma dessas crónicas alude para a decisão do título de campeão de Portugal da temporada de 1924/25, entre o FC Porto e o Sporting, partida disputada em Viana do Castelo, onde uma memóravel – e para muitos do outro mundo – exibição de Siska valeu a vitória aos nortenhos por 2-1.
Pelo emblema da “Cidade Invicta” voltaria a vencer o Campeonato de Portugal (nota: prova antecessora da actual Taça de Portugal) em 1931/32 sob a orientação de outro “mago” húngaro que fez escola no nosso país, o treinador Joseph Szabo.
Amava o FC Porto, a cidade e o nosso país, não sendo pois de estranhar que se naturalizasse português, passando posteriormente a adoptar o nome de Miguel Siska. Com o passar dos anos foi reconhecido internacionalmente como um dos melhores guardiões da Europa. Era conhecido nos meandros da bola como o “meia equipa” pela importância já frisada que desde a sua chegada assumiu no jogo do FC Porto. Aos campeonatos de Portugal conquistados já aqui falados juntaria na sua vitrina pessoal inúmeros títulos regionais da Associação de Futebol do Porto.
Devido a problemas de saúde retirou-se dos campos em 1934, assumindo a função de treinador em 1938 quando orientou a equipa do Sport Progresso. Na época de 1938/39 o clube do seu coração chamou-o para orientar a equipa que iria disputar o Campeonato Nacional da 1ª Divisão. O resultado não poderia ser melhor: o FC Porto de Siska sagrou-se campeão nacional, um feito repetido uma temporada mais tarde.
Abandonado o comando técnico dos portistas Miguel Siska passou a desempenhar funções de funcionário da secretaria do clube até à sua morte, a qual ocorreu em 1947, quando somente contava com 41 anos de idade.

Nota: Texto escrito em 5 de Novembro de 2009 no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Carlos

Pode não figuar nas primeiras páginas dos grandes jornais desportivos nacionais e internacionais como aparecem outros vultos das balizas por esse planeta fora. O seu nome pode não ser sinónimo de mediatismo mas é seguramente um dos bons guarda-redes a actuar na Primeira Liga Portuguesa da actualidade. Falamos de Carlos Alberto Fernandes, conhecido no “Mundo da Bola” simplesmente por Carlos. Confesso que a sua “chamada” ao Museu se deve em parte à admiração que nutro por este homem enquanto desportista. É um dos futebolistas que mais admiro na actualidade entre os milhares que evoluem pelos campos de futebol desse Mundo fora. Este humilde texto é digamos que uma homenagem a um atleta que me dá gosto ver jogar domingo a domingo no principal campeonato nacional.
Carlos é um atleta que chama inevitavelmente à atenção, não só pelas suas excelentes qualidades na arte de defender as redes mas também pelo toque de loucura com que o executa. Esta sua maneira de estar dentro de campo faz lembrar de certa forma outros “génios loucos” das balizas, como o argentino Gatti, o colombiano Higuita, ou os portugueses Zé Beto e Alfredo.
Nasceu em Kinshasa, na República Democrática do Congo, no dia 8 de Dezembro de 1979. Filho de emigrantes lusos efectuou em 1997/98 a sua primeira temporada como sénior, ao serviço do Vilafranquense, na altura a militar na 3ª Divisão Nacional. Com o emblema de Vila Franca de Xira ascendeu na temporada seguinte à 2ª Divisão Nacional, onde permaneceria por mais três épocas.
Não tardou as dar nas vistas pelos relvados secundários do país, e em 2001/02 o Campomaiorense, na altura a competir na Divisão de Honra (hoje denominada de Liga Vitalis) contratou os seus serviços. No Alentejo estaria apenas uma temporada, visto não ter efectuado um único encontro ao serviço dos “galgos”.
Viajaria então até Amora, onde na época seguinte actuaria com brilho em 14 ocasiões pelo clube local, a militar na 2ª Divisão Nacional.
As suas exibições chamariam novamente a atenção dos clubes profissionais, e em 2003/04 viajaria para o norte para defender as cores do Felgueiras na Divisão de Honra. Ao serviço destes actuaria em 33 encontros.
O primeiro grande salto seria dado na temporada seguinte, quando o conceituado Boavista (equipa que quatro anos antes se havia sagrado campeã nacional) requisitou os seus serviços. No Bessa viveria uma temporada e meia plena de... sucesso. Fez 33 jogos na sua primeira passagem pelo principal escalão do futebol português, tendo feito a sua estreia num jogo ante o Marítimo a 25 de Setembro de 2004. As suas exibições categóricas chamaram a atenção de emblemas internacionais, tendo a meio da época de 2005/06 o Steaua de Bucareste vindo a Portugal contrata-lo.
Os primeiros tempos na Roménia seriam de sonho. Carlos era tratado como um rei, de tal maneira que era praticamente impossível circular pelas ruas de Bucareste com a tranquilidade de um cidadão comum. Era o grande ídolo dos adeptos do mais popular clube daquele país, ajudando ainda nessa época o Steaua a alcançar as meias-finais da Taça UEFA. A cereja no topo do bolo seria a conquista do título romeno. Na época seguinte começou o decréscimo vertiginoso de popularidade do guarda-redes português. Algumas exibições menos conseguidas, entre outras a da derrota caseira ante o Real Madrid por 1-4 para a Liga dos Campeões, levaram o presidente do clube, Gigi Becali, a proferir uma polémica declaração, dizendo que oferecia 100 mil dólares a quem quisesse adquirir o passe de Carlos. Tais declarações criaram de imediato um enorme mau estar entre o jogador e o clube, consumando-se quase de imediato um divórcio mais do que prevísivel.

Ainda tentou, durante o que restava dessa época, a sua sorte no melhor campeonato do Mundo, o inglês, tendo prestado provas durante algumas semanas nos londrinos do Charlton.
Sem sorte regressou em 2007/08 ao futebol português, mais concretamente ao clube que o lançou para a rivalta, o Boavista. Pelas “panteras” fez 9 jogos de grande qualidade e não foi de estranhar que mais uma vez tivessem “chovido” convites do estrangeiro a requerer os seus serviços. Aventurou-se mais uma vez, desta feita para o longínquo Irão para jogar pelo Foolad. Também ai foi “estrela”, tendo feito 32 jogos por um dos mais populares clubes iranianos.
As saudades de casa e o desejo de competir num campeonato com mais fama, por assim dizer, fê-lo regressar a Portugal, sendo que no início desta temporada (2009/10) assinou pelo Rio Ave, do principal escalão nacional. Em Vila do Conde é um dos artistas da bola da equipa local, e um dos responsáveis pela boa campanha da equipa nortenha, sendo um dos títulares absolutos da mesma.
Terá, quiçá, em Janeiro próximo a grande oportunidade da sua vida para se mostrar ao Mundo, já que será o guarda-redes titular da selecção de Angola (país pelo qual se naturalizou recentemente) na prestígiada Taça das Nacões Africanas (também conhecida por CAN). Competição esta que curiosamente se irá realizar em solo angolano, sendo este um acréscimo de atenção a uma prova que já por si recebe os holofotes do Mundo inteiro. Aqui ficou pois a minha homenagem a este senhor das balizas.

Legenda das fotografias:

1- Carlos Alberto Fernandes

2- Sequência das imagens: no Boavista, no Steaua, no Rio Ave, e na selecção de Angola

Nota: texto escrito a 30 de Dezembro de 2009 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Martins

Os “violinos” do Sporting foram 5, mas podiam bem ter sido 6, pois na célebre equipa leonina onde pontificava o mais brilhante quinteto de sempre do futebol português, os “Cinco Violinos”, composto por Travassos, Peyroteo, Vasques, Albano, e Jesus Correia, sobressaia, e de que maneira, outro talento da bola da década de 50, de sua graça João Martins. O seu nome ficou gravado a “letras de ouro” não só na história do clube lisboeta como do próprio futebol europeu como mais à frente iremos ver.
João Baptista Martins nasceu em Sines no dia 3 de Setembro de 1927 e começou a despontar para o futebol aos 16 anos no clube da sua terra, o Sport Lisboa e Sines. Ainda como júnior o chefe da fábrica de conservas onde travalhava fez-lhe um convite para viajar até Olhão, para ingressar na equipa local, o Olhanense. Clube este que na altura (anos 40) actuava na 1ª Divisão Nacional. De comboio deslocou-se sozinho até ao Algarve onde aí permaneceu um mês. Mas as saudades falaram mais alto e acabaria por regressar a casa. Contudo, a grande oportunidade da sua vida estava ainda por acontecer, e o destino havia-lhe reservado uma grande surpresa. Tudo começou quando certo dia uma equipa do Barreiro foi jogar ao Alentejo contra a equipa do Sines, tendo esta última vencido o encontro por 6-1. Três dos golos alentejanos foram da autoria de Martins, e mais do que isso assinala uma exibição portentosa.
Facto que não passou despecebido à CUF do Barreiro, que lhe oferecia emprego caso ele assinasse com o clube. Ele aceita, mas a ligação é curta, pois meia hora antes do jogo de estreia pela CUF, e já nos balneários, Martins descobre que o emprego na fábrica da CUF afinal não ia ser seu. Recusa-se então alinhar pelos barreirenses, e é posteriormente levado por um massagista da própria CUF para Alvalade onde ai se apresenta em 1946. Os treinadores do Sporting da época, Abrantes Mendes e Buchelli, testam-no junto às lendas Vasques e Travassos, e ainda que sem o calibre destes dois craques Martins agrada aos responsáveis leoninos e assina contrato. A sua aquisição custou ao Sporting apenas 100 escudos! Uma pechincha por um jovem talento como Martins.
Sporting que sempre havia sido o emblema do coração do nosso craque de hoje, muito por culpa do ciclista Alfredo Trindade que empolgava as multidões com a rivalidade que ostentou durante anos a fio com o benfiquista Nicolau em inúmeras Voltas a Portugal em Bicicleta.
Ao entrar em Alvalade Martins tem a fazer-lhe frente uma feroz concorrência, como já vimos a famosa linha avançada denominada de “Cinco Violinos”. Para muitos entrar no “11” leonino era tarefa impossível para quem quer que fosse. Mas Martins conseguio-o, a seu tempo, mas conseguio-o. A sua estreia de leão ao peito aconteceu contra o Vitória de Setúbal, tendo actuado no lugar de Jesus Correia. Uma estreia positiva, com o Sporting a fazer 9 golos, sendo um deles do estreante avançado.
Na temporada de 49/50, com a abandono de Peyroteo, Martins teve uma oportunidade para agarrar um lugar na primeira equipa dos leões. Destacando-se pela sua versatilidade ele é o operário da equipa, jogando em todas as posições... inclusive na de guarda-redes, lugar onde actuou num encontro com o Oriental.
Com o passar dos anos tornou-se numa das peças fundamentais da “máquina” Sporting. O seu companheiro Travassos caracterizou-o – numa entrevista ao Jornal “Sporting” - como "o melhor avançado-centro que já existiu no futebol português. Desmarcava-se muito bem, isolava-se com facilidade, fugindo à marcação dos adversários, e tinha excelente aptidão para o jogo de cabeça, o que causava o pânico entre as equipas que defrontávamos"
Na época de 1953/54 vence a “Bola de Prata”, prémio atribuido ao melhor marcador do Campeonato Nacional da 1ª Divisão, após ter apontado 31 golos.
Em termos de currículo vence os célebres quatro campeonatos seguidos (50-51, 51-52, 52-53 e 53-54) pelo Sporting, e ainda o título nacional de 57-58 e a Taça de Portugal (53-54).
Ao serviço da Selecção Nacional actuou por 12 vezes, tendo a primeira ocorrido a 23 de Novembro de 1952.


O autor do primeiro golo de uma competição europeia

Mas o grande momento pelo qual este homem é ainda hoje recordado prende-se com o facto de ter sido dele o primeiro golo apontado nas competições europeias. Decorria o ano de 1955, e o Sporting teve a honra de disputar o primeiro jogo da recém criada Taça dos Campeões Europeus. O Sporting e o Estádio Nacional, palco que acolheu o encontro com os jugoslavos do Partizam de Belgrado a 4 de Setembro do citado ano. Aos 14 minutos desse jogo Martins faz o primeiro golo, o primeiro de sempre numa prova europeia. Naquele momento entrou para a história do futebol... Mundial. Marcaria ainda um segundo golo de uma partida que terminaria empatada a três bolas, sendo que na 2ª mão o Sporting perderia por 2-5 e consequentemente eliminado. Mas a João Martins ninguém lhe tira o mérito de ter sido ele o autor do primeiro golo de uma competição europeia.
Abandou o futebol em 1959 depois de 13 temporadas de leão ao peito, tendo apontado pelo emblema de Lisboa 258 golos. Viria a falecer em 16 de Novembro 1993, com 66 anos de idade, devido a insuficiência cardíaca. Foi sepultado na sua terra natal, Sines, tendo a autarquia local nesse mesmo ano agraciado-o com a Medalha Ouro de Mérito Desportivo Municipal. A 25 de Abril de 2008, passa a dar nome ao Parque Desportivo Municipal João Martins nesta localidade alentejana.

Legenda das fotografias:
1- João Martins
2- O "11" do Sporting que "inaugurou" as competições europeias diante do Partizan de Belgrado
 
Nota: Texto escrito a 23 de Fevereiro de 2010 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Varallo

A sua morte eclipsou a última estrela que restava no céu que paira sobre os encantadores e saudosos caminhos do primeiro Campeonato do Mundo de futebol. A sua existência estava para o “Desporto Rei” como a Mona Lisa guardada a “sete chaves” no Louvre parisiense para a humanidade. O seu adeus ao mundo dos vivos significou o desaparecimento da única recordação viva do mágico Mundial de 1930. Francisco Varallo, “El Cañoncito” do futebol argentino deixou-nos no passado dia 30 de Agosto com a mágica idade de 100 anos e é sobre ele que o MVF abre hoje prepositadamente as suas portas.
Nascido em La Plata (província de Buenos Aires) a 5 de Fevereiro de 1910 “Pancho” Varallo cedo começou a evidenciar os seus dotes futebolísticos nas “canchas” imaginárias das artérias do país da pampas. Aos 14 anos era já uma das estrelas do clube da sua terra, o 12 de Octubre, onde seria rotulado de “El Cañoncito” (o pequeno canhão) devido ao seu forte e habilidoso poder de remate. Com 18 anos foi chamado pelo “gigante” Estudiantes para um treino experimental, um treino que acabaria por prolongar-se por três jogos particulares efectuados com a camisola do clube de La Plata nos quais “Pancho” apontaria 11 golos! Posicionando-se no rectângulo mágico como avançado seria no entanto no rival do Estudiantes, o Gimnasia y Esgrima, que Varallo faria em 1929 a sua estreia oficial numa principal equipa sénior. E a estreia de “El Cañoncito” no futebol sénior não poderia ter corrido melhor, pois nesse mesmo ano o Gimnasia sagrava-se campeão argentino depois de derrotar o Boca Juniors na final. E seria curiosamente no mítico clube de “La Bombonera” que “Pancho” Varallo actuaria nas seguintes nove temporadas, o mesmo será dizer também até ao final da sua carreira. Com a camisola do Boca venceria mais três campeonatos argentinos (1931, 1934, e 1935), tendo-se tornado até há muito pouco tempo no maior goleador de sempre do clube de Buenos Aires com 180 golos em 210 encontros realizados, um célebre recorde só batido por Martín Palermo em 2008.
A transferência do Gimnasia para o Boca ficou a dever-se em grande parte às magníficas exibições de Varallo com as cores da selecção da Argentina durante o Mundial de 30, o primeiro da FIFA, e realizado como se sabe no Uruguai. “Pancho” era o elemento mais novo de uma equipa que viria a sagrar-se vice-campeã do Mundo depois de cair aos pés da fabulosa selecção do Uruguai (por 4-2) numa épica final ocorrido no “sagrado” Estádio Centenário, em Montevideu.
Um desfecho que poderia muito bem ter sido outro não fosse uma bola enviada à baliza uruguaia ter embatido na trave da mesma quando o resultado era de 2-1 a favor dos argentinos. O autor desse azarado remate? Francisco Varallo, o elemento mais novo em campo da primeira final de um Campeonato do Mundo da FIFA. Neste primeiro grande certame futebolístico de âmbito Mundial Varallo apontou um golo (ante o México na 1ª fase).
“Pancho” retirou-se dos campos com apenas 29 anos, na sequência de uma grave lesão no joelho. Estavámos no ano de 1939, dois anos depois de “Pancho” ter vencido a sua única competição com a camisola da Argentina (a qual representou em 16 ocasiões) vestida: a Copa América.
Seguidamente o MVF apresenta um precioso texto encontrado – e esquecido – nas “profundezas do báu das histórias de encantar da bola”, da autoria do jornalista Jorg Wolfrum, publicado há pouco mais de quatro anos na revista Kicker, texto esse traduzido posteriormente para a revista Trivela (Brasil) e que retrata uma entrevista feita ao único homem – na altura – vivo que jogou o primeiro Campeonato do Mundo. Aqui fica transcrita na integra esta “pérola literária da bola”...

Este senhor jogou a final de 30

Aos 95 anos, o ex-atacante argentino Francisco Varallo é o último sobrevivente da final do primeiro Mundial. O “Pequeno Canhão” recorda à revista Copa’06 (nota: posteriormente viria a chamar-se Trivela) como foi aquela partida em Montevidéu vencida por 4 a 2 pelos uruguaios

por Jorg Wolfrum

“Palo borracho” floresce com beleza na praça Brandsen, em La Plata. Tudo é muito bonito, em branco e rosa, mas a memória da bola salva por (José Leandro) Andrade em cima da linha, na final da Copa de 30, permanece viva.

Já dá para enxergar, em uma das esquinas onde cruzam as ruas 60 e 25, a Lotérica Francisco “Pancho” Varallo, localizada ali há mais de 30 anos. Em Outubro, um apostador ganhou ali um milhão de pesos (pouco menos do que o mesmo valor em reais). A casa dos fundos foi construída por Don Pancho em 1932 com os 8 mil pesos de seu primeiro salário recebido como jogador do Boca Juniors. “Uma quantia astronômica”, recorda-se o último sobrevivente da final da primeira Copa do Mundo, em 1930, no Uruguai. Antes disso, ele recebia 20 pesos por semana, para jogar pelo Gimnasia y Esgrima de La Plata.

Os tempos eram outros. No “superclássico” de 1933, contra o River Plate, por exemplo, um policial queria prender Varallo porque um adversário segurou seu braço numa disputa de bola. E ele o quebrou. “Imagine só a situação”: um baixinho de 1,65 m de altura, com chuteiras tamanho 37, no meio dos grandalhões raivosos do River. Enquanto se lembra, suas rugas profundas formam um sorriso de orelha a orelha e fazem parecer menor seu grande nariz e quebram a rigidez de seu rosto.

Os tempos eram outros. Mas se aquela maldita bola tivesse entrado quando ele defendia a seleção Argentina... Num instante desaparece seu sorriso. Nesse momento, as rugas ficam ainda mais profundas em sua testa e Francisco Varallo parece irritado consigo mesmo. Mesmo com os 181 gols que marcou em 210 jogos como atacante do Boca. Uma média de 0,86 gol por partida, até hoje um recorde -e um pouco melhor até que a média de Gerd Müller na Bundesliga (365 gols em 427 partidas). Mas aquela maldita bola não queria entrar. “Nós teríamos sido campeões do mundo”.

Foi em 30 de julho de 1930, no Estádio Centenário de Montevidéu, então o maior da América Latina. Contra o Uruguai, então o melhor time do mundo. Varallo bate a mão na mesa. Não que essa lembrança o deixe irritado o tempo todo. Para isso, o homem chamado de “Pequeno Canhão” já havia vivido o bastante.

Em 1929, tornou-se campeão com o Gimnasia y Esgrima, ainda na era do amadorismo. Como profissional, conquistou três títulos com o Boca. E, com a seleção argentina, o Campeonato Sul-Americano de 1937. Ele construiu a casa onde vive até hoje e também uma para seus pais. Mas a lembrança desse momento contra o Uruguai insiste em não desaparecer de sua memória.

Depois do 1 a 0 de Dorados, Peucelle e Stabile, os artilheiros do primeiro Mundial, colocaram os visitantes na frente antes do intervalo. “Éramos claramente superiores no primeiro tempo e tínhamos de marcar pelo menos uns quatro ou cinco gols antes do intervalo”, recorda-se Varallo, que com dez minutos do segundo tempo chutou uma bola na trave. “Você tem de acreditar em mim”, ele insiste. E ele é o último dos jogadores que esteve em campo naquela partida. Nem mesmo ele consegue acreditar.

Para fugir dessa lembrança, ele muda o assunto para a comemoração do centenário de seu Boca Juniors, quando foi ovacionado. Mais aplausos do que Varallo só Diego Maradona recebeu. “De repente vieram crianças pedir para tirar uma foto comigo e que eu lhes desse autógrafos. Sabe o que eu respondi a eles?”

O que, Don Pancho?
Que eles haviam me dado o melhor presente da minha vida. “Mas vocês nunca me viram jogar”. E eles me responderam: “Por causa do senhor, Don Pancho, meu avô virou torcedor do Boca Juniors. E por isso, eu também sou”. Então contei um pouco aos garotos a respeito dessa final.

Também da sua chance desperdiçada?
Claro, mas ainda pior. Pois o Fernandez baixou o sarrafo em mim e voltei a sentir uma contusão no joelho que já me havia tirado da semifinal. Mas, naquela altura, o jogo já era uma guerra.

E havia mesmo ameaças de morte?
Levamos isso muito a sério. Cinco, seis de nós estavam se borrando de medo e nem queriam entrar em campo. Mas fui ao treinador e falei que já estava recuperado e pronto para jogar.

E não era verdade?
Era uma mentirinha, mas eu precisava fazê-lo. Mesmo eu sendo castigado no segundo tempo. Mas eu estava lá! Um moleque de 20 anos, que conseguiu realizar sua vontade.

Qual era o clima no estádio?
Inacreditável. Na época, todos os estádios eram menores. Só construíram aquele monstro (o Centenário) para a Copa do Mundo no Uruguai. Nunca havíamos visto nada igual. Era uma loucura aquele ambiente.

Você pode se explicar melhor?
Era bárbaro, uma insanidade. Meu pai mesmo precisou comprar uma bandeira uruguaia, senão teria sido morto. Na época, em Buenos Aires, existiam rumores de que o vencedor já estava certo antes do jogo. Tudo bobagem. No final das contas, ganharam da gente só porque tiveram mais culhões. Com força, brutalidade e também com astúcia. Com isso, eles conseguiram nos intimidar. E isso me deixa até hoje com raiva. Foi uma vergonha.

Por que isso aconteceu?
Eles eram mais experientes e nós, apenas uns moleques. E mesmo assim não poderíamos ter deixado isso acontecer. Quando Monti e Suarez se machucaram, aí já era. A bola pesava uma tonelada e não podíamos substituí-los. Com oito jogadores, não tínhamos chance e por isso eles marcaram três vezes e fizeram 4 a 2.

Mas a vitória foi merecida?
Claro, eles não eram bandidos, vilões. Poderiam ter ganho por até 8 a 2. Mas tínhamos prometido a vitória para Gardel.

Carlos Gardel, o rei do tango?
Ele foi à nossa concentração. Ficamos tão emocionados que até choramos. Mas depois de cantarmos um tango juntos. Então Gardel falou: “Muchachos, deixem a canção comigo. Vocês, tratem de se concentrar na final”.

A medalha do vice-campeonato lhe foi roubada anos atrás. O que resta é o tango em sua homenagem: “Varallo, Varallito, querido Varallo”. Mas o homenageado ainda espera por um bisneto. “Alguém na família tem de jogar futebol”, diz. “Mas só tivemos meninas”.

Em Fevereiro, ele foi homenageado mais uma vez, agora pela Conmebol, no Paraguai. Mas ele preferia ter ficado em La Plata e tomar uma taça de vinho, como fazia 65 anos atrás, na Copa do Mundo. “Não que a gente estivesse lá apenas para se divertir”, explica. Afinal, o melhor futebol foi jogado nas margens do rio da Prata. “Não podíamos nos acabar na farra”. E o boato de que Lucien Laurent, autor do primeiro gol da história das Copas do Mundo, teria comemorado seu feito num bordel? “Pura lenda”.

O presidente da AFA, Julio Grondona, convidou Varallo para ir à Alemanha acompanhar a Copa do Mundo. E ele quer muito ir com sua filha Maria Teresa, que toma conta da lotérica –isso quando sua artrose permite. “Não há nada mais lindo do que o futebol”. E chutes no travessão fazem
parte, infelizmente.

Legenda das fotografias:
1- Francisco Varallo com a camisola do seu Boca
2- Exibindo classe com as cores do clube de La Bombonera
3- Jogando pela Argentina diante do México no Mundial de 1930

Nota: Texto escrito a 10 de Setembro de 2010 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Soares dos Reis

Substituir um ídolo é sempre uma tarefa deveras complicada para qualquer jogador que surge pela primeira vez debaixo das luzes da ribalta no seio de um clube. E ainda mais espinhosa se torna a missão se esse clube for um gigante dos rectângulos de jogo. Foi um pouco este o cenário vivido por Soares dos Reis, lendário guarda-redes do Futebol Clube do Porto da primeira metade do século XX. Nascido em Paredes a 11 de Março de 1911 Soares dos Reis teve a missão – para muitos impossível, naquela altura – de substituir na baliza dos “dragões” um mito chamado Mihaly Siska (de quem já aqui falámos há uns meses atrás), um húngaro considerado por muitos como o primeiro grande “keeper” do futebol lusitano. A missão não só seria superada como a nossa “estrela cintilante” de hoje haveria de se tornar igualmente numa lenda do clube da “Cidade Invicta”.
E assim o é graças às suas célebres e seguras exibições na baliza azul-e-branca durante os princípios da década de 30, altura em que foi um dos actores principais dos portistas nos triunfos dos primeiros capítulos do escalão maior do futebol português. Neste particular episódio destaca-se o título nacional referente à época de 1934/35, altura em que o Campeonato Nacional da 1ª Divisão teve a sua estreia. Soares dos Reis seria novamente campeão nacional em 38/39, sendo aqui de sublinhar que este título seria ganho sob o comando técnico de Mihaly Siska, o antecessor de Soares dos Reis, como já foi dito. Dono da baliza do FC Porto durante cinco temporadas Soares dos Reis figura ainda na história do clube por ter sido o seu primeiro guarda-redes internacional. Com as quinas ao peito actuou por quatro ocasiões, tendo a estreia não corrido lá muito bem, já que em Madrid, a 11 de Março de 1934 (dia em que completou 23 anos de idade), sofreria nove golos (!) de uma poderosa Espanha que a guardar a sua baliza tinha um mito – este de âmbito mundial – que dava pelo nome de Ricardo Zamora. A excentricidade era uma característica muito particular de Soares dos Reis, um homem que treinava a sua agilidade a... apanhar coelhos (!) e que tinha por mania – diziam alguns – bordar as suas iniciais nas camisolas como forma de dar – ainda mais – nas vistas dentro de campo.
Após abandonar o futebol continuou ligado ao clube do coração na qualidade de dirigente, e foi graças a si que dois nomes que mais tarde haveriam de se tornar mitos deste clube chegaram às Antas, nomeadamente Vírgilio e Hernâni.

Nota: Texto escrito em 29 de Setembro de 2010 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

William Foulke

O “gordo vai à baliza” é uma expressão popularizada por todos nós – os que gostamos de bola – nas jogatanas de rua, ou do recreio da escola, alusivas à nossa infância sempre que aparecia um menino gordinho com pouco jeito para acariciar a bola. Vai dai o petiz era imediatamente mandado para debaixo dos postes para não atrapalhar os mais habilidosos na condução do esférico. Porém, nem só de “coxos” com peso a mais reza a história, já que um dos primeiros grandes nomes das balizas de âmbito mundial era um cavalheiro extremamente volumoso com quase dois metros de altura! O seu nome roça a lenda, pois na verdade ele foi “rei” numa época em que o belo jogo dava ainda os primeiros passos e como tal existe um pequeno leque de dados concretos acerca dos seus notáveis e muito particulares feitos. Daí ter usado a expressão lenda, pois muitas das histórias que hoje circulam a seu respeito “cheiram” a pura... lenda.
Sem mais demora a cortina sobe para apresentar a nossa estrela cintilante de hoje: William Foulke.
Veio ao Mundo no século XIX, mais precisamente no dia 12 de Abril de 1874, na pequena cidade inglesa de Dawley, onde conheceu os seus dois grandes amores no panorama desportivo: o críquete e o futebol, tendo sido um exímio praticante de ambos. Neste último “Fatty” (gordo) Foulke, como era carinhosamente conhecido por companheiros de equipa e adversários, deu o pontapé de saída da sua carreira no Sheffield United, emblema que representou entre 1894 e 1905. Aqui a lenda conheceu alguns dos seus capítulos mais empolgantes, do alto do seu 1,93m e dos seus intimidadores 165kg!!! Em capítulos mais suaves da história reza a lenda que o peso de “Fatty” rondava os 150kg, que mesmo assim chegavam não só para assustar os seus oponentes como também para o tornar no jogador profissional mais pesado da história do jogo. Ainda numa toada lendária conta-se que num jogo Foulke derrubou uma baliza depois de ter chocado contra os postes desta (!), ou das várias ocasiões em que a irritação o levava a pegar nos adversários com uma mão e a atirá-los para o fundo das redes (!). Outra lenda alude ao primeiro jogo da final da Taça de Inglaterra de 1902 jogada entre o Sheffield United de “Fatty” e o Southampton, quando a dada altura o pesado guarda-redes protesta com o árbitro do encontro sobre a irregularidade do golo do empate validado aos “Saints”, perseguindo com um ar ameaçador o pobre do juíz pelos corredores do estádio, tendo este respirado de alívio assim que viu um grupo de oficiais da FA (Federação Inglesa de Futebol) agarrar muito a esforço o furioso “Fatty”. .
Sobre este episódio dizer que o mau humor de Foulke seria eclipado dias depois aquando da repetição da final na sequência de uma vitória (2-1) do seu United. Esta seria aliás a segunda Taça de Inglaterra conquistada por “Fatty” ao longo dos seus 14 anos de profissional, tendo a primeira sido arrecadada em 1899.
Ao serviço do Sheffield United (emblema que defendeu por 299 vezes) o volumoso jogador conquistou ainda um título de campeão nacional da 1ª Divisão, em 1898. Um ano antes ele fez a sua única aparição com a camisola da selecção nacional de Inglaterra num encontro ante os vizinhos do País de Gales.
Terminada a ligação ao United a lenda rumou a Londres na temporada de 1905/06 para defender as cores do Chelsea. Aí o seu mau feitio conheceu novos episódios lendários, especialmente em jogos onde achava que os seus companheiros do sector defensivo não estavam a ser suficientemente duros nas marcações aos avançados contrários e assim sendo ele próprio tratava de sair da baliza para travar estes último com a sua força brutal para em seguida pegar neles pelos colarinhos e pontapeá-los para o fundo da sua baliza! “Fatty” era assim. Em Stamford Bridge esteve somente uma temporada, mas o suficiente para se tornar num ícone imortal do clube, e tanto assim é que hoje em dia quem entra pela porta principal do mítico recinto londrino depara-se com a fotografia de Foulke em primeiro plano no hall de entrada.
O seu derradeiro paradeiro futebolístico foi o Bradford City na época de 1906/07, tendo actuado por este emblema em 22 ocasiões. Nove anos mais tarde após o seu retiro dos campos de futebol... ou de batalha no seu caso, “Fatty” deixaria o Mundo dos vivos em consequência de uma cirrose, já que a bebida (em excesso) era para além do futebol e do críquete outra das suas paixões. Tinha somente 42 anos quando Inglaterra chorou no dia 1 de Maio de 1916 a sua morte. Uma morte meramente física, pois a lenda de “Fatty” Foulke continua bem viva nas novas gerações de adeptos do belo jogo.
E depois disto... mais respeito com os meninos gordinhos, pois quem disse que estes não sabem jogar à bola???

Legenda das fotografias:
1- William Foulke com as cores do Sheffield United
2- O perfil volumoso de "Fatty"
3- Na final da Taça de Inglaterra de 1901 Foulke atira um jogador do Tottenham para o chão

Nota: Texto escrito em 6 de Dezembro de 2010 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Correia Dias

Tempos houve em que o amor à camisola falava mais alto do que qualquer ordenado ou prémio de jogo chorudo. Nenhum dinheiro do Mundo pagava a honra e o prazer de jogar com o emblema do coração ao peito. Era o tempo do futebol romântico, puro, e sem os tiques de vedetismo e exploração que o belo jogo hoje em dia ostenta.
A nossa estrela de hoje foi um desses eternos apaixonados pelo clube dos seus olhos...
E dando continuidade na vitrina alusiva às “estrelas cintilantes” a jogadores de peso – recordámos que na nossa última passagem por esta vitrina visitámos o célebre Willy “Fatty” (gordo) Foulke – iremos sem mais demoras traçar umas breves linhas sobre o corpolento avançado do FC Porto na década de 40 Correia Dias.
Manuel Belo Correia Dias nasceu no longínquo ano de 1919, a 24 de Março, tendo como berço a Cidade de Ovar, bem próxima do Porto.
Seria nesta última urbe que Manuel daria os primeiros pontapés oficiais na bola... ao serviço do seu grande amor, o FC Porto. Seria como “dragão” que o jovem Manuel faria toda a sua formação de futebolista tendo chegado à equipa principal dos azuis-e-brancos na temporada de 1941/42. E logo na estreia deu nas vistas com dois golos ao Vitória de Guimarães!
O jovem Manuel passou então a popularizar-se nos rectângulos de jogo como o temido avançado Correia Dias. Temido não só pelo seu instinto natural para o golo como igualmente pelos seus 113 quilos de peso! É verdade. Ainda hoje é reconhecido como o avançado mais corpulento do futebol lusitano.
Tornou-se desde logo num ídolo para os adeptos portistas, não somente pelo seu aspecto físico e peculiar jeito para o pontapé na bola como também pelo facto de se ter tornado num dos maiores goleadores do clube portuense. Neste aspecto é de sublinhar que foi precisamente na sua temporada de estreia ao mais alto que Correia Dias se consagrou como o melhor marcador do Campeonato Nacional da 1ª Divisão com 34 remates certeiros.
Não venceu qualquer título colectivo de alto gabarito pelo seu FC Porto, contudo foi peça influente numa das mais célebres vitórias de uma equipa portuguesa sobre um combinado internacional. Tal efeméride deu-se a 6 de Maio de 1948 quando no mítico Estádio do Lima (Porto) o FC Porto recebeu o poderoso Arsenal de Londres. Ingleses que na época eram considerados a melhor equipa do planeta. Resultado final desse histórico encontro (do qual aqui já falámos na vitrina dedicada aos “grandes clássicos” da bola): 3-2 a favor os portugueses, tendo Correia Dias apontado dois golos aos pupilos do lendário mestre da táctica Herbert Chapman.
E Correia Dias podia muito bem não ter participado nesta epopeia portista, já que em 46/47 ele abandonou temporariamente o futebol alegando motivos de ordem pessoal. No entanto o FC Porto sentiu a sua falta e o treinador Eládio Vascheto convenceu-o a voltar à acção. O amor ao clube falou mais alto e Correia Dias não consegiu dizer não. Neste regresso sublinharia que jogaria de graça, que não queria um tostão do seu clube, mas por uma questão de igualdade e disciplina foi obrigado a aceitar um ordenado semelhante ao que o restante plantel auferia. Mas Correia Dias não precisava de dinheiro para defender a sua dama, jogava por amor.
E assim o fez até ao final da sua carreira, mais precisamente até à temporada de 48/49. Pelo seu FC Porto actuou por 114 ocasiões e fez balançar as redes em 110 ocasiões! Notável.
 
Nota: Texto escrito em 18 de Fevereiro de 2011 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Francisco dos Santos

Os futebolistas e treinadores portugueses são hoje em dia um “produto” cada vez mais desejado no panorama futebolístico internacional. Elevados à condição de estrelas em campeonatos mediáticos como Espanha, Inglaterra, França, Rússia ou Alemanha, ou descritos como “operários” incansáveis e fundamentais na manobra de equipas de ligas menos populares – além fronteiras – como Suíça, Escócia, Hungria, Roménia, Bulgária, Malta, Chipre, ou até mesmo na longínqua Austrália, a estrela dos portugueses brilha cada vez com mais intensidade no planeta da bola.
O fascínio pelo jogador, ou treinador, português por parte do estrangeiro não é de agora, vem de longe, muito longe, do início do século XX para ser mais preciso, altura em que o primeiro lusitano se aventurou com uma bola nos pés num rectângulo de jogo internacional. O ilustre “aventureiro” dava pelo nome de Franscico dos Santos, e diz quem o conheceu que foi um dos mais notáveis artistas portugueses tanto dentro como fora dos campos de futebol. Mas já lá vamos explicar esta dualidade de atributos, por assim dizer.
Francisco dos Santos nasceu em 1878, em Paiões, no Concelho de Sintra, e desde cedo revelaria dotes de grande pintor, escultor e... jogador de futebol. Iniciou o seu percurso académico na Casa Pia onde teve o primeiro contacto com uma novidade – em terras lusitanas – chamada “football” introduzida em Portugal em finais do século XIX. Modalidade que no fundo não era mais do que um passatempo para o jovem Francisco que aos 15 anos se havia matriculado na Escola de Belas Artes de onde sairia com alta distinção aos 20 anos de idade.
Era por esta altura era já um talento puro no que tocava à pintura e à escultura, não sendo por isso de admirar que em 1903 se “transferiu” para a Escola de Belas Artes... de Paris, umas das mais prestigiadas escolas artísticas do Mundo.
Na capital francesa frequentou o atelier do famoso escultor Charles Verlet. Contudo, a sobrevivência para um jovem estudante de artes em plena Cidade de Paris era tudo menos fácil, e Francisco dos Santos começaria a sentir enormes dificuldades financeiras para prosseguir os seus estudos. Nem mesmo o seu casamento com uma senhora francesa – por conveniência ou não, não se sabe – atenuaria essas mesmas dificuldades. Entretanto em 1906 obteve uma nova bolsa de estudos, desta feita para Roma, onde não só iria aprofundar os seus conhecimentos artísticos como também fazer história no futebol português e italiano.
E assim o futebol voltaria a surgir no horizonte de Francisco por uma questão de necessidade já que as dificuldades financeiras sentidas em Paris iriam repetir-se na capital transalpina. Em Roma os estudos eram pagos graças às aulas de francês que leccionava e ao futebol. Neste último emprego, por assim dizer, Francisco dos Santos jogou entre 1906 e 1908 pela Lázio de Roma, tornando-se desta forma no primeiro jogador português a actuar no estrangeiro. E não foi um jogador qualquer, foi na verdade um dos primeiros ídolos do popular emblema romano, tendo mesmo tido a honra de ter sido eleito capitão de equipa nos anos em que defendeu as cores “biancocelestis”.
Nas poucas crónicas que descrevem aquela época Francisco dos Santos foi um centro-campista brilhante, o primeiro jogador estrangeiro quer da Lázio quer do próprio futebol italiano! De aspecto franzino, com apenas 1,60m de altura e um peso de 55 kg, ele carregou a Lázio ao colo em diversos torneios importantes numa época em que nem o campeonato nem a taça de Itália haviam sido criados. Lendários ficaram dois jogos, um em Pisa onde actuou com duas costelas partidas e outro ante a Roma naquele que foi o primeiro derby entre os dois velhos inimgos da capital e em que o jogador português foi eleito como um dos melhores em campo.
Regressou a Portugal em 1909 ainda a tempo de jogar pelo Spor Lisboa e pelo Sporting Clube de Portugal, embora sem o sucesso granjeado em Roma.Ainda no universo futebolístico o seu nome fica ligado à fundação da Associação de Futebol de Lisboa. Contudo o “desporto rei” sempre esteve digamos que num segundo plano na lista de paixões de Francisco dos Santos, pois o seu grande amor foi sempre a arte. E foi o seu talento para a arte que com o passar dos anos lhe daria a merecida fama e reconhecimento de um país. Entre muitas obras da sua autoria destaca-se a do busto da República e a estatua do Marquês do Pombal. Francisco dos Santos morreria em 1930, com 52 anos.

Legendas das fotografias:
1- Francisco dos Santos
2- Um "onze" da Lázio nos tempos do escultor, pintor... e futebolista

Alberto Augusto

O seu nome faz inevitavelmente parte da galeria de notáveis do futebol português. A entrada no restrito “Olimpo dos Deus” lusitanos deu-se quando a 18 de Dezembro de 1921, dia em que pela primeira vez na História a Selecção Nacional disputou o seu primeiro desafio internacional. Fê-lo em Madrid, ante a poderosa Espanha do lendário Ricardo Zamora. Uma estreia infeliz para o grupo luso orientado pelo mestre Cândido de Oliveira, conforme explica o resultado negativo de 1-3. Colectivamente pode não ter sido a melhor estreia na alta roda do futebol internacional mas para a nossa estrela cintilante de hoje foi um dia memorável, pois foi dele o único golo da equipa das “quinas”, o primeiro golo de Portugal em jogos internacionais! Alberto Augusto é o seu nome, um lisboeta nascido no bairro de Benfica a 31 de Julho de 1898. Avançado, iniciou a sua carreira precisamente no Benfica e desde logo se tornou numa das referências do clube encarnado graças ao seu exímio domínio de bola aliado à sua habilidade para aparecer nos momentos certos para fuzilar as balizas adversárias.
Jogou ainda como extremo-direito, formando “par” com o seu irmão Artur Augusto uma das alas mais encantadoras do futebol português da década de 20. Conhecido nos relvados como “batatinha” (desconhece-se a razão desta alcunha) foi convidado por diversas ocasiões para efectuar digressões internacionais por outros clubes. Numa dessas viagens, ao serviço do Vitória de Setúbal, deslocou-se até ao Brasil onde mostraria toda a sua classe com a bola nos pés. Conclusão: acabou por lá ficar uma temporada, actuando em jogos de exibição por alguns emblemas canarinhos.
Regressou a Portugal e ao seu Benfica onde ajudou o clube a conquistar dois títulos de campeão de Lisboa. Em 1924 saiu do emblema da capital para rumar ao norte, mais concretamente a Braga onde se tornou no primeiro jogador profissional a actuar pelos minhotos e onde até chegou a jogar como guarda-redes!
Depois de passar pelo Vitória de Guimarães colocou um ponto final na sua carreira que teve como ponto alto o tal golo apontado – de grande penalidade – ao mítico guarda-redes Zamora no histórico Espanha – Portugal de 1921. Vestiu em quatro ocasiões a camisola das "quinas". Morreria em 1973 com 75 anos de idade.

Nota: Texto escrito em 12 de Agosto de 2011 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Guilherme Pinto Basto

Há quem aponte o longínquo ano de 1875 como aquele em que uma bola de futebol saltou pela primeira vez em território português. A efeméride é atribuída Harry Hilton, um jovem oriundo de uma família aristocrata inglesa radicada na Madeira que nesse ano terá reunido um grupo de amigos para na Camacha dar uso ao seu mais recente brinquedo trazido da sua Inglaterra: uma bola de futebol. Pouco mais se sabe sobre a “brincadeira” do jovem Harry… Contudo, historiadores fizeram crer que este momento não passou senão de um instante lúdico de Harry Hilton e seus amigos, onde o esférico foi – sem regras – maltratado na sequência dos milhares de pontapés que recebeu.
Isto para dizer que de uma forma organizada e “futebolisticamente civilizada”, o mesmo é dizer com as regras do jogo devidamente aplicadas e cumpridas, o futebol teve o seu primeiro grande momento no nosso país em Outubro de 1888, quando em Cascais um grupo de 28 veraneantes da alta sociedade portuguesa fizeram o primeiro “ensaio” de futebol. Entre esses ilustres pioneiros do “desporto rei” em Portugal estava Guilherme Pinto Basto, o homem que na História ficou conhecido oficialmente como o introdutor do futebol em Portugal. Oriundo de uma rica e aristocrata família portuguesa, os Ferreira Pinto Basto, Guilherme nasceu a 1 de Fevereiro de 1864, na freguesia de Santa Catarina, em Lisboa, e cedo descobriu o fascínio pelo desporto. Um encanto que teve o seu primeiro capítulo oficial, por assim dizer, aos 14 anos, altura em que vai para Inglaterra com o intuito de completar os seus estudos.
Em “terras de Sua Majestade” frequenta o Colégio de Downside, onde já estudavam os seus irmãos Eduardo e Frederico Pinto Basto. Ai trava conhecimento com o “belo jogo” que desabrochava em terras britânicas. E em 1884 traz na bagagem a novidade para Portugal: uma bola de futebol. Reza a lenda que Pinto Basto guardou religiosamente a bola, exibindo-a somente perante os amigos para que estes conhecessem o mágico objecto que por aquela altura endoidecia os ingleses. Quatro anos mais tarde, os três irmãos Pinto Basto regressam mais uma vez a Portugal para gozar as férias de Verão e consigo trazem uma nova bola de futebol. Com os conhecimentos sobre as leis e técnicas do jogo adquiridos os Pinto Basto rapidamente contagiaram os seus amigos mais próximos com o vício pelo jogo do pontapé na bola. Decorria o Verão de 1888 e na Quinta de Fronteireira, em Belas, davam-se os primeiros toques naquele objecto mágico. E eis que em Outubro Guilherme Pinto Basto organiza aquele que é tido como o primeiro grande momento colectivo do futebol em Portugal, o primeiro “ensaio” da modalidade que com o passar dos anos se haveria de tornar rainha na quase totalidade do planeta.
O mítico local foi Cascais, e os seus terrenos da Parada, espaço onde ilustres personalidades da época responderam afirmativamente ao convite de Pinto Basto. 28 homens da mais alta e fina sociedade lisboeta entraram assim para a história. Nos poucos recortes da imprensa da época sabe-se muito pouco sobre os acontecimentos do célebre “ensaio”, sabendo-se apenas que os “players” passaram a manhã a retirar pedras do campo a fim de preparar a contenda. Depois desta tarde já nada seria como dantes, o futebol tinha conquistado o seu espaço no nosso país. O sucesso do “ensaio” de Cascais fez com que quatro meses depois (22 de Janeiro de 1889) se organizasse um desafio mais a sério, digamos assim, num clima diferente do verificado nos terrenos da Parada entre um grupo de ricos e ilustres amigos que procuravam acima de tudo divertir-se. Desta feita Guilherme Pinto Basto escalou uma equipa de Lisboa, composta por portugueses, para defrontar um grupo de ingleses que por aquela altura se encontravam em serviço no Cabo Submarino, explorado por uma empresa inglesa e situado em Carcavelos. O cenário do “match” foi Lisboa, no local onde anos mais tarde seria edificado o Campo Pequeno. O resultado é mais uma vez desconhecido mas nas páginas dos jornais da época fica para a história o facto de que o “team” português, no qual Guilherme Pinto Basto actuou como guarda-redes (embora naquela época não houvessem posições ou tácticas fixas, podendo hoje jogar como guarda-redes e amanhã como avançado) lutou com bravura, portando-se os seus integrantes como autênticos “sportsmens”.
Cascais havia sido o ensaio e Lisboa o arranque definitivo, o futebol estava de pedra e cal em Portugal.
Dali em diante os jogos sucederam-se em catadupa, e com eles começaram a fundar-se os primeiros clubes de futebol. Como não podia deixar os Pinto Basto mais uma vez foram pioneiros neste capítulo, fundando o Foot-Ball Club Lisbonense, para em seguida outros grupos organizados proliferarem pela capital e pouco mais tarde por outros pontos do país.

O primeiro grande “sportsmen” português

A paixão de Guilherme Pinto Basto pelo desporto era desmedida, e o seu entusiasmo e dedicação não se ficou apenas pelo futebol, muito pelo contrário. Praticou patinagem, hóquei, corridas de cavalo, ciclismo, automobilismo, vela, remo, golfe, caça, ténis, tendo inclusive participado em touradas, como bandarilheiro, a pedido da Rainha D. Amélia. Ele foi considerado o primeiro grande “sportsmen” de Portugal, o primeiro grande desportista multifacetado, e a paixão pelo desporto fez com que com a idade de 86 anos ele fosse considerado o desportista mais idoso em actividade no país! Apesar de ter praticado inúmeras modalidades foi no futebol e no ténis que mais se notabilizou. Nesta última pertenceu-lhe igualmente o mérito de a dar a conhecer ao nosso país. Guilherme Pinto Basto não foi apenas o introdutor e principal dinamizar do ténis em terras lusitanas foi também um campeão, tendo-se consagrado por nove vezes campeão nacional! Seria o primeiro presidente da Federação Portuguesa de Lawn-Tennis, em 1925. Voltando ao futebol ele faria história ao participar no primeiro grande duelo entre equipas de Lisboa e Porto, em 1894, do qual já aqui falámos em “visitas” passadas. Em breves linhas recorde-se que este duelo foi patrocinado pelo Rei D. Carlos, outro amante fervoroso do desporto, que ofereceu a primeira taça disputada num jogo de futebol no nosso país. Pinto Basto capitaneou a equipa de Lisboa que venceu a do Porto (formada na sua grande maioria por jogadores do recém fundado Football Club do Porto) por 1-0.
Os factos de ser oriundo de uma rica e aristocrata família e de ser um desportista nato valeu-lhe a amizade com o Rei D. Carlos, tendo privado de perto com o monarca por diversas vezes, tanto em festas como em eventos desportivos.
Em 1938 assinalou-se com pompa e circunstância no Estádio das Salésias o 50º aniversário da introdução oficial do futebol em Portugal. Presentes estiveram algumas das lendas que marcaram presença nos terrenos da Parada em Outubro de 1888, entre outros Guilherme Pinto Basto. Passados 50 anos daquele mítico dia o pioneiro do futebol lusitano diria que aquele jogo era «uma brincadeira, jogava-se apenas entre pessoas que mantinham uma relação de amizade e de cortesia. Tínhamos todos condições e educação aproximadas. Não havia propriamente luta. O futebol era um divertimento próprio da idade. Não se falava nem se sonhava em futebol de campeonato, e menos ainda, de profissionalismo. Era tudo diferente…».
Divertimento, puro e simples, era assim que Pinto Basto encarava o desporto. Fora dele foi um empresário de sucesso, trabalhando com afinco na empresa da família, a E. Pinto Basto & Cª Lda, e foi sócio gerente da fábrica de porcelanas da Vista Alegre, fundada pelo seu visavó, José Ferreira Pinto Basto. Foi ainda distinguido como Comendador da Ordem de Cristo em Portugal, Cavaleiro da Legião de Honra de França, e Comendador da Real Ordem do Danebor da Dinamarca. Faleceu em Lisboa a 26 de Julho de 1957.

Legenda das fotografias:
1- Guilherme Pinto Basto
2- O grupo imortal de 28 homens que em Cascais efectuou o primeiro "ensaio" de futebol em Portugal. Guilherme Pinto Basto é o terceiro na fila de cima a contar da direita para a esquerda.

Nota: Texto escrito em 10 de Agosto de 2011 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com 

Leon Trouet Motombo Mokuna

Quando falamos em “bombardeiro” do futebol o nome imediato que nos surge no pensamento é o da lenda alemã Gerd Muller, um avançado predador que fez do golo uma palavra habitual sempre que entrava em campo quer pela selecção alemã quer pelo seu Bayern de Munique. Ele pode ter sido o “bombardeiro” mais famoso da história do futebol, mas... não foi o único a ter herdado esta temível – sobretudo para os guarda-redes – alcunha que caracteriza o poder de fogo do “matadores” implacáveis na hora de atirar à baliza. Muller foi o terror dos guarda-redes durante a década de 70 do século passado, mas antes dele um possante avançado congolês protagonizou “um minuto de fama” durante a sua passagem do futebol europeu no que concerne à violência do seu remate certeiro, que lhe valeria as alcunhas de “fura-redes” e... “bombardeiro”. O seu nome é Leon Trouet Motombo Mokuna, personagem nascida a 1 de Junho de 1935, no Congo, e cujo trajecto de formação é por completo desconhecido, sabendo-se apenas que a sua aventura futebolística começou no Vita Club, do Congo, na temporada de 1953/54, numa altura em tinha já 18 anos de idade. Uma época que deve ter sido de glória para o então jovem avançado a julgar pelo facto de na época seguinte o Sporting Clube de Portugal ter recrutado os seus serviços para substituir o lendário Fernando Peyroteo na frente de ataque leonina! Desta forma Mokuna tornava-se no primeiro jogador congolês a transferir-se para a Europa, mas... substituir o astro Peyroteo era à partida tarefa impossível e ainda mais impossível seria para muitos ver o desconhecido africano entrar no “onze” de uma equipa que vinha de uma série de quatro títulos de campeão nacional consecutivos! Impossível para muitos mas não para Mokuna como explicam os seus 19 golos em 11 jogos na época de estreia de leão ao peito! Contudo a potência do “canhão” pareciam não ser atributos suficentes para manter Mokuna por muito mais tempo em Alvalade. O jovem congolês apresentava diversas lacunas ao nível técnico e na temporada seguinte (55/56) apenas por duas ocasiões vestiu a camisola dos leões, acabando no final da mesma por ser dispensado.
Regressaria ao seu país natal onde voltaria a envergar as cores do Vita Club. E assim o fez por apenas uma época, pois em 57/58 ele embarca numa nova aventura europeia, desta feita para a Bélgica para actuar no Gent. Ai o “bombardeiro” do Congo voltou a fazer uso do seu pontapé canhão que lhe daria o estatuto de estrela do futebol belga desde logo. O primeiro negro a actuar no futebol belga e logo com os desígnios de estrela! Assim sendo os responsáveis federativos daquele país logo trataram de naturalizar aquele que era já conhecido como o “Diabo Vermelho” dos campos de futebol da Bélgica. Porém, atitudes racistas da parte de vários seleccionadores belgas impedem que Mokuna represente a equipa principal do país, actuando somente pelo combinado “B” numa ou noutra ocasião. No Gent esteve quatro épocas, transferindo-se posteriormente para o Warengen onde actua de 61 a 66 e onde conquista o seu único título de campeão nacional (65/66) da sua carreira. Penduradas as chuteiras regressa novamente ao Congo onde abraça uma carreira de treinador, com passagens pelo Vita Club, pelos Lions, pelo Mazembe, e pelos Leopards. Depois disto o primeiro “bombardeiro” do futebol mundial desapareceu do mapa futebolístico...

Nota: Texto escrito em 19 de Maio de 2011 no blog: www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

William "Dixie" Dean

A temporada de 1927/28 ressalta na enciclopédia do futebol mundial como um dos capítulos mais brilhantes da história do belo jogo. Pelo menos para um homem em particular, de seu nome William Ralph Dean, cidadão inglês nascido a 22 de janeiro de 1907 que nessa longínqua temporada impressionou o Planeta da Bola com o seu singular poder de fogo. Envergando a camisola do seu amado Everton Dixie Dean, assim era popularmente conhecido, fez balançar as redes contrárias em 60 ocasiões no principal campeonato inglês da referida época! É verdade, foram 60 golos apontados em 39 jogos disputados, feito que de imediato entrou para o topo da lista do livro dos recordes e por lá permanece até aos dias de hoje, sendo que muito dificilmente – verdade seja dita – algum dia será ultrapassado! E se a esta já de si impressionante – e invulgar, mesmo naquele tempo – marca juntarmos os 22 golos apontados nas restantes competições disputadas nessa época (a Taça de Inglaterra e a Taça da Liga Inglesa) o registo de Dean ganha contornos de...lenda.
Mas muitos anos antes de alcançar o estatuto de lenda Dixie foi um simples e pobre rapaz que para contribuir para as despesas da casa trabalhava como distribuidor de leite na pequena e pacata Birkenhead, localidade onde veio ao Mundo.
Eram tempos de profunda miséria e medo permanente, consequências da I Guerra Mundial que assombrava o planeta naquela altura. Cenário por vezes esquecido com a grande paixão chamada futebol, onde Dean bem cedo mostrou os seus atributos de goleador. 1923 marca o início da sua aventura com a bola nos pés, cabendo ao modesto Tranmere Rovers a tarefa de apresentar oficialmente o rapaz ao mundo futebolístico. Dean vestiu as cores deste emblema em 30 ocasiões, de 1923 a 1925, tendo apontado 27 golos, cartão de visita que desde logo chamou à atenção de grandes cavaleiros do futebol britânico, casos do Arsenal e do Newcastle United.
Porém, o amor à camisola falava mais alto naqueles anos e quando confrontado com a possibilidade de jogar pelo clube do seu coração, o Everton, o jovem Dean ficou eufórico.
Paixão pelos “blues” de Liverpool que começou aos 8 anos de idade, quando num belo dia o seu pai o levou a Goodison Park pela primeira vez.
Com a camisola dos seus encantos vestida o jovem avançado centro cedo justificou o investimento do Everton, tendo na época de estreia apontado 32 golos! Nada mau para um estreante. No entanto nem tudo foram rosas no primeiro ano ao serviço do emblema de Goodison Park. Um aparatoso acidente de moto ocorrido em Holywell (norte do País de Gales) deixou Dean entre a vida e a morte. Fraturou o crânio e o queixo, lesões que levaram de imediato os médicos a rotular o sonho de Dean num autêntico pesadelo. «Acabou o futebol para si», atiraram fatalmente os especialistas. Contudo, a garra e a paixão de ir mais além nos relvados falaram mais alto. Depois de obrigado a colocar placas de prata nos maxilares Dean voltou mais forte do que nunca aos retângulos de jogo e nos anos que se seguiram tornou-se na maior referência do seu amado Everton Football Club.
O ponto alto foi pois a célebre temporada de 1927/28, a tal dos 60 golos no campeonato... que foi conquistado pelo Everton. Ouro sobre azul como se costuma dizer. Dean tinha então 21 anos.
No Everton ficou até 1938, apontando 349 golos (!) em 399 jogos, performance que ajudou e muito a que o clube conquistasse de novo o campeonato inglês em 31/32 e a mágica FA Cup (Taça de Inglaterra) na época seguinte.
Fustigado pelas lesões foi dispensado do Everton, e em 38/39 representou o Notts County, clube pelo qual apontou apenas 3 golos nas 9 ocasiões em que defendeu as suas cores. Muito pouco para aquilo o que o temido matador dos relvados ingleses havia habituado o fervoroso público inglês.
Seguiu-se uma curta viagem até à Irlanda onde viria a representar o modesto Sligo Rovers, clube que sob a sua orientação foi finalista da taça daquele país em 1939. Na “ilha esmeralda” esteve apenas um ano voltando em 1940 à sua amada pátria para pendurar as botas no também modesto Hurts, clube onde fez balançar as redes contrárias pelas últimas vezes na sua carreira.
Entretanto estalava a II Guerra Mundial e a história de Dean no futebol chegava ao final com uma impressionante marca (total) de 473 golos marcados em 502 jogos disputados! Palavras para quê? Também a seleção inglesa guarda excelentes recordações do “matador” de Goodison Park, pois em 16 aparições com a mítica camisola dos “três leões” Dixie apontou 18 tentos.
O Everton não esqueceu a sua lenda e em 2001 ergueu junto ao seu estádio uma estátua de William Ralph Dean, um homem que morreu em 1980 vitimado por um ataque cardiaco depois de assistir a uma derrota do seu Everton diante do vizinho e rival Liverpool. É caso para dizer que existem amores que até à morte nos levam.

Nota: Texto escrito em 12 de março de 2012 no blog: www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Isabelino Gradín

Aproveitando a viagem da “Máquina do Tempo” a terras sul americanas vamos hoje fazer uma pequena visita a uma das primeiras lendas da gloriosa história do futebol uruguaio. Um talentoso “pintor” que deu vida a alguns dos mais belos quadros do belo jogo num tempo em que este vivia ainda longe dos holofotes do mediatismo que o circundam nos dias de hoje, mas que carregava consigo uma inocente e desmedida paixão difícil de encontrar atualmente.
Isabelino Gradín, um nome, um mito melhor dizendo, que deixou atrás de si um rasto de saudade nos que tiveram a honra e o privilégio de o ver atuar e... uma enorme tristeza para todos aqueles que – como eu próprio – nunca puderam rasgar um sorriso de felicidade após visionarem uma jogada sua. Mais parecendo animados desfiles carnavalescos as “jugaditas” deste avançado inspiraram as gerações seguintes de um pequeno país que é descrito por muitos como o primeiro grande alfobre de magos da arte de conduzir a bola. Isabelino veio ao Mundo a 8 de julho de 1897, tendo a bela Montevideu como berço. Nasceu pobre, muito pobre, num dos bairros mais carenciados da capital uruguaia, Palermo. Era bisneto de escravos africanos (oriundos do Lesotho) e cedo obteve o respeito de um povo numa época em que o racismo atacava ferozmente em cada esquina.
O reinado de Gradín começa em 1915, ano que o também (já) lendário Peñarol atraía a “pérola negra” para os seus quadros, e não perdeu tempo a maravilhar os ferverosos adeptos do clube de Montevideu.
A forma veloz e serpenteada como conduzia o mágico objeto esférico, deixando para trás adversários em catadupa, fazia as pessoas levantarem-se como uma mola esboçando olhares de encantamento perante aquela espécie de magia negra que brotava nas “canchas” de Montevideu.
Os seus dotes não passaram despercebidos a ninguém, muito menos aos responsáveis da seleção uruguaia, que de imediato quiseram ter aquele diamante nas suas mãos. 1915 é então um ano inolvidável para Isabelino: estreia ao serviço do colosso Peñarol onde de imediato ascende ao patamar de estrela-mor, e veste pela primeira vez a mágica camisola (azul) celeste do Uruguai.
Mas este era apenas o primeiro apontamento de uma história que haveria de ter muitos outros capítulos memoráveis. Um ano depois (1916) integra o combinado uruguaio que disputa na Argentina a 1ª edição do Campeonato Sul Americano de Futebol, mais tarde rebatizado como Copa América. Em casa dos vizinhos – e inimigos – argentinos Isabelino e companhia levariam a melhor sobre a concorrência, oferecendo ao Uruguai o primeiro título de campeão das américa da história. Gradín foi uma das principais – senão mesmo a principal – personagens desta fábula uruguaia, atraindo até si as luzes – da ribalta – de um torneio onde foi o melhor marcador com 3 golos.
História curiosa – ou talvez não atendendo ao teor da mesma – dessa primeira Copa América alude ao facto de o Chile ter protestado o jogo em que foi goleado pelos magos uruguaios, por 0-4, pela razão de que estes haviam jogado com dois atletas... negros! Eram eles Isabelino Gradín e Juan Delgado (também ele descendente de escravos africanos). Uma nota sobre o racismo – e também de impotência, porque não dizê-lo, para anular a invulgar arte africana de “acariciar” a bola transposta para o campo de batalha por aqueles dois descendentes de escravos – que imperava numa época em que o futebol era de forma esmagadora praticada por “brancos”. O Uruguai era mesmo, na altura, o único país do Mundo que tinha jogadores negros na sua seleção. Em 1922 Gradín abandona o Peñarol, emblema com o qual conquistou dois títulos de campeão uruguaio (1918 e 1921) para ajudar à fundação do Olimpia (mais tarde rebatizado de River Plate), clube onde jogou até ao final da sua carreira (em 1929).
A lenda de Gradín vai mais longe quando à sua ímpar interpretação técnica do futebol se junta o seu talento para o atletismo! A sua abismal velocidade não foi apenas aplicada nos dribles e escapadas pelos retangulos do belo jogo senão também nas pistas sul americanas. Ali bateu inúmeros recordes e conquistou diversos títulos continentais, entre outros os 400m (em 1918 ,1920 e1922), ou os 200m (em 1919 e 1920). Era uma força da natureza. Lamentavelmente não fez parte daquela que é talvez a maior seleção uruguaia de sempre, a mítica equipa que venceu dois títulos olímpicos (1924 e 1928) e o primeiro Campeonato do Mundo da história (1930), comandada por outro negro, esse rotulado como o primeiro grande jogador negro da modalidade, José Leandro Andrade, de quem aliás já aqui falámos noutras visitas ao passado.
Gradín nasceu pobre e pobre morreu em 1944.

Legenda das fotografias:
1-Isabelino com a camisola do Uruguai
2-Seleção uruguaia que venceu a 1ª Copa América (1916)
3-Com as cores do seu Peñarol
 
 
Nota: Texto escrito em 26 de março de 2012 no blog: www.museuvirtualdofutebol.blogspt.com

Rashid Yekini

Não foram poucas as vezes que nestas vitrinas virtuais lamentei o facto de não ter tido o privilégio de ver atuar alguns dos maiores génios da "juventude" deste desporto que desperta em nós a chama da paixão eterna. Invejo, sim invejo, aqueles que tiveram o prazer de ver de perto lendas como José Leandro Andrade, Isabelino Gradín, Pepe (José Manuel Soares), Peyroteo, Billy Gonsalves, Zamora, Sindelar, entre muitos, muitos outros génios a quem o futebol de hoje deve muito do seu ser. Porém, considero-me um homem feliz quando olho para um passado não muito longínquo e constato que também tive o prazer - e a sorte - de ver artistas da bola que sei que no "amanhã" vão fazer despoletar nas gerações futuras o mesmo sentimento que eu hoje carrego por não guardar na minha memória traços da genialidade de alguns dos nomes que atrás referi. E hoje vou recordar,... não, vou antes fazer um agradecimento a uma figura que encheu de alegria algumas tardes de futebol da minha adolescência, Rashid Yekini.
Não foi um génio, longe disso, mas antes um fiel intérprete da magia do futebol africano, do futebol nascido nas tribos do vasto continente que ao longo da história deu ao Mundo inúmeros diamantes negros. Ele foi um desses raros diamantes, que reluziu em diversas tardes dos meus primeiros anos de fascínio pelo belo jogo. Com alguma emoção escrevo hoje estas linhas, um par de dias depois de ter, de forma inesperada - é sempre assim quando nos deparamos com uma notícia destas sobre alguém que conhecemos -, tomado conhecimento da sua morte. Yekini espalhou magia em quatro continentes diferentes, mas foi em Portugal onde, com toda a certeza, se sentiu mais feliz a fazer aquilo que tão bem sabia e tanto gostava: golos. Muitos golos, e eu, não me canso de dizê-lo, tive o privilégio de ver alguns deles, que hoje repousam nos arquivos da minha memória.
Falar de Rashid Yekini é começar por viajar até 1963, à cidade de Kaduna, na Nigéria, berço daquele a quem o um dia entusiastas do jogo haveriam de chamar de Deus Negro. Como tantas outras crianças africanas deixou-se enfeitiçar pelo belo jogo de pé descalço, na terra batida, conduzindo bolas de trapo ao mesmo tempo que trazia dentro de si o sonho de fazer daquele o seu modo de vida. Sonho que a passo foi sendo edificado.Os primeiros capítulos da sua história no futebol ocorreram no seu país natal, primeiro com as cores do emblema da sua cidade, o UNTL Kaduna, por alturas de 1981, e posteriormente o Shooting Stars, clube que representou entre 1982 e 1984. Foi com naturalidade que o talento de Rashid se espalhou pelos caminhos de África, pelo que em meados da década de 80 é contratado por um dos maiores clubes do continente, o Africa Sports, da Costa do Marfim. Como se fosse um leão indomável Yekini atacou as balizas contrárias vezes sem conta em busca da sua presa preferida, o golo.
Este "instinto animal" despertou a cobiça da Velha Europa, o palco predileto para os grandes artistas da bola, o qual iria receber o jovem Rashid nos inícios da década de 90. Palco esse que estava montado numa simpática e pituresca localidade do sul de Portugal, Setúbal, a terra do irrequieto génio do poeta Bocage, e do grande Vitória, o eterno amor das gentes do Sado. Amor foi igualmente o sentimento que uniu desde o primeiro dia Rashid Yekini ao clube do Estádio do Bonfim, uma relação que viria a durar quatro anos (de 1990 a 1994), repletos de mágicos momentos que ainda hoje vivem na memória de quem o viu jogar. Matador implacável, Yekini vestiu a camisola do Vitória de Setúbal em mais e uma centena de ocasiões, com a qual marcou 90 golos (!), um feito que fez dele um dos jogadores mais emblemáticos da história do clube. O Deus Negro, como passou a ser conhecido nos caminhos do futebol português, foi mesmo o rei dos marcadores do principal campeonato luso em 1993/94, graças a 21 remates certeiros.
1994 foi aliás o ano grande da carreira de Yekini. Com as cores do seu país viajou até aos Estados Unidos da América para participar no Campeonato do Mundo desse ano. O Mundial que viria a dar o tetra ao Brasil, e que teve em Yekini uma das figuras centrais. Para a eternidade fica a imagem do "diamante negro" a entrar de mãos erguidas pela baliza da Bulgária dentro, agarrando as redes do desamparado Mihaylov e ali, com os olhos do Mundo colados a si, a agradecer aos seus Deuses a oferta que acabara de receber: ter sido o autor do primeiro golo da Nigéria em fases finais de um Mundial. Nigerianos que avançariam até aos oitavos de final, onde viriam a cair de pé diante da poderosa Itália de Roberto Baggio, sob os aplausos do planeta da bola. A magia espalhada pelos relvados dos States não passaria despercebida aos olhos de vários (outros) clubes europeus, tendo o poder do dinheiro falado mais alto na hora do Vitória de Setúbal se despedir da sua maior estrela no final desse memorável verão de 94. O Olimpo de Atenas é o destino mais do que merecido para um Deus, e Yekini, o Deus Negro, rumou nessa altura até à capital grega para defender as cores do Olympiakos. Não foi tão feliz como havia sido em Setúbal. Lesões impediram esta autêntica força da Natureza de mostrar ao povo grego o porquê de o Olympiakos ter pago uma fortuna para contratar os seus serviços. A aventura na no país dos Deuses só duraria uma temporada para o Deus Negro da Nigéria,  com um desolador registo de 2 golos em 4 jogos disputados. Mesmo assim na temporada de 95/96 os espanhóis do Sporting Gijón decidiram dar uma nova oportunidade ao temível goleador africano, a qual voltaria  não correr de feição ao futebolista, que em 14 encontros apenas fez balançar as redes em três ocasiões. Então, como que querendo encontrar-se a si próprio após uma viagem pelo deserto resolve voltar ao local onde havia vivido os dias mais felizes da sua vida, Setúbal. Porém, o azar continuava a persegui-lo, e no Bonfim não voltaria a mostrar o perfume do seu futebol, não conseguindo ir além de uma dúzia de jogos com a camisola do Vitória. Tentou em 1997 a Suíça, onde no FC Zurich conseguiu voltar a evidenciar algumas das características que fizeram dele um dos maiores artilheiros do início da década de 90. 14 golos em 28 jogos.o registo que Yekini deixou em terras hélveticas na temporada de 1997/98. Regressa a África em 98 para representar os tunisinos do Bizerte, Segue-se uma curta aventura pela Ásia, na Árabia Saudita ao serviço do Al-Shabab, para em 99 regressar ao seu continente e ao Africa Sports, clube onde fica até 2002, altura em que regressa ao seu país para representar o Julius Berger, e o Gateway, o emblema onde em 2005 colocou um ponto final na sua carreira.
De lá para cá como que o Mundo se esqueceu dele, dos seus memoráveis golos, da sua contagiante alegria em jogar futebol. Pelas piores razões os holofotes do mediatismo voltariam a recair sobre si no passado dia 4 de maio, altura em que foi comunicada a sua morte - por complicações de saúde do foro neurológico -. Nesse dia o Mundo de imediato se lembrou da imagem de Yekini a festejar o golo da Nigéria diante da Bulgária, em Dallas, no primeiro jogo da seleção nigeriana - pela qual Rashid atuou por 58 ocasiões, tendo apontado 37 golos - num Mundial, ao passo que na minha memória surgiu não só esse momento como também todos os outros em que com a camisola do Vitória de Setúbal o Deus Negro me proporcionou instantes de pura magia. Obrigado Rashid.

Legendas das fotografias:
1-Rashid Yekini com as cores da sua Nigéria
2-Os momentos mais felizes da sua carreira: com a camisola do Vitória de Setúbal
3-Os célebres festejos de Yekini no Mundial de 1994

Nota: texto escrito em 7 de maio de 2012 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Jovica Nikolic

Jogadores há que por mais que o tempo pule e avance a uma velocidade relâmpago jamais se esquecem. Notáveis artistas cujas obras de arte pintadas nos relvados do passado prevalecem em lugar de destaque nos corredores da nossa memória, tendo muitos deles contribuído para que hoje sejamos profundos admiradores do "belo jogo". É com esta entrada algo nostálgica que hoje faço uma viagem à minha infância, aos primeiros anos de contacto com este futebol que tanto me encanta. E faço-o recordando um dos principais responsáveis pela minha atração pelo jogo, aliás, mais do que me fazer encantar pelo jogo do povo ele foi um dos notáveis jogadores que fizeram despertar em mim a paixão por um pequeno grande clube, o emblema que desde o primeiro dia em que com ele travei conhecimento ficou gravado no meu coração, e ali permancerá para sempre, disso estou certo. Este nome que o Museu Virtual do Futebol irá hoje recordar pode até nem figurar no "Grande Atlas do Futebol Global" - a meu ver muito injustamente - mas por certo vive na memória de muitos, muitos mesmo, que o viram interpretar o jogo de uma forma sublime e ao mesmo tempo mágica. Jovica Nikolic, o seu nome. Fez parte de uma geração dourada de jogadores nascidos na então Jugoslávia, um país que ao longo da história "fabricou" centenas de ícones do futebol mundial.
Jovica Nikolic nasceu a 11 de julho de 1959, em Svetozarevo (atualmente uma localidade pertencente à Sérbia), tendo começado a sua brilhante carreira futebolística no FK Jagodina. Na qualidade de médio ofensivo Nikolic cedo daria nas vistas, e clubes de maior envergadura da Jugoslávia lançaram de imediato o isco ao talentoso artista, tendo o histórico e popular Estrela Vermelha levado então a melhor sobre a concorrência. Corria o ano de 1983 quando Jovica vestiu pela primeira vez a prestigiada camisola do emblema de Belgrado. E logo na temporada de estreia tornou-se um dos principais jogadores da equipa que em 83/84 viria a conquistar o título de campeão nacional jugoslavo, sobressaindo - e de que maneira - na posição 10, como o pensador de todo o jogo da sua equipa, mas também como um goleador, tendo efetuado nessa célebre temporada 8 remates certeiros.

Momento de bronze em Los Angeles

As boas aparições de Jovica Nikolic no campeonato jugoslavo não deixaram dúvidas aos responsáveis pela federação daquele país de que ele poderia ser um dos rostos da nova geração de futebolistas que por aqueles dias emergiam no país, uma geração capaz de levar a Juguslávia a (re)viver algumas das alegrias vivenciadas no passado. Nomes como o guarda-redes Tomislav Ivkovic, Srecko Katanec, ou Dragan Stojkovic eram alguns dos "diamantes por lapidar" que a Jugoslávia queria mostrar ao Mundo do futebol, e que na verdade anos mais tarde viriam mesmo a tornar-se lendas do desporto rei. A primeira vez que as luzes da ribalta incidiram sobres estes jovens astros foi em 1984, no palco do maior evento desportivo do planeta, os Jogos Olímpicos, que nesse ano tiveram lugar em Los Angeles (Estados Unidos da América). Naturalmente Nikolic estava entre os eleitos do técnico Ivan Toplak para guiar a jovem Jugoslávia o mais longe possível. E o que Jovica Nikolic fez em terras americanas ao serviço da sua seleção não foi mais do que um prolongamento daquilo o que havia feito no campeonato jugoslavo desse ano, isto é, colocando em campo toda a sua veia artística traduzida em exibições categóricas que ajudariam o país dos Balcãs a chegar até à medalha de bronze dessas Olimpiadas. Nikolic sobressaiu sobretudo na 1ª fase do torneio, ao apontar 3 dos 7 golos da sua seleção, um ante os Camarões, outro diante do Canadá, e outro perante o Iraque. Nos quartos-de-final não marcou, mas ajudou e muito a Jugoslávia a levar de vencida a poderosa Alemanha Ocidental - onde pontificavam nomes como Andreas Brehme, ou Guido Buchwald - por expressivos 5-2. Seguiu-se o duelo com a França orientada pelo mestre da tática Henri Michel, alusivo às meias-finais, o homem que acabaria com o sonho dos jovens artistas do leste europeu em chegar ao título olímpico na sequência de uma vitória - suada - por 4-2. A aventura de Nikolic nos Jogos de 1984 terminaria nesse dia, no Estádio Rose Bowl, em Pasadena, já que no jogo da disputa pela medalha de bronze o treinador Toplak optou por dar a oportunidade de jogar aos atletas menos utilizados na brilhante campanha olímpica, uma espécie de prémio, digamos assim, os quais não se mostraram em nada inferiores aos titulares e ofereceram à Jugoslávia a medalha de bronze na sequência de uma vitória por 2-1 ante a Itália do então jovem e promissor defesa Franco Baresi. A medalha de bronze dos Jogos Olímpicos de 1984, viria a ser o título mais pomposo da carreira de Jovica Nikolic.
Terminada a aventura americana o jogador voltou ao Estrela Vermelha, ao serviço do qual em 1984/85 iria vencer a Taça da Jugoslávia. A estrela de Nikolic brilhava a grande altura por estes dias, não sendo de estranhar que em setembro de 1985 fizesse a sua estreia pela seleção principal do seu país, num encontro referente à fase de qualificação para o Campeonato do Mundo do México (1986) diante da Alemanha Oriental. Encontro de boas e más recordações para Nikolic, uma vez que esta estreia não correu nada bem como comprova a surpreendente derrota caseira (1-2) com os alemães de leste.
A não qualificação da Jugoslávia para o México 86 como que coincidiu com a inexplicável curva descendente de Jovica Nikolic no Estrela Vermelha. O atleta começou a aparecer menos vezes no conjunto de Belgrado, sendo que nas duas últimas temporadas ao serviço deste emblema apenas participou em 14 encontros! Mesmo assim ainda se sagrou campeão nacional em 1987/88.

Ídolo no Salgueiros

E no fim da temporada de 88/89 Nikolic colocou um ponto final num casamento de 6 anos com o Estrela Vermelha, e numa altura em que contava já com 30 anos de idade decide aventurar-se no estrangeiro, seguindo as pisadas de tantos outros compatriotas seus rumo a paragens mais atrativas. E Portugal foi o país escolhido para relançar uma carreira que se encontrava algo estagnada... de forma incompreensível. Escolheu o Salgueiros, popular emblema da cidade do Porto, que na época se encontrava a militar nos escalões secundários do futebol português. E logo na época de estreia no clube de Paranhos Nikolic deu nas vistas, assumindo-se de imediato como o cérebro da equipa, o homem que criava todo o jogo ofensivo, mostrando aos apaixonados adeptos salgueiristas a sua técnica apurada aliada a uma invulgar e notável visão de jogo. Nessa temporada de estreia (1989/90) ajudou o Salgueiros a voltar ao seu "habitat natural", o mesmo é dizer, à 1ª Divisão, o principal campeonato português, uma subida conquistada de forma épica e memorável na última jornada da Zona Centro da 2ª Divisão, em Espinho, onde o Salgueiros bateu por 2-1 o Sporting local e fez a festa. Na qualidade de vencedor da Zona Centro da 2ª Divisão Nacional os encarnados do Norte disputaram com os vencedores das zonas Norte e Sul (respetivamente o Gil Vicente e o Farense) o título de campeão do referido escalão, título esse que viria a ser arrecadado pelo Salgueiros, que no banco - como treinador - tinha uma ex-estrela do futebol jugoslavo, Zoran Filipovic.
E de regresso à 1ª Divisão Nacional na época seguinte poucos acreditavam que os comandados de Filipovic não fizessem mais do que lutar até à última jornada para evitar nova descida ao inferno do segundo escalão. Enganaram-se. Em 1990/91 o Salgueiros foi tão somente uma das equipas que melhor futebol praticou em Portugal, com ajuda de uma equipa de aplicados "operários" como Madureira, Rui França, Pedro Reis, Tozé, Vinha, ou o trio de jugoslavos composto por Djoncevic, Milovac, e claro, Nikolic. Nomes que fizeram com estes fossem os anos dourados do popular clube portuense, tendo o prémio - mais do que justo - para o excelente e inolvidável trajeto de 90/91 sido um pomposo 5º lugar final, o mesmo é dizer, o apuramento para a Taça UEFA da temporada seguinte! Histórico. A título pessoal já aqui falei - noutras visitas ao passado - que 90/91 foi a temporada em que o meu coração foi conquistado pelo Salgueiros, a época em que descobri a mística da alma salgueirista, um sentimento inexplicável e ao mesmo tempo único. O amor ao Salgueiros não se explica, vive-se, ponto final. Um amor descoberto num célebre encontro dessa temporada de 90/91 diante do Estrela da Amadora, em Vidal Pinheiro, o lar do Salgueiral - nome popular pelo qual o Sport Comérico e Salgueiros é chamado -, o lar que senti desde logo meu assim que lá entrei pela primeira vez nessa tarde domingueira na companhia do meu pai e do meu tio. Os gritos de incentivo das gentes do Salgueiros, o sentir do pulsar dos seus corações a cada passe de um jogador vestido com aquela mágica camisola vermelha, a proximidade aos Deuses salgueiristas, tudo isto, e muito mais, fizeram de mim um membro daquela família única. Deixei-me encantar com a alma enorme do desengonçado Vinha (de quem já aqui falei no MVF), um alto avançado de origem cabo-verdiana que faz parte da galeria dos notáveis atletas que um dia vestiram a camisola do Salgueiros, e vibrei com a arte do cerebral número 10 daquela mágica equipa: Nikolic. Ou melhor, o Niko, como era carinhosamente chamado nas bancadas do mítico estádio Vidal Pinheiro. «Anda Niko, chuta Niko», eram alguns dos gritos de guerra populares sempre que este gigante jugoslavo (de 1,87m) pegava na bola. O Niko ensinou-me a gostar de futebol, mais do que aquilo que já gostava, e acima de tudo fez-me gostar do Salgueiros. Na temporada seguinte ele entrou novamente para a história do clube, participando nos dois jogos da 1ª eliminatória da Taça UEFA ante os franceses do Cannes, onde começava a aparecer um jovem de origem argelina chamado Zidane. E aqui faço uma ponte entre estes dois génios, Zidane e Nikolic, o primeiro com o passar dos anos tornou-se numa das maiores lendas da história do futebol, enquanto que ao outro faltou quiçá uma ponta de sorte para se tornar numa estrela do futebol internacional. Talento não lhe faltou, mas a sorte nada quis com ele. Posso até estar a dizer uma asneira, mas quando Zidane começou a despontar internacionalmente para o futebol eu via nos seus rasgos mágicos uma ponta de... Nikolic, verdade, o Niko tratava a bola como um cavalheiro, conduzindo-a num estilo muito semelhante ao do franco-argelino.
Nikolic abandonou o Salgueiros no final da temporada de 1992/93, despindo uma camisola que vestiu aproximadamente numa centena de ocasiões. Não deixou Portugal, tendo ainda atuado nas duas épocas seguintes ao serviço do Maia, na 2ª Divisão, mas sem o fulgor de outros tempos. A idade começava a pesar. De Portugal partiu posteriormente, quase sem deixar rasto, sabendo-se apenas que entre 2008 e 2010 teve uma aventura enquanto treinador, ao serviço do FC Ordabasy, do Cazaquistão.
Tal como eu, são muitos os salgueiristas que ainda hoje falam com saudade do Niko, um dos artistas do melhor Salgueiros de todos os tempos, um homem que me fez gostar do futebol... no que ele tem de melhor, pois claro. Obrigado Niko. 

Legenda das fotografias:
1-No Estrela Vermelha de Belgrado
2-Com a camisola da Jugoslávia
3-No Salgueiros

 

Nota: Texto escrito em 10 de outubro de 2012 no blog: www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Casemiro do Amaral

Aproveitando a recente viagem ao passado da história do futebol brasileiro onde o português Joreca foi recordado como o primeiro treinador estrangeiro a ter o privilégio de orientar a seleção canarinha - o outro foi o argentino Nélson Ernesto Filpo Nuñez, embora apenas num só jogo - vamos hoje conhecer um dos quatro homens que um dia tiveram a oportunidade - e sobretudo a honra - de vestir a mágica camisola do escrete. Uma situação invulgar, e impensável nos dias de hoje, até porque a tendência é outros países importarem para as suas seleções nacionais os artistas nascidos no Brasil, e não o contrário. Aliás, costuma dizer-se que o Brasil tem talento suficiente para formar duas ou três equipas de nível semelhante numa fase final de Campeonatos do Mundo! Mas nem sempre foi assim. Para surpresa de muita gente apaixonada pelo belo jogo também a cintilante seleção canarinha foi integrada em tempos por jogadores forasteiros, e um deles foi... português! É verdade.
Se o português Joreca foi o primeiro treinador estrangeiro a sentar-se no banco da seleção Casemiro do Amaral foi o segundo atleta nascido noutro país a vestir a amarelinha. Momento histórico ocorrido no seio de outro... momento histórico, como já iremos ver.
Corria o ano de 1916, quando a Argentina, país que vivia os primeiros anos de euforia provocada pelos encantos do belo jogo, decide organizar uma competição futebolística de cariz internacional com o intuito de celebrar o centenário da sua independência. Para tal foram convidadas três das melhores seleções sul-americanas da época, o Chile, o Uruguai, e o Brasil, trio ao qual se juntou o combinado da casa para disputar aquele que seria batizado de Campeonato Sul-Americano de Futebol, anos mais tarde rebatizado de Copa América, aquela que é hoje a competição mais antiga do planeta no que a seleções nacionais diz respeito.
A Buenos Aires, cidade que testemunhou esse histórico acontecimento, chegaram as principais estrelas do futebol da América do Sul daqueles dias, entre outros, os uruguaios Isabelino Gradín, e José Piendibene, e o brasileiro Arthur Friedenreich. Orientada por uma comissão técnica composta por Joaquim de Souza Ribeiro, Benedicto Montenegro e Mário Sérgio Cardim, a seleção canarinha apresentava-se na parada com uma curiosidade, ou melhor, com duas curiosidades. Do seu grupo faziam parte dois atletas estrangeiros (!), o inglês Sydney Pullen, que defendia as cores do Flamengo, e o português Casemiro do Amaral, guarda-redes que na época atuava pelos paulistas do Mackenzie College.
É pois sobre esta figura lusitana - quase desconhecido entre nós (!) - que iremos traçar em seguida umas breves linhas biográficas.
Na verdade, pouco ou nada se sabe da vida de Casemiro do Amaral em Portugal, sabendo-se apenas que nasceu em Lisboa a 14 de setembro de 1892, e que ainda criança terá emigrado para o Brasil juntamente com os seus pais. A história da lenda inicia-se pois em Terras de Vera Cruz, mais concretamente no Rio de Janeiro, em 1911, ao serviço do América, ao que se sabe o primeiro clube onde terá exibido os seus dotes de grande goleiro (guarda-redes). Ecos das suas (boas) exibições terão chegado a São Paulo, e no ano seguinte passa a defender a baliza do Germânia, um dos nobres emblemas do futebol paulista da época. Porém, a aventura neste clube foi curta, e nos dois anos seguintes enverga a camisola do clube que o tornou célebre, e que ele próprio ajudou a popularizar entre a urbe paulista, o Corinthians.
Com o Timão conquistou o único título da sua carreira, o de campeão paulista de 1914, curiosamente a primeira grande conquista do popular clube. Depois disso zangou-se e partiu para outras paragens, mas não para muito longe dali. Refugiou-se durante três temporadas num dos grandes rivais do Coringão da altura, o Mackenzie College, clube pelo qual poucos anos antes tinha atuado a primeira grande lenda do futebol brasileiro, Arthur Friedenreich.
E seria com as cores deste clube que em 1916 é chamado então ao grupo que viaja para a Argentina para disputar o primeiro Campeonato Sul-Americano da história. Seleção brasileira que, recorde-se, tinha apenas dois anos de vida, já que havia feito o seu primeiro jogo a 21 de julho de 1914, ante os ingleses do Exceter City (dizem os historiados do belo jogo que era a melhor equipa do Mundo daquele tempo).
Como concorrente no posto de guarda-redes o português Casemiro do Amaral tinha nada mais nada menos do que o primeiro homem que defendeu a baliza do Brasil, Marcos Carneiro de Mendonça, lendário goleiro do Fluminense, o melhor na sua posição por aqueles dias longínquos da década de 10 do século XX.
Como seria de esperar Marcos entrou em campo no dia 8 de julho de 1916 para defrontar o Chile, no primeiro jogo do Brasil numa competição oficial. No Estádio Juan Carmelo Zerillo este duelo saldou-se por uma igualdade a uma bola, com o tento brasileiro a ser apontado por Demósthenes. Neste jogo alinhou de início pelo Brasil o médio inglês Sidney Pullen, que se tornava assim no primeiro estrangeiro a alinhar pelo escrete.
E no jogo seguinte virou-se uma página na curta história da seleção. O histórico goleiro Marcos deixava a baliza para o estreante português Casemiro do Amaral. Apesar do bom futebol apresentado os brasileiros não conseguiram melhor do que repetir ante a equipa da casa, a Argentina, o resultado registado na estreia. Assim sendo, o terceiro e último jogo - a competição foi disputada em sistema de poule, onde todos jogaram contra todos - diante do Uruguai era de vida ou morte para o Brasil, a quem só a vitória interessava.
Casemiro do Amaral surgiu de novo como titular na baliza, e os brasileiros até foram os primeiros a festejar na sequência de um golpe fatal da estrela Friedenreich. O azar, porém, bateu à porta dos canarinhos. O defesa Orlando Pereira lesionou-se, e como na altura não eram permitidas substituições os uruguaios jogaram o resto do encontro com mais um jogador, superioridade aproveitada por Gradín e Tognola para fuzilar a baliza de Casemiro do Amaral e oferecer o triunfo à celeste por 2-1. O Brasil ia para casa com o terceiro lugar no bolso, ao passo que os uruguaios carimbariam no encontro senguinte - com a Argentina - o título de campeão das américas.
O sucesso deste primeiro Campeonato Sul-Americano de Futebol foi tal que dias mais tarde ao términus do certame fundou-se a Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL), que dali em diante passaria a tutelar o belo jogo na zona sul do continente americano. CONMEBOL que chamaria já até si a organização da edição seguinte do Campeonato Sul-Americano, que se realizou no Uruguai, em 1917, e contou com os mesmos quatro concorrentes da edição inaugural.
E para o Uruguai não viajou El Tigre Friedenreich, mas viajou Casemiro do Amaral, que com a saída de Marcos da seleção assumia a titularidade indiscutível do posto de guarda-redes. Ele fez os três jogos da campanha, o primeiro saldado por uma derrota ante a Argentina por 2-4, o segundo que se traduziu numa goleada sofrida aos pés dos mágicos uruguaios - que no seu grupo tinham agora a lenda Hector Scarone, que 13 anos mais tarde ajudaria a celeste a conquistar dois títulos olímpicos e um Campeonato do Mundo - e o terceiro na primeira vitória de sempre do escrete numa competição oficial, obtida ante o Chile, por 5-0, a qual garantiu - novamente - o terceiro lugar numa competição que voltaria a ser vencida pelo Uruguai.
Pelo Brasil Casemiro do Amaral ainda realizou mais um jogo, em outubro desse ano de 1917 (derrota por 1-3), pouco antes de regressar ao Corinthians, onde jogaria até 1920.
Quanto ao resto da história deste luso nada mais se sabe, a não ser que morreu ainda novo, com 47 anos, em São Paulo, a 8 de outubro de 1939.
Ah, para além de Sydney Pullen e de Casemiro do Amaral os outros dois intrusos (estrangeiros) na seleção foram o italiano Francisco Police, e o boliviano Marcelo Moreno.

Legenda das fotografias:
1-Casemiro do Amaral
2-Seleção do Brasil na Copa América de 1916, com Casemiro do Amaral a assumir o posto de guarda-redes
3-Atuando ao serviço de uma seleção paulista contra a sua congénere carioca
4-Equipa do Corinthians campeã paulista em 1914. O jogador luso é o terceiro elemento da fila de cima
5-Seleção brasileira da Copa América de 1917, sendo que Casemiro do Amaral se encontra vestido de negro na fila de cima
 
Nota: texto escrito em 4 de abril de 2013 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Magnar Isaksen

 

Com o avançar dos anos - desde a sua (re)criação - os Jogos Olímpicos tornaram-se num acontecimento mediático à escala mundial. A industrialização – as vias de comunicação, o telégrafo, a imprensa, a rádio, e mais tarde a televisão – ajudou a que as Olimpíadas da Era Moderna adquirissem o estatuto de maior espetáculo desportivo do planeta durante a primeira metade do século XX. De quatro em quatro anos olhares provenientes dos mais diversos pontos do Mundo centravam-se nas demonstrações da mestria atlética de homens das mais variadas raças, credos e religiões. Na qualidade de grande evento global os Jogos Olímpicos tornaram-se alvo de interesses políticos, adquirindo o papel de importante veículo de promoção de ideologias políticas. Olhando para as Olimpíadas como um instrumento para conquistar o poder, regimes políticos serviram-se do mediatismo do evento para vangloriar o seu nacionalismo e mostrar a superioridade da raça em relação às demais. O significado de uma medalha de ouro foi alterado, o que dantes premiava a excecionalidade de um atleta era visto pelos regimes políticos como um meio para mostrar ao Mundo a superioridade da sua nação em relação às suas congéneres. O atleta tornava-se assim num objeto do seu Estado de origem com a finalidade de evidenciar a supremacia de uma raça, enquanto que o mediatismo global do evento olímpico era visto como uma vitrine para que regimes políticos e/ou sociedades pudessem vincar no plano externo as suas ideologias políticas e/ou sociais. 


O ano de 1936 é um bom exemplo de como os meios políticos procuraram usar a popularidade dos Jogos Olímpicos para evidenciar ao Mundo as suas ideologias. Berlim acolheu nesse referido ano aquela que era já inequivocamente a maior manifestação desportiva do planeta. A Alemanha de então vivia sob o regime nazista comandado por Adolf Hitler. Vendo nos Jogos a ferramenta ideal para mostrar ao Mundo a superioridade da raça ariana o líder nazi não se pouparia a esforços para fazer destas as Olimpíadas mais espetaculares da história. 

Hitler montou uma autêntica máquina de propaganda política através dos Jogos. Com um orçamento ilimitado não deixou ao acaso o mínimo detalhe que pudesse colocar em perigo a sua estratégia de assalto ao poder através do mega evento desportivo. Um estádio olímpico foi construído propositadamente, e aos atletas alemães tudo era dado e permitido para que se pudessem preparar conveniente para o evento e desta forma conquistar o máximo número de medalhas de ouro que traduzissem a superioridade da raça ariana. 

O mediatismo dos Jogos atingia o ponto mais alto da sua história até então. 49 países marcavam presença em Berlim representados por cerca de 4000 atletas. Um recorde para a altura. Pela primeira vez a televisão associava-se ao evento, difundindo imagens do populismo nazi que tomou conta de Berlim para todo o Mundo. O maior evento desportivo do planeta estava transformado numa gigantesca manifestação de índole nazi perante o olhar do Mundo. Tudo parecia correr de feição a Hitler até ao momento em que surge um descendente de escravos que com a mestria da sua performance atlética desmoronou a máquina de propaganda nazi edificada por Hitler. Jesse Owens, era o nome deste norte americano que logo nas primeiras provas (de atletismo) dos Jogos de 1936 arrecadou quatro medalhas de ouro para espanto do planeta que seguia com atenção os desenlaces de Berlim.

A proeza do negro Owens desde logo se tornou numa epopeia que deitou por terra as aspirações de Hitler em transformar um evento desportivo de cariz global numa manifestação do regime nazista por si liderado. A saga de Owens fez com saísse de Berlim endeusado por todos, inclusive pelo próprio público alemão, com exceção de Adolf Hitler, por motivos óbvios, claro está.
Bom, esta pequena sinopse retrata não só um pouco a essência dos Jogos (re)criados pelo Barão Pierre de Coubertin nos finais do século XIX como também uma das edições mais mediáticas da história deste mega evento desportivo global. Mas o que ainda hoje muita gente desconhece é que não foi apenas Owens o causador dos planos de Hitler terem ido por água abaixo em 1936. E é aqui que se inicia esta nossa viagem ao passado... 

Jesse Owens pode até ter sido o elemento mais medático a desencadear a revolta - diria mesmo o ódio - de Adolf Hitler pelo facto de os seus discípulos terem sido humilhados, mas um outro homem, cujo foco da carreira desportiva praticamente se resumiu à efeméride que hoje vamos recordar, o facto que o tornou imortal na história do futebol, teve igualmente uma grande parte da responsabilidade por deixar furioso o... fuhrer. O seu nome é Magnar Isaksen, futebolista norueguês que integrou a lendária seleção nórdica que participou no torneio olímpico de futebol em 1936. Futebol que apesar da sua (já) vincada popularidade por aqueles dias até esteve para nem figurar no cartaz olímpico de Berlim! Ao que parece Hitler detestava o belo jogo (!), mas como este era tão só a modalidade rainha do planeta o fuhrer não teve dúvidas em inclui-lo no programa olímpico, e assim tirar partido da popularidade do jogo. Para a sua seleção nada faltou, tratando os seus futebolistas como verdadeiros membros da realeza, com o intuito de agarrar o ouro olímpico e assim atrair até si as luzes da ribalta
E as coisas até nem começaram nada mal para os germânicos, que na primeira ronda do torneio esmagaram o Luxemburgo por 9-0, para contentamento dos pares de Hitler, os quais após a pomposa vitória correram de imediato a avisar o fuhrer do massacre que haviam infringido aos frágeis luxemburgueses. Talvez devido a esse entusiasmo, o líder nazi fez questão de aparecer no encontro seguinte, a contar para os quartos-de-final, cujo adversário era a Noruega, que na eliminatória inicial se havia desenvencilhado da Turquia por 4-0. 

Reza a lenda que até então Adolf Hitler nunca havia presenciado uma partida de futebol (!), mas convencido pelos seus pares decide marcar presença no pomposo Estádio Olímpico de Berlim para ver a sua Alemanha ganhar e desta forma subir mais um degrau rumo ao ouro olímpico. Sim, ganhar, pois não lhe passava pela cabeça que depois dos nove golos aplicados aos luxemburgueses a sua equipa pudesse cair aos pés daqueles desconhecidos noruegueses. Aliás, os seus pares haviam-lhe garantido que a Alemanha não iria perder!!! Como estavas enganados. 

Não só cairam, como cairam com estrondo, graças a uma tarde inspirada do até então desconhecido avançado Magnar Isaksen. Atleta este nascido a 13 de outubro de 1910, na cidade costeira de Kristiansund, iniciando a sua - praticamente enigmática - carreira no clube da sua terra. Seria no entanto ao serviço do gigante norueguês Lyn (da capital Oslo) que Isaksen percorreu a maior parte do seu trajeto futebolístico. 1936 é na realidade um ano inesquecível na vida da nossa estrela cintilante de hoje, já que a 26 de julho faz o seu debute com a seleção nacional norueguesa, num encontro particular ante os vizinhos da Suécia. Uma estreia que não poderia ter corrido melhor, já que além da vitória (4-3) Magnar, que então contava com 26 anos, fez um dos golos da sua equipa. Se dúvidas existissem esta performance do avançado do Lyn convenceu o selecionador nacional Asbjorn Halvorsen a dar-lhe o cartão de embarque para Berlim, onde a Noruega iria escrever a página mais bela da sua história futebolística. Depois da já referida robusta vitória sobre a Turquia os noruegueses enfrentavam a turma da casa. 

Sem se intimidar com a presença de Adolf Hitler na tribuna de honra Magnar Isaksen silenciou por completo o estádio olímpico logo aos 7 minutos, quando pela primeira vez na tarde bateu o guardião Hans Jakob. Hitler terá gelado por esta altura, mas será que este não era mais do que um mero golpe de sorte de um duelo que ainda nem sequer tinha aquecido? Não, já que a Noruega controlou a contenda a seu bel prazer, e confirmaria essa superioridade já muito perto do fim - 83 minutos - e de novo pela estrela da tarde, Magnar Isaksen. 2-0, resultado final. Hitler, de cara fechada, de pronto abandonou o estádio olímpico, furioso, ao passo que Isaksen passava a ser inimigo eterno do fuhrer, tal como Jesse Owens, enquanto que para o seu povo ascendia à categoria de herói nacional.
A Noruega avançada para as meias-finais contra todas previsões, fase esta onde iria cair aos pés da futura campeã olímpica, a Itália. O prémio para a inolvidável façanha norueguesa viria com a conquista da medalha de bronze, após um trunfo sobre a Polónia por 3-2. Para sempre esta seleção nórdica ficaria conhecida como a equipa de bronze

Esta geração de futebolistas de um país que raramente marcou presença em grandes eventos futebolísticos viveu ainda um segundo momento inesquecível, dois anos após a epopeia de Berlim, em França, país que acolheria a fase final do Campeonato do Mundo. Noruega que era um dos 15 participantes, sendo que os caprichos do sorteio ditaram que a Itália - campeã do Mundo e olímpica em título - seria o adversário na primeira eliminatória. Na tórrida tarde de 5 de junho de 1938 Magnar Isaksen fazia parte do onze nórdico que subiu ao relvado do Stade Velodrome para enfrentar Giuseppe Meazza e companhia. E o que se assistiu foi a mais uma magnífica exibição norueguesa, obrigando a squadra azzurra a horas extras - isto é, prolongamento - para passar à eliminatória seguinte. 2-1 a favor dos italianos - que viriam a consagrar-se neste campeonato de novo senhores do Mundo - mas a Noruega saiu de cena debaixo de fortes aplausos. 

Entre 1936 e 1938 Magnar Isaksen vestiu em 14 ocasiões a camisola da sua seleção, ao serviço da qual apontou cinco golos, sendo que dois deles - os de Berlim - fizeram dele uma lenda. Uma figura lendária não por ter sido um atleta extraordinário, nada disso, até porque a Noruega teve futebolistas de maior craveira, mas lendário porque foi graças ao seu instinto matador que Adolf Hitler ficou a detester ainda mais o futebol no único jogo a que assitiu na sua vida! Magnar Isaksen faleceu a 8 de junho de 1979.

Legenda das fotografias:
1-Magnar Isaksen 
2-Imagem do histórico jogo que colocou frente a frente a Alemanha e a Noruega nos Jogos de Berlim, em 1936
3-O imortal onze norueguês que enfrentou os germânicos, com Isaksen na fila de cima (identificado com um círculo)
4-Noruega enfrenta a Itália no Mundial de 1938.
 
Nota: texto escrito em 28 de maio de 2013 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Ben David

Não fosse o seu excesso de humildade e o facto de a estrela da sorte ter deixado de iluminar cedo de mais o seu caminho, quiçá hoje não estaríamos aqui a recordar uma das lendas dos futebol internacional da década de 50! Diz quem o viu jogar que talento para subir ao Olimpo dos Deuses do Futebol era coisa que não lhe faltava, e a provar isso - uma de muitas provas, aliás - o facto de os mestres ingleses o terem rotulado como o melhor avançado centro que até então tinham visto jogar!!!
Henrique Ben David, assim se chama a nossa estrela cintilante de hoje, considerado o primeiro grande diamante futebolístico extraído de Cabo Verde, onde nasceu a 5 de dezembro de 1926, mais concretamente na cidade do Mindelo, na ilha de São Vicente. Como tantos outros filhos de famílias pobres foi de pé descalço que nas artérias de terra batida conduzia com arte as bolas de trapos que com ele se cruzavam. Figura alta, esguia, com uma impulsão invulgar, detentor de um remate poderoso, e um cavalheiro a tratar o esférico, Ben David despertou de imediato a cobiça dos clubes locais, iniciando aquela que se adivinhava como uma promissora carreira no Clube Sportivo Mindelense, onde ingressou no escalão de infantis, ali permancendo até aos 18 anos de idade, altura em que o seu talento era já gigante demais para continuar a figurar entre as idílicas paisagens do arquipélago de Cabo Verde.

Estávamos em 1946, e o seu destino seria a metrópole, o mesmo é dizer Portugal, e a sua capital, Lisboa. E desde logo vincou a sua faceta modesta, de moço adverso a ser o centro das atenções em grandes palcos - ou clubes neste caso - pelo que na hora de traçar o seu caminho na sede do Império Colonial escolheu o Unidos de Lisboa, ao invés dos gigantes Sporting, Benfica, e Belenenses, afamados emblemas da capital que tendo travado conhecimento com as qualidades do moço cabo-verdiano logo trataram de o agarrar para as suas fileiras. A razão pela escolha do modesto Unidos era simples, Ben David queria um emprego que lhe garantisse um futuro desafogado, porque o futebol, e parece que já pressentia a sua sina, era sol de pouca dura.
Porém, a empresa que suportava o Unidos de Lisboa deixou de o fazer, e o humilde cabo-verdiano teve de procurar outras paragens, outros portos de abrigo, longe das por vezes sinuosas estradas do estrelato futebolístico. A CUF acenou-lhe com um lugar cativo na sua equipa de futebol, e mais do que isso, muito mais importante para Ben David, um emprego como mecânico de automóveis na sua fábrica.
Mecânico de automóveis, este sim, o grande sonho daquele diamante cabo-verdiano.

No emblema do Barreiro andou pelos frios pelados dos escalões secundários durante duas épocas (45/46, e 46/47), tendo na primeira delas partilhado o ataque dos operários com dois homens que anos mais tarde - não muitos mais - haveriam de ascender ao tal Olimpo dos Deuses do Futebol. Eram eles Manuel Vasques, e José Travassos, que no Sporting se juntaram a Jesus Correia, Albano, e Fernando Peyroteo, edificando aquela que seria a orquestra mais virtuosa da história do futebol luso, os Cinco Violinos. Mas poderiam muito bem ter sido seis os violinos do clube lisboeta, caso Ben David não tivesse resistido a uma nova investida sportinguista ja em 1951, quando representou os leões - a convite destes - numa digressão que estes fizeram pelo Brasil. Em Terras de Vera Cruz David encantou, e pasmou os ocupantes do colossal Maracanã, o maior templo de futebol do Mundo daquela época, com os seus dotes de temível goleador.

Amor eterno ao Atlético

Na altura em que Ben David brilhou com a camisola leonina no Maracanã o seu coração era já do Atlético Clube de Portugal, popular emblema lisboeta que em 1947 apereceu na vida do talentoso cabo-verdiano. As enormes exibições ao serviço da CUF mais uma vez aguçaram o apetite dos grandes da capital, mas de novo Ben David fugiu dos holofotes mediáticos do futebol nacional, preferindo atravessar o (rio) Tejo em direção ao bairro de Alcântara, berço do pequeno Atlético. Ben David continuava assim fiel à humildade que caracterizava a sua personalidade.
Atlético que lhe ofereceu 500 escudos por mês, não se sabendo no entanto se o diamante africano terá continuado a exercer a sua amada profissão de mecânico na fábrica da CUF. Certo e sabido é que Ben David fez do emblema de Alcântara uma sombra dos grandes do desporto rei lusitano no que toca a lutar por galardões coletivos, isto é, títulos. Por outras palavras, Henrique Ben David colocou o Atlético Clube de Portugal no mapa do futebol português.
Demorou no entanto a afirmar-se na modesta coletividade, que por aqueles dias ocupava um lugar quase despercebido no primeiro plano nacional, isto é, a 1ª Divisão. Fez a estreia com a camisola do Atlético a 5 de outubro de 1947, num encontro ante o Belenenses.
Apesar de marcar muitos golos e de traçar nos retângulos nacionais ótimas exibições, Ben David só explodiu verdadeiramente na época de 1949/50, altura em que guiou o Atlético até um impensável 3º lugar na classificação final - ficando à frente dos grandes FC Porto, e Belenenses - de um campeonato ganho pelo Benfica, dos génios Julinho, Espírito Santo, Arsénio, ou Rogério Pipi.
Porém, uma temporada antes, os seus golos ajudaram o pequeno emblema a pisar pela segunda vez na história a relva sagrada do Estádio nacional, para discutir a final da Taça de Portugal. No duelo com o Benfica os rapazes de Alcântara venderam muito cara a derrota por 1-2.
Nesta célebre temporada de 49/50 os guarda-redes contrários foram vítimas do reconhecido poder de fogo do cabo-verdiano em 21 ocsiões, número apenas superado pelo benfiquista Julinho, o melhor marcador da prova, com 28 tentos.

Ingleses rendidos ao talento do diamante de Alcântara

As boas exibições do diamante daquela que era já a estrela cintilante dos rapazes de Alcântara fizeram com que em 1950 fosse chamado a representar a seleção nacional para o jogo com a poderosa Inglaterra, seleção esta então de má memória para o futebol luso, já que três anos antes havia vergado Portugal por uns humilhantes 10-0! O palco deste novo amigável era o mesmo da concludente derrota de 1947, o Estádio Nacional, cujas bancadas se apresentavam repletas de uma massa adepta que encarava este novo duelo com alguma expetativa e... receio. Estariam Sir Stanley Matthews - a estrela da seleção da rosa - e companhia a preparar outro massacre ao combinado luso? Era a questão que circulava nas graníticas bancadas do Jamor. A resposta chegou pelos pés do génio Ben David, que com uma exibição soberba fez passar quase por despercebidas as diferenças abismais que naquele tempo separavam o modesto futebol lusitano do evoluído football britânico. Apesar da derrota por 3-5 a seleção portuguesa mereceu rasgados elogios, que no plano individual se estenderam a Ben David, autor de dois golos. Reza a lenda que no final do jogo os mestres ingleses teceram rasgados elogios ao jogador do Atlético, classificando-o de tecnicamente muito evoluído, acrescentando que aquele rapaz era tão só o melhor avançado centro que até então tinham visto jogar! Ele que com aquela primeira internacionalização se havia tornado no primeiro nativo de Cabo Verde a vestir a camisola das quinas.

No plano interno, isto é, o campeonato nacional, a chama de Ben David continuava bem acesa, e nas temporadas de 50/51 e 51/52 ele continuou a liderar o seu Atlético no assalto aos lugares cimeiros da 1ª Divisão. Em 50/51 o clube de Alcântara foi 4º colocado, sendo apenas superado pelo campeão Sporting, Benfica, e FC Porto, sendo que plano individual a estrela do Atlético fez o gosto ao pé em 26 ocasiões, o seu melhor registo no escalão principal, ficando somente a três golos do seu ex-companheiro da CUF, o violino Vasques. 

Por aqueles dias o seu natural talento era já sobejamente conhecido no plano nacional e... internacional. De França chegou a Alcântara uma proposta de um afamado clube daquele país mostrando interesse em adquirir o diamante de Cabo Verde. Era o Stade Français, clube milionário parisiense que propôs a Ben David um luxuoso ordenado de seis mil escudos por mês, acrescido de mil e oitocentos escudos por vitórias obtidas fora de casa, mil por cada triunfo caseiro, e oitocentos escudos por empate. Para além desta tentação financeira, e sabendo da paixão de Ben David pela mecânica, o clube da capital gaulesa oferecia-lhe ainda uma espécie de estágio de especialização em mecânica numa fábrica à sua escolha entre as famosas marcas Citroen, Renault, e Peugeot. Perante estas ímpares condições Ben David não podia recusar a mudança para a majestosa capital francesa. Não recusou Ben David mas fê-lo o Atlético, que para libertar a sua jóia pedia 300 contos ao Stade Français, verba essa desde logo recusada por estes, que assim desistiam do sucessor de... Peyroteo!

Sucessor de Peyroteo depara-se com o azar

Para muitos dos especialistas do fenómeno futebolístico daquele tempo Ben David reunia todas as condições para ser o maior avançado centro do país. Muitos diziam mesmo que o sucessor do lendário e feroz - na hora de rematar à baliza - leão Fernando Peyroteo - o maior avançado centro do futebol luso da primeira metade do século XX - estava encontrado. Faltava-lhe quiçá apenas dar o salto definitivo para um grande de Portugal, para poder traduzir em títulos a arte do seu jogo.
Mas Ben David era leal à sua humildade e modéstia, e sobretudo ao seu Atlético, e por Alcântara continuou, tendo em 51/52 realizado mais uma soberba temporada no plano individual ao apontar 24 golos, ficando a apenas quatro do então emergente homem golo do Benfica, José Águas, o melhor marcador do campeonato. Em termos coletivos 1951/52 não correu tão bem a Ben David, que viu o Atlético quedar-se por um modesto 12º lugar!
Em 1952/53 chegou à Tapadinha - o nome do estádio do Atlético - o lendário treinador Joseph Szabo, que tantos títulos havia somado ao serviço do FC Porto e do Sporting. E o que até aqui tinham sido rosas para o talentoso Ben David transformou-se num penoso calvário durante as três épocas que se seguiram. Uma grave lesão no menisco fez com que a sua carreira entrasse prematuramente na reta final. A magia que Ben David touxera de África eclipsou-se, e até 1954/55, a sua derradeira época como futebolista, ele foi uma sombra de si mesmo! Não tinha sequer 30 anos quando pendurou as chuteiras! Em oito temporadas ao serviço do Atlético o rapaz do Mindelo apontou quase uma centena de golos (98 para sermos mais precisos) em 119 jogos oficiais, e mais do que isso perpétuou-se como o jogador mais lendário da história do popular clube de Alcântara.

Pela seleção nacional atuou em seis ocasiões, sendo que para além do histórico embate com a Inglaterra em 1950, defrontou ainda o País de Gales - a quem marcou um golo, em Cardiff, a 12 de maio de 1951 -, a Bélgica - que a 17 de junho de 1951 também conheceu a veia goleadora de David -, novamente a Inglaterra, e por fim a França, em Paris, a 20 de abril de 1952.
Aquele que outrora fora respeitado, admirado, e sobretudo temido, por adversários de vários quadrantes futebolísticos deixou cedo demais os campos de batalha, mas não o futebol.
Em 55 viaja para os Açores onde inicia uma carreira de treinador ao serviço do Santa Clara. Naquele arquipélago orienta ainda os conjuntos do União Sportiva, do Marítimo (da ilha Graciosa), e do União Micaelense. Posteriormente, e depois de deixar de vez o belo jogo, trabalhou na RTP Açores, sendo o responsável pelo programa Teledesporto.
Curioso, é que nasceu e morreu num arquipélago. Foi pois nos Açores - em Ponta Delgada - que no dia 5 de dezembro de 1978 - precisamente o dia em que completava 52 anos de vida - que o primeiro grande artista nascido em Cabo Verde deixou o mundo terrestre.

Legenda das fotografias:
1-Henrique Ben David com a camisola do seu Atlético
2-Um aspeto aéreo da fábrica da CUF nos anos 40
3-A entrada em campo de uma equipa do Atlético (Ben David surge em terceiro lugar a contar da eesquerda para a direita)
4-Com a camisola da seleção nacional
5-Novamente envergando o manto sagrado do clube de Alcântara
6-A equipa do Atlético treinada por Joseph Szabo em 52/53
7-Uma das últimas imagens do homem nascido em Cabo Verde

Nota: texto escrito em 16 de outubro de 2013 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogsport.com

Patalino

Já lá vão os tempos em que o amor à camisola falava mais alto. Tempos em que na hora de decidir entre ficar na terra natal a defender as cores do clube local ou assinar um contrato chorudo com um emblema de maior dimensão a balança pendia para a primeira opção. A paixão pelo clube onde cresceram, e no qual aprenderam a gostar de futebol, aliada ao amor à terra onde nasceram não tinha preço, nenhuma proposta milionária era capaz de superar este misto de sentimentos. Um pouco por todo o planeta da bola registaram-se várias histórias de amor eterno a um clube ou a uma cidade, sendo que Portugal conheceu algumas delas, sobretudo na Era do futebol romântico... bem distinto da atual Era do Futebol Indústria. A nossa estrela cintilante de hoje escreveu uma dessas histórias encantadoras de amor eterno, tendo tido o desplante - dirão alguns - de recusar propostas tentadoras de clubes como o Bordéus, o Atlético de Madrid, ou o gigante vizinho - deste - Real Madrid. Falamos de Domingos Carrilho Demétrio, ou simplesmente Patalino, para muitos o maior diamante que do Alentejo se extraiu no que a futebol diz respeito. Ainda hoje ele é o maior símbolo futebolístico de uma região onde o desporto rei atualmente vive sem chama, sem vivacidade, e sem o encanto de outros tempos, onde belíssimas equipas em representação de notáveis clubes como os dois rivais de Évora (Juventude e Lusitano), o Portalegrense, o Elvas, ou mais recentemente o Campomaiorense viveram empolgantes aventuras nos palcos mais importantes do futebol português. Como em tantos outros aspetos também no futebol o Alentejo vive vetado quase ao esquecimento!
Este triste cenário alude ao presente, porque o passado traduz-se em glória, e glória é sinónimo de Patalino, o rei do futebol alentejano.

Nasceu pobre, como tantos outros meninos do interior alentejano nas longínquas primeiras décadas do século XX, mais concretamente no dia 29 de junho de 1922. Elvas foi o seu berço, e um dos grandes amores da sua vida. Mais pobre - seguramente - ficou quando ainda adolescente, com 11 anos, perdeu o chefe de uma família de quatro irmãos - ele era um deles - o seu pai. Do progenitor herdou porém a alcunha que o iria eternizar nos campos de futebol, Patalino. Reza a lenda que o pai de Domingos Carrilho Demétrio era um exímio intérprete do jogo da pata, tão popular no Alentejo daquele tempo. Daí advém a alcunha Pata... lino, assim o batizaram os conterrâneos da pacata e simpática vila alentejana. Apesar de presenciar, enquanto criança, a mestria de seu pai na interpretação do tradicional jogo da pata, a paixão do jovem Domingos naqueles tempos de garoto era outra, e dava pelo nome de futebol. De pé descalço ele deu os primeiros pontapés numa bola de trapos. Com a morte do pai teve de ajudar no sustento da casa e pedreiro se tornou, mas nos tempos livres continuava a divertir-se nas jogatanas de rua com os rapazes da sua idade. Foi na rua que começou pois a dar nas vistas, rua que com o passar dos anos foi-se tornando cada vez mais pequena - e insignificante - para o talento do jovem Patalino. Um artista daqueles precisava de pisar um campo de futebol a sério, vestir a camisola de um clube, e com ela espalhar alegria e entusiasmo pelas bancadas. Assim, aos 18 anos entrou para o Clube de Futebol "Os Elvenses", filial número um do Belenenses, onde transportou para o retângulo de jogo a sua vincada e entusiasmante veia técnica, aliada à sua sagaz capacidade de finalização. Características demasiado requintadas para um Elvenses que na época de estreia (40/41) de Patalino deambulava pelos campeonatos regionais da Associação de Futebol de Portalegre.
O talento do filho de mestre do jogo da pata merecia outros palcos, mais pomposos, e uma temporada depois assina pelo Sport Lisboa e Elvas, filial do Benfica, e que rivalizava em termos de popularidade entre os habitantes de Elvas com o Sporting Clube Elvense, a filial do Sporting, pois claro. Em termos desportivos o SL Elvas era a equipa mais bem cotada da cidade, galgando escalões uns atrás dos outros. Em 1941/42 lutava na 2ª Divisão Nacional pela subida ao escalão principal, tendo para isso contribuido a arte de Patalino, que ainda limava o seu perfil de excelente avançado-centro. Porém, ainda lhe faltava alguma experiência para ser um verdadeiro galo de combate, e talvez por isso em 43/44 o SL Elvas empresta o promissor atleta ao Lanifícios de Portalegre, emblema que também disputava o segundo escalão nacional. Mas a estadia na capital do distrito foi curta.
Percebendo o erro cometido os dirigentes do SL Elvas são prontos a exigir o regresso de Patalino ao clube, onde aos poucos foi ganhando o estatuto de estrela principal, ajudando a guiar o emblema até à 1ª Divisão na temporada de 45/46, terminando a prova em 9º lugar. Esta época seria memorável para o Belenenses, já que no último jogo do campeoanto atuava em Elvas ante o conjunto de Patalino. Uma vitória dos azuis de Belém garantia-lhes o título, caso contrário este iria fugir para o Benfica. E o SL Elvas tudo fez para oferecer o ceptro de campeão ao pai SL Benfica, mas com um - último - quarto de hora de jogo avassalador os azuis do Restelo venceram por 2-1, alcançando assim o único título de campeão nacional da 1ª Divisão da sua história.
Na época seguinte o SL Elvas é 9º posicionado, de novo, e o nome de Patalino era já conhecido por todo o país, que não ficava indiferente à sua veia goleadora. Patenteando uma postura elegante em campo ele facilmente alvejava - ou com os pés, ou com a cabeça - as redes contrárias. Graças a Patalino, Elvas tornou-se numa terra difícil para qualquer que fosse o clube do Campeonato Nacional da 1ª Divisão. Era uma fortaleza para a equipa da casa, e para dali sair com algum resultado positivo era preciso suar muito. Ver os jogos do SL Elvas era de facto um regalo para os olhos dos adeptos do futebol de ataque. Os golos surgiam em catadupa nas redes contrárias, e Patalino era o principal responsável por aquele lendário futebol ofensivo. No que concerne a números a estrela alentejana apontou nesta segunda temporada no escalão maior 24 golos, superado apenas pela lendária máquina goleadora do Sporting, Fernando Peyroteo, o maestro dos Cinco Violinos.
Apesar da fama desportiva a presença em dois anos consecutivos na 1ª Divisão trouxe sérias dificuldades ao SL Elvas. As constantes deslocações para outras cidades, com o intuito de disputar os jogos "fora" da competição, fez mossa nas modestas finanças do clube alentejano. Foi solicitada a ajuda à casa mãe, isto é, ao Benfica, o qual de imediato negou qualquer tipo de auxílio. Com o mesmo problema se debatia o Sporting Clube Elvense, sendo que após amistosas conversações entre os dirigentes dos dois clubes decidiu-se pela fusão dos dois emblemas, e assim em 15 de agosto de 1947 nascia O Elvas - Clube Alentejano de Desportos. O novo emblema ocuparia a vaga deixada pelo SL Elvas na 1ª Divisão, sendo que Patalino continuava a ser o principal abono de família elvense. Episódio famoso na época de estreia de O Elvas na 1ª Divisão foi o jogo no Campo Grande, ante o poderoso Benfica, clube este que precisava urgentemente de vencer os alentejanos para não ver fugir o título de campeão para o rival Sporting. E eis como que de uma vingança se tratasse - pela recusa dos encarnados de Lisboa em ajudar financeiramente o SL Elvas num passado recente - Patalino mata o sonho benfiquista, e com dois golos oferece o título ao Sporting.

Perante tamanha qualidade os responsáveis pela seleção nacional abriram em 1949 as portas da equipa das quinas a Patalino. A estreia deu-se na catedral do futebol luso, o Estádio Nacional, a 15 de maio desse ano, ante o País de Gales, tendo os lusos vencido por 3-2... com um golo da autoria de Patalino. Que estreia! Vestiria a camisola de Portugal em mais duas ocasiões - numa altura em que os jogos internacionais não eram realizados com tanta frequência como são hoje - e apontaria mais um golo.
A classe do astro alentejano ultrapassava agora as fronteiras nacionais, e do estrangeiro chegavam a Elvas propostas milionárias pelo concurso do seu valioso atleta. As primeiras ofertas chegaram dois anos antes da estreia de Patalino pela seleção nacional. O Bordéus foi o primeiro a lançar o canto da sereia, com o talentoso goleador a responder no seu estilo humilde e amável que Elvas estava no seu coração, que amava a terra como bom alentejano que era, e como tal declinou o convite. Nesse mesmo ano seria a vez do Atlético de Madrid passar a fronteira e acenar com 300 mil pesetas, metade para o clube, e a outra metade para o jogador, valor ao qual juntava a cedência de três jogadores ao clube alentejano e ainda a realização de um jogo em casa de O Elvas. Em Madrid, Patalino iria usufruir de um ordenado de 2500 pesetas, acrescido de prémios de jogo. A resposta? Não! O amor ao clube e à terra voltou a falar mais alto.
O Badajoz, o Sevilla, e o colosso Real Madrid também tentaram aliciar o jogador com propostas milionárias, sendo que o clube madrileno chegou a oferecer 400 mil pesetas pela transferência e um ordenado de 35 mil pesetas. A cobiça não era restrita a Espanha. Em Portugal, Benfica, Belenenses, e Sporting (que via no alentejano o homem ideal para substituir Peyroteo), também tentavam seduzir a estrela do futebol alentejano, e na época uma das maiores de todo o país, mas o seu amor a Elvas e ao clube local falou sempre mais alto. Reza a lenda que tudo o que Patalino queria era amealhar algum dinheiro para poder comprar um táxi de modo a garantir o sustento para o resto da vida.

Diz quem com ele de perto privou que era um homem simples, ingénuo, até, bem diferente do rápido, fogoso, e viril jogador que assombrava as balizas adversárias. Na pacatez de Elvas ele era feliz, despindo a glória e a fama angareadas nos muitos campos de futebol por onde passeava a sua classe. O terror dos guarda-redes, como alguém um dia o chamou defendeu com paixão a camisola de O Elvas até 51/52, altura em que o clube andava já pela 2ª Divisão. Altura também em que vicissitudes o levariam a deixar a sua amada Elvas, a terra que em inúmeras entrevistas ele dizia não trocar por nada desta vida. Mudou de terra, mas não deixou o seu Alentejo, fazendo a viagem até Évora para defender as cores do Lusitano, popular emblema que na época atuava entre os grandes do futebol lusitano. E também aqui o rei do futebol do Alentejo fez história nas quatro épocas - entre 52/53 e 55/56 - em que vestiu a camisola verde-e-branca do Lusitano, sendo que entre muitas tardes de glórias, e dezenas de golos marcados, destaca-se uma eliminação do gigante FC Porto em pleno Estádio das Antas. Pelo Alentejo continuou a balançar as redes por mais alguns anos, mais concretamente no FC Serpa, clube que ajudou a conquistar o título de campeão nacional da 3ª Divisão em 56/57, precisamente a temporada em que vestiu pela primeira vez a camisola deste emblema, pelo qual jogaria até 59/60.
Com a carreira de futebolista a caminhar para o fim Patalino queria arranjar um emprego que lhe garantisse um bom resto de vida, e talvez por isso, traiu finalmente o seu Alentejo. Saiu para o Barreiro, onde em 1960/61 representou a equipa do Luso nos campeonatos distritais! Despediu-se de uma brilhante carreira no modesto Arrentela - também nos distritais - onde jogaria até 1963, ao mesmo tempo em que era empregado da Siderogia Nacional.

Patalino regressou à sua amada Elvas no últimos anos da sua vida, localidade onde viveu os melhores momentos de uma carreira que poderia ter contornos bem mais gloriosos, caso tivesse aceite propostas milionárias de clubes como o Real Madrid, o Atlético de Madrid, ou os franceses do Bordéus. Mas será que se Patalino tivesse dito que sim a esses tentadores - e irrecusáveis nos dias de hoje - convites poderia considerar-se um homem feliz? Se calhar não. A fama e o dinheiro não significavam tudo na Era do Futebol Romântico. Este é um bom exemplo disso.
Domingos Carrilho Demétrio faleceu em Elvas a 28 de junho de 1989. Ainda hoje, quem chega a Elvas vive a lenda de Patalino, não só pela boca dos poucos elvenses ainda vivos que em crianças o viram jogar, mas também porque o estádio municipal tem o seu nome, e onde está implantado um busto seu que assim perpétua a lenda daquele que é não só o mais famoso desportista elvense de todos os tempos, como também o mais afamado de todos os futebolistas nascidos no Alentejo. 

Legenda das fotografias:
1-Patalino, com a camisola do seu amado O Elvas
2-Defendendo as cores do Sport Lisboa e Elvas
3-Uma equipa do SL Elvas na 1ª Divisão Nacional (Patalino é o jogador da fila de baixo que tem a bola)
4-Equipa de O Elvas na época de estreia na 1ª Divisão
5-Patalino com as cores da seleção nacional
6-Representando o Lusitano de Évora. Patalino efetuou um total de 189 jogos na 1ª Divisão, tendo marcado 118 golos!
7-O FC Serpa de Patalino, campeão nacional da 3ª Divisão
8-Busto de Patalino à entrada do Estádio Municipal Domingos Carrilho Demétrio "Patalino"
 
Nota: Texto escrito em 28 de novembro de 2013 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Jaguaré

Jaguaré

Hugo Gatti, René Higuita, José Luis Chilavert, Juan Carlos Henao, ou Rogério Ceni, nomes que para além de sul-americanos têm em comum o facto de serem lendas excêntricas das balizas, ou traduzido em linguagem popular, guarda-redes detentores de uma boa dose de loucura. Característica esta tão comum nos keepers nascidos na região mais a sul do continente americano, expressas em dribles serpenteantes por entre os dianteiros rivais, em defesas acrobáticas, ou na arte de concretizar na baliza contrária.O primeiro louco das balizas reuniu em torno da sua figura estas três características, que como é óbvio, fizeram dele o primeiro ícone excêntrico que no retângulo de jogo não se contentou apenas em ocupar a solitária posição de guarda-redes. Jaguaré Bezerra de Vasconcellos quis muito mais, ambicionou conquistar terrenos que não eram seus, e ali chegado criou obras de arte futebolísticas só ao alcance dos grandes astros da bola, como Pelé, Maradona, Di Stéfano, Eusébio, Cruyff, ou Garrincha, o anjo das pernas tortas, figura mítica do futebol mundial que serviu de molde para que em 1954 uma revista desportiva imortalizasse Jaguaré como o Garrincha das Metas (balizas). E tal como Mané a nossa estrela cintilante de hoje nasceu sob os raios de sol - quase sempre abrasador - que iluminam de uma forma muito especial o Rio de Janeiro, cidade onde a 14 de maio de 1905 nasce então o filho de Antônio Bezerra de Vasconcellos e de Raimunda Tavares de Vasconcellos. No bairro carioca da Saúde, lugar habitado na sua esmagadora maioria por famílias pobres, cresceu o menino Jaguaré. Localizado nas margens da Baía de Guanabara, a Saúde era um dos cinco bairros cariocas que partilhavam o porto da Cidade Maravilhosa, sendo por isso vulgar que a maioria dos seus habitantes - quase todos afro-descendentes - estivesse profissionalmente ligada à estiva. O caminho de Jaguaré não foi diferente dos seus conterrâneos, e ainda muito novo troca as brincadeiras de criança pela dureza do cais, onde abraça a profissão de estivador.

O "Garrincha das Metas" a atuar em terrenos
do campo que não o seu

Nos poucos tempos livres da sua cinzenta infância fazia da bola o seu brinquedo de eleição. Tratava-a carinhosamente por «minha bichinha», uma relação de amor puro e... eterno, que teve os seus primeiros capítulos oficiais no Vasco da Gama, clube carioca no qual Jaguaré deu os primeiros passos no futebol. Aconselhado por um amigo seu a fazer uns testes no emblema Cruz Maltino o rapaz rapidamente foi mandado para debaixo dos postes, onde desde logo demonstrou qualidades, valentia, e sobretudo um... enorme sentido de humor quando se cruzava no campo de batalha com os seus colegas de ataque. Passamos a explicar. A vincada habilidade de Jaguaré com a bola nos pés era traduzida em dribles serpenteantes aplicados aos jogadores de campo contrários, jogadas que levavam diversão à torcida, e revolta aos adversários. São muitas as histórias que eternizam as brincadeiras - de mau gosto, para alguns - do guarda-redes nos anos em que este defendeu a baliza vascaína, algumas delas guardadas no livro "O Negro no Futebol Brasileiro", da autoria de Mário Filho, destacando-se entre muitas aquela em que Jaguaré num jogo ante o América «quase mata Alfredinho de raiva. Primeiro, defendeu um chute do atacante americano somente com uma das mãos. Depois atirou a bola na cabeça de Alfredinho para fazer nova defesa». Lances como este ficariam celebrizados na história do jogo como as molecagens de Jaguaré. E foram tantas... 

Ídolo vascaíno



Equipa do Vasco da Gama que conquistou
o título de campeão estadual do Rio de Janeiro em 1929

A veia circense de Jaguaré lotava os estádios onde o Vasco da Gama jogava. A ligação do menino estivador ao popular emblema carioca deu-se em 1928, o tal ano em que aconselhado pelo seu amigo, e defesa vascaíno, Espanhol, o rapaz do Bairro da Saúde vai prestar provas ao clube. Bastou um treino apenas para que os responsáveis do Vasco admitissem Jaguaré para a sua equipa principal, onde desde logo se apoderou da baliza. Reza a lenda que uma vez titular absoluto das redes vascaínas, Jaguaré afugentava com o seu poderoso remate todos os pretendentes ao seu trono. Quando alguém se aventurava a ir fazer um teste para tentar ser o novo dono da baliza vascaína Jaguaré assumia o papel de examinador, ou seja, assim que o candidato a goleiro assumia posição entre os postes o dito examinador encarnava na pele de um feroz avançado, fazendo uso do seu forte pontapé numa sessão de tiro ao alvo, sendo que o alvo não era a baliza mas sim o pretendente a guarda-redes. Assim que o pobre era apanhado em cheio por uma das bombas de Jaguaré, fugia dali a sete pés, continuando o gol (baliza) vascaíno nas mãos do moleque da Saúde. Em 1929 o Vasco da Gama agregou a si um leque de talentosos jogadores, sobressaindo, para além de Jaguaré, que era já um dos ídolos do futebol carioca daqueles anos 20, nomes como Fausto, Brilhante, Itália, Tinoco, e um tal de 84 (!) - nome curioso para um jogador de futebol, sem dúvida. Juntos guiaram o emblema Cruz Maltino à conquista do Campeonato Estadual do Rio de Janeiro desse ano. 

Jaguaré na seleção


A veia artística de Jaguaré não passa despercebida aos responsáveis pela seleção brasileira, sendo que entre 1928 e 1929 o goleiro é chamado por três ocasiões ao escrete - que ainda não era canarinho - para a disputa de partidas amigáveis ante as equipas do Motherwell (Escócia), do Barracas (Argentina), e do Rampla Juniors (Uruguai). Em 1931 a vida do guarda-redes que adorava desafiar os avançados contrários com saídas aventureiras da sua zona de ação conhece um novo capítulo. O Vasco da Gama promove uma digressão da sua equipa principal até Portugal e Espanha, países cuja interpretação do futebol deixou Jaguaré maravilhado. O goleiro mostrou-se fascinado com os modos cavalheirescos e profissionais com que o belo jogo era tratado no Velho Continente, em contraste com o rude amadorismo como era vivido no seu país. Face a esse fascínio Jaguaré e o seu colega de equipa Fausto não fizeram a viagem de regresso ao Brasil, forçando, em Espanha, a saída imediata do Vasco da Gama, para em seguida firmar contrato com o Barcelona. Ligação que seria histórica, já que desta forma Jaguaré e Fausto tornavam-se nos primeiros futebolistas brasileiros a jogar - profissionalmente - na Europa.

Catalães não acharam muita graça às molecagens de Jaguaré




Jaguaré e Fausto, os primeiros brasileiros
a jogar no estrangeiro

A permanência na Catalunha é porém curta. Alvos de preconceito por parte dos dirigentes e adeptos do Barça os dois atletas somente aguentaram cerca de um ano com a camisola blaugrana. Ao que se diz não foi só a cor da pele - em tons de negro - de ambos que deu aso à antipatia dos catalães face às suas figuras, mas sobretudo as brincadeiras de Jaguaré no terreno de jogo. Na pele de uma criança grande o carioca continuava a gingar entre os adversários com a bola nos pés por terrenos pouco habituais para um guarda-redes, pelo menos na ótica dos responsáveis e adeptos do Barcelona, que nunca acharam muita piada às molecagens de Jaguaré. Após a aventura falhada em Espanha regressa ao Brasil... como um herói. A notícia do seu regresso foi recebida em delírio por um país que continuava a idolatrar o seu estilo inconfundível de interpretar o jogo. No retorno à pátria foi para São Paulo, cidade onde defendeu com estilo a baliza do Corinthians. Com estilo na verdadeira ascensão da palavra, uma vez que da Europa trouxe algumas modas até então nunca vistas nos goleiros de futebol, como por exemplo o uso de luvas e do boné que caracterizava os guarda-redes europeus. Jaguaré tornava-se assim cada vez mais num espetáculo dentro do próprio espetáculo.

Nova travessia no Atlântico: rumo a Lisboa



Jaguaré com as cores do Sporting frente
grande rival Benfica


Jaguaré não ficou perturbado pela experiência menos positiva de Barcelona, e em 1935 atravessa de novo o Atlântico rumo a Lisboa, desta feita para defender as cores do Sporting. À semelhança do ocorrido na Catalunha também a estadia do brasileiro em solo luso foi curta, mas ao que se sabe um pouco mais feliz em relação à primeira experiência. Jaguaré fez, de certa forma, história no futebol português, desde logo por ter sido o primeiro guarda-redes a usar luvas, tal como havia acontecido no Brasil. Entre novembro de 1935 e abril de 1936 o excêntrico jogador defendeu por sete ocasiões a baliza leonina, tendo vencido seis jogos e perdido apenas um - para o rival Benfica. Tal como no Brasil e em Espanha o estilo brincalhão e provocador que Jaguaré exibia em campo causou algum impacto em Portugal. Certo dia, num embate contra o Benfica, Jaguaré cuspiu na bola antes do benfiquista Aníbal José partir para a conversão de uma grande penalidade. Desconhecendo-se se com algum nojo ou não por tal atitude o que é certo é que Anibal José atirou o esférico por cima da baliza. O árbitro mandou repetir o lance, e Jaguaré voltou a cuspir na bichinha, como ele gostava de chamar a sua companheira das brincadeiras, e mais uma vez o jogador do Benfica voltou a falhar o pénalti. Reza ainda a lenda que num outro encontro, desta feita ante a Académica, Jaguaré sai a correr da baliza para travar um ataque contrário, sendo que posteriormente na posse da bola sai ele próprio a jogar em contra-ataque perante o espanto de colegas, adversários, e do próprio público. Como já foi referido a estadia do brasileiro em Lisboa durou apenas seis meses, muito por culpa de um jovem de 20 anos chamado Azevedo, figura esta que ao agarrar a titularidade da baliza sportinguista iniciava um trajeto que o haveria de o levar até ao Olimpo dos Deuses do futebol português. Mesmo tapado por aquele que viria a ser caracterizado como um dos melhores guardiões lusos de todos os tempos, Jaguaré enriqueceu ao serviço do Sporting o seu currículo desportivo, na sequência da conquista do título de campeão de Lisboa de 35/36. 
 

O pénalti da fama em França



Equipa do Olympique de Marseille campeã de França em 1937


Deixando para trás a capital portuguesa Jaguaré rumou para a edílica região do sul de França, para representar o Olympique de Marseille (OM), onde se tornou ídolo. As suas excêntricas exibições ao serviço dos marselheses atraíram até si as luzes da ribalta, a fama que tanto buscou em Espanha e em Portugal e nunca alcançou. No Marselha foi peça fundamental para a conquista de títulos que ainda hoje se destacam no vasto currículo do emblema marselhês muito por culpa das brincadeiras que Le Jaguar - como a imprensa gaulesa o iria apelidar - efetuava em campo. Reza a lenda que em França a excentricidade de Jaguaré atingiu contornos vincados: danças com a bola nos pés em frente aos adversários, defesas com pontapés de bicicleta - terá sido nele que Higuita se inspirou para edificar a sua famosa defesa escorpião? - provocações constantes a adversários que os levavam à profunda irritação, e goleador. É verdade, goleador. Jaguaré foi o primeiro guarda-redes a converter grandes penalidades, facto ocorrido na final da Taça de França de 1938, a qual colocou frente a frente o OM e o Metz. Lance imortalizado da seguinte forma pela revista Sport Ilustrado na edição de 22 de junho de 1938:  «Aos 22 minutos, Laurent, do Metz, fez um penalty. Com supresa de todos os assistentes, Jaguaré abandonou o seu posto e encaminhou-se para o goal adversário. Jaguaré collocou-se diante da bola, e quando o árbitro apitou, bateu o penalty. Ouviu-se uma exclamação da assistência. Jaguaré enviou a bola a um canto e marcou o goal de empate. Foi um lance sensacional. Um arqueiro fazer um goal contra o adversário! Em nossa capital, jamais houve um caso, em partida official, de um arqueiro executar um penalty».  
Final onde a excentricidade do brasileiro iria mais além ao defender uma grande penalidade com um salto impressionante, onde mais parecia um... jaguar a agarrar a sua presa.

Jaguaré atuando pelo Corinthians
disputa uma bola com o astro do
futebol brasileiro da época:
Arthur Friendenreich

Entre 1936 e 1939 - o período de permanência no OM - Jaguaré atingiu o ponto mais alto da sua carreira ao serviço do futebol gaulês. Foi campeão nacional em 1937 e venceu, como já vimos, a Taça de França de 38. O eclodir da II Grande Guerra Mundial na Europa fê-lo regressar a casa, assustado (com a guerra)... e pobre. A criança grande que Jaguaré exibia dentro dos campos de futebol era igualmente transportada para o seu dia-a-dia pessoal. Não soube poupar um único cêntimo do que havia ganho na Europa, gastando todo o dinheiro que ganhava com amigos nas molecagens da vida mundana. Ao voltar à sua pátria abraçou de novo a dura profissão de estivador. No Rio de Janeiro ainda atuou pelo São Cristóvão, mas sem o sucesso arrecadado no Vasco da Gama ou no Marselha. A vida dura no seu país aliada às saudades que tinha da Europa fazem-no regressar ao Velho Continente, e de novo com Portugal como destino. Desta feita ruma ao norte do país, onde defende as balizas do Académico do Porto e do Leça, entre 1940 e 1942. As informações sobre a estadia - e sobretudo sobre as peripécias - de Jaguaré na Cidade Invicta são escassas, ou mesmo nenhumas, sobressaindo contudo o seu papel decisivo na subida à 1ª Divisão que os leceiros alcançaram em 1940/41. Atravessou pela última vez o Atlântico para morrer na mais profunda miséria na sua pátria. Sabe-se que passa os últimos anos da sua vida em Santo Anastácio (Estado de São Paulo) onde se entrega às bebidas alcoólicas e às lutas de rua. E seria precisamente na sequência de uma dessas lutas de rua que Jaguaré voltaria a ser notícia nos jornais por uma última vez, depois de ser espancado até à morte por três polícias com quem se tinha envolvido em confrontos. Estavamos a 27 de agosto de 1946, data em que o pioneiro das loucuras de Higuita, Gatti, Henao, ou Chilavert dizia adeus ao mundo terrestre. 

Nota: Texto escrito em 11 de março de 2014 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Pahiño

Pahiño, com a camisola
do emblema da sua terra natal,
o Celta de Vigo
Vigo... a beleza dos seus traços naturais aliada ao seu posicionamento geográfico, conferem-lhe um imponente destaque no idílico cenário das Rias Baixas galegas. Berço do principal porto pesqueiro da Europa, a cidade mais populosa da Galiza - com cerca de 300 milhões de habitantes - é além de tudo o mais importante centro comercial e económico da região. Vigo assume contornos de maior encanto quando enquadrada no cenário futebolístico. Ali, o Celta arrebata os corações viguenses e... não só. O emblema fundado em 1923 - resultante da fusão entre o Real Vigo Sporting e o Fortuna de Vigo - desperta paixões em toda a Galiza, lutando - no patamar da eternidade, assim estamos em crer - pelo título de clube mais popular da região com o eterno rival do norte, o Deportivo da Corunha. Apesar de a ascensão do Celta aos grandes palcos do futebol europeu - vulgo, as eurotaças - se ter dado num passado muito recente, estando ainda bem fresca na memória de muitos as épicas noites de Balaídos - a mítica casa dos celtistas - onde Golias como o Liverpool, a Juventus, o Milan, ou o Benfica - lembram-se dos 7-0??? - cairam aos pés do pequeno David das Rias Baixas, as primeiras páginas douradas do nobre representante de Vigo foram escritas ainda na primeira metade do século passado, pela pena da estrela mais cintilante do futebol galego, Manuel Fernández Fernández, ou simplesmente Pahiño, a alcunha - desconhece-se a sua origem! - que o tornou célebre no Olimpo do Belo Jogo. A sua louca obsessão pelo golo fez com que Pahiño seja ainda hoje recordado como um dos mais prolíferos avançados da história do futebol espanhol. Dos seus (bons) pés - sobretudo - foram disparadas autênticas balas de canhão que destruiram as balizas contrárias vezes sem conta. Ah, noutras ocasiões a meta adversária era igualmente fuzilada com letais cabeceamentos, já que além de dois bons pés Pahiño era também senhor de um bom jogo de cabeça. Talento(s) descobertos nas areias das praias viguenses, onde Manuel Fernández Fernández esquecia - por certo - a vida dura do campo (agricultura), lides às quais desde muito novo se habituara com o objetivo de ajudar no sustento da sua família.

Pahiño conforta um jogador do Espanyol
depois de ajudar a eliminar os catalães
na meia-final da Copa Generalíssimo de 47/48
Nas praias de Vigo estão pois guardadas as primeiras histórias de intimidade entre Pahiño e a bola, uma relação que se assumiu - de forma mais séria - em Arenas de Alcabre, o primeiro emblema a ser oficialmente representado pelo niño nascido a 21 de janeiro de 1923, em San Playo de Navia, nos arredores de Vigo. Estavámos ainda um pouco longe do casamento entre Pahiño e o Celta, mas não deixa de ser curioso que o jogador e o clube tivessem vindo ao Mundo no mesmo ano! Obra do acaso? Se calhar não...
De Arenas de Alcabre para o Juventudes de Vigo - o seu segundo clube - o caminho foi curto, já que o poder de fogo de Pahiño começava a ter eco por toda a Galiza. Apercebendo-se que mesmo por debaixo do seu nariz deambulava um talento na arte de bombardear o esférico para as balizas contrárias, eis que em 1943 o Celta de Vigo não mede esforços para contratar aquela que viria a ser a jóia da (sua) coroa nos cinco anos que se seguiram. O fichaje do poderoso avançado não foi contudo um parto fácil, longe disso. Na corrida pelo concurso do nativo de San Playo de Navias estava também o Salamanca, emblema que na altura tentava entrar na elite do futebol espanhol, o mesmo será dizer, ascender à Primeira Divisão. No entanto, os helmánticos foram vencidos pelo coração! Pelo coração celtista que pulsava dentro do jovem Pahiño, que ainda criança, pela mão do seu pai, travou-se de amores pelas camisolas azul celeste que aos domingos à tarde reluziam no relvado de Balaídos. Nessa época estaria ainda distante de imaginar que também ele um dia iria brilhar com a indumentária celtista nos retângulos mágicos do futebol espanhol, ajudando a edificar - em seu redor - uma das equipas mais lendárias da história do clube de Vigo, que durante uma mão cheia - pelo menos - de temporadas assombrou os gigantes do belo jogo castelhano.

Fase do jogo decisivo entre o Celta e o Granada,
realizado no Metropolitano de Madrid
Estávamos em 1943 quando Pahiño - com 19 anos - chegou a Balaídos. No entanto, e apesar da monstruosidade do seu poder de fogo, o Celta não foi feliz na temporada de 1943/44, foi último de uma Liga vencida por um Valência onde se destacava o goleador Mundo, e acabou por descer aos infernos da Segunda Divisão. Passagem pelo inferno que seria fugaz, já que na época seguinte a garra de Pahiño aliada ao seu instinto de predador catapultou o Celta de novo para o convívio entre os grandes do futebol espanhol. Episódio lendário que ressalva do trajeto glorioso do Celta em 44/45 prende-se com o jogo final que dava acesso à promoção. Frente a frente mediram forças no (Estádio) Metropolitano de Madrid o Celta e o Granada, e quem vencesse ganhava o bilhete para a Primeira. Pahiño, titular indiscutível dos celtistas desde que havia chegado a Balaídos, foi a estrela da tarde. No relvado do mítico recinto da capital fez jus ao seu estatuto de temível homem de área, fazendo dois golos durante a primeira parte. Performance que faria com que os defensores contrários lhe dedicassem atenções... suplementares. Alvo de uma entrada violenta de Milán González o goleador celtista fraturou o perónio, facto insuficiente para que deixasse de... continuar em campo na etapa complementar e ajudasse o Celta a vencer por 4-1.

Ricardo Zamora, em Vigo,
na qualidade de treinador
De volta à Primeira Divisão, o Celta viveu nas três temporadas seguintes alguns dos capítulos mais cintilantes da sua história. Sempre... aos ombros daquela que era já a sua maior estrela, Pahiño. Nos palcos da Primeira o goleador galego foi pedra fundamental para que os celestes se firmassem como uma das equipas mais encantadoras da liga, e sobretudo num osso duro de roer para emblemas de maior dimensão. Que o diga o poderoso Real Madrid, que em 45/46 tombou em Balaídos por concludentes 3-0, ou o campeão dessa temporada, o Sevilha, que nas Rias Baixas afundou-se depois de ter levado quatro (a zero)! Foi igualmente durante o regresso do Celta ao convívio entre os grandes que nasceu uma rivalidade protagonizada entre dois mitos da história do futebol espanhol na arte de fuzilar as redes contrárias. Pahiño, claro está, e Telmo Zarra, o herói basco do Athletic de Bilbao que ainda hoje detém o título de melhor marcador de sempre da Primeira Divisão espanhola, com 252 remates certeiros. Zarra, como iremos perceber nas próximas linhas, foi quiçá o grande obstáculo que Pahiño encontrou ao longo da sua carreira para conquistar um lugar de destaque no... Olimpo do futebol global. Em 45/46 o celtista apontou 15 golos, menos nove que Zarra, que desta forma levava para a sua vitrina pessoal o troféu Pichichi, galardão que distingue o melhor marcador do campeonato espanhol. E se Pahiño e Zarra lutavam entre si por um lugar na eternidade do belo jogo, na época seguinte Vigo acolhe de braços abertos um homem que há muito repousava no panteão do desporto rei planetário. O seu nome? Ricardo Zamora. Il Divino, como ficou imortalizado na história do jogo, era agora treinador, e depois de ter passado pelos bancos do Nice (França) e do Atlético Aviación (nome pelo qual na época era conhecido o atual Atlético de Madrid) assentava arraiais nas Rias Baixas, onde iria construir uma equipa lendária.

A lendária equipa do Celta de Vigo que subiu ao relvado do Metropolitano de Madrid
para jogar a final da Copa del Generalíssimo de 1948

E se a primeira temporada (46/47) de Zamora em Vigo não foi por ai além, já que o Celta não conseguiu melhor do que um 9º lugar, a segunda foi a todos os títulos memorável. Para o Celta e para... Pahiño. A nível coletivo os celtistas alcançariam um inédito quarto posto, ficando a somente seis pontos do campeão Barcelona, na sequência de uma coleção de resultados absolutamente brilhantes. Vejamos: De Balaídos saíram humilhados o campeão Barcelona (3-2), o vice- campeão Valência (5-2), o Atlético de Madrid (3-1), e o Real Madrid (4-1). Aliás, os merengues iriam sofrer nessa mítica época uma dupla humilhação aos pés dos pupilos de Zamora, visto que na capital a dose (4-1) repetiu-se a favor dos galegos. Mas a epopeia galega não se ficou por aqui. Na Copa del Generalíssimo - atualmente denominada como Copa del Rey - o Celta alcançou a final, onde seria travado pelo Sevilla (4-1) no Metropolitano de Madrid, o mesmo recinto onde poucos anos antes Pahiño e o Celta haviam sido tão felizes.
Apesar da derrota, o Celta foi rotulada como a equipa sensação dessa temporada, muito graças ao cunho pessoal da sua estrela-mor, Pahiño, que com 23 golos venceu o seu primeiro Troféu Pichichi.
A veia goleadora de Pahiño era por demais saliente, e nesse ano de 1948 atinge a sua primeira internacionalização, ao representar a Espanha num amigável ante a Suíça, ocorrido em Zurique.

Com a camisola do Real Madrid
A brilhante caminhada celtista chamou à atenção dos tubarões do futebol espanhol, que centravam os seus olhares devoradores em nomes como Miguel Muñoz, Alonso, e claro, Pahiño, as estrelas daquele Celta. Sabendo que o seu talento era por demais admirado por clubes de maior envergadura o internacional galego exigiu à direção azul celeste um aumento de salário, argumentando que era não só um dos grandes abonos de família da equipa, como também que outros colegas seus que raramente pisavam o relvado - na condição de titulares - usufruíam de salários muito mais elevados do que o seu. A ação de Pahiño foi desde logo apelidada de anti-celtista, e o jogador é de pronto olhado por dirigentes, (alguns) companheiros, e muitos adeptos, como mercenário, anti-galego, ou conflituoso, alguns do mimos que recolheu naquele verão de 48. Cansado deste braço de ferro, equacionou a hipótese de abandonar o futebol (!), pensamento somente travado pelo Real Madrid, que nesse final de temporada de 47/48 viaja até Vigo para pescar Miguel Muñoz, Alonso, e Pahiño. Consumado o divórcio com o Celta o goleador galego celebra um casamento de cinco épocas com o laureado emblema da capital, conquistado de pronto a admiração dos exigentes adeptos merengues na sequência da sua infindável garra aliada à vincada veia de concretiador nato. Na primeira temporada equipado de blanco, o galego aponta 21 golos, ficando a somente sete do Pichichi desse ano, César, do Barcelona. Nos anos que se seguiram o seu nome figurou sempre no top 5 da lista dos melhores marcadores da Primeira Divisão, sendo que em 51/52 alcança o título de Pichichi da Liga pela segunda vez na sua carreira, fruto dos 28 golos convertidos. Despediu-se do Real Madrid na temporada seguinte, porque Don Santiago Bernabéu, o lendário presidente do clube, não renovava por mais de um ano contrato com jogadores cujo Bilhete de Identidade apresentasse uma idade superior a 30 anos. Pahiño queria mais tempo - três anos de contrato, ao que consta - e a polémica instalou-se de novo na carreira de um jogador que se viu obrigado a procurar abrigo noutro local. Consta-se - ainda - que o Real Madrid não fez grande esforço em tentar segurar o galego, até porque tinha acabado de contratar um jovem prodígio argentino chamado... Alfredo Di Stéfano. Aquele que muitos afirmam ter sido o melhor jogador da história do clube merengue herdou a camisola número 9 do galego Pahiño, que partia de Madrid com um impressionante registo de 108 golos apontados em 122 jogos disputados, mas com a mágoa de nunca ter ganho um troféu coletivo com o colosso madrileno.

Pahiño festeja um golo com a camisola do Depor
Algo frustrado, Pahiño procura abrigo na sua região natal, a Galiza, para onde regressa no verão de 1953, com o intuito de representar o... Deportivo da Corunha! Foi como um punhal cravado nas costas da afición celtista, que via uma das suas maiores lendas, um filho da terra, vestir agora a camisola do eterno inimigo do norte, o Depor. Na Corunha esteve três temporadas - sempre na Primeira Divisão - tendo apontado perto de meia centena de golos com a camisola azul e branca. Dois deles tiveram um sabor muito especial. Em 1955/56 o Depor visita Chamartín, a casa do Real Madrid, tendo ai alcançado a sua primeira vitória de sempre na capital, na sequência de um resultado de 2-1... com dois golos de Pahiño. Estava consumada a vingança. Após abandonar a Corunha ainda jogou uma temporada na Segunda Divisão ao serviço do Granada, o tal clube que anos antes lhe havia dado cabo do perónio no Metropolitano de Madrid, mas o tempo acabou por apagar as más memórias desse momento menos feliz da carreira do homem de San Playo de Navia, o qual ajudou os granadenses a subir à divisão maior do futebol espanhol. Posto isto: missão cumprida, e Pahiño pendurava as chuteiras com um impressionante registo de 212 golos apontados em quase 300 encontros - 295 para sermos mais precisos - disputados.

Pahiño, numa das suas curtas
aparições com a camisola da seleção
Face a este cartão de visita uma pergunta impõe-se: E a seleção, porque não aproveitou o faro pelo golo que Pahiño sempre patenteou mais do que cinco ocasiões (?) - as vezes que o jogador vestiu a camisola da Roja em partidas de caráter particular. A resposta é simples. Aliás, a dupla resposta. Em primeiro lugar porque o número 9 da seleção era propriedade quase exclusiva do basco Zarra, e em segundo porque o galego era uma figura incómoda para o regime franquista! Passamos a explicar. Pahiño era um devorador de livros de Tolstoi, ou Dostoyevski, autores mal amados na Espanha dominada pelo ditador Franco. As influências destes autores na personalidade do galego eram evidentes, sendo que a sua (diferente?) forma de pensar, de ver o Mundo que o rodeava, ter-lhe-á causado inúmeros dissabores ao longo da carreira, o mais duro deles todos quiçá o facto de poucas vezes ter sido chamado à seleção do seu país, já que os dirigentes da federação não iam muito à bola com o... goleador comunista, como era então conhecido Pahiño nos meandros do futebol espanhol. Não fosse isso - e claro está, Zarra - e talvez o galego tivesse sido uma das grandes figuras do Mundial de 1950, onde a seleção de Espanha tão boa conta deu de si. Mas... «gozei do pior dos amores: o amor próprio», disse um dia Pahiño quando resumiu a sua (curta) carreira internacional. Viria a falecer em Madrid, aos 89 anos, a 12 de junho de 2012.
 
Nota: Texto escrito em 12 de junho de 2014 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Julian Sturgis

Julian Sturgis em pose de... escritor
Poeta, romancista, jornalista, advogado, e... futebolista... ainda que em part-time, eis o rápido retrato biográfico de Julian Sturgis, uma figura mundialmente aclamada pelo notável trajeto percorrido no universo da literatura que na sua fugaz passagem pelos caminhos do belo jogo conquistou um lugar na história após tornar-se no primeiro estrangeiro a vencer uma competição doméstica, neste caso a FA Cup (Taça de Inglaterra), a pioneira de todas as competições do planeta da bola. Facto ocorrido em 1873, ano que Sturgis ajudou os londrinos dos Wanderers Football Club a bisar na então recém criada FA Cup. Mas, ainda antes de recordar o triunfo que coroou pelo segundo ano consecutivo os Wanderers em Terras de Sua Majestade, fiquemos a conhecer o protagonista da nossa história de hoje. Julian Russel Sturgis, de seu nome completo, nasceu em Boston, nos Estados Unidos da América, a 21 de outubro de 1848. Com apenas sete meses de idade fez a longa travessia no Atlântico na companhia da sua família, rumo a Londres, onde o seu pai, o juiz Russel Sturgis, tinha à sua espera um importante cargo numa instituição bancária da capital britânica. Descendente de uma família aristocrática o jovem Julian desde cedo frequentou as melhores escolas londrinas, entre outras o Eton College onde estudou entre 1862 e 1867, tendo nesta instituição começado a evidenciar os seus dotes literários e... desportistas, sendo que neste último aspeto deu nas vistas como guarda-redes do então recém nascido football. Após deixar o Eton College prossegiu os estudos no Balliol College, uma espécie de pólo da prestigiada Universidade de Oxford, onde viria a obter a formação em Direito, e onde igualmente deixou créditos de um talentoso desportista, já que durante três anos fez parte da famosa equipa de remo de Oxford.
Findos os estudos Julian Sturgis tornou-se num conceituado magistrado que nunca esqueceu as suas paixões de infância, por outras palavras, a escrita e o football. E se na primeira se tornou mestre, com a publicação de inúmeros romances e livretos para óperas - sendo aqui de realçar a sua colaboração na famosa ópera Ivanhoe, de Arthur Sullivan - na segunda teve uma curta aparição enquanto futebolista amador ao serviço dos Wanderers Football Club e dos Old Etonians. 1872 foi então o ano em que Sturgis se juntou aos Wanderers, embora não tenha integrado a equipa que um ano antes no Oval Stadium, de Londres, derrotou por 1-0 os Royal Engineers e levantou a primeira FA Cup da história, permanecendo no clube até inícios de 1876. Foi pois muito curta a aventura futebolista daquele que era já então um famoso escritor.

A FA Cup original... bem
diferente do troféu atual
No retângulo de jogo atuava como avançado, tendo feito a sua estreia a 30 de novembro desse longínquo 1872 ante o grande rival dos Wanderers, os Royal Engineers. Na época o football dava apenas os primeiros passos nos caminhos da competição, sendo interpretado sobretudo por estudantes oriundos de universidades britânicas. O ponto alto da nossa história de hoje ocorre a 29 de março de 1873, tendo como cenário o Lillie Bridge Athletic Ground, local onde os Wanderers mediam forças com a equipa da Oxford University - curiosamente onde Sturgis havia estudado até 1872 - na final da jovem Taça de Inglaterra. Nos onzes das duas equipas a novidade era mesmo Julian Sturgis, cidadão norte-americano - só iria adquirir a nacionalidade inglesa em 1877 - que assim entrava para a história - estaria ele e todos os envolvidos naquela final longe de o imaginar - como o primeiro futebolista estrangeiro a vencer não só a FA Cup como também uma competição futebolística, pois, como já vimos, a taça inglesa foi a primeira prova oficial a ver a luz do dia no planeta da bola. 
 Quanto ao resultado, 2-0 para os Wanderers, team que viria ainda a vencer mais três taças de Inglaterra antes de ser extinto em 1887. Julian Sturgis ainda voltou ao jogo mais desejado da Velha Albion quatro anos mais tarde, altura em que com a camisola dos Old Etonians - equipa que teve como berço o Eton Collge, onde, recorde-se, Sturgis havia passado enquanto estudante - perdeu a final ante os... Wanderers, por 3-0. Pouco tempo depois Julian Sturgis abandona de vez o football para se dedicar por inteiro à literatura, onde foi, como já frisamos, um verdadeiro astro, não se sabendo no entanto se este talento era estendido ao futebol, modalidade na qual se deseconhecem adjetivos que classifiquem a curta performance de uma figura que viria a falecer a 13 de abril de 1904.
 
Nota: Texto escrito em 13 de novembro de 2014 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com