Museu Virtual do Futebol

Real Madrid






Amados loucamente por uns, odiados fervorosamente por outros, os clubes de futebol são hoje pela primeira vez na ainda curta história do Museu Virtual do Futebol alvo de uma visita. E nada melhor do que iniciar esta rubrica dos emblemas históricos do que começar pelo maior deles todos, pelo melhor clube do mundo. É claro que esta distinção será para muitos um pouco exagerada, pois os adpetos do Benfica certamente dirão que o seu clube é que é o maior do Mundo, os do Barcelona, do Milan, do Inter, do Bayern de Munique, do Marseille, do Ajax, do Manchester United, ou do Celtic, entre outros, dirão que o seu clube é que é o maior e melhor do planeta. Óbvio. Mas a distinção de maior clube do Mundo atribuída ao Real Madrid não é da nossa autoria, mas sim da própria FIFA, que no final do século passado realizou uma gala para nomear os melhores jogadores, os melhores treinadores, e os melhores clubes e selecções do Mundo durante o século XX. Pois bem, para a FIFA o maior e melhor clube do planeta durante o século que há bem pouco tempo nos deixou foi o Real Madrid. Uma decisão que é bem compreendida (muitos não concordarão, mas paciência), pois em 100 anos não houve mais nenhum clube que tivesse ganho tantos títulos, que tivesse tantos e tantos grandes jogadores, e que tivesse deliciado tantos adeptos como fez el Madrid (como é popularmente conhecido).

Palmarés extenso...e impressionante

O Real Madrid nasceu dentro de um clube de eleite, o Football Sky (fundado em 1895), clube este que se dividiu em 1900 e deu origem ao Espanyol de Madrid, que viria em 1902 a transformar-se em Madrid FC, tendo mais tarde acrescentado-se a palavra Real ao nome do Madrid FC. Desde a sua fundação, como já vimos em 1902, o Real Madrid cedo se tornou na grande paixão de milhares e milhares de espanhóis. As famosas camisolas brancas (o equipamento do Real Madrid é todo branco) fizeram bater forte milhões de corações ao longo dos seus mais de 100 anos de vida. E desde cedo os troféus começaram a fazer parte da vida deste grande emblema espenhol, tendo a primeira copa (taça em castelhano) sido conquistada três anos depois do seu nascimento, mais concretamente a Taça do Rei (a competição mais antiga de Espanha), tendo el Madrid batido nessa final a equipa do Athletic de Bilbao por 1-0. Real Madrid que voltaria a conquistar este troféu nos três anos seguintes, establecendo desde logo um novo recorde na prova, quatro vezes consecutivas campeão da Copa del Rey (1905, 1906, 1907, 1908). Era obra para um clube com tão poucos anos de vida. Em 1929 era criado o Campeonato Nacional de Espanha, tendo o Real Madrid conquistado o seu primeiro título de campeão em 1932. Em termos de Campeonato Espanhol, o Real também estableceu um recorde ao ser o único clube até hoje a vencer em duas ocasiões em cinco anos consecutivos esta prova, a primeira entre 1961 e 1965, e a segunda entre 1986 e 1990. Mas a estrela madrilista também brilharia a grande altura, e de que maneira, na Europa do futebol. O clube foi o primeiro a erguer a Taça dos Campeões Europeus, onde também aqui estableceu um recorde até aos dias de hoje nunca alcançado, ao vencer as cinco primeiras edições da famosa competição europeia (na última foto). O Real Madrid é ainda hoje o clube com mais títulos de Campeão Europeu nas suas vitrinas, 9 ao todo, sendo a última copa sido conquistada no ano do seu centenário (2002) em Glasgow frente ao Bayer Leverkussen por 2-1 (na terceira foto). Em termos numerais, em termos exactos, o Real Madrid conta no seu palmarés com 29 títulos de Campeão Espanhol (1932, 1933, 1954, 1955, 1957, 1958, 1961, 1962, 1963, 1964, 1965, 1967, 1968, 1969, 1972, 1975, 1976, 1978, 1979, 1980, 1986, 1987, 1988, 1989, 1990, 1995, 1997, 2001, e 2003), o que faz de si o clube com mais campeonatos ganhos. Em termos de Taças do Rei, o panorama é um pouco diferente, mas também é digno de um colosso do futebol mundial (o Barcelona é o clube com mais Copas del Rey), já que venceu por 17 ocasiões a segunda maior competição espanhola (1905, 1906, 1907, 1908, 1917, 1934, 1936, 1946, 1947, 1962, 1970, 1974, 1975, 1980, 1982, 1989, e 1993). O clube possui ainda nas suas ricas e invejáveis vitrinas 8 Supertaças de Espanha (1947, 1988, 1989, 1990, 1993, 1997, 2001, e 2003). A nível europeu, e como já demos conta, o Real conseguiu por 9 vezes erguer a mais importante competição de clubes do Mundo, a Taça/Liga dos Clubes Campeões Europeus (1956, 1957, 1958, 1959, 1960, 1966, 1998, 2000, e 2002). Os magnificos espanhóis conseguiram ainda arrecadar 2 Taças Uefa (1985, e 1986), 1 Supertaça Europeia (2002), 3 Taças Intercontinentais (1960, 1998, e 2002), e por fim 2 Taças Latinas (1955, e 1957). Uff, sem dúvida alguma... IMPRESSIONANTE!!!

Jogadores de sonho com la camiseta blanca

Foram muitos, mas mesmo muitos, os craques que ajudaram o Real Madrid a construir o seu rico palmarés. O maior deles todos foi sem dúvida o hispano-argentino Alfredo Di Stéfano, la sieta ruvia (a sete loura), uma das grandes lendas do futebol mundial (de quem falaremos mais promenorizadamente mais para a frente) e que ainda hoje é o grande ídolo da afción madrilena. De tal maneira grande, que desde 2000 que é o presidente honorário do clube. Mas não foi apenas Di Stéfano a brilhar com a camisola branca do Real, muitos outros o fizeram ao longo dos mais de 100 anos de vida do clube, como por exemplo, os espanhóis Amancio, Buyo, Butragueño, José Antonio Camacho, Martin Vasquez, Michel, Chendo, Luis Enrique, Sanchis, Gordillo, Gallego, Gento, Hierro, Juanito, Morientes, Santillana, Zamora, ou Raúl. No que toca a jogadores estrangeiros referimos que Rial, Redondo, Ruggeri, Valdano, Roberto Carlos, Ronaldo, Robinho, Suker, Prosinecki, Zamorano, Laudrup, Kopa, Zidane, Breitner, Schuster, Stielike, Puskas, Hugo Sanchez, Seedorf, Figo, Hagi, Mijatovic, ou Eto'o, já vestiram, ou vestem, a camisola merengue. Treinadores de renome também foram muitos os que se sentram no banco madrilista, casos de Miguel Munõz, Vujadin Boskov, o próprio Alfredo Di Stéfano, John Toshack, Radomir Antic, Del Bosque, Jorge Valdano, Fabio Capello, Jupp Heynckes, Guus Hiddink, José António Camacho, e até um português, de seu nome Carlos Queiróz.

Um presente difícil

Actualmente o Real Madrid vive dias complicados. Não em termos financeiros, até porque o gigante de Madrid é somente o clube mais rico do Mundo. Mas em futebol o dinheiro não é tudo, ajuda, mas não é tudo. E o Real é o maior exemplo disso, pois de há cinco/seis anos para cá o clube vem sendo apelidado de Galáticos pelo simples facto de todos os anos contratarem uma super-estrela do mundo da bola para a sua equipa. Começou por ser Figo, roubado ao eterno inimigo Barcelona, depois veio Zidane, depois veio Ronaldo, depois Beckham, e esta temporada chegaram Robinho, Júlio Baptista, e Cicinho, três das novas vedetas brasileiras da bola. Uma verdadeira constelação de estrelas que no entanto, e todas juntas, não conseguem devolver os títulos ao clube, que há dois anos consecutivos não vence qualquer prova em que compete. As crises directivas, as crises de balneário, as crises de treinadores, sucedem-se umas as outras, o que tem tornado o Real num clube...vulgar em termos competitivos. É caso para dizer: melhores dias aguardam-se para as bandas do Estádio Santiago Bernabéu (na primeira foto), a casa do Real Madrid desde 1947, construída pelo seu mítico presidente de então Don Santiago Bernabéu.

NOTA: Texto escrito em 9 de Abril de 2006 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Tottenham Hotspur FC


É um dos maiores ícones do futebol inglês, um dos mais gloriosos e populares representantes de “terras de Sua Majestade”, um clube cuja história se encontra repleta de proezas ímpares, um clube que dá pelo nome de Tottenham Hotspur Football Club. Fundados em 1882, os Spurs – alcunha pelo qual são popularmente conhecidos no mundo inteiro – são um dos muitos clubes sediados em Londres, uma cidade que vive e respira futebol de uma forma muito particular. No entanto, os Spurs não são única e exclusivamente mais um clube de futebol londrino, mas sim um dos maiores emblemas da capital da Inglaterra.
Do seu palmarés constam inúmeros, e invejáveis, troféus que decoram o seu rico e belo “museu da bola”. Títulos que ajudaram a fazer deste um dos grandes emblemas do planeta do futebol.
Em termos internos, o Tottenham conquistou dois títulos de campeão inglês, alcançados em 1951 e 1961.
Conta ainda com três vitórias na terceira maior competição inglesa, a Taça da Liga, mais precisamente em 1971, 1973 e 1999 (curiosamente o último grande título conquistado pelos Spurs até à data).
Mas é na Taça de Inglaterra (FA Cup) que o Tottenham mais brilhou ao longos dos seus mais de 100 anos de vida. Esta tem sido a competição talismã do clube de Londres, tendo-a vencida já por oito vezes, 1901, 1921, 1961, 1962, 1967, 1981, 1982 e 1991. Ao todo os Spurs participaram em nove finais da FA Cup e somente foram derrotados por uma vez, em 1987, ante o Coventry City, por 2-3. Ainda nesta competição é de salientar o facto de o Tottenham ter sido o primeiro clube que não era do escalão principal a vencer a prova, facto ocorrido em 1901. E por falar em dados históricos é igualmente de sublinhar que este foi o primeiro clube a conseguir fazer a “dobradinha” (campeonato inglês e FA Cup), corria o ano de 1961 (equipa da foto).
Foi também a primeira equipa inglesa a vencer duas competições internacionais diferentes, nomeadamente a Taça dos Vencedores das Taças e a Taça Uefa. Por falar em competições internacionais, por três vezes os Spurs inscreveram o seu nome no “livro de ouro” das provas europeias da Uefa, sendo que a primeira ocorreu em 1963 quando em Roterdão o conjunto inglês derrotou por 5-1 o Atlético de Madrid na final da Taça dos Vencedores das Taças.
Nove anos mais tarde, em 1972, os londrinos ergueriam a sua segunda taça europeia, nesta caso a Taça Uefa, depois de derrotarem na final dos também ingleses do Wolverhampton Wanderers por um resultado total 3-2 (2-1 no jogo da primeira mão realizado em terreno adversário e 1-1 no encontra da Segunda mão em Londres). Em 1984 o Tottenham venceria a sua segunda Taça Uefa depois de bater o Anderlecht nas grandes penalidades por 4-3 (depois de dois jogos onde o resultado verificado se cifrou em duas igualdades a um golo).


Figuras ilustres

A rica e longa história dos Spurs não se resume apenas aos títulos e grandes resultados alcançados, mas também a um punhado de homens que ajudaram e muito a esta realidade. Desde já destacamos aquele que talvez terá sido o maior jogador da história do clube, Jimmy Greaves (na foto ao lado), o maior goleador da história do clube e de todo o futebol inglês, já que o recorde de golos marcados no campeonato daquele país pertence-lhe. Greaves marcou 357 golos em 517 jogos disputados. Por cinco vezes (1959, 1961, 1963, 1964 e 1969) este homem foi o melhor marcado da Liga Inglesa. É obra! Outra das figuras históricas dos Spurs é Bill Nicholson, um homem que como jogador esteve 19 anos no clube, fazendo parte da equipa que conquistou o primeiro título de campeão nacional, e como treinador esteve no banco 17 anos (de 1958 a 1975), contribuindo para a conquista de mais um campeonato, três FA Cup’s, duas Taças da Liga, Taça dos Vencedores das Taças e uma Taça Uefa. “Craques” como Gary Lineker (venceu a última FA Cup do clube em 1991), Ray Clemence, Chris Waddle, Paul Gascoigne, Glenn Hoodle, Sol Campbell, Jurgen Klinsmann, Ossie Ardiles ou David Ginola já envergaram a mítica camisola branca do clube que actua no Estádio White Hart Lane (na foto abaixo), um não menos mítico recinto com capacidade para cerca de 37 000 espectadores. Actualmente o Tottenham procura, aos poucos, regressar aos tempos de glória de outrora. Longe de ter os milhões de clubes como os vizinhos e rivais Arsenal e Chelsea, ou ainda como o Manchester United e o Liverpool, o Tottenham é um clube que normalmente se classifica a meio da tabela, espreitando os lugares que dão acesso à Taça Uefa. Um objectivo que foi conseguido este ano, e após 15 anos de ausência os Spurs voltam à alta roda do futebol do “Velho Continente”. Do seu quadro actual fazem parte jogadores como Robbie Keane, Paul Robinson, ou o avançado búlgaro Berbatov, que são orientados pelo técnico holandês Martin Jol.


Resultados históricos do Tottenham Hotspur FC

Campeonato de Inglaterra

1922 – Vice-Campeão

1951 – CAMPEÃO

1952 – Vice-Campeão

1957 – Vice-Campeão

1961 – CAMPEÃO

1963 – Vice-Campeão

Taça de Inglaterra (FA Cup)

1901 – CAMPEÃO – Final: Tottenham – Sheffield United (3-1)

1921 – CAMPEÃO – Final: Tottenham – Wolverhampton (1-0)

1961 – CAMPEÃO – Final: Tottenham – Leicister City (2-0)

1962 – CAMPEÃO – Final: Tottenham – Burnley (3-1)

1967 – CAMPEÃO – Final: Tottenham – Chelsea (2-1)

1981 – CAMPEÃO – Final: Tottenham – Manchester City (3-2)

1982 – CAMPEÃO – Final: Tottenam – Queens Park Rangers (1-0)

1987 – Vice-Campeão – Final: Tottenham – Coventry City (2-3)

1991 – CAMPEÃO – Final: Tottenham – Nottingham Forest (2-1)

Taça da Liga inglesa

1971 – CAMPEÃO – Final: Tottenham – Aston Villa (2-0)

1973 – CAMPEÃO – Final: Tottenham – Norwich City (1-0)

1982 – Vice-Campeão – Final: Tottenham – Liverpool (1-3)

1999 – CAMPEÃO – Final: Tottenham – Leicister City (1-0)

2003 – Vice-Campeão – Final: Tottenham – Blackburn Rovers (1-2)


Taça dos Vencedores das Taças


1963 – CAMPEÃO – Final: Tottenham – Atletico de Madrid (5-1)

Taça Uefa

1972 – CAMPEÃO – Final: Tottenham – Wolverhampton (3-2)

1974 – Vice-Campeão – Final: Tottenham – Feyenoord (2-4)

1984 – CAMPEÃO – Final: Tottenham – Anderlecht (4-3) (g.p)

NOTA: Texto escrito em 12 de Agosto de 2006 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Académica de Coimbra

À beira do Mondego nasceu Coimbra. Do Choupal. Da saudade. Fundada por alunos da universidade, no final do século XIX, surgiu a respeitosa Briosa". É com esta bela frase que começamos a nossa viagem de hoje pelo encantador Mundo do Futebol, para fazer uma visita à vitrina dos Emblemas Históricos, ao espaço sagrado dos grandes clubes/equipas que fizeram história no desporto-rei.
E o histórico clube de que hoje iremos falar dá pelo nome de Associação Académica de Coimbra, um emblema que carrega consigo uma impressionante e rica história. Apesar de não ter nas suas vitrinas as conquistas nacionais e internacionais que têm os três principais clubes portugueses (FC Porto, Benfica e Sporting) a Académica é um dos maiores emblemas do futebol lusitano. Um clube com uma mística ímpar. Um clube apaixonante. De tal maneira apaixonante que costuma-se até dizer que a Briosa (alcunha pelo qual é popularmente conhecida a Académica e que advém da forte entrega com que normalmente se batiam as equipas amadoras de estudantes mesmo contra equipas de atletas profissionais de alta competição) é, talvez, o clube com um maior número de simpatizantes no país...
É o clube mais antigo de Portugal, nasceu em 1887, fundado pelos estudantes da Associação Académica de Coimbra, da também mítica Universidade de Coimbra (UC). Um facto que permitiria que o clube, ao longo da sua centenária história, vivesse sempre envolto numa atmosfera única, ou seja, que a sua equipa de futebol principal fosse quase sempre composta por estudantes da UC.
O equipamento tradicional da Académica é integralmente negro, numa alusão evidente aos trajes académicos dos estudantes da universidade.
É igualmente um dos clubes mais eclécticos de Portugal, agregando modalidades como o andebol, atletismo, basquetebol, basebal, badminton, ginástica, hóquei em patins, judo, karaté, pugilismo, natação, ténis, rugby, voleibol, xadrez e futebol. E é nesta última modalidade que a estrela da Briosa mais brilhou ao longo dos anos. Em 120 anos de história a Briosa marcou presença no principal campeonato português (1ª Divisão Nacional) em 54 ocasiões, tendo como melhor classificação um 2º lugar na temporada de 66/67. Na competição que antecedeu o Campeonato Nacional da 1ª Divisão, o Campeonato de Portugal, a Académica foi vice-campeã na época 22/23. Em termos de títulos, alberga ainda nas suas vitrinas dois Campeonatos Nacionais da 2ª Divisão, conquistados nas temporadas de 48/49 e 72/73.
O primeiro clube a inscrever o seu nome na lista dos vencedores da Taça de Portugal
Mas é na Taça de Portugal que a Briosa escreveu a sua página mais brilhante. Corria a época 38/39 quando se disputou a 1ª edição da Taça de Portugal, tendo a primeira final da competição sido disputada entre a Académica de Coimbra e o SL Benfica a 25 de Junho de 1939. O palco do grande embate foi o extinto Campo das Salésias, em Lisboa. Para espanto dos espantos a Briosa sairia vencedora desse duelo, por 4-3, sendo desta forma a primeira equipa a inscrever o seu nome na lista dos vencedores da nobre competição portuguesa. Não querendo minimizar em breves linhas este glorioso e histórico momento vivido não só pela Académica como também pelo futebol português, o Museu Virtual do Futebol foi à sua extensa Biblioteca Futebolística "desenterrar" estes dois belíssimos artigos extraídos da enciclopédia "O Século do Desporto" (uma publicação do jornal A Bola) que descrevem na perfeição esta brilhante página:

Briosíssima

A 25 de Junho de 1939, nas Salésias, disputou-se a primeira final da Taça de Portugal. Entre a Académica e o Benfica. No Rossio, a caminho de Belém, os alfacinhas foram surpreendidos por danças e cantares, numa miscelânea de fogueiras de Coimbra e marchas lisboetas. A grande surpresa foi a superioridade técnica dos conimbricenses «até para os jogadores do Benfica», como escreveria no dia seguinte Ribeiro dos Reis. Ricardo Ornelas afinaria pelo mesmo diapasão: «Aparentemente a final de 1939 era para o Benfica. Os encarnados tinham mais experiência, mais jogadores habituados à relva, capacidade técnica para ganhar, vontade forte, publico dedicado, inclinação para as grandes dificuldades... As dúvidas opondo-se à aparência da vitória do Benfica tinham afinal razão de ser. A Académica conquistou a vitória da maneira mais brilhante. Os nervos pouco duraram, a relva não prejudicou o ataque e na defesa com pouca frequência apoquentou os jogadores pela táctica da proximidade dos adversários que a equipa inteligentemente adoptou; e a experiência dos encarnados foi derrotada desde os primeiros minutos pela autoridade de jogo dos estudantes na zona central do terreno».
Após o derradeiro apito do árbitro, António Palhinhas, 4 a 3... e a festa a negro...
O Diário de Coimbra, em metade da sua primeira página, noticiava à volta do emblema da Associação Académica de Coimbra: «Coimbra, desportista e profana, está em festa pela vitória alcançada ontem em Lisboa, pelo seu campeão de futebol a valorosa turma da Associação
Académica. Os estudantes, na própria terra do seu contendor - o não menos valoroso grupo do Sport Lisboa e Benfica -, souberam anular a desvantagem do ambiente e especialmente a do terreno e marcaram de forma superior o seu saber no meio futebolístico português, ganhando com absoluto mérito o título de campeão de Portugal do dilatado império».

Peripécias dos jogadores estudantes na primeira Taça...
Banco de pau castigo desfeito
Bernardo Pimenta marcou o primeiro golo da Académica. Professor, saíra de Coimbra de comboio namanhã do jogo - em terceira classe e assentos de madeira! Colocado em Bobadela, concelho de Oliveira do Hospital, durante esse ano escolar, treinava-se com a equipa do vilarejo e só ao sábado se juntava aos colegas de facto! «Depois de cinco horas na estafa da viagem, esperava-me um táxi que me conduziu ao Hotel Bragança, no Cais do Sodré, onde a equipa se hospedara para estágio. Almocei muito pouco pois o jogo realizava-se pelas 17 horas...»
César Machado, para não faltar às aulas, também não seguira na 5ª feira para Lisboa. Determinação que esteve para lhe ser fatal. «Resolvi dizer peremptoriamente ao Dr. Albano Paulo que não faltaria às aulas. Furioso, garantiu-me que então não jogaria a final. Como não era profissional sentia-me enfurecido, nervoso, e chorando fui para o ACM, onde dali a pouco estavam o capitão Pina Cabral, o Dr. Fausto, o Dr. Freitas, etc., que me foram injectar um calmante. Por não ter dinheiro para o comboio da claque fui à boleia com o capitão Pina Cabral. Chegados a Lisboa procurámos um modesto hotel, na Rua do Alecrim. De manhã levantei-me, almocei e segui para as Salésias... Como não tinha mais ninguém para pôr a jogar o Dr. Albano Paulo chamou-me e aquele foi o momento mais fabuloso da minha vida, da vida de todos nós, certamente. Ganhar ao Benfica, ganhar a primeira Taça de Portugal...»
Para a eternidade ficam os nomes dos obreiros desta grande conquista: Tibério Antunes, José Maria Antunes, César Machado, A. Portugal, Carlos Faustino, Octaviano, Manuel da Costa, Alberto Gomes, Arnaldo Carneiro, Nini e Bernardo Pimenta.
Os gloriosos anos 60 e 70
O clube viveria ainda nas décadas de 60 e 70 do século passado mais e novas glórias nos relvados nacionais e internacionais. Chegaria a mais três finais da Taça de Portugal (50/51, 66/67 e 68/69, tendo sido derrotado, respectivamente pelo Benfica, Vitória de Setúbal e novamente pelo Benfica).
Seria nestas duas décadas que a Briosa alcançaria as competições europeias de clubes, sendo que a estreia ocorreu na Taça das Cidades com Feiras (actual Taça UEFA), na época de 68/69, tendo a equipa sido afastada logo na 1ª eliminatória pelo Lyon de França por desempate de moeda ao ar, uma vez que a eliminatória terminou empatada a um golo.
Um ano mais tarde a Briosa viveria a sua maior epopeia nas competições europeias ao chegar aos ¼ de final da Taça das Taças. O percurso memorável na competição dessa época começou com a eliminação dos finlandeses do Kuopion Palloseura (com resultados de 0-0 e 1-0). Seguiram-se os poderosos alemães do Magdburgo (uma das melhores equipas europeias da época), que seriam afastados pelos estudantes com um resultado total de 2-1 (0-1 e 2-0). Nos ¼ de final coube em sorte - ou azar - à Académica outra forte equipa europeia, mais precisamente os ingleses do Manchester City. Depois de um empate a zero bolas no encontro da 1ª mão em Coimbra, a Briosa seria afastada da competição no jogo de Manchester em cima do minuto 30 do prolongamento, graças a um golo de Towers. O sonho da Briosa terminara ali, mas a presença nesta edição da Taça das Taças tornou-se histórica e inesquecível.
A última aparição numa competição europeia fez-se na época 71/72, na Taça UEFA, onde a Académica seria derrotada na 1ª eliminatória pelos ingleses do Wolverhampton (com um resultado total de 1-7).
Jogadores emblemáticos
Ao longos dos 120 anos de vida a Académica teve a defender a sua bonita camisola inúmeras figuras marcantes do futebol lusitano. Para além dos heróis da Taça de Portugal de 1939 destacamos como jogadores e treinadores mais marcantes da história do clube Artur Jorge (jogador e treinador), Mestre Cândido de Oliveira (treinador), Toni, Mário Campos, Vítor Campos, Gervásio (o jogador da Académica com mais jogos na 1ª Divisão, 329 no total), Mário Wilson, Maló, Jorge Humberto, Carlos Xavier, Capela, Manuel Dimas, Fernando Couto, Vítor Paneira, Sérgio Conceição, Manuel António (melhor marcador do Campeonato Nacional da 1ª Divisão 68/69, com 19 golos), Bentes (o melhor marcador do clube de todos os tempos na 1ª Divisão, com 134 golos) e mais recentemente Zé Castro.
Actualmente a Briosa disputa o principal campeonato português (denominado agora Superliga), embora muito longe dos gloriosos anos 60 e 70. A luta pela manutenção tem sido o objectivo da equipa nas últimas temporadas, objectivo esse que não tem sido fácil de atingir, já que normalmente só na derradeira jornada da competição os estudantes respiram de alívio. E para não fugir à regra a Académica versão 2006/07 vive dias de grandes instabilidade desportiva na Superliga portuguesa...
O guarda-redes Pedro Roma é a grande referência do clube na actualidade. O jogador, que vai já na sua 15ª temporada com o emblema da Briosa ao peito, é o guardião da mística do clube. Nomes como Vítor Vinha, Nuno Piloto (dois produtos da cantera do clube), Filipe Teixeira, Litos, Joeano e Pitbull são outros dos nomes mais populares da actual Briosa.
O palco das actuações caseiras da Académica é o Estádio Cidade de Coimbra (com capacidade para 30 000 lugares), um belo recinto desportivo que foi remodelado propositadamente para acolher dois encontros da fase final do Campeonato da Europa de Futebol de 2004.
Legendas das fotografias:
1- Emblema da Associação Académica de Coimbra
2- Vista da bela Cidade de Coimbra: berço da Briosa
3- A equipa que disputou a final da Taça de Portugal de 1969 envergando as tradicionais capas dos estudantes universitários durante a crise estudantil de finais dos anos 60
4- Uma equipa da Académica da década de 60, com Artur Jorge como a principal estrela
5- O onze da Briosa que defrontou o Manchester City, em Coimbra, para a 1ª mão dos 1/4 de final da Taça das Taças
6- Um histórico do clube, o Mestre Cândido de Oliveira
7- Artur Jorge, outros dos símbolos da Académica
8- O bonito Estádio Cidade de Coimbra

NOTA: Texto escrito em 22 de Março de 2007 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

DC United

Olá! Estamos hoje de volta ao cantinho dos Emblemas Históricos, dos grandes clubes/equipas que escreveram pelo "seu punho" algumas das páginas mais bonitas do futebol mundial. É certo que o clube que vamos hoje visitar não tem o peso histórico de um Real Madrid, de um Barcelona, de um Inter, de um Manchester United ou de um Milan (que ainda na 4ª feira passada conquistou a sua 7ª Taça/Liga dos Campeões Europeus), mas possui já um registo notável de títulos na sua curta vida, e como tal merece um lugar de destaque na vitrina dos Emblemas Históricos do Museu Virtual do Futebol.
E para falar deste clube vamos "sobrevoar" o imenso Oceano Atlântico e assentar arraiais na cidade de Washington, a capital dos Estados Unidos da América (EUA). E agora o visitante poderá estar a pensar: «lá vem este falar outra vez do futebol dos "States", de um país que não tem qualquer tradição no fantástico e apaixonante mundo da bola». Pois, mas devo confessar-vos uma coisa, eu sou um curioso pelo futebol a nível mundial, não só do europeu e do sul-amerciano (os dois estilos mais poderosos e famosos), ou seja, procuro conhecer um pouco da história do "pontapé na bola" ao nível planetário, como já disse. E de facto, o soccer (futebol) norte-americano desperta-me muita curiosidade, em especial a selecção dos EUA (da qual sou fã), e não tem sido à toa que já contei aos ilustres visitantes histórias/factos do futebol estado-unidense, ao apresentar-vos não só jogadores lendários como Billy Gonsalves (anos 20/30), Joe Gaetjens (anos 40/50) e Alexi Lalas (anos 90/00), bem como um dos momentos altos da história do soccer dos "states", ou seja, a vitória sobre a Inglaterra no Mundial de 1950.
É claro que os EUA ainda têm de percorrer um longo caminho para chegar aos calcanhares das nações europeias e sul-americanas, pois hoje em dia não passam de uma selecção mediana a nível mundial. O soccer padece também de algum desinteresse, e desconhecimento, da maior parte da população dos EUA, que preferem antes os populares Baseball, Basquetebol, ou o Futebol Americano. O soccer não anima a maior parte dos norte-americanos como um dia disse um jornalista nativo daquele país... «os americanos não conseguem gostar, nem perceber, um jogo que pode terminar empatado e sem golos»... hehehehehe, curiosa esta explicação. No entanto, a Federação Norte Americana de Futebol tem feito um esforço enorme para tornar este desporto popular, e aos poucos vai conseguindo, devagar, mas lá vai conseguindo, embora ainda muito longe do desejado.
E esses esforços começaram com o surgimento de uma Liga Profissional, a Major League Soccer (MLS), criada em 1996, onde se criaram clubes que por sua vez contrataram algumas estrelas do futebol mundial, embora a maior parte delas já na... pré-reforma. E a última grande aquisição da MLS é David Beckham, que a partir de Julho vai passar a envergar as cores do LA Galaxy.

O nascimento de um gigante

Bom, mas o clube de que hoje vou falar é o DC United, sediado em Washington, e é, digamos que, o maior emblema dos EUA em termos de soccer. Se preferirem, o DC está para os EUA como o Real Madrid está para Espanha, o Bayern para a Alemanha, ou a Juventus para Itália. É o maior clube do país, o que mais títulos conquistou em apenas 11 anos de vida! Sem dúvida alguma, notável.
Bem, mas começemos pelo princípio, para dizer que com o surgimento da MLS fundou-se em Washington o DC United (DC quer dizer Distrit Capital, uma vez que Washington é também a capital do Estado de Columbia), em 1996. E o DC não poderia ter tido melhor estreia na MLS, já que venceu não só a primeira edição da recém criada competição, intitulada de MLS Cup, como também a US Open Cup, uma espécie de taça daquele país, que é aliás a competição mais antiga dos EUA. Logo no primeiro ano de vida o DC United conquistou a "dobradinha".
E a primeira MLS Cup foi conquistada de uma maneira emocionante, já que na grande final (disputada no Foxborough Stadium, em Boston) o DC bateu o LA Galaxy por 3-2, isto depois de estar a perder por 0-2! A "remontada", como dizem os espanhóis, começou a ser dada por intermédio de Tony Sanneh, tendo o empate surgido ao minuto 82 por Shawn Medved. No prolongamento o defesa internacional norte-americano Eddie Pope fez o 3-2 final, o golo da vitória. Que melhor estreia se podia pedir?
No ano seguinte voltou a vencer não só a MLS Cup como também a Supporters Shield Cup. Por esta altura o DC era já o gigante dos EUA. Em termos de restante palmarés a equipa do Washington conquistou por mais duas vezes a principal competição norte-americana, vulgo a MLS Cup, em 1999 e 2004, sendo por isso o clube com mais campeonatos ganhos. A Supporters Shield Cup seria ganha ainda em 1999 e 2006. Mas os maiores títulos do clube foram conquistados além fronteiras, sendo que o primeiro deles ocorreu em 1998, com a conquista da CONCACAF Cup, uma espécia de Liga dos Campeões da América do Norte. O DC foi assim a primeira equipa norte-americana a vencer um título internacional. Na final da competição, realizada a 16 de Agosto desse ano, o DC bateu os mexicanos do Toluca por 1-0. O jogo foi disputado em casa, no RFK Stadium, com Eddie Pope a ser uma vez mais o herói ao marcar o golo do triunfo.
E 1998 seria um ano que ficaria inevitavelmente marcado na história do DC United, já que o clube venceria uma nova competição internacional, desta feita a Interamerican Cup, uma espécie de Supertaça Europeia, ao bater o poderoso clube brasileiro Vasco da Gama. Ambos os jogos foram realizados em solo norte-americano, sendo que o primeiro foi realizado em Washington, onde a equipa brasileira venceu por 1-0. A segunda partida realizada três semanas mais tarde ocorreu na Flórida, no Lockhart Stadium, e o DC provocou uma enorme surpresa no futebol mundial, pois derrotou os vascaínos por 2-0. Tony Sanneh marcou o primeiro golo, na primera parte, enquanto que o tento da vitória foi marcado por... Eddie Pope, um jogador que de imediato entrou para a curta história do clube de Washington por ser o autor de golos que deram origem a títulos. Com esta vitória o DC United proclamava-se Campeão das Américas. Este foi sem margem para dúvida o título mais importante alguma vez conquistado por uma equipa de futebol norte-americana. O crescimento do soccer dos EUA deve muito, sem dúvida, a este grande emblema.

As maiores estrelas

Em 11 anos de vida o DC United teve já a defender as suas cores (equipamento todo negro) inúmeros craques. Nomes que ficarão eternamente ligados ao clube, pela sua preciosa ajuda na conquista de títulos importantes. O central Eddie Pope, como já vimos, foi um deles, o homem dos golos decisivos nas grandes conquistas. Mas há mais. O melhor jogador búlgaro de todos os tempos, Histro Stoitchkov, acabou a sua gloriosa carreira com a camisola do DC. Raul Diaz Arce, um dos melhores jogadores de sempre de El Salvador, também foi ídolo da famosa claque do DC, os La Barra Brava. Os internacionais norte-americanos Jeff Agoos, Ernie Stweart e John Harkes também envergaram esta famosa camisola. O prodigío do actual futebol norte-americano, Freddy Adu, para muitos o futuro melhor jogador do Mundo dentro de muito pouco tempo, também já espalhou a magia do seu futebol com as cores do clube. Mas os dois maiores ídolos dos adeptos do DC United falam castelhano, bolivianos de nascimento, Jaime Moreno e Marco "El Diablo" Etcheverry. O primeiro ainda joga no clube, e é o melhor marcador de sempre da equipa de Washington, com 69 golos apontados em 150 jogos realizados. Richie Williams é o jogador que mais vezes jogou pelo DC United, 169 partidas. O palco dos jogos caseiros do clube é o imponente RFK Stadium, com capacidade para cerca de 55 000 lugares. Curiosidades

-O DC United é a equipa que mais vezes venceu a MLS Cup: quatro vezes (1996, 1997, 1999 e 2004).
-Também é a equipa que mais vezes venceu a MLS Supporters' Shield: três vezes (1997, 1999 e 2006).
-Os maiores rivais do DC United são o Los Angeles Galaxy e o Red Bull New York (antes conhecidos como Metrostars).
-O DC United já se bateu algumas das maiores equipas de futebol do mundo tais como o Boca Juniors, da Argentina; o Bayer Leverkusen, da Alemanha; o Vasco da Gama, do Brasil; o Club América, do México; o Newcastle United, o Leeds United, o Tottenham Hotspur e o Chelsea FC, todos da Inglaterra.
-Apesar de ser o clube mais vitorioso da MLS até agora, a sua estreia não foi assim: no primeiro jogo da história da MLS, em 1996, perdeu com o San Jose Clash (que, atualmente, se chama Houston Dynamo) por 1-0. Legendas das fotografias:

 

 

1- Emblema do DC United

2- Equipa faz a festa da vitória de 1997 na MLS Cup

3- A conquista da MLS Cup de 1999

4- A actual estrela do soccer norte-americano Freddy Adu, quando defendia as cores do DC

5- A maior conquista de sempre do clube: A Interamerican Cup

6- Jaime Moreno, o melhor marcador de sempre do DC United

7- Eddie Pope, o goleador das grandes conquistas

8. O RKF Stadium de Washington

9- Um senhor do futebol Mundial com a camisola do DC: Stoitchkov

10- Um ídolo da "torcida"... El Diablo Etcheverry

NOTA: Texto escrito em 25 de Maio de 2007 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Malines

Para a mais nova geração de adeptos do “jogo maravilhoso” este nome é bem capaz de não dizer nada, mas para os fãs mais antigos ele é significado de glória. Visitamos hoje o histórico clube belga Malines, ou KV Mechelen como também é conhecido, sediado na pequena cidade com o mesmo nome, situada na região de Antuérpia. Fundado em 1904 este clube viveu os seus tempos áureos nos anos 80, altura em que se deu a conhecer ao mundo do futebol. Foi nessa longínqua era que o Malines se tornou não só num dos melhores clubes da Bélgica como também num dos melhores do Velho Continente. O ano de 1987 foi o ponto de partida para o nascimentos do grande Malines, ano em que este pequeno, e até então praticamente desconhecido, clube venceu a Taça da Bélgica. Aliás, esta foi a única vez que o Malines inscreveu o seu nome na galeria dos vencedores desta competição. Mas o melhor estava para vir. Um ano mais tarde (1988) representou a Bélgica na Taça dos Vencedores das Taças, competição europeia esta onde chegaria à final com o todo poderoso Ajax de Amesterdão. Um jogo realizado em Estrasburgo onde os belgas eram à partida considerados como meros figurantes, não só porque o Ajax era o detentor do título como também umas das maiores equipas da Europa de então. Mas como diz a velha máxima no futebol não há vencedores antecipados e o Malines acabaria por surpreender a Europa e arrecadar o troféu após uma vitória por 1-0. O autor do golo foi Piet den Boer, um nome que ficará eternamente na história do clube. Nessa equipa figuravam igualmente outras lendas do Malines, como o isrealita Ohana, o belga Marc Emmers, o holandês Erwin Koeman, e o guarda-redes Michel Preud’Homme, treinados pelo mítico holandês Aad De Mos.
Mas os êxitos internacionais não se ficariam por aqui, pois no ano seguinte o Malines venceria a Supertaça Europeia após derrotar os também holandeses do PSV por 3-1. Este foi o último título internacional alcançado por uma equipa belga até à data. Em 1989 o Malines vence pela última vez o título belga, prova que tinha já vencido nos longínquos anos de 1943, 1946 e 1948.
Os anos 90 trouxeram o declínio deste clube, que desde então tem passado mais vezes nos escalões secundários do que na divisão principal da Bélgica. Esta época o Malines regressou ao topo, vai voltar a disputar a 1ª divisão belga, esperando os seus adeptos que seja para ficar por muitos e bons anos e quem sabe regressar à alta roda do futebol internacional. O palco dos jogos do clube é o pequeno e modesto Achter de Kazerne Stadium, com capacidade para cerca de 14 000 lugares.

Legendas das Fotografias:

1- Emblema do Malines
2- O histórico "11" que disputou a final da Taça das Taças de 1988
3- Festejos após a vitória sobre o Ajax na final de Estrasburgo
4- A equipa que venceu a Taça da Bélgica em 1987

NOTA: Texto escrito em 11 de Agosto de 2007 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

SC Salgueiros

Ora aí está 2008! Desde já aproveitamos para dirigir aos senhores visitantes um ano novo pleno de alegria, saúde, paz, sucessos, amor, e sobretudo muito e bom futebol.
E na primeira visita ao Museu neste novo ano os ilustres visitantes terão a oportunidade de conhecer um pouco da história de um clube que me diz muito. Um glorioso e histórico emblema do futebol português que comecei a amar desde os meus 12/13 anos, paixão que se mantém até aos dias de hoje. Falo do Sport Comércio e Salgueiros, o popular Salgueiral.
Nascido na mui nobre cidade do Porto, mais concretamente na freguesia de Paranhos, no dia 8 de Dezembro de 1911, o Salgueiros tornou-se ao longo dos anos num dos mais populares e queridos clubes do nosso país.
Clube humilde, das classes operárias, o Salgueiral surgiu numa época em que o futebol era praticado nas ruas pelos miúdos de pé descalço, com bolas de trapos feitas a partir de meias velhas. No já referido ano de 1991 um grupo de pequenos amigos, mais precisamente o Joaninha (de seu nome completo João da Silva Almeida), o Aníbal Jacinto e o Antenor depois de assistirem a um FC Porto-Benfica, no Campo da Rainha, reuniram-se e resolveram fundar um clube de futebol.
«Embora parecendo um impulso de euforia após um escaldante FCPorto-Benfica, de facto, junto do candeeiro 1047, entre as ruas da Constituição e Particular de Salgueiros, nasceu o sonho de um grupo de rapazes, e que começou a ganhar forma e daí nasceu o Sport Grupo e Salgueiros. Embora já houvesse nome, era necessário dar forma à equipa! Com muita carolice, todas as noites após o trabalho e o jantar, os "rapazes" reuniam-se debaixo do candeeiro 1047 para debater e acertar ideias, e começar a construir o clube.
O clube oficializa-se com os primeiros jogos, mas era necessário arranjar dinheiro para comprar camisolas e umas botas para os jogadores. Estava-se próximo do Natal de 1911 e os rapazes lembraram-se de organizar um grupo de boas festas e foram cantar as janeiras aos vizinhos de porta em porta, estendendo o boné! Angariaram a modesta quantia de 2.800 reis, o que lhes permitiu comprar a primeira bola de futebol. Bola já havia, mas faltavam as camisolas. Ficou decidido que estas seriam vermelhas, tal como as do Benfica, distanciando assim do futuro rival que vestia de azul e branco, o FC Porto. Seria então de vermelho, vermelho cor de sangue e paixão que seriam as camisolas do Sport Grupo e Salgueiros até aos dias de hoje! O primeiro terreno seria na Arca D´Água, onde o clube teve como primeiros adversários o Sport Progresso, o Carvalhido Football Clube entre outros. A partir daí o Sport Grupo e Salgueiros começou a sua longa caminhada no futebol nacional. Na época de 1916/17 o clube ostentava a designação de Sport Porto e Salgueiros, esta mudança de nome deve-se a uma questão de orgulho. Em 1920 após uma profunda crise do Sport Porto e Salgueiros, o clube decidiu fundir-se com o Sport Comércio, outro clube da cidade, e surgiu então o Sport Comércio e Salgueiros como hoje conhecemos», é assim desta forma que são relatados os primeiros anos de vida do Salgueiral.

Amor à primeira vista!

Certo domingo, após de um belo repasto em família, e sem nada para fazer da parte da tarde eis que depois de muito pensar em diversas tarefas para ocupar o tempo o meu pai disse a seguinte frase: «E se fossemos ver o Salgueiral?» Teria eu os meus 12/13 anos nessa altura. Nem se pensou duas vezes perante tal convite. Então, eu, o meu pai, e o meu tio, saímos em direcção ao velhinho Estádio Engenheiro Vidal Pinheiro, a casa do popular clube, onde aí assistimos a um Salgueiros – Estrela da Amadora, referente à temporada 1990/91.
Recordo esse dia como se fosse hoje. As bancadas cheias, a emoção e a paixão vermelha estavam bem vivas aos olhos de todos. Adeptos apaixonados e ferrenhos pelo seu clube. Uma atmosfera única e cativante.
De imediato fui contagiado por aquele ambiente. De tal maneira que comecei a vibrar com cada jogada que aquela grande equipa do Salgueiros fazia. Ainda me lembro da frase que o meu tio disse quando me viu emocionado e empolgado com...o Salgueiros: «Ui, temos aqui um novo salgueirista!». Tinha razão, foi amor à primeira vista. Fiquei louco com aquele ambiente, com aquele clube, com aqueles adeptos, com aqueles jogadores.
Desde logo fixei os nomes dos craques do Salgueiral. O meu preferido de imediato foi o Nikolic, ou Niko como carinhosamente era tratado pela massa associativa do clube, um jugoslavo que jogava com o número 10, um verdadeiro artista com a bola nos pés. Na baliza actuava o grande Madureira, tendo à sua frente uma defesa onde pontificavam nomes como Pedro Reis (um salgueirista de coração), ou o “barbas” Djoncevic. No meio campo o capitão Rui França comandava as tropas, tendo ao seu lado nomes como Álvaro Gregório e Leão. Na frente de ataque estava um dos meus ídolos de infância, de seu nome Vinha, um calmeirão cabo-verdiano, algo desengonçado, mas com um coração e uma alma enorme. Homens treinados por um grande senhor do futebol internacional, Zoran Filipovic.
Nesse dia eu senti e percebi o que era a ALMA SALGUEIRISTA, o espírito, a mística, deste grande clube.
Na semana seguinte a este jogo entrei para a grande família salgueirista ao fazer-me sócio do clube. De lá para cá vivi muitas alegrias e tristezas no meu apoio incondicional ao Salgueiros, se bem que nos últimos anos foram mais as tristezas do que as alegrias.

O rico palmarés

São muitos os feitos que o Salgueiros vem coleccionando desde a sua fundação. No futebol, a modalidade rainha do clube, são de destacar as 21 presenças no escalão maior do futebol português, sendo que a melhor classificação foi alcançada precisamente na época em que começou a minha paixão pelo clube, 90/91, um fantástico 5º lugar, que deu acesso à Taça UEFA da temporada seguinte. Nesta competição o Salgueiros defrontaria o Cannes, de França, que na altura tinha nos seus quadros um jovem que anos mais tarde se haveria de tornar num dos maiores jogadores de todos os tempos do futebol mundial, de seu nome Zidane. O primeiro jogo europeu do Salgueiros foi realizado em casa emprestada, no vizinho Estádio do Bessa, tendo o resultado cifrado-se em 1-0 a favor dos locais, com Jorge Plácido a fazer esse golo histórico. Quinze dias mais tarde, em Cannes, o resultado iria repetir-se, só que a favor dos franceses, tendo a eliminatória decidido-se na marcação de grandes penalidades onde o conjunto do sul de França seria mais feliz.
Na Taça de Portugal o Salgueiros participou em 44 ocasiões, tendo como melhor resultado a presença nos quartos-de-final da prova em 51/52.
Em 37 presenças no campeonato da 2ª divisão alcançou por duas vezes o título de campeão, em 56/57 e 89/90. Participou ainda por duas vezes no nacional da 3ª divisão.
O maior número de vitórias na 1ª divisão (14) foi alcançado nas épocas de 93/93 e 96/97. Neste escalão a vitória mais expressiva foi obtida em 94/95, ante o Estrela da Amadora por 6-0, em Vidal Pinheiro.
O jogador que mais vezes actuou com a camisola do Salgueiral na 1ª divisão foi o defesa-central Pedro Reis, com 340 jogos. Abílio, foi o melhor marcador do clube nesta divisão, com 30 tentos.

Jogadores históricos

Foram muitos os jogadores que passaram pelo clube, muitos dos quais deixaram o seu nome escrito a letras de ouro na história do emblema de Paranhos. Já aqui falei de Nikolic, Vinha, Rui França, Pedro Reis, Madureira e Abílio, mas outros houveram que atingiram o patamar da fama do futebol internacional, casos de Deco (actualmente no FC Barcelona), Sá Pinto (representou o Sporting e a selecção nacional com distinção), ou Silvino (um dos melhores guarda-redes da história do futebol português). Chico Fonseca, Pedro Espinha, Chao, Jorginho, Mike Walsh, Edmilson, Miklós Féher, Santana (bi-campeão europeu pelo Benfica na década de 60), e os treinadores Zoran Filipovic, Octávio Machado, Mário Reis, e Carlos Manuel têm também um lugar na história do clube.

O triste presente...

Actualmente o Salgueiros vive dias de tristeza, e de angústia. O clube está moribundo, praticamente morto. Com a extinção do futebol profissional há cerca de três anos atrás, na sequência de uma grave crise financeira, o clube hoje em dia apenas comporta, no futebol, os escalões de formação. O polo aquático tem sido a modalidade rainha nos últimos tempos, com a obtenção de vários títulos nacionais.
O futuro é uma incógnita para a família salgueirista, que vivem na incerteza se o clube irá ou não fechar as portas a curto prazo. No entanto, a esperança é a última coisa a morrer, e tal como eu são muitos os verdadeiros salgueiristas que sonham ver de novo as camisolas vermelhas a fazer furor nos relvados portugueses ao nível do futebol profissional.
Legenda das fotografias:
1- Emblema do SC Salgueiros
2- Uma imagem do museu do clube
3- A equipa de 56/57 que se sagrou campeã nacional da 2ª divisão
4- Um "onze" dos anos 80
5- Um dos últimos plantéis profissionais do Salgueiros, o da temporada 96/97
6- O luso-brasileiro Deco, um mágico que já vestiu as cores do Salgueiros
7- O já extinto Estádio Eng.Vidal Pinheiro

NOTA: Texto escrito em 2 de Janeiro de 2008 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Aberdeen FC

De novo na vitrina dedicada aos grandes emblemas do futebol para falar hoje um pouco de um histórico do futebol escocês, o Aberdeen Football Club. Fundado em 1903 (resultante da fusão de três clubes da cidade, o Aberdeen, o Victoria United e o Orion) os reds, como são popularmente conhecidos, são o terceiro maior clube da Escócia, a seguir aos colossos de Glasgow, o Celtic e o Rangers.
Atingiu a fase de maior sucesso na década de 80, altura em que comandados por um jovem, e até então desconhecido, técnico, de seu nome Alex Ferguson, que hoje em dia é o que se sabe, ou seja, um dos mais conceituados e laureados treinadores do Mundo, conquistou uma Taça dos Vencedores das Taças, mais precisamente na temporada de 1982/83, tendo derrotado em Gotemburgo o histórico Real Madrid por 2-1. Nessa equipa figuravam nomes históricos do futebol escocês como o guardião Jim Leighton, Alex McLeish, ou Gordon Strachan. Ainda em 1983 venceria a Supertaça Europeia depois de derrotar no total das duas mãos o Hamburgo, por 2-0. Este seria o último triunfo, até à data, de uma equipa da Escócia no Velho Continente.
Em termos internos o Aberdeen conquistou a Liga Escocesa (Scottish League) por quatro ocasiões, mais precisamente nas épocas de 1954/55, 1979/80, 1983/84 e 1984/85. Por sete vezes levantou a Taça da Escócia, em 1946/47
, 1969/70, 1981/82, 1982/83, 1983/84, 1985/86 e 1989/90. A última grande conquista dos Dons (outra das alcunhas pelo qual são conhecidos) foi a Taça da Liga Escocesa de 1995/96. Esta prova seria ainda conquistada pelo clube em mais quatro ocasiões, em 1955/56, 1976/77, 1985/86 e 1989/90.
Actualmente o clube vive na sombra dos gigantes de Glasgow, tal como outros clubes da Liga Escocesa, sendo todas as épocas o seu principal objectivo a qualificação para uma prova europeia. Em termos de números o Aberdeen esteve presente por três vezes na Taça/Liga dos Campeões Europeus, tendo aqui disputado 12 jogos, atingindo como melhor resultado os quartos-de-final na temporada de 1985/86. Na extinta Taça dos Vencedores das Taças esteve em oito ocasiões, disputou 39 jogos, e como já vimos venceu a competição em 1982/83. Finalmente, na Taça Uefa participou em 15 ocasiões e disputou 50 jogos, tendo como melhor resultado a 3ª eliminatória, patamar que atingiu por duas vezes.
Ao longo destes mais de 100 anos de vida foram muitos os nomes que vestiram a mágica camisola encarnada do Aberdeen, o guarda-redes Jim Leighton, como já vimos, foi um deles, sendo o jogador do clube mais internacional pela selecção da Escócia, com 91 presenças. Willie Miller (jogador com mais presenças na Liga Escocesa pelo clube, mais precisamente 556 jogos) e Joe Harper (jogador com mais golos marcados pelos Dons, 205) são outros dos históricos nomes do clube.
O recinto de jogos da equipa é o Pittodrie Stadium, com capacidade para 22.199 espectadores.


Legendas das fotografias:
1- Emblema do Aberdeen FC
2- Festejos dos Reds após o triunfo na final da Taça das Taças de 1983
3- A casa do clube escocês

NOTA: Texto escrito em 21 de Fevereiro de 2008 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

New York Cosmos

Quando falamos em galáticos, ou em equipas galáticas, o primeiro nome que nos vem à cabeça é o de Real Madrid, clube que há quatro ou cinco anos juntou na mesma equipa jogadores fabulosos como Raul, Casillas, Roberto Carlos, Luís Figo, Zidane, Ronaldo, e mais tarde David Beckham. No entanto, o clube merengue não foi o único no Mundo a reunir tantos nomes famosos no mesmo plantel. Na verdade, três décadas antes um emblema totalmente desconhecido do planeta da bola construiu uma equipa recheada de grandes deuses do esférico, uma equipa que se tornou num autêntico dream team, capaz de desafiar não só outros clubes do seu país como do estrangeiro. Um clube que hoje não passa de uma lenda, de uma mera e boa recordação, pois já foi extinto, e que dá pelo nome de New York Cosmos. É verdade, voltamos aos Estados Unidos da América, e ao seu soccer, que tem sido, como os ilustres visitantes bem sabem, um alvo particular do meu interesse futebolístico.
E o New York Cosmos foi o grande expoente do futebol estado-unidense das décadas de 70 e 80 do século passado, um clube que cativou grandes deuses da bola em idade de pré-reforma, chamemos-lhe assim.
A ideia da fundação do New York Cosmos, ou também simplesmente conhecido como Cosmos, partiu dos irmãos Nesuhi Ertegün e Ahmet Ertegün, ambos nascidos em Istambul, na Turquia. Os irmãos Ertegün foram os fundadores da Atlantic Records e depois que a gravadora foi comprada pela Warner Communications, actual Time Warner, sugeriram a Steve Ross, presidente da companhia, a criação de um clube de futebol por acreditarem na viabilidade económica da North American Soccer League (NASL). O Cosmos aderiu à NASL em 10 de Dezembro de 1970, tendo realizado o primeiro jogo oficial a 17 de Abril de 1971 diante do Saint Louis Stras, tendo o encontro terminado com a vitória do Cosmos por 2-1.
O nome do clube foi idealizado pelo inglês Clive Toye, o primeiro director do emblema nova-iorquino. A inspiração veio dos New York Mets, equipa de beisebol. Da mesma forma que “Mets” era uma abreviatura de “Metropolitans”, Toye optou por “Cosmos”, como abreviatura de “Cosmopolitans”, e o clube foi então baptizado como New York Cosmos.
Foi também por sugestão de Toye, que as cores iniciais do Cosmos foram o verde e o amarelo, em homenagem à selecção brasileira que em 1970 venceu o Campeonato do Mundo do México. O verde e o amarelo permaneceram até 1974, quando foram alterados para o branco e o verde, que foi utilizado até 1979. A partir de 1980, as cores passaram a ser o branco e o azul, permanecendo até 1984, quando o clube foi fechado.
No seu início o Cosmos era encarado como uma aventura e recebia pouco investimento. Contudo, aos poucos, Steve Ross empolgou-se com o projecto e com o dinheiro da Warner, o clube passou a contratar vários jogadores famosos, tais como Pelé, Beckenbauer, Chinaglia, Carlos Alberto Torres e Neeskens, chegando ao ponto de ter um elenco formado por 16 nacionalidades. O poder económico do Cosmos refletiu -se em várias conquistas desportivas tendo o clube tornado-se na marca mais famosa e vitoriosa da NASL conquistando 5 títulos nacionais (1972, 1977, 1978, 1980, 1982), um vice-campeonato (1981) nos 17 anos de funcionamento da liga. Ainda venceu três Trans-Atlantic Cups (1980, 1983, 1984). Durante os seus anos de existência, o Cosmos teve sempre uma das melhores médias de público da NASL, e entre 1977 e 1982 teve a maior média entre todas as equipas da NASL). Dos 20 jogos de maior público da história da NASL, 18 deles são jogos do Cosmos, sendo que a partida de maior público foi em 14 de Agosto de 1977, na partida do play-off contra Fort Lauderdale Strikers com uma assistência de 77.691 espectadores.
O clube encerrou as suas actividades a 15 de Setembro de 1984, quando realizou a sua última partida. Nos seus 14 anos de existência, o Cosmos disputou 359 partidas na NASL, vencendo 221, empatando 18 e perdendo 120, marcando 844 golos e sofrido 569.
Actualmente a marca “Cosmos” pertence a Giuseppe “Peppe” Pinton, ex-assessor de Girogio Chinaglia, que teria pago dois milhões de dólares por ela.
Hoje o Cosmos sustentase com a venda de souvenirs e com a renda de dois acampamentos de verão - que também são escolinhas de de futebol - localizados em Nova Iorque e Nova Jérsei.
O jogador que mais golos marcou pelo clube foi o italiano Giorgio Chinaglia, que jogou no Cosmos entre 1976 e 1983, actuando em 213 jogos e marcando 193 golos, sendo o maior artilheiro da NASL de todos os tempos e o maior goleador da NASL nos anos de 1976, 1978, 1980, 1981 e 1982.
A maior goleada obtida pelo Cosmos foi num jogo amigável contra o Malmo, da Suécia, em 1975, por 12 a 1. O maior jogador holandês de sempre, Johan Cruyff, fez uma única partida pelo Cosmos, em 1978. O adversário foi uma selecção formada por jogadores que participaram no Mundial de 1978 (com excepção dos jogadores da Argentina, campeã dessa competição). O resultado foi 2-2 e além do golaço marcado Chinaglia, a partida é lembrada pela exibição magnífica de Cruyff, eleito o homem do jogo.
De facto, são poucos os clubes no Mundo que se podem orgulhar de ter a defender o seu emblema estrelas como Beckenbauer, Chinaglia, Carlos Alberto Torres, Neeskens, Cruyff, ou o rei Pelé. Jogadores que mesmo apesar de estarem numa fase descendnete das suas brilhantes carreiras deram um brilho especial a um clube e sobretudo a um país onde o futebol nunca foi muito admirado.

Legenda das fotografias:

1- Emblema do New York Cosmos

2- A maior estrela do clube de todos os tempos: Pelé

3- O maior goleador de sempre do emblema nova-iorquino: Giorgio Chinaglia

4- O Kaiser Beckenbauer também vestiu a camisola do Cosmos

5- O holandês Cruyff efectuou um único jogo pelo Cosmos

6 - Nas fotos seguintes temos os plantéis das equipas campeãs da NASL das épocas de 1971, 1976, 1977, 1979, 1980, 1981, 1982 e 1983

NOTA: Texto escrito em 29 de Fevereiro de 2008 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Académico Futebol Clube (Porto)

100 anos representam inevitavelmente um baú de histórias e/ou vivências na vida de qualquer pessoa ou instituição. 100 anos equivalem a um vasto e rico património ao alcance de poucos. E poucos são aqueles que sobrevivem aos ventos e tempestades que vão surgindo pelo caminho ao longo de um século de vida. Um desses heróicos sobreviventes cumpre precisamente neste ano de 2011 o seu centenário, herói que dá pelo nome de Académico Futebol Clube.
Nasceu precisamente no dia 15 de Setembro de 1911 e como berço teve a Cidade do Porto. E desde logo nobre se tornou na tarefa de enraizar e dinamizar o fenómeno desportivo na Invicta.
Na sua génese está o futebol... mesmo não sendo o futebol com o avançar do tempo uma modalidade muito feliz no seio da família academista. 1909 é o ano em que o sonho ganha forma, ano em que um grupo de estudantes do Liceu Alexandre Herculano enfeitiçado pelo fenómeno futebolístico idealiza a fundação de um clube.
Rapidamente nos tempos que se seguiram outros jovens oriundos de outros liceus e colégios particulares do Porto mostraram entusiasmo pela ideia. Até que em 1911 o sonho é por fim realidade: nascia o Académico Futebol Clube.
Uma agremiação fundada por estudantes e para estudantes, assim rezavam os seus estatutos. Talvez por ter sangue jovem a correr nas veias o Académico desde logo adoptou um espírito futurista e empreendedor que o tornariam numa das instituições mais modernas e ricas – no que toca a património – de Portugal. No entanto, e apesar da forte adesão de associados e simpatizantes desde o dia da sua fundação, o Académico andou, à semelhança de outros emblemas, com a casa às costas nos primeiros anos da sua existência. No plano desportivo, isto é, o campo de batalha onde a sua equipa de futebol entrava em acção, os academistas começaram por utilizar o Campo da Cruz, na Rua Aníbal Patrício, enquanto que a primeira sede social seria “montada” num edifício da Praça Júlio Dinis, mesmo em frente ao Hospital de Santo António.
Em 1916 este espaço foi considerado pelos dirigentes academistas como insuficiente para a numerosa família – de associados e atletas – que não parava de crescer, de modo que houve a necessidade de se arrendar uma sede maior, tendo a mudança sido feita posteriormente para a zona da Batalha e para o antigo edifício das encomendas postais. Um ano antes o palco da acção, isto é, o terreno de jogos, tinha passado a ser o Campo do Bonfim, pertença do Olímpico, clube a quem o Académico pagava uma renda mensal de 20 centavos.
Nos anos que se seguiram novas mudanças de campo e de sede social aconteceram, até que na entrada para os anos 20 dá-se um dos passos mais importantes da vida do clube, o arrendamento da Quinta do Lima, propriedade da Santa Casa da Misericórdia do Porto. Neste espaço o sonho e a visão futurista dos seus dirigentes e massa associativa unem-se num casamento perfeito com a construção do Estádio do Lima. Desta catedral, não só da bola como também de outras modalidades, já aqui traçámos umas linhas num passado não muito distante, mas não será por demais recordar que este foi o primeiro grande estádio de futebol do país. Por esta altura o Académico era já um clube multifacetado, por outras palavras, nem só de futebol rezava a sua história. Com a forte adesão de associados e entusiastas pelo desporto em geral outras modalidades foram sendo geradas no ventre academista. Estavámos perante o mais eclético dos clubes do Porto, ganhando desta forma em popularidade ao FC Porto, ao Salgueiros e ao Boavista, os outros três notáveis emblemas da Invicta.
Um crescimento que obrigou o Académico a ampliar o seu raio de acção desportivo, adquirindo para esse efeito em 1927 o imponente Palacete do Lima, situado na Rua de Costa Cabral. Em redor deste espaço foram construidos courts de ténis, quadras de basquetebol, ginásios, e até um parque de campismo, fazendo com que os academistas fossem proprietários do primeiro grande complexo desportivo do país.
O Académico era por esta altura grande e maior ficou com o arrelvamento do Estádio do Lima em 1937, o primeiro campo relvado de Portugal, convém recordar.
Contudo não era um gigante... um grande do futebol, uma modalidade que foi sempre a “pedra no sapato” desta nobre colectividade tripeira.

Azar no futebol

Mesmo possuindo o melhor estádio para a prática do futebol no país; relvado, envolvido com duas pistas (uma para atletismo e outra para ciclismo, modalidades onde o clube também se distinguia), bancadas; o que é certo é que o Académico do Porto nunca teve expressão no “desporto rei”. Incompreensível, se atendermos à popularidade, à dinâmica, e ao património ao nível de infraestruturas, como já vimos, que este emblema comportava.
Nunca passou sequer da sombra dos seus rivais da cidade, com especial destaque para o FC Porto que desde logo se tornou no clube mais vitorioso da Invicta. Teve participações modestas, quase insignificantes, nas diversas provas do futebol português que nos princípios da década de 30 começavam a proliferar. Participu no desaparecido Campeonato de Portugal (prova antecessora da Taça de Portugal) em quatro ocasiões entre as temporadas de 1931/32 e 1937/38, sendo que entre modestos desempenhos futebolísticos se pode considerar um privilégio o facto de o clube ter sido um dos oito participantes na 1ª edição do Campeonato Nacional da 1ª Divisão, insituido em 1934. No escalão máximo do futebol português o Académico actuou em cinco ocasiões (1934/35; 1937/38; 1938/39; 1939/40; 1941/42), tendo como melhor classificação dois 7º lugares em 34/35 e 38/39.
Na Taça de Portugal marcou presença em três edições, tendo alcançado como melhor desempenho uns quartos-de-final na edição estreia da competição (38/39).
Alegrias no mundo da bola foram poucas mas dignas de figurar na gloriosa história deste clube. Para além de ter sido o obreiro da “catedral” do Lima o Académico “doou” três jogadores à selecção nacional, sendo que Manuel Fonseca e Castro entra na história como o primeiro futebolista internacional dos academistas.
Estas foram curtas passagens pintadas em tons de alegria no que diz respeito a futebol, uma modalidade que morreria no seio do Académico em 1964, ano em que a proprietária dos terrenos do Lima, a Santa Casa da Misericórdia do Porto, dá ordem de expulsão ao clube. Não só morreria o futebol academista como também o próprio Estádio do Lima, que anos mais tarde desapareceria por completo dando lugar a um triste descampado.
O futebol morreu mas o Académico sobreviveu e continuou a crescer – noutras modalidades – nas décadas que se seguiram.

Legenda das fotografias:
1- Emblema do Académico FC
2- Uma das últimas imagens (aéreas) do Estádio do Lima...
3- ...E uma imagem rara de uma equipa de futebol do Académico
 
Nota: Texto escrito em 27 de Janeiro de 2011 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Racing Club de Paris

De distinto membro da nobreza no passado a (quase) ignorado mendigo no presente, uma frase que poderia muito bem caracterizar a linha da vida do histórico emblema que hoje visitamos: o Racing Club de France. Recorda-lo faz-nos viajar até umas das cidades mais deslumbrantes do Mundo, Paris, a bela e sedutora Paris, eterna “mademoiselle” repleta de “glamour” que fez despoletar paixões arrebatadoras a grande parte dos comuns mortais que um dia (nem que fosse por um simples minuto) tiveram a fortuna de contempelar de perto da sua beleza, de sentir o seu inigualável perfume, e de se deixar cair nos seus sensuais braços.
Paris guarda um tesouro de histórias várias, da arte à literatura, passando pela pintura, pela ciência, pela política ou pela História, Paris é uma enciclopédia deliciosa. Foram muitos os artistas que por ela se enamoraram, assim à primeira vista lembramo-nos da Geração Perdida, composta por um leque de (hoje) celebridades literárias que nos anos 20 e 30 do século passado teve em Paris a sua principal fonte de inspiração para criar algumas das mais emblemáticas obras de arte literária do planeta. Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald, Ezra Pound, T. S. Eliot, ou James Joyce, todos eles se tornaram filhos adotivos desta cidade naquele período dourado. Mas também o futebol viveu tempos inolvidáveis naqueles “loucos” anos 20 e 30.
Foi em Paris que o Mundo ficou a conhecer a “Maravilha Negra” José Leandro Andrade, futebolista uruguaio que em 1924 deslumbrou os parisienses com a magia do seu futebol no Torneio Olímpico que coroou o Uruguai como... campeão do Mundo. Por esta altura Paris era habitada por um nobre do futebol francês, uma figura aristocrata que honraria nestes anos o já de si pomposo nome do seu berço, nobre esse batizado de Racing Club de France.
Nascera em 1882, em berço de ouro, concebido por membros da alta sociedade parisiense que dentro de si traziam a ambição de dar a Paris um clube condizente com a sua grandeza. Mas queriam fazê-lo... no atletismo. É verdade, o atletismo foi a razão do nascimento do Racing, que só em 1886 decidiu abraçar o futebol. E em boa hora o fez pois desde cedo fez parte do pelotão da frente do futebol francês, tendo sido um dos membros fundadores da 1ª Divisão gaulesa. Tal e qual um camaleão o Racing teve várias “peles” ao longo da sua existência, o mesmo será dizer várias designações, mas sempre a mesma ambição de vencer... nem sempre conseguida, como mais à frente veremos.
Precisamente no ano que o “desporto rei” passou a fazer parte do ADN do clube, este fundiu-se com o Stade Français, tendo sido um dos criadores da União de Sociedades Francesas Desportivas e Atléticas (USFDA). Entidade esta da qual saiu a já citada 1ª Divisão francesa, o primeiro campeonato (ainda que não oficial) daquele país. O Racing participou pela primeira vez nesta competição em 1889 e em 1907 obteve a sua primeira coroa de glória, o título de campeão do certame organizado pela USFDA.
Uma curiosidade na história do clube reside no facto de que este sempre viveu em “mansões” de luxo e carregadas de misticismo para o desporto mundial. O primeiro lar do Racing, o estádio Croix-Catelan, recebeu vários eventos desportivos alusivos aos Jogos Olímpicos de 1900, ao passo que a sua segunda casa, esta bem mais ilustre, guarda inúmeras páginas de ouro do futebol mundial, falamos do Stade des Colombes.
Nos anos que se seguiram ao campeonato da USFDA títulos oriundos de torneios de menor dimesão enfeitaram as vitrinas do Racing. Até que eclodia a I Grande Guerra Mundial e o futebol ficava paralizado.
Em 1917 o Racing é um dos integrantes da 1ª edição da Taça de França numa altura em que o profissionalismo começava a ditar leis. Sonhado e criado sob os ideais do amadorismo o clube começava a sentir dificuldades para fazer frente aos ventos do profissionalismo.

A gloriosa década de 30

Em 1932 a Federação Francesa de Futebol leva a cabo o primeiro campeonato profissional, e os amadores do Racing tiveram de repensar a sua existência. Foi então que surgiram com uma nova identidade, quase como um novo clube, distinto do amador Racing Club de France, com o nome de Racing Club de Paris. E seria precisamente com esta identidade que o clube iria viver os melhores anos da sua vida. Construindo um “exército” capaz de lutar de igual para igual contra os melhores o clube parisiense destacou-se nos patamares mais altos do futebol gaulês. Com jogadores lendários como o temível avançado Roger Couard ou o guarda redes da “equipa maravilha” da Áustria treinador por Hugo Meisl, Rudolf Hiden, o Racing atingiu a sua maior glória na época de 1935/36 com a conquista de uma histórica “dobradinha”, isto é, o campeonato e a taça. O único título de campeão nacional foi conquistado com um total de 44 pontos, apenas mais 3 que o vice campeão Lille, enquanto que na final da “Coupe de France” os parisienses batiam o Charleville por uma bola a zero, com um tento do inevitável Couard, num duelo ocorrido na então catedral do futebol francês, o Stade des Colombes, que então era já a casa do próprio Racing.
Até ao final da década mais duas taças francesas seriam guardadas nas vitrinas do clube, a de 1939 na sequência de uma vitória deslumbrante sobre o Lille por 3-1, com golos do argentino José Perez, de Emile Veinante, e do lendário franco-húngaro Jules Mathé, ao passo que na época seguinte a vítima foi o Marselha que na catedral des Colombes foi vergado por um super Racing por 2-1.
Na década seguinte o clube continuou a passear classe pelos campos de futebol da França, sendo que em termos desportivos mais duas taças gaulesas viajariam para Paris pelas mãos do Racing. A primeira delas em 1945, mais uma vez nos Colombes, perante o olhar de 50 000 pessoas, o Lille voltaria a sair da capital humilhado, desta feita por 3-0. Em 1949 foi arrecadada a quinta Taça de França, a última coroa de glória para o emblema parisiense. Depois disto o Racing entrou numa autêntica montanha russa, com mais “baixos” do que “altos”.

Declínio... ascenção... declínio

Quatro anos depois de vencer a sua última Taça de França o Racing batia no fundo com a despromoção à 2ª Divisão. A garra e o orgulho do seu recente passado foram no entanto atributos suficientes para que rapidamente o emblema voltasse ao convívio entre os grandes, e as luzes da ribalta se acendessem novamente perante a sua passagem na década de 60. Em 61/62 estão perto de somar o seu segundo título de campeão nacional, aliás, muito perto, já que este foi perdido para o Stade Reims apenas pela diferença... de golos marcados e sofridos!
Nesta altura a estrela da equipa era o polaco Thadée Cisowski, uma autêntica máquina de fazer golos que nas 8 temporadas em que vestiu a mítica camisola do clube fez 167 golos! Duas épocas mais tarde o Racing de Paris estreia-se oficialmente na Europa, o mesmo é dizer, nas provas da UEFA, uma presença há muito merecida para um emblema que havia já atraído até si... fama internacional pelas suas exibições dentro de portas num passado não muito longínquo. Seria no entanto uma aventura curta, já que na 1ª eliminatória da antiga Taça das Cidades com Feira (antecessora da Taça UEFA) o Racing seria eliminado pelo Rapid de Viena. Seguiu-se mais uma vez o declínio, e a consequente queda à 2ª Divisão. Problemas financeiros estiveram na origem desta nova descida ao inferno. No final da década de 60 o Racing Club de Paris morria, e no seu lugar surgia o Racing France que se viu obrigado a recomeçar do zero, isto é, nos escalões amadores (!), onde permaneceu durante 15 anos consecutivos.

Um desejo milionário pouco durador

Na década de 80 os clubes de futebol começavam cada vez mais a ser alvo apetecível para grandes magnatas ou megas empresas multinacionais. A Matra era por aqueles dias uma milionária empresa ligada à indústria automóvel, liderada pelo magnata Jean-Luc Lagardère, que em 1982 compra o clube com o objetivo de o fazer regressar aos velhos tempos de glória, sonhando fazer dele aquilo o que os seus fundadores haviam idealizado nos finais do século XIX: um clube de renome internacional. Para isso não se poupou a esforços, ou melhor a trocos, contratando uma série de notáveis jogadores que haveriam de recolocar o Racing entre os maiores do futebol francês. Entretanto, mais uma vez o clube era rebatizado, passando a partir daqui a chamar-se de Matra Racing. Nada mais natural. O argelino Rabah Madjer, que havia brilhado com intensidade no Mundial de 82, é a estrela da companhia de Lagardère, que num curto espaço de tempo quer recolocar Paris no mapa do futebol internacional pela mão do seu Matra.
Convém dizer que por esta altura dava os primeiros passos um promissor projeto futebolístico que tinha uma meta muito semelhante à de Lagardère, projeto esse que dava pelo nome de Paris Saint-Germain.
Os esforços do rico empresário francês deram frutos em 1984, altura em que o Matra Racing voltou à 1ª Divisão. A euforia foi grande e Lagardère voltou a abrir os cordões à bolsa nos anos seguintes, contratando estrelas de topo mundial como o alemão Littbarski, os internacionais franceses Pascal Olmeta e Maxime Bossis, o holandês Sonny Siloy, ou o “príncipe” uruguaio Enzo Francescoli. E para comandar uma constelação de estrelas ninguém melhor que o treinador que em 1987 chocou a Europa após ajudar o FC Porto a conquistar diante do poderoso Bayern de Munique a Taça dos Clubes Campeões Europeus, Artur Jorge. Os resultados obtidos foram... medianos, um pouco longe da meta sonhada por Lagardère, já que o meio da tabela era o habitat natural do milionário Matra. Isto levou a que a pouco e pouco o entusiasmo do milionário empresário em volta do clube começasse a arrefecer, e a última grande aparição do emblema foi na final da Taça de França de 1990, perdida para o Montepellier.
Depois disto nova queda à 2ª Divisão e Lagardère desapareceu de vez, deixando o Racing – que com a “fuga” do seu rico proprietário deixará de ser Matra – orfão e de volta aos tempos de penúria. Falido o clube começou a cair a pique pelos escalões secundários do futebol francês nos anos seguintes. Fizeram-se várias tentativas para o recolocar em patamares mais altos, mas em vão. Os campeonatos amadores seriam o cruel destino do emblema parisiense.
Em 2009 é feito um novo acordo, desta feita com a cidade de Levallois, cuja câmara municipal aceita ajudar o clube a combater as inúmeras dificuldades financeiras que vão surgindo pelo caminho. Dá-se então nova mudança de nome no “bilhete de identidade”: Racing Club de France - Levallois 92. E é desta forma que este nobre emblema continua a (sobre)viver... na 2ª Divisão do futebol amador de França. 

Legenda das fotografias:
1-Emblema do RCP
2-A histórica equipa que em 36 conquistou a Taça e o Campeonato de França
3-O lendário guarda redes austriaco Rudolf Hiden
4-Um dos primeiros grupos do milionário Matra Racing onde pontificava a estrela Rabah Madjer
5-O príncipe uruguaio Enzo Francescoli
6-O Matra liderado pelo português Artur Jorge em 1987/88
 
Nota: Texto escrito em 13 de abril de 2012 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Upton Park Football Club

Upton Park Football Club, o primeiro campeão olímpico da história que na voz da FIFA... nunca o foi! Este terá sido porventura, o capítulo com mais glamour de um dos primeiros cavaleiros da história do futebol que cedo demais travou duelo fatal com a morte. Para conhecer a curta história de vida deste - hoje - falecido emblema é preciso recuar na linha do tempo quase 150 anos (!), mais concretamente até 1866, ano em que na cidade de Londres nasce então o Upton Park Football Club, precisamente três anos após a Football Association (Federação Inglesa de Futebol) ter sido fundada. Clube de essência amadora e princípios religiosos (!), o Upton Park foi desde a sua fundação um emblema elitista, já que a esmagadora dos seus atletas era oriunda de abastadas e aristocratas famílias que habitavam a zona de Forest Gate, famosa pelas suas pomposas mansões. Os seus onzes eram compostos por cirurgiões, corretores da bolsa, solicitadores, entre outras afamadas e notáveis profissões só ao alcance dos filhos das classes mais altas.

E já que falamos em fama um dos nomes mais sonantes da história do Upton Park foi Charles William Alcock, um dos grandes dinamizadores do futebol em Inglaterra aquando do seu nascimento na segunda metade do século XIX. Alcock, que na qualidade de jogador defendeu as cores do emblema que hoje visitamos, ficou famoso - entre outras ações - pela criação da Footbal Association Cup (Taça de Inglaterra, como hoje a conhecemos), competição que viu a luz do dia em 1872, sendo atualmente a prova mais antiga do planeta da bola. Primeira edição da FA Cup que seria disputada por quinze clubes, sendo um desses quinze pioneiros o Upton Park Fottball Club. 11 de novembro de 1871 é pois uma data que fica eternizada não só na história do futebol inglês como do próprio futebol mundial, já que nesse dia era dado o pontapé de saída na FA Cup, sendo que num dos sete encontros alusivos a essa primeira eliminatória o Upton Park recebeu no seu recinto, o qual dava pelo nome de West Ham Park, o combinado do Clapham Rovers, com quem perdeu por 0-3. Uma aventura fugaz, mas histórica, sem dúvida. Até 1887 o clube disputou mais 12 edições daquela que com o passar dos anos se assumiria como a competição rainha do futebol inglês, tendo por quatro ocasiões chegado aos quartos-de-final, o seu melhor registo.
Com o profissionalismo a começar a ditar leis entre os intérpretes do futebol britânico o amador Upton Park Football Club vê-se obrigado a encerrar as portas precisamente em 1887, mas por pouco tempo, já que apenas quatro anos volvidos renasce das cinzas. E renasce com aparente energia, já que encabeça a lista de fundadores (em 1892) da Southern Alliance, um campeonato distinado às equipas do sul de Inglaterra.

O momento de fama... mundial

O barão Pierre de Coubertin sonhou e os Jogos Olímpicos... renasceram. Em finais do século XIX o mundo do desporto ganhou um novo impulso com o nascimento das Olimpíadas da Era Moderna, uma ideia do aristocrata francês Pierre de Frédy, mais tarde eternizado como barão Pierre de Coubertin. Em 1896 Atenas testemunhou o primeiro capítulo daquele que muitos - nos dias de hoje - consideram como o maior evento desportivo do planeta, o qual quatro anos volvidos teve um segundo capítulo na cidade berço do (re)criador dos Jogos, Paris. Estávamos em 1900, na viragem para o século XX, e a cidade luz reluzia como nunca no mapa mundial na sequência do acolhimento da Exposição Universal, um mega evento planetário que trouxe a Paris gentes do Mundo inteiro naquele longínquo ano. A cidade engalanou-se. Nos Campos Elísios construiram-se os majestosos Grand Palais e o Petit Palais, e foi inaugurado o Métropolitain (Metro de Paris) que ligou a cidade de uma ponta à outra por baixo da terra. Foi pois neste ambiente de festa e modernidade que decorreu a segunda edição dos Jogos Olímpicos, um evento que seria morto à nascença pela própria Exposição Universal! Na verdade as Olimpíadas de 1900 não foram mais do que um pequeno apontamento de diversão da Exposição, protagonizado por um conjunto de atletas para lá de medíocres - segundo relatos dos historiadores desportivos - que ali parecia estar única e exclusivamente com a tarefa de entreter os visitantes da feira, que por sua vez se mostraram indiferentes ao certame. Tudo isto sob o olhar incrédulo de Coubertin e do Comité Olímpico Internacional (COI) - os tutores das Olimpíadas da Era Moderna -, praticamente afastados da organização do evento desportivo pelos responsáveis pela Exposição Universal, que chamaram até si a responsabilidade de erguer um certame que seria caricato, a diversos níveis.

Caricato foi também o torneio de futebol, modalidade que pela primeira vez surgia no cartaz oficial dos Jogos Olímpicos, mas de forma... experimental. Futebol que assumia já contornos de popularidade um pouco por todo um Mundo que ainda estava orfão de uma grande competição internacional. No entanto, e apesar dos esforços de Coubertin - sob a fiscalização dos organizadores da Exposição Universal, claro está - as grandes equipas nacionais da época não mostraram muito interesse em marcar presença naquele que estava projetado como o primeiro grande torneio internacional do belo jogo. Um dos entraves terá sido o profissionalismo dos jogadores, que vigorava em muitos países onde o futebol já reinava, e como esse mesmo profissionalismo era o inimigo principal do amadorismo que o barão Pierre de Coubertin apregoava para a essência Olímpica os melhores atletas e seleções de então declinaram desde logo o convite. Sem combinados nacionais tentou-se trazer a Paris alguns clubes campeões nacionais nos seus respetivos países, mas em vão! Estes também não se mostraram cativados com a ideia de marcar presença na capital gaulesa, e ver futebol nos Jogos de 1900 era assim uma missão cada vez mais complicada.
Na Bélgica, por exemplo, a federação pediu ajuda ao seu carismático jogador Frank Konig para reunir um grupo de jogadores com a finalidade de representar o país em Paris, tendo este solicitado a ajuda da Fédération Universitaire, que mesmo assim não conseguiu doar mais do que meia dúzia de jogadores! Konig e a federação belga tiveram então de colocar anúncios nos jornais para recrutar os restantes atletas, ideia que não seria totalmente corada de êxito, já que as respostas foram muito poucas e no embarque para a capital francesa a representação da Bélgica só levava 10 jogadores! Seria já em solo gaulês que Eugène Neefs aceitou dar uma ajuda à seleção da... Université de Bruxelles! Nem sequer se apresentavam na qualidade de seleção da Bélgica!

Dificuldades semelhantes teve a França, que sem jogadores interessados em formar uma seleção nacional recorreu ao seu campeão nacional de 1899/1900, o Havre Athletic Club, convidando o clube a competir no torneio olímpico. Para não fugir à regra este recusou e a Union des Sociétés Françaises des Sports Athlétiques (USFSA) apelou quase em desespero aos parisienses do Club Français para reunir uma equipa com vista à participação nos Jogos. Com muito esforço esta equipa teve de se reforçar com três atletas dos vizinhos do Racing Club de Paris e assim formar a seleção da USFSA! Mais fácil parece ter sido a tarefa dos ingleses, que com os seus melhores jogadores e equipas profissionalizados delegaram nos amadores do Upton Park Football Club a tarefa de representar a Grã-Bretanha no atribulado torneio olímpico de futebol. Este foi pois o momento alto do clube londrino.

Foi pois com três clubes (!), ou combinados de jogadores amadores e estudantes universitários (!) que se desenrolou a caricata estreia do futebol nas andanças olímpicas. Surreal foi no mínimo a calendarização do evento, que ao invés de três jogos - num sistema de poule, onde todos jogariam contra todos - teve apenas dois, tendo o campeão sido a equipa com melhor... média percentual de vitórias! Insólito e confuso.
Título que seria então arrecadado pelo Upton Park, que no primeiro jogo, ocorrido a 20 de setembro, derrotou - recorrendo ao rudimentar sistema tático de 2-3-5 - no Vélodrome Municipal de Vincennes - onde decorreu grande parte da ação destes Jogos Olímpicos de 1900 - os franceses da USFSA por 4-0, com golos de Nicholas (2), Arthur Turner, e James Zealey. Três dias mais tarde o misto francês esmagou no mesmo local o misto belga por 6-2, resultado que de nada valeu pois a medalha de ouro - que na verdade nem existia, já que na época ainda não eram atribuídas medalhas aos campeões olímpicos - ficou na posse do Upton Park Football Club que assim só precisou de uma vitória - vista in loco por apenas 500 espetadores - para garantir um lugar na história do futebol mundial.
Triunfo cuja autenticidade ainda hoje não é unânime, já que a FIFA - fundada quatro anos mais tarde - não valida uma competição que foi disputada por apenas três equipas, e não por seleções nacionais, equipas essas que nem sequer se defrontaram num sistema de todos contra todos! Argumentos que inclusive são partilhados pelas próprias federações da França, Bélgica, e Inglaterra, que não reconhecem nestes encontros qualquer caráter oficial, olhando para eles como meras partidas amigáveis e de... experimentação do futebol como modalidade olímpica!
Opinião contrária parece ter o COI que anos mais tarde atribuiu medalhas de ouro, prata, e bronze, respetivamente a Grã-Bretanha, França, e Bélgica!
Ah, quanto ao Upton Park (que nada tem a ver com o West Ham United, como muita gente possa inicialmente pensar, uma vez que o nome do estádio dos "hammers" é Upton Park) este foi mesmo o momento de glória do clube, oficial ou não oficial, tendo onze anos depois da caricata epopeia parisiense fechado definitivamente as suas portas.
Eternos são sim os nomes de J.H. Jones, Claude Buckingham, William Gosling, Alfred Chalk, J.E. Barridge, William Quash, Arthur Turner, F.G. Spackman, J. Nicholas, James Zealey, e A. Haslan, os campeões olímpicos - ou não - de 1900 ao serviço do Upton Park Football Club.  

Legenda das fotografias:
1-Imagem rara guardada no museu do COI, que retrata o célebre jogo entre o Upton Park e a Union des Sociétés Françaises des Sports Athlétiques nos Jogos Olímpicos de Paris
2- Charles William Alcock, personagem ilustre do futebol inglês que enquanto jogador atuou no Upton Park F.C.
3-Cartaz oficial das Olimpíadas de 1900
4- Vélodrome Municipal de Vincennes, local onde decorreram os dois encontros de futebol do caricato torneio olímpico de 1900
5- A equipa da Union des Sociétés Françaises des Sports Athlétiques, vice-campeã olímpica
Nota: Texto escrito em 15 de abril de 2013 no blog: www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Ponta Delgada Soccer Club

Fall River, cidade norte-americana situada no Estado de Massachusetts que no início do século XX foi destino de milhares de emigrantes portugueses, na sua maioria oriundos dos Açores, que deixavam para trás a miséria de um Portugal em profunda depressão - a diversos níveis - e partiam em busca do sonho americano. Homens e mulheres que ali chegados trabalhavam arduamente, horas a fio, nas muitas fábricas existentes em Fall River. Nesta cidade criaram as suas raízes, casaram, tiveram os seus filhos, e ali morreram. Fall River foi pois o lar adotado por milhares de aventureiros lusitanos, que mesmo deixando para trás o seu amado Portugal fizeram questão de levar consigo na bagagem crenças, costumes, tradições, e atividades bem lusitanas que de certo modo os faziam sentir-se próximos do seu país natal naquela terra tão distante e inicialmente desconhecida. Uma dessas atividades populares - não de origem lusitana mas na época já bem vincada na sociedade do país do sul da Europa - era o futebol, ou como estranhamente era denominado em Terras do Tio Sam, soccer. Para além de portugueses, Fall River era povoada por outras comunidades de imigrantes provenientes do Velho Continente, irlandeses, escoceses, ingleses, ou italianos. E tal como os lusos também estes tinham como paixão o futebol, sendo que aos domingos, dia de descanso após uma longa e dura semana de trabalho, as comunidades destes países juntavam-se para praticar - ou para assistir - o seu desporto de eleição. Não tardou muito pois que aqui e acolá começassem a florir os primeiros clubes idealizados pelos imigrantes europeus, sendo que em 1915 via a luz do dia o Ponta Delgada Soccer Club, que como o próprio nome indica foi fundado por açorianos, na sua maioria oriundos da ilha de S. Miguel. E tal como outros emblemas criados por imigrantes europeus o Ponta Delgada SC teve ao longo da sua vida um papel preponderante na dinamização e popularização do soccer em terras americanas, tendo sido um dos atores principais da chamada golden era (era dourada) do belo jogo nos Estados Unidos da América (EUA).

Foi nos anos 20 que o jogo conheceu de facto a sua primeira grande explosão de popularidade junto do povo norte-americano. Era comum ver-se em volta de uma partida assistências a rondar as 10.000 ou 15.000 pessoas, que vibravam com a arte futebolística das primeiras lendas do soccer dos States, casos de Thomas Swords (o primeiro capitão da seleção nacional dos EUA que disputou o seu primeiro jogo internacional em 1916), de Bert Patenaude, ou de Billy Gonsalves, este último também ele um luso descendente, neste caso filho de pais madeirenses, e que para muitos é ainda hoje considerado o maior jogador norte-americano de todos os tempos (nota: sobre ele o Museu Virtual do Futebol já traçou algumas linhas biográficas noutras viagens ao passado). Grandes dominadores do futebol dos EUA daquele tempo eram a quase esmagadora maioria dos combinados de Fall River, nomeadamente o Fall River Marksmen - clube fundado em 1922, que nesta década venceu por sete vezes o título nacional (American Soccer League) e em quatro ocasiões a taça nacional (National Challenge Cup, atualmente conhecida como US Open Cup) - o Fall River Rovers, ou o Fall River Football Club. Mais do que títulos ganhos todos eles encantaram multidões.

Seria no entanto na década seguinte que o Ponta Delgada Soccer Club iria conhecer os seus primeiros momentos de fama. Curiosamente esta seria uma década de declínio para o soccer, muito por culpa da Grande Depressão que assolou os EUA, a qual provocou o encerramento de inúmeras indústrias, atirando milhares de homens e mulheres para o desemprego. Com isto o futebol sofreu, muitos clubes fecharam portas, outros transferiram-se para cidades maiores e mais abastadas. O soccer perdia furor...

Ponta Delgada SC domina era amadora

Perdia furor mas não morria. Sem dinheiro para alimentar uma liga profissional o jogo percorreria então os caminhos do amadorismo, e neles o Ponta Delgada Soccer Club ganhou algumas corridas. O primeiro grande título conquistado pelo clube de origens portuguesas ocorreu a 1 de maio de 1938, dia em que o clube venceu por 2-1 o Pittsburgh Heidelberg na final da National Amateur Cup, uma espécie de campeonato nacional de amadores. Mas o melhor viria na década seguinte. Munido de um grupo de notáveis jogadores, na sua esmagadora maioria luso descendentes, o Ponta Delgada colecionou títulos atrás de títulos, sendo que entre 1946 e 1948 foi três vezes consecutivas campeão da National Amateur Cup. Em 1946 fez mesmo história no soccer dos EUA, ao tornar-se no primeiro clube a atingir as finais de duas competições distintas no mesmo ano, a National Amateur Cup - a qual venceu, como já vimos, após derrotar na final o Castle Shannon of Pittsburgh por 5-2 - e a National Challenge Cup, em cuja final seria derrotado pelos Chicago Vikings por 1-2. No ano seguinte a equipa voltou a marcar presença nas finais de duas competições distintas, mas desta vez o desfecho foi bem mais feliz: venceu as duas! O Ponta Delgada Soccer Club entrava assim para a história do soccer norte-americano ao tornar-se no primeiro emblema a vencer no mesmo ano duas competições distintas. Na final da National Amateur Cup - disputada em maio desse ano - o clube cilindrou por 10-1 o Saint Louis Carondelets, com o destaque individual a ir para Ed Souza, um dos muitos artistas luso-americanos daquele célebre combinado, atleta que nessa tarde apontou cinco golos. A 31 de agosto, na primeira mão da final da Taça dos EUA (National Challenge Cup) o Ponta Delgada esmagou na primeira mão o Chicago Sparta por 6-1, com golos com sotaque português: Ed Souza (2), John Souza, Ed Valentine, e Joe Ferreira, sendo que outro tento saiu dos pés de John Travis. Nesse histórico encontro o Ponta Delgada SC alinhou com: Walter Romanowicz, Joe Machado, Manuel Martin, Joseph Rego-Costa, Joe Ferreira, Jesse Braga, Frank Moniz, Ed Souza, Ed Valentine, John Souza, e John Travis.
Cerca de uma semana depois, na segunda mão da final, nova vitória foi alcançada, desta feita por 3-2, em Chicago, com tentos de Jim Delgado, Joe Ferreira, e John Travis. A alinhação do Ponta Delgada SC foi a seguinte: Walter Romanowicz, Joe Machado, Manuel Martin, Joseph Rego-Costa, Joe Ferreira, Jesse Braga, Frank Moniz, Ed Souza, Ed Valentine, John Souza, e John Travis.Jogaram ainda Jim Delgado, Joseph Michaels, e Victor Lucianno.

Dobradinha chama à atenção da United States Soccer Federation

A dupla conquista do emblema de ascendência lusitana não deixou ninguém indiferente, muito menos os responsáveis máximos do futebol norte-americano, que nesse ano de 1947 viram a seleção nacional yankee integrar a primeira edição da North American Football Confederation Championship, digamos que a competição antecessora da atual Gold Cup. O certame teve lugar em Cuba, entre 13 a 20 de julho, sendo que para além da equipa da casa e dos EUA o México também figurava no cartaz. Grupo norte-americano que era constituído 100 por cento pelos atletas do Ponta Delgada Soccer Club! A convite da United States Soccer Federation (Federação Norte-Americana de Futebol) os jogadores do clube de Fall River trocaram a sua camisola habitual pela da seleção nacional. Uma honra! O resultado, esse, não foi famoso, já que a viagem a Cuba saldou-se por duas pesadas derrotas, uma por 0-5 ante o México - que seria o campeão do evento - e outra por 2-5 ante os anfitriões, tendo os tentos dos soccer boys sido apontados por Ed Souza e Ed Valentine.

Mas não se ficaria por aqui a incursão de jogadores do Ponta Delgada SC na equipa nacional. No ano seguinte os Estados Unidos da América marcavam mais uma vez presença no torneio olímpico de futebol, que nesse ano decorreu em Londres. Para encontrar os melhores atletas capazes de representar condignamente o país o selecionador nacional da altura, Walter Giesler, organizou um jogo entre as estrelas do Este e do Oeste dos EUA. No final dessa triagem, digamos assim, Giesler chamou cinco jogadores do Ponta Delgada Soccer Club para fazer a viagem até à capital britânica, nomeadamente Ed Souza, John Souza, Joe Ferreira, Manuel Martin, e Joseph Rego-Costa. Participação norte-americana que desde cedo foi problemática, já que antes da partida para a Europa a seleção não realizou qualquer treino conjunto, muito menos jogos de preparação, tudo devido ao mau tempo! Preparação essa que foi feita no navio que transportou os yankees para Londres! Surreal! A equipa só tocou na bola já em solo europeu, onde faria alguns jogos de preparação muito em cima do arranque da competição, fatura que acabaria por sair cara ao combinado de Giesler, já que logo na primeira eliminatória dos Jogos de 48 foi afastado pela Itália por concludentes 9-0!

Ed e John Souza presentes na página mais cintilante do soccer norte-americano

Mas se a viagem a Londres foi rotulada de insucesso o mesmo não aconteceria dois anos mais tarde, quando o selecionado norte-americano viajou para o Brasil para participar no Campeonato do Mundo. Para a América do Sul o selecionador Walter Giesler e o treinador de campo Bill Jeffrey levaram dois luso descendentes, dois diamantes extraídos da mina do Ponta Delgada Soccer Club, Ed Souza e John Souza, que apesar de partilharem o mesmo apelido não tinham qualquer laço familiar. E no Brasil eles ajudaram os EUA a escrever a página mais cintilante da sua história, no que a futebol diz respeito, e quiçá o maior escândalo do futebol planteário, altura em que a poderosa seleção inglesa foi derrotada por 0-1 pelos amadores dos States, facto este já relatado neste museu virtual vezes sem conta.
Voltando ao Ponta Delgada Soccer Club, 1950 seria um ano quase brilhante, já que ao título de campeão da National Amateur Cup o emblema esteve muito perto de repetir a dobradinha de 1947, perdendo a final da National Challenge Cup para o Saint Louis Simpkins-Ford, onde aliás atuavam alguns dos heróis norte-americanos do Mundial de 50, casos de Frank Borghi, Gino Pariani, Charles Colombo, entre outros. O clube de origens açorianas arrecadou ainda em 1953 um último título da National Amateur Cup, sendo que dali em diante praticamente se eclipsou do mapa futebol dos EUA, aliás tal como a prórpia modalidade, que só viria a conhecer um novo impulso na década de 70 com a criação da National American Soccer League, e com a chegada do rei Pelé aos EUA para relançar o belo jogo em terras onde ainda hoje ele é olhado com alguma... desconfiança e desinterese.
Em 1985 o Ponta Delgada mudou o nome para Patriot's Bar and Grille (!), até que em 2008 encerrou definitivamente as portas.

Os luso americanos mais sonantes da história do clube

Ao longo das linhas anteriores foram mencionados alguns dos nomes mais sonantes da história do clube, sendo que nas próximas linhas iremos apresentar de forma mais detalhada aqueles que mais brilharam na cena internacional com as cores da seleção norte-americana.

Joseph Ferreira: Tal como a maioria dos jogadores do Ponta Delgada Soccer Club, Joseph Ferreira tinha uma alcunha, no seu caso era chamado de Za-Za. Nasceu a 5 de dezembro de 1916, em Fall River, pois claro. Destacou-se no terreno de jogo como médio defensivo, e tal a maior parte dos seus companheiros deu os primeiros pontapés na bola no Ponta Delgada. Foi um dos rostos principais das décadas (40 e 50) douradas do emblema de Fall River, vivendo por dentro, e em algumas vezes foi mesmo determinante, as principais conquistas do clube. Foi chamado por quatro ocasiões à seleção dos EUA, tendo a primeira ocorrido em 1947, no decorrer da primeira edição do North American Football Confederation Championship, onde atuou como titular na derrota ante o México por 0-5. No ano seguinte vestiu por mais três ocasiões a camisola do seu país, em dois particulares - derrota com a Noruega por 0-11 (!), e vitória sobre Israel por 3-1 - e no torneio olímpico de Londres, onde sentiu na pele a pesada derrota diante da Itália por 0-9. Em 1957, numa altura em que o Ponta Delgada SC entrava na fase decrescente da sua vida, Joe Za-Za Ferreira deixou o clube, rumando para o vizinho Fall River Soccer Club, onde terminaria a carreira. Fall River viu-o nascer e assistiu também ao seu desaparecimento, a 10 de junho de 2007.

Joseph Rego-Costa: Três anos mais novo do que o seu companheiro Za-Za Ferreira, Joseph Rego-Costa brilhou no lado direito do setor recuado do terreno, isto é, como defesa/lateral direito. Tendo tido igualmente como berço a cidade de Fall River, Joe Rego-Costa nasceu a 3 de julho de 1919. Nas Olimpíadas de 1948 ele foi o capitão da seleção nacional dos EUA no encontro diante da Itália, tendo sido esta uma das cinco vezes em que envergou a camisola do seu país, sendo que as outras ocasiões ocorreram no North American Football Confederation Championship, onde realizou os dois encontros dessa fase final, digamos assim, e nos particulares ante a Noruega e Irlanda - derrotas, respetivamente, por 0-11, e 0-5. A brilhante carreira de Joe Rego-Costa não foi esquecida, e em 1988 ele foi nomeado para figurar - para a eternidade - no New England Soccer Hall of Fame, uma museu onde repousam os nomes e factos mais relevantes do futebol daquela região dos EUA. Tal como Za-Za Ferreira, Joe Rego-Costa nasceu e morreu em Fall River, no seu caso 27 de abril de 2002 é a data do seu falecimento.

Manuel Martin: Manuel Oliveira Martin, dos cinco craques mais sonantes que o Ponta Delgada Soccer Club deu ao futebol dos EUA ele foi o único que não nasceu em Fall River. Mas não muito longe dali viu a luz do dia pela primeira vez a 29 de dezembro de 1917, mais precisamente em Bristol, Rhode Island, tendo tal como os seus companheiros sido uma das figuras principais das décadas douradas do Ponta Delgada SC. Pela seleção dos EUA atuou em sete ocasiões, com destaque para as presenças no North American Football Confederation Championship de 1947 (fez os dois jogos), na edição desta mesma competição de 1949, ocorrida no México, onde Martin atuou em três encontros, e nos Jogos Olímpicos de 1948. Tal como Joe Rego-Costa atuava no setor recuado do terreno, e depois da sua retirada dos campos de futebol seguiu uma curta carreira de treinador, desempenhando funções de treinador-adjunto na equipa feminina da Uiversidade de Massachusetts.
Em 1983 ele foi nomeado para o New England Soccer Hall of Fame, tendo 14 mais tarde falecido em Fall River.

Ed Souza: Edward Souza-Neto, ou simplesmente Ed Souza, foi um dos mais talentosos avançados do soccer americano de todos os tempos. Ele era o elemento mais novo dos cinco astros nascidos para o futebol no Ponta Delgada SC, tendo nascido a 22 de setembro de 1921. Durante muitos anos foi um dos homens-golo da equipa, destacando-se a sua veia goleadora na dupla campanha vitoriosa de 1947, isto é, na National Amateur Cup e na National Challenge Cup. Integrou a seleção norte-americana no North American Football Confederation Championship de 1947, nos Jogos Olímpicos de 1948, e no Mundial de 1950, tendo sido um dos 11 heróis que atuou na sensacional e inesperada vitória sobre a Inglaterra no célebre jogo realizado em Belo Horizonte. Nesse Campeonato do Mundo realizou ainda mais um encontro, o da última jornada do grupo 2 diante do Chile (derrota por 2-5). Ed Souza, que apesar de partilhar o apelido com o seu companheiro de clube e de seleção John Souza nenhuma relação familiar tinha com este, falecendo a 19 de maio de 1979, em Warren, Rhode Island.

John Souza: Talvez o mais mediático jogador do Ponta Delgada Soccer Club. Uma das estrelas mais cintilantes de sempre do soccer dos EUA, tendo sido o primeiro jogador deste país a fazer parte do onze ideal de um Campeonato do Mundo da FIFA. Nasceu a 12 de julho de 1920, em Fall River, e tal como muitos dos seus companheiros do soccer era filho de pais açorianos. Ganhou a alcunha de Clarkie, aparentemente por ser parecido com o popular ator Clark Gable. Ao serviço do clube da sua terra, o Ponta Delgada SC, John Clarkie Souza venceu os títulos mais importantes do historial do emblema. Atuando como atleta amador, tal como os restantes companheiros, Clarkie trabalhava arduamente durante a semana nas fábricas de Fall River e ao domingo brilhava com as cores do seu clube do coração. Fê-lo até 1951, altura em que resolve mudar de ares, transferindo-se para o New York German-Hungarians, clube pelo qual vence uma National Amateur Cup e uma National Challenge Cup. Pela seleção norte-americana este avançado atuou em 14 ocasições, estreando-se, tal como os seus colegas de clube, no North American Football Confederation Championship, em 1947, prova onde voltaria a representar os States dois anos mais tarde. Também com os EUA atuou em duas edições dos Jogos Olímpicos, mais precisamente em Londres (1948), e em Helsínquia (1952), onde voltou a ver a sua seleção ser massacrada pela Itália, desta feita por 0-8. Mas o ponto alto da sua carreira foi mesmo o Mundial de 1950, no Brasil, onde foi titular nos três encontros que os soccer boys fizeram na América do sul, tendo vivido a tarde mágica de 29 de junho daquele ano, quando em Belo Horizonte a Inglaterra foi batida pelos desconhecidos - para o resto do planeta, pelo menos - norte-americanos. As suas exibições nesse Mundial levaram então a revista brasileira Mundo Esportivo a nomea-lo para o onze ideal do torneio da FIFA. Jogaria até aos 40 anos, e quem o viu atuar diz que poderia ter jogador em qualquer equipa do Mundo, tal era a sua mestria com a bola nos pés. Como a maioria dos heróis de Belo Horizonte também ele foi nomeado para o National Soccer Hall of Fame, tendo falecido já no novo milénio (a 11 de março de 2012). 

Legenda das fotografias:
1-Talvez a fotografia mais relevante da história do Ponta Delgada SC, o dia em que o clube venceu a National Challenge Cup (atualmente conhecida como US Open Cup) de 1947
2-Um jogo de futebol nos anos 20, a década em que a modalidade alcançou índices de popularidade absimal nos EUA
3-John Clarkie Souza, para muitos o jogador mais mediático da história do Ponta Delgada SC
4-Walter Giesler, selecionador nacional dos EUA nos Jogos Olímpicos de 1948 e no Mundial de 1950
5-A histórica equipa dos EUA que derrotou a Inglaterra no Campeonato do Mundo de 1950
6-Joseph Ferreira
7-Joseph Rego-Costa
8-Manuel Martin
9-Ed Souza
10-John Souza

Nota: Texto escrito em 17 de julho de 2013 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com 

DEDICADO A UMA GRANDE SENHORA, A UMA GRANDE AMIGA, A UM GRANDE SER HUMANO, A UMA ENORME E ÚNICA MÃE... A MINHA MÃE, QUE ETERNAMENTE VIVERÁ DENTRO DO MEU CORAÇÃO...

Galt Football Club

Numa anterior viagem ao passado deste jogo encantador recordámos aquele que foi o primeiro emblema a conquistar um título de dimensão internacional, mas que na realidade hoje não é reconhecido como oficial. Falámos dos ingleses do Upton Park Football Club, que em 1900 subiram ao lugar mais alto do pódio nas Olímpiadas de Paris, no que a futebol diz respeito. A glória, porém, não é reconhecida pela FIFA (surgida em 1904) que alega que os primeiros dois torneios olímpicos de futebol - ocorridos em 1900 e 1904 - eram meramente exibicionais, ou seja, de promoção do jogo do pontapé na bola, além de que foram disputados por grupos colegiais e clubes amadores, e não por seleções nacionais.
Por certo o ilustre visitante já percebou pois que o Upton Park FC não foi o único campeão olímpico que na realidade... nunca o foi. E é então aqui que inicíamos esta nossa viagem ao passado...

Em 1904 a cidade norte-americana de Saint Louis organiza a terceira edição dos Jogos Olímpicos da Era Moderna. Ou melhor, tal como Paris havia feito quatro anos antes integra o evento desportivo na Exposição Universal, intitulada de Louisiana Purchase Exibition. Como em 1900 na capital francesa, os Jogos foram um mero e pequeno apontamento da grande feira internacional, facto que mais uma vez indignou o presidente do Comité Olímpico Internacional (COI), o barão Pierre de Coubertin, que nesse sentido recusou-se a marcar presença na cerimónia de abertura do evento, apesar do apelo feito pelo presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Theodore Roosevelt, para que o (re)criador dos Jogos comparecesse na dita cerimónia .
Na verdade os Jogos Olímpicos de 1904 tornaram-se no mais vincado exemplo de racismo/preconceito racial presente na centenária história das Olimpíadas, ficando até hoje conhecidos como os "Dias Antropológicos". Esta denominação aponta para o facto das Olimpíadas de Sanit Louis terem servido quase única exclusivamente para entreter os indivíduos de raça branca que se deslocavam à feira internacional, os quais se divertiam a ver os empregados do certame, onde entre os quais figuravam mexicanos, negros, índios, filipinos, ou pigmeus, a competir entre si em caricatas atividades inseridas nas ditas Olimpíadas. Atividades essas pouco desportivas, diga-se na verdade, já que do ridículo e racista programa olímpico, se é que assim o podemos chamar, havia uma prova que consistia em cuspir tabaco!!! Não se ficou contudo a saber quem foi o campeão olímpico nesta modalidade tão peculir. Aliás, esta foi apenas uma das muitas atividades absolutamente ridículas inseridas nos Jogos de 1904, e talvez por isso o COI tenha decidido anular cerca de 80 medalhas então atribuídas naquelas que foram as Olimpíadas menos participativas da história, com apenas 12 países (representados por 500 atletas) a marcar presença em Saint Louis.

Bom, para além desta triste imagem social a história diz-nos que em Saint Louis também se jogou futebol, ou soccer, como lá - EUA - é denominado o desporto rei. Mas tal como outras modalidades - ou pseudo-modalidades como as cuspidelas de tabaco - foi de mero entretenimento e demonstração. E tal como em Paris, quatro anos antes, três foram as equipa participantes na corrida ao ouro. Abra-se aqui um parêntese para informar que foi em Saint Louis que pela primeira vez foram atribuidas medalhas de ouro aos campeões, de prata aos vice campeões, enquanto que os terceiros classificados levavam para casa o bronze. Mas voltando ao futebol, para dizer que o pobre torneio olímpico seria composto por duas equipas oriundas de estabelecimentos de ensino (!) locais, a do Christian Brothers College, e a do Saint Rose Parish, às quais se juntou uma equipa canadiana, denominada de Galt Football Club.
Canadá que enquanto nação fazia, aliás, a sua estreia olímpica.


Não se sabendo ao certo a data da sua fundação - se 1881 ou 1882 -o Galt era proveniente da cidade com o mesmo nome, situada no Estado de Ontário, a uns 100km de Toronto, e no seu palmarés - até à entrada de 1904 - detinha os títulos de campeão da Ontario Cup de 1901, 1902, e 1903. Conta-se ainda que neste último ano o Galt FC efetuou uma digressão pela província canadiana de Manitoba, tendo aí realizado 17 jogos, traduzidos em 16 vitórias (!) e apenas um empate consentido. Reza a lenda que era de facto a melhor equipa do soccer do Canadá da época.
Pelo facto de terem meramente um caráter demonstrativo, e para não aborrecer muito os nativos norte-americanos com aquele jogo europeu, a organização decide que cada partida do torneio olímpico tem a duração de apenas uma hora, com duas partes de 30 minutos.

A caminhada gloriosa do Galt FC...

O soccer entrou pois em cena no mês de novembro, no dia 16 para sermos mais precisos, muito depois de as outras modalidade terem tido a sua aparição (!), já que a esmagadora maioria das provas olímpicas decorreu entre julho e setembro. Nesse dia pisaram o relvado do Francis Filed, o anfiteatro das Olimpíadas de 1904, as equipas do Galt FC e do Christian Brothers College, equipas, convém sublinhar, compostas por atletas completamente amadores, sendo que no caso desta última juntamos a característica de inexperientes no que a futebol dizia respeito. Resultado final: 7-0 a favor dos experientes canadianos, com o destaque individual a recair sobre o avançado-centro Alexander Hall, um escocês de berço - nasceu em Peterhead, a 3 de dezembro de 1880 - que ainda adolescente emigrou para o Canadá, país onde desenvolveria a sua paixão pelo belo jogo. Ainda num registo biográfico sobre Alex Hall - como era conhecido - é de referir que após os Jogos de Saint Louis voltou à Europa, tendo atuado na First Division inglesa ao serviço do Newcastle United - em 1907 - e na principal liga do seu país natal, ao serviço de equipas como o Dundee FC e o Dunfermline, pouco antes de combater pelo lado inglês durante a I Guerra Mundial.
Bem, mas voltando à partida de abertura do torneio olímpico de 1904 para sublinhar que Alex Hall foi a estrela da tarde ao apontar três golos aos frágeis alunos do Christian Brothers College. Gordon McDonald, com dois tentos na conta pessoal, Frederick Steep, e Thomas Taylor foram os autores dos restantes tentos da equipa do Estado de Ontário.

Apoiados por cerca de 50 adeptos que com eles fizeram a longa viagem de comboio até Saint Louis - entre esses adeptos encontrava-se o mayor (presidente da câmara) de Galt, de nome Mark Munday - os jogadores do conjunto do Canadá fizeram o segundo jogo um dia depois (!), desta feita ante o combinado do Saint Rose Parish. O resultado final traduziu-se em mais uma vitória fácil, embora por números mais suaves: 4-0. Neste encontro a estrela foi o veloz extremo-direito Thomas Taylor, autor de dois golos, que fizeram com que ele fosse a par de Alex Hall - de quem fazia a diferença de idade de apenas um dia, já que Hall havia nascido a 3 de dezembro de 1880, enquanto que Taylor nasceu em Galt um dia depois desse mesmo ano - o melhor marcador do torneio, com três remates certeiros.
O triunfo sobre o também frágil conjunto do Saint Rose Parish deu desde logo o título ao Galt FC, que somava assim duas vitórias, não importando pois o resultado do terceiro e último jogo de torneio, que no dia 20 de novembro colocaria frente a frente as duas equipas norte-americanas. O resultado final dessa luta pela prata olímpica foi um nulo, pelo que houve a necessidade de se realizar um jogo de desempate, marcado para 23 de novembro, sendo que ai o Christian Brothers College levou a melhor por 2-0, ficando assim com a medalha de prata.

Voltando aos campeões olímpicos, ou campeões do Mundo, como a imprensa da época os rotulou, estes receberam as medalhas de ouro logo após a epopeia de Saint Louis, pela mão do chefe de Departamento de Física e Cultura local, James E. Sullivan, tendo regressado posteriomente à pequena cidade do Canadá onde seriam recebidos como autênticos heróis. Pudera.
No ano seguinte a esta conquista uma equipa amadora inglesa, denominada de Pilgrims, realizou uma digressão por algumas localidades do Canadá e dos EUA. Durante a estadia no primeiro país foi agendado um duelo com o Galt FC, os campeões do Mundo como eram chamados, tendo por isso o jogo sido batizado de o Campeonato do Mundo (!), atendendo precisamente ao facto de um dos lados da barricada ser ocupado pelos... campeões do Mundo. O jogo atraiu as atenções de milhares de pessoas, não só no Canadá como também nos vizinhos dos EUA, e por esse facto foram colocados à disposição dos adeptos comboios especiais para Grand River, o local da partida. 3-3 foi o resultado final, e o título mundial continuou assim na posse do Galt FC, clube que viria a conhecer o seu fim em 1910.
Ainda hoje, a conquista de Saint Louis, em 1904, é considerada como o maior feito da história do futebol canadiano... embora, e não será demais repetir, a FIFA não o reconheça.
Para a ternidade ficam pois os nomes de Ernest Linton, George Ducker, John Gourlay, Robert Lane, Albert Johnston, John Fraser, Thomas Taylor, Frederick Steep, Alexander Hall, Gordon McDonald, e William Twaits, os onze heróis de Saint Louis.

Legenda das fotografias:
1-Equipa do Galt FC, campeã olímpica de 1904
2-O cartaz oficial dos Jogos de Saint Louis
3-A frente e verso da medalha de ouro conquistada pelo Galt FC
4- Imagem do Francis Filed, o recinto que acolheu os Jogos de 1904
5-Alex Hall
6-Thomas Taylor
7-Uma avenida da pequena cidade de Galt no início do século XX, altura em que a sua equipa se sagrou... campeã do Mundo!!!
 
Nota: Texto escrito em 27 de novembro de 2013 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com