Museu Virtual do Futebol

Estados Unidos - Inglaterra (1-0)... 1950

Inauguramos hoje um novo cantinho aqui no Museu Virtual do Futebol, o espaço dedicado aos grandes jogos da história deste não menos grande desporto. Vamos pois recordar alguns dos encontros que fizeram história quer ao nível dos Campeonatos do Mundos, quer dos Campeonatos da Europa ou das competições europeias de clubes. Jogos que com o passar dos anos se tornaram em verdadeiros clássicos.
E começamos esta nossa viagem por uma partida que poucos conhecem, ou se lembram, e que data de 1950. Ano em que o Brasil acolheu pela primeira vez, e única até à data, uma fase final de um Mundial de Futebol. Um campeonato de má memória para os brasileiros, pois perderiam o "seu" Mundial para os vizinhos e rivais do Uruguai. Bom, mas isso são histórias que iremos contar noutra altura.
O jogo que hoje iremos fazer referência aconteceu então nesse Mundial, mais precisamente na cidade de Belo Horizonte, no Estádio da Independência, que recebeu na tarde de 29 de Junho as equipas dos Estados Unidos da América e da Inglaterra. Um encontro referente à 1ª fase desse célebre Mundial. Inglaterra que era considerada uma das seleções favoritas para vencer o torneio, juntamente com Brasil, Suécia e Itália. Mas, desde o início, a realidade foi bem diferente das previsões. Lutando contra um intenso calor, a selecção inglesa sofreu a bom sofrer para vencer o Chile por 2-0 na sua estreia na "Copa", no Estádio do Maracanã. Ingleses que, refira-se, participavam pela primeira vez numa fase final de um Mundial. E como favorita que era à conquista do "caneco" poucos duvidavam que a Inglaterra não iria no segundo jogo do Mundial massacrar os amadores dos Estados Unidos da América.
Selecção americana que tinha apenas um jogador profissional, Ed McIlvenny. A crença na vitória fácil era tanta que o técnico inglês Arthur Drewry decidiu dar folga a vários dos seus principais jogadores.
Um desses jogadores que não participou no jogo foi o lendário Stanley Matthews, o que rendeu duras críticas a Drewry depois da derrota.
As equipas entraram em campo, e aos 39 minutos do 1º tempo um estudante, que trabalhava em meio período como lavador de pratos em Nova Iorque, produziu um dos resultados mais inesperados da história do futebol internacional. Joe Gaetjens, de seu nome, recebeu um passe de Walter Bahr e marcou o único golo da partida, garantindo a vitória dos Estados Unidos.
O resultado era considerado tão improvável pelos ingleses que uma casa de apostas de Londres ofereceu 500 para 1 às pessoas que apostassem nos americanos antes do jogo. História curiosa é, aliás, o facto de que quando o resultado foi conhecido em Inglaterra os súbitos de Sua Majestade pensarem de imediato que se trataria de um erro, e que o resultado não era 0-1 mas sim 10-1! Como estavam enganados...
48 anos depois desse jogo, o criador da jogada do golo, Walter Bahr, voltou ao "local do crime", por assim dizer, ao Estádio da Independência, onde confessou que «se a Inglaterra jogasse 10 vezes contra nós, naquela época, teria vencido nove vezes. Mas aquele jogo era nosso. O destino ficou do nosso lado. Os ingleses deveriam ter vencido, mas não marcaram nenhum golo, e à medida que o tempo passava, o nosso futebol foi melhorando. Os ingleses foram ficando em pânico... ».
Este resultado ainda hoje é considerado como a maior surpresa de todos os tempos no planeta da bola!
Porém, a impensável vitória sobre a Inglaterra foi recebida com indiferença nos Estados Unidos da América. Os americanos praticamente ignoravam que haviam vencido aquele jogo até a década de 70, altura em que Gaetjens já havia morrido.
O destino do autor do golo ainda hoje é um mistério. Joe Gaetjens era natural do Haiti, e suspeita-se que ele tenha sido morto a tiros na capital do país, Porto Príncipe, em 10 de Julho de 64.
Em 1976, o seu nome foi incluído no Hall da Fama do futebol americano. Aliás, nos primeiros dias de abertura deste Museu dedicámos já um "post" a este herói.
Recentemente, foi realizado um filme que retrata precisamente este momento histórico do futebol estado-unidense, intituldado de "The Game of Their Lives".
Apesar da vitória sobre a Inglaterra, os Estados Unidos terminaram em último no seu grupo na "Copa de 50", sendo eliminado do torneio juntamente com a Inglaterra e o Chile.
Depois da participação no Mundial do Brasil, os americanos demorariam 40 anos para voltar participar numa fase final de um Mundial, o que só ocorreu em 1990, no Mundial de Itália.
Para a história fica então a ficha técnica do grande momento da história do "soccer" norte-americano:
29 de Junho de 1950: Estádio Independência, Belo Horizante, Brasil. Assistência: 10 051 espectadores Árbitro: Generoso Dattilo, de Italia
Estados Unidos (1): Frank Borghi, Harry Keough, Joe Maca, Ed McIlvenny (c), Charlie Colombo, Walter Bahr, Frank Wallace, Gino Pariani, Joe Gaetjens, John Souza, Ed Souza. Treinador: Bill Jeffrey
Inglaterra (0): Bert Williams, Alf Ramsey, John Aston, Tommy Wright, Laurie Hughes, Jimmy Dickinson, Thomas Finney, Stanley Mortensen,
Roy Bentley, Wilf Mannion, Jimmy Mullen. Treinador: Walter Winterbott
Marcador: Joe Gaetjens (39’)


Legendas das fotografias:

1- "Onze" dos EUA no célebre jogo de 50 diante da poderosa equipa inglesa: Em cima (da esquerda para a direita): Walter J Geisler,Joseph A Maca,Charles M Colombo,Frank C Borghi,Harry J Keough,Walter A Bahr,Coach William"Bill"Jeffrey. Em baixo (também da esquerda para a direita):
Frank Wallace, Edward J McIlvenny, Virginio P Pariani, Josrph N Gaetjens, John B Sosa, Edward N Sosa.

2- Capitães dos dois conjuntos cumprimentam-se antes do início do jogo.

3- Joe Gaetjens é levado em ombros após o apito final do árbitro.

4- Walter Bahr, o autor do centro para o golo de Gaetjens.

 NOTA: Texto escrito em 20 de Abril de 2007 no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

Uruguai - Argentina (4-2)... 1930

Entrem senhores visitantes. Fiquem à vontade e disfrutem ao máximo de mais uma deliciosa memória do não menos delicioso mundo da bola. Hoje vamos fazer uma viagem até ao saudoso ano de 1930. Ano este em que teve lugar no Uruguai o primeiro Campeonato do Mundo de Futebol da FIFA, como se devem recordar.
A final desta competição foi decididida em Montevidéu entre os vizinhos, e eternos rivais, Uruguai e Argentina. Duas equipas que dois anos antes se haviam defrontado na final dos Jogos Olímpicos de Amesterdão, tendo a vitória sorrido aos primeiros por 2-1.
A Argentina procurava por isso uma desforra. Mas a tarefa não era fácil, já que pela frente tinha a melhor selecção do Mundo daquela época. Para chegar à grande final argentinos e uruguaios derrotaram por igual score (6-1) os Estados Unidos da América e a Jugoslávia, respectivamente. Nos dias que antecederam a final as cidades de Montevidéu e Buenos Aires viviam, pensavam e respiravam futebol. Na capital argentina milhares de adeptos levaram a cabo um autêntico motim exigindo mais barcos para atravessar o Rio da Prata (river plate) até Montevidéu para assistir à decisão das decisões. E nesta última cidade a confusão era ainda maior. Hotéis lotados, bilhetes na mão de candongueiros, discussões e até cenas de pancadaria surgiam aqui e ali. Tudo por um lugar nas bancadas do então recém construído Estádio Centenário. Recinto que no dia da final teve as suas bancadas completamente esgotadas. 80 mil pessoas presenciaram o nascimento da história dos Mundiais.
As equipas entram em campo recheadas das grandes estrelas do futebol mundial da altura. Nasazzi, Andrade, Scarone, Castro e Cea pelo lado uruguaio, Monti, Peucelle e Stabile do lado argentino eram nomes falados mundialmente pelas suas enormes qualidades futebolísticas.
O espectáculo estava garantido. Na escolha de campo os dois capitães discutiam. O uruguaio queria jogar com uma bola feita em seu país. O argentino, com uma bola feita Argentina. O árbitro belga, Langenus, decidiu: no 1º tempo joga-se com a bola argentina e no 2º com a bola uruguaia.
Com a bola argentina, os uruguaios conseguiram o primeiro golo, aos 12 minutos, marcado por Dorado. Oito minutos depois, Peucelle empatou. Aos 37 minutos, Stabile, o artilheiro do campeonato, marcou o segundo tento argentino. E a 1ª parte chegou ao fim com os argentinos a vencer por 2-1. Foi espantosa a reacção uruguaia na etapa complementar, jogando com a bola feita em casa. Aos 12 minutos, Cea empatou. Aos 23, num remate de fora da área, Iriarte pôs o Uruguai em vantagem. O país vivia momentos de sofrida espera quando, num contra-ataque. Dorado centrou da direita, pelo alto, e Castro com uma cabeçada fulminante mandou a bola para o fundo das redes. Era o quarto golo. Um minuto depois, o jogo acabava.

E o Uruguai era assim o primeiro CAMPEÃO DO MUNDO da história.
No Estádio Centenário sob a arbitragem do belga John Langenus as equipas alinharam com:
Uruguai: Ballesteros, Nasazzi, Mascheroni, Andrade, Fernandez, Gestido, Dorado, Scarone, Castro, Cea, Iriarte.
Argentina: Botasso, Della Torre, Paternoster, J.Evaristo, Monti, Suarez, Peucelle, Varallo, Stabile, Ferreira, M.Evaristo.
Marcadores: Dorado(12);Peucelle(20); Stábile(37);Cea(57);Iriarte(68);Castro(90).

Legendas das fotografias:

1- Capitães das duas equipas cumprimenta-se sob o olhar do árbitro belga Langenus
2- O "onze" uruguaio que entrou para a história...
3- A equipa da Argentina
4- Um dos golos uruguaios na grande final
5- O belo Estádio Centenário no dia da final... a arrebentar pelas costuras

NOTA: Texto escrito em 4 de Outubro de 2007 no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

Inglaterra - Hungria (3-6)... 1953

Quando se fala em “tragédias do futebol” 1950 e 1953 são anos que os adeptos ingleses jamais irão apagar das suas memórias. O primeiro refere-se à maior surpresa de todos os tempos do futebol mundial, ano em que os amadores dos Estados Unidos da América derrotaram a armada britânica por 1-0 num jogo referente ao Campeonato do Mundo de 1950, que decorreu no Brasil (ver post Grandes Clássicos da Bola (1) de Abril passado).
O segundo faz alusão à derrota mais humilhante, até aos dias de hoje, em nossa opinião, que os ingleses tiveram no “Templo Sagrado do Futebol”, vulgo o Estádio de Wembley. Um facto ocorrido no dia 25 de Novembro de 53 e foi protagonziado por uma das mais brilhantes equipas que o Mundo já viu actuar, a Hungria (da década de 50), selecção que ficou imortalizada como os “Mágicos Magiares”.
Hungria que era tida na época como a melhor selecção da Europa. Treinada por Gustáv Sebes a equipa tinha jogadores como Ferenc Puskás, Zoltán Czibor, Sándor Kocsis, Nándor Hidegkuti, József Bozsik e Gyula Grosics, um conjunto que esteve imbatível durante 32 jogos consecutivos, um recorde que ainda permanece até hoje entre selecções. Um dos pontos altos desta brilhante equipa foi atingido em 1952, ano em que se sagraram Campeões Olímpicos (nos Jogos Olímpicos de Helsínquia). Na sequência desse triunfo o secretário-geral da FA (Federação Inglesa de Futebol), Stanley Rous (que mais tarde seria presidente da FIFA) convidou os magiares para um jogo amigável em Wembley diante da Inglaterra.
E em boa hora o fez, isto é, para os amantes do belo futebol, pois a Hungria realizou uma exibição maravilhosa derrotando os ingleses por claros 6-3! Inglaterra que, diga-se em abono da verdade, tinha igualmente uma equipa de luxo, com estrelas como Stanley Matthews, Stan Mortensen, Billy Wright, ou Alf Ramsey.
Na relva sagrada de Wembley Hidegkuti marcou por três vezes e Puskás por duas.
Uma tarde mágica que ficou eternizada no belo templo do futebol planetário.
Ficha do jogo
Estádio de Wembley, 25 de Novembro de 1953
Assistência: 100 000 espectatores
Árbitro: Leo Horn (Holanda)
Marcadores:
Inglaterra-3: 13' Jackie Sewell 1-1; 38' Stanley Mortensen 2-4; e 57' Alf Ramsey 3-6
Hungria-6: 1' Hidegkuti 0-1; 20' Hidegkuti 1-2; 24' Puskás 1-3; 27' Puskás 1-4; 50' Bozsik 2-5, e 53' Hidegkuti 2-6.
Inglaterra: Gil Merrick, Alf Ramsey, Bill Eckersley, Billy Wright (c), Harry Johnston, Jimmy Dickinson, Stanley Matthews, Ernie Taylor, Stan Mortensen, Jackie Sewell e George Robb. Treinador: Walter Winterbottom
Hungria: Gyula Grosics (substítuido aos 76 m.por Sándor Gellér), Jenő Buzánszky, Mihály Lantos, József Bozsik, Gyula Lóránt, József Zakariás, László Budai, Sándor Kocsis, Nándor Hidegkuti, Ferenc Puskás e Zoltán Czibor. Treinador: Gusztáv Sebes
Legendas das fotografias:
1- As duas equipas entrando no relvado sagrado de Wembley
2- O cumprimentos dos dois capitães antes do apito inicial
3- O húngaro Puskas, também conhecido como o "Major Galopante", um dos maiores futebolistas de todos os tempos
 
NOTA: Texto escrito em 18 de Dezembro de 2007 no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

Itália-Brasil (3-2)... 1982

Apesar de belo e apaixonante o futebol é tudo menos um jogo onde o conceito de justiça nem sempre tem lugar reservado. Ou seja, muitas das vezes nem sempre vence quem fez por o merecer, quem lutou mais para alcançar o triunfo, o que leva muita gente a proferir o chavão de que "o futebol é por vezes muito injusto".
E hoje vamos recordar uma das maiores injustiças futebolísticas de que há memória. Vamos por isso fazer uma viagem até 1982, mais precisamente ao Campeonato do Mundo da FIFA, que nesse ano decorreu em Espanha. Um Mundial que desde o seu começo estava destinado a ser conquistado por uma selecção, uma mágica equipa que dava pelo nome de Brasil, o conjunto que encantou o Mundo com o seu belo futebol. Dizem os experts da bola que a par da selecção canarinha campeã do Mundo em 1970, a qual era integrada por lendas como Pelé, Jairzinho, Tostão, Rivelino, ou Carlos Alberto, a equipa de 1982 é a melhor de sempre do país do samba. Uma equipa orientada pelo mestre Telê Santana, um dos técnicos mais carismáticos de todos os tempos no Brasil, a qual tinha jogadores como Falcão, Júnior, Cerezo, Éder, Sócrates, Luizinho, e o mago Zico. Poucos eram aqueles que duvidavam que esta equipa seria a campeã do Mundo de 1982, não só pelo seu poderio e charme futebolístico como também pelo facto de que os grandes opositores dos brasileiros ao título mundial estavam a desiludir em terras castelhanas.
No entanto, nesse ano ficou provado que no futebol nada é certo por antecipação, ou seja, que é preciso esperar pelo apito final do árbitro para se ter certezas do que quer que seja. E exemplo disso foi o que se passou na tarde escaldante de 5 de Julho de 1982, tendo como cenário o já demolido Estádio de Sarriá, em Barcelona, palco onde se defrontavam Brasil e Itália, um jogo a contar para a 3ª e última jornada do Grupo C da 2ª fase da competição. Aos brasileiros bastava um empate para se qualificarem para as meias-finais, ao passo que os transalpinos teriam forçosamente de vencer para seguirem em frente. A tarefa da Itália não era nada fácil, muito pelo contrário, não só porque defrontava a melhor equipa desse Mundial, e quiçá do Mundo inteiro daquela época, mas também porque havia realizado uma primeira fase miserável, cedendo três empates escandalosos contra equipas de pequena/média dimensão internacional, casos do Perú, Camarões e Polónia.
O Sarriá apresentava-se cheio como um ovo, na espectativa de ver mais um recital de bola protagonizado pelos canarinhos. As equipas entram em campo, a bola começa a rolar e para surpresa geral os italianos adiantam-se no marcador quando estavam decorridos apenas cinco minutos por intermédio de um avançado que até então tinha praticamente passado despercebido nos relvados espanhóis, de seu nome Paolo Rossi.
O Brasil puxa então dos seus galões e aos 12 minutos iguala o marcador, através do genial Sócrates. A partida estava animada, jogada a um ritmo diabólico. Ao minuto 23 Rossi silencia de novo o Sarriá, fazendo o 2-1 para a Itália, resultado com que se atingiu o intervalo.
Com um futebol jogado ao ritmo do samba o Brasil empata de novo aos 23 minutos da etapa complementar, por intermédio de Falcão, e poucos julgavam que os canarinhos não estivessem nas meias-finais. Contudo, um endiabrado Paolo Rossi tratou de protagonizar umas das maiores surpresas, e porque não dizê-lo injustiças, da história do futebol, quando aos 76 minutos bateu pela terceira vez naquela tarde o guadião Wladir Peres e carimbou o passaporte da azzurra para as semi-finais do Mundial ao fazer o 3-2 final. Italianos que viriam a sagrar-se mais tarde campeões do Mundo, após vencerem em Madrid a Alemenha Ocidental por 3-1. Nos escritos históricos da FIFA quando se fala nesse célebre jogo entre brasileiros e transalpinos pode lêr-se a seguinte frase: "Brasil brilha, mas Rossi ganha o ouro para a Itália". A melhor selecção do Mundo perdia com aquela que iria ficar com o troféu na final contra todas as previsões. A partida, é ainda hoje uma das mais vivas na memória desportiva brasileira, ficando conhecida como a "Tragédia do Sarriá".

Ficha do Jogo
Jogo disputado no Estádio Sarriá, em Barcelona, em 5/7/1982
Assistência: 44 000 espectadores
Árbitro: Abraham Klein (Israel)
Itália: Zoff, Gentile, Cabrini, Collovati (Bergomi), Scirea, Tardelli (Marini), Antognoni, Oriali, Conti, Paolo Rossi, Graziani. Treinador: Enzo Bearzot.
Brasil: Waldir Peres, Leandro, Oscar, Luizinho, Júnior, Cerezo, Falcão, Zico, Serginho (Paulo Isidoro), Sócrates, Éder. Treinador: Telê Santana.
Golos: Paolo Rossi (5', 25', 74'), Sócrates (12') e Falcão (68').
Legenda das fotografias:
1- Paolo Rossi na condição da bola perseguido por Júnior
2- A mágica selecção do Brasil
3- A equipa italiana
4- Zico é marcado por Gentile
 
NOTA: Texto escrito em 19 de Março de 2008 no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

Real Madrid - Eintracht Frankfurt (7-3)... 1960

É considerado por muitos especialistas na matéria como o maior clássico de todos os tempos das finais da Taça/Liga dos Campeões. “Espectacular” chega a ser uma palavra demasiado modesta para caracterizar a partida épica protagonizada por Real Madrid e Eintracht Frankfurt no jogo decisivo da Taça dos Clubes Campeões Europeus (TCCE) referente à temporada de 59/60. Realizado no dia 18 de Maio de 1960 este jogo fez história não só pela sua – para lá de - espectacularidade mas igualmente porque nele foram estabelecidos alguns recordes em finais da prova rainha do futebol europeu que ainda hoje prevalecem intocáveis. Desde logo a moldura humana presente no Hampden Park, de Glasgow (Escócia), o palco desta final: aproximadamente 130 mil almas lotaram por completo o santuário do futebol escocês. Recorde foi também o número de golos marcados: 10 (!), 7 para o Real Madrid e 3 para o Eintracht.
Espanhóis que face a esta incrível e inesquecível vitória por 7-3 conquistariam a sua quinta TCCE consecutiva, prova clara de que na altura a sua supremacia no futebol europeu era por mais do que evidente. Para – mais - este triunfo muito contribuiram as fenomenais exibições das estrelas-mor madrilenas: Puskas, Di Stefano, Gento, e Del Sol.
No entanto, «o Eintracht começou melhor e dominou os primeiros 25 minutos. E seria sem surpresa que
inaugurou o marcador à passagem do minuto 18, por intermédio de Kreß. O 2-0 esteve à vista, mas foi o Real Madrid a chegar ao empate aos 27 minutos, pelo mago Di Stefano. O argentino-espanhol aproveitou a desorientação alemã e fez o 2-1 dois minutos depois. Quando o resultado ao intervalo parecia feito, Puskas fez o 3-1 em cima do apito e mostrou o que estava para vir na segunda parte. O “Major Galopante” marcou mais três golos consecutivos e decidiu o encontro. O 4-1 surgiu aos 56, na marcação de
uma grande penalidade. Mais dois golos aos 60 e 70 minutos e o húngaro fechou a sua conta pessoal. Com 6-1 no marcador, o Eintracht não desanimou e dedicou-se a aproveitar a oportunidade de estar naquele palco. Aos 72 minutos, Stein reduziu para 2-6.
No minuto seguinte Di Stefano fez o seu terceiro golo e aumentou para 7-2. Mais dois minutos passaram e Stein bisou. Até final muitas mais oportunidades houve, para ambos os lados, impedindo os espectadores de irem mais cedo para casa. Mas o 7-3 manteve-se, honrando vencedores e vencidos».
Anos mais tarde outra lenda do futebol mundial, de seu nome Bobby Charlton, resumiria assim o épico desafio: “O meu primeiro pensamento foi que este jogo era uma mentira, um filme, porque estes jogadores fizeram coisas que não são possíveis, não são reais, não são humanas!”
Ficha do jogo:
Estádio: Hampden Park, Glasgow.
Espectadores: 127.621
Árbitro: Mowat, da Escócia.
Real Madrid: Dominguez; Marquitos e Pachin; Vidal, Santamaria e Zarraga; Canario, Del Sol, Di Stefano, Puskas e Gento.
Eintracht Frankfurt: Loy; Lutz e Höfer; Weilbächer, Eigenbrodt e Stinka; Kreß, Lindner, Stein, Pfaff e Meier.
Golos: 0-1, Kreß (18m); 1-1, Di Stefano (27m); 2-1, Di Stefano (29m); 3-1, Puskas (45m); 4-1, Puskas (56m, g.p.); 5-1, Puskas (60m); 6-1, Puskas (70m); 6-2, Stein (72m); 7-2, Di Stefano (73m); 7-3, Stein (75m).

Legenda das fotografias:
1- Cartaz oficial da final
2- Puskas marca mais um golo para o Real Madrid
3- Abraço das duas grandes estrelas "blancas": Di Stefano e Puskas

 
NOTA: Texto escrito em 10 de Julho de 2009 no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

FC Porto - Arsenal (3-2)... 1948

Pode ter sido um mero jogo de carácter particular mas ainda hoje é encarado para os “historiadores” do futebol como uma das vitórias mais brilhantes de uma equipa portuguesa sobre uma sua congénere internacional. É uma partida carregada de um simbolismo enorme, em especial para o emblema que a conquistou, o Futebol Clube do Porto, já que foi obtida sobre aquela que na época era tão só considerada a melhor equipa do Mundo, o Arsenal Football Club.
Foi a vitória do pequeno e frágil “David” contra o todo poderoso e assustador “Golias” numa altura em que o desporto-rei vivia ainda muito longe do mediatismo e profissionalismo que ostenta hoje em dia.
Viajemos então até ao ano de 1948, mais em concreto até 6 de Maio, dia em que Cidade do Porto estava em festa pois o seu clube mais representativo recebia nada mais nada menos do que a equipa que os críticos da modalidade consideravam ser a mais perfeita do Mundo sob todos os aspectos. Tanto é que assim que foi anunciada, meses antes, esta partida suscitou de imediato um interesse desmedido na população portuense. O caso não era para menos, a melhor equipa do Mundo da altura, oriunda do país que inventou o futebol (Inglaterra) estaria de visita à humilde Cidade do Porto.
Desde logo se fizeram previsões de que os amadores do FC Porto não teriam a mínina das hipóteses em levar de vencido um conjunto que era composto por alguns dos melhores jogadores do planeta.
Dizer em jeito de nota que a visita do Arsenal a Portugal foi inserida numa digressão – até chegar ao nosso país 100% vitoriosa - que a turma britânica efectuou por diversos países da Europa naquele ano.
E chegavamos ao grande dia, o saudoso Estádio do Lima foi o palco para levar à cena este “bailado futebolístico”. Contra todas as previsões a equipa da casa “agigantou-se ao gigante” londrino. Perdeu o medo, e avançou para uma das exibições mais brilhantes de que há memória da sua história centenária.
A marcha do marcador não podia ser mais explicita do domínio avassalador que a então desconhecida – em termos internacionais – equipa portuguesa exercia sobre os afamados craques do Arsenal. Aos 20 minutos de jogo o Porto já vencia por 3-0!!! Há dias descobri num “baú virtual” de histórias futebolísiticas a narrativa dos três golos azuis-e-brancos. Não resisti a trazê-los aqui para enirquecer ainda mais um pedaço de história só por si rico de natureza. Aqui vai:
1-0 AOS 9 MINUTOS por ARAÚJO
Gastão abriu para Joaquim que endossou a Araújo. A cerca de 30 metros rematou com impécavel direcção, indo a bola entrar no ângulo superior esquerdo, depois de tabelar no poste.
2-0 AOS 18 MINUTOS por CORREIA DIAS
Joaquim abriu em profundidade para Lourenço seguindo a bola para Araújo que com um leve toque a colocou em Correia Dias rematando a meia altura sem possibilidade de defesa.
3-0 AOS 20 MINUTOS por CORREIA DIAS
Triangulação entre Gastão ,Joaquim e Araújo foi inteligentemente aproveitada para atrair a si a defesa. No momento preciso um passe para Correia Dias que marca o golo.
O Arsenal ainda reduziria a desvantagem para 2-3, mas insuficiente para tirar o mérito e o brilho da vitória aos jogadores do FC Porto. Um resultado e sobretudo uma exibição portista que todos aqueles que lotaram por completo o desaparecido Estádio do Lima jamais esqueceram. De tal modo que desde logo uma comissão de sócios e admiradores do FC Porto tratou de angariar fundos para presentear o clube da Invicta com um troféu alusivo a essa histórica vitória. Concepcioando pela Orivesaria Aliança, na sequência de um esboço dos escultores Marinho Brito e Albano França, este é sem margem para dúvidas um dos troféus mais bonitos e imponentes que figuram nas vitrinas do FC Porto.
Mais do que a celebração de uma vitória histórica simboliza o espírito apaixonado e o orgulho (no seu clube) de um grupo de adeptos do emblema portista.
A bonita peça foi entregue à Direcção do clube a 21 de Outubro de 1949, mais de um ano depois do jogo. Para a concepção deste troféu (mais tarde baptizado como Taça Arsenal), foram utilizados diversos materiais, entre outros, ouro, prata, esmalte, cristal, madeira fina e veludo. Pesa 300 quilos e inclui 130 quilos de prata.
Uma bela obra de arte nascida de uma não menos bela vitória do seguinte onze do FC Porto: Barrigana, Alfredo Pais, Francisco, Virgílio, Romão, Joaquim, Lourenço, Araújo, Correia Dias, Gastão e Catolino. Treinador: Vachetto.

Nota: Texto escrito em 26 de Novembro de 2009 no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Espanha - Itália

Os célebres duelos travados ao longo de décadas fazem com que hoje sejam encarados como verdadeiros clássicos. Daqueles jogos emblemáticos que enfeitam qualquer Campeonato do Mundo ou da Europa. A partir de hoje vamos então desfiar um pouco do novelo dos grandes clássicos que tiveram lugar nas duas maiores competições de futebol do planeta, começando esta nossa viagem no tempo pela sempre escaldante batalha entre Espanha e Itália.
Dois países que já se defrontaram nos relvados por mais em mais de uma vintena de ocasiões, contudo em jogos a doer, isto é, em palcos de fases finais de Mundiais e Europeus somente por cinco vezes o fizeram.

1934
A primeira delas foi talvez a mais épica, traduzida numa dura batalha lavrada em dois atos levados à cena em Florença, em 1934. Foi o ano em que a Itália organizou a segunda edição do Mundial da FIFA, um campeonato manchado pelo fascismo de Benito Mussolini. Para muitos este foi o Mundial da vergonha, da falta de verdade desportiva em grande parte dos jogos, em especial os da equipa da casa, a qual seria à vista de todos levada ao colo até ao título. Em 1934 o fascismo venceu... e não o futebol como teria razão de ser. Exemplos puros da falta de ética desportiva foram os confrontos entre espanhóis e italianos nos quartos-de-final da prova.
Em 31 de Maio desse longínquo ano subiram ao relvado do Estádio de Florença alguns homens que mais tarde haveriam de se tornar mitos do belo jogo, casos de Meazza, Schiavio, Combi, ou Zamora. Debaixo de um calor tórrido 38.000 almas assistiram a uma luta diabólica de 120 minutos entre duas das maiores potências futebolísticas da altura. Duas horas de futebol de um tremendo desgaste físico que em diversas ocasiões atingiu o limite das forças humanas. E assim o foi não só pela entrega apaixonada com que os atletas de ambas as selecções tiveram ao longo do jogo mas sobretudo pela violência extrema que nele vigorou. Em particular por parte dos italianos para quem tudo valia para travar os seus rivais, desde entradas violentíssimas, pontapés, ou socos. Tudo nas barbas do complacente árbitro belga Baert que fazia vista grossa aos bárbaros ataques dos italianos aos espanhóis. Apesar do massacre de que estava a ser alvo a Espanha inaugurou o marcador, por intermédio de Regueiro, aos 31 minutos. Ferrari igualaria aos 45 minutos, num lance irregular, já que o mítico guardião Zamora foi agarrado por um jogador da casa e desta forma impedido de disputar o lance. Roubo, gritaram os espanhóis, um grito de revolta que de nada valeria, pois Baert mais uma vez faria vista grossa e permitia à Itália ter uma nova oportunidade no dia seguinte de passar às meias-finais. Sim, porque no final dos 120 minutos o resultado teimosamente permanecia numa injusta – para “nuestros hermanos, não só pela superioridade patenteada como também pela actuação tendenciosa do juíz da partida – igualdade a um golo.
Como na época as grandes penalidades ainda não vigoravam como sistema de desempate marcou-se novo duelo para o dia seguinte. A violência da véspera tinha deixado profundas marcas nos dois combinados, em especial para o lado da Espanha que viu sete (!) dos seus craques impedidos – por lesão – de dar novo contributo à equipa, entre outros o “divino” Zamora. Mesmo assim as suas reservas voltaram a resistir heroicamente não só a mais uma sessão de pugilato por parte dos italianos como igualmente a uma actuação tendenciosa do árbitro. Neste último ponto há a sublinhar que se Baert prejudicou seriamente a Espanha o suíço Rene Mercet fê-lo a triplicar na partida de desempate. Mercet deu à Itália o passaporte para a fase seguinte, ignorando a violência de italianos, em especial de Monti que enviou o extremo da “roja” Bosh mais cedo para os balneários na sequência de uma monumental agressão a pontapé, e na anulação de dois golos limpos da seleção espanhola. Giuseppe Meazza como não quer a coisa apontou o único golo desta partida (aos 12 minutos) e a Itália seguia de forma rídicula para a meia-final. Aquando do seu regresso à Suíça Mercet foi irradeado pela federação de futebol deste país. Outra coisa não seria de esperar de um país que sempre se definiu em tudo como... neutral.

1980
Seria preciso esperar 46 anos para ver novamente Espanha e Itália esgrimirem argumentos em campo numa partida de uma fase final de uma grande competição. Tal facto ocorreu em 1980, e mais uma vez em solo transalpino, desta feita em Milão, num encontro da 1ª fase do Campeonato da Europa. Bem mais calmas do que em 34 as duas equipas empataram a zero no jogo de estreia do grupo B da fase final do Euro. Competição onde seriam os italianos a cavalgar mais além, já que chegariam às meias-finais, ao passo que a Espanha ficaria pela 1ª fase. Um Europeu onde a República Federal da Alemanha faria a festa final com a conquista do seu segundo ceptro continental.

1988
E foi de novo numa fase final de um Europeu que os dois velhos inimigos se voltariam a cruzar, desta feita na Alemanha, mais concretamente em Frankfurt no dia 14 de Junho de 1988. Ambos lutavam por um lugar nas meias-finais do Euro 88, vindo os dois combinados de bons resultados na 1ª jornada do grupo A da citada competição. A Espanha havia saído de uma vitória sobre a Dinamarca (3-2) ao passo que a “squadra azzurra” havia empatado com a poderosa equipa da casa a uma bola. Poderosa era também a Itália daquela altura, que se apresentava no Euro com um misto de experiência (Bergomi, Baresi, e Altobelli) e juventude (Maldini, Vialli, e Mancini). Uma senhora seleção. Na Espanha começava a despontar a “Quinta del Buitre” formada por notáveis jogadores como Butragueño, Michel, Zubizarreta, Bakero ou Julio Salinas. Num encontro equilibrado Gianluca Vialli... desequilibrou. Estavam decorridos 73 minutos quando o então avançado da Sampdória fez o único golo do jogo e deu os dois pontos à sua seleção. Esta derrota seria fatal para a Espanha, equipa que no derradeiro jogo do grupo perdeu com a Alemanha e ficou arredada da fase seguinte. A Itália essa ficaria-se pelas meias-finais caindo aos pés de uma forte União Soviética. A Holanda de Van Basten e Gullit venceria a competição.

1994
Após dois confrontos pacíficos, de certa forma, o sangue voltou a ser derramado num Espanha – Itália. Cenário traçado em Boston, nos Estados Unidos da América, durante o Mundial de 1994. Curiosamente, e tal como em 1934, este seria um duelo alusivo aos quartos-de-final do certame, e à semelhança do ocorrido nos anos 30 este seria igualmente um jogo marcado pelos nervos à flor da pele. Os agressores? Uma vez mais os transalpinos, ou melhor, o transalpino Mauro Tassotti. A cena fatal acontece já muito perto do fim do clássico, e numa altura em que a Espanha procurava com intensidade o empate a dois. A “fúria” (espanhola) beneficia de um pontapé de canto, e quando a bola pingava na área Tassotti dá uma cotovelda no rosto de Luis Enrique. Grande penalidade e consequente expulsão que o húngaro Sandor Puhl deixou passar em branco para espanto de todos os presentes no Estádio Foxboro naquela tarde de 9 de Julho. O agressor parece não entender – ou fingir não saber – o que se passa aquando da paragem do encontro, enquanto a vítima chora de raiva enquanto o sangue jorra pelo seu nariz. A Itália mais uma vez leva a melhor no que concerne a resultado final: 2-1, com golos dos Baggio (sem qualquer grau de parentesco entre si)... o Dino (aos 25 minutos) e o Roberto (aos 87), este último a grande estrela da “Azzurra” da época. Caminero marcara pelo caminho para a Espanha, quando o relógio registava 58 minutos.
O gozo – de mais uma vitória obtida – dos italianos sobre os velhos rivais terminaria dias mais tarde, altura em que sairam derrotados pelo Brasil na grande final do “USA 94”. Tassotti também não teve razões para voltar a sorrir, já que a agressão a Luis Enrique valeu-lhe a posterior suspensão de seis jogos.

2008
Já diz o ditado que “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, e à quinta foi de vez. A Espanha vencia a Itália pela primeira numa fase final de uma grande competição. Feito ocorrido há pouco mais de dois anos durante o Europeu organizado em conjunto pela Suíça e pela Áustria. E mais uma vez... nos quartos-de-final. Este jogo é encarado como a transição de poderes de um país para o outro. Por outras palavras, a Itália, campeã do Mundo em título (alcançado dois anos antes na Alemanha) apresenta-se neste Euro cansada e com um combinado muito perto da sua reforma, em contraste com uma jovem e excitante Espanha que dali para a frente iria dominar o planeta. O local da passagem de testemunho? O mítico Ernst Happel (também mundialmente conhecido como Estádio do Prater), em Viena. 22 de Junho foi a data da célebre cimeira latina.
Desde o apito inicial que os transalpinos esperavam um erro espanhol para chegar ao golo, enquanto a “armada espanhola” comandada pelo experiente técnico Luis Aragonés desenhava o seu jogo com passes curtos no seu meio-campo para ir ganhando metros até à baliza defendida pelo mago Buffon. Muito a custo a defesa “azzurra” foi sempre aguentando as investidas espanholas e só na segunda parte se assistiu a um verdadeiro lance de perigo da Itália junto da baliza contrária, o qual seria prontamente anulado pelo (já) lendário Casillas. A genial dupla de avançados da Espanha (Torres e Villa) estava presa à teia defensiva armada pelo treinador Donadoni pelo que o prolongamento chegou sem surpresa. Ai, ambos os conjuntos quiseram marcar, contudo a ansiedade aliada ao desgaste físico acabariam por aniquiliar os objetivos comuns. Seguiram-se as terríveis grandes penalidades para desempatar tudo. A lotaria saiu então à Espanha, que muito ficou a dever à inspiração do seu guardião Iker Casillas, o qual parou dois remates transalpinos. 4-2 no final, um resultado que ainda bafejado pela sorte dos penalties consolidou de vez a “armada espanhola” de Fernando “El niño” Torres, David Villa, Casillas, David Silva, Puyol, Xavi, e Fabregas como a nova potência do futebol. A prova dos nove seria tirada alguns dias depois, também no Ernst Happel, onde um tento solitário de Torres (ante a Alemanha) deu o segundo título europeu a “nuestros hermanos”.

2012

Tal como em 1934 o duelo entre italianos e espanhóis teve "dose dupla", ou seja, as duas equipas encontraram-se por duas ocasiões na mesma competição. Facto ocorrido no Euro 2012, disputado pela primeira vez no leste europeu, mais precisamente na Ucrânia e na Polónia. Espanha que partia para este Campeonato da Europa como a principal candidata à (re)conquista do título, não apenas porque era a detentora dos ceptros Europeu e Mundial, mas essencialmente porque continuava a ser a mais poderosa seleção do planeta. No entanto, a "máquina espanhola" seria travada no dia 10 de junho, em Gdansk (Polónia), quando no jogo inaugural do Grupo C do Euro 2012 a Itália ao realizar uma magnífica exibição
arrancou um empate a um golo, deixando no ar a ideia de que afinal o futebol da "roja" não era invencível. Di Natale, veterano goleador da Udinese, saltou do banco no início da 2ª parte para aos 60m colocar a armada espanhola em sentido, apontando o primeiro golo do encontro. A alegria transalpina durou apenas 4 minutos, já que o genial Cesc Fàbregas restabeleceria o empate na sequência de um passe magistral do não menos genial David Silva. As duas equipas voltariam a encontrar-se quase 3 semanas depois... na final desse Europeu. Kiev e o seu estádio olímpico acolheriam a grande final da competição, um duelo que pelo o que as duas equipas vinham fazendo se antevia equilibrado, mas tal previsão não viria a ser traduzida para a realidade. Exibindo o seu magistral futebol, o célebre "Tiki-taka", a Espanha arrasou por completo a Itália, ao construir uma pesada goleada de 4-0 (!) - a maior goleada numa final de um Campeonato da Europa - e renovar desta forma o título de "rainha da Europa". David Silva, Jordi Alba, Fernando Torres, e Juan Mata foram os autores dos golos da "roja" orientada por Vicente del Bosque. Ao revalidar o ceptro europeu os espanhóis faziam desde logo história no planeta da bola, pois tornavam-se na primeira seleção a ganhar 3 grandes competições planetárias consecutivas: Euro 2008, Mundial 2010, e Euro 2012. Para muitos a Espanha era de longe a melhor equipa da história do belo jogo (!), e jogadores como Casillas, Xavi, Xavi Alonzo, Iniesta, Sergio Ramos, Fàbregas, ou Torres, ascendiam definitivamente ao Olimpo dos Deuses do Futebol. (*)
(*) Texto atualizado em julho de 2012


Legenda das fotografias:

1- Duas lendas das balizas: Combi e Zamora. Os capitães de Itália e Espanha, respectivamente, apertam as mãos de forma amistosa antes do primeiro duelo da história entre ambas as seleções. O pior estava para acontecer nas horas que se seguiram no relvado de Florença.

2- O golo irregular da Itália no primeiro jogo com a Espanha em 1934. Ferrari marca mas Zamora é agarrado e impedido de disputar o lance.

3- A Itália sempre produziu grandes guarda-redes ao longo da sua história, nesta foto aparece Dino Zoff, o capitão e comandante da Azzurra no Euro 80

4- Novo duelo entre os velhos rivais, desta feita em Frankfurt, durante o Euro 88

5- Polémico seria também o jogo de 1994, a contar para o Mundial. Aqui o italiano Maldini luta pela posse do esférico com o espanhol Goikotxea.

6- A começo do reinado da Espanha no trono do futebol mundial é bem capaz de ter começado neste jogo do Euro 2008 contra a Itália.

7- Imagem da final do Euro 2012, onde a Espanha esmagou por completo a Itália

Nota: Texto escrito a 13 de outubro de 2010 (e atualizado em julho de 2012) no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

Inglaterra - Alemanha

Como diria o lendário Gary Lineker «o futebol é um jogo de 11 contra 11... mas no final ganha a Alamenha», um chavão que nem sempre teve contornos de veracidade no rescaldo dos intensos e empolgantes duelos travados pelos dois velhos inimigos... Inglaterra e Alemanha. Duas super-potências do futebol global que pelo seu próprio punho escreveram muitas das mais brilhantes páginas desta nobre modalidade ao longo de décadas. Ver um Inglaterra – Alemanha, ou vice-versa, na montra de uma grande competição é presenciar uma espécie de final antecipada, é o jogo grande dessa mesma competição, é um duelo de gigantes. Hoje vamos recordar os escaldantes e inolvidáveis embates entre britânicos e germânicos nos palcos dos dois maiores eventos de futebol do planeta, o Mundial e o Europeu.

1966
Quiseram os Deuses da bola que o primeiro embate dos dois gigantes tivesse como palco a catedral das catedrais do futebol, o Estádio de Wembley, em Londres.
E para dar mais brilho a este primeiro confronto nada melhor do que este ser jogado numa... final, o jogo decisivo do Campeonato do Mundo de 1966, o Mundial inglês em todos os sentidos.
Pela primeira e única vez na sua história – até à data – os súbitos de Sua Majestade organizavam o maior evento desportivo do planeta, sendo o título Mundial a meta exigida pelos apaixonados adeptos ingleses a Bobby Charlton e companhia.
Pois bem, entre altos e baixos patenteados ao longo do percurso o que é certo é que a Inglaterra estava no jogo decisivo do seu Mundial, e muitos terão pensado que o mais difícil estava feito, e que agora era só derrotar a não menos irregular – ao longo da prova – Alemanha Ocidental.
Um forte optimismo e um Wembley – com 93.000 almas, na sua esmagadora maioria britânicas – a fervilhar de entusiasmo eram teoricamente argumentos fortíssimos para coroar a Inglaterra como rainha do Mundo, mas, como dizem os mais antigos, da teoria à prática o caminho é longo e por vezes engandor, e a Alemanha entrou a matar, como se diz na gíria, tendo com naturalidade feito, ao minuto 12, o 1-0 por intermédio de Haller. E dizemos com naturalidade pois a equipa da casa entrou em campo num ritmo muito lento, perro, visivelmente desgastada pelo duro confronto das meias-finais mantido dias antes com Portugal de Eusébio e companhia.
Com o “tiro” de Haller Wembley socumbiu, gelou por completo, a barulheira entusiástica deu lugar ao silêncio... mas por pouco tempo. O homem que haveria de se tornar no herói desta memorável final, Geoff Hurst, faria o empate seis minutos depois, resgatando assim a euforia para Wembley.
Na 2ª parte o equilíbrio reinou no relvado sagrado da catedral naquela tarde de 30 de Julho de 1966, pese embora o maior poder de recuperação de esforço inglês se tivesse feito notar ao longo destes segundos 45 minutos. E mais do que notar transformou-se em actos concretos, o mesmo é dizer golos, já que aos 77 minutos Peters colocava pela primeira vez a selecção dos “3 leões” na frente.
Nesta altura Wembley transformou-se numa autêntica bomba relógio na sequência de uma enorme explosão de alegria. Entoavam-se cânticos aos novos campeões do Mundo. Mas... os alemães pareciam não ter gostado destes festejos antecipados e mesmo debilitados fisicamente conseguiam chegar à igualdade a um (!) minuto dos 90. Wembley gelou novamente perante o golo de Weber. Seguiu-se o prolongamento... onde o surreal aconteceu. Apesar de tudo mais frescos fisicamente os ingleses partiram para cima do exército alemão e aos 101 minutos Hurst envia a bola à parte inferior da trave da baliza alemã tendo esta pingado para o relvado junto da linha de golo. Foi golo, não foi? A dúvida tomou conta de Wembley. Depois de consultar o seu juíz de linha o suíço Dienst valida o golo perante a revolta dos alemães e a euforia dos ingleses.
O tento desanimou os visitantes, por assim dizer, que já na 2ª parte do tempo extra levaram a machadada final (aos 89 minutos) novamente por intermédio de Geoff Hurst, que assim se tornava no único jogador a fazer três golos numa final de Campeonato do Mundo. E mais do que isso a Inglaterra era Campeã Mundial. Tudo tinha assim acabado dentro do inicialmente previsto.

1970
Cidade de Leon, no México, 14 de Junho 1970, a República Federal da Alemanha tem uma oportunidade de ouro para vingar a derrota averbada quatro anos antes diante do velho inimigo britânico. O cenário de novo e escaldante duelo é novamente o Mundial de futebol, neste ano realizado no México. E escaldante em duplo significado, pois sobre Leon pairava um calor intenso e sufocante de... 46 graus!!! Como se já não bastasse terem de se superar ambos os conjuntos tinham também de lutar contra o calor, o qual seria o principal adversário de ambos.
O jogo foi por isso muito disputado e bastante duro sobre o aspecto físico. Mullery fez em cima do apito para o intervalo (45 minutos) o 1-0 para os campeões do Mundo em título, para depois aos cinco minutos da etapa complementar Peters aumentar para 2-0. Face às altas temperaturas que provocavam um claro desgaste nos jogadores em campo previa-se que ainda não era desta que os alemães iriam levar a melhor sobre os ingleses, mas mais uma vez as previsões falharam, e aos 23 minutos Beckenbauer reduziu, para depois Uwe Seeler empatar o jogo quando faltavam nove minutos para o final.
1966 voltava a repetir-se, Inglaterra e Alemanha iriam para prolongamento. Levariam novamente a melhor Bobby Charlton e companhia? O “bombardeiro” Gerd Muller respondeu que não, já que aos 108 minutos desfez a igualdade e colocava a sua equipa na meia-final. A vingança estava consumada. A aventura dos alemães no Mundial do México terminaria no jogo seguinte diante da Itália, numa meia-final electrizante e épica que foi concluida com um 4-3 a favor dos transalpinos.

1982
12 anos foram precisos para os dois velhos inimigos voltarem a esgrimir argumentos numa grande fase final. Tal aconteceu em Espanha, em 1982, e mais uma vez na fase final de um Campeonato do Mundo. Madrid, e o seu majestoso Santiago Bernabéu foram a 29 de Junho desse ano o palco da pobre cimeira futebolística. E pobre porque este foi talvez o duelo mais morno entre as duas selecções conforme traduz o nulo registado no final dos 90 minutos de um jogo alusivo à 1ª jornada do Grupo 2 da 2ª fase do citado Mundial. E não foi por falta de artistas que a contenda assim terminou, pois em campo estiveram naquela tarde alguns dos melhores futebolistas do planeta da época, casos dos alemães Karl-Heinz Rummenigge, Hrubesh, Uli Stielike, Paul Breitner, ou dos ingleses Peter Shilton, Bryan Robson, ou Kevin Keagan.
Num mini-grupo que era composto também pela Espanha seriam os alemães a chegar mais longe, e mais longe foi a final, onde à semelhança do ocorrido em 70, no México, ai na meia-final, tombariam aos pés da Itália.

1990
Mais uma vez com o cenário mais desejado como pano de fundo, o mesmo é dizer o Mundial, Alemanha e Inglaterra protagonizaram em solo italiano um dos clássicos mais intensos e de vencedor incerto da história. Turim e o seu Estádio dos Alpes testemunharam a 4 de Julho de 1990 este facto. Em jogo estava um lugar na final do Mundial 90, e quer de um lado quer do outro não faltavam estrelas capazes de colorir o céu da bela cidade italiana. Uma delas, Andy Brehme, fez aos 59 minutos o golo inaugural do jogo, para 21 minutos a estrela inglesa Gary Lineker repôr a igualdade com que se atingiu o término do tempo regulamentar.
Para não variar mais um prolongamento para decidir quem seguia em frente. Tempo extra que não deu em nada tendo então surgido a necessidade de se recorrer às sempre terríveis grandes penalidades. Aqui a lotaria saiu aos germânicos, muito por culpa dos falhanços de Stauart Pearce e Cris Waddle. De nada valeram as lágrimas de Paul Gascoigne, a Alemanha estava na final do Itália 90... onde iria sagrar-se pela terceira vez na sua história Campeã do Mundo (diante da Argentina).

1996
Depois de quatro confrontos em fases finais de Mundiais eis que Inglaterra e Alemanha esgrimiam argumentos pela primeira vez numa fase final de um Campeonato da Europa. E tal como 30 anos antes, aquando da estreia dos clássicos entre ambos, Wembley apadrinhou o “euro” duelo. Estreia era também o facto de a Inglaterra acolher um Europeu de futebol, pelo que tal como em 1966 os súbitos de Sua Majestade já sonhavam ver o capitão Tony Adams imitar Bobby Moore nesse célebre Mundial, ou seja, subir ao palanque real e erguer a Taça da Europa.
Contudo tal não aconteceu porque mais uma vez a lotaria das grandes penalidades saiu aos alemães depois de no tempo regulamentar se ter registado um empate a uma bola (Shearer marcou aos três minutos para a equipa da casa e Kuntz fez a igualdade ao minuto 16). No tiro ao alvo, isto é, nos penaltis, Southgate falhou o primeiro pontapé da segunda série (na primeira todas as grandes penalidades foram convertidas) e Andy Moller agradeceu fazendo o tento decisivo que colocava a Alemanha (unificada) na final. É caso para dizer que nunca a célebre frase proferida por Gary Lineker no final do Alemanha – Inglaterra de 1990 bateu tão certo... «o futebol é um jogo de 11 contra 11... e no final ganham os alemães». Pois é, e ganharam não só este duelo como também o Euro 96 (bateram na final a República Checa).

2000
Considerados como os grandes favoritos do Grupo A da fase final do Euro 2000 – realizado conjuntamente pela Holanda e Bélgica – Inglaterra e Alemanha subiram ao relvado do Estádio de Charleroi (Bélgica) a 17 de Junho desse ano numa fase conturbada das suas vidas. Por outras palavras, as suas equipas estavam numa profunda fase de remodelação, o que se vinha traduzindo em maus resultados ao longo dos últimos tempos, inclusive neste Euro, onde na 1ª jornada da fase de grupos a Alemanha não foi além de um sofrido empate com a Roménia, ao passo que a Inglaterra caiu aos pés de Portugal por 2-3.
Num jogo fraco levou melhor a Inglaterra, que depois de duas eliminações consecutivas aos pés dos velhos inimigos venceria por 1-0, graças a um tento do seu goleador Alan Shearer aos 53 minutos. Uma vitória que de nada serviu, já que uma humilhante derrota com a Roménia na última jornada atirou a selecção dos “3 leões” para fora do Euro 2000, fazendo assim companhia à velha e desgastada Alemanha de Matthaus, que saiu da competição vergada a uma pesada derrota (0-3) perante as reservas de Portugal!

2010
De novo na fase final de um Mundial, desta feita no primeiro certame deste calibre organizado por um país africano, neste caso a África do Sul, a Inglaterra sofreu a maior humilhação perante o velho inimigo. 4-1 (!) nos oitavos-de-final da competição mandou para casa mais cedo uma selecção que se auto-intitulava como candidata ao trono Mundial. Como estavam enganados! Thomas Muller por duas vezes, Klose, e Podolski fizeram os tentos germânicos, ao passo que o desolador golo solitário da Inglaterra coube ao defesa Upson. A saga alemã neste Mundial terminaria nas meias-finais diante da futura campeão do Mundo, a Espanha.

Nota: Texto escrito em 19 de Janeiro de 2011 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Alemanha - Holanda

Vizinhos, velhos inimigos, e responsáveis por alguns dos capítulos mais belos e emocionantes da história do futebol. Eis a Holanda e a Alemanha. Geograficamente situados na Europa Central - mais quilómetro menos quilómetro - estes dois países travaram ao longo da sua vida futebolística batalhas lendárias na tentativa de conquistar o trono do futebol continental... ou mundial. Responsáveis por esses intensos e memoráveis duelos foram guerreiros como Johan Cruyff, Marco Van Basten, Ruud Gullit, Krol, Neeskens, Dennis Bergkamp, Franz Beckenbauer, Gerd Muller, Karl-Heinz Rummenigge, Lothar Matthaus, Jurgen Klinsmann, Rudi Voller, entre muitos, muitos outros, que hoje figuram no pedastal desta apaixonante modalidade.
1974 marca o início dos confrontos em torneios de grandes dimensões, isto é, campeonatos do Mundo e da Europa, sendo que até aos dias de hoje estas duas seleções já mediram forças em oito ocasiões, com o saldo de triunfos a pender de forma destacada para os germânicos, que por quatro vezes festejaram a queda do seu inimigo, ao passo que este somente em dois encontros levou a melhor sobre um país que ostenta no currículo três títulos de campeão mundial e outros tantos de campeão europeu. No entanto há quem diga que o melhor futebol, o mais belo sob o ponto de vista técnico, foi (quase) sempre interpretado pelos mestres holandeses, mesmo não detendo estes o palmarés dos seus vizinhos, já que conquistaram apenas um Europeu na sequência das várias fases finais em que participaram.
Em seguida passamos a recordar os inolvidáveis jogos proporcionados por duas das grandes seleções do planeta da bola.

1974
Foi talvez o ano de ouro do futebol holandês... mesmo não tendo alcançado a coroa do futebol planetário. A Holanda de 74 foi para muitos a melhor equipa da história do belo jogo, ao apresentar ao Mundo um estilo nunca dantes visto, que ficou eternizado como o "futebol total".
Controlando o jogo com toda a mestria através de uma avançada esquematização tática que revolucionou por completo a modalidade, esquematização essa interpretada por futebolistas de uma intelegência suprema e técnica exímia, a Holanda foi a grande equipa do Campeonato do Mundo que neste ano decorreu precisamente em solo alemão. A performance da "laranja mecânica" como ficou mundialmente conhecida essa célebre equipa orientada pelo mago Rinus Michels, (laranja pela cor das suas camisolas, e mecânica pelo estilo de jogo praticado) deu a conhecer ao Mundo o já referido "futebol total", um "carrossel" tático recheado de magia técnica onde todos os jogadores de campo (à excessão do guarda-redes) faziam todas as posições do terreno! Normal era por isso ver um defesa a finalizar um lance ofensivo, ou ver um avançado a desempenhar tarefas defensivas quando necessário. Esta liberdade criativa dentro de um campo de futebol maravilhou os amantes do futebol durante esse verão de 74, altura em que a antiga República Federal da Alemanha (RFA) organizava o certame máximo da FIFA. Mundial que a julgar pelo que se passava poucos duvidavam que seria conquistado pela mágica Holanda onde pontificava o astro Johan Cruyff, o mais fiel intérprete do inovador sistema criado por Rinus Michels. Vulgarizando adversários atrás de adversários, inclusive o Brasil, foi com naturalidade que os mestres holandeses chegaram à final do Mundial de 74, onde pela frente teriam nada mais nada menos do que a seleção da casa, a RFA. Ao contrários dos holandeses os alemães ocidentais sofreram bastante para chegar à final de Munique. Com exibições um tanto ao quanto pobres na 1ª fase do Mundial - onde se destaca a humilhante derrota ante os "irmãos" da República Democrática da Alemanha - os pupilos de Helmut Schon não foram poupados às críticas face a exibições menos conseguidas , mesmo tendo alcançado a "obrigatória" final.
E chegavamos ao dia 7 de julho de 1974, com o anfiteatro de Munique - o mesmo é dizer o Estádio Olímpico - completamente cheio. Favoritos à conquista da nova Taça FIFA? A Holanda, pois claro, a equipa cujo revolucionário "futebol total" havia encantado a multidão durante as últimas semanas. Para muitos derrotar aqueles mágicos holandeses era uma missão... impossível para qualquer equipa do Mundo. E o pontapé de saída do encontro foi dado precisamente pelos mestres holandeses. Meia dúzia de toques sublimes e... penalty! Sem sequer tocar no esférico a RFA entrava mal no jogo após o derrube de Berti Vogts a Cruyff dentro da área da casa, quando estava decorrido somente um minuto desde que o inglês John Taylor havia dado o apito inicial. Na conversão do castigo Neeskens fuzilou Sepp Maier e colocou a "laranja mecânica" na frente. Se à partida a tarefa germânica era complicada mais ainda ficava em face desta contrariedade inicial. Os holandeses ganharam confiança e durante os minutos que se seguiram subjugaram por completo os seus rivais. Contudo, a pouco e pouco, Franz Beckenbauer e seus pares foram reagindo, e ganhando fulgor. Impulsionados por Berti Vogts, o pulmão da equipa, os alemães aplicaram uma maior velocidade ao seu jogo, obrigando Cruyff a recuar para auxiliar a sua defesa. Estranhamente o "futebol total" estava a vergar face à frieza tática alemã. E aos 25 minutos aconteceu o que já se imaginava perante a postura evidenciada pelos alemães, o golo que fez explodir de alegria os adeptos da casa. Jansen derruba Holzenbein na grande área e o juíz não tem dúvidas em assinalar uma nova grande penalidade, desta feita a favor dos germânicos. Na conversão Paul Breitner fez o empate. A RFA estava agora por cima, e no terreno Cruyff e Vogts invertiam os papéis, agora era a vez do holandês fazer marcação cerrada ao alemão, contrariamente ao que se vira no início do duelo.
A avalanche alemã voltaria a dar frutos a dois minutos do intervalo, quando o "bombardeiro" Gerd Muller bateu Jongbloed e fez o 2-1. A Holanda estava desfeita, para surpresa de todos, e os seus jogadores com os nervos à flor da pele, com realce neste aspeto para os protestos desabridos de Cruyff junto do árbitro Taylor na saída para os balneários, que lhe valeria o cartão amarelo.
Na etapa final a Holanda deu tudo por tudo para virar o jogo, mas os seus ataques eram interpretados mais com o coração do que com a cabeça perante uma defesa alemã sóbria comandada pelo kaiser Beckenbauer. O "futebol total" caia agora em desespero, e mostrava sobretudo que no desporto rei não há equipas invencíveis, por mais talentosas e fortes que sejam. Quando Taylor apitou pela última vez o Estádio Olímpico explodiu de alegreia, a RFA tiha acabado de se sagrar campeão do Mundo pela segunda vez na sua história, e mais do que isso derrotado os vizinhos e mestres da Holanda.

1978
O segundo confronto entre as duas seleções voltou a acontecer na fase final de um Mundial, desta feita na Argentina, em 1978. Sem Cruyff, que por razões de ordem política - opunha-se ao regime fascista que vigorava naquele país sul americano - se recusou a representar a sua seleção, a Holanda foi quase como que uma cópia da equipa que quatro anos antes havia encantado o Mundo. Não estava o mago Cruyff mas estavam estrelas como Krol, Resenbrink, Neeskens, ou Rep que conheciam como ninguém a fórmula do "futebol total". Por seu turno a RFA tinha visto alguns dos ícones que a haviam levado ao trono quatro anos antes abandonarem o futebol, casos de Beckenbauer, Hoeness, Gerd Muller, ou Breitner. Era uma equipa em rejuvenescimento, onde aparecia agora um jovem prodígio chamado Karl-Heinz Rummenigge. Com algumas dificuldades surpreedentes alemães e holandeses passaram a primeira fase de grupos do Mundial argentino - os alemães empataram ante a modesta e estreante Tunísia, ao passo que os holandeses perderam com a também estreante Escócia - e encontraram-se na fase de grupos seguinte. Em Córdova, a 18 de julho, os alemães sairam na frente do marcador graças a um golo madrugador - aos três minutos - apontado por Abramczik. Numa partida de boa qualidade de futebol apresentado de parte a parte os holandeses chegariam à igualdade ainda no primeiro tempo, por intermédio de Haan, aos 27 minutos. Na segunda parte Dieter Muller recolocou os alemães em vantagem mas cair do pano Van Kerkhof fez o 2-2 final. Este foi um dos dois pontos alcançados pela RFA nesta segunda fase de grupos, tendo sido consequentemente eliminada. O grupo foi ganho pela Holanda, com 7 pontos, que avançava assim para a grande final do torneio... pela segunda vez consecutiva. Final onde seria derrotada novamente pela equipa da casa, a Argentina, por 1-3.

1980
Depois de dois confrontos em fases finais de Campeonatos do Mundo Holanda e Alemanha defrontaram-se na fase final de um Europeu. A cidade de Nápoles foi o palco deste duelo que integrava o Grupo 1 do Campeonato da Europa que nesse ano foi realizado em Itália. As duas equipas chegavam ao San Paolo vindas de duas vitórias na 1ª jornada da fase inicial, os alemães derrotavam os campeões europeus em título (Checoslováquia) por 1-0, ao passo que a laranja - já não tão mecânica como em 74 e 78 - vencia a estreante Grécia por um magro e sofrido 1-0. Krol e Rep eram os únicos sobreviventes do "carrossel" do "futebol total" holandês da década anterior, e deparavam-se agora com o peso da idade, ao passo que a RFA aparecia rejuvenscida e com um naipe de novos jogadores que interpretavam na perfeição a filosofia de jogo germânica. Rummenigge, a grande estrela da equipa, fazia-se acompanhar de fabulosos futebolistas como Allofs, Schuster, Stielike, ou Briegel.
Apesar de favorita a RFA viu-se em apuros para derrotar uma Holanda em reconstrução por 3-2, valendo e muito a inspiração do goleador Klaus Allofs, autor dos três tentos germânicos. Com este resultados a Holanda ficava praticamente de fora da grande final de Roma, e para não o fazer teria não só forçosamente de vencer a Checoslováquia como esperar um milagre, ou seja, que os alemães fossem derrotados pela frágil Grécia. O tal milagre acabou por não surgir, RFA e Holanda cederam empates antes os seus oponentes, e os alemães fizeram as malas para Roma, ao passo que os holandeses regressavam a casa. E na final a RFA batia a Bélgica por 2-1 e sagrava-se pela segunda vez na sua história campeã da Europa.

1988
A vingança holandesa surgiu em 1988, e com um sabor muito especial, pois foi conseguida no mesmo território onde em 1974 havia perdido a coroa que lhe estava justamente destinada. A RFA organizou o Campeonato da Europa de 88 e partia para a prova com sérias aspirações em alcançar o título e assim repetir a façanha de 1974, quando em casa venceu a competição que então estava em disputa, o Mundial. Por seu turno a Holanda voltava a ser orientada desde o banco pelo mestre Rinus Michels, que para este Europeu havia construído uma equipa soberba, onde pontificavam nomes como Marco van Basten, Rudd Gullit, ou Frank Rijkaard. Não era a super equipa de 74, é certo, mas tinha um toque especial, um toque de classe, como se viria a verificar. No Grupo 1 os germânicos ficaram em 1º lugar, levando a melhor sobre Itália, Espanha, e Dinamarca, ao passo que a Holanda apurava-se para as fase seguinte com algum sofrimento mercê de um triunfo magro (1-0) ante a surpreendente Irlanda no último e decisivo encontro da fase inicial. E eis que a 21 de junho desse ano Hamburgo serviu de palco para uma nova batalha entre os dois vizinhos. Assistiu-se, para não variar, a um duelo empolgante, de vencedor incógnito até ao apito final. Os alemães colocaram-se em vantagem após um golo do lendário capitão Lothar Matthaus, um médio ofensivo cuja criatividade não conhecia limites. Porém, do outro lado estava uma equipa recheada de qualidade, não sendo de estranhar que tomasse conta do jogo nos instantes finais do mesmo, tendo ai alcançado a glória... e a vingança. Primeiro pelo defesa Ronald Koeman, e depois pelo genial Marco Van Basten a Holanda bateu a RFA pela primeira vez na história no decorrer de uma competição oficial, e mais do que lograr alcançar a sua primeira final de um Euro vingou em difinitivo a amarga derrota de 74. E na final a nova "laranja mecânica", como ficaria conhecida, bateu por 2-0 a ex-União Soviética, vencendo assim o seu único título internacional até à data.

1990
O quinto duelo entre os dois países no seio de uma grande competição internacional coincidiu com o terceiro título de campeão do Mundo por parte da RFA. Curioso é que até aqui apenas em 1978 nenhuma destas seleções logrou chegar ao lugar mais alto do pódio após terem jogado entre si: em 74 os alemães venceram os holandeses na final do Mundial, em 80 sagraram-se bi-campeões europeus depois de na 1ª fase terem derrotados os seus rivais, ao passo que em 88 foi a vez da Holanda derrotar os panzers germânicos e alcançar a final do Euro que viria a vencer.
E em 90 a balança da vitória pendeu de novo para a RFA, que nos oitavos de final do Campeonato do Mundo realizado em Itália encontraria o velho inimigo. O mítico Estádio de San Siro, em Milão, foi o cenário desse duelo, desse triste duelo. Triste não pelo futebol praticado, até porque um encontro Holanda - Alemanha, ou vice versa, é sinónimo de espetáculo garantido, mas antes pelas cenas lamentáveis protagonizadas por dois dos mais valorosos e mediáticos jogadores de ambas as equipas: Voller (Alemanha) e Rijkaard (Holanda). O alemão cuspiu no holandês, recebendo de imediato ordem de expulsão, ao que este último em resposta agride o avançado germânico, acabando também expulso. E já com ambos fora do terreno assistiu-se a uma troca de cuspidelas entre os dois! Lamentável.
Orientada tecnicamente pelo homem que em 1974 ergueu na tribuna do Estádio Olímpico de Munique a Taça FIFA, Franz Beckenbauer, a RFA bateu na relva de San Siro os seus oponentes por 2-1, com golos do matador Klinsmann e do defesa goleador Andy Brehme, enquanto que o tento de uma laranja com pouco sumo - na fase de grupos a Holanda tinha registado três tristes empates - pertenceu ao pé canhão Ronald Koeman. A caminhada dos germânicos neste Mundial terminaria no dia 8 de julho desse ano, no Estádio Olímpico de Roma, onde vencendo a Argentina de Maradona e companhia, por 1-0, levariam para casa o terceiro título mundial. E para a eternidade ficavam nomes como Brehme, Klinsmann, Voller (pelos seus dotes futebolísticos, claro está, e não pela cena lamentável com Rijkaard), Hassler, Kohler, ou o genial capitão Matthaus.

1992
A Suécia recebeu no verão de 1992 a 8ª edição do Campeonato da Europa, onde as atenções dos amantes do futebol recaiam no Grupo 2 da fase final da competição, o grupo onde moravam Holanda e Alemanha (já unificada após a queda do muro de Berlim). O espetáculo estava garantido, ainda para mais pelo facto de ambos os países ostentarem os galões de campeões da Europa e do Mundo - respetivamente - em título. Ditou o sorteio que as duas seleções se enfrentassem no último jogo da fase de grupos, e mesmo com uma Holanda matematicamente qualificada para as meias finais e uma Alemanha muito perto de o fazer o duelo foi, como não podia deixar de ser, intenso e vibrante.
Tendo Gotemburgo como cenário a contenda sorriu aos laranjas, que ainda com grande parte da sua mítica e gloriosa equipa em atividade, o mesmo é dizer, com Gullit, Van Basten, Rijkaard, Koeman, ou Wouters em campo, destroçaram os rivais com um inquestionável triunfo por 3-1, com golos de Rijkaard, Rob Witschge, e de um jovem e promissor avançado que começava a surgir na alta roda do futebol internacional, de seu nome Dennis Bergkamp. Pelos germânicos Jurgen Klinsmann fez o gosto ao pé. Ambas as equipas teriam sortes distintas nas meias finais. Os holandeses, campeões em título, foram afastados nas grandes penalidades pela grande surpresa da competição, a Dinamarca, ao passo que os alemães bateram a equipa da casa por 3-2 e seguiram para o jogo decisivo. Ai, porém, provaram do mesmo veneno que tinha matado os vizinhos da Holanda, e a Dinamarca foi para espanto de todos campeã da Europa.

2004
Se até aqui os duelos entre a laranja e os panzers se realizam com bastante frequência nas grandes competições internacionais (as exceções aconteceram nos Mundias de 82 e 86, bem como nos Euro 76 e 84) o grande público adepto do fenómeno futebolístico teve de esperar 12 anos - entre 1992 e 2004 - para voltar a presenciar um duelo entre os dois velhos rivais. E tal aconteceu no Europeu realizado em Portugal, o célebre Euro vencido de forma mais do que surpreendente (!!!!) pela quase desconhecida Grécia. Com o Campeonato da Europa já disputado por 16 equipas Alemanha e Holanda ficaram integradas no Grupo D da competição, tendo como companhia a sempre perigosa República Checa e a frágil Letónia. Frágil aparentemente, pois os alemães não foram além de um nulo ante o combinado de leste! Mas antes desse triste resultado a equipa na altura orientada por Rudi Voller enfrentou na 1ª jornada a sua congénere holandesa, no Estádio do Dragão, no Porto. E depois de terem registado a primeira repartição de pontos em 1978, no Mundial da Argentina, os dois países voltaram a empatar, desta feita a um golo, tendo os alemães saído na frente por intermédio de Frings ainda durante a primeira parte, e o temível avançado Ruud van Nistelrooy reposto a igualdade já muito perto do apito final.
Posto isto a Alemanhã empatou com a Letónia e perdeu com os checos, dizendo adeus ao Euro luso, ao passo que os holandeses foram um pouco mais longe, até às meias finais, onde tomabriam diante da equipa da casa, Portugal.

2012
No primeiro Euro realizado na Europa de leste, mais precisamente na Ucrânia e na Polónia, holandeses e alemães encontraram-se pela oitava ocasião no palco de um grande evento internacional. Ambas as equipas eram apontadas pela crítica como principais favoritos - a par da Espanha - a vencer a prova, mas cedo se percebeu que esta laranja era pouco mecânica. Integrados no grupo da morte da competição, juntamente com a talentosa seleção portuguesa e a sempre complicada Dinamarca - lembram-se do Euro 92? - as duas equipas tiveram de mostrar toda a sua mestria para passar à fase seguinte. Os alemães fizeram-no, mas os holandeses sairam deste campeonato humilhados. No primeiro encontro perderam com os dinamarqueses por 1-0, resultado que fazia com que o jogo seguinte tivesse de ser ganho forçosamente. Mas esse duelo era nada mais nada menos do que com a Alemanha - que vinha de uma magra e sofrida vitória por 1-0 diante de Portugal -, que se apresentava novamente com um coletivo de respeito, onde figuravam nomes como Neuer, Ozil, Lahm, Thomas Muller, ou o matador Mário Gomez. Estrelas também não faltavam do lado oposto: Robben, van Persie, de Jong, Sneijder, ou Huntelaar. Esta foi quiçá a vitória alemã mais fácil sobre o velho rival, sobre uma débil Holanda que assim fazia a despedida do Euro polaco-ucraniano, sem honra nem glória (viriam a perder também o jogo com Portugal). Os alemães foram impedidos de lutar pelo triunfo final da competição nas meias finais diante da Itália, na sequência de uma derrota por 1-2.
 
Nota: Texto escrito em 21 de novembro de 2012 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com