Museu Virtual do Futebol

Uruguai 1930

 

Iniciamos agora uma viagem pela “deliciosa” história dos Campeonatos do Mundo de Futebol. Ao pormenor, tanto quanto nos seja possível, iremos descobrir os factos, os números e as figuras dos 18 Mundiais até hoje realizados. Uma coisa é certa, é de que esta será uma longa viagem, tão longa quanto rica que é a história da mais importante competição do Mundo.
As linhas que se seguem surgem pois na sequência da leitura de inúmeros livros e enciclopédias (da minha cada vez mais extensa “biblioteca de futebol”), do visionamento de vídeos (meu Deus, já não tenho espaço para mais DVD’s nem cassetes VHS sobre futebol em minha casa...) e de pesquisa na internet.
No fundo um trabalho que me deu um ENORME prazer, ou não fosse eu um fanático do fenómeno futebol. E é esse prazer que eu quero repartir com o visitante do Museu, que sinta o mesmo interesse, a mesma curiosidade e sobretudo a mesma paixão que eu tenho pelo belo jogo. Divirtam-se...

Finalmente... o sonho tornou-se realidade

O visitante está confortável? Óptimo, pois prepare-se que vai fazer uma inesquecível viagem até ao longínquo ano de 1930, mais concretamente ao Uruguai. Bom, mas antes de “aterrarmos” neste pequeno país sul-americano há que fazer um pequeno relato sobre o nascimento do Campeonato do Mundo.
Um projecto que demorou mais de duas décadas a ser concretizado. A ideia, ainda de uma forma muito ténue, nasceu por volta de 1905, um ano depois do nascimento da FIFA. Contudo devido a divergências de última hora entre os países (federações) membros da FIFA o projecto nunca passou disso mesmo. Foi preciso esperar por 1921 para que finalmente o sonho de criar uma grande competição planetária “tivesse pernas para andar”.
E 1921 porquê? Porque foi este o ano que o lendário Jules Rimet assumiu a presidência da FIFA. A ideia de criar um Campeonato do Mundo de Futebol era uma obsessão de Rimet, que depois de constatar o sucesso dos torneios de futebol dos Jogos Olímpicos de 1924 e 1928 colocou o seu sonho em andamento.
O Comité da FIFA aprovaria a proposta do secretário-geral da Federação Francesa de Futebol, Henri Delaunay, de criar uma competição que juntasse de quatro em quatro anos as melhores selecções do planeta. Num congresso da FIFA realizado em Helsínquia, em 1927, Jules Rimet anunciava ao Mundo – finalmente – que em 1930 se iria realizar o primeiro Campeonato do Mundo de Futebol, sendo nomeado para o efeito um Comité Organizador (CO). Foram então apresentadas várias candidaturas para a organização do evento, nomeadamente a Hungria, a Itália, a Suécia, a Holanda, a Espanha e o Uruguai. Foi definido pelo CO que o país que recebesse o evento suportaria todos os custos do mesmo, incluindo deslocações das equipas, alojamento, alimentação das mesmas, etc. Por seu turno, a FIFA exigia 10% de todas as receitas. “Exigências”, ou regras, estas que resfriaram de imediato o entusiasmo de alguns países, que não estavam de acordo em suportar todos os custos da prova. O Uruguai foi o único a aceitar todas as condições. No entanto, não foi apenas por ter aceite as regras da FIFA que este país ganhou o direito de organizar o primeiro Mundial de Futebol, já que os dirigentes uruguaios colocariam em cima da “mesa das negociações” o facto de nos meses de Junho e Julho de 1930 o país ir comemorar o centenário da sua independência, prometendo desde logo a construção de um estádio com capacidade para 100 000 pessoas. Estádio esse que desde logo recebeu o nome de... Estádio do Centenário. Para além disso, o facto de o Uruguai ser na altura a melhor selecção do Mundo, já que encantara o “planeta da bola” com o seu maravilhoso futebol culminado com as conquistas dos títulos olímpicos de 1924 (Jogos Olímpicos de Paris) e de 1928 (Jogos Olímpicos de Amesterdão), teve igualmente um certo peso na decisão da FIFA em atribuir aos uruguaios a organização da prova.
Seria sem surpresas que no Congresso da FIFA de 1929, realizado em Barcelona, a entidade que gere o futebol mundial comunicaria oficialmente que o primeiro Mundial seria no Uruguai. (Na foto ao lado vê-se a chegada de Rimet a Montevideu.)
No entanto, esta decisão não seria recebida de bom grado por todos os países membros da FIFA. Isto porque os clubes europeus consideravam absurdo pagar os ordenados aos seus melhores jogadores durante uma ausência calculada em cerca de dois meses no Uruguai para disputar o Mundial. Perante este recuo dos europeus a federação uruguaia prontificou-se de imediato a pagar os ordenados aos jogadores europeus durante esse período. No entanto, grande parte dos “craques” não aceitou a boa vontade dos uruguaios, não viajando para a América do Sul. Grandes selecções da altura como a Hungria, a Itália, a Áustria ou a Checoslováquia, no fundo, as super potências do futebol europeu da altura, não aceitaram o convite da FIFA para marcar presença no primeiro Mundial.
Abra-se desde já aqui um parênteses para sublinhar que nesta primeira edição do Mundial não houve fase de qualificação, pois as equipas que nele marcaram presença responderam a um convite da FIFA.
Outra super potência do futebol europeu da época, a França, ameaçou seguir o exemplo das selecções acima referidas e não se deslocar ao Uruguai. Não fora a intervenção de Jules Rimet (francês de nascimento), que de imediato satisfez todas as exigências dos seus compatriotas, e os gauleses não teriam ido à América do Sul. (Na foto ao lado está a selecção francesa que actuou no Mundial do Uruguai.)
De qualquer maneira dois meses antes do início do Mundial nenhuma equipa europeia estava inscrita, mas após a resolução deste problema a França, a Roménia, a Jugoslávia e a Bélgica decidiram mandar as suas selecções para o Uruguai.
E eis que em 20 de Junho de 1930 (a cerca de um mês do pontapé de saída da competição) franceses, belgas e romenos estavam em Villefranche-sur-Mer preparadas para embarcar no paquete italiano “Conte Verde” para a longa travessia no Atlântico. No dia 5 de Julho seguinte as selecções chegavam à baía de Montevideu (capital do Uruguai), isto depois de passar pelo Rio de Janeiro para dar uma boleia à equipa do Brasil.
Por seu turno, a equipa da Jugoslávia preferiu viajar sozinha (mais à larga certamente) para a América do Sul, tendo cruzado o Atlântico a bordo do luxuoso veleiro “Flórida”, cobiçado pelos grandes magnatas mundiais da época para as suas viagens. É caso para dizer...e viva o luxo!
À espera das selecções europeias estavam as suas congéneres sul-americanas, o Brasil, o Paraguai, o Peru, a Bolívia, o Chile, a Argentina e claro está, o Uruguai. A estes juntaram-se ainda o México e Estados Unidos da América, equipas que completaram o lote de participantes do primeiro Mundial. Seriam pois 13, os países que participaram no primeiro grande momento do futebol mundial. (Na imagem do lado pode ver-se a equipa da Argentina que se iria sagrar vice-campeã do Mundo nesta primeira edição.)

A bola começou a rolar

Face ao número reduzido de participantes, substitui-se o sistema de eliminação directa pela fórmula de quatro grupos. Designou-se então que quatro equipas seriam cabeças-de-série, tendo sido elas a Argentina, Brasil, Estados Unidos da América e Uruguai, sendo que os vencedores de cada grupo se qualificariam para as meias-finais.
Em jeito de homenagem a Jules Rimet a França seria uma das selecções que daria o pontapé de saída do grande evento desportivo. Como adversário no jogo inaugural os franceses tiveram o México, um jogo que seria realizado no Campo de Pocitos (Montevideu), já que o majestoso Estádio Centenário ainda não estava concluído (dizem que o cimento das bancas ainda estava fresco aquando da abertura do Mundial). A França venceria facilmente os mexicanos por 4-1, não obstante de ter alinhado grande parte do encontro com dez jogadores, por lesão do guarda-redes Thépot, já que naquela altura ainda não existiam as substituições. (Na foto de cima: uma fase do jogo entre o Brasil e a Bolívia.)
Francês foi igualmente o primeiro golo de um Mundial, de seu nome Lucien Laurent, um homem que entrou assim na história do futebol pelo facto de ter apontado o primeiro golo de um Campeonato do Mundo.
O guardião Thépot haveria de ser o herói do jogo seguinte da França, ante a Argentina, já que durante 80 minutos resistiu de uma forma heróica aos ataques avassaladores dos argentinos, e só um livre magistralmente apontado por Luigi Monti ao minuto 80 deu uma magra vitória por 1-0 ao país das pampas. (Ao lado a cerimónia de abertura do certame.) Este jogo será ainda relembrado por um caricato episódio, já que o árbitro da partida, o brasileiro Almeida Rego, daria por terminado o encontro seis minutos antes do tempo regulamentar, e só graças aos protestos dos adeptos uruguaios que assistiam ao jogo (e que torciam pela França, já que a Argentina foi, é e será sempre o eterno inimigo), que entretanto haviam invadido o campo para “acertar as contas” com o juiz da partida, é que o erro foi corrigido e o brasileiro voltou ao campo para dar continuidade ao jogo que terminaria, como já vimos, com a vitória argentina por 1-0.
No grupo 2 ficariam os melhores representantes do futebol europeu neste torneio, a Jugoslávia. Derrotaram o Brasil (2-1) e a Bolívia (4-0), classificando-se desde logo no primeiro lugar do grupo e consequente apuramento para as meias-finais. A França (grupo 1) perdeu as esperanças da qualificação para a fase seguinte após ter sido derrotada pelo Chile (0-1).
A Roménia também não fez melhor, vencendo um jogo (Perú, por 3-1) e perdendo outro (Uruguai, por 0-4). (Na imagem ao lado está a desoladora selecção brasileira que se deslocou ao Uruguai.)
A Bélgica, sem o seu melhor jogador da altura, Braine, não teve melhor sorte, já que sofreu duas derrotas no grupo 4, ante os Estados Unidos da América (0-3) e o Paraguai (0-1).
Nas meias finais encontraram-se Uruguai e Jugoslávia, e Argentina e Estados Unidos da América. No encontro que opôs argentinos e norte-americanos houve “mosquitos por cordas”, originados pelos constantes protestos dos “soccerboys” contra a interpretação do árbitro belga Langenus sobre a lei do fora-de-jogo. O treinador dos americanos, Robert Miller, tentou agredir o árbitro com a mala de massagista, errando o alvo por muito pouco. O resultado do jogo saldou-se por uns claros e controversos 6-1 a favor dos argentinos. Por igual resultado venceriam os uruguaios a equipa da Jugoslávia. Estavam assim encontrados os dois finalistas do primeiro Mundial.

A grande final...

Chegou-se ao dia 30 de Julho, e o Estádio Centenário a “abarrotar pelas costuras” com 100 000 espectadores em delírio. Uma final à qual também não faltaram peripécias. Em Buenos Aires, o ambiente era de loucura total tendo o povo organizado manifestações para que fossem postos à sua disposição mais barcos para atravessar o Rio de La Plata (River Plate) para a outra margem... para Montevideu. Estima-se que mais de 20 000 argentinos atravessaram o rio em dez barcos fretados de propósito para o efeito (diz a lenda que um destes barcos chegou a Montevideu já no fim da grande final). (Ao lado as duas equipas finalistas a entrarem em campo.) Temendo-se incidentes entre uruguaios e argentinos (velhos inimigos) as armas de fogo foram confiscadas à entrada do estádio.
Os árbitros não escapavam a este ambiente frenético e ameaçador em redor do jogo, pelo que dos quatro juizes apontados inicialmente para dirigir a final, o único a aceitar tal responsabilidade foi o belga John Langenus (na foto ao lado). Para tal a FIFA teve de satisfazer algumas exigências do belga, mais precisamente em dar-lhe protecção policial durante 24 horas, fazendo-lhe um seguro de vida e colocando à sua disposição um navio que o levaria de volta a casa logo após o término do jogo.
Seguiu-se o “episódio da bola”, ou seja, cada equipa queria jogar com a sua bola. Por sorteio foi escolhida a bola argentina, mas os uruguaios, supersticiosos, trataram logo de reclamar contra a (má) sorte. Para satisfazer a “gregos e a troianos” o árbitro decidiu que seriam usadas as duas bolas, uma em cada parte. A primeira parte foi jogada com a bola argentina, e de facto foi de má sorte para os uruguaios, que foram para o intervalo a perder por 1-2, com os tentos argentinos a serem apontados por Stabile e Peucelle, ao passo que o tento uruguaio foi de Dorado. Mas na segunda parte tudo se modificou, os uruguaios deram a volta ao marcador graças a uma exibição espectacular e inolvidável. Ninguém os parou. Venceriam por 4-2, tornando-se assim nos primeiros Campeões do Mundo. Perante a multidão em delírio o capitão uruguaio José Nazzazi ergueu o trofeú criado propositadamente para o evento pelo escultor francês Abel Lafleur. (Na imagem do lado vê-se Castro marcar o quarto golo que selou a vitória do Uruguai.)

Factos que ficam para a história...

- A receita de bilheteira deste primeiro Mundial cifrou-se em 255 107 dólares (da altura).

- Foram disputados 18 jogos no total, com um total de espectadores de 434 000, uma média de 24 111 por jogo. Na final estiveram 100 000 pessoas no Estádio Centenário.

- Estados Unidos... da Escócia: A selecção dos Estados Unidos da América, (na imagem) que neste Mundial se classificou em 3º lugar (juntamente com a Jugoslávia), a sua melhor classificação até à data, disputou a competição com vários jogadores europeus naturalizados. Na sua maioria eram escoceses, tais como McGhee, Brown, Wood, e Gallacher. Do grupo fazia ainda parte um luso-americano, de seu nome Adelino “Billy” Gonsalves, nascido em “Terras do Tio Sam” mas filho de emigrantes portugueses. Pela presença no Uruguai os jogadores americanos receberam uma bolsa equivalente a seis meses de ordenado, e outro tanto pelo “bronze” alcançado.

- Um Brasil muito carioca: Devido a divergências entre cariocas e paulistas, jogadores do Estado de São Paulo foram proibidos de integrar a selecção brasileira neste Mundial. Assim só os atletas dos clubes do Rio de Janeiro tinham permissão para representar a “canarinha”. Desta forma o Brasil, orientado por Pindaro de Carvalho Rodrigues, não pôde contar com o seu grande craque da altura, o paulista Fridenreich. Dizem até que os adeptos dos clubes paulistas ficaram bem satisfeitos pelo fracasso que foi a participação da selecção neste evento.


- O grande capitão: José Nazzazi, (na foto ao lado)o capitão da equipa do Uruguai, foi o líder da “celeste” na caminhada para o título. Fez-se notar não só pelo seu talento futebolístico mas também pelos gritos de advertência que lançava aos companheiros. Ele era o verdadeiro treinador da equipa campeã do Mundo...



- O treinador que era... o rei: tal como outras selecções europeias (pelos motivos acima já explicados) a Roménia (a equipa que se encontra na foto ao lado) esteve para não ir ao Uruguai. Valeu a intervenção (foi mais uma ordem do que um pedido) do Rei Carol (o rei daquele país), que não só ordenou que os seus jogadores fossem para a América do Sul como também se encarregou de os escolher. Mais curioso que isso foi ainda o facto de o rei, que era um “doente” pelo futebol, ter sido o treinador da equipa durante o torneio.

- Guillermo Stabile: O título uruguaio foi festejado efusivamente e o próprio Governo daquele país decretou que o dia seguinte ao da final fosse feriado nacional. Os jogadores uruguaios como Nazzazi, Cea, Castro, Iriarte, Dorado, Scarone ou Andrade (A Maravilha Negra) seriam imortalizados pelo povo "charrua".
No entanto, não só de nomes uruguaios se fez este campeonato, visto que o melhor marcador do mesmo foi o argentino Guillermo Stabile (na foto ao lado), autor de oito remates certeiros. Foi ainda o autor do primeiro “hattrick” em Mundiais.



- Três estádios foram utilizados neste Mundial, o Parque Central, o Campo de Pocitos e o magnífico Estádio Centenário (na foto debaixo), todos situados em Montevideu.

-A selecção do México chegou ao Mundial de 30 assustada com os prognósticos dos expertes da modalidade. Para dar ânino aos seus jogadores o seleccionador mexicano, espanhol de nascimento, de seu nome Juan Luqué de Serrallonga, dirigiu-lhes uma mensagem de alento num dos quartos do Hotel de Montevideo, onde a equipa estava hospedada, e assegurou-lhes que a Virgem de Guadalupe estava a rezar por eles no seu país, mais precisamente no monte de Tepeyac. Concluíu a sua palestra com as seguintes palavras: "Muchachos, les quiero suplicar que se olviden de todo, novias, hermanos, padres, madres, y que solo les quede grabado en sus mentes la palabra México. Ahora que lucharemos contra Francia hay que recordar al general Ignacio Zaragoza. Si él pudo vencerlos, también lo podemos hacer nosotros". Convencidos das palavras do seleccionador os jogadores entraram no jogo diante da França a jogar de igual para igual, acabando, no entanto, por perder esse jogo por 1-4.

-Foi frente ao México que o capitão de equipa argentino Manuel "Nolo" Ferreira falhou o único jogo em todo o Mundial. O motivo da ausência deveu-se ao facto de Ferreira ter de se deslocar a Buenos Aires ra fazer um exame na Faculdade de Direito, onde se encontrava a tirar o curso de Escribão Público. Depois de ter passado no referido exame voltou de imediato a Montevideo para continuar a jogar o Mundial. Anos mais tarde reconheceria que os seus professores haviam facilitado a sua apovação no dtio exame, pelo simples facto de estar a representar a selecção argentina no grande certame futebolístico.

-A equipa da casa sofreu uma importante baixa à última da hora, mais precisamente o seu guarda-redes Mazzalli. O episódio foi assim recordado na primeira pessoa pelo capitão de equipa José Nasazzi: "El momento más triste para nosotros fue cuando separaron del plantel a Andrés Mazzalli. Había sido el arquero en París y Amsterdam, pero era muy mujeriego y una noche se escapó de la concentración para ir a encontrarce con una rubia. Lo expulsaron y no hubo defensa para él. Todos sentimos pena, pero la sanción impuesta fue irreductible y ni a mi me hicieron caso".




Resultados e classificações

Grupo 1

13 de Julho de 1930
França – México (4-1)
(Laurent, 19’; Lngiler, 40’; e Maschinot, 42’ e 87’)
(Carreño, 70’)

15 de Julho de 1930
Argentina – França (1-0)
(Monti, 80’)

16 de Julho de 1930
Chile – México (3-0)
(Vidal, 4’ e 86’ e Rosas, 51’ p.b.)

19 de Julho de 1930
Chile – França (1-0)
(Subiabre, 65’)

19 de Julho de 1930
Argentina – México (6-3)
(Stabile, 8’,17’ e 80’, Varallo, 53’ e Zumelzzu, 10’ e 55’)
(Rosas, 42’ e 55’ e Gayon, 78’ g.p.)

22 de Julho de 1930
Argentina – Chile (3-1)
(Stabile, 12’ e 14’ e Mário Evaristo, 51’)
(Subiabre, 15’)

Classificação:

1- Argentina- 9 pontos
2- Chile – 6 pontos
3- França – 3 pontos
4- México – 0 pontos

Grupo 2

14 de Julho de 1930
Jugoslávia – Brasil (2-1)
(Tirnanic, 21’ e Beck, 30’)
(Preguinho, 62’)

17 de Julho de 1930
Jugoslávia – Bolívia (4-0)
(Beck, 60’ e 67’, Marjanovic, 65’ e Vujadinovic, 85’)

20 de Julho de 1930
Brasil – Bolívia (4-0)
(Carvalho Leite, 27’ e 73’; Preguinho, 78’ e 83’)

Classificação:

1- Jugoslávia – 6 pontos
2- Brasil – 3 pontos
3- Bolívia – 0 pontos

Grupo 3

14 de Julho de 1930
Roménia – Peru (3-1)
(Staucin, 1’ e 74’ e Kovacs, 85’)
(Souza, 60’)

18 de Julho de 1930
Uruguai – Peru (1-0)
(Castro, 60’)

21 de Julho de 1930
Uruguai – Roménia (4-0)
(Dorado, 7’, Scarone, 16’, Anselmo, 30’ e Cea, 35’)

Classificação:

1- Uruguai – 6 pontos
2- Roménia – 3 pontos
3- Peru – 0 pontos

Grupo 4

17 de Julho de 1930
Estados Unidos – Bélgica (3-0)
(McGhee, 23’; Florie, 38’ e Patenaude, 68’)

13 de Julho de 1930
Estados Unidos – Paraguai (3-0)
(Patenaude, 10’, 15' e 50’)

20 de Julho de 1930
Paraguai – Bélgica (1-0)
(Peña, 40’)

Classificação:

1- Estados Unidos – 6 pontos
2- Paraguai – 3 pontos
3- Bélgica – 0 pontos

Meias-Finais

26 de Julho de 1930
Argentina – Estados Unidos (6-1)
(Monti, 20’, Scopeli, 61’, Stabile, 69’ e 87’; Peucelle, 80’ e 85’)
(Brown, 89’)

27 de Julho de 1930
Uruguai – Jugoslávia (6-1)
(Cea, 18’, 65 e 81’; Anselmo, 21’ e 39’ e Iriarte, 61’)
(Sekulic, 4’)

FINAL

30 de Julho de 1930
Estádio Centenário, Montevideu
Árbitro: John Langenus (Bélgica)

Uruguai (4): Ballestero, Nazzazi (cap.) e Mascheroni; Andrade, Fernandez e Gestido; Dorado, Scarone, Castro, Cea e Iriarte. Treinador: Alberto Supicci

Argentina (2): Botasso, Della Torre e Paternoster; Evaristo, Monti e Suarez; Peucelle, Varallo, Stabile, Ferreyra (cap.) e Mário Evaristo. Treinador Franscisco Olazar

Golos: 1-0 por Dorado, 12’; 1-1 por Peucelle, 20’; 1-2 por Stabile, 37’; 2-2 por Cea, 57’; 3-2 por Iriarte, 68’; 4-2 por Castro, 89’.


Onze Ideal do Torneio

Táctica: 2-3-5

1-Thépot (França)
2-Nazzazi (Uruguai)
3-Mascheroni (Uruguai)
4-Torres (Chile)
5-Fausto (Brasil)
6-Juan Evaristo (Argentina)
7-Peucelle (Argentina)
8-Scarone (Uruguai)
9-Stabile (Argentina)
10-Cea (Uruguai)
11-McGhee (Estados Unidos)

Os Campeões do Mundo

4 Jogos: Andrade, Cea, Fernandez, Gestido, Ballestero, Iriarte e Nazzazi.
3 Jogos: Dorado, Mascheroni e Scarone.
2 Jogos: Anselmo e Castro.
1 Jogo: Petrone, Tejera e Urdinaran. (na foto esté José Andrade, mais conhecido como a "Maravilha Negras", um dos totalistas da selecção uruguaia no Mundial.)

Não utilizados: Capuccini, Melogno, Piriz, Recoba, Secco e Saldombide.

Os marcadores do Campeão

5 golos: Cea
3 golos: Anselmo
2 golos: Castro, Dorado e Iriarte
1 golo: Scarone

Números da prova

13 países presentes
18 jogos
70 golos
3,89 média de golos por jogo
434 000 espectadores
24 111 média de espectadores por jogo
1 expulsão (Las Casas, jogador do Peru)
2 golos na própria baliza

 NOTA: Texto escrito em 7 de Setembro de 2006 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Uruguai 1930 (imagens...)

Fase do jogo entre os Estados Unidos da América e a Bélgica...

Uruguaios apuram o físico nas ruas de Montevideo...
Stabile faz o terceiro golo argentino contra os Estados Unidos da América...

A selecção argentina a chegar ao estádio no seu autocarro...
Defesa do guardião francês Thepot no jogo que opôs a sua selecção à Argentina... Um momento do encontro entre Bolívia e Brasil...

Festejos uruguaios após o apito do belga Langenus. A "celeste" era CAMPEÃ DO MUNDO...

Lucien Laurent, da França, o autor do primeiro golo de uma fase final de um Mundial...

Adeptos argentinos desembarcam em Montevideu para assistirem à grande final...

Uruguaios entram em campo para disputar a final do seu Mundial. Capitão Nazzazi é o primeiro...

A equipa uruguaia em estágio antes da final contra a Argentina...

Equipa do Uruguai que se sagrou campeã do Mundo...

 

Itália 1934

Entrem senhores visitantes, entrem que a entrada é de borla. E hoje vale bem a pena darem uma saltada ao Museu Virtual do Futebol, pois vamos dar uma olhadela a um dos lugares mais deliciosos da história do mundo da bola, a vitrina dedicada aos Campeonatos do Mundo. Pois é, estamos de volta a esta vitrina sagrada, depois de a termos inaugurado com o retrato do Uruguai 1930, o primeiro Mundial da história.
Hoje viajamos até Itália, até ao ano de 1934, onde iremos recordar a história do segundo Mundial da FIFA.

O Mundial da propaganda fascista

O extraordinário êxito alcançado no Uruguai 1930 abriu caminho para que quatro anos passados o número de inscrições duplicasse, passando de 16 para 32. O sucesso da Copa do Mundo estava assim comprovado. No congresso da FIFA de 1932, realizado em Estocolmo, a Itália foi escolhida para organizar o evento, dando desde logo a garantia de assegurar todo o esquema financeiro, aliando a isto o facto de dispor de 8 estádios com capacidades para uma média de 50/60 mil pessoas.
Perante estes argumentos o outro candidato a organizar o Mundial, a Suécia, desistiu de imediato. No entanto, a escolha da Itália para organizar a prova ficou também a dever-se a factores de ordem política. A política que na época já havia ditado leis noutros eventos desportivos importantes, tais como os Jogos Olímpicos. O desporto era por isso um excelente veículo de propaganda para os políticos da altura. E no Mundial de 34 a política representava um papel ainda mais importante. Com o ditador Benito Mussolini no poder, o fascismo ditava leis em Itália. O “Dulce”, como Mussolini era conhecido, sabia o quanto uma vitória nos domínios do desporto poderia constituir para uma auréola suplementar de prestígio do regime. O General Vaccaro, que era o presidente da Federação Italiana de Futebol da época, sublinhou que «o fim último deste Mundial é mostrar ao Mundo qual é o ideal fascista do desporto!» Foi então montada uma diabólica “máquina” para colocar o futebol ao serviço do fascismo.
Foi sem dúvida alguma o campeonato da propaganda de Mussolini. O Mundial do fascismo. Tudo valia para promover o fascismo, e não foi de estranhar que o “Dulce” mandasse construir um novo trofeu, denominado Coppa del Dulce (só podia ser assim!) para premiar os vencedores, numa tentativa clara de ofuscar a Taça Jules Rimet.

A vingança do Uruguai

A recusa das principais potências futebolísticas europeias em viajar até ao Uruguai quatro anos antes para ai disputar o primeiro Mundial da FIFA teve as suas repercussões em 1934. Isto, porque os campeões em título, o Uruguai, decidiu pagar na mesma moeda, isto é recusou-se a defender o ceptro. Esta seria, aliás, a primeira e única vez que um campeão do Mundo não defendeu o título no Mundial seguinte.
Paraguai, Chile, Bolívia e Perú também seguiram as pisadas dos vizinhos celestes. Assim, a representação da América do Sul ficou entregue ao Brasil e à Argentina que se qualificaram automaticamente para a fase final. Contudo, estas duas delegações não se fariam representar em Itália pelos seus principais craques de então, já que os seus grupos foram constituídos maioritariamente por amadores que acabariam por fazer a longa travessia do Atlântico para realizar somente um jogo. Ambos fizeram campanhas paupérrimas, em particular estes últimos, que quatro anos antes haviam chegado à final do Mundial 1930. E assim foi porque os seus melhores jogadores de então transferiram-se para a selecção de... Itália. É verdade. E aqui notou-se, uma vez mais, a mão do ditador Mussolini, que queria que a sua Itália vencesse a qualquer preço. Para isso alterou as leis do desporto, permitindo que todos os futebolistas de ascendência italiana, por mais remota que fosse, adquirissem através de uma simples petição a cidadania italiana. Foram então chamados de “oriundi”. Desta forma o seleccionador italiano, Vitorio Pozzo, um jornalista desportivo que se tornou herói no seu país (e veremos porquê quer no final desta história quer quando contarmos a saga do Mundial de 1938), pôde contar com os mais cotados futebolistas argentinos da altura, casos de Luigi Monti (uma das vedetas do primeiro Mundial), Guaita, Demaria e Orsi. Quatro super craques que se juntavam a outros talentos que formavam a Squadra Azzurra de então, como o fantástico guarda-redes Combi, e os avançados Schiavio e o grande Meazza. A Itália tornava-se assim ainda mais favorita à conquista do “seu” Mundial.

O pontapé inicial

A cerimónia de abertura deu-se em Roma, a 27 de Maio, no Estádio do Partido Nacional Fascista (era assim que se chamava o recinto), o qual seria transformado num mar de “camisas negras” que entraram em delírio quando Benito Mussolini subiu à tribuna de honra, ouvindo-se então os gritos do slogan fascista de então: “Forza Itália”.
Os jogos deste Mundial seriam então distribuídos pelas cidades de Roma, Triste, Florença, Turim, Génova, Milão, Bolonha e Nápoles. Jogos correspondentes aos 1/8 de final, uma vez que contrariamente ao que havia sucedido em 1930 os jogos seriam logo a eliminar em detrimento de uma fase de grupos.
Duas equipas eram tidas então à partida, de forma quase unânime, como candidatas à vitória final, a Itália do “mão de ferro” Pozzo, como já vimos, e a Áustria, selecção conhecida na época como o Wunderteam (equipa maravilha), que era dirigida pelo célebre treinador Hugo Meisl, que tal como Pozzo era um grande adepto do estilo de futebol britânico.
Duas equipas que apresentaram no entanto duas concepções de jogo distintas, ou seja, os italianos exibindo um esquema de grande segurança defensiva (que seriam as sementes do “catanaccio”), e dispondo de rápidos e vigorosos atacantes, enquanto que os austríacos fazendo de uma técnica aprimorada o seu argumento favorito despertavam a admiração do público por toda a parte onde destilavam o seu belo futebol.
Bom, no jogo inaugural do torneio, em Roma, a Itália esmagou os frágeis Estados Unidos da América por 7-1, com Schiavio (que seria o artilheiro deste Mundial) a marcar 3 golos. Aliás, um desses golos de Schiavio foi o número 100 da história da “Copa”. Schiavio entrava desta forma para a história dos Mundiais.
Entretanto, a Áustria vencia em Turim, com dificuldade, por 3-2, a França. Apenas no prolongamento o Wunderteam de Meisl assegurou a passagem aos ¼ de final.
Mas nem todos os cabeças-de-série mostrariam o porquê de terem merecido tal distinção, já que Brasil , Argentina e Holanda seriam afastado logo à primeira, respectivamente pela Espanha (1-3 em Génova), Suécia (2-3 em Bolonha) e Suíça (2-3 em Milão). Dos apurados para os ¼ de final a Checoslováquia encontrou em Trieste grandes dificuldades perante a Roménia (2-1, com 0-1 ao intervalo). Dificuldades também foram encontradas pela Hungria para despachar o modesto Egipto, em Nápoles, por 4-2. E mesmo a Alemanha ao eliminar, em Florença, a Bélgica por 5-2, não encontrou as facilidades que o resultado possa supor.
Chegado aos ¼ de final o Mundial conheceu grandes e épicos jogos. Encontros onde os dois candidatos ao título encontraram grandes dificuldades para seguir em frente. Os austríacos venceram por 2-1 a Hungria, em Bolonha, num confronto angustiante, como afirmou a critica da altura. Em Florença deu-se uma das grandes “batalhas” deste Mundial, protagonizada pela Espanha e pela Itália. Debaixo de um calor tórrido as duas equipas enfrentaram-se durante... dois jogos. É verdade. Foram 210 minutos de intenso futebol. Um tremendo desgaste físico que deixou marcas profundas nas duas equipas. No segundo jogo, a 28 de Maio, doze dos protagonistas que na véspera tinham jogado 120 minutos (com o resultado final a ficar em 1-1) – cinco italianos e sete espanhóis, entre eles o mítico guarda-redes Zamora - não actuaram.
Bem, mas em relação à parte 1 desta célebre “batalha” , isto é, ao primeiro encontro, há que recordar que a Espanha saiu na frente com um golo de Regueiro. Com o passar dos minutos os italianos pareciam cada vez mais nervosos, dentro e fora do campo. Perante a escandalosa complacência do árbitro belga Baert, os espanhóis eram nitidamente agredidos a pontapé pelos transalpinos dentro do relvado, na sequência de jogadas violentas. Seria já quase no fim do jogo que Ferrari empatou a partida. Menos de 24 horas depois, no mesmo estádio, os dirigentes espanhóis lançaram um comunicado onde denunciavam as bárbaras agressões dos italianos que tiveram como consequência o facto de a Espanha não poder utilizar sete dos seus principais jogadores por se encontraram lesionados.
No segundo jogo a Itália venceu por 1-0, com um tento de Meazza, num jogo que foi igualmente bem durinho, como o da véspera. Um jogo onde o árbitro suíço Marcet foi, à semelhança de Baert, italiano, já que anulou dois golos limpinhos aos espanhóis. Era a mão do Dulce a funcionar. A Itália tinha de ganhar a qualquer preço.
Os restantes semi-finalistas foram a Checoslováquia (3-2 à Suíça, em Turim) e a Alemanha (2-1 à Suécia, em Milão).

Final antecipada

Nas meias-finais assistiu-se à final antecipada deste Mundial, à final desejada por todos, um Itália-Áustria. As duas favoritas em confronto. Só uma delas poderia alcançar a final. E se a Squadra Azzura estava de certa forma em desvantagem pelos efeitos devastadores da “batalha” com a Espanha na eliminatória anterior, a Áustria não o estava menos, em virtude da fadiga provocada pelos jogos com franceses e húngaros.
O jogo disputou-se em Milão, num campo completamente enlameado, que se viria a tornar num factor favorável aos italianos, mais poderosos fisicamente. De nada valeriam por isso os ataques madrugadores dos austríacos, liderados pelo mágico Mathias Sindelar, na esperança de resolver cedo os acontecimentos enquanto as forças ainda o permitiam. Contudo, o quase intransponível muro defensivo italiano composto por Combi, Alemandi, Monti e Monzegnio resistiu a todos os assaltos do Wunderteam. Guaita foi o nome do herói do dia, foi ele o autor do único golo do encontro, o golo que colocou a Azzurra na final. Os austríacos despediam-se com tristeza do Mundial, e com alguma frustração também pois já na parte final do duelo com os italianos poderiam ter tido outro destino nesta Copa caso o seu ponta-direita Zischek não tivesse falhado um golo certo, já que na altura do remate não estava ninguém na baliza italiana. Paciência. Na outra meia-final, em Roma, a Checoslováquia bateu a Alemanha por 3-1.

Final em dose dupla

Na tarde de 10 de Junho o Estádio do Partido Nacional Fascista apresentava-se cheio como um ovo, esperando uma natural vitória da Azzurra. 30 000 pessoas aguardavam pelo momento em que iriam finalmente festejar o mais do que sonhado título mundial. Aliás, foi necessário recorrer-se à montagem de bancadas suplementares, visto que milhares de espectadores empoleiraram-se em vigas e traves sobre o terreno de jogo.
Na tribuna de honra lá estava Mussolini, rodeados de inúmeros símbolos alusivos ao fascismo, saudado pelos seus compatriotas como se de um Deus se tratasse. Todos esperavam a vitória dos italianos. Mas, nem tudo foi tão fácil como seria de esperar. Os checos não se deixariam intimidar, eram também uma formação muito forte e temida, onde pontificava o grande guardião Planicka.
Aliás, este foi talvez o Campeonato do Mundo que juntou num só torneio três dos melhores guarda-redes de todos os tempos, nomeadamente o italiano Combi, o espanhol Zamora e o checo Planicka. Três mitos da baliza.
A Itália entrou em campo a todo o gás, desfiando de imediato o seu venenoso ataque suportado por uma sólida defesa. Contudo, na “hora H” deparavam-se sempre com um autêntico muro de betão, o guarda-redes Planicka, que esteve soberbo nesta final. E aos 70 minutos o Estádio do Partido Nacional Fascista ficou em completo e gélido silêncio quando na sequência de um pontapé de canto Puc, de costas para a baliza, disparou com alguma violência à meia volta para o fundo das redes de Combi. Surpresa das surpresas, os checos estavam em vantagem.
O terror tomou conta da massa adepta Azzurra. Em luta contra o tempo os italianos tentarem então desesperadamente chegar ao tento da igualdade, aumentando o seu ritmo de incursões à baliza de Planicka. Os defesas checos Zenisek e Styroky limpavam a sua área de qualquer maneira, mal avistassem a bola perto da sua zona tratavam de a despachar de todos as maneiras e feitios sem grandes rodriguinhos.
O assalto dos azzurros ganhava com o passar dos minutos contornos mais intensos e sufocantes para os checos. Até que a cinco minutos do final o esperado golo italiano surgiu, quando já poucos acreditavam nele, por intermédio do ítalo-argentino Orsi. Tudo voltava assim ao principio para alívio dos italianos e de... Mussolini.
No prolongamento os italianos foram mais fortes em termos físicos, e continuaram a tomar de assalto a baliza checa. O “milagre” surgiu por intermédio do avançado-centro Schiavio.
Após o apito final do sueco Eklind a multidão explodiu de emoção: A SQUADRA AZZURRA ERA CAMPEÃ DO MUNDO.
Mussolini podia sorrir, a sua Itália vencera... o fascino era “campeão do Mundo”. Ainda hoje os teóricos do futebol afirmam que este Mundial foi vencido pelo fascismo e não pelos jogadores italianos. É certo que a Itália fora escandalosamente beneficiada pelos árbitros nos duelos com a Espanha, nos ¼ de final, mas não podemos tirar mérito a super craques como Meazza, Orsi, Schiavio e Combi que sobe a batuta do maestro Pozzo encantaram o mundo com o seu futebol. Mussolini mandou entregar aos seus heróis medalhas de ouro, e correram rumores de que deu igualmente a cada um prémio de 10 000 liras.
Em termos de bilheteira este Mundial foi considerado um êxito, já que rendeu quatro milhões de liras, isto sem contar com os valores das transmissões pagos pela rádio e pelo cinema.


Factos e curiosidades


-395 000 espectadores marcaram presença no Itália 34. Cada jogo teve uma média de 24 000 espectadores. Foram apontados 70 golos (média de 4,11 golo por jogo)

-O italiano Luigi Bertolini, um notável cabeceador, disputou o torneio com um lenço branco amarrado à cabeça. Explicou isto com o facto de as grosseiras costuras da bola ferirem a testa dos jogadores...

-O austríaco Anton Schall foi o primeiro jogador a marcar um golo no prolongamento de um jogo de uma fase final de um Mundial. Aconteceu a 27 de Maio, em Turim, no Áustria-França, que terminou com a vitória dos primeiros por 3-2. Schall apontou o golo do triunfo, um tento mal validado, uma vez que o jogador estava em claríssimo fora de jogo, como o próprio admitiu mais tarde.

-Dois futebolistas que estiveram presentes no Itália 34 tiveram descendentes que mais tarde também jogariam em fases finais do Mundial, casos do espanhol Martin Vantolra e do francês Roger Rio. O primeiro viu o filho, José Vantolra, jogar no México 70, enquanto que o segundo viu o rebento, Patrice Rio, actuar pela selecção gaulesa no Argentina 78.

-Abriu gás quando pressentiu Hitler: A estrela maior da Áustria era, como já referimos, Matthias Sindelar, o “homem de papel” como ficou mundialmente conhecido pela sua figura alta, esguia e de aspecto frágil. Deixou marcas do seu perfume e poder de tiro espalhadas pelos relvados de Itália. A sua Áustria ficou-se pelo 4º lugar da prova, mas nem isso ofuscou o brilho de Sindelar neste Mundial. Passou quase toda a sua carreira pelo FK Austria, onde venceu 3 campeonatos e 2 Taças Mitropa (uma das competições que mais tarde deu origem à Taça dos Clubes Campeões Europeus). Foi um colega seu nazi quem lançou o boato de que Matthias era judeu. Um boato que haveria de levar o “homem de papel” à morte. Isto porque quando se apercebeu que Hitler avançava a caminho de Viena antecipou-se à sua sentença e abriu as torneias de gás do seu quarto. Suicidara-se. Tinha 36 anos. Mais tarde ficaria a saber-se que nem judeu era! A notícia da sua morte abalou Viena, e uma multidão incorporou-se no seu funeral.

-Faltavam apenas cinco minutos para soar o último apito da final entre Itália e Checoslováquia. A Azzurra perdia por 0-1. Orsi recebeu a bola de Guaita, fintou um checo com o pé esquerdo e rematou com o direito. A bola ainda bateu nas mãos de Planicka mas só parou no fundo das redes. A Itália acabava de garantir o prolongamento. O curioso no meio disto tudo é que no dia seguinte à final, e perante um batalhão de fotógrafos, Orsi fez mais de 20 tentativas para executar o gesto técnico que na véspera valera o golo do empate, mas não conseguiu repeti-o!

-Vitória ou morte: Rezam as crónicas da altura que minutos antes de Itália e Checoslováquia entrarem em campo para disputar a final foi entregue no balneário italiano um bilhete assinado por Benito Mussolini onde se podia ler: “vitória ou morte”! Não se sabe porém se a ser verdade esta história a intimidação funcionou como um impulso para a Squadra Azzurra. Porém, Vittorio Pozzo no final do encontro era um homem visivelmente aliviado, tendo dito que “como é belo o futebol quando se ganha, e como teria sido terrível perder este jogo”.

-Africanos entram na alta roda do futebol: Pela primeira vez na história uma equipa africana participava na fase final de um Mundial. Tal façanha foi conseguida pelo Egipto. Mesmo eliminados na 1ª eliminatória pelos poderosos húngaros os egípcios ficariam também para a história como sendo a primeira equipa do continente negro a apontar um golo numa fase final. Tal honra pertenceu ao avançado Abdel Fawzi.

Resultados e Classificações

Oitavos-de-final

27 de Maio, Turim
Áustria – França 3-2 (após prolongamento)
(Sindelar, 45’; Schall, 100’ e Bican, 112’)
(Nicolas, 18’ e Verriest, 117 de g.p.)

27 de Maio, Roma
Itália – Estados Unidos da América 7-1
(Schiavio, 18’, 29’ e 64’; Orsi, 20’ e 69’; Ferrari, 63’ e Meazza, 89’)
(Donelli, 57’)

27 de Maio, Florença
Alemanha – Bélgica 5-2
(Kobierski, 18’, Siffling, 56’; Conen, 73’, 77’ e 88’)
(Voorhoof, 24’ e 35’)

27 de Maio, Trieste
Checoslováquia – Roménia 2-1
(Puc, 61’ e Nejeldy, 73’)
(Dobai, 37’)

27 de Maio, Milão
Suíça – Holanda 3-2
(Kielholz, 10’ e 36’; Abbeglen, 57’)
(Smit, 23’ e Vente, 80’)

27 de Maio, Bolonha
Suécia – Argentina 3-2
(Joansson, 33’ e 67’ e Kroon, 80’)
(Belis, 16’ e Galateo, 49’)

27 de Maio, Génova
Espanha – Brasil 3-1
(Chato, 16’ de g.p. e 26’; e Langara, 41’)
(Leónidas, 72’)

27 de Maio, Nápoles
Hungria – Egipto 4-2
(Teleki, 7’; Toldi, 18’ e 87’ e Vincze,57’)
(Fawzi, 26’ e 42’)

Quartos-de-final

31 de Maio, Bolonha
Áustria – Hungria 2-1
(Horvath, 27’ e Zischek, 71’)
(Sarosi, 80’ de g.p.)

31 de Maio, Turim
Checoslováquia – Suíça 3-2
(Svodoba, 36’ e 55’ e Nejedly, 84’)
(Kielhoz, 18’ e Jaeggi, 64’)

31 de Maio, Milão
Alemanha – Suécia 2-1
(Hohmann, 57’ e 74’)
(Dunker, 85’)
31 de Maio, Florença
Itália – Espanha 1-1 (após prolongamento)
(Ferrari, 45’)
(Regueiro, 31’)

1 de Junho, Florença
Itália – Espanha (jogo de repetição) 1-0
(Meazza, 12’)

Meias- finais

3 de Junho, Milão
Itália – Áustria 1-0
(Guaita, 10’)

3 de Junho, Roma
Checoslováquia – Alemanha 3-1
(Nejedly, 19’ e 80’ e Krcil, 71’)
(Noack, 62’)

Terceiro e quarto lugares

7 de Junho, Nápoles
Alemanha – Áustria 3-2
(Lehner 1’ e 40’ e Conen, 15’)
(Horvath, 35’ e Sesta, 63’)

FINAL

10 de Junho
Estádio do Partido Nacional Fascista, Roma
Assistência: cerca de 75 000 espectadores
Árbitro: Ivan Eklind (Suécia)

Itália – Combi (cap.) Monzeglio, Allemandi e Ferraris; Monti e Bertolini; Guaita, Meazza, Schiavio, Ferrari e Orsi. Treinador: Vitorio Pozzo

Checoslováquia – Planicka (cap.), Zenizek e Ctyroky; Kostalek, Cambal e Krcil; Junek, Svoboba, Sobotka, Nejedly e Puc. Treinador: Karel Petru

Golos: Puc (76’), Orsi (85’) e Schiavio (95’)

Melhor marcador:

Schiavio (Itália) – 4 golos

Onze tipo do torneio:

Planicka (Checoslováquia)
Allemandi (Itália)
Monzeglio (itália)
Puc (Checoslováquia)
Sindelar (Áustria)
Monti (Itália)
Conen (Alemanha)
Nejedly (Checoslováquia)
Schiavio (Itália)
Meazza (Itália)
Orsi (Itália)

Os campeões do Mundo:

5 jogos: Combi, Allemandi, Orsi, Meazza e Monti
4 jogos: Bertolini, Ferrari, Guaita, Monzeglio e Schiavio
3 jogos: Ferraris
2 jogos: Pizziolo
1 jogo: Borel, Castellazzi, Demaria, Guarisi e Rosetta
não utilizados: Arcari, Calagaris, Cavanna e Varglien

Onze base

Táctica (3x2x5)
Guarda-redes: Combi
Defesas: Allemandi, Monzeglio e Ferraris
Médios: Monti e Bertolini
Avançados: Guaita, Meazza, Schiavio, Orsi e Ferrari
Os golos dos campões:

4 golos: Schiavio
3 golos: Orsi
2 golos: Ferrari e Meazza
1 golos: Guaita

Legenda das fotografias:

1- Logotipo oficial do Itália 1934

2- O "onze" da Itália que pela primeira vez venceu um Campeonato do Mundo
3- O comandante da Squadra Azzurra: Vittorio Pozzo

4- A equipa do Brasil que à semelhança do Mundial 1930 voltou a desiludir... e muito
5- Brasileiros treinam no convés do navio em que fizeram a longa viajem até Itália

6- Fase do encontro entre a Espanha e o Brasil

7- A camisola que a equipa dos Estados Unidos da América usou no Itália 34, exposta no National Soccer Hall, em Oneonta

8- O "onze" checo que defrontou a Itália na final do Mundial

9- O austríaco Horvath marca um dos golos com que a sua equipa derrotou a Hungria nos 1/4 de final

10- Uma das melhores equipas do Mundo das década de 20 e 30, a Áustria, conhecida como o Wunderteam

11- Para surpresa de todos Puc coloca a Checoslováquia em vantagem na final

12- Pozzo dá instruções aos seus jogadores antes do início do prolongamento da final

13- Festejos dos jogadores italianos: A SQUADRA AZZURRA ERA A DONA DO MUNDO

14- O "homem de papel", Matthias Sindelar, a estrela da equipa da Áustria

15- fase do jogo entre a Checoslováquia e a Roménia, com o guardião checo Planicka a controlar o lance

16- Guardião sueco afasta a bola da sua área durante o jogo com a Argentina

17- Fase do jogo entre Checoslováquia e Suíça

18- Dois mitos das balizas, Combi e Zamora

19 -Capitães da Alemanha e Checoslováquia cumprimentam-se antes do encontro que opôs as duas equipas nas meias-finais
20- O Estádio do Partido Nacional Fascista, em Roma, local da final do Mundial 34

21- O melhor marcador do Mundial 1934, o italiano Schiavio

22 - Planicka (Checoslováquia) recebe o prémio de melhor guarda-redes da prova

23- A grande estrela da Itália: Giuseppe Meazza

 NOTA: Texto escrito em 12 de Maio de 2007 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

França 1938

1938. O Mundo estava perigoso face à iminência do estoirar da II Grande Guerra Mundial. Mesmo assim o presidente da FIFA de então, Jules Rimet, via um velho sonho seu tornar-se em realidade, ver o seu país, a França, organizar um Campeonato do Mundo de Futebol. Este, contudo, não foi ainda o campeonato ideal, uma vez que o número de desistências e recusas de participação foi muito elevado. Apenas na Europa foi necessário realizar fases de apuramento para a 3ª edição do Campeonato do Mundo da FIFA. Um campeonato que ficou órfão de algumas das melhores selecções mundiais da época, casos da Espanha (na altura o país estava a braços com uma Guerra Civil), a Áustria (impedida de participar à última da hora devido à invasão do exército nazi), a Inglaterra (que continuava a recusar participar em competições organizadas pela FIFA), a Argentina e o Uruguai (os primeiros por terem perdido a organização do torneio para a França e os segundos por acharem que com a atribuição do campeonato aos franceses a FIFA estava a quebrar o prometido principio de alternância entre continentes).
No capítulo meramente desportivo esta edição constituiu o primeiro grande êxito, tanto no que se refere a questões financeiras (seis milhões de francos de receita), como no desenvolvimento do próprio jogo. Neste último capítulo, e mesmo com a ausência de grandes equipas, o nível futebolístico foi muito elevado, tendo havido a ocasião para apreciar o virtuosismo de muitos jogadores.
De frisar que nesta altura a França vivia uma crise financeira grave, mas mesmo assim foram construídos propositadamente para o torneio cinco novos estádios.
Dezasseis equipas compareceram em França para disputar a Taça Jules Rimet, no entanto, e como já dissemos, a Áustria foi à última da hora impedida de participar devido à invasão do exército de Hitler. Desta forma o Mundial 1938 ficaria reduzido a 15 equipas, mais precisamente Alemanha, Suíça, Bélgica, Brasil, Polónia, Checoslováquia, Suécia, Holanda, Cuba, Roménia, Noruega, Hungria, Índias Holandeses (actual Indonésia), França (país organizador) e Itália (campeões do Mundo em título). Equipas que foram então distribuídas pelas cidades de Estrasburgo, Le Havre, Toulouse, Marselha, Bordéus, Antibes, Reims e Paris.
E foi na "cidade luz" que se registou a primeira surpresa deste Mundial, quando a Alemanha, reforçada por alguns jogadores da fabulosa equipa da Áustria, sentiu enormes dificuldades para ultrapassar a modesta Suíça, não indo além de um escandaloso empate (1-1) no primeiro jogo. O jogo de desempate seria um verdadeiro pesadelo para os discípulos de Hitler, já que sofreriam uma pesada e humilhante derrota por 2-4 frente a um conjunto helvético que possuía jogadores de grande qualidade, casos de Amado, Bickel e Ableglen (jogador também conhecido por Trello, e senhor de uma técnica fenomenal, que foi o grande carrasco dos alemães neste encontro).
Os anfitriões do torneio, a França, não sentiram grandes dificuldades em eliminar a Bélgica, por 3-1, e assim seguir para os quartos-de-final.
Por seu turno, o Brasil começava a mostrar-se ao Mundo como a potência futebolística que viria a tornar-se, isto depois dos rotundos fracassos nos dois primeiros Mundiais (1930 e 1934). Os brasileiros entraram em grande neste campeonato, com uma vitória épica por 6-5 sobre a Polónia, um jogo onde se destacaram dois jogadores, Leónidas (Brasil) e Willimowski (Polónia), autores de quatro golos cada um.
Outra surpresa deste Mundial aconteceu em Toulouse, com a estreante e desconhecida Cuba a eliminar a Roménia. O primeiro confronto entre estas duas equipas saldou-se por uma igualdade a três bolas, sendo que o jogo de desempate foi vencido pelos centro americanos por 2-1.
Escândalo esteva quase para acontecer em Marselha, cidade onde os campeões do Mundo em título, a Itália, defrontava a frágil Noruega. O jogo saldou-se por uma magra vitória italiana por 2-1, um resultado que demonstra não só as muitas dificuldades que os comandados de Pozzo tiveram face aos nórdicos como também os incidentes extra-futebol que mancharam o jogo. Tudo porque os italianos quando perfilados frente à tribuna cumprimentaram a assistência com a saudação fascista provocando desde logo um ambiente hostil em seu redor. Normal foi a vitória da Hungria sobre a modesta equipa das Índias Holandesas por 6-0. Fácil foi também a vitória da Checoslováquia sobre a Holanda, por 3-0.
A Suécia qualificou-se automaticamente para a fase seguinte em virtude da desqualificação da Áustria.

Batalha campal no Brasil – Checoslováquia

E eis que a 12 de Junho a violência chega ao Mundial, mais precisamente em Toulouse, local do Brasil – Checoslováquia. Os protagonistas do jogo envolveram-se em cenas de violência constantes. Os checos atingiram o final do jogo com oito jogadores em campo e mais grave foi o facto da grande estrela da companhia, o guarda-redes Planicka, ter abandonado o terreno de jogo com uma dupla fractura (de uma perna e de um braço). Por seu turno, o Brasil terminou o jogo com nove elementos. Em termos de resultado o marcador indicou uma igualdade a um golo. Foi necessário dois dias mais tarde a realização de um novo jogo, desta feita com as equipas um pouco mais disciplinadas, tendo os brasileiros sido mais fortes e vencido por 2-1.
A Hungria afastava a Suíça, em Lille, por 2-0, enquanto que a Suécia esmagava Cuba por 8-0. Jogo muito esperado foi o Itália – França, em Paris, tendo o triunfo sorrido aos primeiros por 3-1. Desde logo ficou assente que pela primeira vez o Mundial não seria vencido pela equipa da casa, como nas duas primeiras edições.

Brasil demasiado confiante…perdeu

Nas meias-finais assistiu-se a mais um grande jogo de futebol, um Itália – Brasil. Em Marselha, os brasileiros, cansados do duplo e desgastante duelo ante os checos resolveram poupar a sua principal estrela, Leónidas. Dizem uns que tal facto deveu-se ao avançado se encontrar lesionado, enquanto que outros opinam que Leónidas se estaria já a preparar para a… final. Uma ousadia que teve consequências drásticas, já que a Itália cedo chegou a uma vantagem de dois golos. No entanto, os brasileiros nunca desistiram e Romeu ainda reduziu, mas a força dos pupilos de Pozzo veio ao de cima nos momentos finais do encontro, garantindo desta forma a presença na final. O seleccionador brasileiro seria eternamente crucificado pela sua arrogância e excesso de confiança em ter poupado Leónidas. Na outra meia-final os húngaros cilindraram os suecos por 5-1.

Itália de novo Campeã do Mundo

O Estádio des Colombes, em Paris, engalanou-se no dia 19 de Junho para receber a final entre Itália e Hungria. Última equipa esta que pode dizer-se que jogava em casa, pois devido aos incidentes de Marselha, onde os italianos brindaram o público com a saudação fascista criando desde logo uma antipatia com os franceses, e pelo facto de a equipa de Pozzo ter eliminado a França nos quartos-de-final, a assistência da final torcia quase de forma unânime pela Hungria. Apesar de em campo estarem duas equipas com uma técnica muito apurada a maior força no aspecto táctico da Itália viria ao de cima, permitindo aos transalpinos vencer o jogo por 4-2 e assim sagrarem-se bicampeões do Mundo. Na campanha 100% vitoriosa da "squadra azzurra" destaque para dois jogadores, Sílvio Piola e Giuseppe Meazza. Após esta final seria preciso esperar12 anos para se voltar a organizar um Campeonato do Mundo, pois meses depois do França 38 a Alemanha invadiu a Checoslováquia e logo de seguida a Polónia. Começava desta forma a II Guerra Mundial.

A estrela do Mundial… Leónidas da Silva

Em 1938 o Mundo começou – finalmente – a conhecer os dotes futebolísticos do Brasil enquanto selecção. Depois de prestações péssimas nos dois primeiros Mundiais os canarinhos apresentaram em França um futebol de alta qualidade. Nessa equipa figuravam excelentes jogadores, casos de Brandão, Tim, Zezé ou Domingos da Guia. Mas houve um que deu um verdadeiro show de bola nos relvados franceses, de seu nome Léonidas da Silva, também conhecido como o "diamante negro". Surgiu em França como um desconhecido e de lá saiu como um verdadeiro ídolo. Foi o melhor marcador da competição, com oito golos apontados. Este avançado deslumbrou o planeta da bola com a sua técnica apurada e um invulgar dote de rematador. Era um verdadeiro malabarista com a bola nos pés. Ele foi o inventor do famoso pontapé de bicicleta.

Factos e curiosidades do França 38

- Adolf Hitler ansiava por boas notícias da equipa alemã presente na prova. Na estreia a Alemanha empatou com a Suíça a uma bola tendo a necessidade de realizar um jogo de desempate, Nesse encontro e como vencia por 2-0 ao intervalo os dirigentes alemães enviaram de imediato um telegrama com as boas notícias ao ditador. Acontece que os suíços viraram o resultado na etapa complementar e venceram por 4-2.
-O Brasil – Polónia foi jogado debaixo de um verdadeiro dilúvio, fazendo com que o terreno de jogo se tornasse num autêntico lamaçal. De tal maneira que o avançado brasileiro Leónidas resolveu jogar descalço. No entanto, o árbitro do jogo, o sueco Eklind, obrigou-o a calçar as chuteiras.

- Já havia brilhado no Itália 34 e confirmou toda a sua mestria na arte de bem defender as balizas no França 38. Falamos do guarda-redes checo Frantisek Planicka. Jogador este que a par do espanhol Ricardo Zamora era tido pela crítica internacional como o melhor guardião do Mundo. No Brasil – Checoslováquia de 1938 o guarda-redes surpreendeu tudo e todos ao jogar quase todo o encontro com um braço partido fruto de uma entrada mais violenta de um brasileiro. Mesmo limitado fisicamente Planicka efectuou defesas fantásticas, contribuindo para o empate final a uma bola e consequentemente para um jogo de desempate.
- Insólito foi também o facto de o guarda-redes cubano, Caravajales, ter decido não jogar o jogo de desempate que opôs a sua equipa à Roménia, porque preferiu comentar a partida na bancada para uma rádio do seu país!

-Para a seleção brasileira, a "Copa do Mundo" de 1938 foi cheia de problemas que impediram um melhor rendimento da equipa. O técnico foi Ademar Pimenta que, em entrevista a Manchete Esportiva, contou os grandes problemas que então enfrentou:"Escolhi o que de melhor tinha no futebol brasileiro. Na época, dirigentes, clubes e imprensa insinuavam quem deveria ser convocado. Venci essa etapa. Na véspera do embarque, fiz uma reunião com o pessoal e disse que não admitiria mulheres na delegação. Quando, já no cais, o chefe da delegação veio me explicar que as mulheres de Nariz e Luizinho viajariam com a delegação. O que eu podia fazer naquela altura ? A determinação partiu das autoridades. E com aquele contratempo rumamos para a Europa"."A escala determinava uma parada em Salvador. Nessa cidade, Tim e Patesko usaram e abusaram de bebidas alcóolicas. Pedi o desligamento dos dois e não fui atendido. Seguimos nossa viajem e quando chegamos a França fomos para o Hotel. Os quartos destinados aos jogadores ficavam nos fundos do Hotel. Nariz, Luizinho e suas mulheres, mais os dirigentes, ficaram na ala central do Hotel, fora portanto, do nosso controle. Eles tomavam vinho às refeições, não tinham horário nem regime. Os outros jogadores não gostaram desse privilégio e o clima não ficou bom. Minha intenção era colocar para o jogo de estréia a ala Tim e Patesko. Quando fui procurá-los encontrei os dois bebendo chope. Chamei Castelo Branco, chefe da delegação, fomos ao restaurante e os jogadores continuavam com uma pilha de chopes. O dirigentes não disse nada nem tomou nenhuma providência. O zagueiro Nariz, acadêmico de medicina, era o médico da delegação. Ele dispensava jogadores dos treinamentos, principalmente o companheiro Luizinho e a dupla Tim e Patesko. Às vésperas do segundo jogo fiquei sabendo que não poderia contar com o centro avante reserva Niginho. Ele estava impedido de atuar pela Federação Italiana, pois ele ainda estava vinculado ao futebol da Itália. Ai perdemos a copa. Fizemos dois jogos contra a Techecolováquia em dois dias. Um empate e uma vitória. No segundo jogo lancei todo o time reserva, menos Leonidas que não tinha substituto. E Leonidas se contundiu. Até chegar o jogo com a Itália eu tinha esperanças de contar com Leonidas. Ele ficou horas e horas numa banheira de água salgada tentante se recuperar. É mentirosa a versão de que ele não quis jogar. Não jogou porque não podia. Quando a noticia chegou aos jogadores foi um grande decepção. Leonidas era a nossa bússola. Perdemos por 2x1 e ficamos em terceiro lugar depois de vencer a Suécia no jogo seguinte. Com relação ao pênalti de Domingos da Guia, que muitos afirmam que o juiz errou, posso dizer que realmente houve a penalidade máxima. Piola provocou o nosso zagueiro que perdeu a cabeça e, numa bola dividida, chutou o artilheiro italiano. Poderíamos ter ganho a copa de 1938, mas a desorganização e os privilégios de certas pessoas da delegação, nos tirou todas nossas chances de vencer".

Os resultados do França 38
Oitavos-de-final

4 de Junho, Paris
Suíça – Alemanha: 1-1 (após prolongamento)
(Abbelgen, 43’)
(Gauchel, 23’)

9 de Junho, Paris
Suíça – Alemanha: 4-2 (jogo de desempate)
(Wallaschek, 42; Bickel, 65; e Abbeglen, 76’ e 79’)
(Hahnemann, 9’; e Loertscher, 22’ (p.b))

5 de Junho, Marselha (após prolongamento)
Itália – Noruega: 2-1
(Ferraris, 2’; e Piola, 94’)
(Brustad, 83’)

5 de Junho, Reims
Hungria – Índias Holandesas: 6-0
(Kohut, 12’; Toldi, 14’; Sarosi, 20’ e 79’; Szengeller, 35’ e 63’)

5 de Junho, Toulouse
Cuba – Roménia: 3-3 (após prolongamento)
(Socorro, 40’; Fernandez, 87’; e Tunas, 111’)
(Bindea, 30’ e 100’; e Baratki, 88’)
9 de Junho, Toulouse
Cuba – Roménia: 2-1 (jogo de desempate)
(Socorro, 50’; e Oliveira, 55’)
(Dobai, 35’)

5 de Junho, Paris
França – Bélgica: 3-1
(Veinante, 1’; Nicolas, 12’ e 69’)
(Isemborghs, 20’)

5 de Junho, Estrasburgo
Brasil – Polónia: 6-5
(Leónidas, 18’, 67’, 93’, e 104’; Romeu, 25’; e Peracio, 7’1)
(Szeftke, 23’; Wilimowski, 53’, 59’, 89’, e 118’)
5 de Junho, Le Havre
Checoslováquia – Holanda: 3-0 (após prolongamento)
(Kostalek, 92’; Nejedly, 110’; e Zeman, 115’)
Quartos-de-final
12 de Junho, Paris
Itália – França: 3-1
(Colaussi, 9’; Piola, 51’, e 72’)
(Heisserer, 10’)
12 de Junho, Lille
Hungria – Suíça: 2-0
(Sarosi, 43’; e Szengeller, 90’)
12 de Junho, Antibes
Suécia – Cuba: 8-0
(Keller, 13’, 48’, e 49’; Wetterstroem, 27’, 30’, e 43’; Nyberg, 86’; e Andersson, 88’)
12 de Junho, Toulouse
Brasil – Checoslováquia: 1-1 (após prolongamento)
(Leónidas, 14’)
(Nejedly, 41’)
14 de Junho, Toulouse
Brasil – Checoslováquia: 2-1 (jogo de desempate)
(Leónidas, 56’; e Roberto, 63’)
(Kopecky, 23’)
Meias-finais
16 de Junho, Paris
Hungria – Suécia: 5-1
(Szengeller, 20’, e 39’, e 86’; Sãs, 37’; e Sarosi, 66’)
(Nyberg, 1’)
16 de Junho, Marselha
Itália – Brasil: 2-1
(Colaussi, 56’; e Meazza, 60’)
(Romeu, 87’)
Jogo dos 3º e 4º lugares

19 de Junho, Bordéus
Brasil – Suécia: 4-2
(Romeu, 42’; Leónidas, 52’, e 70’; e Peracio, 80’)
(Joansson, 13’; e Nyberg, 23’)
Final
19 de Junho, Paris
Estádio des Colombes, com 58 000 espectadores
Árbitro: Gerorge Capdeville (França)
Itália: Olivieri, Foni e Rava; Serantoni, Andreolo e Locatelli; Biavatti, Meazza (cap.), Piola, Ferrari e Colausse.
Treinador. Vittorio Pozzo
Hungria: Szabo, Polgar e Biró; Szalay, Szucs e Lazar; Sas, Vincze, Sarosi (cap.), Szengeller e Titkos.
Treinador: Alfred Schaffer
Golos: 1-0 por Colaussi (6’); 1-1 por Titkos (8’); 2-1 por Piola (19’); 3-1 por Colaussi (35’); 3-2 por Sarosi (70’); 4-2 por Piola (82’).
Outros factos e números da prova:
Onze tipo do Mundial…
Táctica: 2-3-5
Planicka (Checoslováquia), Domingos da Guia (Brasil), e Rava (Itália); Andreolo (Itália), Tim (Brasil), e Meazza (Itália); Sarosi (Hungria), Wetterstroem (Suécia), Piola (Itália), Leónidas (Brasil), e Colaussi (Itália).
Os Campeões…

4 Jogos: Andreolo, Ferrari, Locatelli, Meazza, Olivieri, Piola, Rava e Serantoni
3 Jogos: Biavati, Colaussi e Foni
1 Jogo: Ferraris, Monzeglio e Pasinati
Não utilizados: Bertoni, Ceresoli, Chizzo, Donati, Genta, Masetti, Olmi e Perazzolo
Onze base italiano…

Táctica: 2-3-5
Guarda-redes: Olivieri
Defesas: Foni e Rava
Médios: Serantoni, Andreolo e Locatelli
Avançados: Biavatti, Meazza, Piola, Ferrari e Colaussi
Os marcadores dos campeões…

5 golos: Piola
4 golos: Colaussi
1 golo: Ferrari e Meazza
Diversos…
-Leónidas (Brasil) foi o melhor marcador com oito golos
-15 países representados
-18 jogos
-84 golos
-4,67 média de golos por jogo
-483 000 espectadores
-26 833 média de espectadores por jogo
- 4 expulsões
-2 golos na própria baliza

Legendas das fotografias:

1- Logotipo do França 38

2- Equipa de Itália festejando a conquista do Campeonato do Mundo

3- Capitães da França e da Itália na escolha de campo no jogo dos quartos-de-final

4- O dramático Brasil - Checoslováquia

5- Um lance do Brasil - Itália das meias-finais

6- Itália - Hungria, o duelo decisivo do França 38

7- Leónidas da Silva, a estrela do Mundial 1938

8- Os capitães da Alemanha e da Suíça

9- Brasil e Polónia perfilados antes do jogo de estreia para cada um deles na "Copa"

10- A delegação brasileira posa para a fotografia na entrada do hotel onde estavam hospedados

11- A equipa das estreantes e frágeis Índias Holandesas

12- A selecção que actuava em casa, a França

13- O palco da final: Stade des Colombes

14- Italianos festejam o bi-campeonato mundial

15- Primeira página do famoso jornal Gazzetta dello Sport dando conta da nova conquista da Squadra Azzurra

16- O técnico Pozzo e o avançado Piola, dois dos principais responsáveis pelo novo êxito italiano

 
NOTA: Texto escrito em 26 de Novembro de 2007 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com