Museu Virtual do Futebol

França 1960

Vamos dar hoje início a uma maravilhosa viagem pela não menos maravilhosa História dos Campeonatos da Europa de Futebol. À semelhança do que temos vindo a fazer com os Mundiais iremos relatar as principais histórias e factos da mais importante competição europeia. Inauguramos esta vitrina quando falta menos de um mês para na Áustria e na Suíça ter início a 13ª edição do Europeu de futebol.
E como em todas as histórias vamos começar pelo início, isto é, por fazer uma viagem até 1955 ano em que o francês Henry Delauny, secretário-geral da UEFA, teve a ideia de criar uma competição continental ao nível de selecções. Na altura, eram disputados três grandes torneios no âmbito de selecções no Velho Continente, mais precisamente o Campeonato Internacional das Nações Britânicas (o qual juntava a Inglaterra, a Escócia, o País de Gales, e a Irlanda do Norte), a Taça Nórdica (disputada pela Dinamarca, Finlândia, Noruega, e Suécia), e o Campeonato da Europa Central (no qual participavam a Áustria, Hungria, Checoslováquia, e a Suíça).
E eis então que nesse ano de 1955 Delauny propôs a criação de um campeonato que agregasse todas as nações da Europa, uma ideia que no entanto não seria bem acolhida por muitas da potências futebolísticas europeias da época, casos das selecções britânicas, da Alemanha, da Itália, e ainda da Suécia.
Ficou desde logo definido que a nova competição se passaria a denominar Taça da Europa das Nações, nome que seria definitivamente alterado para Campeonato da Europa de Futebol, em 1968. Ficou igualmente assente que a competição seria disputada de quatro em quatro anos, à semelhança do que acontecia com os Campeonatos do Mundo.
Em termos de formato foi definido que a Taça da Europa das Nações seria disputada por rondas pré-eliminares até aos quartos-de-final (jogadas sempre a duas mãos), sendo que as meias-finais, o jogo dos 3º e 4º lugares, e a final eram consideradas as verdadeiras fase finais da competição, e seriam disputadas num dos quatro países qualificados para essa fase final.
A primeira fase final, ou primeiro Europeu, se preferirem, foi disputado no ano de 1960, sendo que as eliminatórias começaram dois anos antes. O pontapé de saída foi dado em Dublin, na República da Irlanda, a 5 de Abril, num jogo entre a equipa da casa e a Checoslováquia, tendo o primeiro golo sido da autoria do irlandês Liam Tuohy. Até à fase final seriam realizadas mais 24 partidas. Refira-se que nesta primeira fase de qualificação inscreveram-se 17 países (República da Irlanda, Checoslováquia, União Soviética, Hungria, França Grécia, Roménia, Turquia, Noruega, Áustria, Jugoslávia, Bulgária, República Democrata da Alemanha, Portugal, Polónia, Espanha, e Dinamarca).
E os primeiros participantes da fase final de um Europeu seriam a Checoslováquia, a União Soviética, a Jugoslávia, e a França. E seria a este último país que a UEFA entregaria a responsabilidade de acolher a fase final da nova competição.

Ventos de leste sopram mais forte na fase final

E eis que chegamos ao momento alto da nova competição continental, o momento em que quatro selecções iriam lutar pela conquista da Taça da Europa, um bonito troféu que seria mais tarde baptizado com o nome do mentor desta prova, Henry Delauny, que não chegaria a ver o seu sonho ser tornado em realidade, uma vez que faleceu algum tempo antes da fase final.
E o pontapé de saída foi dado no majestoso Parques dos Príncipes, em Paris, a 6 de Julho de 1960, que recebeu as equipas da França e da Jugoslávia, em jogo referente à primeira meia-final da competição. Um jogo que ficaria para a história, não só porque se tratou do primeiro de uma fase final do Europeu mas também pela grandioso espectáculo protagonizado pelas duas equipas. Os franceses mesmo sem a sua maior estrela da altura, Just Fontaine, que dois anos antes havia brilhado no Mundial da Suécia, estavam convencidos que iriam demonstrar em campo toda a sua superioridade para assim chegar ao primeiro sucesso europeu. Não foi a ausência de Fontaine que afectou a exibição dos franceses que estiveram em grande parte do jogo à frente do marcador. O golo inaugural da fase final foi no entanto apontado pelos visitantes por intermédio da sua estrela maior, Milan Galic, aos 11 minutos. Um minuto depois Vincent igualou para a França, para aos 43 minutos François Heutte colocar os anfitriões pela primeira vez na frente.
Na 2ª parte o espectáculo continuou e aos 53 minutos Wisniesky aumenta a vantagem da França. Contudo, do outro lado estava uma grande equipa que nunca se deu por vencida, e aos 55 minutos reduz a desvantagem por intermédio de Zanetic.
A faltar menos de meia hora para o árbitro belga Gaston Grandain dar por terminado o jogo o Parque dos Príncipes entra em delírio com o quarto golo da equipa da casa, da autoria de François Heutte, que bisava assim na partida. Poucos acreditariam que Les Blues não estariam na grande final.
Mas o sonho acabaria por virar pesadelo em apenas cinco minutos, com os jugoslavos a apontarem três golos e a colocarem o resultado final em 5-4 a seu favor, carimbando o passaporte para a final. Tomislav Knez, aos 75 minutos, e Drazen Jerkovic, aos 78 e 79 minutos, foram os homens que calaram o anfiteatro parisiense.
A outra meia-final foi disputada em Marselha, no Stade Velodrome, entre soviéticos e checoslovacos. Um jogo onde os soviéticos liderados pelo grande guarda-redes Lev Yashin desde cedo deram mostras de querer vencer. As oportunidades de golos do jogo pertenceram-lhes quase todas, não sendo de estranhar que derrotassem a sua congénere da Checoslováquia por 3-0. A estes últimos nem a sua estrela-mor, Masopust, considerado um dos melhores jogadores do Mundo da época, lhes valeu. A grande estrela do jogo foi Yashin, apelidado pelos críticos do futebol como a "aranha-negra" e tido por muitos como o melhor guardião de sempre. Neste jogo defendeu uma grande penalidade.

O último lugar do pódio…

A 9 de Julho o Velodrome de Marselha recebia a partida para a apurar os 3º e 4º classificados. Ao campo subiam as equipas derrotadas nas meias-finais, França e Checoslováquia. Os franceses ainda abalados pelo "terramoto jugoslavo" dias antes entraram em campo com várias alterações no seu "onze". Para eles ser segundos no "seu" Europeu era igual a ser últimos. Postura diferente foi encarada pelos checoslovacos que entraram em campo com o pensamento na vitória desde o apito inicial. Além de que acabar a competição no último lugar do pódio era uma situação de algum prestígio. Os franceses arrastaram-se pelo campo durante todo o jogo, facto aproveitado pelos jogadores de leste para se adiantar no marcador aos 58 minutos por Bubnik. Acabariam por selar o triunfo a dois minutos do fim por intermédio de Pavlovic.

…e a grande final

A 10 de Julho o Parque dos Príncipes engalanou-se para receber os dois finalistas do evento. Sob a arbitragem do inglês Arthur Ellis soviéticos e jugoslavos entraram em campo com vontade de fazer história. Do lado dos soviéticos a transpiração, do dos jugoslavos a inspiração. É desta forma que se pode fazer a leitura desta final. O futebol rendilhado e mais técnico dos jugoslavos seria ultrapassado pelo rigor, pela força e pela frieza táctica soviética. Jugoslávia que aproveitando a sua frescura física se adiantou no marcador aos 43 minutos por Milan Galic. No segundo tempo a União Soviética puxou dos seus galões e empatou o jogo ao minuto 49, por Metreveli. Com alguma dificuldade a equipa jugoslava ainda conseguiu levar a decisão para prolongamento. E aos 113 minutos os soviéticos deram a machadada final ao apontar o segundo, por Victor Ponedelnik, sendo que para a desgastada Jugoslávia era já quase impossível dar a volta ao marcador. Comandados por Yashin, e influenciados por "astros" como Valentin Ivanov, e Igor Netto a União Soviética sagra-se assim a primeira CAMPEÃ DA EUROPA DE NAÇÕES. Os soviéticos foram uns vencedores justos, embora não tenham entusiasmado. Contudo, mereceram a vitória graças à sua condição física e determinação. E ainda por levarem o novo torneio mais a sério que outros.

Jogos:

Meias-finais

6 de Julho, em Paris
França – Jugoslávia: 4-5
(Vincent, 12’; Heutte, 43’ e 62’; Wisnieski, 53’)
(Galic, 11’; Zanetic, 55’; Knez, 75’; Jerkovic, 78’ e 79’)

6 de Julho, em Marselha
Checoslováquia – União Soviética: 0-3
(Ivanov, 34’ e 56’; Ponedelnik, 66’)

Jogo dos 3º e 4º lugares
9 de Julho, em Marselha
Checoslováquia – França: 2-0
(Bubnik, 58’; Pavlovic, 88’)
Final

10 de Julho, em Paris
União Soviética – Jugoslávia: 2-1
Árbitro: Arthur Ellis (Inglaterra)
União Soviética: Lev Yashin, Givi Chokheli, Anatoli Maslenkine, Anatoli Krutikov, Iouri Voinov, Igor Netto, Slava Matreveli, Valentin Ivanov, Victor Ponedelnik, Valentin Boubokine, e Mikhail Meshki. Treinador: Gavril Kachalin
Jugoslávia: Blagoge Vidinic, Vladimir Durkovic, Fahrudin Jusufi, Ante Zanetic, Jovan Miladinovic, Zeljko Perusic, Dragoslav Sekularac, Drazen Jerkovic, Milan Galic, Zeljko Matus, e Bora Kostic. Treinador: Ljubomir Lovric
Golos: Galic (43’), Metreveli (49’), e Ponedlenik (113’).
Onze Ideal do Europeu:

Yashin (União Soviética)
Durkovic (Jugoslávia)
Masopust (Checoslováquia)
Ivanov (União Soviética)
Novak (Checoslováquia)
Metreveli (União Soviética)
Netto (União Soviética)
Sekularac (Jugoslávia)
Kostic (Jugoslávia)
Galic (Jugoslávia)
Ponedelnik (União Soviética)
Melhores marcadores:*

Heutte (França)
Galic (Jugoslávia)
Jerkovic (Jugoslávia)
Ivanov (União Soviética)
Ponedelnik (União Soviética)

*todos com dois golosLegendas das fotografias:
1- Logotipo oficial do primeiro Campeonato da Europa de Futebol
2- A bonita taça que premeia o vencedor do Europeu, baptizada de Henry Delauny
3- Soviéticos saudam o público após garantirem o triunfo na final
4- O palco da primeira final do Euro: o Parque dos Príncipes, de Paris
5- Capitão soviético Netto ergue a taça
6- O lendário guarda-redes Lev Yashin, considerado a grande estrela deste Europeu 1960
7- François Heutte, o melhor marcador da França no Euro 1960
8- Dois capitães de equipa cumprimentam o árbitro inglês Ellis antes do pontapé inicial da final
9- Soviéticos dão a volta de honra ao campo com o capitão Netto a segurar o troféu conquistado
10- Yashin e Netto mostram a taça na chegada a Moscovo
11- Victor Ponedelnik, o autor do golo do triunfo na final
12- Uma das grandes estrelas deste primeiro Euro, o jugoslavo Milan Galic
13- O "onze" da União Soviética que ficou imortalizado na história

NOTA: Texto escrito em 9 de Maio de 2008 no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

Espanha 1964

O sucesso da primeira edição do Campeonato da Europa (na altura ainda denominado de Taça da Europa das Nações) foi notório na segunda edição da competição com o aumento do número de países participantes. Os 17 do certame inaugural passaram quatro anos depois para 29! Entre os novos aderentes destacavam-se a presença de duas super potências do futebol mundial, a Itália, e a Inglaterra. Dos 33 países filiados então na UEFA apenas quatro continuavam renitentes em aderir ao evento, nomeadamente a República Federal da Alemanha, o Chipre, a Finlândia, e a Escócia.
A fase de qualificação não sofreu grandes alterações em relação à edição inaugural com a excepção da inclusão de mais uma eliminatória em virtude do aumento de participantes. Surpresas nas rondas de apuramento para a fase final existiram algumas, desde já a eliminação da Checoslováquia (aos pés da República Democrata da Alemanha) na ronda pré-eliminar. Checoslovacos que quatros anos antes tinham sido 3ºs no Euro 60, realizado como se sabe na França. Franceses que também nesta ronda eliminariam a estreante e poderosa Inglaterra. Nos oitavos-de-final a grande surpresa chamou-se Luxemburgo, equipa amadora e completamente desconhecida que eliminou a favorita Holanda. Os luxemburgueses estiveram às portas da fase final do Euro 1964, perdendo somente com a Dinamarca (na última ronda antes da fase-final) no terceiro jogo (depois de dois empates, um em casa e outro fora).
Para além dos dinamarqueses atingiam a tão desejada e sonhada fase final do Euro 64, a Hungria, a campeã europeia em título União Soviética, e a Espanha.
Seria este último país que a UEFA responsabilizaria de acolher a fase final do Campeonato da Europa de 1964.
 
A fase final do Euro 64…
As cidades de Madrid e Barcelona foram as escolhidas para albergar os quatro jogos da fase final. As expectativas na selecção da casa eram enormes, todo um país se uniu em torno da sua equipa, inclusive o ditador Franco que aproveitou o evento para vincar a sua conduta política (o fascismo) com que vinha conduzindo o país. Tal como Mussolini havia feito no Mundial 1934 Franco aproveitou este Euro 1964 para promover a sua… política.
Bom, mas passando ao que interessa mesmo, ao futebol, a primeira meia-final ocorreu no dia 17 de Junho num lotadíssimo Estádio Santiago Bernabéu, a casa do maior clube da Europa da época, o Real Madrid, entre a Espanha e a Hungria. 125 mil espectadores, um recorde que prevalece até aos dias de hoje num jogo de uma fase final de um Europeu, assistiram a uma difícil vitória da Espanha sobre a Hungria por 2-1. Os magiares, que sob a orientação técnica de Lajos Baroti (que anos mais tarde treinaria o Benfica) viviam uma fase de renovação. Longe iam os tempos em que a Hungria era tida como a melhor selecção do Mundo, onde pontificavam nomes como Puskas, Kocsis, ou Czibor. Esta Hungria aparecia em Espanha muito renovada, mas com alguns jogadores de grande gabarito como por exemplo Ferenc Bene, e Florian Albert, este último a grande estrela da companhia. Por seu lado a Espanha tinha uma equipa muito aguerrida, o exemplo perfeito daquilo que hoje é conhecido como a "fúria espanhola". A comandar esse grupo de guerreiros estava Luís Suaréz, um homem que ainda hoje é considerado por muitos como o maior jogador espanhol de todos os tempos.
A equipa da casa foi quem mais fez pelo triunfo ao longo desta partida, e viu os seus esforços serem recompensados na etapa inicial com um tento de Jesus Pereda, aos 35 minutos. Quando os 125 mil adeptos espanhóis já festejavam a passagem à final, Bene, aos 84 minutos, restabeleceu a igualdade levando o jogo para prolongamento.
A luta continuaria no tempo extra e eis que aos 115 minutos o velho estádio do Real Madrid veio abaixo quando um homem da casa, Amancio, colocou a Espanha na final ao fazer o 2-1. Até final o herói espanhol foi o guardião basco Iribar que com um grande naipe de defesas impediu os magiares de chegar a uma nova igualdade.
 
A outra meia-final…
No mesmo dia jogavam em Nou Camp, de Barcelona, a União Soviética e a Dinamarca. Os campeões da Europa em título chegavam a Espanha como o alvo a abater, e com uma equipa totalmente renovada em relação àquela que quatro anos havia conquistado em França a primeira edição do Europeu. Yashin, Ivanov, e Ponedelnik eram os únicos sobreviventes da equipa de 60. E para chegar à sua segunda final os soviéticos tiveram pela frente uma equipa esforçada da Dinamarca, mas que no fundo não passavam de um grupo de bons rapazes semi-profissionais que vinham a Espanha aprender com os melhores e… fazer turismo. A diferença entre as duas equipas foi nitidamente sentida em campo, e a União Soviética aplicou a chapa três ao conjunto nórdico sem grande dificuldade. No entanto, os dinamarqueses ainda fizeram duas ou três gracinhas neste jogo, pondo à prova aquele que era considerado o melhor guarda-redes do Mundo, Lev Yashin.

Os 3º e 4º lugares…
Também em Nou Camp, no dia 20 de Junho, foi disputada a partida para a apurar os 3º e 4º classificados. Um jogo que foi disputado quase sem público, somente 4 000 espectadores deslocaram-se ao anfi-teatro da Catalunha para verem jogar Hungria e Dinamarca. Era caso para se dizer que os catalães estavam mais interessados no que se passaria no dia seguinte onde a Espanha poderia obter a sua primeira grande vitória internacional do que neste jogo.
Tal como na meia-final a Dinamarca fazia o papel de equipa mais fraca, não sendo de estranhar que desde muito cedo os húngaros confirmassem o seu favoritismo com um golo obtido aos 11 minutos por Bene. Mas de repente os dinamarqueses vão buscar forças onde ninguém imaginava e aos 82 minutos Bertelsen empata a partida obrigando a um prolongamento. A surpresa estava feita. Mas a maior qualidade técnica dos magiares viria ao de cima no tempo extra com a obtenção de dois golos (da autoria de Novak) que selariam em 3-1 o resultado final, dando assim a medalha de bronze à Hungria.

 
Espanha conquista o seu primeiro grande título 
O fascismo de Franco contra o comunismo dos soviéticos, era assim que era visto o duelo da final do Euro 64. Franco que num camarote do Santiago Bernabéu fez parte de uma multidão de 105 00 espectadores que ansiavam por uma vitória da "fúria espanhola" sobre uma das melhores equipas da época. A Espanha entrou à Espanha, cheia de motivação e com vontade de resolver bem cedo a questão. E logo aos 6 minutos Pereda pôs os seus compatriotas em delírio ao apontar o primeiro golo do jogo. Solicitado por Amancio o extremo-direito Luis Suaréz centrou de primeira para a área com a bola depois de tocar nos pés de um defesa soviético a ir para aos pés de Pereda que abriu o marcador.
A festa da casa duraria apenas dois minutos, pois após um lançamento de Mudrik para Khusainov, que beneficia de um erro clamoroso de Revilla, este último jogador soviético bate o guarda-redes Iribar e faz o 1-1.
A partir daí o jogo passou a ser disputado essencialmente a meio-campo com os guarda-redes Iribar e Yashin a serem meros espectadores. Os soviéticos apostavam no rigor, os espanhóis na sua grande estrela Suaréz.
E quando já todos esperavam por um novo prolongamento o milagre aconteceu. Ao minuto 84 Pereda desmarca-se pela direita, cruza a meia altura para a entrada fulgurante de Marcelino que bateu sem apelo nem agrado o desamparado Yashin.
Era a loucura em Madrid. A Espanha acabava de vencer o seu primeiro, e único até ao momento, grande título internacional de futebol.

Curiosidades do Euro 64…
-A ausência de fair-play: No golo decisivo da Espanha ante a Hungria, na meia-final, o árbitro bela Bavier deveria ter parado o jogo para dar assistência ao médio húngaro Nagy, que estava deitado no relvado. Não o fez, e Lapetra marcou o canto, Marcelino cruzou e Amancio rematou para o fundo das redes.

-Se a final tivesse terminada empatada nos 120 minutos teria sido necessário uma finalíssima, marcada para o dia 23 de Junho, no Estádio Mestalla, de Valência. E se nessa finalíssima a igualdade durasse após o prolongamento a decisão da questão seria resolvida por… moeda ao ar!

-Num domingo de chuva em Madrid, a Espanha nem sentiu a falta de um dos seus jogadores mais talentosos, Del Sol, que foi convocado pelo seleccionador Villalonga mas só apareceu em Espanha no dia 15 por imposição do seu clube de então a Juventus. Na meia-final foi suplente, mas na final nem ao banco foi.

Jogos:

Meias-finais

17 de Junho, em Madrid
Espanha – Hungria: 2-1
(Pereda, aos 35’; Amancio, aos 115’)
(Bene, aos 84’)
17 de Junho, em Barcelona
Dinamarca – União Soviética: 0-3
(Voronin, aos 19’; Ponedelnik, aos 40’; Ivanov, aos 87’)
Jogos dos 3º e 4º lugares

20 de Junho, em Barcelona
Hungria – Dinamarca: 3-1
(Bene, aos 11’; Novak, aos 107’, e 110’)
(Bertelsen, aos 82’)
Final

21 de Junho, no Estádio Santiago Bernabéu, em Madrid
Espanha – União Soviética: 2-1
Árbitro: Arthur Holland (Inglaterra)
Espanha: José Iribar, Feliciano Revilla, Fernando Olivella, Isacio Calleja, Ignacio Zoco, José Fuste, Amancio, Jesus Pereda, Marcelino Martinez, Luís Suaréz, e Carlos Lapetra. Treinador: José Villalonga
União Soviética: Lev Yashin, Victor Chusitkov, Albert Schesternev, Edouard Mudrik, Valeri Voronin, Victor Anickine, Igor Chislenko, Valentin Ivanov, Victor Pondedelnik, Alexei Korneev, e Galimzian Khusainov. Treinador: Gavril Kachalin
Marcadores: Pereda, aos 6’, Khusainov, aos 8’, e Marcelino, aos 84’.
Onze ideal do Europeu:

Yashin (União Soviética)
Rivilla (Espanha)
Olivella (Espanha)
Amancio (Espanha)
Novak (Hungria)
Zoco (Espanha)
Suaréz (Espanha)
Bene (Hungria)
Albert (Hungria)
Ivanov (União Soviética)
Pereda (Espanha)

Melhores marcadores:*

Pereda (Espanha)
Bene (Hungria)
Novak (Hungria)
*todos com dois golos

Legendas das fotografias:

1- Logotipo oficial do Espanha 1964

2- O "onze" da Espanha que fez história na final ante a poderosa União Soviética

3- Um momento do empolgante jogo das meias-finais entre espanhóis e magiares

4- Espanha celébra um golo na final contra os soviéticos

5. A estrela da selecção húngara: Florian Albert

6- Espanhóis posam para a fotografia já com a taça na mão

7- O treinador espanhol Villalonga é levado em ombros após a vitória final

8- Um dos muitos duelos da grande final

9- O palco da final: o majestoso Santiago Bernabéu, em Madrid

10- Primeira página do diário desportivo espanhol Marca noticiando a grande conquista

11- O espanhol Pereda, um dos melhores marcadores do Euro 64

12- Mais um momento de grande perigo protagonizado pela Espanha na grande final

NOTA: Texto escrito em 23 de Maio de 2008 no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

Itália 1968

A terceira edição daquela que era já a maior competição do futebol europeu sofreu algumas alterações. Desde logo a sua designação oficial, passando de Taça da Europa das Nações para Campeonato da Europa de Futebol. Depois a forma de apuramento para a fase final, que deixava de ser feita através de eliminatórias directas para ser realizada através de uma fase de grupos. Outra novidade nesta edição prendeu-se com a aceitação definitiva de todos os países membros da UEFA à competição, finalmente a República Federal da Alemanha, a Escócia, a Finlândia, e o Chipre disseram "sim" ao Euro. À partida para o Europeu de 1968 estavam inscritos 31 países dos 33 filiados na UEFA, já que Malta e Islândia (participantes nas duas anteriores fases de qualificação) resolveram ficar de fora.
O sorteio de apuramento ditou então oito grupos, na sua quase total maioria constituídos por quatro equipas, a excepção era o grupo 4 que somente tinha três selecções.
Os vencedores de cada grupo (oito selecções) jogaram então uma eliminatória a duas mãos para apurar os quatro países que iriam disputar a fase final. E os "felizardos" foram a Inglaterra (que eliminou a campeã da Europa em título, a Espanha), a Jugoslávia (eliminou a França), a Itália (afastou a Bulgária), e mais uma vez a União Soviética (eliminou a Hungria) que obtinha desta maneira a sua terceira qualificação para a fase final em outras tantas edições realizadas! Se dúvidas existissem quanto ao facto de os soviéticos serem uma das melhores equipas da Europa elas aqui ficavam desfeitas.
Para sedear a fase final do Euro 68 a UEFA escolheria a Itália, sendo que as cidades de Nápoles, Florença e Roma seriam os palcos dos jogos.

A vitória através de moeda ao ar!

Itália, Jugoslávia, União Soviética, e Inglaterra iriam então lutar entre si para ver quem sucederia à Espanha no trono do futebol europeu ao nível de selecções. Favoritos? Talvez os ingleses, que dois anos antes tinham encantado o Mundo ao vencer o "seu" próprio Mundial. Os campeões do Mundo tinham (teoricamente) no seu grupo de trabalho "armas" mais do que se suficientes para conquistar a Europa, tais como Bobby Charlton, Geoffrey Hurst, ou Bobby Moore.
Os soviéticos eram uma equipa em remodelação, continuavam fortes, é certo, mas não tinham o fulgor da equipa que oito anos antes havia conquistado o Euro 60, e sobretudo já não tinham o seu grande "comandante", o lendário guarda-redes Lev Yashin.
Os jugoslavos atingiam a sua segunda fase final, mas eram… uma incógnita.
Quanto à equipa da casa poucos acreditavam que pudesse fazer algo de bom neste Europeu, pois ainda ninguém havia esquecido o escândalo que a "squadra azzurra" havia protagonizado dois anos antes no Mundial 66 onde foi vencida, eliminada (da fase seguinte), e ridicularizada, na primeira fase pela desconhecida Coreia do Norte! Por isso, as expectativas num triunfo final italiano eram muito ténues. Mas como estavam enganados os críticos da "azzurra"!
Na primeira meia-final disputada a 5 de Junho no Estádio São Paolo, em Nápoles, os italianos jogavam contra a União Soviética. Um jogo que foi a prova provada, por assim dizer, de que no futebol por vezes a sorte é mesmo um factor decisivo. Mas já lá vamos.
Este foi um jogo onde o medo levou a melhor, ou seja, as duas equipas temeram-se demasiado uma à outra durante os 90 minutos, não criando grandes oportunidades de golo ao longo deste período. O pendor defensivo imperou. E o cenário repetiu-se nos 30 minutos de prolongamento para azar dos quase 70 000 adeptos que estavam nas bancadas do São Paolo e que assistiram a um futebol extremamente cauteloso de parte a parte. E como na altura não havia desempates através de grandes penalidades o árbitro teve de decidir o vencedor do jogo através de… moeda ao ar! E a sorte saiu à equipa da casa que assim avançava para afinal de Roma, impedindo os soviéticos de disputarem a sua terceira final consecutiva.
Campeões do Mundo surpreendidos pelos jugoslavos na meia-final…
A equipa do seleccionador inglês Alf Ramsey era praticamente a mesma que dois anos antes havia conquistado o Mundo, mas em Florença esse estatuto de pouco ou nada serviu aos súbitos de "sua majestade" que sucumbiram aos pés de uma jovem Jugoslávia. Jovem mas deveras aguerrida, já que fizeram de tudo para travar os artistas ingleses, recorrendo por vezes a faltas duríssimas. Cartões amarelos para os jugoslavos foram mais do que muitos e houve até um vermelho, para Mullery. As oportunidades de golo não foram muitas, mas numa das poucas incursões dos jugoslavos à baliza do lendário Gordon Banks a estrela do conjunto de leste Dzajic mostrou o porquê de ser considerado um dos melhores atacantes da Europa antecipando-se a Bobby Moore e batendo o guardião inglês fazendo o único golo do jogo e pondo a sua equipa na final.

… ficam com a medalha de bronze

A 7 de Junho encontraram-se no Estádio Olímpico de Roma duas das maiores potências do futebol mundial de então para decidir quem ficaria com o último lugar do pódio deste Euro 68. Um jogo onde o prestígio e o orgulho estava acima de tudo, e neste capítulo os ingleses levaram a "coisa" mais a sério. Para os homens de leste jogar este jogo de consolação não era o mesmo que jogar a final, onde haviam estado nas primeiras duas edições, e este facto de certa forma afectou-os, pois faltava-lhes algo determinante para vencer uma partida de futebol: motivação. Com Bobby Charlton nos seus melhores dias e com Moore a mostrar o porquê de ser um dos melhores centrais do planeta a Inglaterra venceu os soviéticos por 2-0, com um golo a meio da primeira parte (por Bobby Charlton), e outro na mesma fase da etapa complementar (por Hurst).

Duas finais para apurar o campeão

No dia 8 de Junho o Olímpico de Roma engalanou-se para receber a final da grande competição. 70 000 espectadores lotaram as bancadas para ver um jogo extremamente táctico entre Jugoslávia e Itália. A esperança de ambos os treinadores era de que uma das suas estrelas pudesse num lance de inspiração resolver o jogo. E foi precisamente uma das muitas estrelas que esteve em campo nesse dia a abrir o marcador, mais precisamente Dzadic que aos 39 minutos bateu o guardião Zoff.
Na segunda parte a equipa de leste teve duas oportunidades para "matar" o jogo mas desperdiçou-as, confirmando a máxima do futebol de que equipa que não marca sofre. E foi precisamente isso que aconteceu ao minuto 80 quando num livre directo Domenghini faz a bola passar entre a barreira para entrar na baliza.
Foram precisos mais 30 minutos de jogo que pouca ou nenhuma emoção tiveram, sendo por isso necessário recorrer a uma finalíssima, algo que acontecia pela primeira vez na história desta então jovem competição.
Dois dias depois no mesmo palco as equipas voltaram a encontrar-se. Jogar dois jogos no espaço de 48 horas era fisicamente uma tarefa complicada, algo que se viria a confirmar mais para o lado dos jugoslavos. A Itália com um banco mais apetrechado utilizou "sangue fresco" tendo dominando do principio ao fim o encontro. Riva, aos 12 minutos, e Anastasi, aos 31 minutos, deram o título à Itália. Os jugoslavos não tiveram a capacidade física e mental da primeira final e pagaram por isso.
A Itália com nomes como Luigi Riva, Giacinto Facchetti, Sandro Mazzola, e o então promissor guarda-redes Dino Zoff conquistava o título Europeu (o seu único até à data) e recuperava o prestígio internacional perdido dois anos antes no Mundial 66.

Curiosidades do Euro 68...
-Desgastada física (120 minutos com a Itália três dias antes) e emocionalmente (eliminados através de moeda ao ar) a União Soviética, a única equipa que marcara presença em todas as edições do Europeu até então saiu de Itália sem nenhum golo marcado!
-Joaquim Campos, árbitro português, que havia dirigido dois jogos nas fases finais dos Mundiais de 58, e 66, foi um dos fiscais de linha (hoje em dia denominados de árbitros assistentes) da finalíssima.
-Na finalíssima a Itália reforçou-se com cinco jogadores que não haviam participado na final (De Sisti, Salvadore, Rossato, Mazzola, e Riva) ao passo que a Jugoslávia apenas trocou um elemento (Petkovic por Hosic).
Jogos:

Meias-finais

5 de Junho, em Nápoles
Itália – União Soviética: 0-0*
*apurada a Itália por moeda ao ar
5 de Junho, em Florença
Jugoslávia – Inglaterra: 1-0
(Dzajic, aos 86’)
Jogos dos 3º e 4º lugares

7 de Junho, em Roma
Inglaterra – União Soviética: 2-0
(Charlton, aos 39’; Hurst, aos 63’)
Final

8 de Junho, em Roma
Itália – Jugoslávia: 1-1
(Domenghini, aos 80’)
(Dzajic, aos 39’)
Finalíssima
10 de Junho, no Estádio Olímpico de Roma
Árbitro: José Maria Ortiz, de Espanha
Itália: Dino Zoff, Pietro Anastasi, Tarcisio Burgnich, Giancarlo De Sisti, Ângelo Domenghini, Giacinto Facchetti, Aristide Guarneri, Sandro Mazzola, Luigi Riva, Roberto Rossato, e Alessandro Salvadore. Treinador: Ferruccio Valcareggi.
Jugoslávia: Ilija Pantelic, Mirsad Fazlagic, Milan Damjanovic, Blagoge Paunovic, Dragan Holcer, Vahidin Musemic, Dragan Dzajic, Miroslav Pavlovic, Jovan Acimovic, Dobrivoje Trivic, e Idiz Hosic. Treinador: Rajko Mitic
Golos: Riva (12’), e Anastasi (31’).
Onze ideal do Euro 68:
Zoff (Itália)
Fazlagic (Jugoslávia)
Schesternev (União Soviética)
Moore (Inglaterra)
Facchetti (Itália)
Domenghini (Itália)
Osim (Jugoslávia)
Mazzola (Itália)
Dzajic (Jugoslávia)
Hurst (Inglaterra)
Riva (Itália)
Melhor marcador:
Dzajic (Jugoslávia) com dois golos
Legendas das fotografias:
1- Logotipo oficial do Itália 1968
2- Capitão italiano Facchetti ergue a Taça Henry Delaunay
3- A equipa da Itália que conquistou o Euro 1968
4- O célebre guardião transalpino Dino Zoff foi uma das peças chave do sucesso da sua equipa
5- Uma das grandes estrelas da fase final do Euro 68: o inglês Bobby Charlton
6- Imagem da finalíssima entre Itália e Jugoslávia
7- O homem que abriu caminho para o triunfo italiano: Luigi Riva
8- Um dos melhores jogadores do Mundo de todos os tempos: o italiano Giacinto Facchetti
9- O melhor marcador do Euro 68: Dzajic

NOTA: Texto escrito em Maio de 2008 no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

Bélgica 1972

Prosseguimos a nossa viagem pela maravilhosa história dos Campeonatos da Europa de Futebol para desta feita dar-mos uma vista de olhos àquilo que foi a quarta edição do certame, o Euro 1972.
A prova atingiu nesta edição um recorde de participantes, mais precisamente 32 países, sendo a excepção a Islândia que mais uma vez decidia ficar de fora da fase de qualificação.
Mais uma vez foram sorteados oito grupos de apuramento, desta feita todos eles com quatro selecções, sendo que o primeiro classificado avançaria para uma eliminatória final com vista a serem então definidos os quatro países que participariam na fase final, tudo igual ao que se fizera na edição anterior.
Fase de qualificação que decorreu sem grandes surpresas, exceptuando as eliminações da Espanha, que teve o azar de cair no grupo da forte União Soviética, e da França que ficou em 3º lugar de um grupo dominado pela Hungria.
Na derradeira eliminatória com vista ao apuramento para a fase final o sorteio ditou o confronto entre dois dos grandes colossos do futebol Mundial, a Inglaterra e a República Federal da Alemanha (RFA). E o impensável acabou por acontecer na "catedral" de Wembley onde os alemães bateram no jogo da 1ª mão os ingleses por 3-1, matando praticamente as aspirações britânicas quanto a uma presença na fase final. Na 2ª mão, em Berlim, empate a zero bola, e a RFA garantia a sua primeira presença numa fase final de um Euro.
Outro escândalo aconteceu no confronto entre os campeões da Europa em título, a Itália, e a Bélgica com estes últimos a eliminarem os transalpinos. A Hungria bateu a Roménia e a União Soviética a Jugoslávia. Os soviéticos mantinham assim a tradição, ou seja, marcavam mais uma vez presença na fase final do Europeu.
Hungria, RFA, União Soviética, e Bélgica eram assim os países que iriam estar presentes na fase final do Euro 72 que a UEFA decidiu realizar-se em terras belgas.

Bélgica acolhe a grande fase final
Três cidades belgas ficaram responsabilizadas pela UEFA para acolher a fase final do Euro, mais precisamente Antuérpia, Liège, e Bruxelas.
A primeira meia-final decorreu no Bosuilstadion, em Antuérpia, entre a selecção da casa e a poderosa RFA comandada pelo "kaiser" Franz Beckenbauer. Os belgas tinham no entanto uma equipa de respeito, eram apelidados na altura como os "diabos vermelhos" e tinham entre outros um fabuloso jogador de seu nome Paul Van Himst, considerado ainda hoje como o melhor belga de todos os tempos na arte de jogar futebol.
Mas os alemães não se intimidaram pelo facto de terem contra si um ambiente hostil e uma equipa de respeito e fizeram uma exibição de gala. Simplesmente não deram chances aos belgas. O baixo e poderoso avançado Gerd Muller fez dois golos, aos 24, e aos 71 minutos, que traduziram a superioridade mais do que evidente dos germânicos. A sete minutos do fim os belgas ainda deram um ar de sua graça quando Polleunis fez o 1-2, mas pouco mais puderam fazer perante a máquina alemã.
O resultado peca até por escasso, pois a avalanche alemã foi de tal forma avassaladora que se o resultado tivesse mais dois ou três golos a seu favor não seria de estranhar. Desde logo ficou evidente que o rigor táctico, aliado à frieza e à força física das estrelas alemãs muito dificilmente deixaria escapar a vitória final deste Euro 72.

A tradição ainda era o que…era

Também no dia 14 de Junho, desta feita em Bruxelas, a União Soviética procurava atingir a sua terceira final em quatro participações em fases finais. Pela frente os soviéticos tinham a Hungria, que participava pela segunda vez (e última até à data) na sua história numa fase final (a primeira havia sido em 1964). A União Soviética chegava à sua quarta fase final com novos jogadores mas com a mentalidade de sempre, ou seja, rigor táctico e físico quanto baste. Este confronto de leste atraiu pouquíssimos espectadores ao Estádio Van der Stock, quiçá antevendo o jogo demasiado táctico e porque não dizê-lo sonolento que ambos os conjuntos praticaram. Foi um jogo "do gato e do rato" com as duas equipas à espera de um erro do adversário para poder vencer o jogo. Acabariam por ser os húngaros a cometer o erro fatal, aos 53 minutos, aproveitado por Konkov que ofereceu assim a terceira final à União Soviética. Húngaros que também se podem queixar da falta de sorte, ou de pontaria, porque antes do golo soviético desperdiçaram uma grande penalidade.

Medalha de bronze ficou em casa

Em Liège, no dia 17 de Junho, Bélgica e Hungria discutiram entre si quem ficaria com o bronze deste Euro 72. A qualidade da equipa da casa ficaria evidente e foram as suas duas estrelas mais cintilantes da época Lmbert e Van Himst a fazer os golos (ainda antes da meia-hora de jogo) do triunfo de 2-1 sobre a Hungria. Ficou a ideia de que se não fossem os poderosos alemães a Bélgica não desperdiçaria a oportunidade de vencer o "seu" Euro, pois tinham de facto uma equipa fantástica. Um conjunto de jogadores que foram digamos que a semente para as fabulosas equipas que os belgas apresentaram quer em fases finais de Europeus (1980, e 1984), quer de Mundiais (1982, 1986, 1990, e 1994), no fundo os anos de ouro ao nível do futebol deste pequeno país.

RFA no trono da Europa pela primeira vez

No Estádio Rei Balduíno, em Bruxelas, RFA e União Soviética mediam forças para ver quem sucederia à Itália como donos da Europa. Desde o apito inicial que a classe dos germânicos foi evidente o que provocou um claro desequilíbrio no "filme" do jogo. Muller, aos 27 minutos, começou a construir o triunfo, na sequência de uma arrancada magnifica de Beckenbauer desde o seu meio-campo. À entrada da área o capitão alemão serve Netzer que rematou de primeira à trave, na recarga Heynckes obriga o excelente guardião soviético Rudakov a uma grande defesa para a frente onde apareceu oportuno o goleador Muller que não perdoou.
Já na segunda parte Wimmer, ao minuto 52, amplia a vantagem alemã após uma excelente desmarcação de Heynckes. E como não há duas sem três Gerd Muller aos 58 minutos fez o 3-0 final. De facto, esta foi uma das finais mais desequilibradas da história do Europeu. Rezam as crónicas da partida que em certos períodos os alemães trocaram a bola entre si mais de três dezenas de vezes durante largos minutos sem que os soviéticos os conseguissem importunar.
Este seria o primeiro dos três títulos europeus que os alemães alcançaram ao longo da história (até à data). Era o principio da década de ouro do futebol da RFA, que dois anos mais tarde se sagraria campeã do Mundo, e que ao nível de clubes (através do Bayern Munique) também iria dominar o futebol europeu. Jogadores como Beckenbauer, Muller, Breitner, Netzer, Maier, e Hoeness começavam a entrar aqui na história do futebol mundial.

Curiosidades do Euro 72...

-Fiel à escola de grandes guarda-redes soviéticos na arte de defender grandes penalidades (Yashin defendeu ao longo da sua carreira 52!!!) a União Soviética agradeceu a Rudakov a presença na final depois deste defender um penalty na meia-final ante a Hungria.

-Com a sua maior estrela a titular, Florian Albert (tinha estado ausente na meia-final), no jogo de atribuição dos 3º e 4º lugares, a Hungria optou pelo jogo duro ante os belgas, cometendo 13 faltas em 90 minutos. Coisa pouca para os dias de hoje!!!

-Jogo muito desequilibrado o da final. Domínio completo dos alemães numa época em que os atrasos para os guarda-redes ainda eram possíveis, embora a RFA nunca tenha feito isto neste jogo. De tal modo que o guardião Sepp Maier limitou-se a tocar na bola apenas nos pontapés de baliza!

Jogos:

Meias-finais

14 de Junho, em Antuérpia
Bélgica – RFA: 1-2
(Polleunis, aos 83’)
(Muller, aos 24’, e 71’)

14 de Junho, em Bruxelas
Hungria – União Soviética: 0-1
(Konkov, aos 53’)

Jogos dos 3º e 4º lugares

17 de Junho, em Liège
Hungria – Bélgica: 1-2
(Ku, 53’)
(Lambert, aos 24’; Van Himst, aos 28’)
Final

18 de Junho, no Estádio Rei Balduíno, em Bruxelas
Árbitro: Ferdinand Marschall (Áustria)
RFA: Sepp Maier, Horst-Dieter Hottges, Paul Breitner, Hans Schwarzenbeck, Franz Beckenbauer, Herbert Wimmer, Josef Heynckes, Uli Hoeness, Gerd Muller, Gunter Netzer, e Erwin Kremers. Treinador: Helmut Schon
União Soviética: Evgueni Rudakov, Revaz Dzodzuaschvili, Murtaz Khurtsliava, Vladimir Kaplichny, Iouri Istomine, Anatoli Banischevsky, Victor Kolotov, Anatoli Konkov, Vladimir Troschkine, Anatoli Baidachny, e Vladimir Onischenko. Treinador: Alexandr Ponomarjev
Golos: Muller, aos 27’ e 58’, Wimmer, aos 52’.

Onze ideal do Euro 72:
Rudakov (União Soviética)
Dzodzuashvili (União Soviética)
Khuurtsilava (União Soviética)
Beckenbauer (RFA)
Breitner (RFA)
Wimmer (RFA)
Netzer (RFA)
Heynckes (RFA)
Lambert (Bélgica)
Hoeness (RFA)
Muller (RFA)
Melhor marcador:
Gerd Muller com quatro golos
Legendas das fotgrafias:
1- Logotipo oficial do Bélgica 1972
2- "Kaiser" Beckenbauer recebe o desejado troféu
3- Muller e Breitner festejam a vitória no Euro 72
4- Um momento da grande final entre alemães e soviéticos
5- A estrela da selecção belga: Paul Van Himst
6- Alemães dominaram completamente os soviéticos na final
7- O guarda-redes soviético Rudakov mostrou-se um digno sucessor do lendário Yashin
8- Os onze magníficos alemães que entraram em campo (na final) para fazer história
9- O melhor marcador do Euro 72, Gerd Muller, faz um dos seus dois golos na final

NOTA: Texto escrito em 26 de Maio de 2008 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Jugoslávia 1976

A menos de ano e meio do Euro 2012 o Museu Virtual do Futebol regressa hoje à vitrina que guarda as memórias dos Campeonatos da Europa para recordar aquela que foi talvez a primeira grande surpresa da competição: a vitória da Checoslováquia no Euro 76. Esta foi desde o princípio, isto é, desde a fase de qualificação, a equipa sensação da 5ª edição do Europeu de futebol, aquilo a que se pode chamar de um verdadeiro tomba-gigantes.
Na fase qualificação ficaram com o 1º lugar de um grupo que tinha como grande favorita a poderosa Inglaterra, posição essa que lhes permitiu jogar o play-off de acesso à fase final do Euro 1976 com a até então única equipa que havia participado em todas as fases finais da prova, a União Soviética. No duelo com os soviéticos levaram a melhor, triunfando em Bratislava por 2-0 no encontro da 1ª mão e empatando a duas bolas no jogo da 2ª, carimbando desta forma o passaporte para a fase final da competição. Play-off’s que à semelhança da fase grupos decorreram sem grandes surpresas, ou seja, os favoritos levaram a melhor sobre os seus oponentes.
Assim, a Jugoslávia afastou o Pais de Gales (2-0 na primeira mão e 1-1 na segunda), a República Federal da Alemanha (RFA) derrotou a Espanha (1-1 em Madrid e 2-0 em Munique), e por fim a Holanda cilindrou os seus vizinhos da Bélgica (5-0 em Roterdão e 2-1 em Bruxelas).
Estavam encontradas as 4 selecções finalistas do Euro 76, tendo então a UEFA atribuído a organização do evento à Jugoslávia.

“Laranja mecânica” neutralizada pelos checos

Zagreb e Belgrado foram as duas cidades escolhidas para sediar o Europeu. O primeiro encontro decorreu no Estádio Maksimir, em Zagreb, e colocava frente a frente a poderosa Holanda e o menos favorito dos países em prova à vitória final do Euro, a Checoslováquia.
Dois anos antes, no Mundial de 1974, o qual decorreu na Alemanha, a Holanda havia encantado o planeta da bola com o seu futebol mágico… e total.
A “laranja mecânica” como então ficou conhecida partia para este jogo naturalmente como a grande favorita para chegar ao jogo final… quem sabe contra a Alemanha, naquela que seria uma reedição da final do Mundial de dois anos antes, e uma oportunidade de ouro para a vingança das “túlipas”. Só que os planos saíram furados a Cruyff e companhia perante os frios e rigorosos checos. Estes marcaram primeiro por intermédio do seu capitão de equipa Ondrus à passagem do minuto 19.
Sem saber muito bem o que se estava a passar perante aquela quase desconhecida selecção a Holanda ainda conseguiria chegar à igualdade a 13 minutos do final beneficiando da infelicidade de Ondrus que ao contrário do que fizera no primeiro tempo enviou a bola para o fundo da sua própria baliza. Resultado final: 1-1, e a Europa estava espantada com o desempenho dos checos… mas o choque ainda estava para chegar.
No prolongamento de um jogo que teve arbitragem controversa, aliás neste capítulo reside a curiosidade de que as três expulsões (duas para a Holanda e uma para a Checoslováquia) constituem um recorde nos dias de hoje, ou seja, nunca numa fase final um encontro teve tantas expulsões, a frieza dos checos veio ao de cima em contraste com o nervosismo holandês. Nehoda, aos 114, e Vesely, aos 118, dariam a machadada final na laranja e carimbavam o passaporte para a final.

Campeões do Mundo e da Europa não ganharam para o susto

Um dia mais tarde os campeões de Mundo e da Europa em título, a Alemanha Ocidental, também não ganhou para o susto diante da anfitriã Jugoslávia.
Em Belgrado os homens da casa talvez inspirados pela surpresa checa da véspera não se fizeram rogados e desde o apito inicial tomaram as rédeas do jogo. Resultado desse domínio? Uma vantagem de dois golos ao intervalo ( Popivoda, aos 19 minutos, e Dzajic, aos 30).
Os compatriotas do Marechal Tito viviam por esta altura uma euforia desmedida, pois estavam a 45 minutos de atingirem a final do seu Euro. Só que para o alemães o jogo só acaba quando o árbitro manda as equipas para os balneários, sendo que na etapa complementar mostraram o porquê de serem os detentores dos dois títulos mais importantes do futebol ao nível de selecções. Quatro minutos passados da hora de jogo Flohe reduziu a desvantagem para já perto do final (minuto 82) Dieter Muller fazer o empate. A festa jugoslava estava estragada. E mais estragada ficou no prolongamento quando o furacão Muller varreu a nação jugoslava com a obtenção de mais dois golos (aos 115 e 119 minutos) aniquilando assim de vez o sonho da Jugoslávia.

Holanda minimiza má campanha com a medalha de bronze

Enganaram-se aqueles que pensavam que o encontro de apuramento dos 3º e 4º lugares iria ser um velório entre as duas equipas derrotadas das meias-finais. Holanda e Jugoslávia encararam o jogo como se de uma final se tratasse, com os primeiros a dar a provar um pouco do sumo da “laranja mecânica” que dois anos antes havia deliciado o Mundo. Geels (27 minutos) e Van de Kerkhof (minuto 39) davam um avanço de dois golos aos holandeses.
A turma da casa não baixou os braços e já em cima da saída para o intervalo (43 minutos) reduziria a desvantagem por intermédio de Katalinski.
Na etapa complementar os balcânicos tomariam conta das operações não sendo pois de estranhar que aos 82 minutos o goleador e estrela-mor da equipa, Dzajic, restabelecesse a igualdade. E como não há duas sem três um jogo do Euro 76 teria de ser decidido no prolongamento. E na 2ª parte do período extra a Holanda voltou a marcar, novamente por Geels, ao minuto 107.
Até final, a “laranja mecânica” susteria com mestria a avalanche jugoslava garantindo assim o 3º lugar na prova.

Um louco chamado Panenka vira herói nacional

Os olhos do Mundo estavam no dia 20 de Junho de 1976 focados em Belgrado, onde mediam forças a surpreendente Checoslováquia e o poderoso exército alemão. Em jogo estava o título europeu e mais uma vez os germânicos partiam como favoritos. Mas da teoria à prática o caminho é longo e os checos voltaram a fazer aquilo que haviam feito ante a Holanda, ou seja, sem nada a perder colocaram as cartas na mesa, por outras palavras o seu futebol frio, rigoroso, e atrevido, foram armas suficientes para que o marcador fosse aberto aos 8 minutos por intermédio de Svehlik.
Não obstante a reacção alemã ao tento madrugador a Checoslováquia aumentava o grau da surpresa aos 25 minutos quando Dobias fez o 2-0. Contudo, uma das grandes estrelas deste Euro 76 não atiraria a toalha ao chão e relançava o jogo ainda antes do intervalo ao fazer o 1-2. Dieter Muller, o nome deste guerreiro germânico.
Os que pensavam que a Alemanha iria na 2ª parte aplicar aos checos o mesmo antídoto aplicado dias antes aos jugoslavos para dar a volta ao marcador enganaram-se profundamente. A Checoslováquia resistiu de uma forma heróica às várias tentativas de chegar ao golo dos alemães, como querendo demonstrar que a sua presença naquela final não era um mero acaso da sorte. No entanto, a um minuto do fim a máquina alemã fez estragos com a obtenção do tento do empate por Holzenbein.
Parecia sina, mas para não fugir à regra mais uma vez teria de se recorrer a um prolongamento para apurar o vencedor. Ambas as equipas seriam muito cautelosas no período suplementar, não sendo de admirar que pela primeira vez na história – e única até à data – o título fosse decidido na marcação de grandes penalidades. Na lotaria os primeiros sete remates seriam convertidos, sendo que na segunda série o lendário Uli Hoeness seria o primeiro a falhar. O título estava nos pés de Antonin Panenka, o qual com uma tranquilidade anormal picou a bola sobre o guarda-redes Sepp Maier fazendo um magistral chapéu que terminou no fundo da baliza. Um acto de loucura com um final feliz que dava o título de campeão da Europa à surpreendente Checoslováquia.

Jogos:

Meias-finais


16 de Junho, em Zagreb
Checoslováquia – Holanda: 3-1
(Ondrus, aos 19’, Nehoda, aos 114’, e Vesely, aos 118’)
(Ondrus, aos 77’ na p.b.)

17 de Junho, em Belgrado
Jugoslávia – RFA: 2-4
(Popivoda, aos 19’, e Dzajic, aos 30’)
(Flohe, aos 64’, e Muller, aos 82’, 115, e 119’)

Jogo dos 3º e 4º lugares

Holanda – Jugoslávia: 3-2
(Geels, aos 27’ e 107’, e Van de Kerkhof, aos 39’)
(Katalinski, aos 43’, e Dzajic, aos 82’)

Final
Checoslováquia – RFA: 2-2 (5-3 nas grandes penalidades)


20 de Junho, no Estádio do Estrela Vermelha, em Belgrado
Árbitro: Sérgio Gonella (Itália)

Checoslováquia: Ivo Viktor, Karol Dobias (Vesely, aos 109’), Jozef Capkovic, Anton Ondrus, Jan Pivarnik, Antonin Panenka, Jozef Moder, Marian Masny, Zdenek Nehoda (Biros, aos 80’), Koloman Gogh, e Jan Svehlik. Treinador: Vaclav Jezek

RFA: Sepp Maier, Berti Vogts, Bernhard Dietz, Hans Georg, Franz Beckenbauer, Herbert Wimmer (Flohe, aos 41’), Rainer Bonhof, Uli Hoeness, Dieter Muller, Erich Beer (Bongartz, aos 80’), e Bernd Holzenbein. Treinador: Helmut Schon

Onze Ideal do Euro 76:
Viktor (Checoslováquia)
Pivarnik (Checoslováquia)
Ondrus (Checoslováquia)
Beckenbauer (RFA)
Krol (Holanda)
Bonhof (RFA)
Pollak (Checoslováquia)
Panenka (Checoslováquia)
Dzajic (Jugoslávia)
Nehoda (Checoslováquia)
Muller (RFA)


Melhor marcador:
Dieter Muller (RFA): 4 golos

Legenda das fotografias:
1- Logotipo oficialdo Euro 1976
2- Checoslovacos festejam título com as camisolas...da Alemanha!
3- Saudação entre os capitães de Checoslováquia e Holanda
4- Fase da final, com Berti Vogts e Ondrus a disputar o lance
5- O invulgar e decisivo pénalti marcado por Panenka
6- O "onze" checoslovaco no dia da final
7- O melhor marcador do Euro 76: Dieter Muller
 
Nota: Texto escrito em 16 de Janeiro de 2011 no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

Itália 1980

A poucos dias do início da grande festa do Euro 2012 o Museu Virtual do Futebol sobe a bordo da Máquina do Tempo para fazer uma viagem pela história da prova mais emblemática ao nível de seleções do Velho Continente. Itália é o nosso destino de hoje, país que em 1980 acolheu a 6º edição do certame chancelado pela UEFA. Uma edição desde logo diferente das cinco anteriores. O crescimento da competição em termos de popularidade obrigou a UEFA a fazer mudanças no figurino da fase final, pretendendo assim doar à prova uma dimensão condizente com prestígio e interesse que ela reunia a nível internacional. A alteração maior prendeu-se com o número de equipas finalistas, ou seja, os participantes da fase final, que passaram de 4 para 8! Novidade também o facto de o país que acolheria a dita fase final ser conhecido ainda antes da fase de qualificação, nação essa que ficava desde logo qualificada para a etapa decisiva do Euro.
Itália foi pois o país escolhido, ao qual se juntariam - após a longa fase de qualificação - outras 7 seleções, nomeadamente Inglaterra, Bélgica, Espanha, República Federal da Alemanha (RFA), Holanda, a campeã em título Checoslováquia, e a surpreendente Grécia, uma equipa até então praticamente desconhecida a nível internacional que venceu o grupo (de qualificação) onde estava inserida nada mais nada menos do que a seleção com mais presenças em fases finais do certame, a União Soviética.
Chegadas a Itália - que acolhia o Euro pela segunda vez na sua história - as seleções foram divididas em dois grupos de quatro equipas, residindo aqui também uma novidade em termos de fases finais, uma vez que nas edições anteriores a competição era apenas composta por meias-finais, jogo de atribuição dos 3º e 4º lugares, e final. Definido ficou que os vencedores de cada grupo seriam os finalistas da competição, enquanto que os segundos classificados iriam discutir entre si o 3º lugar.
Quatro cidades transalpinas acolheram o Euro 1980: Turim, Nápoles, Milão e a capital Roma.

Alemanha rejuvenescida garante final


No dia 11 de junho de 1980 a bola começa a rolar na 6ª edição do Campeonato da Europa. Frente a frente, no Estádio Olímpico de Roma, estiveram os dois finalistas da edição de 1976, a RFA e a Checoslováquia. Totalmente rejuvenescida - em relação à década dourada de 70, onde conquistaram o Euro 72 e o Mundial 74 - a seleção germânica vingaria a derrota surpreendente do jogo final de 76 graças a um golo solitário da jovem estrela do Bayern de Munique Karl-Heinz Rummenigge. No outro jogo do Grupo 1, em Nápoles, a Holanda - já sem os magos Cruyff e Neeskens, mas ainda com lendas como Krol, Haan, ou Nanninga - sentiu algumas dificuldades em derrotar por 1-0 a estreante Grécia. A fortaleza grega foi invadida apenas aos 65 minutos... e de grande penalidade!
Estes resultados inaugurais indicavam que muito dificilmente RFA ou Holanda não seriam uma das finalistas do Euro 80, e assim sendo o confronto entre as duas seleções rivais na jornada seguinte ganhava contornos de jogo decisivo. O mítico estádio San Paolo de Nápoles acolheria este clássico do futebol mundial. De um lado uma nova RFA, com jovens e promissores jogadores como Rummenigge, Klaus Allofs, Schumacher, Stielike, Schuster, e um tal de Lothar Matthaus, que prometiam seguir as pisadas da lendária geração alemã liderada por Franz Beckenbauer que na década anterior havia conquistado tudo o que havia para conquistar. Do outro uma "laranja" que mesmo sem o doce sumo de outrora se afigurava como uma equipa talentosa e habituada aos grandes palcos internacionais. Levariam a melhor os comandados de Jupp Derwall, um ex-adjunto do mestre da tática Helmut Schon que em 1978 assumiu os destinos da seleção teutónica, muito por culpa de um endiabrado Klaus Allofs, autor dos 3 golos com que a RFA bateu (3-2) a vizinha Holanda, e desta forma colocariam um pé na grande final da competição. Com este hattrick Allofs iria garantir no final do torneio o título de melhor marcador.
Uma outra nota curiosa neste jogo entre alemães e holandeses reside no facto daquele que anos mais tarde viria a ser considerado como um dos melhores jogadores do Mundo, de seu nome Lothar Matthaus, então um jovem com 19 anos, ter feito a sua única aparição em todo o Europeu, ao atuar durante os últimos 15 minutos.
No outro jogo do grupo reapareceu Panenka, o herói do Euro 76, ao apontar um dos três golos com que a Checoslováquia derrotou (3-1) a Grécia no Olímpico de Roma.
No derradeiro dia a Grécia fez uma gracinha ao alcançar um empate a zero bolas com os poderosos alemães, que assim garantiam o 1º lugar da chave e o consequente apuramento para a final. Checos e holandeses ficariam arredados do encontro mais aguardado, empatando entre si (1-1) num jogo que vincou o excesso de dureza com que a "laranja" se apresentou em Itália, e prova disso é o pontapé de Kist ao checo Jurkemik, e o soco de Rep ao também jogador checo Gogh. Já no desafio inaugural do grupo, ante a Grécia, a Holanda tinha abusado das entradas à margem da lei, o que levaria os gregos a acusarem os holandeses de jogo sujo. Para a Checoslováquia, a ainda detentora do ceptro de campeã, o Europeu não se ficava por ali, já que ainda restava o jogo de apuramento dos 3º e 4º lugares.
Já os gregos, que ninguém conhecia, a participação no Euro valeu pela experiência, pela oportunidade dos seus "anónimos internacionais" conviverem de perto com alguns dos nomes mais badalados do futebol mundial de então. Grécia que estaria por esta altura bem longe de imaginar o que iria acontecer 24 anos depois no Europeu realizado em Portugal. Mas isso são histórias para contar numa próxima visita à vitrina dos Campeonatos da Europa. Por agora continuamos a desfiar o novelo das peripécias do Itália 80.

Luta até ao fim no Grupo 2

E se no Grupo 1 a RFA acabou por não ter grandes dificuldades em garantir o 1º lugar, na outra chave do Euro a história foi bem diferente. No Grupo 2 houve equilíbrio e luta até ao fim, acabando por levar a melhor a seleção de quem talvez menos... se esperava! Favoritos? Itália e a Inglaterra. Mas tal acabaria por não ser tão evidente logo na 1º jornada realizada a 12 de junho. No Comunale de Turim a Inglaterra liderada pelo bi Bola de Ouro Kevin Keegan - além de vários elementos dos campeões europeus de clubes Liverpool e Nottingham Forest - não foi além de um empate a um golo diante da Bélgica que como estrela principal tinha Frankie Van der Elst. Tinha até esse dia, pois a partir dai o Mundo ficou a conhecer um naipe de talentosos jogadores que haveriam de conduzir os belgas a momentos épicos nos anos que se seguiriam. No Giuseppe Meazza, em Milão, a seleção da casa procurava repetir o êxito de 1968, quando diante do seu público venceu o Europeu. Mesmo abalada pelos escândalos das apostas desportivas, que afastou disciplinarmente, entre outros, a estrela Paolo Rossi, a squadra azzurra era apontada como uma das principais favoritas a vencer o torneio, já que talento não lhes faltava: Gentile, Tardelli, Cabrini, Causio, Graziani, e o veterano Dino Zoff eram a prova disso. Mas da teoria à prática o caminho por vezes é longo e sinuoso, e o que é certo é que a estreia da azzurra deixou muito a desejar conforme traduz o triste empate a zero golos ante a Espanha de Arconada.
A 15 de junho, em Turim, as duas - à partida - favoritas do grupo mediam forças, num duelo de tudo ou nada, ou seja, depois dos desoladores resultados averbados por ambas no primeiro jogo quem perdesse este confronto ficaria praticamente de fora da fase seguinte. 60 000 pessoas assistiram a um jogo intenso decidido ao minuto 79 por Tardeli. A Itália ganhava uma nova alma, acreditando que podia repetir a façanha de 1968, enquanto que os súbitos de Sua Majestade preparavam as malas para regressar a casa de forma inglória. Pior do que a exibição de "king" Keegan e seus súbitos foi o (mau) comportamento dos adeptos britânicos dentro e fora dos estádios italianos. O temível hooliganismo dava sinais da sua existência, e este era apenas um aviso das tragédias que iriam ser acontecer na sequência destes tristes comportamentos.
E em Milão a surpresa do torneio confirmava-se. A Bélgica mostrava que o empate com a Inglaterra não havia sido mera obra do acaso, e a prova disso foi o facto de a Espanha não ter tido argumentos para evitar a derrota (1-2) ante os "diabos vermelhos" liderados pelo mestre da tática Guy Thys. Com esta vitória os belgas estavam, contra todas as previsões, na frente do grupo, sendo que para atingir a final apenas precisavam de um empate com a seleção da casa no último jogo, já que apesar de por esta altura ambas as equipas terem os mesmos pontos contabilizados a Bélgica beneficiava do facto de ter mais golos marcados.
No Olímpico de Roma com 55 000 espetadores assistiu-se a um duelo empolgante. A squadra azzurra, como lhe era exigido, tudo fez para furar a bem escalonada muralha vermelha, mas pela frente encontrou um combinado moralizado pelas boas exibições patenteadas nos primeiros jogos. Além de que na baliza belga morava aquele que viria a ser considerado como um dos melhores guarda redes do planeta de todos os tempos, Jean-Marie Pfaff. 0-0 foi o resultado final de um jogo arbitrado pelo português António Garrido, de quem os italianos se queixariam bastante, acusando o juiz luso de não ter assinalado uma grande penalidade a seu favor já bem perto do final do encontro. Perante isto, a Bélgica estava de forma surpreendente na final, e ai, acontecesse o que acontecesse, nunca mais o Mundo se iria esquecer de nomes como Pfaff, Eric Gerets, Meeuws, ou Ceulemans.
Em Nápoles, num jogo sem história, Inglaterra despediu-se da competição com uma vitória (2-1) sobre uma desoladora Espanha.

Checoslovacos ficam com o último bronze exclusivo

No dia 21 de junho o Estádio San Paolo recebeu a final dos derrotados. Checoslováquia e Itália procuravam um lugar de destaque no pódio final da competição. E o resultado foi um triste e monótono 1-1 no final dos 90 minutos, facto que obrigou ao desempate através de grandes penalidades. Este cenário era por demais familiar aos checoslovacos que quatro anos antes haviam conquistado o Euro 76 na lotaria dos penaltis. E seria novamente desta forma que levariam para casa a medalha de bronze, acabando por vencer os transalpinos no "tiro ao alvo" por 9-8. A monotonia deste jogo traduzida na forma quase desinteressada que ambas as equipas encararam a disputa fez com que a UEFA decidisse posteriormente que dali em diante os derrotados das meias finais ficariam ambos com o 3º lugar do campeonato, "banindo" assim a "final de consolação" dos Europeus.

RFA sagra-se bi campeã da Europa

Domingo, 22 de junho de 1980. O Estádio Olímpico de Roma acolhia 48 000 espetadores que esperavam ansiosamente pela entrada em campo dos dois finalistas do segundo Euro realizado em solo italiano. Os alemães eram tidos como favoritos, e conformariam-no logo aos 10 minutos quando o possante avançado Hrubesch bateu Pfaff pela primeira vez. A RFA mandava no jogo, e só não ampliou o marcador ainda dentro da 1ª parte pois na baliza dos belgas estava o notável Jean Marie Pfaff. Na 2ª parte assistiu-se a mais do mesmo, ou seja, os alemães a ditar leis. Até já bem perto do final a Bélgica mostrou o porquê de estar ali, de ter deixado pelo caminho as favoritas Itália e Inglaterra. Num lance de contra ataque Van der Elst é rasteirado já bem perto da linha de limite da grande área. O árbitro romeno Nicolae Rainea não parece ter dúvidas e assinala grande penalidade. Os alemães protestam, alegando que a falta havia sido cometida ainda fora de área (como aliás se viria a confirmar nas imagens televisivas), mas pouco adiantou. Chamado à conversão do castigo Vandereycken não falhou e restabeleceu a igualdade no marcador quando faltavam pouco mais de 15 minutos para o final. Os "diabos vermelhos" estavam de volta ao jogo e à disputa do título. Mas a superioridade germânica era por demais evidente, e a dois minutos do final, quando muita gente já pensava no prolongamento, o gigante Hrubesch salta mais alto do que toda a gente - no seguimento de um pontapé de canto - para cabecear a bola para o fundo da baliza de Pfaff e sentenciar assim o jogo. Pouco depois o árbitro apitava pela última vez e consagrava a RFA novamente como campeã da Europa, a primeira seleção a conseguir vencer o Euro pela segunda vez na história. Depois de 1972 o ano de 1980 entrava na história do futebol germânico, e ficava bem patente que a geração de Beckenbauer, Maier, Vogts, Hoeness, e Gerd Muller havia encontrado em nomes como Allofs, Rummenigge, Schuster, Schumacher, e Hrubesch os seus dignos sucessores.
Para além do título coletivo a RFA levou para casa ainda os "títulos" de melhor marcador (Allofs, com 3 golos), e de melhor jogador do torneio (Rummenigge).

Jogos:


Grupo 1

1º Jornada

11 de junho, em Roma
RFA - Checoslováquia: 1-0
(Rummenigge, aos 57m)

11 de junho, em Nápoles
Holanda - Grécia: 1-0
(Kist, aos 65m)

2ª Jornada
14 de junho, em Nápoles
RFA - Holanda: 3-2
(Allofs, aos 20m, 60m, e 66m)
(Rep, aos 80m, e Van de Kerkhof)

14 de junho, em Roma
Checoslováquia - Grécia: 3-1
(Panenka, aos 6m, Vizek, aos 26m, e Nehoda, aos 62m)
(Anastopoulos, aos 14m)

3ª Jornada

17 de junho, em Milão
Checoslováquia - Holanda: 1-1
(Nehoda, aos 16m)
(Kist, aos 59m)
17 de junho, em Turim
RFA - Grécia: 0-0

Classificação

1- RFA: 5 pontos
2- Checoslováquia: 3 pontos
3- Holanda: 3 pontos
4- Grécia: 1 ponto

Grupo 2

1ª Jornada

12 de junho, em Turim
Bélgica - Inglaterra: 1-1
(Ceulemans, aos 30m)
(Wilkins, aos 26m)
12 de junho, em Milão
Itália - Espanha: 0-0

2º Jornada
15 de junho, em Milão
Espanha - Bélgica: 1-2
(Quini, aos 36m)
(Gerets, aos 17m, e Cools, aos 65m)
15 de junho, em Turim
Itália - Inglaterra: 1-0
(Tardeli, aos 79m)

3ª Jornada

18 de junho, em Roma
Itália - Bélgica: 0-0
18 de junho, em Nápoles
Espanha - Inglaterra: 1-2
(Dani, aos 48m)
(Brooking, aos 19m, e Woodcock, aos 61m)

Classificação

1- Bélgica: 4 pontos
2- Itália: 4 pontos
3- Inglaterra: 3 pontos
4- Espanha: 1 ponto

Jogo de apuramento dos 3º e 4º classificados
21 de junho, em Nápoles
Itália - Checoslováquia: 1-1 (8-9 nas grandes penalidades)
(Graziani, aos 73m)
(Jurkemik, aos 54m)

Final


RFA - Bélgica: 2-1

22 de junho, no Estádio Olímpico de Roma

Árbitro: Nicolae Rainea (Roménia)

RFA: Harald Schumacher, Manfred Kaltz, Bernard Dietz, Hans-Peter Briegel (Bernhard Cullmann, aos 55m), Karl-Heinz Forster, Uli Stielike, Karl-Heinz Rummenigge, Bernd Schuster, Horst Hrubesch, Hansi Muller, e Klaus Allofs. Treinador: Jupp Dewall

Bélgica: Pfaff, Gerets, Millecamps, Meeuws, Renquin, Cools, Vandereycken, Van Moer, Mommens, Van der Elst, e Ceulemans. Treinador: Guy Thys

Golos: 1-0 (Hrubesch, aos 10m), 1-1 (Vandereycken, aos 72m), 2-1 (Hrubesch, aos 88m)


Onze Ideal:

Pfaff (Bélgica)
Gerets (Bélgica)
Foerster (RFA)
Tardeli (Itália)
Dietz (RFA)
Briegel (RFA)
Rummenigge (RFA)
Schuster (RFA)
Vandereycken (Bélgica)
Nehoda (Checoslováquia)
Allofs (RFA)
 Melhor marcador:

Klaus Allofs (RFA): 3 golos



 Legenda das fotografias:

1- Logotipo do Euro 1980

2-Lance do duelo entre os vizinhos - e rivais - da RFA e da Holanda

3-Kevin Keegan bem tentou levar a Inglaterra longe neste Europeu, mas seriam os belgas que chegariam ao jogo mais ambicionado da competição

4-Uma imagem da final de Roma

5-O possante avançado alemão Hrubesch remata à baliza holandesa

6-Surpresa das surpresas: a desconhecida seleção da Grécia estava no Europeu, tendo sido a único na fase final do torneio que não seria derrotada pelos campeões da RFA! Nada mau para um estreante.

7-Uma imagem do Inglaterra - Bélgica com o hooliganismo britânico como (triste) pano de fundo

8-A equipa da casa, a Itália...

9-... e a grande surpresa da fase final: a Bélgica

10-O guarda redes e capitão da squadra azzurra, Dino Zoff, bem atento no desafio com os ingleses

11-A quase despercebida seleção espanhola

12-Checolováquia não repetiu o feito de 76, mas mesmo assim levou para casa o bronze

13-Mais um lance da grande final

14-Hrubesch acaba de marcar o golo que valeu o título à RFA

15-A pose final dos campeões: uma fotografia para a eternidade

16-Klaus Allofs, o melhor marcador do Euro 80

17-A taça viajava de novo para a RFA

18-Pela primeira vez na história da competição foi criada uma mascote. Em Itália foi o Pinochio.

 Nota: Texto escrito em 5 de junho de 2012 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

França 1984

24 anos depois o Campeonato da Europa regressava a casa! França acolhia novamente a fase final da competição depois de em 1960 a ter dado a conhecer ao Mundo. Era uma oportunidade de ouro para o futebol francês mostrar na grande montra que era já o Europeu a qualidade que vinha evidenciando ao longo dos últimos anos, através de um punhado de grandes jogadores de futebol que iriam marcar a história da modalidade, como mais à frente iremos confirmar. E se a talentosa França dos anos 80 havia garantido um lugar entre as oito finalistas do Euro 84 na qualidade de país organizador do certame as outras 7 seleções tiveram de suar, e muito, para marcar presença em terras gaulesas no Verão de 1984. Mesmo as mais cotadas internacionalmente não tiveram vida fácil ao longo da fase de qualificação, como foi o caso da campeã da Europa em título, a República Federal da Alemanha (RFA), que terminou o seu grupo com os mesmos pontos que a Irlanda do Norte, com quem aliás perdeu os dois jogos de qualificação (!), tendo garantido o apuramento para a fase final devido à melhor diferença entre golos marcados e sofridos. Também a Espanha sofreu a bom sofrer para superar a Holanda, sendo que à entrada para o último dia de qualificação os espanhóis precisavam de marcar pelo menos 11 golos à frágil seleção de Malta para assegurar a viagem até França. E eis que o milagre aconteceu, Espanha goleou Malta por 12-1 (!) e pela terceira vez na sua história estava na fase final de um Campeonato da Europa. Qualificações surpreendentes foram alcançadas pela Dinamarca (venceu um grupo que continha a poderosa Inglaterra), pela Roménia (desenvencilhou-se da potência Itália, que dois anos antes se havia sagrado campeã do Mundo!!!), e por Portugal! A seleção lusa voltava assim à alta roda do futebol internacional 18 anos depois de ter encantado o planeta da bola durante o célebre Mundial de 1966 onde Eusébio e companhia ascenderam à galeria dos imortais Deuses do Futebol após a brilhante conquista do 3º lugar do certame ocorrido nesse ano em Inglaterra. Mas para estar pela segunda vez na sua história na fase final de uma competição internacional a equipa portuguesa bafejou de uma pontinha de sorte... e da ajuda de um tal Georges Konrath, o árbitro francês que apitou no Estádio da Luz um decisivo Portugal - União Soviética na última jornada da fase de qualificação. A precisar de vencer para se qualificar a seleção lusitana beneficiou, ao cair do pano sobre a primeira parte desse encontro, de uma grande penalidade... inexistente. De nada valeram os protestos dos soviéticos, já que Rui Jordão converteu o castigo que deu origem ao único golo de uma tarde que viria a ser de glória para a nação portuguesa. Portugal estava no Euro francês graças à preciosa ajuda de um... francês. Complicada foi também a qualificação da talentosa Jugoslávia, que só no derradeiro capítulo do seu grupo levaria a melhor sobre o País de Gales. A única seleção que teve talvez o apuramento mais tranquilo foi a Bélgica, que na década de 80 emergia como uma potência internacional, que venceu facilmente um grupo composto por Suíça, República Democrática da Alemanha, e Escócia.

França encanta e domina facilmente o seu grupo

A 12 de junho de 1984 o Parque dos Príncipes, em Paris, engalanou-se para dar o "pontapé de saída" da 7ª edição do Campeonato da Europa. Mais de 48 000 espetadores marcaram presença no jogo de abertura que opôs a genial seleção da casa à talentosa Dinamarca. Duas boas equipas em campo e um bom jogo de futebol em perspetiva. E assim foi. Desde logo notou-se um grande entusiasmo do público francês em torno do seu combinado nacional, um grupo que tinha no meio campo e na linha avançada os seus pontos mais fortes e deslumbrantes, sob o comando de um mago chamado Michel Platini. E seria precisamente o número 10 gaulês o autor do único tento desse final de tarde na bela cidade de Paris, quando estavam decorridos 77 minutos de jogo. França que viria a sofrer um duro golpe na partida inaugural do torneio, quando viu um dos seus melhores defesas, Manuel Amoros, ser expulso na sequência de uma agressão ao dinamarquês Jesper Olsen, tendo a UEFA aplicado uma punição de... 3 jogos! Face a isto Amoros apenas poderia voltar à ação na final, caso a França lá chegasse... o que viria a acontecer.
Em Lens (uma das 7 cidades que acolheu o Euro francês) no outro encontro do Grupo 1 confirmou-se a supremacia da Bélgica, que era tida à partida como uma das candidatas à glória final. 2-0 foi o resultado da vitória belga sobre a Jugoslávia.
E na 2ª jornada do grupo Platini trouxe magia ao Euro 84. Com uma exibição deslumbrante do mago jogador a França goleou em Nantes a criativa Bélgica por 5-0 (!), com 3 dos golos a serem da autoria do atleta que atuava na Juventus de Itália. O mesmo resultado verificou-se no outro jogo, em Lyon, com a Dinamarca formada por um talentoso naipe de futebolistas, onde pontificavam nomes como Elkjaer, Lerby, Morten Olsen, e de um jovem de apenas 20 anos chamado Michael Laudrup, a esmagar uma Jugoslávia que com esta derrota dizia adeus à competição.
Talvez pelo facto de já não ter nada a perder a equipa dos balcãs complicou a vida aos franceses no último jogo da 1ª fase. Uma curta vitória por 3-2, graças a mais uma exibição soberba de Platini, autor dos 3 golos da sua equipa (!), foi o que a França conseguiu ante a seleção do guarda redes Tomislav Ivkovic, que anos mais tarde viria a representar o Sporting.
O outro jogo do grupo afigurava-se como uma autêntica final, quem vencesse alcançava as meias finais. Diga-se como nota informativa que em 1984 a UEFA voltava a introduzir as meias finais na fase final do Campeonato da Europa, depois de as ter eliminado no Euro 80. Voltando à ação para lembrar que Dinamarca e Bélgica protagonizaram um jogo intenso e memorável em Estrasburgo, cabendo a Elkjaer vestir o fato de herói depois de aos 83 minutos ter feito o 3-2 final para os nórdicos que assim acompanhavam a invicta França rumo à fase seguinte. Quanto à favorita - na entrada para o Euro - Bélgica acabava por morrer na praia.

Portugal torna-se na grande surpresa do Europeu

14 de junho de 1984 é um dia que fica marcado na história do futebol português. Nesse final de tarde a equipa lusa estreia-se na fase final de um Europeu, e logo contra uma potência do futebol mundial, a RFA, que na altura era não só a campeã da Europa em título como também a vice campeã do Mundo. No estádio Le Meinau, em Estrasburgo, os portugueses seriam apoiados freneticamente por um largo número de emigrantes a residir em França, facto que terá ajudado os selecionados de Fernando Cabrita a protagonizar a primeira grande surpresa da competição. Ante os alemães Portugal realizou uma ótima exibição, batendo-se de igual para igual, cabendo-lhe mesmo as primeiras grandes oportunidades de golo desse histórico duelo. Com o desenrolar do desafio a RFA foi tomando conta do encontro, mas sempre com a defesa portuguesa bem atenta aos ataques de jogadores como Rudi Voller, Karl-Heinz Rummenigge, e Klaus Allofs. As coisas corriam bem à equipa lusa, e poderiam ter corrido ainda melhor caso o mítico Harald Schumacher não tivesse defendido um potente remate de João Pinto já na reta final da contenda. 0-0, o resultado final de um jogo que à partida era visto como uma vitória fácil e robusta dos alemães, algo que acabou por não acontecer graças a uma sensacional equipa portuguesa. O Mundo ficava a (re)conhecer Portugal.
A 1ª jornada deste Grupo 2 foi rica em surpresas. Depois de a RFA escorregar na estreia foi a vez da Espanha desperdiçar a oportunidade de somar 2 preciosos pontos na luta pela qualificação para as meias finais. Os causadores deste percalço espanhol foram uns bravos romenos, os tais que na fase de qualificação haviam deixado os campeões do Mundo (Itália) de fora do Euro. 1-1, o resultado final, tendo o golo romeno sido da autoria de Laszlo Boloni, um nome que anos mais tarde viria a vencer um Campeonato Nacional de Portugal ao serviço do Sporting na qualidade de treinador. Este jogo ficaria ainda marcado pela estreia internacional daquele que com o passar dos anos viria a ser considerado como o Deus do futebol romeno: Gheorghe Hagi.
17 de junho foi o dia da "cimeira ibérica" no Euro. Portugal encontrava a vizinha Espanha no teatro dos sonhos do futebol francês, o Stade Vélodrome, em Marselha. Galvanizados pela excelente exibição ante os alemães os portugueses voltaram a entrar em campo com vontade de surpreender novamente todos aqueles que tinham os olhos postos no que se passava em França. A primeira parte desse encontro contudo não foi famosa para nenhuma das equipas. Na etapa complementar o ritmo do jogo foi alterado... para melhor. O ponto de viragem deu-se ao minuto 52, altura em que António Sousa fez um soberbo golo ao experiente Arconada, fazendo assim o primeiro golo lusitano na fase final de um Europeu. Espanha tremeu, e Portugal poderia ter ampliado a vantagem nos minutos que se seguiram. Contudo, dentro de campo estavam alguns dos melhores jogadores espanhóis de todos os tempos, entre outros a lenda do Real Madrid, Santillana, jogador que aos 73 minutos aproveitou uma confusão na área portuguesa para bater Manuel Bento e repôr a igualdade no marcador. O resultado não se alterou até final, e Portugal, contra todas as previsões, continuava na luta por um lugar nas meias finais, dependendo apenas de si para alcançar essa meta. Quem diria! No outro jogo a RFA vencia a Roménia por 2-1, mas continuava a dar indícios de que não estava em forma para defender o título conquistado 4 anos antes em Itália.
Face a este panorama os dois outsiders do grupo, Portugal e Roménia, dependiam apenas de si para seguir em frente na prova e deixar pelo caminho um dos favoritos, Espanha ou Itália.
Nantes e Paris assistiram pois a duas verdadeiras finais. Na primeira cidade Portugal enfrentava a Roménia com o objetivo da vitória, objetivo idêntico ao dos romenos. Talvez por isso ambas as equipas tivessem praticado um jogo cauteloso, pouco atraente. Apesar deste resguardo pertenceram aos portugueses as melhores oportunidades de golo do encontro, através de iniciativas de Fernando Gomes, Diamantino e do genial Chalana, que se viria a revelar como a grande estrela do conjunto português ao longo desta fase final. Até que a cerca de 20 minutos do fim Portugal mexe no seu setor ofensivo, retirando um médio (Carlos Manuel) e introduzindo um avançado (Nené). Troca que daria os seus frutos aos 81 minutos. Pontapé de canto apontado por António Sousa, alívio da defesa romena, tendo a bola ido parar novamente aos pés do médio lusitano, o qual cruzou de novo para a área onde apareceu Nené que fez o gosto ao pé e apontou o único golo do encontro. Portugal vencia e estava nas meias finais do Euro 84! A festa estoirava em Nantes.
Em Paris a RFA continuava a desiludir! Os campeões da Europa protagonizavam a pior campanha internacional de que havia memória! Sem fazer um jogo fenomenal a Espanha aproveitou-se da desinspiração germânica para garantir a presença entre as quatro últimas equipas da competição, graças a um golo tardio do defesa Maceda, que assim mandou os pupilos de Jupp Derwall mais cedo para casa.

Portugueses estiveram prestes a chocar o Mundo num épico jogo em Marselha

O Vélodrome de Marselha acolheu a 23 de junho um encontro que com o passar dos anos ascenderia ao patamar da imortalidade. Um encontro épico, digno de figurar entre os melhores momentos da história dos Campeonatos da Europa. A favorita França media forças com a surpreendente seleção portuguesa comandada pelo pequenio genial Fernando Chalana. Ambiente fantástico naquela que é a cidade do futebol francês, a cidade onde a modalidade é vivida de uma forma apaixonante. Portugal não se amedrontou com o ambiente, muito menos com a constelação de estrelas que os franceses apresentavam em campo, acabando por contribuir para o espetáculo com mais uma exibição memorável. A equipa da casa adiantou-se no marcador aos 24 minutos na sequência de um livre à entrada da área lusa. Quando todos pensavam no mestre Platini para cobrar a falta eis que aparece o defesa Domergue a rematar para o fundo da baliza de Bento. Dali em diante o jogo tornou-se numa verdadeira avalanche ofensiva, em especial do lado francês, valendo a Portugal... São Bento, que fez uma das melhores exibições da sua gloriosa carreira. Na segunda parte a equipa técnica portuguesa resolve apostar num segundo avançado, aumentando desta forma o seu caudal ofensivo. A aposta daria os seus frutos aos 74 minutos quando Jordão repôs a igualdade no seguimento de um cabeceamento certeiro. O Vélodrome gelou! A garra lusitana obrigava os artistas franceses a um esforço extra, um prolongamento de 30 minutos. E ai o escândalo esteve quase a acontecer. Sentindo que podia ir mais longe na competição Portugal continuou a atacar a baliza do brilhante Joel Bats, até que aos 98 minutos Marselha apagou de vez com o segundo tento lusitano, de novo apontado por Rui Jordão, a corresponder da melhor maneira a uma jogada genial do endiabrado Chalana. Portugal estava a 22 minutos de alcançar o sonho, a 22 minutos de virar o pesadelo do povo francês.
Como sempre o fizera Platini pega na batuta e comandou a orquestra francesa no recital de futebol que se visionou nos minutos seguintes. Os portugueses defendiam como podiam, sem nunca deixar de espreitar o ataque. Os minutos iam passando e os franceses pareciam chocados com aquilo que viam, até que Domergue voltou a colocar a palavra esperança no dicionário gaulês. O jogo voltava à estaca zero, estava de novo empatado graças ao novo tento do defesa do Toulouse. E quando já toda a gente pensava no desempate através das grandes penalidades eis que a genialidade francesa volta a mostrar-se no relvado do Vélodrome. Lance de insistência de Tigana que só parou nos pés do mago que Michel Platini, que dentro da área bateu o desamparado Bento. 3-2 a um minuto do fim, e a França estava na sua final para delírio do povo gaulês que finalmente podia respirar com tranquilidade. Portugal caia de pé, mostrando ao Mundo que a aventura de Eusébio e companhia em 66 não havia sido obra do acaso, que o seu futebol tinha lugar na alta roda internacional, agora interpretado por astros como Fernando Gomes, Nené, Sousa, João Pinto, Jordão, Bento, e de um pequeno génio chamado Chalana, que no final deste Euro foi muito justamente considerado como um dos melhores artistas do torneio.

Espanha ganha a lotaria 

Na outra meia final, realizada em Lyon, a fúria espanhola moralizada pela vitória diante da poderosa RFA enfrentava a guerreira Dinamarca. Os espanhóis entraram no campo a comandar mas foram os nórdicos os primeiros a marcar, e bem cedo, por Lerby, aos 7 minutos. Em desvantagem a "roja" continuou a atacar, mas sem efeitos. Até que no segundo tempo o defesa Maceda voltou a fazer das suas ao faturar o tento do empate. Dali em diante a partida endureceu, sempre com o sinal mais do lado dos espanhóis que detiveram várias oportunidades para colocar um ponto final no encontro. Não o conseguiram e houve a necessidade de jogar-se um prolongamento de 30 minutos que nada de novo acrescentou. Chegou-se então às grandes penalidades, e ai a equipa de Miguel Muñoz seria mais forte, acabando por vencer por 5-4 e garantindo desta forma a presença pela segunda vez na sua história na final de um Europeu.

França alcança a glória com ajuda preciosa de Arconada

Quase 50 000 pessoas marcaram presença no dia 27 de junho para assistir aquele que viria a ser o primeiro momento de glória internacional do futebol francês. A grande final estava ai, e com a França presente. Contudo o factor casa não se fez notar na primeira parte da final, com os espanhóis a mostrar que não estavam ali para serem meros convidados da festa gaulesa. O equilíbrio continuou a ser nota dominante na etapa complementar, até ao... minuto 56. Altura em que Platini e o guarda redes espanhol Arconada se tornaram nas figuras centrais do encontro. O génio francês prepara-se para apontar um livre perigoso à entrada da área. O remate sai fraco, mas de forma incrível o experiente Arconada deixa passar a bola por baixo das pernas, oferecendo assim o primeiro golo à equipa da casa. Um frango monumental, dos mais incríveis e trágicos da história do futebol! A Espanha ficou afetada com o erro do seu guardião, e mesmo dispondo de uma ou duas oportunidades junto da baliza de Bats nunca mais se encontrou no relvado do Parque dos Príncipes. O golo de Platini parece ter feito bem à França, que passou a jogar de uma forma mais descontraída, conseguindo finalmente colocar em prática a beleza do seu futebol. E seria já na fase do desespero espanhol que Bellone sentenciaria a final em cima do minuto 90, carimbando o primeiro sucesso internacional do seu país. A França entra em delírio, ao ver a sua seleção ser coroada como a nova campeã da Europa. Mais do que o título em si este foi uma espécie de reconhecimento internacional a uma geração fantástica do futebol gaulês, jogadores que ascenderam ao patamar da imortalidade, casos de Bats, Domergue, Bossis, Fernández, Lacombe, Tigana, Giresse, e claro está, Michel Platini, que além de ter sido de forma natural considerado como o melhor jogador da competição foi o rei dos marcadores, com 9 remates certeiros, um recorde que se mantém até hoje na história dos Euros. 

Jogos


Grupo 1


1ª Jornada
12 de junho, em Paris
França - Dinamarca: 1-0
(Platini, aos 77m)

13 de junho, em Lens
Bélgica - Jugoslávia: 2-0
(Vanderbergh, aos 27m, e Grun, aos 44m)

2ª Jornada

16 de junho, em Nantes
França - Bélgica: 5-0
(Platini, aos 3m, 74m, 88m, Giresse, aos 32m, e Fernández, aos 43m)
16 de junho, em Lyon
Dinamarca - Bélgica: 5-0
(Arnesen, aos 7m, 68m, Berggreen, aos 16m, Elkjaer, aos 81m, e Lauridsen, aos 83m)

3ª Jornada

18 de junho, em Saint-Étienne
França - Jugoslávia: 3-2
(Platini, aos 59m, 61m, e 76m)
(Sestic, aos 31m, e Stojkovic, aos 80m)
19 de junho, em Estrasburgo
Dinamarca - Bélgica: 3-2
(Arnesen, aos 40m, Brylle, aos 60m, e Elkjaer, aos 83m)
(Ceulemans, aos 25m, e Vercautern, aos 38m)

Classificação

1-França: 6 pontos
2-Dinamarca: 4 pontos
3-Bélgica: 2 pontos
4-Jugoslávia: 0 pontos

Grupo 2


1ª Jornada

14 de junho, em Estrasburgo
RFA - Portugal: 0-0
14 de junho, em Saint-Étienne
Espanha - Roménia: 1-1
(Carrasco, aos 22m)
(Boloni, aos 35m)

2ª Jornada

17 de junho, em Lens
RFA - Roménia: 2-1
(Voller, aos 24m, e 65m)
(Coras, aos 46m)
17 de junho, em Marselha
Portugal - Espanha: 1-1
(Sousa, aos 51m)
(Santillana, aos 72m)

3ª Jornada

20 de junho, em Paris
RFA - Espanha: 0-1
(Maceda, aos 89m)
20 de junho, em Nantes
Portugal - Roménia: 1-0
(Nené, aos 81m)

Classificação

1-Espanha: 4 pontos
2-Portugal: 4 pontos
3-RFA: 3 pontos
4-Roménia: 1 ponto

Meias finais

23 de junho, em Marselha
França - Portugal: 3-2
(Domergue, aos 24m, 115m, e Platini, aos 119m)
(Jordão, aos 74m, 98m)

24 de junho, em Lyon
Espanha - Dinamarca: 1-1 (5-4 nas grandes penalidades)
(Maceda, aos 66m)
(Lerby, aos 7m)

Final

França - Espanha: 2-0

27 de junho, no Parque dos Príncipes, em Paris

Árbitro: Vojtech Christov (Checoslováquia)

França: Bats, Battiston (Amoros, aos 72m), Le Roux, Bossis, Domergue, Giresse, Tigana, Fernández, Platini, Lacombe (Genghini, aos 80m), e Bellone. Treinador: Michel Hidalgo

Espanha: Arconada, Urquiaga, Salva (Roberto, aos 85m), Gallego, Julio Alberto (Sarabia, aos 77m); Senõr, Victor, Camacho, Francisco, Santillana, e Carrasco. Treinador: Miguel Muñoz

Golos: 1-0 (Platini, aos 56m), 2-0 (Bellone, aos 90m)


Onze ideal:

Bento (Portugal)
Morten Olsen (Dinamarca)
Brehme (RFA)
Eurico (Portugal)
Señor (Espanha)
Giresse (França)
Tigana (França)
Platini (França)
Chalana (Portugal)
Voller (RFA)
Jordão (Portugal)
Melhor marcador: 

Platini (França): 9 golos

Legenda das fotografias:
1-Logotipo do Euro 1984
2-Platini em mais uma ação soberda diante da Bélgica
3-Espanha manda campeã da Europa em título, a RFA, para casa mais cedo
4-Fase daquele que é considerado um dos melhores jogos de sempre dos Europeus, o França - Portugal
5-Espanhóis só nas grandes penalidades conseguiram afastar os combativos vikings da Dinamarca
6-Giresse parece ser dono do lance na grande final do Euro
7-Platini festeja um golo diante da Dinamarca
8-A surpreendente equipa dinamarquesa...
9-... e uma das suas estrelas principais, Elkjaer, a festejar o apuramento para as meias finais diante da Bélgica
10-A fúria espanhola
11-Desoladora RFA vence apenas um único jogo no Euro 84, diante da Roménia
12-O genial Chalana
13-E a seleção portuguesa que alcançou o apuramento para as meias finais diante da Roménia
14-Tigana conduz o esférico na final...
15-... enquanto Platini ergue a primeira coroa de glória do futebol gaulês
16-O mítico frango de Arconada
17-A fotografia final dos Campeões da Europa de 84
18-Platini, o rei dos marcadores
 
Nota: Texto escrito em 6 de junho de 2012 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

RFA 1988

A glória no futebol atinge-se com vitórias memoráveis e títulos de "grandes dimensões". Neste ponto a sabedoria popular costuma dizer que dos vencidos não reza a história! Uma meia verdade talvez, já que em casos pontuais a história guarda as façanhas de alguns vencidos que ajudaram a escrever algumas das páginas mais belas da história da modalidade. É o caso da Holanda, uma seleção que na década de 70 do século XX revolucionou por completo a forma de jogar, encarar, e sobretudo apreciar o futebol. Uma seleção mágica liderada pelo mago Johan Cruyff cujo encantador conceito de "futebol total" ficou em algumas ocasiões às portas do céu, isto é, muito perto de atingir a tal glória personificada num grande título internacional. Foi assim em 1974 e 1978, dois anos em que a "laranja mecânica", assim ficou conhecida aquela célebre geração do futebol holandês, esteve muito perto de vencer o título mundial, caindo na reta final aos pés de outras duas grandes seleções da época, casos da República Federal da Alemanha e da Argentina. Pois bem, na década de 80 os holandeses finalmente traduziram em títulos a mestria do seu futebol, através de uma nova geração de formidáveis futebolistas. E fizeram-no sob o comando do mesmo mestre que na década de 70 havia inventado o conceito/arte do "futebol total", Rinus Michels, um nome que esteve naqueles que podemos rotular como os dois grandes momentos do futebol do "país das tulipas", curiosamente ambos ocorridos em solo alemão, um em 1974, que injustamente - para nós admiradores do futebol arte - teve um final infeliz para a seleção laranja, e outro em 1988, esse - justamente - com contornos de felicidade.
E é precisamente até 1988 que viajamos hoje, para olhar a história da 8ª edição do Campeonato da Europa, cuja fase final seria atribuída à República Federal da Alemanha (RFA). E na longa caminhada até à fase final do primeiro Euro realizado em solo alemão algumas surpresas surgiram no caminho. A maior, talvez, o facto de a campeã da Europa em título, a França, ter falhado o apuramento para a RFA, depois de ter perdido o seu grupo para a União Soviética, que 16 anos depois marcava novamente presença na fase final do certame organizado pela UEFA. Surpresa foi também a Bélgica, a grande seleção belga da década de 80 que havia marcado presença nos Euros de 80 e 84, bem como nos Mundiais de 82 e 86, e sempre com boas prestações. Desta feita iriam ficar de fora, muito por culpa de uma surpreendente República da Irlanda, que ao vencer um grupo formado por belgas, escoceses, búlgaros, e luxemburgueses garantia a primeira fase final de uma grande competição internacional da sua modesta história.
Para além de irlandeses, soviéticos, e alemães, claro está, a fase final do Euro 88 contou ainda com as presenças da Espanha (marcava presença na terceira fase final consecutiva), Inglaterra, Itália, Dinamarca, e a Holanda (que assim disputava a sua terceira fase final no âmbito desta competição).
Oito cidades foram escolhidas para receber o Euro 88, um recorde para a altura.

Alemães e italianos fazem jus à condição de favoritos

No Grupo 1 estava a equipa da casa, a RFA. Uma forte seleção comandada tecnicamente pela antiga glória Franz Beckenbauer, que dois anos antes havia estado muito perto da glória mundial, tendo caído apenas aos pés da Argentina do "Deus" Maradona, e assim falhado a conquista do terceiro título mundial da sua história. Esta era uma RFA fortíssima, recheada de grandes valores internacionais, casos de Voller, Kohler, Berthold, Brehme, Klinsmann, Littbarski, ou de Lothar Matthaus, a grande estrela do grupo. Poucos seriam aqueles que não olhavam para a equipa da casa como a principal candidata à conquista do Europeu, não só por ter a seu lado o factor casa, mas sobretudo pela constelação de estrelas com que se apresentavam em campo. Mas para tentar colocar a mão na taça pela terceira vez na sua história a RFA tinha de suar a camisola, tinha de provar a sua teórica superioridade, e isso seria algo que nem sempre ficaria patente ao longo deste Euro. Logo no primeiro jogo do grupo, em Dusseldorf, na abertura do certame, a RFA sentiu sérias dificuldades para não sair derrotada do confronto ante a Itália. 1-1 seria o resultado final deste jogo. Lisonjeiro até para os alemães, dado o domínio que a squadra azzurra exerceu ao longo de quase todo o encontro. No outro encontro do grupo, em Hannover, a Espanha, vice campeã da Europa em 1984, bateu uma veterana e cansada Dinamarca por 3-2, graças a uma boa atuação da Quinta del Buitre, a geração artística do futebol espanhol que surgiu nos finais da década de 80, e que revelou ao Mundo jogadores como Michel, Sanchís, Chendo, Martín Vasquez, e um tal de Emilio Butrgueño, todos jogadores do Real Madrid, que tornavam a Espanha como uma das boas seleções mundiais desta altura.
Dinamarca que no jogo seguinte fez as malas para um precoce regresso a casa, ao perder com a seleção da casa por 0-2. No meio da veterania dinamarquesa do Euro 88 surgiu um jovem guarda redes, lançado às feras precisamente no duelo com os alemães, de seu nome Peter Schmeichel, que viria a tornar-se numa das maiores lendas das balizas planetárias da história da modalidade.
Em Frankfurt espanhóis e italianos realizaram uma partida equilibrada, como seria de prever, cabendo ao jovem avançado da Sampdoria Vialli a responsabilidade de "matar" esse equilíbrio a cerca de 15 minutos do final quando apontou o único golo do desafio.
Com este cenário RFA e Itália tinham as portas das meias finais praticamente abertas. E a derradeira ronda do grupo apenas serviu para confirmar esse cenário. A Itália dos artistas Zenga, Vialli, Mancini, Maldini, Giannini, Donadoni, ou Baresi desenvencilhou-se facilmente da desoladora Dinamarca por 2-0, enquanto que por igual resultado a RFA mandava a Espanha do mestre da tática Miguel Muñoz para casa mais cedo.
No Grupo 1 o Euro decorria com normalidade, os favoritos principais à passagem à fase seguinte não haviam deixado os seus créditos por mãos alheias.

Holanda reaparece no mapa futebolístico internacional

No Grupo 2 morava a desconhecida República da Irlanda, a grande incógnita desta fase final. Orientados pelo antigo internacional inglês Jack Charlton os irlandeses eram encarados como um grupo de divertidos rapazes que vinha à RFA adquirir experiência internacional e... tentar não perder por muitos antes "futebóis" mais desenvolvidos como eram os casos da Holanda, União Soviética, e Inglaterra. E seria precisamente ante o velho inimigo inglês que os rapazes da "ilha esmeralda" iriam fazer o seu batismo numa grande prova internacional. Poucos acreditariam que os irlandeses conseguissem sequer alcançar um ponto na estreia, até porque do outro lado morava uma equipa com aspirações ao título, orientada pelo conceituado Bobby Robson e com jogadores de top mundial, casos de Peter Shilton, Tony Adams, John Barnes, Peter Beardsley, Cris Waddle, ou Gary Lineker, que dois anos havia sido o melhor marcador do Mundial do México. Mas a teoria não confirmou a prática, e fazendo do futebol uma festa os desconhecidos irlandeses fizeram história no dia 12 de junho, quando no Neckarstadium de Estugarda derrotaram os velhos inimigos ingleses por 1-0. Ray Houghton seria o herói dessa célebre tarde do futebol irlandês.
No outro jogo confirmou-se o favoritismo de uma das equipas que melhor futebol praticou nos finais dos anos 80, a União Soviética. Um conjunto formado na sua esmagadora maioria por atletas do Dynamo Kiev, orientada pelo velho lobo do futebol soviético Valery Lobanovsky. Vassili Rats apontaria aos 54 minutos o único tento dessa partida.
De favorita a grande desilusão da prova, eis o curto percurso dos ingleses neste Euro 88. Depois da humilhante derrota com a República da Irlanda os súbitos de Sua Majestade voltavam a entrar em campo com a obrigação de vencer, caso contrário estariam de volta a Londres. Mas a tarefa não era nada fácil, pois pela frente tinham uma forte equipa holandesa liderada pelo mítico treinador Rinus Michels, o mesmo que 14 antes havia criado o "futebol total" que no Mundial de 1974, realizado também na RFA, encantou o Mundo. E se nessa altura o mestre do futebol holandês havia lançado para a ribalta jogadores como Krol, Neeskens, Rep, ou Cruyff, desta feita faria de Gullit, Frank Rijkaard, Wouters, os irmãos Koeman (Erwin e Ronald), Win Kieft, e de um tal de Marco Van Basten imortais do belo jogo. E contra os ingleses apareceu no Euro precisamente Van Basten, jogador do Milan, que haveria de se tornar na figura central desta competição. De suplente no jogo ante a União Soviética o ex-jogador do Ajax avançava para a linha da frente diante dos pupilos de Robson, e mostrando toda a sua arte futebolística e letal veia goleadora arrasou por completo com a armada britânica na sequência de 3 remates certeiros. 3-1 vencia a Holanda com um futebol arte, não o futebol total de 1974, mas uma forma de interpretar o jogo igualmente bela. Quanto à Inglaterra estava oficialmente fora do Euro.
Quem continuava a surpreender era a República da Irlanda. Depois da vitória sobre os ingleses alcançaram um empate a um golo diante da poderosa União Soviética, e partiam assim para o último jogo do grupo com a possibilidade de passar às meias finais! Quem diria! Mas a sorte nada quis com os bravos irlandeses no jogo decisivo ante a Holanda. Uma verdadeira final, pois quem vencesse seguiria em frente. O equilíbrio foi nota dominante até ao minuto 82, altura em que o árbitro austríaco Horst Brummeier resolveu dar nas vistas ao validar um golo de Win Kieft que apareceu na cara do guarda redes Pat Bonner em clara posição irregular. Uma derrota injusta para a mais talentosa geração do desconhecido futebol irlandês onde pontificavam nomes como John Aldridge, Tony Cascarino, Ray Hougthon, entre outros.
No outro jogo da última jornada deste Grupo 2 a Inglaterra sofria nova humilhação, desta feita aos pés da União Soviética que abateu a seleção dos "3 leões" por 3-1 e garantia assim o 1º lugar da chave.

Holanda vinga derrota de 74

Terça-feira, dia 21 de junho. Em Hamburgo a Holanda tinha umas contas a ajustar com a equipa da casa. 14 anos a "laranja mecânica" tinha sido degolada pela RFA do kaiser Beckenbauer na final do Mundial de 1974. Uma derrota injusta aos olhos dos amantes do belo futebol para quem a Holanda havia sido simplesmente a melhor equipa desse torneio. Ninguém no país das tulipas havia esquecido esse triste momento, e era agora altura de vingar essa derrota. Patenteado um futebol de alta qualidade a Holanda entrou neste jogo disposta a escrever uma nova página de ouro na história do seu futebol, mas desta feita com um final feliz. E assim foi. Num grande e épico jogo de futebol a equipa da casa marcou primeiro, por intermédio do seu capitão e maior artista Lothar Matthaus, aos 55 minutos através de grande penalidade. Depois disto só deu Holanda. E seria pois com naturalidade que o "homem bomba" da "laranja", Ronald Koeman, repôs a igualdade aos 74 minutos, também de grande penalidade. A RFA encolhia-se perante a avalanche laranja, e eis que a um minuto dos 90 Van Basten entrou definitivamente para a galeria dos imortais do futebol holandês quando num potente remate cruzado bateu Immel e colocou a sua equipa na final. A vingança estava consumada 14 anos depois!

Itália impotente para anular a supremacia soviética

Na outra meia final o calculismo imperou, embora tivesse ficado evidente desde o apito inicial que a União Soviética era uma equipa mais madura. Excessivas preocupações defensivas de parte a parte marcaram a etapa inicial desse duelo.
Na segunda parte os pupilos de Lobanovsky apareceram mais desinibidos, e com uma enorme vontade de violar a baliza de Walter Zenga, sendo pois com naturalidade que à passagem do minuto 60 Litovchenko tivesse inaugurado o marcador. Ainda com mais naturalidade surgiu o segundo tento, apenas 2 minutos depois, por intermédio de Protassov, que acabava assim com as esperanças azzurras em chegar ao derradeiro dia da competição.

Holandeses ascendem ao Olimpo dos Deuses do futebol

No dia 25 de junho o Estádio Olímpico de Munique recebeu o jogo final do Euro 1988. Frente a frente duas equipas que já se haviam encontrado na 1ª fase, a Holanda e a União Soviética. Pelo que haviam feito até então o favoritismo era repartido por ambos os conjuntos, esperando-se desta forma um grande encontro de futebol. E quem assim imaginou não se enganou. A incerteza quanto ao vencedor prolongou-se durante grande parte deste jogo. Apesar do equilíbrio foi a Holanda que dispôs das melhores oportunidades para chegar ao golo, sendo que dela... deu mesmo golo. Aos 32 minutos o excêntrico capitão holandês Ruud Gullit bateu de cabeça o mítico Rinat Dasaev provocando uma explosão de alegria laranja em todo o Olímpico de Munique, o mesmo palco onde 14 anos os holandeses haviam perdido para a RFA a coroa mundial. A confirmação laranja ocorreu já na segunda parte na sequência de uma obra de arte assinada pelo genial Marco Van Basten. Corria o minuto 54 quando Zavarov perde uma bola a meio campo. Van Tiggelen combina com o experiente Muhren que centra largo para a perto da zona da linha de cabeceira soviética, onde aparece Van Basten que de primeira, e de ângulo impossível - ou quase impossível como se viria a verificar - remate para o fundo da baliza. MAGNÍFICO... INESQUECÍVEL... UM DOS GRANDES MOMENTOS DA HISTÓRIA DO FUTEBOL MUNDIAL!!!
Nos minutos seguintes a União Soviética ataca desesperadamente em busca de um golo que relançasse a final. Igor Belanov ainda falha uma grande penalidade, ou melhor, Hans Van Breukelen tem o mérito de defender o remate do homem que tinha sido eleito o melhor jogador europeu do ano. Pouco depois o francês Michel Vautrot apitava para o final do jogo, e desta feita havia sido feita justiça: o melhor futebol havia vencido, e tal como em 1874 a Holanda foi melhor, só que desta vez venceu. 1988 tornava-se assim no ano de ouro para o futebol holandês, já que antes da vitória da seleção laranja também o PSV havia vencido a Taça dos Campeões Europeus, curiosamente também em solo alemão, diante do Benfica.
Quanto à talentosa União Soviética conhecia neste Euro 88 o seu derradeiro capítulo, já que alguns anos depois o país iria desmembra-se.

Jogos


Grupo 1


1ª Jornada

10 de junho, em Dusseldorf
RFA - Itália: 1-1
(Matthaus, aos 53m)
(Mancini, aos 56m)
11 de junho, em Hannover
Dinamarca - Espanha: 2-3
(Laudrup, aos 26m, Povlsen, aos 84m)
(Michel, aos 6m, Butragueño, aos 53m, e Gordillo, aos 68m)

2ª Jornada

14 de junho, em Gelsenkirchen
RFA - Dinamarca: 2-0
(Klinsmann, aos 10m, e Thon, aos 87m)
14 de junho, em Frankfurt
Itália - Espanha: 1-0
(Vialli, aos 74m)

3ª Jornada

17 de junho, em Munique
RFA - Espanha: 2-0
(Voller, aos 30m, 51m)

17 de junho, em Colónia
Itália - Dinamarca: 2-0
(Altobelli, aos 66m, e De Agostini, aos 87m)

Classificação

1-RFA: 5 pontos
2-Itália: 5 pontos
3-Espanha: 2 pontos
4-Dinamarca: 0 pontos

Grupo 2


1ª Jornada
12 de junho, em Estugarda
Inglaterra - República da Irlanda: 0-1
(Houghton, aos 6m)

12 de junho, em Colónia
Holanda - União Soviética: 0-1
(Rats, aos 54m)

2ª Jornada

15 de junho, em Dusseldorf
Inglaterra - Holanda: 1-3
(Robson, aos 54m)
(Van Basten, aos 44, 72m, 76m)
15 de junho, em Hannover
República da Irlanda - União Soviética: 1-1
(Whelan, aos 39m)
(Protasov, aos 75m)

3ª Jornada

18 de junho, em Frankfurt
Inglaterra - União Soviética: 1-3
(Adams, aos 15m)
(Aleinikov, aos 3, Mikhailichenko, aos 28m, e Pasulko, aos 72m)

18 de junho, em Gelsenkirchen
República da Irlanda - Holanda: 0-1
(Kieft, aos 82m)

Classificação

1-União Soviética: 5 pontos
2-Holanda: 4 pontos
3-República da Irlanda: 3 pontos
4-Inglaterra: 0 pontos

Meias finais
21 de junho, em Hamburgo
RFA - Holanda: 1-2
(Matthaus, aos 55m)
(R. Koeman, aos 74m, Van Basten, aos 89m)
22 de junho, em Estugarda
União Soviética - Itália: 2-0
(Litovchenko, aos 60m, e Protasov, aos 62m)

Final


Holanda - União Soviética: 2-0

25 de junho, no Estádio Olímpico de Munique

Árbitro: Michel Vautrot (França)

Holanda: Van Breukelen, Van Aerle, Rijkaard, Ronald Koeman, Van Tiggelen, Vanenburg, Wouters, Muhren, Erwin Koeman, Gullit, e Van Basten. Treinador: Rinus Michels

União Soviética: Dasaev, Khidiatulin, Demianenko, Litovchenko, Aleinikov, Zavarov, Gotsmanov, (Baltacha, aos 69m), Mikhailichenko, Rats, Protasov (Pasulko, aos 72m), e Belanov. Treinador: Valery Lobanovsky

Golos: 1-0 (Gullit. aos 32m), 2-0 (Van Basten, aos 54m)

Onze ideal:

Van Breukelen (Holanda)
Bergomi (Itália)
Rijkaard (Holanda)
Ronald Koeman (Holanda)
Maldini (Itália)
Wouters (Holanda)
Gullit (Holanda)
Giannini (Itália)
Matthaus (RFA)
Vialli (Itália)
Van Basten (Holanda)

Melhor marcador:
Van Basten (Holanda): 5 golos

Legenda das fotografias:
1-Logotipo deo Euro 88
2-O alemão Klinsmann, então uma jovem promessa, no jogo ante a Espanha
3-Irlandeses festejam o golo ante a inimiga Inglaterra na estria em fase finais!
4-Holanda vinga-se da RFA 14 anos depois
5-União Soviética foi mais forte que a Itália na meia final
6-Capitão Gullit segura a primeira coroa de glória internacional da seleção laranja
7-O jovem Emilio Butragueño
8-A talentosa squadra azzurra
9-Resultado choque para os ingleses!
10-Irlandeses fizeram a festa no Euro 88 contra todas as previsões
11-Van Basten faz o golo que levou a Holanda à final
12-A melhor União Soviética dos anos 80
13-Gullit festeja o seu golo na final...
14-... e a festa final dos campeões
15-Van Basten foi o rei dos marcadores na RFA em 1988
 
Nota: Texto escrito em 8 de junho de 2012 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Suécia 1992

Utopia, simples palavra que servirá - ainda hoje - para descrever a vitória da Dinamarca no Campeonato da Europa de 1992. Um triunfo que se equipara a um conto de fadas, altamente improvável de transpor as fronteiras da realidade, nem mesmo para os adeptos mais otimistas dos vikings escandinavos. Ainda hoje causa uma certa estranheza perceber como é que uma equipa chamada à última da hora, para substituir outra, conseguiu conjungar os verbos chegar, ver, e vencer de uma forma tão nítida num certame de grau de dificuldade tão elevado como é o caso do Europeu! Dúvidas à parte o que é certo é que a Dinamarca inscreveu o seu nome no restrito álbum de campeões dos Europeus de futebol em 1992, feito alcançando não muito longe de casa, na Suécia, mais concretamente, país que por "mil e uma razões" organizou um dos Campeonatos da Europa mais memoráveis da história. Na realidade esta foi uma prova repleta de surpresas desde o seu início, inclusive desde a fase de qualificação, onde 2 clientes habituais das fases finais dos Europeus, a Espanha e a Itália, não garantiram o bilhete para as terras escandinavas no verão de 92. Os espanhóis quedaram-se por um mísero 3º lugar num grupo dominado por uma super França liderada tecnicamente pelo homem que até então havia dado aos gauleses o seu único título internacional, Michel Platini, que em 8 jogos venceu outros tantos com um saldo impressionante de 20 golos marcados e apenas 6 sofridos, cartão de visita suficiente para rotular os blues como um dos principais favoritos à conquista do caneco na Suécia. Por sua vez, e tal como na fase final do Euro 88, a Itália voltou a cair aos pés da União Soviética! Noutros grupos destaque para uma qualificação sofrida dos campeões em título, a Holanda, muito por culpa de um atrevido Portugal, e da Inglaterra, que mais uma vez teve de se desembaraçar de uma inquieta seleção da República da Irlanda, só vencida graças a um golo do genial Gary Lineker no duelo que opôs a Polónia à Inglaterra na derradeira jornada da fase de qualificação. Complicada foi igualmente a qualificação da Alemanha (muito por culpa de um aguerrido País de Gales), que pela primeira vez desde a queda do muro de Berlim competia como uma única nação, isto é, com as irmãs República Federal da Alemanha e República Democrática da Alemanha unificadas... finalmente. E se uns agitavam bandeiras brancas em sinal de paz outros viam a guerra eclodir entre os seus povos, como foi o caso da Jugoslávia, que no grupo 4 levou a melhor sobre a Dinamarca, Irlanda do Norte, Áustria, e as Ilhas Faroé. Surpresa foi a Escócia, que ao vencer o grupo 2 garantiu a sua primeira presença na fase final de um Europeu.

E quando a grande festa estava prestes a ter início na Suécia a confusão instalou-se no seio da competição, e tudo por culpa dos países de leste. A União Soviética havia desaparecido enquanto país, enquanto que a Jugoslávia continuava a braços com uma guerra sangrenta entre os seus povos. Perante isto a UEFA decide que os soviéticos viajam para a Suécia sob o desígnio de Comunidade de Estados Independentes (CEI), uma solução que agradou na altura aos países que resultaram do desmembramento da ex-União Soviética, em especial a Rússia e a Ucrânia, as duas novas - ou renascidas - nações que maior número de atletas forneciam ao combinado de leste. Quanto à Jugoslávia o organismo que tutela o futebol europeu decidiu sancionar aquele país - ou o que restava dele - com o afastamento de todas as provas por si organizadas, tendo chamado para o lugar dos jugoslavos a 2ª colocada do grupo de qualificação, precisamente a Dinamarca. Reza a lenda que a maior parte dos jogadores dinamarqueses gozava já o merecido período de férias nas tórridas praias do sul da Europa, entre eles a grande estrela daquela seleção, Michael Laudrup, que quando convocado - à última da hora - pelo selecionador Richard Moller-Nielsen preferiu... continuar a apanhar sol ao invés de calçar as chuteiras numa prova em que o próprio - e não só - achava que o seu país não ia fazer mais do que corpo presente. Na verdade, não só Laudrup era desta opinião, todos os críticos e conhecedores da modalidade estavam cientes de que pelo seu curto tempo de preparação a seleção escandinava pouco mais podia fazer do que evitar sair goleada dos 3 jogos que iria fazer no grupo 1 da fase final. Como estavam enganados, como iremos ver.

Fantástica Dinamarca! (parte 1)

Inglaterra e França eram naturalmente apontadas como as duas seleções favoritas a vencer o grupo 1, não só pelos poderosos grupos que haviam reunido rumo à Suécia, mas sobretudo pela sua maior experiência na alta roda do futebol internacional. Mas cedo essa teoria seria deitada por terra. No jogo de estreia (a 10 de junho) do Euro 92, em Estocolmo, a equipa da casa quis mostrar ao Mundo que não estava ali como mera anfitriã do torneio, mas sim com a intenção de dar uma alegria ao seu povo, tentanto caminhar o mais longe possível na competição, quiçá repetir o feito de 1958, onde também na qualidade de país organizador alcançou a final do Campeonato do Mundo desse ano, caindo apenas aos pés do rei Pelé e seus súbitos. E o intuito sueco ficou bem sublinhado no primeiro encontro do Europeu, quando travaram com toda a classe a máquina trituradora de Platini, na sequência de um empate a uma bola. O defesa Ericksson colocou o público da casa em delírio à passagem do minuto 24, altura em que bateu o guardião Martini e fez o primeiro golo do Euro 92. Contudo, do outro lado estava um dos melhores avançados do planeta de então, uma arma mortífera em frente às balizas, de seu nome Jean Pierre Papin, que aos 58 minutos evitou o mal menor para a sua seleção. No dia seguinte, em Malmo, aquilo o que se pensaria ser um triunfo fácil da poderosa Inglaterra acabou por tornar-se na primeira grande surpresa do Europeu. A Dinamarca, a tal seleção chamada à última da hora, impôs um empate a zero a Gary Lineker e companhia, que 2 anos antes haviam alcançado um brilhante 4º lugar no Mundial de Itália. Um pobre 0-0, na realidade, resultado de um paupérrimo jogo de futebol, mas que na verdade rasgou sorrisos de felicidade entre os até há poucos dias atrás veraneantes vikings. Na noite de 14 de junho o Estádio Rasunda, nos arredores de Estocolmo, voltou a pintar-se de amarelo e azul (as cores da bandeira sueca) para puxar pela seleção de Tommy Svensson. Desta feita o adversário eram os vizinhos da Dinamarca, que mesmo não fazendo um mau jogo, contrariamente ao que haviam feito dias antes ante a Inglaterra, não conseguiram contrariar a avalanche ofensiva sueca, liderada por Limpar, Dahlin, e Brolin, cabendo a esta último o papel de herói dessa célebre noite, depois de apontar (aos 58 minutos) o único golo da partida, e desta forma colocar toda uma nação em delírio. Nunca 1958 estava tão perto de ser revivido como então.

Horas antes, em Malmo, mais um apontamento desolador de duas candidatas à coroa de campeão da Europa. Ingleses e franceses não foram além de um desinspirado 0-0, e as contas começavam a complicar-se para ambos. Porém, nos caminhos da matemática final os gauleses estavam mais confortáveis, já que necessitavam apenas de um empate no último encontro do grupo ante a aparentemente frágil Dinamarca, ao passo que os britânicos teriam forçosamente de vencer a equipa da casa para tornar a fase seguinte uma realidade e não a miragem que se começava a figurar. E o Suécia - Inglaterra foi talvez um dos grandes jogos deste Euro 92, um momento inolvidável para o futebol sueco, graças a mais uma estupenda exibição de nomes como Ravelli, Limpar, Schwartz, Thern, Nilsson, Dahlin, ou Brolin, nomes que formavam aquela que hoje podemos mesmo considerar a geração de ouro do futebol da Suécia, a geração que brilhou a grande altura não só neste Europeu mas sobretudo 2 anos depois, no Mundial dos Estados Unidos da América, onde conquistou um memorável 3º lugar! David Platt ainda levou ao delírio os fanáticos e sempre presentes adeptos ingleses, quando aos 3 minutos do decisivo encontro colocou a aramada britânica em vantagem. Contudo, e na sequência de uma 2ª parte demolidora, os suecos enviaram a Inglaterra mais cedo para casa, acabando por vencer por 2-1, com golos de Eriksson e do pequeno grande jogador Thomas Brolin. A Suécia - que fazia a sua estreia em fases finais de Europeus - estava nas meias-finais, e a partir dali o céu era o limite. Mas a maior surpresa desse dia 17 de junho ocorreria em Malmo, onde a favorita - mas até então desoladora - França era eliminada pela repescada Dinamarca! 2-1, vitória categórica e merecida dos vikings, que para surpresa de todos, inclusive de si próprios, estavam nas meias-finais. Quem diria! Por seu turno a França queimava uma das suas melhores equipas de sempre, onde pontificavam nomes como Eric Cantona, Boli, Manuel Amoros, Casoni, Fernandez, ou o goleador Papin, ícones capazes de levar qualquer equipa à glória, mas que neste Euro 92 tiveram um desempenho medíocre.

Velhos inimigos voltam a encontrar-se

Contrariamente ao grupo 1 o grupo 2 não conheceu surpresas, ou seja, os favoritos à passagem às meias-finais fizeram-no sem problemas de maior. Favoritos que davam pelos nomes de Holanda e Alemanha, respetivamente os campeões da Europa e do Mundo em título, e dois dos mais velhos inimigos do futebol mundial. Esta era já a terceira fase final consecutiva - quer de Europeus, quer de Mundiais - em que ambos os países - geograficamente vizinhos, por sinal - se iriam encontrar, sendo que o saldo registado até então era de uma vitória para cada lado, a da Holanda conseguida no Euro 88, enquanto que a dos germánicos havia sido alcançada no Mundial 90. Mas até ao confronto entre estes dois favoritos um longo caminho teve de ser precorrido, principalmente pela Alemanha. Comandada por Berti Vogts - que rendeu Franz Beckenbauer após a conquista do ceptro mundial em 1990 - a seleção germânica apresentou-se inicialmente na Suécia um pouco aquém do esperado, conforme comprova o sofrido empate a um golo ante a CEI no primeiro encontro do grupo, ocorrido em Norrkoping a 12 junho. Foi graças a um golpe de génio do pequeno Thomas Hassler - que viria a ser considerado pela crítica como o melhor germânico do Euro 92 - que a Alemanha - unificada - alcançou em cima do minuto 90 o empate a um golo ante os ex-soviéticos. Pequeno, mas de relativa facilidade, foi o triunfo dos detentores do título europeu, a Holanda, sobre a estreante Escócia, que tinha no seu avançado Ally McCoist a sua principal estrela. 1-0, golo do jovem avançado Dennis Bergkamp, foi o momento alto da tarde de 12 de junho no Estádio Ullevi, em Gotemburgo, uma das 4 cidades que acolheu a prova.

Três dias volvidos os escoceses comprovaram a sua inexperiência ao mais alto nível, ao perderem por 0-2 ante a Alemanha - com golos de Riedle e Effenberg - dizendo assim definitivamente adeus ao Euro 92. Enquanto isso a CEI mostrava que a União Soviética estava morta enquanto país, mas o talento e a alma do futebol que este país brindou o planeta da bola durante décadas a fio continuava bem vivo. 0-0, resultado final do choque com os mestres holandeses, e a chama de passar à fase seguinte continuava bem acesa para os jogadores de leste. Bastava por isso uma simples vitória ante os já desqualificados escoceses e que a Alemanha não vencesse a super Holanda de Gullit, Van Basten, Koeman, Rijkaard, Wouters, ou da nova coqueluche do grupo, Bergkamp. Estes atletas deram então uma ajuda à CEI, vencendo o derby ante a Alemanha de uma forma magistral, graças a uma exibição que fez lembrar a inolvidável Holanda que 4 anos antes havia subido ao trono do futebol continental. Em Gotemburgo o marcador final do esperado e ansiado duelo, uma espécie de final antecipada do Europeu, indicava uns expressivos 3-1 a favor dos pupilos do mestre da tática Rinus Michels. A Alemanha, campeã do Mundo, foi vulgarizada, e nas bancadas os teutónicos olhavam incrédulos para o desnorte de estrelas como Illgner, Kohler, Brehme, Helmer, Klinsmann, Doll, ou Moller, no fundo os homens que não muito tempo antes haviam conduzido a nação ao terceiro título mundial da sua história. Porém, como num golpe de sorte, de Norrkoping chegavam boas novas: a frágil Escócia havia humilhado por 3-0 a CEI e desta forma oferecido aos alemães o passaporte para a fase seguinte. A "McAlemanha" (os golos da Escócia foram apontados por 3 "Mc's": McClair, McStay, e McAllister) ainda estava viva.

Épico duelo no Rasunda

Uma Alemanha a meio gás conferiu à nação sueca uma onda de otimismo elevado para o primeiro confronto das meias-finais, precisamente o que iria colocar frente a frente os pupilos de Tommy Svensson aos de Berti Vogts. Com uma postura distinta daquela petenteada nos 3 primeiros encontros os germânicos cedo tomaram conta do jogo realizado no anfiteatro do Rasunda Stadium, evidenciando uma maior capacidade física e técnica, não sendo de estranhar que logo aos 10 minutos Thomas Hassler colocasse os forasteiros em vantagem. No início da etapa complementar (59 minutos) Karl-Heinz Riedle amplia a vantagem e a onda azul e amarela que inundava as bancadas do Rasunda esmorecia. Atitude que no entanto não seria seguida pelos jogadores suecos, que 5 minutos volvidos reduziram a desvantagem na sequência de uma grande penalidade apontada por Brolin. A esperança renascia para as hostes da casa. O jogo estava elétrico, bola cá, bola lá, sendo que a vitória poderia cair para qualquer dos lados. Mas, a frieza alemã voltaria a dar os seus frutos a 2 minutos do fim, altura em que Riedle mata de forma aparente o jogo ao fazer o 3-1. De forma aparente porque aos 89 minutos Andersson faz o 2-3 e a chama da esperança reacende-se entre os adeptos locais. Era porém já muito tarde para reagir. As forças estavam gastas, a dura batalha fazia estragos entre os guerreiros suecos que apesar de tudo caiam de pé num encontro que de forma unânime foi considerado como o melhor de todo o Euro 92, e um dos mais épicos da história da competição.

Fantástica Dinamarca! (parte 2)

Poucos acreditavam que holandeses e alemães não se voltassem a encontrar neste Europeu de 1992, e de novo no Ullevi de Gotemburgo, mas desta feita para discutir o título continental. Era uma questão de tempo, de 90 minutos, o tempo que separava os holandeses da sua segunda final consecutiva. Mas não foi bem assim. Na véspera do jogo da segunda meia final o defesa holandês Ronald Koeman adiantava à imprensa que já sonhava com a final e com... as férias do Algarve! Como muitas das vezes acontece o excesso de confiança paga-se bem caro, e os mestres holandeses pagaram-no, efetivamente. Os nórdicos colocaram-se em vantagem bem cedo (5 minutos) por intermédio de Henrik Larsen, que naquela tarde de 22 de junho viveria na relva do Ullevi o grande momento da sua carreira, como mais à frente iremos perceber. Bergkamp ainda empatou para a Holanda, aos 23 minutos, mas os vikings queriam fazer história, queriam continuar a sua - inesperada - aventura, e à passagem do minuto 32 Henrik Larsen voltou a colocar em delírio os apoiantes dinamarqueses. Naquele instante ninguém no Reino da Dinamarca se lembrava de... Michael Laudrup. Larsen, Lars Olsen, Kim Vilfort, Povlsen, Peter Schmeichel, ou o mais novo dos Laudrup (Brian) eram mais do que suficientes para trazer alegria à nação escandinava. O guarda-redes Schmeichel fez mesmo uma das melhores exibições da sua gloriosa carreira, travando com defesas espetaculares e seguras a avalanche holandesa que ia subindo de intensidade à medida que o relógio ia avançando. Porém, aos 85 minutos, Schmeichel foi incapaz de travar o remate certeiro de Frank Rijkaard, que desta forma colocava tudo na estaca zero. A Dinamarca tinha já superado o pior, mas ainda assim poucos acreditavam que a Holanda não acabasse por demonstrar a sua superioridade no prolongamento. Não mostrou, na verdade, e o jogo foi decidido nas grandes penalidades, onde um desinspirado Marco Van Basten - fez um Euro 92 muito abaixo das suas potencialidades - viu o seu penalty ser travado pelo bravo Schmeichel, que pouco depois via o seu companheiro Christofte levar a Dinamarca para a final do Campeonato da Europa! Impensável, não nos cansamos de repetir. E tudo o que acontecesse depois daquela noite não teria importância, pois quer vencessem ou não a final os dinamarqueses já eram os grandes heróis deste Euro 92.
E como não tinham mesmo nada a perder o conto de fadas conheceu um final deslumbrante!

Fantástica Dinamarca! (parte 3)

Estádio Ullevi, dia 26 de junho, para a Alemanha poderia ser mais um jogo rumo a mais um título, para a Dinamarca era o jogo de uma vida, o momento mais sublime da sua história desportiva. Cedo os alemães quiseram ver a questão resolvida, mas os nórdicos mostravam que já que haviam sido convidados para participar na festa não queriam sair dali sem se divertirem. E alegria foi o que John Faxe Jensen terá sentido ao minuto 18 quando na sequência de um remate à entrada da área coloca a Dinamarca em vantagem! Os Deuses (do futebol) estavam definitivamente loucos. Os alemães continuaram no entanto a dominar, massacrar será mesmo a palavra exata. Mas aquela não era a sua noite, era a noite de uns mágicos vikings que já perto do final da contenda deram o golpe final por intermédio de Kim Vilfort. 2-0, os veraneantes dinamarqueses podiam finalmente gozar as suas merecidas férias, mas agora ostentando o pomposo título de CAMPEÕES DA EUROPA, e o Mundo ficava pasmado...

Jogos

Grupo 1

1ª jornada

10 de junho, em Estocolmo
Suécia - França: 1-1
(Eriksson, aos 24m)
(Papin, aos 58m)

11 de junho, em Malmo
Dinamarca - Inglaterra: 0-0

2ª jornada

14 de junho, em Malmo
Inglaterra - França: 0-0

14 de junho, em Estocolmo
Suécia - Dinamarca: 1-0
(Brolin, aos 58m)

3ª jornada

17 de junho, em Estocolmo
Suécia - Inglaterra: 2-1
(Eriksson, aos 51m, Brolin, aos 82m)
(Platt, aos 3m)

17 de junho, em Malmo
Dinamarca - França: 2-1
(Larsen, aos 8m, Elstrup, aos 78m)
(Papin, aos 60m)

Classificação

1-Suécia: 5 pontos
2-Dinamarca: 3 pontos
3-França: 2 pontos
4-Inglaterra: 2 pontos

Grupo 2

1ª jornada

12 de junho, em Gotemburgo
Holanda - Escócia: 1-0
(Bergkamp, aos 76m)

12 de junho, em Norrkoping
CEI - Alemanha: 1-1
(Dobrovolsky, aos 62m
(Hassler, aos 89m)

2ª jornada

15 de junho, em Norrkoping
Alemanha - Escócia: 2-0
(Riedle, aos 28m, Effenberg, aos 46m)

15 de junho, em Gotemburgo
Holanda - CEI: 0-0

3ª jornada 

18 de junho, em Norrkoping
CEI - Escócia: 0-3
(McStay, aos 6m, McClair, aos 17m, McAllister, aos 83m)

18 de junho, em Gotemburgo
Holanda - Alemanha: 3-1
(Rijkaard, aos 2m, Witschge, aos 14, Bergkamp, aos 71m)
(Klinsmann, aos 53m)

Classificação

1-Holanda: 5 pontos
2-Alemanha: 3 pontos
3-Escócia: 2 pontos
4-CEI: 2 pontos

Meias-finais

21 de junho, em Estocolmo
Suécia - Alemanha: 2-3
(Brolin, aos 64m, Andersson, aos 89m)
Hassler, aos 10m, Riedle, aos 58m, aos 88m)

22 de junho, em Gotemburgo
Holanda - Dinamarca: 2-2 (4-5 nas grandes penalidades)
(Bergkamp, aos 23, Rijkaard, aos 85m)
(Larsen, aos 5m, aos 32m)

Final

Dinamarca - Alemanha: 2-0

26 de junho, no Estádio Ullevi, em Gotemburgo

Árbitro: Bruno Galler (Suíça)

Dinamarca: Schmeichel, Sivebaek (Christiansen, aos 66m), Olsen, Piechnik, Nielsen, Christofte, Vilfort, Jensen, Larsen, Laudrup, e Povlsen. Treinador: Richard Moller Nielsen

Alemanha: Illgner, Buchwald, Helmer, Kohler, Reuter, Brehme, Sammer (Doll, aos 46m), Effenberg (Thom, aos 80m), Hassler, Riedle, Klinsmann. Treinador: Berti Vogts

Golos: 1-0 (Jensen, aos 18m), 2-0 (Vilfort, aos 78m)

Onze ideal:

Schmeichel (Dinamarca)

Sivebaek (Dinamarca)

Kohler (Alemanha)

Eriksson (Suécia)

Olsen (Dinamarca)

Rijkaard (Holanda)

Jensen (Dinamarca)

Hassler (Alemanha)

Riedle (Alemanha)

Bergkamp (Holanda)

Brolin (Suécia)

Melhores marcadores:

Riedle (Alemanha); Larsen (Dinamarca), Brolin (Suécia), Bergkamp (Holanda): 3 golos

Legenda das fotografias:1
1-Logotipo do Euro 1992
2-A inesperada festa viking na final de Gotemburgo
3-Ingleses e franceses: as duas grandes desilusões da prova
4-O pequeno genial Thomas Brolin carimbou o passaporte sueco para as meias-finais ante a Inglaterra
5-Bergkamp marca o tento solitário da Holanda ante a estreante Escócia
6-Fundamental em 1988, e desinspirado em 1992, eis Marco Van Basten
7-Thomas Hassler aponta o primeiro tento da meia-final ante a Suécia
8-Bergkamp bem tentou, mas no final a festa foi dinamarquesa...
9-... que se viria a repetir na grande final do torneio
10-Duelo entre dinamarqueses e ingleses
11-A desoladora Inglaterra
12-Suécia
13-França
14-Gullit, uma das estrelas holandesas em luta com um escocês
15-Alemão Sammer salta mais alto que um escocês
16-O conjunto da CEI
17-A Escócia acordou tarde demais na estreia em fases finais do Euro
18-O sempre emotivo duelo entre alemães e holandeses
19-Schmeichel prepara-se para defender o penalty de Van Basten
20-Dinamarca, a inesperada campeã da Europa de 1992

Nota: Texto escrito em 15 de outubro de 2012 no blog: http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

Inglaterra 1996

O alargamento da Europa no que a nações independentes diz respeito fez com que a UEFA alterasse - em meados dos anos 90 do século passado - novamente o figurino da sua competição rainha. Com mais países a competir entre si pela qualificação o Europeu (47 seleções participaram na fase de qualificação, o que desde logo constituiu um novo recorde em termos de adesão) o organismo que tutela o futebol continental decidiu que a partir de 1996 a fase final do Campeonato da Europa passaria a ter 16 seleções em vez das 8 que vigoravam desde 1980. Face a este cenário a competição assemelhava-se cada vez mais a um... Campeonato do Mundo, com mais equipas de topo a competir entre si e consequentemente mais espetáculo e emoção. E com mais seleções de renome a garantir a qualificação para a fase final em virtude do aumento do número de participantes não foi de estranhar que o Euro 1996 reunisse à sua volta a nata do futebol europeu, isto é os peso pesados. Alemanha, Itália, França, Holanda, Espanha, ou Inglaterra estavam lá todos, em busca da glória. E a juntar a estes um naipe de equipas talentosas e capazes de surpreender o planeta do futebol tal como a Dinamarca havia feito quatro anos antes em terras escandinavas, como eram os casos de Portugal, Bulgária, Croácia, ou a própria Dinamarca.
Estavam reunidos os condimentos para um torneio memorável a apaixonante, e como paixão é sinónimo de futebol inglês a UEFA atribuiu a organização do Euro 96 à Inglaterra, dando desta forma aos ingleses a oportunidade de se redimirem perante o Mundo da tragédia do Heysel em 1985, desencadeada por adeptos britânicos antes da final da Taça dos Campeões Europeus (TCE) entre o Liverpool e a Juventus, a qual provocou a morte a dezenas de pessoas, o que levaria os responsáveis uefeiros a suspender todas as equipas inglesas das provas continentais durante os 5 anos que se seguiram.
A Inglaterra agarrou a oportunidade e mostrou ao Mundo que sabe organizar e receber civicamente eventos desta grandeza... Oito cidades foram escolhidas para sediar o Euro 96, nomeadamente Liverpool, Manchester, Newcastle, Leeds, Birmingham, Nottingham, Sheffield, e a capital Londres.

Ingleses revivem o espírito (do Mundial) de 1966 

A Inglaterra voltava a receber 30 anos depois uma grande competição futebolística, e os níveis de espetativa em torno da seleção dos "3 Leões" era enorme. Na memória dos súbitos de Sua Majestade estava o lendário Campeonato do Mundo de 1966, organizado e ganho pela Inglaterra, naquele que constituiu o ponto mais alto do futebol britânico no que diz respeito a seleções.
Repetir a façanha de 1966 era um sonho que no verão de 1996 inundava as mentes de todos os ingleses, não só porque jogavam em casa - e sentiam como tal a obrigação de ir o mais longe no certame, e o mais longe seria voltar a ver a rainha Isabel II entregar o trofeú de campeão ao capitão inglês, tal como aconteceu em 66 -, mas sobretudo porque o conjunto orientado por Terry Venables reunia um naipe de jogadores capazes de conduzir a armada britânica a bom porto, casos dos experientes Stuart Pearce, Tony Adams, David Platt, Paul Gascoigne, Teddy Sheringham, ou Alan Shearer, aos quais se juntava um leque de jovens e promissores atletas, como Gary Neville, Gareth Southgate, Steve McManaman, ou Paul Ince. Porém, e tal como em 66, a estreia da equipa da casa deixou muito a desejar.
No dia 8 de junho Inglaterra e Suíça deram o pontapé de saída da 10ª edição do Campeonato da Europa, tendo como cenário a catedral do futebol mundial, o Estádio do Wembley, que com 72 000 entusiastas nas suas míticas bancadas presenciou uma triste igualdade a um golo entre as duas seleções que integravam o Grupo A. Sob a arbitragem do espanhol Diaz Vega os ingleses adiantaram-se no marcador, quando decorria o minuto 23 de jogo, e por intermédio do homem-golo desta fase final, Alan Shearer, o temível matador dos relvados ingleses, que se apresentou neste Euro 96 numa forma estupenda, e que fazia assim o primeiro dos 5 golos que haveriam de consagra-lo como o melhor marcador do evento.
Orientados pelo treinador português Artur Jorge (que em 1987 havia levado o FC Porto ao trono do futebol europeu após a conquista da TCE) a Suíça, que fazia a sua estreia em fases finais de Campeonatos da Europa, apagaria o inferno de Wembley a seis minutos do final do encontro, altura em que o seu avançado de origem turca Kubilay Turkyilmaz fez o 1-1 definitivo, após a conversão de uma grande penalidade.
Dois dias depois, no Villa Park de Birmingham, a 1ª jornada do Grupo A ficaria completa com outra desoladora igualdade, esta sem golos, entre uma rejuvenescida (em relação aos Europeus de 1988 e 1992) Holanda e uma experiente Escócia, que pela segunda vez consecutiva marcava presença na fase final de um Euro.
Holandeses que viriam a redimir-se da escorregadela inicial no dia 13, também em Birmingham, altura em que derrotaram a estreante Suíça por 2-0, com golos do temível e experiente avançado Dennis Bergkamp e de um tal de Jordi Cruyff, filho do lendário Johan Cruyff. Jordi - que como jogador teve uma carreira bem modesta - entrava assim para a história da família Cruyff ao fazer algo que o seu pai nunca logrou alcançar: marcar um golo na fase final de um Europeu.
E no dia 15 de junho as bancadas de Wembley registaram a maior enchente desta fase final. 76 864 espetadores assistiram ao derby entre Inglaterra e Escócia, um duelo centenário recheado de inúmeras batalhas históricas, e que para não fugir à regra foi... memorável. Este encontro será eternamente recordado não só pela magnífica exibição dos ingleses mas em particular pela atuação soberba de Paul Gascoigme, o irreverente médio ofensivo que se revelou ao Mundo no Itália 90.
Gazza, como é carinhosamente tratado no planeta da bola, apontou um dos golos mais belos de toda a história dos Campeonatos da Europa, um golo que ainda hoje é visto e revisto vezes sem conta, e que constituiu um dos maiores tesouros da modalidade. Numa altura em que a Inglaterra vencia já por 1-0 (graças a um golo de Shearer aos 53 minutos) a bola chega até Gazza, que à entrada da área pica a bola por cima do defesa escocês Colin Hendry, e sem deixar cair o esférico no relvado sagrado de Wembley remate de primeira para o fundo das redes de Andy Goran. Um lance de génio só ao alcance dos predestinados, que recolheu os aplausos de todos os presentes no estádio, e que mais do que tudo colocou praticamente a equipa da casa na fase seguinte.
E eis que chegavámos ao dia do "juízo final" neste Grupo A, o dia do tira-teimas, saber quem seguia para os quartos de final do Euro, sendo que por esta altura ingleses e holandeses partiam em clara vantagem sobre os seus rivais. Mas estes últimos tiveram de suar e muito a camisola para marcar presença entre os oito últimos sobreviventes da competição. Uma exibição galática da Inglaterra quase que atirou a "laranja mecânica" para fora da competição.
Em Wembley, Shearer e companhia humilharam uma jovem Holanda carente das grandes estrelas do passado recente (Gullit, Van Basten, Ronald Koeman, Rijkaard). Jogadores talentosos mas ainda sem grande experiência internacional como Edwin Van der Sar, Michael Reiziger, Bogarde, Clarence Seedorf, Edgar Davids, ou os irmãos gémeos De Boer, pareciam não ter forças para levar a nau holandesa a mares outrora gloriosamente navegados. Em Wembley, e a cerca de 30 minutos para o final do duelo ante os ingleses, a Holanda perdia por 4-0 (!), graças à inspiração da dupla (de avançados) letal composta por Alan Shearer e Teddy Sheringham, cada um deles com dois tentos apontados na conta pessoal.
Mas as más notícias para os holandeses não se ficavam por aqui. Ao mesmo tempo do desafio de Wembley decorria em Birmingham o jogo entre Suíça e Escócia, sendo que estes últimos estavam em vantagem no marcador (por 1-0) desde o minuto 36, altura em que o veterano goleador Ally McCoist fuzilou o guarda-redes helvético Pascolo.
Assim sendo, e face à conjugação destes resultados a Holanda e a Suíça diziam adeus ao Euro britânico. Porém, como num ato de magia o selecionador laranja Guus Hiddink faz saltar do banco o jovem Patrick Kluivert, o tal que um ano antes havia dado o título europeu de clubes ao Ajax na sequência do golo apontado no Prater de Viena ao Milan. E bastaram sete minutos em campo para Kluivert voltar a fazer das suas. O relógio marcava 78 minutos de jogo quando um aparentemente golo insignificante do jovem avançado de 19 anos colocou a Holanda nos quartos de final, já que este tento permitia à seleção tulipa vencer o confronto direto (diferença entre golos marcados e sofridos) com uma Escócia que apesar de dar mostras de grande qualidade (o futebol escocês vivia em termos de seleção nacional o melhor período da sua história) fazia as malas rumo a casa.
Já a Suíça não deixou saudades, tendo estado muito longe das exibições patenteadas dois anos antes no Campeonato do Mundo dos Estados Unidos da América, onde seriam reconhecidos como uma das melhores equipas do certame americano.

Grupo de génios dominados por gigantes do futebol continental

O Grupo B era um dos que mais curiosidade sobre si atraía. Composto por duas seleções que no seu currículo ostentavam já um título (cada uma delas) de campeão da Europa, a França e a Espanha, esta chave era ainda integrada por dois combinados que haviam brilhado a grande altura no Mundial norte-americano ocorrido em 1994, a Roménia e a Bulgária. Duas seleções que eram lideradas por duas das maiores celebridades de todos os tempos do desporto rei, os romenos pelo Maradona dos Cárpatos Gica Hagi, e os búlgaros pelo genial - no duplo sentido - Hristo Stoichkov.
Com estas duas super estrelas e com as que compunham as seleções de França e Espanha o espetáculo estava - teoricamente - garantido.
Em Leeds, a 9 de junho, o grupo foi inaugurado com o duelo entre espanhóis e búlgaros, um jogo especial para a estrela deste último combinado, Stoichkov, que reencontrava do outro lado da barricada alguns dos seus antigos companheiros do Barcelona. Bulgária que era apontada à partida para este Euro como uma das candidatas a chegar o mais longe possível na competição (muitos apontavam mesmo a final), muito devido ao pomposo cartão de visita que trazia consigo, concebido dois anos antes no Campeonato do Mundo, onde estrelas como Emile Kostadinov, Boris Mihailov, Krassimir Balakov, Lubomir Penev, Letchkov, ou já mencionado astro Stoichkov (que a par do russo Oleg Salenko se sagrou o melhor marcador do Mundial 94) surpreenderam o globo terrestre ao alcançar umas impensáveis meias-finais desse certame, caíndo apenas aos pés de uma Itália liderada pelo inspirado Roberto Baggio.
Como tal era natural que os búlgaros se apresentassem neste Europeu com algumas aspirações, em pelo menos fazer igual ao que haviam feito na competição da FIFA. E até nem começaram mal a participação em terras inglesas, empantado (1-1) o confronto ante a experiente e talentosa Espanha do técnico Javier Clemente. Bulgária que até saiu na frente por intermédio de... Stoichkov, quem mais havia de ser (!), aos 65 minutos. Os espanhóis correram atrás do prejuízo, tendo a necessidade de suar até ao final para conquistar pelo menos um ponto ante os artistas de leste. A 15 minutos do fim Alfonso faria a divisão de pontos... para desespero de Hristo Stoichkov, que mais uma vez colocou em campo a sua dupla genialidade. Ou seja, por um lado o seu génio futebolísitico, por outro o seu génio temperamental, o seu mau feitio, o seu mau perder, culpando o árbitro italiano Ceccarini pela perda dos 3 pontos da sua equipa.
Um dia depois, em Newcastle, nascia a seleção que haveria de dominar o futebol mundial até ao virar do século, a França. Cansada dos recentes desastres desportivos (não qualificação para o Euro 88 e para os Mundiais de 90 e de 94, além da pobre campanha na fase final do Euro 92) os responsáveis gauleses decidiram entegrar o controlo de todo o seu futebol ao experiente técnico Aimé Jacquet, o adjunto de Michel Hidalgo durante a gloriosa campanha do Euro 84.
Jacquet reconstruiu todo o futebol francês, e mais do que isso voltou a incutir-lhe a mentalidade vencedora tão vincada durante a geração de Platini. Para Inglaterra o treinador francês levou um conjunto de jogadores que haveriam de guiar a França até ao topo do Mundo nos anos seguintes, uma geração que marcou a história do próprio futebol planetário, que marcou a história do jogo, uma França liderada por um homem que anos mais tarde haveria de ascender ao patamar das lendas desta modalidade, de seu nome Zinedine Zidane. Este seria então o batismo internacional da geração de ouro do futebol gaulês, estreia que teve lugar no St. James Park ante uma temida Roménia que tal como a Bulgária havia encantado dois anos antes no Mundial. No entanto, em solo inglês Hagi e companhia não estiveram tão inspirados como haviam mostrado em terras norte-americanas, onde entre outros fizeram vítima a poderosa seleção argentina de... Diego Armando Maradona. Em Newcastle a Roménia tombou após um golo solitário de Dugarry (outros dos craques criados por Jacquet) aos 25 minutos.
E na 2ª jornada assistiu-se a um clássico do futebol continental, o Espanha - França. Duas seleções com argumentos para ir longe na competição, recheadas de talentos individuais que na altura atuavam nos melhores clubes do Mundo. E nesta reedição da final do Euro 84 a emoção e incerteza quanto ao vencedor voltou a inundar o relvado. Bem disputado o duelo terminou justamente empatado a um golo (pela França marcou Djorkaeff, aos 49 minutos, ao passo que pelos espanhóis Caminero fez o gosto ao pé aos 86), deixando desta forma mais felizes os pupilos de Jacquet, que assim estavam praticamente nos quartos de final.
Em Newcastle defrontaram-se os vizinhos romenos e búlgaros, um cara a cara entre os génios Hagi e Stoichkov, tendo a balança da glória pendido para este último que logo a abrir o duelo (ao minuto 3) fez o único golo do encontro e deu asas às vozes que colocavam a Bulgária como favorita a ir o mais longe possível. Mas como estavam enganados.
No dia 18 a França não só consolidou o lugar mais cimeiro do Grupo B como vingou a amarga derrota
que a Bulgária havia aplicado aos blues três anos antes em pleno Parque dos Príncipes (em Paris) e que atirou os gauleses para fora do Mundial de 1994. Fruto de uma inspirada exibição, e de uma atabalhoada performance do adversário, a França venceu os búlgaros por 3-1, com golos do defesa Laurent Blanc, do promissor avançado Patrice Loko, e do búlgaro Lubo Penev. Stoichkov, como que remando contra a maré, voltou a faturar, fazendo o tento de honra da sua equipa, que esperou quase até à última da hora para saber se mesmo derrotada pelos franceses seguia ou não para a fase seguinte.
Isto porque à mesma hora, em Leeds, a desoladora Roménia, já sem qualquer hipótese matemática de seguir em frente, empatava  aum golo ante  fúria espanhola de Clemente. Espanhóis que atacavam a baliza de Prunea por todos os lados possíveis e imaginários. Lutavam desesperadamente pelo golo da vitória que lhes dava a qualificação, mas do outro lado estava um autêntico muro que ia impedindo o milagre espanhol. «Vendidos», gritava todo o banco espanhol para os romenos, que se mostravam demasiado aplicados para uma equipa que já não tinha nada a conquistar neste Euro 96. Seria esta atuação romena um mero ato de compadrio com os vizinhos búlgaros, ou simplesmente queriam sair de Inglaterra com um resultado positivo na bagagem? A incógnita foi desfeita a seis minutos dos 90 regulamentares, quando Guillermo Amor furou o bloco de leste e fez o 2-1 final que garantia à Espanha a passagem à fase seguinte.

Estreantes checos fazem a festa perante as lágrimas dos vice campeões do Mundo

Olhando para o Grupo C dúvidas pareciam não existir quanto às duas seleções que avançariam para os quartos de final. Itália e Alemanha, dois tri-campeões mundiais, duas seleções que sabiam o que era ganhar um Europeu, eram teoricamente fortes de mais para uma Rússia ainda em reconstrução - após o desmembramento da União Soviética - e uma completamente desconhecida República Checa, que tal como os russos tinham recentemente tornado-se num país independente, neste caso após o desmembramento da Checoslováquia. E logo na 1ª jornada a prática confirmou a teoria, com os alemães a baterem sem problemas os checos por 2-0 em Manchester, ao passo que os vice campeões mundiais, os italianos, despachavam os russos com algumas dificuldades por 2-1, graças a dois golos do avançado Pierluigi Casiraghi, que se tornava assim na principal referência ofensiva da squadra azzurra após a renúncia da grande estrela italiana no Mundial 94, Roberto Baggio, em participar no Euro 96, aparentemente por estar de costas voltadas para o selecionador Arrigo Sacchi.
Contudo, a surpresa aconteceu na jornada seguinte, e logo num local mítico para o futebol internacional, o Anfield Road, de Liverpool, onde a até então desconhecida República Checa bateu uma desunida azzurra por 2-1. Nesse dia nasciam estrelas como Kouba, Latal, Nemec, Berger, Smicer, Bejbl, ou Nedved, estes dois últimos jogadores os autores dos tentos checos ante os convencidos italianos, que num claro ato de desprezo pelo potencial checo apresentaram-se em campo com uma equipa composta na sua maioria por reservistas - sem Casiraghi, ou Zola, por exemplo -, poupando as suas principais estrelas para o embate ante o gigante germânico.
No Teatro dos Sonhos de Manchester - o mesmo é dizer o estádio Old Trafford - a Alemanha de Berti Vogts esmagava os russos por 3-0, com destaque para os dois golos do experiente e sagaz avançado Jurgen Klinsmann, que regressava ao "onze" após cumprir um jogo de castigo ante os checos.
Perante isto a Alemanha carimbava o passaporte para a fase seguinte, ao passo que a Itália para seguir o mesmo caminho teria de ganhar à armada germânica e esperar que a República Checa não repetisse a façanha desta 2ª ronda do Grupo C ante a revolucionária é já desqualificada Rússia. Ao que parece paz foi coisa que nunca reinou entre os russos durante a estadia em Inglaterra, e nas vésperas do confornto perante os checos o selecionador Oleg Romantsev mandou para casa o avançado Kiriakov por aparentemente este estar a minar o resto do balneário contra a sua pessoa. Porém, estas desavenças não impediaram a Rússia de lutar por um resultado positivo no derradeiro seu jogo do Euro 96. Ante os checos demonstraram que com um pouco mais de disciplina poderiam ter ido mais além, ao conseguirem uma reviravolta no marcador: viraram um resultado negativo de 0-2 para 3-2 a cinco minutos do final.
No outro jogo as coisas não corriam de feição para os italianos. Zola havia falhado uma grande penalidade aos 8 minutos, e nem sequer estavam a aproveitar a superioridade numérica em campo (o alemão Strunz havia sido expulso ao minuto 60). No entanto, esta igualdade dava a qualificação à azzurra, já que no outro jogo a Rússia cumpria o seu papel e vencia os checos por 3-2, como já vimos.
No entanto, e quando já choravam as despedidas da primeira fase final da sua história os adeptos checos explodiram de alegria quando aos 89 minutos Smicer fez o 3-3 final do jogo e com isto colocou a sua seleção, contra todas as previsões, nos quartos de final. Isto porque no outro jogo a Itália não tinha ido além de um 0-0 ante a Alemanha, e como tal fazia as malas rumo a casa... tal como havia feito em 1966, quando havia sido eliminada de forma escandalosa pela modesta Coreia do Norte durante a 1ª fase do Mundial desse ano. É caso para dizer que os italianos não se dão nada bem com os ares britânicos.

Portugueses praticam o melhor futebol da 1ª fase do Euro 96

O Grupo D era talvez o menos mediático deste Euro 96. A contrariar esta tendência talvez a Dinamarca, os campeões da Europa em título, e que em solo inglês se apresentavam com os irmãos Laudrup (Michael e Brian) como cabeças de cartaz. Croácia e Turquia faziam a estreia em fases finais de Europeus, ao passo que Portugal marcava presença pela segunda vez, depois de em 1984 ter surpreendido o planeta com a inolvidável e estupenda presença no certame realizado em França, onde, recorde-se, atingiu as meias finais. Orientados por António Oliveira os portugueses apresentavam-se com uma talentosa equipa onde a experiência combinava na perfeição com a juventude explosiva da geração de ouro do futebol lusitano. Aos veteranos Oceano, Vítor Paneira, ou Jorge Cadete, juntava-se um leque de artistas que anos antes haviam conduzido a equipa das quinas a dois títulos mundiais de sub-20, com destaque para Vítor Baía, João Vieira Pinto, Paulo Sousa, Folha, Fernando Couto, Rui Costa, ou Luís Figo.
E tal como em 1984 o portugueses iniciaram a campanha ante o campeão europeu em título. Se no Euro francês haviam empatado - de forma surpreendente - a zero com a então República Federal da Alemanha (RFA), em Inglaterra travaram a marcha dinamarquesa após um empate a uma bola. Desde cedo Portugal mostrou ambição de vencer, e apesar das primeiras oportunidades de golo terem pertencido aos pupilos de Oliveira foram os escandinavos a inaugurar o marcador, através do mais novo dos irmãos Laudrup, Brian, que aos 21 minutos aproveitou da melhor maneira um mau atraso do defesa Hélder para o guarda redes Vítor Baía. Na etapa complementar a seleção lusitana apareceu disposta a recolocar a justiça no marcador, e com um futebol artistico, de técnica apurada, o empate surgiu de forma natural aos 52 minutos após um golpe fatal de cabeça do avançado Sá Pinto, outro jovem talento emergente.
Fez-se justiça, mas a haver um vencedor esse certamente que teria sido Portugal, a equipa mais empolgante no relvado do Hillsborough, de Sheffiled.
No outro encontro do grupo houve duelo de estrantes. Venceram os croatas - descendentes da ex- república da Jugoslávia - por 1-0, com golo de Vlaovic ao cair do pano (86 minutos). Um triunfo inteiramente justo de uma seleção que iniciou em Inglaterra uma caminhada triunfal, no que à prática de bom futebol diz respeito. Em 1996 a Croácia apresentou ao Mundo talentos como Vlaovic, Stanic, Jarni, Asanovic, Boksic, Boban, e um tal de Davor Suker, el matador, que se notabilizou ao serviço do Real Madrid nos anos seguintes a este Europeu.
E seria prcisamente Suker a grande figura da 2ª jornada deste grupo. O avançado que então atuava no Sevilla protagonizou um mítico e lendário duelo pessoal com aquele que na época era considerado o melhor guarda redes do Mundo, o dinamarquês Peter Schmeichel. Em Sheffield a Croácia vulgarizou os campeões da Europa graças a uma magnifica exibição... de Davor Suker. O avançado apontou dois dos três golos sem resposta com que os croatas bateram os dinamarqueses, tendo um deles sido uma autêntica obra de arte, considerado mesmo o melhor golo deste Euro 96, um belíssimo chapéu que deixou o gigante dinamarquês pregado ao chão. Com este resultado a Croácia estava nos quartos de final, e a Dinamarca praticamente fora. Isto porque no outro jogo Portugal voltava a dar sinais da sua extrema qualidade técnica, vencendo a Turquia por 1-0 (golo do defesa central Fernando Couto), dando assim justiça a um joogo de sentido único, o da baliza turca. Foram lances e lances de ataque à baliza de Rustu encenados pelos artistas lusitanos, que inexplicavelmente pecavam na hora da finalização. No fundo uma tendência que ainda hoje se mantém!
Com o apuramento assegurado a Croácia apresentou-se ante Portugal na derradeira jornada com uma equipa de... reservas. Sem os fundamentais Suker, Boban, ou Asanovic no "onze" titular os croatas foram goleados por um super Portugal por 3-0. Figo, João Vieira Pinto, e Domingos Paciência foram os autores dos tentos dos lusos, que desta forma asseguravam o 1º lugar do grupo. Uma posição justa para uma equipa que foi apontada pelos críticos como aquela que melhor futebol praticou durante a fase de grupos do Europeu de Inglaterra.
E no outro jogo Dinamarca e Turquia fizeram as despedidas, sendo que para estes últimos tratou-se de um adeus sem qualquer glória. A Dinamarca venceu por 3-0, elevando desta forma para cinco o número de golos sofridos pelos turcos no torneio, que nem por uma única vez fizeram balançar as redes contrárias. A Turquia conquistou assim o "título" de pior equipa do torneio!

Chapéu de Poborsky marcou os quartos de final

A 22 de junho tiveram início os quartos de final, e tal como na abertura do evento coube a Wembley acolher o pirmeiro jogo desta fase. Frente a frente Inglaterra e Espanha, uma partida onde poucos duvidariam de que esta seria mais uma barreira facilmente superada pela armada britânica, não só pelo que haviam feito na 1ª fase (em especial o massacre à Holanda) mas sobretudo pelo facto de que o futebol espanhol não estava nem pouco mais ao menos a encantar.
Mas como estavam enganados os súbitos de Sua Majestade.
A Espanha agigantou-se e encostou os ingleses às cordas. Os pupilos de Clemente pegaram nas rédeas do encontro e só não despacharam os anfitriões no tempo reulamentar porque o árbitro francês Marc Batta - um dos mais polémicos de sempre da história do futebol europeu - resolveu dar uma ajuda aos britânicos, ao anular dois golos limpos aos rapazes do sul da Europa. Com muito sacríficio e a ajuda preciosa do árbitro a Inglaterra lá conseguiu levar a decisão para as grandes penalidades, onde contra a tradição afastou a Espanha por 4-2, depois de os 120 minutos de jogo jogado terem terminado sem golos.
O mesmo cenário verificou-se no duelo entre França e Holanda, em Liverpool, jogo morno, muito calculista de parte a parte que chegou ao fim do prolongamento sem golos. Nos penaltis estiveram melhor os franceses, que venceram por 5-4, beneficiando do azar e da falta de experiência de Seedorf, o único holandês a falhar no duelo com o guardião francês Lama.
No dia seguinte a Alemanha teve a sua primeira prova de fogo deste Europeu. A Croácia revelou-se um osso muito duro de roer, e nem mesmo a maior experiência de jogadores como Klinsmann, Hassler, ou Moller, conseguiu ultrapassar facilmente os talentosos artistas croatas. Seria da autoria de Klinsmann o primeiro golo daquela tarde de verão em Manchester, aos 21 minutos, mas o sentido oportuno de Suker ditou leis à passagem do minuto 51 quando a igualdade voltou a vigorar no marcador.
Os alemães voltaram à carga e aos 58 minutos o médio defensivo Sammer ofereceu o bilhete das meias finais à sua equipa, que até final defendeu com unhas e dentes a pequena vantagem.  A vingança croata para com os alemães seria edificada dois anos mais tarde, quando nos quartos de final do Mundial de França derrotaram os pupilos de Vogts por claros 3-0. É caso para dizer que a vingança pode tardar, mas acaba sempre por aparecer.
Mas o grande momento destes quartos de final estava guardado para o Villa Park de Birmingham, onde os outsiders Portugal e República Checa mediam forças. Pelo que havia feito durante a 1ª fase Portugal era apontado como favorito, estauto esse que terá feito mal aos lusitanos, conforme se veio a verificar. Os pupilos de Oliveira fizeram o seu pior jogo neste Europeu, sendo de realçar a total incapacidade de finalização dos seus jogadores mais adiantados no terreno. Do outro lado a frieza tática checa veio ao de cima, e num lance de génio Karel Poborsky decidiu o jogo, ao oferecer um vistoso chapéu a Vítor Baía que colocou os checos nas meias finais.
Para Portugal era o fim de linha, ao passo que a República Checa continuava a viver um sonho que estava ainda longe de terminar.

Alemanha vinga derrota de 66

26 de junho foi o dia agendado para levar a cabo as meias finais do Euro 96. Em Manchester a Europa - e o Mundo - continuava de boca aberta perante a epopeia checa. Mais uma vez tidos como não favoritos à vitória os pupilos de Dusan Uhrin lograram parar os artistas franceses, onde pontificavam nomes como Loko, Djorkaeff, Pedros, Desailly, Thuran, Blanc, ou o genial Zidane. 0-0 foi o resultado final de um encontro sem brilho, decidido nas grandes penalidades. Contrariamente à eliminatória anterior a sorte não bafejou os gauleses, que viriam a perder por 5-6 diante de checos incrédulos com aquilo o que lhes estava a acontecer. De meros desconhecidos do planeta do futebol a finalistas do Euro 96! Quem diria.
Para essa noite estava guardado o prato principal das meias finais, um duelo entre Inglaterra e Alemanha, a final antecipada do Europeu. Um confronto histórico entre os dois velhos inimigos, cujo primeiro capítulo remonta ao ano dourado do futebol inglês, 1966, o ano do título Mundial conquistado por Bobby Moore, Bobby Charlton, Gordon Banks, Peeters, e companhia, na relva sagrada de Wembley ante a... Alemanha. A batalha repetia-se agora, 30 anos mais tarde, no mesmo anfiteatro, mas... com um desfecho diferente. Shearer ainda colocou os ingleses em delírio ao minuto 3 quando bateu Kopke e fez o primeiro tento da tarde/noite londrina. 13 minutos volvidos o avançado Kuntz - que substituia o castigado Jurgen Klinsmann - restabeleceu a igualdade, e o marcador arrastou-se até ao final do prolongamento sem sofrer mais alterações.
Chegaram as grandes penalidades, e também aqui reviveu-se outra lendária batalha entre estes dois inimigos. Nas meias finais do Itália 90 a então RFA derrotou a Inglaterra de Sir Bobby Robson após um empate... a uma bola no final do prolongamento. E no tiro ao alvo os alemães levaram novamente a melhor, tendo o estreante Gareth Southgate falhado a única grande penalidade das seis apontadas pela sua equipa. Moller bateu o penalti decisivo e colocou a Alemanha pela quinta vez na final de um Europeu, em busca do tri-cameponato, e mais do que isso estava vingada a derrota da final do Campeonato do Mundo de 66. Entre os ingleses surgiram as naturais lágrimas, o sonho estava terminado, e Gascoigne atirava violentamente as garrafas de água contra o relvado sagrado de Wembley, mostrando a revolta que por aquela altura invadia a sua alma.
Nunca a célebre frase proferida pela lenda do futebol inglês Gary Lineker havia tido tanto sentido como nesta noite em Wembey: «O futebol é um jogo de onze contra onze, onde no final... ganha a Alemanha».

Alemanha alcança o tri com um golo de ouro

No dia 30 de junho a Alemanha voltou a pisar a relva de Wembley para tentar a conquista do seu terceiro ceptro de campeão da Europa. Do outro lado estava a surpreendente República Checa, que se encontrava a 90 minutos de repetir o sonho tornado realidade 20 anos antes pela Checoslováquia, que na final do Euro 76 havia derrotado precisamente os mestres germânicos com um golpe genial de Panenka. A Alemanha não queria repetir o desfecho de 76, e muito menos o de quatro anos antes, quando se deixou supreender pela Dinamarca na final do Europeu sueco.
Porém, os checos estiveram muito perto de repetir a façanha de 1976, quando aos 59 minutos se adiantaram no marcador na sequência da conversão de uma grande penalidade - inexistente - apontada por Patrick Berger. O sonho estava a meia hora de ser novamente realizado, desta feita por uma República Checa separada da sua irmã Eslováquia, contrariamente ao sucedido no Jugoslávia 76.
Foi então que Berti Vogts lançou no terreno o quase desconhecido avançado Oliver Bierhoff, que na época atuava no modesta Udinese de Itália, e que neste Euro 96 tinha sido apenas uma vez titular (ante a Rússia). Entrou aos 68 minutos e aos 73 fez o golo do empate, levando o jogo para prolongamento.
Aí, quem marcasse primeiro seria campeão, uma vez que neste torneio foi aplicado pela primeira vez o sistema de golo de ouro. E quando nem cinco minutos estavam decorridos do tempo extra o avançado da Udinese entrou definitivamente na história do futebol germânico, quando num remate frouxo bateu Kouba pela segunda vez e ofereceu a terceira (taça) Henri Delaunay ao seu país, que assim se tornava TRI-CAMPEÃO DA EUROPA.

Jogos

Grupo A
1ª Jornada
8 de junho, em Londres
Inglaterra - Suíça: 1-1
(Shearer, aos 23m)
(Turkyilmaz, aos 84m)

10 de junho, em Birmingham
Holanda - Escócia: 0-0

2ª Jornada
13 de junho, em Birmingham

Suíça - Holanda: 0-2
(Cruyff, aos 66m, Bergkamp, aos 79m)
15 de junho, em Londres

Inglaterra - Escócia: 2-0
(Shearer, aos 53m, Gascoigne, aos 79m)

3ª Jornada
18 de junho, em Birmingham
Escócia - Suíça: 1-0
(McCoist, aos 36m)
18 de junho, em Londres
Inglaterra - Holanda: 4-1
(Shearer, aos 23m, aos 57m, Sheringham, aos 51m, aos 62m)
(Kluivert, aos 78m)

Classificação
1-Inglaterra: 7 pontos
2-Holanda: 4 pontos
3-Escócia: 4 pontos
4-Suíça: 1 ponto

Grupo B

1ª Jornada
9 de junho, em Leeds
Bulgária - Espanha: 1-1
(Stoichkov, aos 65m)
(Alfonso, aos 74m)
10 de junho, em Newcastle
Roménia - França: 0-1
(Dugarry, aos 25m)

2ª Jornada
13 de junho, em Newcastle
Bulgária - Roménia: 1-0
(Stoichkov, aos 3m)

15 de junho, em Leeds
França - Espanha: 1-1
(Djorkaeff, aos 49m)
(Caminero, aos 86m)

3ª Jornada
18 de junho, em Newcastle
França - Bulgária: 3-1
(Blanc, aos 20m, Penev (a.g.), aos 63m, Loko, aos 90m)
(Stoichkov, aos 69m)

18 de junho, em Leeds
Roménia - Espanha: 1-2
(Raducioiu, aos 29m)
(Majarín, aos 11m, Amor, aos 84m)

Classificação
1-França: 7 pontos
2-Espanha: 5 pontos
3-Bulgária: 4 pontos
4-Roménia: 0 pontos

Grupo C

1ª Jornada

9 de junho, em Manchester
Alemanha - Rep. Checa: 2-0
(Ziege, aos 26m, Moller, aos 32m)

11 de junho, em Liverpool
Itália - Rússia: 2-1
(Casiraghi, aos 5m, aos 52m)
(Tsymbalar, aos 21m)

2ª Jornada

14 de junho, em Liverpool
Rep. Checa - Itália: 2-1
(Nedved, aos 4m, Bejbel, aos 35m)
(Chiesa, aos 18m)

16 de junho, em Manchester
Rússia - Alemanha: 0-3
(Klinsmann, aos 77m, aos 90m, Sammer, aos 56m)

3ª Jornada

19 de junho, em Manchester
Itália - Alemanha: 0-0

19 de junho, em Liverpool
Rússia - Rep. Checa: 3-3
(Mostovoi, aos 20m, Tetradze, aos 54m, Beschastnykh, aos 85m)
(Suchoparek, aos 6m, Kuka, aos 19m, Smicer, aos 89m)

Classificação
1-Alemanha: 7 pontos
2-Rep. Checa: 4 pontos
3-Itália: 4 pontos
4-Rússia: 1 ponto

Grupo D

1ª Jornada

9 de junho, em Sheffiled
Dinamarca - Portugal: 1-1
(Brian Laudrup, aos 21m)
(Sá Pinto, aos 52m)
11 de junho, em Nottingham
Croácia - Turquia: 1-0
(Vlaovic, aos 86m)

2ª Jornada

14 de junho, em Nottingham
Portugal - Turquia: 1-0
(Couto, aos 65m)

16 de junho, em Sheffield
Croácia - Dinamarca: 3-0
(Suker, aos 53m, aos 88m, Boban, aos 81m)
3ª Jornada

19 de junho, em Nottingham
Croácia - Portugal: 0-3
(Figo, aos 3m, João Vieira Pinto, aos 32m, Domingos, aos 81m)

19 de junho, em Sheffield
Turquia - Dinamarca: 0-3
(Brian Laudrup, aos 50m, aos 84m, Nielsen, aos 69m)

Classificação
1-Portugal: 7 pontos
2-Croácia: 6 pontos
3-Dinamarca: 4 pontos
4-Turquia: 0 pontos
Quartos de final

22 de junho, em Liverpool
França - Holanda: 0-0 (5-4 nas grandes penalidades)

22 de junho, em Londres
Inglaterra - Espanha: 0-0 (4-2 nas grandes penalidades)

23 de junho, em Manchester
Alemanha - Croácia: 2-1
(Klinsmann, aos 21m, Sammer, aos 58m)
(Suker, aos 51m)

23 de junho, em Birmingham
Portugal - Rep. Checa: 0-1
(Poborsky, aos 52m)
Meias finais

26 de junho, em Manchester
França - Rep. Checa: 0-0 (5-6 nas grandes peanlidades)

26 de junho, em Londres
Inglaterra - Alemanha: 1-1
(Shearer, aos 3m)
(Kuntz, aos 16m)

Final

Alemanha - República Checa: 2-1 (golo de ouro no prolongamento)

30 de junho, no Estádio de Wembley, em Londres

Árbitro: Pierluigi Pairetto (Itália)

Alemanha: Kopke, Babbel, Helmer, Eilts (Bode, aos 46m), Ziege, Sammer, Scholl (Bierhoff, aos 69m), Hassler, Strunz, Klinsmann, e Kuntz. Treinador: Berti Vogts

Rep. Checa: Kouba, Suchoparek, Kadlec, Hornak, Rada, Bejbl, Nemec, Nedved, Poborsky (Smicer, aos 88m), Berger, e Kuka. Treinador: Dusan Uhrin

Golos: 0-1 (Berger, aos 59m), 1-1 (Bierhoff, aos 73m), 2-1 (Bierhoff, aos 95m)
Melhor marcador:
Alan Shearer (Inglaterra): 5 golos

Onze Ideal:
Kopke (Alemanha)
Maldini (Itália)
Lizarazu (França)
Sammer (Alemanha)
F. de Boer (Holanda)
Poborsky (Rep. Checa)
Deschamps (França)
Gascoigne (Inglaterra)
Nedved (Rep. Checa)
Suker (Croácia)
Shearer (Inglaterra)
Legenda das fotografias:
1-Logotipo de Euro 96
2-Gascoigne prepara-se para marcar um dos golos mais memoráveis da História do futebol
3-Imagem habital durante o Europeu inglês: Alan Shearer a festejar um golo
4-Franceses e espanhóis dominaram o Grupo B...
5-... que teve no búlgaro Stoichkov uma das grandes figuras
6-A poderosa seleção germânica
7-Luís Figo passa por um dinamarquês
8-E Davor Suker, um dos matadores do Euro 96
9-Checo Poborsky prepara.se para fazer o chapéu a Vítor Baía
10-Duelo entre ingleses e espanhóis, decidido pelo polémico árbitro francês Batta
11-Poborsky foi uma das peças fundamentais do sucesso checo. Aqui luta contra os franceses
12-Rainha Isabel II cumprimenta capitão Klinsmann antes da final
13-Lance da grande final de Wembley
14-Shearer novamente a festejar um golo
15-A Suíça orientada por Artur Jorge
16-A seleção inglesa
17-A Roménia
18-A Bulgária esteve quase a conseguir um lugar nos quartos de final
19-A estrante Turquia...
20-E os talentosos portugueses
21-Os primeiros passos internacionais do artista Zidane (aqui ante a Holanda)
22-A artistica seleção gaulesa
23-Alemães festejam o tri-campeonato
24-Graças a um golo de ouro do desconhecido avançado Oliver Bierhoff 

Bélgica/Holanda 2000

Na entrada para o novo milénio a UEFA voltou a produzir inovações na sua competição rainha ao nível de seleções. No ano em que completava 40 anos de vida a fase final do Campeonato da Europa era pela primeira vez organizada por dois países em simultâneo. Os vizinhos Bélgica e Holanda receberam no verão de 2000 a grande festa do futebol continental que iria consagrar definitivamente - se é que ainda existiam dúvidas - a geração de Zidane e companhia como a mais cintilante do planeta da bola por aqueles dias...
Em termos de prémio final, digamos assim, este pode ter sido o Euro da França liderada pela lenda franco-argelina, mas foi igualmente o campeonato que catapultou definitivamente a geração de ouro do futebol português, a geração de Figo, Fernando Couto, Vítor Baía, Rui Costa, João Vieira Pinto, Jorge Costa, Paulo Sousa, entre outros, para o topo do futebol internacional. E por falar em gerações douradas não nos podemos esquercer de uma das seleções anfitriãs, a Holanda, que neste torneio confirmou a genialidade de uma equipa notável composta por astros - formados na mítica escola do Ajax - como os irmãos De Boer (Frank e Ronald), Edgar Davids, Marc Overmars, Edwin Van der Sar, Clarence Seedorf, ou Patrick Kluivert. Estas foram algumas das memórias do primeiro Europeu do século XXI, que hoje iremos recordar em mais uma visita ao passado.

Co-anfitriões belgas desiludem no regresso à ribalta europeia

Com uma fase de qualificação bastante tranquila, isto é, sem grandes surpresas, onde as seleções de maior renome alcançaram o bilhete para a Bélgica e a Holanda sem grandes dificuldades - fosse por via direta, ou recorrendo ao play-off - a etapa final do Euro 2000 arrancou na noite de 10 de junho, num local mítico para o futebol mundial, o Estádio Rei Balduíno, em Bruxelas, outrora popularmente conhecido como... Heysel Park, local onde em 1985 ocorreu uma das maiores tragédias do futebol, antes da final da Taça dos Campeões Europeus desse ano entre a Juventus e o Liverpool, que trouxe a morte até quase quatro dezenas de adeptos. 15 anos volvidos, e totalmente remodelado, o Heysel voltava a ser palco de uma grande competição internacional, cabendo à Bélgica e à Suécia dar o pontapé de saída do Campeonato da Europa. Belgas que reapariçam num Euro pela primeira vez desde 1984, altura que marcaram presença em França, quatro anos depois de terem estado na final de Roma ante a Alemanha. A década de 80 foi sem dúvida a década de ouro do futebol belga, e às boas prestações nos Euros 80 e 84 seguiu-se a cereja no topo do bolo: um fantástico 4º lugar no Mundial do México em 1986! Depois desses inolvidáveis anos protagonizados por um talentoso conjunto de jogadores que ficaram eternizados como os diabos vermelhos, os belgas poucos motivos de orgulho voltariam a ter na sua seleção, pese embora ainda tenha marcado presença nas três fases finais dos Campeonatos do Mundo da década de 90 (90, 94, e 98), no entanto sem o brilho exibido na década anterior. Pois bem, na condição de co-organizadores do Euro 2000 os belgas estavam de regresso à ribalta europeia, com a ambição de pelo menos chegar à segunda fase da competição, caso contrário a desilusão voltaria a fazer parte do vocabulário belga, como se viria a verificar.
Integrada no Grupo B a Bélgica orientada pelo experiente treinador Robert Waseige desde cedo mostrou que alcançar os quartos-de-final do seu Euro iria ser uma tarefa para lá de complicada. A curta vitória inaugural ante a Suécia, por 2-1, assim o confirmou. Apresentando um combinado algo veterano, onde sobressaiam nomes como Luc Nilis, De Wilde, ou Lorenzo Staelens, a Bélgica teve de suar para vencer os suecos, beneficiando ainda de uma pequena ajuda do árbitro alemão Markus Merk, que validou um golo - irregular - ao jovem - dos poucos naquela seleção - Emile Mpenza, curiosamente o tento da vitória belga.

No outro jogo do grupo, disputado na cidade holandesa de Arnhem, pela Itália e pela Turquia, voltou a assistir-se a mais uma arbitragem polémica. Desta feita o visado foi o escocês Hugh Dallas que a 20 minutos do final oferece uma grande penalidade à Squadra Azzurra, numa altura em que o resultado era de uma igualdade a uma bola. Filippo Inzaghi não desperdiçou o brinde e selou o resultado final em 2-1, perante os - inconsequentes - protestos turcos. Na 2ª jornada, em Eindhoven (Holanda), ocorreu um empate sem golos entre Suécia e Turquia. E em Bruxelas a Itália comandada pelo antigo campeão do Mundo Dino Zoff garantia o apuramento para os quartos-de-final, após uma vitória tranquila sobre uma - mais uma vez - paupérrima Bélgica por 2-0, com golos de Totti e Fiore. Desta vez a sorte nada quis com os co-anfitriões. Bélgica que mesmo não praticando um futebol de encanto - nem pouco mais ao menos - partia para a derradeira ronda com possibilidade de apuramento, para isso bastando um empate com uma Turquia que aparecia na fase final de um Europeu pela segunda vez consecutiva. No entanto, se as duas exibições anteriores dos pupilos de Waseige não tinham convencido, o jogo ante os turcos foi terrível! Ficaria na história como um dos piores momentos do futebol belga, e muito concretamente do experiente guarda-redes Filip de Wilde. Com dois autênticos frangos oferecidos ao mortífero avançado Hakan Sukur - aos minutos 45 e 70 - de Wilde liquidou de vez a sua seleção, e como se não bastasse os erros fatais ainda foi expulso nos minutos finais de um encontro que ditou o afastamento precoce de um dos anfitriões da prova.
 A Bélgica fazia história, já que pela primeira vez uma seleção anfitriã ficava de fora da segunda fase do Europeu! Curiosidade neste jogo de Bruxelas o facto de o árbitro dinamarquês Kim Nielsen ter sido... substituído durante a contenda, por motivos de lesão! Também acontecem nos senhores do apito. Gunter Benko entrou em campo para susbituir o seu colega.

Mesmo já qualificada a Itália não brincou em serviço no encontro ante os suecos, disputado em Eindhoven. Com golos de Del Piero e Di Biagio a azzurra derrotou os escandinavos por 2-1, e terminava assim a fase inicial só com vitórias, algo que só tinha acontecido com a França, em 1984.
Quanto aos suecos, que faziam a sua segunda aparição num Europeu (a primeira surgiu em 1992, altura em que organizaram o certame), deceção foi a palavra que mais se adequou ao desempenho do combinado às ordens de Tommy Soderberg.
Um ponto em três jogos disputados foi muito pouco para uma seleção que num passado não muito distante (1994) surpreendia o globo ao conquistar um impensável 3º lugar no Mundial dos Estados Unidos da América.

Geração de Ouro de Portugal manda para casa os tubarões Alemanha e Inglaterra

Surpresa foi a palavra de ordem no Grupo A.Contra todas as previsões Portugal venceu aquele que era chamado de grupo de morte, que para além dos lusitanos era composto pelas potências mundiais Alemanha e Inglaterra, e pela sempre temida Roménia. Os portugueses foram de facto a surpresa deste grupo, e uma das surpresas de todo o Euro 2000, ou melhor, surpresa para uns, mas confirmação para outros. Confirmação internacional da geração de ouro do futebol luso, um grupo de notáveis jogadores que havia conquistado os Mundiais de Sub-20 de 1989 e 1991 e que havia tido a sua primeira prova de fogo no futebol sénior precisamente quatro anos antes no Europeu disputado em solo inglês, e que tão boas impressões causou na altura. Agora, mais experientes e com a sua veia artística reconhecida a nível planetário os portugueses apresentavam-se na Holanda e na Bélgica dispostos a ir mais além do que os quartos-de-final do Euro 96. Argumentos para isso era coisa que abundava no grupo orientado por Humberto Coelho, como eram os exemplos dos artistas João Vieira Pinto, Paulo Bento, Dimas, Vítor Baía, Rui Costa, Paulo Sousa, Sá Pinto, Sérgio Conceição, Capucho, Jorge Costa, Fernando Couto, Pauleta, ou a estrela-mor da companhia Luís Figo, por aqueles dias considerado um dos melhores jogadores do Mundo.

No Philips Stadium de Eindhoven, no dia 12 junho, o talento dos portugueses era posto à prova por uma poderosa seleção inglesa, bem mais forte do que aquela que quatro anos havia chegado às meias-finais do Euro. À veia goleadora do capitão Alan Shearer e à solidez defensiva dos veteranos Tony Adams e Martin Keown, juntava-se a frescura e a arte de Paul Scholes, dos irmãos Neville (Phil e Gary), do rato atómico Michael Owen, e da estrela hollywoodesca David Beckham. Favoritos à vitória? Os ingleses pois claro. E ainda mais favoritos ficaram quando aos 20 minutos de jogo já venciam por... 2-0! Um começo fulgurante ao qual respondeu um genial Portugal, que partiu então para uma noite memorável, para uma exibição fantástica, e para um jogo épico que figura na galeria dos encontros mais sensacionais da histórias dos Europeus. Comandados por Figo os portugueses não baixaram os braços, e aos 21 minutos o jogador português do Barcelona - iria transferir-se nesse verão para o rival Real Madrid - assinou uma verdadeira obra de arte no relvado do estádio do PSV. A 30 metros da baliza desfere um forte remate que só parou no fundo das redes do pasmado David Seaman. Um lance de génio do... genial número 7 luso. 
A avalanche lusa continuou e a oito minutos do intervalo foi outro genial atleta que de cabeça faria o empate a duas bolas. João Vieira Pinto, a passe do maestro Rui Costa, batia Seaman pela segunda vez no encontro. Mas Humberto Coelho ainda não tinha tirado todos os seus... coelhos da cartola. Já na segunda parte apareceu o jovem goleador do Benfica, Nuno Gomes, a grande surpresa da convocatória, que dá a melhor sequência a mais um passe magistral de Rui Costa ao fazer o 3-2 final com Portugal venceu a poderosa Inglaterra. O apito final do sueco Anders Frisk soou, e os portugueses haviam conquistado uma vitória épica, comparada à histórica reviravolta protagonizada pelos Magriços de Eusébio no Mundial de 66. 
No outro jogo do grupo assistia-se ao primeiro episódio da triste saga dos detentores do título europeu. A Alemanha, recheada de nomes sonantes, como Matthaus, Hassler, Bierhoff, Kahn, Ballack, ou Ziege, não conseguia melhor do que um empate sofrido a uma bola ante a Roménia do veterano Gica Hagi. Os alemães começavam a mostrar o que no final deste Euro seria evidente, que a Mannschaft precisa urgentemente de uma remodelação. 

E na ronda seguinte a pequena cidade belga de Charleroi foi palco de um dos maiores clássicos do futebol mundial, um Alemanha - Inglaterra. Dois pesos pesados que como seria de esperar protagonizaram um jogo disputado, mas nem sempre bem jogado! Valeu um lance de génio do goleador Shearer, que aos 53 minutos fez o único golo do encontro e como que apagou a apatia que se vivia no relvado do Stade du Pays. Com esta vitória os britânicos voltavam a entrar na corrida pelo apuramento, ao passo que os alemães passavam a depender de terceiros, isto porque em Arnhem (Holanda) Portugal vencia a Roménia por 1-0 e garantia matematicamente a qualificação para a fase seguinte. O médio Costinha apontou aos 90 minutos o único golo de uma partida marcada pelo equilíbrio, sem grandes oportunidades de golo e com exibições - de parte a parte - muito cautelosas. Voltando ao jogo de Charleroi a alegria inglesa era bem visível, não só porque o apuramente era ainda matematicamente possível, como já vimos, mas porque esta era a primeira vitória da Inglaterra sobre a velha inimiga Alemanha desde a... final do Mundial de 1966! 

Alemães que na derradeira e crucial jornada do Grupo A sofreram uma nova humilhação, quiçá a maior desde Euro 2000. Na banheira de Roterdão (a alcunha pelo qual é mundialmente conhecido o Estádio do Feyenoord) a Alemanha era esmagada por 0-3 pelas... reservas de Portugal! Já qualificado para os quartos-de-final o selecionador Humberto Coelho deu descanso aos habituais titulares, e lançou em campo jogadores menos utilizados nas duas partidas anteriores, como o guarda-redes Pedro Espinha, Beto, Rui Jorge, Capucho, Pauleta, ou Sérgio Conceição. E a noite seria histórica para este último jogador, que por três ocasiões bateu o lendário guardião Oliver Kahn! Hattrick para Conceição no adeus ao Euro da campeã da Europa em título! Sérgio Conceição tornava-se assim no quarto jogador da história a alcançar três golos num jogo do Europeu, depois de Allofs (80), Platini (84), e Van Basten (88). 
Mas a humilhação não se resumiu aos germânicos. Em Charleroi a Inglaterra a precisar somente de um empate ante a Roménia para se qualificar, foi derrotada por 2-3! O tento da vitória dos romenos surgiu a um minuto do fim por intermédio de Ganea. Roménia e Portugal, os teoricamente mais frágeis conjuntos do grupo seguiam em frente, ao passo que os gigantes e favoritos alemães e ingleses ficavam pelo caminho. Era caso para dizer que David tinha vencido Golias.

Favoritos não ganharam para o susto!

O Grupo C era aquele que teoricamente menos interesse suscitava. Espanha e Jugoslávia eram apontadas como as duas favoritas à passagem aos quartos-de-final, ao passo que as esterantes Eslovénia e Noruega pouco ou mais podiam fazer do que almejar uma vitória no confronto entre si. Porém, o começo não foi bem assim.
No dia 13 de junho Charleroi assistiu a um dos jogos mais emocionantes da história dos campeonatos da Europa, protagonizado por duas seleções que outrora fizeram parte da... mesma nação. Jugoslávia e Eslovénia, empataram a três golos, despois destes últimos terem estado a vencer por 3-0! Zahovic, a estrela eslovena, marcou por duas vezes, mas a menos de meia hora do final um dos goleadores do Euro 2000, Savo Milosevic, reduziu para 1-3, um tento que daria alento ao combinado do velho mestre da tática Vujadin Boskov, que no que restava jogar até final apontou mais dois golos - um deles de novo da autoria de Milosevic -, isto quando desde o minuto 59 jogava com menos uma unidade em campo, depois do árbitro português Vítor Pereira ter dado ordem de expulsão a Mihajlovic, que havia visto dois cartões amarelos no espaço de quatro minutos!
Nesse mesmo dia 13 de junho o escândalo acontecia em Roterdão. A Noruega de Ole Gunnar Solskjaer derrotava a favorita Espanha por 1-0, com um tento de Iversen. Noruegueses que viviam o período dourado do seu praticamente desconhecido - além fronteiras - futebol, já que depois dos Mundiais de 94 e 98 marcavam agora presença no maior certame do Velho Continente, com uma equipa talentosa formada por craques como Eggen, Iversen, Tore Andre Flo, John Carew, ou o já citado Solskjaer, que na época brilhava no colosso inglês Manchester United. 

Mas no encontro seguinte os noruegueses desceram à terra. Em Liège, ante a Jugoslávia, Milosevic acabou com a euforia nórdica e colocou os jugoslavos - que neste Euro 2000 competiriam pela última vez sob os desígnios de Jugoslávia - com um pé na fase seguinte. Neste jogo há ainda a registar a expulsão mais rápida de sempre de uma fase final de um Euro. O jugoslavo Mateja Kezman entrou em campo aos 87 minutos, sendo que 44 segundos depois comete uma falta grave sobre Mykland, recebendo de imediato ordem de expulsão! Também a Espanha corrigiu o erro da jornada inaugural deste Grupo C, e no moderno Arena de Amesterdão derrotava uma das sensações dessa 1ª jornada, a Eslovénia, por 2-1, de nada valendo mais uma exibição de gala do esloveno Zlatko Zahovic. 
Na ronda decisiva viveram-se momentos dramáticos. Em Arnhem noruegueses e eslovenos empataram a zero, resultado que dava o apuramento aos nórdicos, uma vez que no outro encontro, disputado em Bruges, a Espanha ia empatando a três golos com a já qualificada Jugoslávia. Como que de um golpe de magia se tratasse aos 90 minutos Alfonso faz o 4-3 que colocou os espanhóis na fase seguinte, para desespero dos noruegueses que já com a sua missão cumprida aguardavam com impaciência no relvado do Gelredome de Arnhem o desfecho da partida de Bruges. 

Encantador futebol ofensivo da Holanda fez furor

No Grupo D ficaram os campeões do Mundo em título, a França, liderada pelo melhor jogador do Mundo da altura, Zinédine Zidane. Os franceses apresentavam-se em solo belga-holandês como os principais candidatos à vitória final, até porque mantinham a quase totalidade do grupo que dois antes havia vencido - em casa - o Campeonato do Mundo. Zidane, Patrick Vieira, Barthez, Thuran, Blanc, Deschamps, Henry, entre muitos outros, viviam o ponto alto das suas afamadas carreiras, e para muitos o que fosse não erguer o troféu de campeão da Europa seria uma autêntica... catástrofe. Patricando um futebol de alta qualidade, com um toque artístico, os franceses cedo mostraram que dificilmente não chegariam à final, e logo na 1ª jornada golearam a Dinamarca por 3-0, com uma exibição de gala de Thierry Henry.
No mesmo dia (11 de junho) entrou em campo, em Amesterdão, a seleção da casa, ou uma das seleções da casa, neste caso a Holanda, equipa não menos artística orientada pelo carismático ex-jogador Frank Rijkaard, um dos imortais que em 1988 levou a seleção laranja ao topo da Europa. Patricando um futebol de cariz ofensivo de grande beleza so holandeses venceram os vice-campeões da Europa, a República Checa, por um solitário mas inteiramente merecido 1-0. 

Na jornada seguinte confirmou-se a supremacia de França e Holanda, e mais do que isso a qualificação de ambas as seleções para os quartos-de-final. Os gauleses venceram os checos por 2-1 em Bruges. ao passo que os co-anfitrições humilhavam em Roterdão uma veterana Dinamarca - já sem os irmãos Laudrup - por 3-0 na sequência de mais uma bela aula de futebol ofensivo. 
A última jornada não mais serviu do que cumprir calendário e definir quem ficava com o 1º lugar. Posição esta disputada por franceses e holandeses, na Arena de Amesterdão, sendo que os primeiros parecem não ter dado grande importância ao que ali se discutia, pois entraram em campo com alguns jogadores reservistas, casos de Lama, Leboeuf, Candela, Micoud, ou Dugarry. Agradeceram os tulipas que ao vencer por 3-2 garantiram o tal 1º posto, permancendo assim no seu território nos quartos-de-final, ao passo que a França mudava-se para a Bélgica para continuar uma tragetória que seria gloriosa. 
Muito atlética mas nada técnica a Dinamarca sofria nova derrota, desta feita ante os checos, por 0-2, e ia para casa com oito golos sofridos e zero marcados! No reino da Dinamarca apertavam então as saudades do inolvidável verão de 92!!! 

Kluivert show na banheira de Roterdão

Um dos jogos mais aguardados dos quartos-de-final estava agendado para Roterdão, entre a seleção da casa, a Holanda, e a Jugoslávia. Frente a frente estavam igualmente dois dos mais eficazes homens golos do torneio, Patrick Kluivert, e Milosevic. O espetáculo prometia, e assim foi. 
50 000 espetadores presenciaram mais uma exibição de gala da equipa laranja, culminada com uma expressiva vitória por 6-1. Por três ocasiões Kluivert fez o gosto ao pé, rubricando a sua melhor performance em todo este Euro 2000, e fazia da sua seleção a mais concretizadora da prova, com 13 remates certeiros, e mais do que isso continuava a fazer sonhar uma nação inteira em voltar a ver a sua equipa nacional erguer a Taça Henri Delaunay. Armas para o conquistar eram mais do que muitas à dispoisção de Rijkaard, não só o citado goleador Kluivert, como também Overmars, Davids, Bergkamp, Cocu, Stam, ou os gémeos De Boer. 
Massacrada pelos holandeses a Jugoslávia ainda deu um ar de sua graça por intremédio de Milosevic, que reduzia para 1-6, e assim se tornava, a par de Kluivert, no melhor marcador do Euro 2000, com cinco golos.

Em Amesterdão a Europa - e o Mundo, porque não dizê-lo - encantava-se com mais uma exibição de luxo obtida por Portugal. Com um futebol tecnicamente belo os jogadores de Humberto Coelho venciam a Turquia por 2-0, num encontro marcado pela veia goleadorra de Nuno Gomes - autor dos dois golos - e pela magia de Luís Figo, que deixou os turcos com a cabeça às voltas. As duas seleções voltaram a encontrar-se pela segunda vez consecutiva na fase final de um Euro, sendo que desta vez o triunfo dos portugueses foi bem mais fácil, muito contribuindo para isso a expulsão do defesa Alpay aos 28 minutos. Vítor Baía ainda defendeu uma grande penalidade, e na hora da festa Rui Costa desejou encontrar a França nas meias-finais, «vamos vingar a grande seleção (portuguesa) de 84, Eu lembro-me desse jogo (ante a França, também nas meias-finais), tinha 12 anos, e agora desejo vingar esse seleção que merecia ter passado à final». 
Um desejo envenenado... 

Sem grandes dificuldades a Itália também carimbou o seu passaporte para as meias-finais, depois de em Bruxelas ter batido por 2-0 a Roménia. Qualificação alcançada ainda na primeira parte, com Totti (aos 33 minutos) e Filippo Inzaghi (aos 43) a desmantelarem uns romenos algo indisciplinados, a começar pelo seu lendário capitão Hagi, que antes do início deste Campeonato da Europa havia anunciado ao Mundo que iria pendurar de vez as chuteiras após o final da competição. E a despedida de Gica Hagi dos relvados não foi de facto a melhor. Aos 59 minutos o número 10 romeno é expulso por Vítor Pereira, na sequência de protestos vários e simulações, e na hora do adeus Hagi não poupou elogios ao árbitro português: «este árbitro é uma vergonha!». 
Por fim, em Bruge, sob a arbitragem do conceituado italiano Collina, a França sentia algumas dificuldades para bater a aguerrida Espanha de Camacho, por 2-1. Valeu a arte de Zizou (alcunha de Zidane), e a desinspiração do capitão espanhol Raul, que falhou uma grande penalidade em cima do minuto 90 que poderia ter colocado o marcador em 2-2 e levar assim o encontro para prolongamento. Não converteu e os blues seguiam para Bruxelas para enfrentar os motivados portugueses. 

Mão fatal de Abel Xavier

Portugal saia pela primeira vez da Holanda, onde havia realizado todos os jogos até então, viajando para Bruxelas, onde se iria disputar a primeira meia-final do Euro 2000. Sob arbitragem de Gunter Benko os portugueses entraram a todo o gás na partida, e quando o relógio ainda não tinha marcado 20 minutos já Nuno Gomes voltava a faturar na fase final da prova, fazendo o seu quarto golo na competição e mais do que isso colocando mais perto a sua seleção do sonho. Sonho que foi mesmo a definição desta partida, de futebol de grande beleza protagonizado por ambas as equipas, futebol espetáculo que só na segunda parte voltaria a vibrar com golos, e para a França, por intermédio de Henry, após um passe de Anelka... em posição ilegal, que muito irritou os portugueses, cujos protestos de nada valeram. 
Prolongamento à vista, e aqui veio a decisão polémica do encontro. Aos 117 minutos Henry cruza a bola para o primeiro poste, onde aparece Abel Xavier a cortar o esférico com a mão! Mão na bola, ou bola na mão? O auxiliar de Benko optou por esta segunda opção, e o juíz principal assinalou de imediato grande penalidade contra Portugal. Os jogadores lusitanos cercaram o árbitro, o seu assistente, manifestando em coro o seu descontentamento, empurrões, insultos, com Gunter Benko a exibir alguns cartões aos portugueses, alguns deles de cor encaranada. Sereno e implacável Zidane converteu a grande penalidade e qualificou a França para a final, na sequência de um golo de ouro, visto que o jogo terminou de imediato. Luís Figo foi um dos mais inconformados, dizendo que no futebol não há verdade, uma vez que esta modalidade era já apenas um negócio! 

Na outra meia final a sorte bafejou a Squadra Azzura. Os holandeses exibiram novamente o caudal ofensivo dos jogos anteriores, mas na hora H - na concretização - estavam completamente desinspirados. No tempo regulamentar falharam duas grandes penaldiades, duas (!), além de terem estado a jogar durante mais de meia hora com mais um elemento em campo, após expulsão do italiano Zambrotta. O prolongamento chegou, mas os golos não apareciam, pelo que teve de se recorrer às grandes penalidades pela primeira vez nesta fase final. Lotaria onde os holandeses não acertaram, pois dos quatro penaltis que dispuseram falharam três (!), enquanto que os italianos converteram outros tantos e seguiram assim para a final de Roterdão. As duas equipas que apresentaram o futebol mais vistoso, Portugal e Holanda, estavam assim de fora do jogo mais apetecido. 

Novo golo de ouro coroou a França como rainha da Europa

Se a sorte esteve com os italianos no Arena de Amesterdão durante a meia final, no encontro decisivo do Euro 2000 ela abandonou a azzurra! Num jogo morno, disputado em Roterdão, as duas equipas ficaram sempre na espetativa, não criando grandes oportunidades de golo, e nem mesmo os génios - dos dois lados - queriam aparecer em campo. Delvecchio fez o primeiro golo do encontro aos 55 minutos, e tal como seria de esperar depois disso a Itália de Zoff jogou... à defesa, como também o faz. O catenaccio italiano no seu estado mais puro!  A meio da segunda parte Del Piero teve a oportunidade - flagrante - de matar o jogo, e como quem não mata morre já em cima dos 90 minutos Wiltord empata a final para desespero dos italianos que já festejavam o seu segundo ceptro europeu. E tal como em 1996 a vitória chegou através de um golo de ouro, apontado aos 103 minutos por David Trezeguet, que havia entrado em campo no decorrer da etapa complementar, e que deu o melhor seguimento a uma brilhante jogada individual de Robert Pires. 
A França juntava assim ao título mundial o de campeão da Europa (o segundo da sua história), e coroava desta forma a genial geração de Zizou e companhia. 

Jogos

Grupo A

1ª jornada

12 de junho, em Eindhoven
Inglaterra - Portugal: 2-3
(Scholes, aos 2m, McManaman, aos 18m)
(Figo, aos 21, João Vieira Pinto, aos 37m, Nuno Gomes, aos 58)

12 de junho, em Liège
Alemanha - Roménia: 1-1
(Scholl, aos 28m)
(Moldovan, aos 5m)

2ª jornada

17 de junho, em Arnhem
Roménia - Portugal: 0-1
(Costinha, aos 90m)

17 de junho, em Charleroi
Inglaterra - Alemanha: 1-0
(Shearer, aos 53m)

3ª jornada

20 de junho, em Roterdão
Portugal - Alemanha: 3-0
(Sérgio Concieção, aos 34m, aos 53m, aos 71m)

20 de junho, em Charleroi
Inglaterra - Roménia: 2-3
(Shearer, aos 41m, Owen, aos 45m)
(Chivu, aos 22, Munteanu, aos 48, Ganea, aos 89m)


Classificação


1-Portugal: 9 pontos
2-Roménia: 4 pontos
3-Inglaterra: 3 pontos
4-Alemanha: 1 ponto

Grupo B

1ª jornada

10 de junho, em Bruxelas
Bélgica - Suécia: 2-1
(Goor, aos 43m, Mpenza, aos 46m)
(Mjalby, aos 53m)

11 de junho, em Arnhem
Turquia - Itália: 1-2
(Okan, aos 61m)
(Conte, aos 52m, Inzaghi, aos 70m)

2ª jornada

14 de junho, em Bruxelas
Bélgica - Itália: 0-2
(Totti, aos 6m, Fiore, aos 66m)

15 de junho, em Eindhoven
Turquia - Suécia: 0-0

3ª jornada

19 de junho, em Eindhoven
Itália - Suécia: 2-1
(Di Biagio, aos 39m, del Piero, aos 88m)
(Larsson, aos 77m)

19 de junho, em Bruxelas
Bélgica - Turquia: 0-2
(Sukur, aos 45m, aos 70m)

Classificação

1-Itália: 9 pontos
2-Turquia: 4 pontos
3-Bélgica: 3 pontos
4-Suécia: 1 ponto

Grupo C

1ª jornada

13 de junho, em Charleroi
Jugoslávia - Eslovénia: 3-3
(Milosevic, aos 66m, aos 73m, Drulovic, aos 70m)
(Zahovic, aos 27m, aos 57m, Pavlin, aos 52m)

13 de junho, em Roterdão
Espanha - Noruega: 0-1
(Iversen, aos 66m)

2ª jornada

18 de junho, em Liège
Noruega - Jugoslávia: 0-1
(Milosevic, aos 8m)

18 de junho, em Amesterdão
Eslovénia - Espanha: 1-2
(Zahovic, aos 58m)
(Raul, aos 4m, Etxeberria, aos 60m)

3ª jornada

21 de junho, em Arnhem
Eslovénia - Noruega: 0-0

21 de junho, em Bruges
Jugoslávia - Espanha: 3-4
(Milosevic, aos 31m, Govedarica, aos 51m, Komijanovic, aos 75m)
(Alfonso, aos 39m, aos 90m, Munitis, aos 52m, Mendieta, aos 89m)

Classificação

1-Espanha: 6 pontos
2-Jugoslávia: 4 pontos
3-Noruega: 4 pontos
4-Eslovénia: 2 pontos

Grupo D

1ª jornada

11 de junho, em Amesterdão
Holanda - República Checa: 1-0
(F.de Boer, aos 89m)

11 de junho, em Bruges
França - Dinamarca: 3-0
(Blanc, aos 16m, Henry, aos 64m, Wiltord, aos 90m)


2ª jornada

16 de junho, em Roterdão
Holanda - Dinamarca: 3-0
(Kluivert, aos 57m, R.de Boer, aos 66m, Zenden, aos 77m)

16 de junho, em Bruges
República Checa - França: 1-2
(Poborsky, aos 35m)
(Henry, aos 7m, Djorkaeff, aos 60m)

3ª jornada

21 de junho, em Amesterdão
Holanda - França: 3-2
(Kluivert, aos 14m, F.de Boer, aos 51m, Zenden, aos 59m)
(Dugarry, aos 8m, Trezeguet, aos 30m)

21 de junho, em Liège
Dinamarca - República Checa: 0-2
(Smicer, aos 63m, aos 67m

Classificação

1-Holanda: 9 pontos
2-França: 6 pontos
3-República Checa: 3 pontos
4-Dinamarca: 0 pontos

Quartos-de-final

24 de junho, em Amesterdão
Portugal - Turquia: 2-0
(Nuno Gomes, aos 44m, aos 56m)

24 de junho, em Bruxelas
Itália - Roménia: 2-0
(Totti, aos 53m, Inzaghi, aos 43m)

25 de junho, em Bruge
Espanha - França: 1-2
(Mendieta, aos 38m)
(Zidane, aos 33m, Djorkaeff, aos 44m)

25 de junho, em Roterdão
Holanda - Jugoslávia: 6-1
(Kluivert, aos 24m, aos 38m, aos 54m, Overmars, aos 78m, aos 89m, Goverdarica (p.b.), aos 51m)
(Milosevic, aos 90m)

Meias-finais

28 de junho, em Bruxelas
Portugal - França: 1-2
(Nuno Gomes, aos 17m
(Henry, aos 50m, Zidane, aos 117m)

29 de junho, em Amesterdão
Holanda - Itália: 0-0 (1-3 nas grandes penalidades)

Final

França - Itália: 2-1 (golo de ouro no prolongamento)

Data: 2 de julho de 2000

Estádio: Feyenoord, em Roterdão (Holanda)

Árbitro: Anders Frisk (Suécia)

França: Barthez, Thuran, Desailly, Blanc, Lizarazu (Pires, aos 86m), Vieira, Deschamps, Djorkaeff (Trezeguet, aos 76m), Zidane, Dugarry (Wiltord, aos 57m), e Henry. Treinador: Roger Lemerre

Itália: Toldo, Cannavaro, Nesta, Iuliano, Maldini, Pessotto, Albertino, Di Biagio (Ambrosini, aos 66m), Fiore (Del Piero, aos 53m), Totti, e Delvecchio (Montella, aos 86m). Treinador: Dino Zoff

Golos: 0-1 (Delvecchio, aos 55m), 1-1 (Wiltord, aos 90m), 2-1 (Trezeguet, aos 103m)



Melhores marcadores:

Kluivert (Holanda) e Milosevci (Jugoslávia): 5 golos

Onze ideal:

Toldo (Itália)
Thuran (França)
Cannavaro (Itália)
Blanc (Itália)
Stam (Holanda)
Vieira (França)
Figo (Portugal)
Davids (Holanda)
Zidane (França)
Kluivert (Holanda)
Milosevic (Jugoslávia)

Legenda das fotografias:
1-Logotipo do Euro 2000
2-Fase do jogo entre belgas e turcos, que ditou o afastamento dos co-anfitriões da fase seguinte
3-Turquia e Suécia protagonizaram um dos dois empates a zero bolas da primeira fase
4-Di Biagio festeja um golo ante a Suécia
5-Paul Scholes aponta o primeiro golo da Inglaterra no Euro 2000
6-Alemães não conseguiram vencer os romenos...
7-... e perderam com a velha inimiga Inglaterra, graças a um golo de Alan Shearer
8-Hagi tenta desenvencilhar-se de Paulo Bento
9-O eletrizante jogo entre eslovenos e jugoslavos
10-Esloveno Zahovic aqui em luta com um norueguês
11-Overmars tenta bater Schmeichel
12-Holandês Davids travado em falta pelo francês Vieira
13-Festejos holandeses na goleada aos jugoslavos
14-Figo e Nuno Gomes, duas das estrelas portuguesas durante o Europeu 2000
15-Zidane, o mago francês passa pelo espanhol Guardiola
16-Mão de Abel Xavier que ditou o afastamento de Portugal da final
17-Mais um penalti falhado pela Holanda na meia-final
18-Fase da grande final de Roterdão
19-Alemanha
20-Inglaterra
21-Bélgica
22-Suécia
23-Turquia
24-Noruega
25-França
26-Holanda
27-Portugal 
28-Lance da final
29-França celébra o segundo título europeu da sua história
30-Kluivert
31-Milosevic
32-Trezeguet, o homem de ouro da final

Nota: Texto escrito em 11 de janeiro de 2013 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com