Museu Virtual do Futebol

Estádio de Wembley



Mudando agora de secção deste Museu Virtual do Futebol vamos em direcção à "vitrina" das Catedrais Históricas, vulgo, dos grandes templos da bola, os estádios. E a primeira dessas grandes catedrais que hoje visitamos é talvez a maior delas todas, um local sagrado para os fãs do Desporto Rei, um local de culto, senhoras e senhoras é com enorme prazer que vos abro as portas do mítico Estádio de Wembley. Situado em Londres, o Wembley Stadium viveu ao longo da sua longa vida inúmeras, impolgantes e inesquéciveis tardes e noites de futebol. Inaugurado oficialmente a 23 de Abril de1923, Wembley é tido como o único e verdadeiro museu da longa e rica história do futebol britânico. Como dizem os filósofos da bola, existem poucos lugares que mereçam mais as palavras de local sagrado para um adepto de futebol do que o Estádio de Wembley. Para os intérpretes do jogo maravilhoso jogar em Wembley significava algo de muito especial: «o apogeu de ser um jogador de futebol era jogar debaixo das suas majestosas Torres Gêmeas». Para qualquer clube ou selecção do Mundo jogar no mítico estádio simbolizava estar mais perto de onde o Futebol havia sido inventado. Um dos grandes desgostos desportivos do Rei Pelé foi nunca ter jogado uma única vez naquele relvado.

Os sabores e os dissabores de Wembley

Como qualquer outro estádio do Mundo Wembley foi palco de grandes jogos que marcaram a história do futebol mundial. Muitas equipas e/ou selecções aqui festejaram efusivamente as suas conquistas, e muitas outras aqui choraram as suas derrotas. Desde já nos salta à memória o facto de Wembley ter sido anualmente o palco do dia de festa do futebol inglês, ou seja, a Final da Taça de Inglaterra (F.A. Cup). Dezenas e dezenas de emblemas britânicos tiveram em Wembley tardes ou noites de glória ao conquistar o mais antigo troféu do Mundo. Centenas de jogadores tiveram a honra de subir ao palanque da tribuna real do estádio para cumprimentar a Rainha de Inglaterra e das mãos desta receber a tão prestigiada e aptecível F.A. Cup. Mas não foram apenas Taças de Inglaterra a serem disputadas arduamente no relavo de Wembley, já que muitas outras finais aqui se disputaram. Finais europeias, quer ao nível de clubes, que ao nível de selecções tiveram aqui o seu palco. Mas aquela que ainda hoje está marcada na memória de todos os amantes do futebol, em especial dos ingleses, é a final do Campeonato do Mundo de 1966, realizado em terras de Sua Majestade, e que coroou a Inglaterra com o seu único título mundial até à data. 4-2, foi com este resultado que Bobby Moore, Bobby Charlton, Gordon Banks, Jack Charlton, Geoff Hurst, Ray Wilson, e outros mais, bateram a República Federal da Alemanha e se sagraram Campeões do Mundo pela Inglaterra. Sem dúvida alguma que esta foi a mais bela página escrita no grande livro que relata a história do futebol inglês. Mas não foram apenas vitórias saborosas que a Selecção Inglesa teve nesta sua casa, pois os pesadelos das derrotas também por aqui passaram para os ingleses. De destacar a humilhante derrota por 3-6 perante a mágica Hungria liderada pelo Major Galopante Ferenc Puskas, em 1953. Difícil de "engolir" foi igualmente a derrota inglesa perante a Alemanha nas meias-finais do Europeu de 1996, realizado em Inglaterra, na lotaria das grandes penalidades e que afastou os britânicos da final do seu Euro. Os velhos inimigos do norte, a Escócia, também já celebraram em Wembley uma histórica vitória sobre a selecção da casa, aliás foram os escoceses os primeiros na história a derrotar a Inglaterra em Wembley. Foi em 1928, e os ingleses levaram uma abada de 5-1 dos vizinhos do norte das Ilhas Britânicas.
A nível de taças Europeias a primeira grande final aconteceu em 1963, quando SL Benfica e AC Milan disputaram entre si a vitória da Taça dos Clubes Campeões Europeus dessa época. Venceu o Milan por 2-1, com dois golos do brasileiro Altafini. Wembley voltarei a não trazer sorte ao Benfica, já que em 1968 ai disputou a segunda final da máxima competição Europeia da história do recinto, tendo perdido por 1-4 para o Manchester United liderado por Bobby Charlton, Dennis Law e George Best. Em 1971 Wembley voltou a receber uma final da Taça dos Campeões, desta feita entre o Ajax de Amesterdão e o Panathinaikos de Atenas, tendo o triunfo sorrido aos holandeses por 2-0 . Em 1978 foi a vez do Liverpool erguer a Taça dos Campeões no mítico estádio, depois de bater na final o Club Brugge da Bélgica por 1-0. A última final da Taça dos Clubes Campeões Europeus ocorreu em 1992, numa altura em que a mais importante competição a nível de clubes do Mundo era já denominada Liga dos Campeões. Uma final disputada entre Barcelona e Sampdória, com o defesa holandês Ronald Koeman a fazer o tento solitário que deu a taça aos catalães. A extinta Taça dos Vencedores das Taças também aqui já foi disputada, tendo a primeira final sido disputada em 1965 entre os londrinos do West Ham United, liderados pelo seu eterno capitão Bobby Moore, e os alemães do TSV 1860 de Munique, tendo o triunfo sorrido aos homens que praticamente jogavam em casa, o West Ham, por 2-0.
Em 1993, os italianos do Parma e os belgas do Antuérpia discutiram o troféu no relvado dos sonhos, tendo a vitória sorrido ao Parma por 3-1. A nível de selecções já falámos do 4-2 da Inglaterra à R.F.A., na final do Mundial de 66, mas há mais. Em 1996, Wembley recebeu a final do Euro 96, tendo a Alemanha vingado a derrota de 30 anos atrás e conquistado o seu terceiro título europeu depois de bater a República Checa por 2-1, com um golo de ouro de Oliver Bierhoff. O torneio de futebol dos Jogos Olímpicos de 1948 decorreram igualmente em Wembley. Sem dúvida que muita, mas mesmo muita, história aqui se passou.

O fim...e o novo Wembley

Em 2000 a Federação Inglesa (Football Association) resolveu remodelar o mítico estádio, torna-lo moderno e actual, digno de receber os grandes desafios do século XXI. Em 2003 o velhinho Wembley é então demolido e arrancam as obras para a reconstrução do estádio. Certos de que o novo Wembley irá ser palco de novos e grandes momentos da história do futebol, é no entanto com alguma saudade que hoje lembramos um pouco da longa história daquele que será sempre considerado como o santuário do futebol mundial, o velhinho Estádio de Wembley.

NOTA: Texto escrito em 8 de Abril de 2006 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Rose Bowl


Depois desta divertida olhadela pelas caricaturas de alguns dos maiores mestres de sempre do futebol mundial vamos voltar a concentrarmo-nos nas “estórias” que fizeram a história do “pontapé na bola”. E vamos já de seguida passar à secção das “catedrais históricas”, os templos do futebol, também conhecidos por estádios, para fazermos hoje uma visita a terras do “Tio Sam” (Estados Unidos da América), mais precisamente até Pasadena, uma localidade nos subúrbios de Los Angeles (Califórnia) para conhecer, ou recordar, o mítico Rose Bowl Stadium. E mítico porquê? É simples, neste anfiteatro norte-americano escreveram-se algumas páginas brilhantes do “livro de ouro” dos Campeonatos do Mundo de Futebol. O Rose Bowl foi um dos estádios escolhidos para acolher o Mundial Estados Unidos 1994 (USA 94), inclusive o da grande final. Estrelas como os romenos Hagi e Popescu, os norte-americanos Lalas, Meola e Balboa, os colombianos Valderrana e Valência, o camaronês Roger Milla, os suecos Dahlin, Thern e Larsson, o bulgaro Stoichkov, os italianos Roberto Baggio, Baresi e Maldini, ou os brasileiros Romário, Bebeto e Dunga passearam por este relvado toda a sua classe durante o evento. Mas já lá vamos.
Projectado pelo aequitecto Myron Hunt, em 1921, o Rose Bowl foi baseado no Yale Bowl (contruído em 1914 em New Haven, Connecticut).O recinto demorou dois anos a ser construído, sendo a sua inauguração acontecido a 1 de Janeiro de 1923 com um jogo de futebol americano entre as equipas do Pennsylvania State University e do University of Southern California.
A sua capacidade oficial é de 92.542 espectadores. De 1996 a 2003 foi a “casa” da equipa de futebol da MLS (Major League Soccer), o principal campeonato dos “states”, Los Angeles Galaxy.
Para além disso acolheu ainda a final de 1998 da MLS Cup e o torneio de futebol dos Jogos Olímpicos de 1984, que decorreram na mais famosa cidade da Califórnia.
O estádio tem o nome Rose Bowl devido as mais de 100 variedades de rosas plantadas à sua volta. Mas o momento de fama do Rose Bowl foi, como já vimos, o facto de ter recebido oito encontros do USA 1994, mais precisamente o Roménia – Colômbia (3-1), Camarões – Suécia (2-2), Estados Unidos – Colômbia (2-1), Roménia – Estados Unidos (1-0), jogos estes referentes à 1ª fase da prova, e ainda o jogo dos oitavos-de-final entre Roménia e Argentina (3-2), a meia-final que opôs Brasil e Suécia (1-0), o jogo de atribuição dos 3º e 4º lugares entre Suécia e Bulgária (4-0), e claro está a grande final entre Brasil e Itália, que terminou com a vitória dos canarinhos por 3-2 após desempate através de grandes penalidades. Este estádio fica assim na história por ter sido o primeiro onde uma final de um Mundial foi resolvida por desempate de penaltis.
O Rose Bowl voltaria a ser palco de uma final de um Mundial, desta vez do Campeonato do Mundo Feminino, que se realizou nos EUA em 1999. Nesse Mundial de senhoras o estádio californiano foi palco de quatro jogos, nomeadamente o Coreia do Norte – Nigéria (1-2), Alemanha – Itália (1-1), jogos estes relativos à 1ª fase do torneio, e ainda o desafio de atribuição dos 3º e 4º lugares entre Noruega – Brasil (4-5) e a final que colocou frente a frente os Estados Unidos e a China, a qual foi resolvida da mesma forma que a final dos homens em 1994, ou seja, através de penaltis, desta feita com a vitória das raparigas da casa (as norte-americanas) por 5-4.
Actualmente o Rose Bowl é mais utilizado para jogos de futebol americano, tendo já acolhido cinco decisões da "Super Bow"l (final do campeonato de futebol americano).

NOTA: Texto escrito em 6 de Outubro de 2006 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Estádio Municipal de Braga

De regresso ao cantinho das Catedrais Históricas do Futebol Mundial (os grandes estádios), vamos hoje visitar uma verdadeira pérola da arquitectura moderna em termos de recintos desportivos. Falo do Estádio Municipal de Braga, uma obra contruída de raíz para acolher a fase final do Euro 2004, que como é sabido teve lugar em Portugal. Projectado pelos portugueses Eduardo Souto Moura (arquitecto) e Rui Furtado (engenheiro), este estádio é uma obra de uma beleza ímpar, que veio dar corpo ao Parque Urbano bracarense implantado na encosta do Monte Castro.
Com linhas arquitectónicas inovadoras, este estádio, com capacidade para 30 000 lugares, possui duas bancadas laterais, sendo os topos do recinto constituídos por duas encostas naturais (uma pedreira e um monte) que tornam este espaço belo e único no mundo (na minha modesta opinião). De tal modo belo e único que foi contemplado com o Prémio Secil em 2004 (Categoria Arquitectura), e em 2005 (Categoria Engenharia Civil), galardão que distingue de dois em dois anos pares e de dois em dois anos ímpares as mais significativas obras de Arquitectura e Engenharia realizadas nesse período.
O clube da Cidade, o Sporting Clube de Braga, é o seu utilizador desde o ano de inauguração, tendo sido lá realizados desde essa época todos os jogos do clube minhoto a contar quer para as competições nacionais quer para as internacionais. Neste último capítulo o Municipal de Braga já recebeu clubes como o Hearts de Edimburgo (Escócia), o Estrela Vermelha de Belgrado (Sérvia), o Chievo Verona, o Parma (ambos de Itália), o Sloven Liberec (República Checa) e o Grasshopers (Suíça), sendo que nenhum deles conseguiu levar de vencidos os arsenalistas no recinto.
Em termos de outros jogos importantes aqui disputados são de destacar dois encontros a contar para a fase final do Euro 2004, mais precisamente o Dinamarca-Bulgária (o qual eu assisti ao vivo) e o Holanda-Letónia, e ainda três encontros da fase final do Euro 2006 (em sub-21, o qual também teve lugar em Portugal), nomeadamente o Portugal-França, o Sérvia-França e o Holanda-França.

NOTA: Texto escrito em 23 de Fevereiro de 2007no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Estádio Centenário


Estádio Centenário. Montevideo. Uruguai. Local exacto onde o passado se cruza com o futuro. Um lugar de culto, sagrado, para os fãs do futebol. Um espaço recheado de histórias encantadoras do belo Mundo da Bola. Como dizem os estudiosos do futebol o "Centenário" é «um monumento ao amor eterno da América do Sul pelo futebol...».
Um estádio onde se "escreveram" centenas das mais belas "prosas futebolísticas", magistralmente escritas por nomes imortais como Nasazzi, Scarone, Andrade, Ghiggia, Schiaffino, Francescoli, Recoba, Péle, Romário, e muitos, muitos outros que um dia tiveram o privilégio de pisar este mítico relvado.
Aqui fez-se história pela primeira vez, ou seja, foi neste recinto que se disputou a primeira final de um Campeonato do Mundo de Futebol. Corria o ano de 1930, e o Uruguai recebia o primeiro Mundial da história, tendo este estádio sido propositadamente construído para receber tal evento.
A inauguração oficial aconteceu a 18 de Julho desse ano, numa altura em que já se havia dado o pontapé de saída desse Mundial. Rezam as crónicas da época que o primeiro jogo do Mundial de 1930 apenas não foi disputado no "Centenário" porque o cimento das bancadas ainda não tinha secado!!!
O ambicioso projecto de construção do "Centenário" começou em 21 de Julho de 1929, mas Montevideo não possuía os requisitos de infra-estrutura e segurança económica necessários para sediar um evento como um Mundial de futebol. De qualquer forma, as equipas de construção civil locais trabalharam incansavelmente para certificar-se de que o estádio estaria pronto a tempo e horas.
Sob a supervisão do arquitecto Juan Antonio Scasso, três turnos foram organizados para que a construção ocorresse 24 horas por dia.
Mas logo que ficou pronto o Mundo pasmou ao conhecer aquele colosso com capacidade para 100 000 pessoas, um espaço que conferia assim ao futebol uma noção de jogo verdadeiramente mundial. Para além de sedir a primeira "Copa" do Mundo este estádio foi igualmente construido com o intuito de celebrar o centésimo aniversário da independência do Uruguai, daí o nome com o qual este anfiteatro desportivo foi baptizado: Estádio Centenário.
Ainda hoje o "Centenário" permanece como um símbolo indestrutível da entidade nacional do povo uruguaio. Voltando ao Mundial de 1930, este estádio recebeu 10 dos 18 encontros desse campeonato, nomedamente o França - Chile (0-1), o México - Argentina (3-6), o Argentina - Chile (3-1), o Brasil - Bolívia (4-0), o Uruguai - Peru (1-0), o Uruguai - Roménia (4-0), o Paraguai - Bélgica (1-0), o Argentina - Estados Unidos da América (6-1), o Uruguai - Juguslavia (6-1) e o Uruguai - Argentina (4-2). Este último jogo seria o da grande final do certame, o jogo que consagraria os uruguaios como a melhor equipa do Mundo. Que melhor começo para a vida de um estádio do que ver a sua selecção sagrar-se ali Campeã do Mundo???
O presidente da altura da FIFA, Jules Rimet, classificaria este recinto como um... «templo do futebol...». Ali tinha-se feito história. Ali tinha nascido o primeiro Campeão do Mundo de Futebol.
Desde então que o "Centenário" se tronou numa verdadeira fortaleza para a selecção do Uruguai, que raramente perde quando joga no estádio, e mesmo as melhores equipas do futebol mundial têm problemas em superar a tradição do "santuário" de Montevideo. Até mesmo o todo poderoso Brasil registou apenas duas vitórias oficiais no estádio, nas mais de 20 tentativas que fez.
Para além do Mundial de 1930 o "Centenário" sediou quatro edições da Copa América, todas vencidas, claro está, pelos uruguaios.
Além dos jogos da selecção este palco dos sonhos recebe também todos os anos os escaldantes derbis entre as duas maiores equipas deste pequeno país sul-americano, o Peñarol e o Nacional.
Com poucas remodelações, o estádio permanece hoje muito próximo daquilo o que foi construído para sediar a primeira Taça do Mundo da FIFA. «E ao ver o estádio aberto e sua orgulhosa torre subindo ao céu, a pessoa é transportada de volta a uma era de camisetas com botões, shorts longos e botas desajeitadas: uma época de inocência...»

Curiosidades...

Sabia que... fortes chuvas atrasaram a construção do "Centenário" e, por isso, as partidas de abertura do Mundial do Uruguai, em 1930, foram transferidas para a casa do Penarol e do Nacional, o Pocitos e o Parque Central, respectivamente. .


Sabia que... milhares de adeptos argentinos cruzaram o Rio de la Plata e abarrotaram o Estádio Centenário para a final totalmente sul-americana do Mundial da FIFA de 1930.
Sabia que... quarenta e quatro golos foram marcados no "Centenário" em 10 partidas na primeira Taça do Mundo da FIFA em 1930.
Sabia que... o Uruguai é invencível quando joga como mandante na Copa América. Jogando 38 partidas em casa, todas em Montevideo, eles nunca perderam uma, venceram 31 e empataram sete.
Sabia que... duas das bancadas do imponente estádio foram baptizadas com o nome dos estádios onde a selecção uruguaia venceu os Jogos Olímpicos (JO) de 1924 e 1928? São elas a Tribuna Olímpica (em alusão ao Estádio Olímpico de Amesterdão, sede dos JO de Amesterdão, em 1928) e a Tribuna Colombes (em homenagem ao Estádio des Colombes, que acolheu os JO de Paris, em 1924).
Sabia que... por debaixo das bancadas do "Centenário" existe um dos maiores e mais importantes museus de futebol do Mundo? Chama-se Museo del Fútbol de Uruguay, e como o próprio nome indica é o local onde está guardada a história do futebol daquele país.

Legenda das fotografias:
1- Vista aérea do Estádio Centenário
2- Equipa do Uruguai que se sagrou Campeã do Mundo em 1930, com o "Centenário" como pano de fundo.
3- Uma vista actual do estádio
4- Uma imagem do Museo del Fútbol de Uruguay, mais precisamente as botas e a camisola de Varela, capitão de equipa do Uruguai que venceu o Mundial de 1950 em pleno Maracanã.

NOTA: Texto escrito em 26 de Março de 2007no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Estádio Nacional

Um dia depois de mais uma final da Taça de Portugal (desta feita vencida pelo Sporting CP, e desde já os nossos parabéns ao clube de Alvalade pela conquista da sua 14ª taça), o Museu Virtual do Futebol vai hoje precisamente falar um pouco do palco onde todos os anos se realiza a grande festa do futebol português: o Estádio Nacional. Um estádio que está para Portugal como o Estádio de Wembley está para Inglaterra, um estádio mítico, sagrado, e portador de "quilos e quilos" de história. É a grande sala de visitas do futebol português, e perdoem-me os ilustres visitantes pela opinião imparcial, mas para mim este é o estádio mais bonito de Portugal, por tudo o que ele representa para o nosso país.
Está velhinho, é certo, se calhar não está ao nível dos novos estádios que foram construidos, ou remodelados, para acolher o Euro 2004, mas continua a ser um local de culto para o futebol lusitano, um local de tradição. Há quem o queira "enterrar" a todo o custo, dirigentes que criticam as condições do estádio, que defendem que o mesmo já não tem condições para receber grandes jogos, mais especificamente a final da Taça de Portugal, e que a mesma deveria ser jogada nos tais recintos ultra-modernos. Ora, se assim fosse, e na minha modesta opinião, estaria a "matar-se" grande parte da história do nosso futebol, a apagar-se anos e anos de uma tradição do futebol luso que anualmente acontece por esta altura, a festa da final da taça. Uma festa que leva ao Vale do Jamor (local onde está implantado o estádio) milhares de famílias (homens, mulheres, avós, filhos, netos, etc.) que se reúnem nas matas do Jamor (que envolvem o estádio) para ai fazerem uma enorme festa, as popularmente chamadas tainadas, onde se regista sempre um grande e salutar convívio entre todos os adeptos. É uma festa, volto a dizer. Por tudo isto tirar a final da Taça de Portugal do Estádio Nacional era apagar grande parte da história do futebol luso, o ambiente envolto nesta grande festa não seria certamente o mesmo se daqui em diante as finais passassem a ser realizadas no Estádio do Algarve, ou no Dragão, ou no Alvalade XXI. A festa não era festa.
Bom, mas depois deste pequeno desabafo de um acérrimo defensor do Estádio Nacional, vamos conhecer em breves linhas um pouco mais sobre o santuário do futebol português.
Foi inaugurado a 10 de Junho de 1944. Resultou de um velho sonho do Estado Novo, «que ambicionava construir em Portugal um recinto desportivo capaz de promover não só a prática do desporto como também a criação de um local para demonstrações públicas inspiradas em princípios políticos vigentes».
O autor do projecto foi Miguel Jacobertty Rosa, e foi inspirado no Estádio Olímpico de Berlim. Demorou cinco anos a ser edificado. Está inserido no Vale do Jamor, um enorme manto verde no seio da Área Metropolitana de Lisboa. Como já vimos, todos os anos o recinto veste o seu "fato de gala" para receber a mítica final da Taça de Portugal, a prova rainha do futebol português. O Estádio Nacional viveu o seu momento alto em 1967, quando foi palco da final da Taça dos Campeões Europeus, entre os escoceses do Celtic e os italianos do Inter de Milão, a qual seria vencida pelos primeiros por 2-1.
O Estádio Nacional não é a vergonha nacional, triste chavão proferido actualmente por muito boa gente deste país, mas sim... o orgulho nacional.

NOTA: Texto escrito em 28 de Maio de 2007 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Camp Nou

É uma das catedrais mais belas e míticas do futebol mundial. A sua grandeza e imponência fazem dela uma autêntica fortaleza para a equipa que nela actue e um inferno para os que a visitam. Falamos hoje do Camp Nou, o estádio do FC Barcelona.
Antes de mais dizer que Camp Nou significa "Campo Novo" em língua catalã, apelido dado pelos adeptos barcelonistas na altura da inauguração do recinto, sendo que o nome oficial do estádio é: Estadi Futbol Club Barcelona.
Inaugurado em 24 de Setembro de 1957, quando o FC Barcelona abandonou o seu antigo Estádio de Les Corts, por este ser muito pequeno, a primeira partida no novo estádio foi um amigável entre o Barça e uma selecção de Varsóvia, com a vitória a sorrir aos catalães por 4-2. No primeiro jogo oficial, referente à 2ª jornada do Campeonato Espanhol de Futebol da temporada 1957/58, entre o FC Barcelona e o Real Jaén, o resultado final cifrou-se num expressivo 6-1 para os donos da casa.
O Camp Nou foi projectado pelo arquitecto Francese Mitjans (1909-2006), nascido na cidade de Barcelona.
Desde a sua criação o estádio passou já por inúmeras reformas. Em 1981, foi ampliado para 150 mil lugares com vista a acolher alguns jogos do Campeonato do Mundo de Futebol de 1982, disputado em Espanha. Em 1998, visando obedecer às normas da UEFA, substituiu as áreas onde os adeptos ficavam de pé por assentos, diminuindo desta forma a sua capacidade para os actuais 98 797 lugares.
O Camp Nou é um dos estádios espanhóis catalogados com "Cinco Estrelas" pela UEFA.
No estádio estão localizados a sede social e administrativa do FC Barcelona e o museu do clube. Fora isso, o complexo desportivo conta com um outro estádio, o "Mini Estadi" (com 20 mil lugares), um ginásio multiuso para oito mil pessoas e dormitórios para os jogadores das categorias de base do Barça.
Para além de ser o palco de todos os jogos do FC Barcelona, o Camp Nou tem sido cenário de diversos eventos, tanto desportivos como sociais e culturais. Entre outros, foi um dos estádios espanhóis onde se disputou a fase final do Europeu de futebol de 1964, realizado em Espanha, tendo recebido um total de dois jogos, ou seja, uma partida meia-final (URSS – Dinamarca, que terminou 3-0 a favor dos soviéticos) e a disputa dos 3º e 4º lugares (Hungria – Dinamarca, que terminou 3-1 a favor dos magiares.
Foi também palco de cinco jogos do Mundial de 1982, entre eles: a partida de abertura, entre a então campeã mundial Argentina e a Bélgica, com vitória belga por 1-0, e uma das meias-finais entre a Itália e a Polónia, com vitória italiana por 2-0.
O torneio de futebol dos Jogos Olímpicos de Verão de 1992, realizados em Barcelona, teve a sua final no Camp Nou, com vitória da selecção da Espanha sobre a Polónia por 3-2.
O estádio foi ainda palco, em duas ocasiões, da final da Liga dos Campeões da UEFA. Em 24 de Maio de 1989, o AC Milan venceu o FC Steaua Bucareste por 4-0, e em 26 de Maio de 1999, o Manchester United derrotou o FC Bayern Munique por 2-1.

NOTA: Texto escrito em 5 de Março de 2008 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Estádio do Lima

Aproveitando a “gloriosa” lembrança do célebre FC Porto – Arsenal, de 1948, é de bom tom que se faça aqui uma pequena nota em torno do palco onde se desenrolou este épico e inesquecível desafio de futebol: o Estádio do Lima. Os mais novos – a grande maioria destes - que visionarão estas curtas linhas de certo estranharão este nome. Conhecedores dos modernos e ultra-confortáveis estádios da actualidade no nosso país perguntar-se-ão: «mas onde raio fica o Estádio do Lima????» Infelizmente ele não passa de uma doce memória para uns, ou de um fantasma para outros, simplesmente porque fisicamente este templo da primeira metade do século XX do futebol português já não existe.
No entanto, muita da grandiosa história do nosso futebol foi ali escrita, e escrita a “letras de ouro”, não só o “famoso” FC Porto – Arsenal, de que já aqui falámos, como outros épicos encontros que o maior clube da Cidade Invicta realizou ante os seus rivais de Lisboa (Benfica e Sporting, por exemplo), bem como o facto de ter servido de berço de dezenas e dezenas de jogos que opuseram os donos da casa, o Académico Futebol Clube – na época um dos grandes emblemas do futebol lusitano – a diversas equipas que disputavam os primeiros desafios do recém criado Campeonato Nacional da 1ª Divisão, ou de emotivos “tira-teimas” do Campeonato de Portugal (o antecessor da actual Taça de Portugal).
O Lima é pois um baú de histórias da bola, e não só, pois na sua pista de atletismo passaram alguns dos melhores corredores nacionais daquela época, e na de ciclismo muitos dos “ases” da arte de dar ao pedal.
O Lima foi o primeiro grande templo do futebol português numa época em que o belo jogo era puramente amador... e romântico.
Hoje em dia não passa de um fantasma, pois no local onde outrora eram vividas tardes épicas em termos desportivos hoje não mais existe do que um enorme e gélido descampado... sem qualquer vestígio do extinto templo desportivo.
Inaugurado no longínquo dia 16 de Março de 1924 o Estádio do Lima (situado entre as ruas de Costa Cabral e da Alegria ) era, como já descortinámos nas primeiras linhas deste texto, propriedade do Académico Futebol Clube, nobre agremiação portuense fundada em 1911. Foi um dos primeiros estádios relvados do nosso país.
O Lima pode já não existir fisicamente mas os seus belos traços, a alegria contagiante das suas bancadas... serão eternas. E assim o são pelo facto de um dos filmes portugueses mais populares de sempre, “O Leão da Estrela”, ter sido – em parte – ali gravado. Nesta película são retratadas as aventuras de um fanático adepto do Sporting – personagem interpretada pelo “imortal” António Silva – que se desloca ao Porto para assistir a um decisivo e emotivo encontro entre o FC Porto e o seu clube.
As bancadas, a relva sagrada, a sua atmosfera foram captadas e desta forma imortalizadas através do cinema.
Devo confessar que sempre que passo no local onde outrora esteve erguido fisicamente o Estádio do Lima não deixo de sentir uma certa inveja... inveja daqueles que ali presenciaram grandes momentos de futebol, colocando de imediato a minha imaginação a trabalhar... imaginando a alegria vibrante e contagiante das bancadas, os dribles dos artistas que naquele relvado mágico tantas e tantas vezes brilharam... e eu ali, no meio da multidão a contemplar aquele cenário paradisíaco. Dentro de mim o Lima continua bem vivo...

Nota: Texto escrito em 3 de Dezembro de 2009 no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

Hampden Park

É um dos mais consagrados templos de futebol do planeta. O seu nome é sinónimo de inúmeras e memoráveis “batalhas” futebolísticas ao longo de mais de uma centena de anos de história. O seu nome é Hampden Park. Situado na cidade de Glasgow, na Escócia, o templo que hoje visitamos é o local onde habitualmente se celebram os jogos mais importantes do futebol daquele país, o mesmo é dizer as finais da centenária Taça da Escócia, da Taça da Liga escocesa, e claro está, os embates da selecção nacional das “highlands” (terras altas). É propriedade do modesto Queen's Park Football Club, embora seja administrado pela Scottish FA (Associação de Futebol da Escócia).
Localizado na zona sul de Glasgow esta catedral foi erguida em 1903, tendo sido inaugurada a 31 de Outubro desse ano num jogo entre os donos da casa, o Queen's Park FC, e o Celtic de Glasgow, o qual terminaria com o triunfo dos primeiros por 1-0.
Mas este foi apenas um dos muitos clássicos que o Hampden Park viveu. Como já frisámos o estádio está carregado de deliciosas memórias, jogos e recordes que ainda hoje figuram em qualquer livro que se aventure a relatar a história do “belo jogo”. O primeiro grande momento deu-se num Escócia – Inglaterra, em 1937, data em que o recinto registou a sua maior enchente de sempre: 149.415 espectadores!
Por falar em capacidade, aquando da sua inauguração o Hampden Park dispunha de 44. 530 lugares, sendo que apenas um ano mais tarde albergava quase o dobro: 80.000. Mas a ambição dos escoceses era cada vez maior, queriam que o seu templo da bola fosse cada vez mais grandioso, e em 1910 o recinto comportava 125.000 lugares. Mas o gigante não parava de crescer, e em 1927 ali cabiam já 150.000 almas! Pequeno demais diriam por esta altura os donos do recinto, e em 1937 o estádio atingia a sua lotação máxima: 183.724 lugares!!! Foi até 1950 o maior estádio do planeta, ano este em que nasceu para o Mundo outro colosso da bola, o Maracanã, do Rio de Janeiro, construído propositadamente para o Mundial de 1950 com a capacidade recorde de 200.000 lugares.
Mas nem isto tirou protagonismo ao Hampden Park, que continuou a receber confrontos dignos de realce. Entre outros diversas finais das competições europeias, sendo que um desses encontros decisivos é ainda hoje sinónimo de recordes ao nível das competições entre clubes da Europa. Falamos da final da Taça dos Campeões Europeus (TCE) de 1960, entre o Real Madrid e o Eintracht Frankfurt, confronto já aqui recordado no Museu (na vitrina “Clássicos da Bola”), o qual terminou com a expressiva vitória dos madrilenos por 7-3, um recorde de golos numa final europeia que é mantido até hoje, e um recorde ao nível de assitência num jogo decisivo de uma competição continental, sendo que mais de 130.000 pessoas assistiram a esse memorável clássico.
Em termos de finais da TCE também aqui se jogou o Bayern – Saint-Étienne (1976), e o Real Madrid – Bayer Leverkusen (2002). O último grande momento europeu foi vivido em 2006, ano em que as equipas espanholas do Sevilha e do Espanhol ali disputaram a final da Taça UEFA.
Com as regras de segurança impostas pelos organismos que tutelam o futebol mundial o Hampden Park viu com o passar dos anos a sua capacidade ser reduzida, sendo que actualmente alberga 52.103 lugares.

Nota: Texto escrito em 25 de Fevereiro de 2010 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Stade des Colombes

Na sua relva foram escritos alguns dos factos mais relevantes da história do futebol global. As suas bancadas guardam saudosas memórias de épicos momentos que marcaram a primeira metade do século passado deste desporto. Por isto e por muito mais, certamente, este é um dos maiores museus ainda "vivos" – embora sem o fulgor de outros tempos – do futebol a nível planetário.
A nossa viagem de hoje remete-nos para Paris, a bela capital francesa, mais concretamente para o mítico Stade des Colombes. Erguido em 1907 transformou-se desde logo na sala de visitas do desporto francês. Importantes jogos de futebol e rugby, célebres provas de atletismo e ciclismo aqui ocorridas preencheram dezenas de páginas de ouro inseridas no Atlas do Desporto gaulês. A sua multiculturalidade desportiva, por assim dizer, seria levada ao extremo em 1924, ano em que Paris acolheu os Jogos Olímpicos, tendo os Colombes acolhido a maior parte das modalidades desse importante evento. Os seus 45.000 lugares (a sua capacidade na época) testemunharam nesse longínquo ano de 1924 um dos primeiros momentos de ouro do futebol: a estreia em solo europeu daquela que é considerada a primeira grande selecção nacional do Mundo, o Uruguai. Apresentando um futebol mágico, nunca visto até àquela data pelos europeus, os uruguaios aniquilaram todos os seus oponentes até à conquista do ouro olímpico (vitória na final ante a Suíça por 3-0) tornando-se desta forma... campeões do Mundo. Sim, campeões mundiais, isto porque numa altura em que o Campeonato do Mundo ainda não vira a luz do dia (algo que só iria acontecer em 1930) os campeões olímpicos do futebol eram reconhecidos como donos do Mundo.
E se os Colombes presenciaram o primeiro capítulo da história dourada da primeira grande potência futebolística do Mundo seriam ainda testemunhas do nascimento do primeiro grande jogador negro do belo jogo: José Leandro Andrade (de quem aqui já falámos na “vitrina” dedicada às lendas), o mago uruguaio que depois destes Jogos Olímpicos de 24 teve o Mundo a seus pés, tendo regressado ao seu país com a alcunha de Maravilha Negra.
Posteriormente as estas célebres Olímpiadas o estádio passaou a chamar-se Stade Olympique des Colombes. E seria já com este nome que outro momento de ouro do futebol foi aqui vivenciado: o Mundial de 1938. O na altura líder da FIFA e grande mentor do Campeonato do Mundo, Jules Rimet, cumpria assim o sonho pessoal de trazer o maior evento futebolístico do Mundo ao seu país, tendo os Colombes tido o privilégio de acolher três encontros desse certame, inclusive o da grande final disputada entre a Itália e a Hungria (ambos os conjuntos posam para a fotografia antes do início do grande e decisivo jogo, conforme pode ser visionado na imagem de baixo), o qual terminaria com o triunfo dos primeiros por 4-2.
Com o aparecimento do Parque dos Príncipes (em 1972) o Colombes foi perdendo fulgor com o passar dos anos. Os grandes jogos da selecção francesa e as finais da taça deste país foram transferidas para o novo e portador de maior capacidade estádio que anos mais tarde seria a casa do Paris Saint-Germain. Em termos futebolísticos o Colombes começaria a ser apenas usado para os jogos domésticos do Racing Club de Paris, clube este que com a construção do seu novo estádio irá em breve abondonar este sagrado espaço.
Com a perda de protagonismo internacional – e mesmo a nível interno – o Colombes sofreria novas mudanças num passado recente, a começar desde logo pelo próprio nome, uma vez que foi re-baptizado para Stade Olympique Yves-du-Manoir, sendo no entanto a maior mudança a redução da sua capacidade para uns modestos 7.000 lugares. Uma nota final para dizer que o filme “Fuga para a Vitória”, protagonizado por Sylvester Stallone e que contou com a participação de Pelé, Osvaldo Ardiles, ou Bobby Moore, teve o Colombes como cenário principal.

Nota: Texto escrito em 28 de Setembro de 2010 no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

Campo das Salésias

O espaço que outrora foi uma das mais emblemáticas catedrais do futebol português não passa hoje de um triste fantasma que vagueia perdido na estrada do tempo. No seu palco inolvidáveis momentos futebolísticos tiveram lugar, extraídos de épicos confrontos interpretados por algumas das maiores lendas do “desporto rei” lusitano... desde o imortal Pepe, passando pelo “mestre” Pedroto, e terminando no mago Matateu, entre muitos, muitos outros que aqui viveram tardes de glória.
A “máquina do tempo” transporta-nos hoje para a época dourada do Campo das Salésias (Lisboa), um recinto que pode ser hoje recordado como um dos grandes elementos dinamizadores do futebol em Portugal.
Edificado numa época em que a modalidade dava ainda os primeiros passos em terras lisboetas – tal como aliás no resto do país –, e onde como tal eram raros os campos para a sua prática – os melhores terrenos eram o Campo da Companhia do Cabo Submarino, em Carcavelos, e o Campo Pequeno – o Campo das Salésias foi erguido na zona de Belém, tendo sido inaugurado em 1928 para servir de casa ao Clube de Futebol “Os Belenenses”.
Ali os azuis-e-brancos de Lisboa viveram muitos dos capítulos mais belos da sua história, primeiro sob a batuta de Pepe e mais tarde por intermédio do mágico Matateu. Mas nem só o Belenenses ali pintou magníficos quadros futebolísticos, a própria selecção nacional também ali evoluiu em várias ocasiões.
Em pouco tempo as Salésias passaram a ser a par do Estádio do Lima (do qual aqui já falámos noutra ocasião), no Porto, a sala de visitas do futebol lusitano.
Assim sendo não seria de estranhar que o seu relvado – um dos primeiros a ser plantado em campos de futebol portugueses – fosse escolhido para ser palco da primeira final da Taça de Portugal na temporada de 1938/39 na qual a Académica de Coimbra escreveu a página mais brilhante da sua história, após ter derrotado o Benfica por 4-3. Taça de Portugal que conheceu nas Salésias mais quatro finais para além da edição inaugural, mais concretamente a de 1940/41 , 1942/43 , 1943/44 e 1944/45.
Perderia fulgor com a inauguração do Estádio Nacional (em 1944), recinto este que passou então a ter o papel exclusivo de grande sala de visitas do futebol em Portugal.
O declínio das Salésias começava aqui... mas o pior estava para vir. Em 1946 a Câmara de Lisboa dá ordem de despejo ao Belenenses com a intenção de ali construir uma urbanização. Diz-se também que a expulsão do clube da Cruz de Cristo da sua mítica casa se ficou a dever à ideia de Duarte Pacheco – Ministro das Obras Pública do Governo de Salazar – em fazer ali uma estrada. O que é certo é que os anos foram passando e nem sinal de estradas nem de urbanizações! O Campo das Salésias foi completamente esquecido e abandonado. O emblemático relvado que outrora serviu de tapete para tantos e tantos artistas da bola encantarem multidões deu lugar a uma lixeira nauseabunda. Quem hoje por ali passa tem dificuldades em imaginar que aquele terreno baldio foi uma das mais visitadas salas de bailado futebolístico da nação lusitana. De vez em quando vislumbram-se crianças com uma bola nos pés que ali imaginam estar a encantar multidões num Wembley, num Camp Nou, ou num Estádio da Luz... sem no entanto sequer sonharem que nas agora fantasmagóricas balizas (ainda) ali existentes lendas como Pepe ou Matateu fizeram as delícias de multidões com golos do “outro Mundo”.

Legenda das fotografias:
1- O passado...
2- ... e o presente do Campo das Salésias

Nota: Texto escrito em 21 de Janeiro de 2011 no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

Campo da Rua da Rainha

Para muitos esta é uma dúvida que resiste teimosamente em ascender ao patamar do concreto, dando por vezes aso a acérrimas discussões, em particular quando o braço de ferro opõe o “norte” ao “sul”. Qual o primeiro campo relvado em Portugal? «O Lima», atiram de pronto uns, ao passo que do outro lado o contra ataque é pronto a ser colocado em ação, «foram as Salésias».
Sem tomar partido de uns ou de outros confesso que também eu durante anos me inclinei para a primeira opção, o mítico Estádio do Lima, como consequência natural da dezenas de histórias em redor da lendária catedral que fui recolhendo dos afortunados que conviveram com o desaparecido recinto portuense. Vasculhando a(s) história(s) do futebol em Portugal pude perceber mais tarde que nem o Lima nem as Salésias são detentores do orgulho de terem sido os primeiros a exibir um manto verde nos seus campos de batalha.
Mas mesmo não vencendo este particular braço de ferro que opõe o Lima às Salésias, ou vice-versa, bem se poderá dizer que os nortenhos ficam a ganhar no “total da eliminatória” já que foi no Porto que por volta de 1906 se viria a estender o primeiro tapete verde sobre um retângulo de jogo em Portugal. A “obra” nasceu pela mão do FC Porto, ou melhor, pela ambição desmedida de José Monteiro da Costa, um aristocrata portuense dos inícios do século XX que precisamente em 1906 ressuscitou – depois de um período de inatividade de 12 anos – aquele que é hoje em dia o maior clube da urbe tripeira, e um dos maiores de Portugal... e do Mundo. Estatuto este (bem) real nos dias de hoje mas que naquele início de século não era mais do que um sonho de Monteiro da Costa, que sabendo da existência de uns terrenos alugados pela Companhia Hortícola Portuense para viveiro de plantas na Rua da Rainha – a qual com a proclamação da República em 1910 passou a denominar-se de Rua Antero de Quental – que não estavam a ser totalmente utilizados pela citada empresa não sossegou enquanto não fez daquela a primeira casa do seu clube.
Arrendado então o pequeno terreno cujas medidas rondavam os 50x30 metros Monteiro da Costa logo tratou de retratar naquele humilde palco as cenas do belo jogo por quem morreu de amores aquando da sua passagem tempos antes por Inglaterra. Desenhado no terreno um retângulo de jogo, erguidos meia dúzias de paus transformados posteriormente em balizas, ai estava edificada a primeira casa do FC Porto, o Campo da Rua da Rainha. De forma um pouco tosca e desogarnizada a bola (re)começava a saltitar na Cidade Invicta por iniciativa do grupo de Monteiro da Costa.
Tempos mais tarde sabendo da intenção da Companhia Hortícola Portuense em transferir todos os seus viveiros para outra zona da cidade o principal impulsionador do Football Club do Porto puxou mais uma vez dos seus galões de diplomata para arrendar o restante espaço deixado vago e assim ampliar a casa do clube, que deixava de habitar numa pequena “caixa de fósforos” para passar a ocupar aquilo o que na época já poderia ser considerado como um razoável parque de jogos... por um aluguer anual de 1200 reis. De pronto foram iniciadas as obras para a ampliação do complexo. Balneários, um bufete, um amplo vestiário, um ginásio, courts de ténis, um espaço para a prática do cricket, entre outras mordomias, foram então edificados. Ah, e o retângulo de jogos, esse passou a deter as medidas regulamentares oficiais de um verdadeiro campo de “football”. E para ser um verdadeiro campo de futebol tinha de haver relva, tal como Monteiro da Costa viu em Inglaterra, onde os recintos destinados à prática do belo jogo eram na época já quase todos relvados! E uma vez mais a vontade deste homem foi cumprida, o retângulo do Campo da Rua da Rainha vestiu-se de verde, o primeiro a fazê-lo em Portugal.
Bancadas foram igualmente pensadas, «num nível superior ao rectângulo do jogo e no máximo do comprimento, dos dois lados, uma fila de bancos assentes em tijolos pintados de branco, que acomodavam cerca de 500 a 600 pessoas (...) ao centro do terreno, porém, do lado poente, erguia-se uma tribuna destinada aos convidados de honra. Era majestosa.», assim retrata Rodrigues Teles num dos primeiros livros publicados sobre a História do FC Porto. Diz o mesmo autor que as «magníficas instalações» foram inauguradas num “match” diante dos vizinhos do Boavista Footballers Club, o embrião daquele que mais tarde viria a ser o Boavista Futebol Clube dos nossos dias. O resultado desse dia de festa? Desconhecido! Mas pouco importava, o mais importante é que o sonho de José Monteiro da Costa em erguer um grande clube – sob diversos aspetos – tornava-se aos poucos realidade.
Para a história fica igualmente o facto de ter sido no Campo da Rua da Rainha que foi disputado o primeiro encontro de futebol internacional no nosso país. Tal facto ocorreu a 15 de dezembro de 1907, data em que o FC Porto recebeu e venceu (por 4-1) o Real Fortuna de Vigo (Espanha). Esta casa que além de futebol foi palco para corridas de bicicletas, e de burros (!) foi utilizada pelo FC Porto entre 1906 e 1912, altura em que os “dragões” foram obrigados a deixa-la porque no local iria nascer... uma fábrica. Fizeram então as malas e mudaram-se para o Campo da Constituição em contínua perseguição da senda do sucesso. 

Legenda das fotografias:
1-Um aspeto geral do relvado do Campo da Rua da Rainha
2-A "majestosa" tribuna de honra 
 
Nota: Texto escrito em 17 de abril de 2012 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Campo de Pocitos

Se hoje existisse seria sem margem para dúvidas um local sagrado para os devotos do belo jogo. Porém, não passa de um fantasma, de uma longínqua e eterna recordação. Viajamos até Montevideo, capital do Uruguai, um dos poucos locais à face da terra onde se encontram guardados algumas das mais valiosas relíquias da era  romântica do futebol. Uma dessas relíquias é o Campo de Pocitos, ou melhor, era, já que hoje o local onde outrora foi erguido o mítico anfiteatro desportivo não é mais do que uma nobre e tranquila zona residencial da principal cidade uruguaia. E porque é que Pocitos é - ou foi - um local sagrado? Porque no seu elegante tapete verde marcou-se o PRIMEIRO GOLO DA HISTÓRIA DOS CAMPEONATOS DO MUNDO. Corria o ano de 1930, ano que o sonho de Jules Rimet (na época presidente da FIFA) era tornado realidade: nascia o Mundial de futebol. Histórico e inolvidável momento já por diversas ocasiões admirado nos corredores virtuais deste museu, e também já evocado noutras viagens ao passado o homem que se tornou imortal depois de apontar o primeiro golo desse histórico Campeonato do Mundo, ou melhor, o primeiro golo da história dos Mundiais, Lucien Laurent, de seu nome.
Laurent e Pocitos são duas lendas que já não se encontram no mundo dos vivos, o primeiro - cuja figura é guardada reliogiosamente no Museu Virtual de Futebol na vitrina destinada às estrelas cintilantes - deixou-nos em 2005 ao passo que o desparecimento do segundo é bem mais antigo, remontando a 1940 o ato da sua demolição.
Teve uma vida curta, apenas 19 anos de vida, mas os suficientes para ter o privilégio de ser palco de alguns dos mais célebres bailados futebolísticos nacionais e internacionais, algo que muitos templos centenários da bola nunca vivenciaram.
O Campo de Pocitos, assim se chamava, por se localizar no bairro de Pocitos, foi inaugurado a 6 de novembro de 1921, e logo com um embate bélico entre dois dos mais poderosos exércitos sul americanos da época, Peñarol (do Uruguai) e River Plate (da Argentina), que nesse dia festivo empataram a uma bola perante os olhares de 15 000 espetadores.
Pocitos foi desde esse dia até 1933 a casa do Peñarol, ano em que o popular emblema de Montevideo se mudou para o gigante (estádio) Centenário. A história destes dois recintos cruza-se três anos antes, em 1930, altura em que a FIFA deu ao Uruguai o privilégio de sediar o primeiro Campeonato do Mundo da história. Privilégio que foi concedido um pouco em cima da hora, isto é, em 1929, pelo que os uruguaios tiveram de deitar de imediato mãos à obra para erguer um estádio capaz de receber uma competição que desde a sua génese se afigurava tão majestosa. Foi então idealizado o Centenário, estádio previamente batizado - ainda antes de ver oficialmente a luz do dia - pelo facto de naquele ano de 1930 se assinalar precisamente o centenário da independência do pequeno Uruguai.
Erguer o Estádio Centenário foi uma autêntica luta contra o relógio. Milhares de trabalhadores laboraram noite e dia para que o anfiteatro estivesse pronto a tempo do início do Mundial. Não o conseguiram, por muito pouco, é certo, muito por culpa do chuvoso outono de 1929, que obrigou a que os trabalhos de construção fossem parados. Percebendo que a sua jóia não estaria concluida no dia em que seria dado o pontapé de saída do certame global a organização viu-se na necessidade de recorrer a dois outros estádios da capital uruguaia para realizar os primeiros encontros da Copa de 30. Eram eles o Parque Central (onde jogava o clube que a par do Peñarol divide o coração do povo de Montevideo, o Nacional), e o Campo de Pocitos.
E no dia 13 de julho de 1930 é oficialmente aberto o 1º Campeonato do Mundo, jogando-se à mesma hora (15h00) no Parque Central o Estados Unidos da América - Bélgica (a contar para o Grupo 4) e em Pocitos o França - México (do Grupo 1). Reza a lenda que em Pocitos estiveram pouco mais de 1000 pessoas a assistir ao duelo entre franceses e mexicanos, duelo que haveria de ter contornos históricos, já que daqui resultou então o primeiro golo de um Campeonato do Mundo. Corria o minuto 19 quando um cruzamento de Ernest Liberati foi aproveitado da melhor maneira por Lucien Laurent para fazer balançar as redes pela primeira vez naqueles primeiros minutos de vida do Campeonato do Mundo. No final 4-1 para a França. As luzes da ribalta viraram-se para Pocitos uma vez mais nesse épico Mundial, quando no dia 14 de julho a Roménia ali venceu o Perú por 3-1, em partida do Grupo 3. Depois disso o deslumbrante Centenário viu finalmente a luz do dia com a ocorrência do encontro entre Uruguai e Perú (1-0 para a equipa da casa), disputado no dia 18, tendo a partir de então o novo estádio relegado para segundo plano Pocitos e Parque Central, que até final da Copa de 30 não mais iriam ver os seus relvados ser pisados pelas estrelas do futebol de então.
Ponto final do Mundial de 1930 e a cidade de Montevideo começou a crescer e Pocitos foi engolido por ruas e casas que o fizeram desaparecer em difinitivo em 1940. Largas artérias e zonas residenciais da classe média-alta da capital uruguaia tomaram o lugar do célebre estádio. Durante anos o Campo de Pocitos foi esquecido, ou melhor, a sua história foi esquecida, pois para os que nasceram na segunda metade do século XX era inimaginável que no bairro de Pocitos, agora povoado por vivendas e ruas, tivesse sido escrita uma das páginas mais importantes da história do futebol internacional. Só nos inícios do século XXI, mais concretamente entre 2002 e 2006, o arquiteto Héctor Enrique Benech colocou mãos à obra na tentativa de descobrir o local exato onde havia sido marcado o tal golo de Lucien Laurent. Registos documentais praticamente não existiam (!), a não ser uma rara fotografia aérea do recinto datada de 1926, insuficiente, no entanto, para se (re)descobrir os local onde o francês havia feito o primeiro golo da história dos Mundiais.
Foi então feito um apelo nacional. Procurava-se alguém que tivesse assistido ao Mundial de 30 e que mais do que isso tivesse presenciado um dos jogos inaugurais do certame, neste caso o França - México, jogado em Pocitos. Uma tarefa árdua, pois não podemos esquecer que este apelo foi lançado em pleno século XXI, mais de 70 anos depois da ocorrência da Copa de 30, pelo que encontrar alguém vivo e de boa saúde era como encontrar uma agulha num palheiro. Mas por vezes o impossível torna-se possível, e um homem na casa dos 80 e muitos anos apareceu com uma verdadeira relíquia na mão: uma fotografia do célebre jogo França - México, onde aparecia a baliza... em que Laurent tinha feito o primeiro golo. Investigadores descobriram então o preciso local onde não só aconteceu esse momento histórico, como também o local onde estava desenhado o circulo central do relvado (!), um verdadeiro tesouro arqueológico, que hoje não é mais do que a esquina da Calle Charrua com a Calle Coronel Alegre, bem em frente a uma vulgar lavandaria (!), local onde foi erguida uma pequena escultura que eterniza o sagrado local. Uns metros mais à frente, encontramos uma outra estrutura metálica, esquesita à primeira vista, mas que depois de muito observada leva-nos à imagem de... um poste e parte da barra de uma baliza!!! Pois é, naquele preciso local estava a baliza onde Laurent fez o... tal golo.

Legenda das fotografias:
1-Uma imagem rara do Campo de Pocitos
2-A escultura situada na esquina das ruas Charrua e Coronel Alegre (em frente a uma lavandaria) onde se localizava o centro do terreno do desaparecido estádio
3-E a escultura que faz referência ao local exato onde estava erguida a baliza em que foi marcado o primeiro golo dos Mundiais. Nela podemos ver inscrita a seguinte frase: «Aqui foi feito o primeiro golo da história dos Campeonatos dos Mundo»
Nota: texto escrito em 29 de novembro de 2012 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

The Oval

É por demais sabido que Inglaterra é o berço do futebol moderno. Em meados do século XIX os súbitos de Sua Majestade conceberam o belo jogo tal e qual o conhecemos hoje, pelo menos ao nível de regras e/ou conceitos, já que é totalmente descabido comparar o futebol de há mais de 150 anos atrás com o jogo atual. É como da água para o vinho, completamente diferentes. Bom, apesar de diferentes umas das outras todas as fases do desporto rei, desde a sua criação, tiveram histórias de encantar, escritas e protagonizadas por lendários jogadores, cerebrais treinadores, e inteligentes dirigentes, e levadas ao ato em imponentes e míticos palcos. É sobre um desses palcos que hoje vamos iniciar mais uma viagem a bordo da máquina do tempo, para conhecer os cantos daquela que é muito provavelmente a primeira grande catedral que o jogo conheceu a nível planetário. Sem mais demoras, entremos no centenário The Oval Stadium.

Erguido em Londres, em 1845, num local que outrora havia sido um terreno agrícola, o Oval, também conhecido como Kennington Oval, por estar instalado na zona de Kennington, começou por ser aquilo que... é hoje, por outras palavras, um estádio de cricket. Começou por ser a casa do Surrey County Cricket Club, e com o passar dos anos acolheu os jogos da seleção inglesa ante outras potências desta popular modalidade - em terras britâncias, sobretudo -, casos da Austrália, ou de África do Sul.

Com o crescimento do football, o The Oval, assim batizado pelo seu formato oval, já que assim são os campos de cricket, também passou a receber os encontros mais importantes organizados pela Football Association (FA), sendo o mais importante deles a FA Cup final, vulgo, a final da Taça de Inglaterra, a competição futebolística mais antitga do Mundo. No seu relvado oval foi disputada a 16 de março de 1872 a primeira final da taça, entre os Wanderers e os Royal Engineers (nota: ver mais detalhes sobre esta final em "arquivos do futebol mundial" época 1871/72), tendo a vitória sorrido aos primeiros graças a um tento solitário de Morton Betts, perante uma assistência de 2000 pessoas. A festa da taça, isto é, as finais da FA Cup, disputaram-se no mítico estádio londrino até 1892, altura em que a FA passou as decições da sua cup para o Crystal Palace Stadium.

Nem só de encontros de taça se escreve a história do Oval em termos de futebol. Também a seleção inglesa aqui disputou uma dúzia de partidas internacionais, sendo a primeira delas histórica. A 5 de março de 1870 a Inglaterra recebia os vizinhos da Escócia, naquele que foi o primeiro jogo internacional de sempre a nível global. Terminou empatado a uma bola, cabendo ao escocês Robert Copland-Crawford a honra de apontar - para a sua seleção - o primeiro golo de um duelo internacional. Alfred Joseph Baker marcaria para os ingleses quase ao cair do pano. A última final da FA Cup realizada no histórico recinto, em 1892, entre o Aston Villa e o West Bromwich Albion foi mesmo a maior em termos de assistência no que a um jogo de futebol diz respeito. 32 810 almas presenciaram uma vitória por 3-0 do West Brom sobre os Villains.
Com o aparecimento do Crystal Palace Stadium - e posteriormente com o White City Stadium, ao qual se seguiu a celebrérrima catedral de Wembley - o futebol deixou de vez o Oval, que até aos dias de hoje - sim, ainda existe, embora com significativas melhorias a nível de estética, e vale bem a pena os fanáticos, como eu, adeptos do passado do belo jogo darem lá uma saltada - seria usado para partidas de cricket. Uma coisa é certa, esta foi sem dúvida a primeira catedral mundial do belo jogo.

Legenda das fotografias:
1-The Oval, a rebentar pelas costuras, na sua última final da FA Cup, entre o Aston Villa e o West Brom
2-Uma imagem área do princípio do século XX, comprova o formato oval que esteve na origem do nome de batismo do mítico recinto

Nota: Texto escrito em 29 de novembro de 2013 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Campo do Ameal

A imagem de marca do Ameal: a sua bela bancada central
ornamentada com o imponente relógio no topo.

 

É apontado como um dos cenários mais idílicos do futebol português da primeira metade do século XX. Recordar a sua história é ainda hoje um motivo de orgulho para os afetos ao centenário e histórico Sport Progresso, um dos populares emblemas da cidade do Porto. Levar o nosso pensamento a fazer uma visita ao mítico recinto é igualmente uma oportunidade para recordar as aventuras futebolísticas de nomes como Mihaly Siska, Norman Hall, Acácio Mesquita, Augusto Silva, Pepe, e tantas outras lendas do futebol luso desses saudosos anos. Sem mais demoras abram-se as portas do Campo do Ameal, a catedral história que hoje iremos visitar.
Falar do Ameal é lembrar também grande parte da vida do agremiação desportiva que lhe deu o ser, o Sport Progresso, emblema da freguesia de Paranhos fundado a 15 de agosto de 1908, que noutros tempos chegou calcarrear os patamares mais altos do desporto rei lusitano, mas que hoje vive quase esquecido nos caminhos secundários do futebol distrital. Foi pois nos tempos de maior glamour do Sport Progresso, dirigido naqueles longínquos anos 20 por gente dinâmica e empreendedora, que o Campo do Ameal passou do sonho à realidade.
A primeira pedra é lançada em 1922, e um ano mais tarde o sonho dá então lugar à realidade. É inaugurado oficialmente a 10 de junho desse ano de 1923, e para a festa o Progresso convida os gigantes vizinhos do FC Porto, Boavista, e Salgueiros, que entre si disputam uma amistosa e animada maratona de jogos de futebol.

Uma vista panorámica do retângulo de jogo

 

O Campo do Ameal destacava-se desde logo pela beleza da sua bancada central, ornamentada com um imponente relógio na parte superior da estrutura que se fazia sobressair como a sua imagem de marca. De certa forma a lembrar os míticos recintos do futebol britânico. A modernidade e beleza do Ameal não passaram despercibidos aos dirigentes do futebol português daqueles anos, que para o seu retângulo de jogo agendaram inúmeros e decisivos encontros do Campeonato de Portugal, na altura a competição mais importante do reino da bola lusitano. Um desses encontros ficou mesmo para a história da citada competição, tendo ocorrido na temporada de 1925/26, altura em que a União Portuguesa de Futebol (UPF) decidiu que a final do campeonato dessa época seria jogado no Ameal.
Frente a frente estiveram Belenenses e Marítimo, duas equipas que disputaram uma partida que durou apenas 60 minutos!!! Sobre ela o Museu Virtual do Futebol já traçou algumas linhas aquando da recriação desse Campeonato de Portugal numa outra visita ao passado, linhas essas que passamos então a recordar.

Marítimo ataca a baliza belenense
na final dos 60 minutos
(...) jogo decisivo que a UPF agendou para o Porto, mais precisamente para o Campo do Ameal, propriedade do Progresso. Decisão que fez estalar o verniz entre jogadores e dirigentes belenenses. Cientes da intensa rivalidade entre Lisboa e Porto os homens da Cruz de Cristo receavam ser... mal recebidos na Invicta, e como tal protestaram o palco da final. A UPF fez ouvidos moucos e os belenenses lá foram contrariados para o Porto onde - tal como haviam previsto - foram recebidos com uma cruel hostilidade pelo público portuense. Adeptos estes que, esquecendo a humilhação que o Marítimo havia aplicado ao FC Porto semanas antes, tomaram partido do conjunto da Madeira do príncipio ao fim do jogo ocorrido a 6 de junho.
Os jogadores de Belém entraram no Ameal debaixo de um coro ruidoso de assobios e apupos, ambiente que desde logo os enervou, e condicionaria em grande parte do encontro. O portuense José Guimarães foi o árbitro de um jogo que até começou equilibrado, com luta intensa a meio campo. Com o avançar do relógio, e com os gritos de incentivo ao Marítimo como som de fundo, a partida foi endurecendo, o que favorecia os rapazes da ilha da Madeira, mais resistentes do ponto de vista físico. Madeirenses que aos 35 minutos dispuseram de uma oportunidade sublime para chegar à vantagem, na sequência de uma grande penalidade assinalada a castigar uma falta belenense. Oportunidade que seria desperdiçada, e o encontro lá continuou com o nulo no marcador até ao intervalo. 


Mais uma investida madeirense às redes azuis
Na etapa complementar o Belenenses entrou melhor, mas seria o Marítimo a chegar ao golo à passagem do minuto 55 por intermédio de José Fernandes, na cobrança de um livre direto.
Cinco minutos volvidos Ramos faria o 2-0, e o Campo do Ameal explodiu de alegria, ao mesmo tempo em que os jogadores lisboetas eram provocados e ridicularizados pelo público ali presente. Belenenses que protestaram vincadamente o segundo golo insular, alegando irregularidades. Augusto Silva, um dos melhores jogadores dos azuis, terá mesmo puxado o braço do árbitro, pedindo-lhe satisfações, ao que este sem mais demora deu ordem de expulsão ao belenense. Silva recusou-se a sair do campo, e a desordem instalou-se no Ameal. O público continuava a insultar os lisboetas, agora mais do que nunca, e só a intervenção pronta da polícia a cavalo terá evitado males maiores. Augusto Silva continuava a recusar sair do campo, e assim sendo, o árbitro, após consultar os dirigentes da UPF ali presentes, decidiu por encerrar o jogo, e consequentemente atribuir o título de campeão ao Marítimo.

A festa estalou de pronto. Era como se os madeirenses estivessem a jogar em casa! Os lisboetas não calaram a sua revolta, e no dia seguinte a imprensa da capital saia mais uma vez em defesa dos seus: «Caído o verniz da compustura, os facciosos portuenses deram largas ao seu despeito e ao seu rancor a Lisboa, os jogadores do Belenenses tiveram de passar por entre alas de público que os cobriu de vaias, dirigindo-lhes  os insultos mais soazes. Estiveram iminentes vários conflitos...», assim escrevia Ribeiro dos Reis no Sport de Lisboa. 


Uma imagem triste: a demolição
do histórico Campo do Ameal

Polémica q.b. a única final realizada no Ameal. Sem dúvida. O seu retângulo de jogo iria receber nas épocas seguintes mais alguns encontros do Campeonato de Portugal, muito por culpa do FC Porto, o principal emblema da cidade, que face às reduzidas dimensões do seu Campo da Constituição se viu obrigado a bater à porta do vizinho Progresso para que este lhe cedesse o seu mítico campo para ali disputar as partidas de maior cartaz. E momentos de glória foi coisa que não faltou aos portistas naquela casa...
Mas como quase tudo na vida também o Ameal teve o seu fim. Por volta de 1934 o Sport Progresso começava a enfrentar graves problemas financeiros que colocavam em causa a sua sobrevivência. Atolado em dívidas, e sem condições para manter o campo em funciomaneto, o clube tenta encontrar compradores para o recinto. Seguem-se nos anos seguintes um rol de peripécias, avanços e recuos, o campo chega a ter três proprietários (!), mas não recupera o charme da década anterior, ao qual nem a seleção nacional conseguiu resistir, já que também no seu retângulo mágico efetuou alguns jogos internacionais.
Em 1947 o Sport Progresso muda-se de armas e bagagens para o outro lado Circunvalação - zona onde se situava o recinto - e ai assenta arraiais no seu novo campo de jogos, o Queirós Sobrinho, que ainda hoje se encontra de pé. Quanto ao velhinho e mítico Ameal, sem utilização nem consequente rentabilidade, acaba por ser demolido pouco tempo mais tarde, aparecendo no seu lugar uma triste e cinzenta urbanização que eclipsou de vez as alegres e coloridas bancadas do Ameal sempre que o seu retângulo de jogo era palco de momentos de magia futebolística.

Nota: Texto escrito em 21 de janeiro de 2014 no blog: www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com