Museu Virtual do Futebol

Eusébio




Começamos esta visita guiada pelo Museu Virtual do Futebol por dar espreitadela ao cantinho das grandes lendas do maravilhoso mundo da bola. Como não podia deixar de ser, o primeiro grande mago, o primeiro imortal do futebol que visitamos é nem mais nem menos do que o Rei do futebol português, de seu nome Eusébio.
Nascido a 25 de Janeiro de 1942 num pobre bairro de Moçambique (na altura uma colónia portuguesa), mais concretamente em Mafalala, nos arredores da capital Lourenço Marques (hoje Maputo), Eusébio cedo começou a dar nas vistas na arte de bem manejar o esférico. Os seus dribles, rápidos e ziguezagueantes, aliados ao seu poderoso pontapé, desde logo cativaram os amantes do futebol local. Foi ao serviço do Sporting de Lourenço Marques (na altura filial do Sporting Clube de Portugal) que Eusébio começou a espalhar o perfume do seu futebol pelos campos moçambicanos, não sendo de estranhar que começasse a “aguçar o apetite feroz” dos olheiros dos dois principais clubes da Lisboa. De tal maneira disputado que se pode mesmo dizer que desencadeou uma “autêntica guerra” entre os dois clubes lisboetas, que deram tudo por tudo para ter esta pérola africana nas suas “vitrinas”. Viria a ser o Benfica a vencer esta “guerra” pela disputa do jovem Eusébio, que depois de se ter comprometido com o emblema da águia teve de viajar para Lisboa disfarçado sob o nome falso de Ruth para que os dirigentes leoninos não o descobrissem. Sporting que ainda hoje afirma a pés juntos que Eusébio foi raptado pelo Benfica, estória esta que o próprio moçambicano trata de desmentir, dizendo que a sua primeira e única preferência foi sempre o Benfica.

O principio da aventura

Inscrito pelo clube da Luz na Federação Portuguesa de Futebol, Eusébio era então oficialmente jogador do Benfica, e em 23 de Maio de 1961 o jovem prodígio fez a sua estreia oficial com a camisola encarnada num jogo pela equipa de reservas benfiquistas contra o Atlético. No entanto, cinco dias mais tarde o treinador encarnado de então, o húngaro Béla Guttmann, oferece a Eusébio a possibilidade de se sagrar campeão nacional pela primeira vez na sua carreira, dando-lhe alguns minutos no jogo da consagração do título benfiquista da época 60/61 diante do Belenenses, tendo o clube da Luz vencido por 4-1, e logo com um golo de Eusébio. O moçambicano contava então com 17 anos de idade.

A estrela Eusébio ofusca a estrela Pelé

Era o início da grande epopeia de Eusébio ao serviço do Benfica. Ainda no final dessa época o Benfica (que meses antes se havia sagrado pela primeira vez Campeão Europeu de Clubes, depois de bater em Berna o Barcelona por 3-2) é convidado a participar no famoso Torneio Internacional de Paris, que contava ainda com a participação do Racing de Paris (o clube organizador), dos belgas do Anderlecht, e da maior e melhor equipa de futebol do planeta daquela altura, o mítico clube brasileiro Santos, onde actuava outra lenda do futebol mundial, de seu nome Pelé. Depois de afastar o Anderlecht nas meias-finais o Benfica iria defrontar na final do Torneio de Paris precisamente o Santos de Pelé. Uma partida onde o Benfica chegou a estar a perder por 0-5, mas aos 30 minutos da 2ª parte Eusébio entrou no relvado do Parque dos Príncipes para substituir o seu colega de equipa Santana, e eis que em apenas 15 minutos o jovem moçambicano faz verdadeira magia ao apontar nada mais nada menos do que três golos. Apesar da derrota por 3-5, o grande destaque daquela final acabaria por ser Eusébio, que ofuscou nesse jogo a maior das estrelas em campo, Pelé. Nascia assim um novo mito do futebol, Eusébio havia tido uma estreia em grande na alta roda do futebol internacional.

Eusébio na alta roda europeia

Na temporada seguinte o jovem benfiquista continuou a brilhar a grande altura, tendo sido um dos grandes esteios na segunda conquista por parte dos benfiquistas da Taça dos Clubes Campeões Europeus. Na final desta competição, Eusébio voltou a ser a grande estrela, ofuscando outro mito da bola da altura, Alfredo Di Stéfano, que defendia as cores do rival do Benfica nessa final, o colosso Real Madrid. O que é certo é que Eusébio marcou os dois golos da vitória por 5-3 sobre os campeões de Espanha, conquistando desta forma o seu único título europeu de clubes. Ainda nesse mesmo ano Eusébio estreou-se pela Selecção Nacional num jogo de má memória para a “turma das quinas”. Um jogo no Luxemburgo, onde Portugal perdeu por 2-4, uma das mais vergonhosas derrotas na história da Selecção, mas onde Eusébio apontou um dos golos de Portugal, o seu primeiro com as quinas ao peito. Ainda em 61/62 o moçambicano pisou pela primeira vez na sua carreira um relvado onde brilharia a grande altura inúmeras vezes, o mítico relvado de Wembley. Foi num jogo entre Inglaterra e Portugal, com a vitória a pertencer à equipa da casa por 2-0, mas com uma magnífica exibição de Eusébio. Exibição esta que lhe valeria a alcunha dada pelos ingleses de Pantera Negra, nome este que pegou desde logo de estaca e pelo qual ainda hoje Eusébio é conhecido. Nos anos seguintes a Pantera Negra continuou a ser uma peça preponderante no sucesso do Benfica, quer a nível nacional, quer a nível internacional, tendo atingido por mais duas vezes a final da mais importante competição europeia, primeiro em 1963, ante o Milan, em Wembley (derrota por 1-2), e em 1965 diante do Inter de Milão, em San Ciro (derrota por 0-1).

A grande estrela do Mundial 66

Mas seria outra vez a Inglaterra a ver a estrela Eusébio a brilhar. Por esta altura Eusébio era também muitas vezes chamado a integrar as selecções de futebol da Europa e do Resto do Mundo, actuando ao lado dos melhores craques de então, uma prova clara de que também ele já era um craque.
Corria o ano de 1966 e as terras de Sua Majestade acolhiam pela primeira, e única, vez na sua história a fase final do Campeonato do Mundo, prova esta para à qual pela primeira vez também na sua história Portugal se havia qualificado. Selecção Nacional que possuía uma equipa fabulosa, composta por grandes nomes, como por exemplo Coluna, José Augusto, Simões, José Torres, Hilário, Germano, José Pereira, Vicente, Jaime Graça, Morais, e claro, a estrela maior Eusébio. Portugal ficou agrupado no Grupo 3 da 1ª fase, juntamente com a Bulgária, Hungria, e o campeão do Mundo em título e grande favorito à vitória final, o Brasil. No primeiro jogo ante a Hungria os portugueses fazem uma grande exibição, colmatada com uma grande vitória por 3-1.
O cliente seguinte, a Bulgária, foi igualmente despachada com a “chapa 3”, 3-0 foi o resultado de mais uma grande exibição dos “Magriços”, como ficou conhecida a equipa das quinas de 1966, um jogo onde Eusébio marcou o seu primeiro golo desse Mundial 66. O último jogo da 1ª fase do grupo 3 opôs Portugal ao Brasil, e pôde-se então assistir a mais uma grande exibição de Portugal, que humilhou por completo os bi-campeões do Mundo, vencendo-os por 3-1. Grande responsável por este resultado foi Eusébio, que para além dos dois golos que apontou, fez uma exibição do “outro mundo”, como se costuma dizer, ofuscando, mais uma vez, a grande estrela Pelé, que saia desse Mundial vergado pela raça lusitana. Nos quartos-de-final Portugal defrontou a Coreia do Norte, outra das grandes surpresas do Mundial 66 pelo facto de ter mandado para casa a poderosa Itália. Coreia que demonstrou e bem o porquê de ter eliminado a Itália, já que poucos minutos depois do árbitro ter apitado para o início do encontro vencia Portugal por 3-0. Só um homem foi capaz de dar a impossível e inacreditável volta a esse resultado, e advinhem quem? Esse mesmo, Eusébio. Apontou quatro, ouviram bem, quatro golos que ajudaram Portugal a vencer os pequenos e bravos coreanos por 5-3, naquele que ainda hoje é tido como um dos mais belos jogos de sempre da história dos Campeonatos do Mundo. Nas meias-finais Portugal defrontou a equipa da casa, a Inglaterra, para quem viria a perder, por 1-2, a presença na final da prova, com Eusébio a apontar o tento de honra da turma das quinas e a deixar o relvado de Wembley lavado em lágrimas, uma imagem que ainda hoje corre o Mundo. Para o jogo dos 3º e 4º lugares com a antiga União Soviética, Eusébio apontou um golo que ajudou Portugal a conquistar o 3º lugar do Mundial 1966. Pese embora a Selecção Nacional não tenha ganho a competição, Eusébio foi eleito o melhor jogador da mesma, tendo ainda vencido o título de melhor marcador, fruto dos nove golos que apontou.

Os anos que se seguiram

Nos anos seguintes Eusébio voltou a ganhar inúmeros títulos ao serviço do seu Benfica, na sua totalidade títulos nacionais (repartidos por Campeonatos Nacionais e Taças de Portugal). A nível internacional o máximo que conseguiu foi levar o Benfica a mais final da Taça dos Campeões Europeus, em 1968, desta feita ante o Manchester United, em Wembley. Mais uma vez o relvado de Wembley, que tantas vezes teve o privilégio de ser pisado por Eusébio, não trouxe sorte ao Pantera Negra. Visto que o Benfica perdeu a final por 1-4. Em 1975 deixou o Benfica, com 727 golos em 715 jogos. É obra!!!. Jogou ainda nos Estados Unidos da América ao serviço do Rhode Island Oceaneers, do Boston Minuttem (clube pelo qual conquistou um Campeonato Norte-Americano), Las Vegas Quicksilver, New Jersey Americans, no Canadá pelos Toronto Metros Croatia, e no México ao serviço do Monterrey (por quem venceu um campeonato mexicano). Em Portugal jogou ainda pelo Beira-Mar e pelo União de Tomar, mas já sem o fulgor de outros tempos, já na fase descendente da sua gloriosa carreira. Foi sem dúvida alguma o maior jogador de todos os tempos do Benfica e de Portugal, tendo o clube da Luz erguido uma estatua sua em frente ao seu estádio. Massacrado pelos adversários, Eusébio foi por seis vezes operado ao joelho esquerdo e uma ao direito, tendo perdido a conta às infiltrações sofridas para jogar e ajudar o seu Benfica.

Currículo impressionante

Alvo de diversas homenagens e condecorações, Eusébio conta no seu palmarés com 11 Campeonatos Nacionais (1961, 1963, 1964, 1965, 1967, 1968, 1969, 1971, 1972, 1973 e 1875), 4 Taças de Portugal (1962, 1964, 1969 e 1975), 1 Taça dos Clubes Campeões Europeus (1962), 1 Campeonato dos Estados Unidos da América (1976), 1 Campeonato do México (1976) e uma Medalha de Bronze de um Campeonato do Mundo (1966).
A nível individual foram igualmente inúmeros os prémios conquistados, mais concretamente, 7 Bolas de Prata pelo facto de ter sido o melhor marcador do Campeonato Português (1964/28 golos; 1965/28 golos; 1966/25 golos; 1967/31 golos; 1968/43 golos; 1970/20 golos; e 1973/40 golos. Venceu ainda a Bota de Ouro (prémio para o melhor marcador de todos os campeonatos europeus) por duas vezes (1968 e 1973). Mas o maior prémio individual que o Pantera Negra venceu foi em 1965, ano em que lhe foi atribuída a Bola de Ouro, pelo facto de ter sido considerado o melhor jogador da Europa nesse ano. Pela Selecção Nacional actuou por 64 vezes tendo apontado 41 golos, um recorde que durou anos e anos e só há bem pouco tempo foi batido por Pauleta. “Menino de Ouro” para Béla Guttmann, o seu primeiro treinador, “Património de Estado” para Salazar, que impediu a sua transferência para a Juventus, ou simplesmente Rei para os amantes da bola, Eusébio recebeu da FIFA a nomeação para ser um dos 10 maiores jogadores da história do futebol do Século XX. Hoje é ainda o grande Embaixador do Benfica e de Portugal no estrangeiro. Senhoras e senhores, Eusébio da Silva Ferreira, simplesmente o Rei do Futebol Português e uma das maiores lendas do futebol planetário.

NOTA: Texto escrito em 4 de Abril de 2006 (o meu primeiro texto publicado no blogue www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com)

José Leandro Andrade

Estamos hoje de volta a uma das vitrinas mais procuradas do nosso museu, a das Grandes lendas do futebol mundial. Depois do nosso Eusébio a ter inaugurado chegou a altura de lá voltarmos para relembrar outro mago imortal do futebol. Senhoras e senhores visitantes vamos hoje falar do uruguaio José Leandro Andrade.
Considerado o primeiro grande jogador negro da história do futebol, e um dos maiores de sempre (segundo uma recente votação da revista francesa France Football para designar o melhor futebolista de todos os tempos Andrade ficou em sexto lugar), José Leandro Andrade nasceu a 3 de Outubro de 1901 em Salto, começando a dar os primeiros pontapés na bola no bairro de Palermo. Actuava tanto como médio defensivo como defesa (direito ou esquerdo) e cativou o mundo com a sua eficácia, elegância, inteligência e técnica de jogar futebol, o que o tornou num dos futebolistas mais brilhantes da história.
Iniciou a sua carreira no Misiones, passando depois pelo Bella Vista, Nacional, Penharol e Wanderers, todos emblemas uruguaios. Seria no Nacional que viveria alguns dos anos mais felizes da sua carreira, vencendo os campeonatos do seu país de 1922 e 1924. Pelo Nacional participou em várias digressões pela Europa e pelos Estados Unidos da América, e reza a lenda que o famoso intérprete de jazz norte-americano Louis Armstrong ter-se-á inspirado no “Pelé dos anos 20” (como Andrade foi um dia apelidado) para criar o seu estilo artístico.
Além de um fabuloso futebolista Andrade era um não menos fabuloso bailarino, sendo que por diversas vezes integrou cortejos carnavalescos no seu país. Após a sua retirada dos relvados partiu para Paris, onde se tornou um célebre bailarino de cabarets. Adorava a folia e a vida boémia.

O nascimento do mito Maravilha Negra

Seria no entanto ao serviço da selecção do Uruguai que Andrade atingiu a fama planetária que fizeram dele um dos maiores jogadores de futebol da história.
Numa altura (anos 20) em que o Campeonato do Mundo ainda não havia surgido cabia aos jogos olímpicos a tarefa de reunir as melhores selecções do Mundo de quatro em quatro anos para apurar... o campeão do Mundo. É verdade! Naquela época os torneios olímpicos de futebol tinham a dimensão e importância daquilo que é hoje em dia o Campeonato do Mundo da FIFA.
Em 1924 coube à cidade de Paris organizar as olimpíadas de Verão desse ano. O torneio de futebol viria a ser amplamente dominado pela selecção do Uruguai, uma equipa que com a sua beleza e arte futebolística encantou os europeus. Dúvidas não existiam: o Uruguai era a melhor e mais poderosa equipa do Mundo da altura.
Na final do torneio olímpico os sul-americanos venceram no Stade des Colombes a Suíça por 3-0. O maestro, o craque, dessa equipa era um negro (o primeiro negro a pisar um relvado da Europa) com movimentos felinos de encantar, de seu nome José Leandro Andrade. Cedo, os jornalistas e adeptos franceses trataram de o rebaptizar, chamado-o de A Maravilha Negra. E assim nascia um mito do futebol.
Quatro anos mais tarde seria novamente peça fundamental na revalidação do título olímpico (ou Mundial, como era considerado na altura) da celeste (nome pelo qual é conhecida mundialmente a selecção do Uruguai), desta feita nos Jogos Olímpicos de Amesterdão, tendo na final derrotado a Argentina por 2-1. Andrade era na altura o melhor jogador do Mundo.

Vencedor do primeiro Mundial da FIFA... em casa

Em 1930, como os senhores visitantes já devem saber, o Uruguai organizou o primeiro Mundial da história. Uma espécie de presente da FIFA ao país que praticava o melhor futebol do planeta. Na qualidade de bi-campeã olímpica a equipa da casa partia assim como favorita a levantar a primeira taça do Mundo da FIFA. Já em final de carreira, e castigo por lesões crónicas, Andrade foi mesmo assim chamado para integrar a equipa uruguaia que disputou esse Mundial. A sua experiência e qualidade eram fundamentais para o triunfo da celeste. Ao lado de jogadores como Cea, Castro, Nazazzi e Scarone, Andrade venceria o Campeonato do Mundo, após a sua selecção ter derrotado na final os grandes rivais da Argentina por 4-2 (ver último post dos Grandes Clássicos da Bola).
Pelo Uruguai alinhou 43 vezes (só perdeu três jogos) e marcou um golo. Morreu só e na miséria em 1957 um homem que é tão grande como Eusébio, Pelé, Garrincha, Maradona ou Di Stéfano.
Um Deus da bola.
Seguidamente apresentamos um texto de Luís Freitas Lobo extraído do seu livro Os Magos do Futebol, um belo texto que descreve o ídolo que visitamos hoje.
No trilho da Maravilha Negra

Entrelaçado pelo cacimbo da noite que caíra sob a Cidade das Luzes, El Loco Romano desembrulhou mais uma vez o papel já amarrotado para confirmar a morada que o seu amigo José Leandro Andrade, companheiro de dribles e tijeras nas canchas de Montevideo , lhe dera tempos atrás para que quando fosse ao Velho Continente não se esquecesse de o visitar. Vivia-se no início da década de 30. Eram tempo de magia na brilhante noite de Paris, ainda levitada pela aura dos loucos anos 20, enebriada pelo esplendor excêntrico, negro e hipnotizante de Jossephine Baker, mito da Bélle Époque, rainha dos cabarets onde dançava e seduzia ao ritmo da Revue Negre. Ninguém imaginava que um outro negro, vindo do outro lado do oceano, nascido no bairro pobre de Cachimba, tornado célebre nos estádios de fútbol, fosse capaz de ofuscar o seu brilho.
Quando chegou à morada que Andrade lhe indicara, Romano abriu os olhos de espanto. Na sua frente estava um sumptuoso apartamento. Pensou: devo ter-me enganado. Mesmo assim, tocou à campainha, surgindo uma bela donzela que só falava francês, e do que Romano lhe disse só percebera a mágica frase: mesié Andrade. E eis que a Maravilha Negra, como lhe chamaram os jornalistas gauleses que o viram nos Jogos Olímpicos de 1924, surge vestindo um longo quimono de seda, por entre uma luxuosa habitação decorada por peles, estatuetas em ouro, cheiro a perfume caro e abat-jours milionários.
Durante a época de futebolista, num tempo em que atravessar o oceano durava meses, nunca quisera sair do Uruguai onde sempre jogou. Depois de abandonar o futebol, rumou à mágica capital francesa, onde alternou uma vida de boémia com a de artista de variedades, no qual era exímio bailarino, dançando e deslumbrando com o seu corpo alto, moreno e musculoso, tornando-se desejado por muitas mulheres, da mais fina sociedade, que o admiravam quase como um amuleto.
Entre os homens, apesar de, no início do século, o football ainda não cativar grandes paixões, nenhum esquecera a sua deslumbrante aparição com a fantástica selecção uruguaia nos Jogos Olímpicos de Paris, em 1924. Nesse tempo nunca a Europa vira um negro a jogar futebol. Ele fora o primeiro. Poucos dos que o viram jogar estarão hoje vivos, mas para a história fica o registo de um defesa com fôlego e talento infinito, que marcava o avançado e depois, acariciando a bola, subia pelo seu flanco com a elegância de um bailarino, driblando num jogo de cintura que parecia dança. Conta-se que num jogo atravessara meio-campo com a bola dominada na cabeça. Quando na postura defensiva, roubava a bola, pela terra e pelo ar, guardando-a nos labirintos de músculos das suas pernas de dançarino, com um estilo que, naquela época, era algo nunca visto, sobretudo se executado com a beleza plástica de Andrade.
Já nesse tempo era um amante da boémia que sonhava conhecer a bela e provocante Josephine Baker. No carnaval saía bailando com um tamborim, nos relvados, dançava com uma bola presa aos pés, alheio aos conselhos dos seus pais que insistiam em dizer-lhe para estudar, como fizera o seu dedicado irmão Nicasio. Mas Andrade vivia noutro mundo. Sublime, forte como uma árvore centenária, ágil como um felino deslumbrou o mundo com o seu futebol de encantar serpentes.
Anos depois, sob as estrelas de Paris, manteve a mesma personalidade feita de grandezas e tristezas. Apesar de venerado pelos mais finos olhares femininos, nas noites do Pigalle, Andrade era um homem impossível de prender. O amor pelas mulheres, para ele, ia e vinha em cada noite. Anos depois, regressaria à sua Montevideo, a bordo do Valdivia, célebre navio, vestindo uma gabardina cruzada, chapéu de galã, e cachecol de fina seda. Mais do que às essências perfumadas da douce France, Andrade pertencia à maresia rude da costa uruguaia, onde o sol queima e a noite se ilumina nos tangos de Gardel. Com o passar do tempo foi ficando, no entanto, cada vez mais isolado. Os seus olhos foram escurecendo e com o silêncio a sua alegria desvaneceu-se. Acabaria por morrer tuberculoso, só, em 1957, na mais profunda miséria, mas sem nunca pedir nada, nem esperar que o auxiliassem, apesar de desde há tempos a doença o ter começado a minar.

Legandas das fotografias:

1- José Leandro Andrade
2- A equipa do Uruguai que venceu os Jogos Olímpicos de Paris em 1924
3. Os jogadores da Celeste entrando em campo para disputar o jogo decisivo dos Jogos Olímpicos de 1928
4. Uruguai: a equipa que venceu o primeiro Campeonato do Mundo da FIFA
5. O imortal José Leandro Andrade
6. Envergando a camisola do Uruguai

NOTA: Texto escrito em 6 de Outubro de 2007 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Arthur Friedenreich

De novo na vitrina reservada aos grandes "deuses" da bola vamos hoje visitar o primeiro grande jogador da história do futebol brasileiro. Ele foi o antecessor de magos como Leónidas da Silva, Pelé, Garrincha, Zico, Romário, Ronaldo, até aos actuais Ronaldinho e Robinho na arte de encantar a multidão com uma bola nos pés. Falamos de Arthur Friedenreich.
Apesar do nome ser pouco português, Arthur Friedenreich nasceu em São Paulo, a 18 de Julho de 1892, filho de um comerciante alemão, de seu nome Óscar Friedenreich, e de uma lavadeira brasileira, de nome Matilde. Nasceu mulato e de olhos azuis. Aos 15 anos, de estatura magra, ágil, com pernas finas era já um verdadeiro craque da bola.
Como já referimos foi a primeira grande estrela do futebol brasileiro numa época em que o belo jogo era ainda puramente amador. Aprendeu a jogar à bola com uma bexiga de boi, pouco tempo depois de Charles Miller ter chegado ao Brasil (em 1894) com uma bola de futebol na bagagem, uma novidade para um país que com o passar dos anos se haveria de tornar na maior potência do futebol mundial.
Actualmente, são poucos, ou quase nenhuns, aqueles que se podem orgulhar de ter visto jogar Friedenreich, atleta que brilhou nas décadas de 10, 20 e 30 do século passado.
Fried (diminutivo pelo qual também era conhecido) começou a jogar futebol na sua cidade natal, São Paulo, mais precisamente no Germânia, passando depois para clubes como o Mackenzie, Ipiranga, Paulistano, São Paulo da Floresta, Payssandu, Atlético Santista, Internacional, Santos, Dois de Julho, Americano e Flamengo.
Começou a destacar-se pela imaginação, técnica, estilo e pela capacidade de improvisar. Em 1919 foi apelidado pelos uruguaios de "El Tigre" por ter encantado as multidões com o seu futebol arte na Copa América que nesse ano foi conquistada precisamente pelo Brasil comandado por Friedenreich.
Jogava como avançado-centro, e foi o inventor de novas e belas jogadas no na altura jovem futebol brasileiro, como o drible curto e a finta de corpo.
Foi campeão paulista em sete ocasiões, seis das quais ao serviço do Paulistano, e outra pelo São Paulo da Floresta (clube que anos mais tarde se viria a chamar São Paulo FC). Por oito vezes foi o melhor marcador do campeonato paulista, a maior parte delas envergando as cores do Paulistano.
Era considerado pelos cronistas da altura como um jogador inteligente dentro de campo, e talvez tenha sido o jogador mais objectivo da sua época. Parecia conhecer todos os segredos do futebol e sabia quando e como ia marcar um golo.
No ano de 1925, regressou da Europa (após uma digressão com o Paulistano) catalogado como um dos melhores jogadores do Mundo, depois de vencer por este clube nove dos dez jogos aí disputados.
Um dos seus mais incríveis feitos ocorreu em 1928, ano em que fez sete golos num único jogo diante do União da Lapa, batendo o recorde da época. Nesse jogo actuava pelo Paulistano e o resultado final foi de 9-0.
Terminou a sua carreira no Flamengo, em Julho de 1935, com 43 anos de idade. Depois de abandonar os relvados, viveu na pobreza um bom tempo até morrer no dia 6 de Setembro de 1969, numa casa cedida pelo São Paulo.

Ao serviço da selecção...

Friedenreich vestiu pela primeira vez a camisola da selecção do Brasil em 1912, num jogo amigável contra uma selecção paulista, realizado no Rio de Janeiro. O escrete brasileiro venceu por 7-0, com dois gols de Fried.
A sua despedida aconteceu em 1935, num jogo contra o River Plate, a 23 de Fevereiro, o qual o Brasil ganhou por 2-1. Friendenreich fez pela selecção principal 23 jogos e marcou 12 golos. Já na selecção de veteranos, em 1935, disputou 2 jogos e marcou 2 golos. No ano de 1914 ganhou o primeiro título do Brasil na história: a Taça Rocca.
A sua conquista mais importante com a camisola do Brasil foi, como já vimos, a conquista da Copa América de 1919.
O maior goleador de sempre?

Há uma dúvida que paira no ar quando falamos de Friedenreich, ou seja, será ele o maior goleador de todos os tempos? Há quem diga que sim e há quem diga que não. Uma dúvida que infelizmente não pode ser desfeita, já que existem poucos, ou mesmo nenhuns, dados que provem que Fried tem mais golos do que Pelé, que é, como se sabe, oficialmente considerado pela FIFA como o jogador que fez mais golos na história do futebol.
Para que o leitor possa conhecer um pouco melhor esta dúvida do futebol mundial apresentamos de seguida um texto escrito por Carlos Maranhão, intitulado de "Os 1239 golos de "El Tigre":
Uma dúvida terrivel desafia os raros historiadores do futebol brasileiro há quase meio século, quando a genialidade do grande Arthur Friedenreich começou a entrar num lento e patético processo de decadência que, anos depois, terminaria por levá-lo a se esquecer do seu próprio nome. Talvez a incerteza nunca venha a ser suficientemente esclarecida. Pois quem é capaz de provar, de modo irrrefutável, quantos golos marcou em sua carreira, que atravessou quatro décadas, esse bailarino mulato de olhos verdes, cabelos alisados e pés mágicos?
Ninguém, provavelmente. O registro de seus incontáveis golos - que se acredita terem ultrapassado de muito a barreira dos mil - foi levado por um caminhão de lixo da Prefeitura de Santos, em 1962, entre restos apodrecidos de comida, latas vazias e papéis inúteis. Perdido, portanto, para sempre.
Suas glórias e façanhas, que hoje poderiam fazer parte da memória da cultura nacional, transformaram-se então numa colecção de lendas fantásticas e numa antologia de histórias maravilhosas. Se houvesse meios de recuperar tais registros, Friedenreich sem dúvida se consagraria perante a posteridade como o maior jogador que o mundo conheceu antes do aparecimento de Pelé.
Dentro e fora do Brasil, no entanto, nao falta quem ainda lhe reconheça tamanha grandeza. No ano passado, por exemplo, uma respeitada obra de referência sobre o futebol - The Encyclopedia of World Soccer, editada nos Estados Unidos por Richard Henshaw - dedicou-lhe um espaço igual ao do argentino Alfredo Di Stefano e maior do que o do holandes Johann Cruijff, figuras obrigatórias em qualquer relação das principais estrelas do desporto neste século. Lá está a definição, com todas as letras: "Foi o maior artilheiro da história do futebol, com seus 1329 gols".
É uma imprecisão, infelizmente. A propagação do equívoco se deve a um pequeno deslize cometido pelo jornalista carioca João Maximo no apaixonante texto sobre Friedenreich que escreveu no livro "Os Gigantes do Futebol Brasileiro", publicado no Rio de Janeiro, em 1965. Ele assegurou, baseando-se nas pesquisas do veterano jornalista Adriano Neiva da Motta e Silva, o De Vaney, que Friedenreich teria marcado os 1329 golos, devidamente registrados na ex-CBD e reconhecidos pela FIFA.
Seria realmente um imbatível recorde mundial, mesmo porque Pelé completou a inalcançável marca de 1284 golos, esses sim, registrados e reconhecidos. Houve aí, além do mais, uma troca de algarismos. Segundo De Vaney, que em 55 anos de trabalho reuniu mais de 30 mil fichas sobre futebol - o que lhe permitiu, entre outras coisas, precisar o momento da marcação do milésimo gol de Pele' -, Friedenreich disputou 1329 jogos. E assinalou 1239 golos. De Vaney, pessoalmente, tem absoluta confiança nos resultados das duas estatísticas. Só que nao pode comprová-las.
A história desses números começa, a rigor, junto do sucesso do próprio Friedenreich. Tão logo percebeu seu talento para jogar com bola de capotão em peladas improvisadas nas ruas mal calçadas do bairro paulistano da Luz - onde nascera a 18 de Julho de 1892, na esquina das ruas Vitória e Triunfo, nomes que profetizaram seu destino desportivo -, o comerciante alemão Oscar Friedenreich resolveu acompanhar de perto os passos do filho.
O futebol, que continuava uma novidade, fora trazido ao Brasil em 1894 pelo estudante paulista Charles Miller, de volta de uma viagem de dez anos à Inglaterra. Praticado a princípio nos ambientes fechados dos chamados clubes elegantes de São Paulo e do Rio de Janeiro, sobretudo os que congregavam colonias estrangeiras, nao demorou para que o jogo se difundisse nas várzeas. O futebol, de qualquer maneira, custou a se popularizar. Clubes como América, Fluminense, Rio Cricket, Germânia, Paulistano e São Paulo Athletic, que participaram dos campeonatos principais das duas cidades, tinham entre seus jogadores apenas filhos de boas famílias, com título de doutor e pele invariavelmente branca.
Isso poderia ser um obstáculo para o jovem Arthur Friedenreich, que herdara da mãe, uma lavadeira mulata, as características raciais que fizeram dele um mestiço. Mas nao foi. Com 17 anos incompletos, arranjou uma vaga no time do Germânia, onde receberam sem problemas aquele rapaz magricela de jogo habilidoso e de cabelos que lembravam os de um europeu. Embora fossem naturalmente ondolados, ele os alisava com pacientes aplicações de gomalina, uma espécie de brilhantina, e de toalhas quentes. Tratava-se de um processo demorado, mas eficiente: Friedenreich, sempre o último a entrar em campo, por causa dos cuidados com o penteado, chegou a ser considerado um branco. Bronzeado, porém branco. Foi o preço que pagou para que lhe fossem abertas as portas do nascente e elitista futebol brasileiro. Agora não mais um mulatinho de um bairro da baixa classe média, eis Friedenreich fazendo golos em cima de golos pelos clubes por onde passava: Mackenzie, Paulistano, Germânia outra vez, e bem depois São Paulo e Flamengo.
Pai cioso, o velho Oscar, que nunca perderia o sotaque, comecou a anotar os golos de seu filho, selecionando as súmulas dos jogos, e não se cansava de comentar com os amigos: "Pézinho de Arthur vale ourrrro..." Prosseguiu anotando até 1918, quando Friedenreich, já maduro e famoso, transferiu-se para o Paulistano, o aristocrático clube do Jardim América em que ele viveria os mais fulgurantes e inesquecíveis momentos de sua carreira. A partir daí, passou a incumbência a um de seus novos companheiros de equipe, Mario de Andrade, que nao era parente de seu homónimo escritor. Mario, que logo se tornaria seu amigo, cumpriu a missão ao longo de 17 anos.
Enquanto cada um de seus jogos ia sendo documentado, Friedenreich projetava-se como uma celebridade nacional, dimensão que atingiu durante o Sul-Americano de 1919, realizado no Rio. Tudo contribuiu para que ele virasse ídolo do país inteiro: suas belíssimas actuações, o golo histórico na segunda prorrogação da final contra o Uruguai e, como pano de fundo, o crescente entusiasmo popular pelo futebol, que virava uma paixão brasileira. Com a vitória da Selecção e a inauguração do estádio do Fluminense, palco do campeonato, o público das grandes partidas passou de 4 mil para 20 mil espectadores.
Amador-marrom, pois o profissionalismo só seria oficializado em 1933, Friedenreich - chamado durante o Sul-Americano, pelos jornalistas argentinos e uruguaios, de "El Tigre" e de "El namorado de la America" - resolveu desfrutar de um outro tipo de vida. Vestia com aprumo seus ternos de linho irlandês S-120, bebia sua cerveja Sul-América, sorvia a noite seu conhaque francês na Confeitaria Vienense, perfumando o ambiente com o suave aroma de sândalo que se desprendia dos caríssimos cigarros "Pour la Noblesse", percorria os cabarés da madrugada paulistana e, naturalmente, acordava tarde no dia seguinte. No vestiário, enquanto esperava que a gomalina secasse nos cabelos, nao dispensava um traguinho. E alguém se importava? Magro (52 kg), alto (1,75 m), ágil, sutil, inteligentíssimo, com uma habilidade desconcertante, ele exibia preparo físico suficiente para jogar o futebol que se praticava naqueles anos românticos. Mesmo no fim da carreira, obrigado a enfrentar zagueiros violentos como Zezé Moreira, nao lhe faltou jamais jogo de cintura para fugir dos pontapés. Ou para marcar centenas e centenas de golos.
Quantos, precisamente? "Veja aqui, foram 1239", Mario de Andrade revelou um dia ao jornalista De Vaney, mostrando-lhe 1329 sumulas. De Vaney ficou excitado com a descoberta, pois ali estavam transcritos os detalhes técnicos não apenas de partidas oficiais, de campeonatos, como também dos inúmeros amistosos que Friedenreich disputou por vários clubes, no Brasil inteiro, para ganhar dinheiro. Mas Mário de Andrade preferiu não entregar imediatamente o tesouro para o jornalista. Pretendia rever tudo e, depois sim, passaria o material para suas mãos, esperando que ele divulgasse os números e os registrasse na FIFA e na CBD. Alguns dias após essa conversa, Mário de Andrade morreu. De Vaney, passada uma semana, procurou a viúva. Era tarde. Apesar de uma busca exaustiva pela casa inteira, os papéis nunca mais foram localizados - haviam sido despejados no lixo, pois a familia, desinteressada em futebol, achou que eram coisa velha e sem serventia.
Mesmo assim, De Vaney publicou - sem provas - os resultados de sua descoberta no jornal Tribuna de Santos. Houve repercussoes e desmentidos, o maior deles partindo do lendário Thomaz Mazzoni, o Olimpicus de A Gazeta Esportiva, de São Paulo. Só uma pessoa poderia esclarecer o mistério. Foram encontra-la em sua casa, no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Ele respondeu às perguntas com palavras vagas, os olhos verdes sem vida voltados para um ponto indefinido, as mãos esfregando os cabelos impecavelmente alisados. Morreria alguns anos mais tarde, a 6 de setembro de 1969, sem se lembrar de seus golos, de suas glórias e de seu nome: Arthur Friedenreich.
Legenda das fotografias:
1- Arthur Friedenreich, envergando a camisola da selecção do Brasil
2- Ao serviço do Flamengo
3- A selecção do Brasil que venceu a Copa América de 1919
4- Nos tempos em que jogava pelo São Paulo
5- No meio de duas estrelas do Brasil: Leónidas da Silva e Pelé
 
NOTA: Texto escrito em 22 de Dezembro de 2007 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Enzo Francescoli

Sabe quem foi o ídolo do francês Zinedine Zidane? O jogador que inspirou este famoso gaulês a tornar-se no grande futebolista que todos o conhecemos? A resposta é... Enzo Francescoli.
Isso mesmo, el príncipe do futebol uruguaio, é o génio que hoje vamos visitar na vitrina das grandes lendas do futebol mundial.
Nasceu em Montevideu, no dia 12 de Novembro de 1961, e foi um dos mais brilhantes futebolistas da década de 80 do século passado. Ele foi o sucessor de outros génios uruguaios, como as lendas das décadas de 20 e 30 José Leandro Andrade (de quem aqui já falámos), Scarone, ou Nasazzi, ou os heróis da década de 50 Varela, Maspoli, Ghiggia e Schiaffino.
Foi uma lenda não só no seu país como também na Argentina, onde jogou grande parte da sua carreira. Este é aliás um facto curioso, ou seja, o povo argentino idolatrar um uruguaio, sabendo nós da rivalidade quase de morte existente entre os dois países.
Embora sempre se tenha declarado como adepto incondicional do Peñarol, revelou-se no modesto Wanderers, o único clube que representou no seu país. Neste emblema da capital uruguaia Enzo disputou 74 jogos e apontou 20 golos entre 1980 e 1882. No ano de 1981 ele ajudou a selecção de júniores do Uruguai a conquistar o campeonato sul-americano da categoria, realizado no Equador, tendo sido eleito o melhor jogador da competição.
O futebol elegante, habilidoso e clássico deste avançado (posição onde actuou em grande parte da sua carreira) chamou à atenção dos grandes clubes sul-americanos, e em 1983 o River Plate, da Argentina, contratou-o por 360 mil dólares, naquele que ainda hoje é considerado como um dos melhores negócios da história do clube de Buenos Aires.
Nesta sua primeira passagem pelo River Francescoli jogou até 1986, tendo vencido o Campeonato Nacional Argentino de 1986. No River Plate atingiu um estatuto e reconhecimento quase sem paralelo, sendo respeitado por todo um país, independentemente das cores clubísticas, muito por força do seu perfil de caballero.
A Europa chamou então por si, e o primeiro emblema a contar com os seus préstimos foi o Matra Racing de Paris, na altura orientado pelo português Artur Jorge, onde jogaria até 1989. Considerado como um dos melhores futebolistas do campeonato francês não foi com estranheza que Enzo se mudaria na temporada de 1989/90 para o gigante Olympique de Marselha, onde na altura pontificavam estrelas como o inglês Chris Waddle, o francês Jean Tigana e as então promessas do futebol gaulês Didier Deschamps e Jean-Pierre Papin. Esteve somente uma temporada no poderoso e popular clube do sul de França, o suficiente para se tronar também ali num ídolo, tendo ajudado a equipa a vencer o campeonato dessa época. Ao serviço do Marselha foi considerado o melhor jogador estrangeiro a actuar em França. Neste país realizou 117 jogos e apontou 43 golos.
Mas o paraíso dos melhores futebolistas do planeta nestas décadas era a Itália. País cujo poderoso campeonato ficou enriquecido com a chegada de Enzo Francescoli, em 1990/91, para defender as cores do Cagliari onde esteve três anos. Mudaria-se em seguida para o Torino, em 1993/94, onde não seria feliz. Em Itália disputou 122 jogos e marcou 20 golos, uma prestação menos feliz do que aquela que havia tido em França.
Em 1994 regressaria à Argentina para voltar a defender as cores do seu River Plate, tendo ajudado o clube a vencer o Torneio Abertura de 1994, 1996 e 97, o Torneio Clausura de 1997, e o título mais importante da sua carreira ao nível de clubes a Taça Libertadores da América de 1996 (a primeira da história do River). Venceria ainda em 1997 a Supercopa Libertadores. Com a camisola do River efectuou um total de 197 jogos e apontou 115 golos.
Cada vez que ele entrava em campo, a claque do River Plate cantava: "U-ru-guayo!". Vindo de argentinos, não podia haver maior homenagem. Ao deixar o futebol, no início de 1998 (ano em que recusou uma proposta de 1 milhão de dólares para continuar), Francescoli já estava consagrado como o maior jogador do Uruguai da sua geração.
Quando deixou de jogar o seu rosto foi estampado numa bandeira da claque do River, ao lado de lendas como Di Stefano e Labruna, entre outros. Depois de ter abandonado o futebol, o River deixou de ser temido como antes...

A excepção de uma geração perdida

Apelidado de El Príncipe, Francescoli foi o ídolo do seu país numa época em que o futebol uruguaio estava em nítida decadência. Nesta época a selecção do Uruguai estava muito, mas mesmo muito, longe das poderosas equipas que venceram os Mundiais de 30 e 50. Era uma selecção algo fraca, mas que no entanto alcançou três Copas Américas no espaço de 12 anos! O grande responsável por este feito? Pois claro, Enzo Francescoli. Envergando a mítica camisola 10 azul celeste Enzo carregou a equipa às costas nas grandes competições em que participou. As principais vitórias foram, como já vimos, as conquistas da Copa América de 1983, 1987 e 1995 (cujas fases finais foram realizadas respectivamente no Uruguai, Argentina, e Uruguai). Na de 1987, brilhou na meia.final contra a Argentina, em pleno Monumental de Núñez, em Buenos Aires. Das quatro Copas Américas que disputou perdeu apenas uma, a de 1989, ante o Brasil.
Contudo, não seria feliz nas suas duas únicas participações em fases finais de Campeonatos do Mundo, no fundo o principal sonho de qualquer jogador do planeta. Não teve boas prestações e consequentemente o Uruguai seria eliminado nos oitavos-de-final em ambas as ocasiões, mais precisamente no México 86 e no Itália 90. Marcou um golo em fases finais do Mundiais, mais concretamente em 1986, diante da Dinamarca. Com a camisa do Uruguai disputou 68 jogos e marcou 17 golos.

O ídolo de Zidane
Durante a sua breve passagem por Marselha Francescoli tinha nas bancadas do Estádio Vélodrome ( o recinto deste clube do sul de França) um pequeno adepto marselhês que o idolatrava. Um jovem que se deslocava ao Vélodrome apenas para ver a magia do futebol de Enzo. Esse jovem chamava-se Zinedine Zidene, e anos mais tarde seria ele próprio um génio do futebol mundial. Francescoli foi o ídolo, a inspiração, de Zidane como o francês um dia confessou. Diz a lenda que Zidane, nos idos tempos em que jogava no Marselha, usava uma camisa do River Plate (que havia pertencido a Enzo) por baixo da sua camisola. Quando nasceu o seu primeiro filho, Zidane colocou-lhe o nome de Enzo, em jeito de homenagem ao seu ídolo.
Legenda das fotografias:
1- Enzo Francescoli com a camisola do seu país
2- Actuando pelo seu clube de sempre, o River Plate
3- Em acção no Mundial de 90 diante da Espanha
4- Oferecendo a camisola do River a Bono aquando da passagem dos U2 por Buenos Aires para um concerto no Estádio Monumental no ano de 2005
5- Erguendo a Copa América de 95, conquistada ao Brasil no Estádio Centenário, em Montevideu
6- A poderosa equipa do Marselha de que Enzo fez parte na época 1989/90
 
NOTA: Texto escrito em 11 de Janeiro de 2008 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Fernando Peyroteo

Foi um dos primeiros fenómenos do futebol lusitano. Um nome que ainda é hoje é recordado com saudade pelas poucas pessoas vivas que um dia tiveram o prazer de ver jogar, em especial os afectos ao Sporting Clube de Portugal. Vamos falar hoje de Fernando Peyroteo, um dos melhores avançados-centro portugueses de todos os tempos.
Nasceu a 10 de Março de 1918, em Humpata, Angola (na época colónia portuguesa) e desde cedo revelaria queda para a bola, em especial para a arte de marcar golos. E começou a marcá-los, e muitos diga-se passagem, ao serviço do Sporting Clube de Luanda.
Aos 19 anos chegou a Lisboa, mais precisamente no dia 26 de Junho de 1937, sendo que na altura não assinou de imediato contrato com o Sporting Clube de Portugal, clube que descobriu este talento pelos campos de Angola e que de imediato tratou de o trazer para os seus quadros.
Na época Peyroteo deu apenas a sua palavra de honra em como jogaria no Sporting sem se quer ter discutido questões monetárias. Um clube do norte, ao que parece o FC Porto, ainda tentou desviar o jovem Fernando, prometendo-lhe um ordenado mais alto do que aquele que iria ganhar em Lisboa, mas este trazia indicações claras de que em Portugal o seu clube seria o emblema do leão, além de que já se havia comprometido verbalmente com os lisboetas.
A sua estreia com a camisola do Sporting daria-se a 12 de Outubro de 1937 num torneio disputado no Campo das Salésias, com os leões a defrontarem o Benfica, jogo que terminaria com a vitória dos primeiros por 5-3, tendo 2 desses 5 golos leoninos sido da autoria de Peyroteo.
No seu primeiro ano de leão ao peito, ajudaria o clube a conquistar um Campeonato de Portugal. Este foi aliás o único Campeonato de Portugal (a prova que deu origem à Taça de Portugal) que conquistaria. Em termos de palmarés venceria ainda cinco Campeonatos Nacionais da 1ª Divisão e quatro Taças de Portugal.
Foi por seis vezes o melhor marcador do Campeonato Nacional, prova em que apontou 331 golos em 197 jogos, uma média de mais de 1,6 golos por jogo, média ainda hoje não superada por nenhum jogador do mundo em jogos referentes aos “nossos” campeonatos nacionais.
No total foram 393 jogos com a camisola leonina (entre 1937 e 1949) tendo marcado 635 golos (média de 1,61 por jogo), sendo que a totalidade de jogos disputados pelo Sporting e pela selecção nacional foi 432, tendo marcado 700 golos (média de 1,62 por jogo).
Sem dúvida um dos maiores goleadores de sempre do futebol português e mundial com esta impressionante média de golos por jogo. Pela selecção nacional actuou por 20 ocasiões e apontou 14 golos.
Peyroteo foi um jogador que ao longo da sua brilhante carreira estabeleceu inúmeros recordes pessoais, sendo um deles o facto de ser o jogador português que mais golos marcou num só jogo em campeonatos nacionais, mais precisamente 9 golos contra o Leça em 22 de Fevereiro de 1942, jogo que o Sporting venceu por 14-0.
Foi ainda o jogador português que mais golos consecutivos marcou num só jogo a contar para campeonatos nacionais: 5 golos ao Vitória de Guimarães a 8 de Fevereiro de 1942. Foi o atleta com mais golos marcados ao Benfica, 64 golos em 55 jogos (média de 1,2 por jogo), e ao FC Porto, 33 golos em 32 jogos (média de 1,02 por jogo). Os seus 43 golos apontados no campeonato nacional de 1947/48 só vieram a ser ultrapassados por outro sportinguista, o argentino Hector Yazalde que em1973/74 marcou 46 golos.
Uma das suas inúmeras tardes de glória com a camisola leonina ocorreu a 24 de Abril de 1948, dia em que o Sporting precisava de vencer o Benfica, fora de casa, por uma diferença de três golos para conquistar mais um campeonato nacional. Nessa tarde de glória, Peyroteo, apesar de ter passado a noite com febre alta, jogou e marcou os quatro golos que permitiram ao Sporting ganhar o campeonato nacional e, em simultâneo, a primeira Taça «O Século».
Uma das muitas histórias curiosas da sua vida aconteceu em Agosto de 1948, altura em que contraíu uma enorme dívida numa casa de desporto, tendo então anunciado a retirada do futebol porque precisava do dinheiro proveniente da festa de despedida. Foi então que um grupo de sócios lhe adiantou o dinheiro em causa para que prosseguisse a carreira por mais um ano.
Fez a festa de despedida dos campos de futebol a 5 de Outubro de 1949 num estádio cheio de emoção e cuja receita lhe permitiu pagar o dinheiro adiantado um ano antes.
Fernando Peyroteo era uma máquina de fazer golos, e foi um dos integrantes do famoso quinteto sportinguista das décadas de 40 e 50 denominado de Os Cinco Violinos, que para além de Peyroteo era ainda composto por Jesus Correia, Albano, Travassos e Vasques.
Terminou a sua carreira aos 31 anos. Foi seleccionador macional entre 1961 e 1962, tendo como principal feito ao serviço da selecção das quinas o simples facto de ter lançado um jovem chamado... Eusébio da Silva Ferreira.
Faleceu em 28 de Novembro de 1978, com apenas 60 anos.


Legenda das fotografias:
1- O astro Fernando Peyroteo
2- A fazer o que melhor sabia: golos
3- Em luta com o velho e eterno rival do seu Sporting, o Benfica
4- Os famosos Cinco Violinos
 
NOTA: Texto escrito em 14 de Janeiro de 2008 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

José Nasazzi

Vamos hoje dar um pulinho à vitrina destinada às grandes lendas do futebol para conhecer um pouco do perfil de um dos magos do futebol uruguaio. Um homem que ficará eternamente ligado às gloriosas décadas de 20 e 30 do futebol charrúa, tempos onde os uruguaios dominaram o mundo da bola, domínio esse expresso na conquista de dois títulos olímpicos (1924 e 1928) e um mundial (1930). Esse homem foi o líder e capitão dessas mágicas selecções uruguaias e dá pelo nome de José Nasazzi.
Nasceu a 24 de Maio de 1901, em Montevideo, e foi um dos maiores defesas centrais da história do desporto rei. O seu futebol de raça e vontade encantou o povo uruguaio. Era um jogador muito forte fisicamente, tenho muitas vezes sido acusado de ser um jogador violento pela forma como encarava o jogo.
Era conhecido entre os colegas como o Marechal, e entre os adversários, como el terrible. Tornou-se num dos mais laureados jogadores do seu país, sendo juntamente com Pedro Cea, Héctor Scarone e José Leandro Andrade o jogador que esteve em todas as conquistas da selecção uruguaia de futebol nos anos 20 e 30.
Iniciou a sua carreira desportiva em pequenos clubes como o Lito e o Roland Moor, até que em 1921 chegou aos quadros do recém-fundado Bella Vista onde cumpriu uma década em grande. Em 1925 envergou as cores do Nacional de Montevideo numa digressão que esta equipa fez pela Europa. Pelos nacionalistas Nasazzi actuaria definitivamente a partir de 1932, defendendo as suas cores até 1936, ano em que colocou um ponto final na carreira. Com esta equipa ganhou os campeonatos uruguaios de 1933 e 1934.
Cortador de mármore na época que o futebol era amador em quase todo o mundo, Nasazzi teve reconhecimento internacional em Paris,em 1924, e em Amesterdão, em 1928, quando os uruguaios encantaram os europeus nas competições de futebol nos Jogos Olímpicos, e na já citada excursão do Nacional.
Mas o momento mais importante da sua carreira ocorreu em 1930, quando o seu país acolheu o primeiro Campeonato do Mundo da história. Mundial que seria vencido – como já aqui frisámos em várias ocasiões - pelos uruguaios capitaniados pelo mago Nasazzi.
Actuou 39 vezes pela Celeste Olímpica.Chegou a jogar como avançado na histórica excursão que o Nacional fez na Europa, tendo marcando em 10 ocasiões.
Depois de terminada a carreira desportiva foi líder sindical. O estádio do Club Atlético Bella Vista tem o seu nome. José Nasazzi morreria na sua cidade natal em 17 de Junho de 1968.

NOTA: Texto escrito em 7 de Abril de 2008 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Pinga

Estava o Mundo ainda muito longe de se maravilhar com as fintas e sprints de Cristiano Ronaldo e já a ilha da Madeira produzia diamantes raros no que toca à arte de conduzir a bola. Esta é uma história que teve início há mais de 100 anos, altura em que esta imortal lenda do “desporto rei” veio ao Mundo. Estávamos em 1909, numa época em que futebol vivia a sua era romântica, simples, puro, e consequentemente apaixonante... sem os tiques do mediatismo económico em que hoje em dia se encontra mergulhado.
Na cidade do Funchal nascia no dia 30 de Setembro desse longínquo 1909 um menino, um menino que recebeu a graça de Artur... Artur de Sousa, o seu nome completo. Como tantos outros meninos da sua idade foi crescendo contagiado pelo fascínio do futebol, dando asas à sua paixão em alegres jogos de rua disputados com uma bola de trapos e com os pés descalços. Foi-se tornado homem, e a sua perícia com a bola nos pés foi-se fazendo notar cada vez com mais intensidade, sendo que ainda no período da adolescência começaria a mostrar os seus dotes ao serviço do Marítimo. Encantaria pequenos e graúdos com as cores verde-rubras dos insulares vestidas, não demorando muito a que o seu nome começasse a despertar interesse junto dos principais emblemas do continente.
Um desses interessados era o Futebol Clube do Porto, clube que em finais dos anos 20 do século passado era orientado pelo seu lendário antigo guarda-redes Mihaly “Miguel” Siska. Em busca de pérolas para o seu clube Siska desenvolve todos os esforços para trazer outro mestre da táctica para a capital do Norte do país para o auxiliar na tarefa de conduzir os “dragões” aos patamares mais altos do futebol lusitano. Esse homem encontrava-se na altura na Madeira e tinha como graça... Joseph Szabo. Numa conversa de húngaro para húngaro Szabo confidenciaria a Siska que na Madeira havia um diamante por lapidar, um avançado fora de série, e que o FC Porto tudo deveria fazer para o levar para os seus quadros. Esse diamante era Artur de Sousa, ou melhor... Pinga, este era o seu nome de guerra, uma alcunha que tinha qualquer coisa a ver com o seu pai, presume-se.

Transferência polémica

Szabo e Pinga rumariam então ao Porto, onde ai chegariam a dois dias do Natal de 1930. Contudo a chegada do promissor avançado ao clube da Invicta foi tudo menos pacífica, já que os dirigentes do clube que representava na sua ilha, o Marítimo, acusaram os portistas de terem feito umas falsificações na documentação que haveria de selar o vínculo do esplêndido jogador ao FC Porto. Troca de acusações para aqui e para acolá de parte a parte mas o que é certo é que Pinga era em finais dos anos 30 pertença do Porto.
Desde logo mostrou os seus atributos. A bola era como se fosse sua escrava, fazia tudo o que ele queria. Driblava de uma forma quase mágica e rematava com um poder quase humanamente impossível. Numa altura em que o profissionalismo estava ainda muito longe de chegar ao futebol Pinga iria receber do FC Porto um ordenado de 500 escudos... por baixo da mesa. Não era permitido na época os jogadores receberem salário fixo para jogar, e como tal, e para disfarçar, Pinga fingia que auferia esse salário através do seu emprego na Fábrica de Sebastão Ferreira Mendes, um homem que anos mais tarde chegaria à presidência dos portistas.
Muito rapidamente tornaria-se na principal referência do FC Porto de Szabo e Siska, a estrela da equipa, colocando para segundo plano jogadores como Valdemar Mota, por exemplo, o qual em 1928 havia sido o único atleta portista a ter a honra de representar a Selecção Nacional de Portugal nos Jogos Olímpicos de Amesterdão. E por falar em selecção das “quinas” é de sublinhar que ainda com as cores do Marítimo Pinga seria convocado para representar o combinado lusitano, num jogo contra a Espanha, velha inimiga da nação portuguesa que levaria (corria o ano de 1930) do Ameal um triunfo de 1-0.
Os espanhóis ficaram desde logo loucos com a mestria de Pinga, e elogios não faltaram na imprensa da época do país vizinho para com aquele jovem talento.
Envergando as cores do “dragão” Pinga foi coleccionando títulos atrás de títulos: 3 vezes campeão da Liga, 2 vezes campeão nacional da 1ª divisão, 1 campeonato de Portugal, e 13 títulos de campeão distrital (da Associação de Futebol do Porto). Isto a juntar aos 3 títulos de campeão do Funchal conquistados ao serviço do Marítimo. Palmarés impressionante, não há dúvida! De entre estas conquistas destacam-se a primeira edição do Campeonato Nacional da 1ª Divisão, corria a época de 1934/35, sob o comando técnico de Szabo. Título do escalão maior do futebol português que seria repetido em 1938/39, aqui já sob a batuta de Siska, uma vez que Joseph Szabo havia partido para o sul do país para orientar o Sporting.
 
Um dos “Três Diabos do Meio-Dia”

Com o passar dos anos Pinga tornara-se não só na estrela-mor do clube da Invicta como também o seu patrão, o seu estratega, o homem capaz de resolver um jogo num lance de génio. E o FC Porto deve-lhe muitas tardes de glória que compõem a sua prestigiada história. Num célebre encontro (ocorrido em 1933) entre os portistas e o First de Viena, da Áustria, uma das mais poderosas equipas do Mundo da época, Pinga fez uma exibição memorável. Ele e mais dois companheiros seus, nomeadamente Valdemar Mota e Acácio Mesquita. Um trio que compunha o mágico meio-campo do FC Porto que nessa partida realizada à hora de almoço fizera “gato-sapato” da equipa-maravilha do First com jogadas absolutamente encantadoras e... diabólicas. E assim foi de tal maneira que Rodrigues Teles os chamaria de “Os Três Diabos do Meio-Dia”, alcunha que ficou para sempre nos anais da história do futebol.
Anos mais tarde, por alturas da sua despedida dos rectângulos de jogo, e quando recoradava essa mítica partida (a qual terminou com a vitória portista por 3-0) Pinga opinaria que «Aquilo é que era jogar... Que me desculpem a vaidade, mas parece-me que nunca mais se arranjam três rapazes da bola tão intimamente ligados a acertar na borracha. Se até nós, às vezes, nem sabíamos como aquilo era...».
Mas nem tudo foram coroas de glória na carreira deste génio. Considerado durante anos a fio como o melhor futebolista português era pois com naturalidade que os adversários recorressem a todo o tipo de faltas para o travar em campo. Algumas bem duras. Como tal não era de estranhar a ocorrência de lesões graves. Neste aspecto foi dos primeiros jogadores em Portugal a sujeitar-se a uma operação ao menisco, correndo mesmo o risco de não poder voltar a jogar. Face a isto o desânimo de Pinga para com o futebol ia aumentando. A beleza do jogo ia-se esfumando na opinião do craque. Mas não era apenas pela violência imposta pelos adversários que o futebol começava a desagradar a Pinga, também pelas atitudes de certos dirigentes começavam a ter consigo. E neste último ponto é de recordar um episódio, ocorrido em 1933, ano em que os dirigentes do FC Porto doridos pela perda do Campeonato de Portugal decidem refrescar a sua equipa. E fazem-no indo contratar três jogadores ao vizinho Boavista, oferecendo a cada um deles 800 escudos. Injustiçado com esta atitude Pinga resolve fazer as malas e regressar à sua ilha da Madeira. Sabendo disto os dirigentes do Porto correm atrás dele na tentativa de o demover de tal decisão, e é já em plena Estação de S. Bento, onde o craque se preparava para apanhar o comboio para Lisboa e dali embarcar para o Funchal, que os responsáveis portistas o conseguiram convencer a permanecer na Invicta, acenando-lhe com um ordenado de... 800 escudos. Para evitar novas tentativas de “fuga” da sua estrela-mor o FC Porto foi-lhe aumentando gradualmente o salário com o avançar dos anos, e em 1937 era já o futebolista mais bem pago de Portugal, auferindo um vencimento de 1500 escudos. Mais de metade daquilo o que ganhava outra lenda do futebol português dos anos 30/40, o sportinguista Peyroteo.

O emocionado adeus

E em 1946 este conto de fadas futebolístico chegava ao fim, ano em que Pinga disse adeus aos campos, em que colocou um ponto final a uma carreira ímpar. Para assinalar este momento o FC Porto organizou uma festa de despedida, um jogo entre a sua equipa principal e uma selecção formada por jogadores do Sporting, Benfica, Belenenses, e Académica. O encontro realizou-se no mítico – e já desaparecido – Estádio do Lima, no Porto, e ao recinto ocorreu uma numerosa massa de apaixonados pela arte que Pinga criou ao longo de mais de uma década e meia pelos campos de futebol lusitanos.
O Lima estava cheio para dizer adeus ao seu ídolo. O público chorou de emoção quando Pinga abandonou o relvado. O seu nome foi gritado com uma tremenda emoção no meio de uma chuva de aplausos vindos das bancadas que tantas vezes o viram brilhar. E Pinga saiu do relvado, envolto em lágrimas, olhando para a multidão que dele se despedia, e com a voz trémula ia deixando “obrigados” aqui e ali. Deixou uma impressionante marca de 400 jogos realizados e 396 golos apontados (!!!), uma média de quase um golo por encontro. Em 35/36 foi mesmo o goleador-mor do Nacional da 1ª Divisão com 21 golos.
Deixou de jogar mas não deixou o vício do futebol. Penduradas as botas iniciou uma carreira de treinador, e embora com menos êxito do que fizera como jogador também nesta nova função fê-lo com um certo brilho. De recordar uma surpreendente vitória do Tirsense, por si orientado, diante do poderoso Sporting dos “Cinco Violinos”, em jogo da Taça de Portugal, que ditaria o afastamento dos “leões” da prova.
No seu FC Porto ainda foi treinador-adjunto de outro mestre do futebol, Cândido de Oliveira, e mais tarde seria treinador das camadas jovens azuis-e-brancas. Aliás, em 1945, numa crónica sua publicada no jornal que ajudou a fundar, “A Bola”, mestre Cândido confirmou a sua admiração profunda por Pinga, ao dizer que: «Artur de Sousa foi um jogador fulgurantíssimo, verdadeiramente genial. Talvez o maior talento de jogador do nosso futebol. Tudo nele era prodigioso: a concepção, como a execução; a imaginação viva e riquíssima marcada na escolha do lance ou do toque subtil, ou a finta intencional e preconcebida, ou no pormenor em que revelava a sua grande inteligência prática, o profundo e exacto conhecimento do jogo e dos jogadores e até sentido artístico - de verdadeiro artista do futebol.»
Por estas alturas o futebol não era o único vício da lenda. O vinho era outra das suas paixões, uma terrível paixão que o haveria de levar à morte em 1963. Vitimado por uma cirrose morreria a 12 de Julho desse ano de 63 na cidade que ainda hoje o recorda como um dos maiores génios de todos os tempos da arte de manusear a bola, a cidade do Porto.
 
Legenda das fotografias:
1- O genial Artur de Sousa, imortalizado no mundo do futebol como Pinga
2- A equipa do FC Porto campeã nacional em 1938/39
3- Os célebres "Três Diabos do Meio-Dia"
4- Pinga com as cores da Selecção Nacional, a qual representaria por 23 ocasiões, tendo apontado nove golos
5- Placa toponímica com o seu nome numa Rua do Funchal
 
Nota: Texto escrito em 5 de Março de 2010 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Combi

Pronunciar o seu nome remete-nos para a magia da era do futebol romântico da primeira metade do século passado. Recorda-lo é também sinónimo de veneração a um dos maiores futebolistas da história centenária do jogo da bola. Senhoras e senhores visitantes a lenda em destaque hoje no MVF é Giampiero Combi, o primeiro grande astro das balizas do futebol italiano.
Nascido em Turim a 20 de Novembro de 1902 Combi desenvolveu toda a sua carreira ao serviça da Juventus, clube por onde percorreu todos os escalões de formação até chegar à formação sénior em 1922. Aí chegado nunca mais largou a baliza da “Velha Senhora” até à data da sua retirada, tendo-se tornado num dos futebolistas de referência do gigante emblema italiano. Durante as 12 temporadas em que defendeu com brilho as cores da Juve venceu 5 “scudettos”, sendo que o primeiro deles surgiu na época de 1925/26. Os restantes quatro títulos nacionais seriam alcançados na sequência de um “poker” efectuado pela Juve entre 1930 e 1934.
Apesar de não ser um guarda-redes muito alto – media 1,71m – Combi primava por uma robustez física impressionante que aliada à sua garra e determinação em jogar futebol, por vezes nas condições mais adversas, fizeram dele um dos atletas mais venerados pelos “tiffosi” daquela altura. Recorde-se neste aspecto uma partida contra o Modena onde actuou com três costelas partidas e um outro encontro ante a Cremonese onde jogou com várias vértebras danificadas.
Possuindo na época um dos conjuntos mais fortes do Calcio não era de estranhar que a Juventus fosse um dos principais fornecedores de jogadores às selecções italianas dos anos 30. Uma década de extrema glória para os “azzurri” que como se sabe arrecadariam dois títulos mundias (1934 e 1938). E no primeiro deles Combi assumiu-se como um dos actores principais da épica conquista italiana. A jogar em casa a “squadra azzurra” do lendário treinador Pozzo foi capitaniada e comanda desde a baliza, o mesmo é dizer por Giampiero Combi que nos céus de Roma teve a honra de erguer a primeira Taça do Mundo arrecadada pela Itália. Nesse Mundial foi titular indiscutível de uma equipa que tinha astros como Meazza, Monti, Orsi, ou Schiavio e que começou a sua cavalgada triunfal por uma goleada sobre os Estados Unidos da América por 7-1. Seguiu-se a épica partida ante outra potência mundial daquela época, a Espanha, selecção que tinha na baliza a sua principal estrela, Ricardo Zamora. Dizer a propósito deste facto que Combi viveu numa era onde abundavam grandes magos da baliza, sendo que para além dele e de Don Zamora há ainda que sublinhar o nome do “monstro” checoslovaco Planicka. Voltando ao Mundial de 34 e ao célebre e polémico Itália – Espanha dos quartos-de final para recordar que Combi foi um dos grandes heróis desse duelo ocorrido em Florença, que seria decidido após um segundo e decisivo jogo. Isto porque no primeiro confronto o resultado cifraria-se num renhido 1-1, renhido e injusto para os espanhóis, pois segundo rezam as crónicas da altura a Espanha foi “assaltada” pelo árbitro do encontro que tudo fez para que a aventura da equipa italiana não terminasse naquela tarde. No segundo encontro a Espanha orfã dos seus principais futebolistas, vítimas das duras entradas italianas no primeiro jogo, vendeu cara a derrota por 0-1, muito valendo novamente a magnífica exibição de Combi.
Nas meias-finais a Itália teve novamente que sofrer a bom sofrer para levar de vencida a “equipa-maravilha” da Áustria liderada pelo astro Sindelar. 1-0 em Milão foi suficiente para os pupilos de Pozzo garantirem o bilhete para Roma onde iriam jogar a grande final desse Mundial tendo Combi mais uma vez dado uma forte contribuição para que esta passagem fosse uma realidade já que efectuou um par de defesas miraculosas já bem perto do final do jogo.
E como não há duas sem três a Itália teve novamente de puxar dos seus galões para vencer a poderosa Checoslováquia por 2-1 na final e desta forma inscrever pela primeira vez o seu nome na restrista galeria dos vencedores do Mundial de futebol e Combi o primeiro transalpino a ter o privilégio de pegar na Taça Jules Rimet.
Pela “squadra azzurra” actuou por 47 ocasiões, tendo-se estreado em 1924 num jogo ante a Hungria, em Budapeste. Para além do título Mundial conquistaria ainda pela equipa nacional a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de 1928 (Amesterdão).
Abandonou a carreira de futebolista aos 32 anos com um total de 367 jogos no currículo disputados com as cores da sua Juventus. Penduradas as chuteiras Combi continuou ao serviço da Juve por vários anos quer como olheiro quer como colaborador técnico. Morreu em 1956 devido a um enfarte, numa altura em que colaborava com o recém eleito presidente da Juve Umberto Agnelii que procurava recolocar a “Velha Senhora” no caminho do sucesso depois de uma fase menos boa do nobre emblema transalpino.

Legenda das fotografias:
1- Giampiero Combi vestido com as cores da Squadra Azzurra
2- Duas lendas das balizas na final do Mundial de 1934: Combi e Planicka

Nota: Texto publico no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com em 9 de Setembro de 2010

Matateu

É com enorme prazer que hoje regressamos à vitrina dedicada às grandes lendas do futebol mundial para falarmos sobre um dos maiores jogadores portugueses de todos os tempos, de seu nome Sebastião Lucas da Fonseca, ou simplesmente Matateu. Diz quem o viu jogador que foi um verdadeiro fenómeno, um jogador de uma classe ímpar mas que viveu um tudo ou nada adiantado no tempo, ou seja, viveu fora das épocas das grandes conquistas do futebol português. Faltou-lhe jogar a fase final de um Mundial, de um Europeu, discutir uma final da Taça dos Campeões Europeus, e quem sabe ter jogado num grande do futebol lusitano, coisa que nunca fez, pois se assim não fosse talvez estaríamos hoje aqui a discutir quem tinha sido o melhor jogador lusitano de todos os tempos, se Eusébio, se Figo, se Cristiano Ronaldo, ou se Matateu. Por aqui já dá para ver que este homem foi um gigante do mundo da bola. Vamos também falar de um ser humano cujo nome se confunde com o de um clube, o Belenenses, o emblema do seu coração, o emblema que o tornou célebre e... que ele também ajudou a tornar célebre. Devo confessar aos ilustres visitantes que escrever sobre Matateu me deu enorme prazer, pois sempre ouvi maravilhas deste homem, e sinto uma profunda tristeza em não o ter visto actuar pelo menos uma única vez na vida.
Este mito do futebol luso nasceu a 26 de Julho de 1927, em Lourenço Marques, Moçambique, a mesma terra que anos mais tarde via nascer outros génios da bola como Eusébio ou Coluna. Filho de Lucas Matambo e de Margarida Heliodoro o menino Sebastião nasceu no bairro de Alto Mahé, onde como tantos outros ficou enfeitiçado pela bola desde cedo, começando a jogar de pé descalço na terra batida e de tronco nu ao frio ou calor do clima tropical do país de onde veio ao Mundo.
Sebastião foi o terceiro filho do casal Lucas e Margarida, tendo depois de si nascido mais cinco irmãos, entre os quais Vicente, um rapazinho que um dia haveria de ser considerado como o único homem que conseguiu travar Pelé.
Menino Sebastião viveu uma infância pobre, como a maior parte das crianças daquele tempo. A tristeza da pobreza era porém eclipsada pela paixão pelo futebol. No Alto de Mahé não havia uma só alma que não conhecesse o menino hábil e gingão com a bola nos pés. Por aquela altura Matateu era já o seu nome de guerra. Uma alcunha que o próprio Sebastião Lucas dizia derivar da sua infância, ou seja, que "tateu" em landim significava pele a cair, ou crosta, e que a verdadeira origem desta alcunha residia no facto de «em criança quando me magoava, não tinha paciência para aguardar que a ferida secasse, arrancava a crosta antes de tempo».
Menino Sebastião que desde cedo torceu o nariz aos estudos para grande desgosto – e arrelia, por vezes – de sua mãe, a qual não teve outro remédio senão conformar-se com o caminho traçado por este diamante que despontava nas ruas de Moçambique.

O início da aventura

Aos 16 anos Matateu deu o pontapé de saída de uma carreira fabulosa quando ingressou no João Albasini, clube este onde despontava o seu irmão mais velho. O seu talento fez com que estivesse por pouco tempo por estas paragens, já que tempos mais tarde foi contratado pelo 1º de Maio, o clube filial do Belenenses naquele país africano. Dali transitou para o Manjacaze, emblema este que lhe ofereceu um emprego como contrapartida para defender a sua camisola. E a estreia ao serviço daquele colectivo moçambicano foi de tal forma coroada de êxito que no final desse primeiro encontro o lendário Matateu seria abordado pelo árbitro do jogo, João Pedro Belo, um homem que enquanto jogador defendeu com brilho as cores do Belenenses e da própria Selecção Nacional, que lhe perguntaria se estaria disposto a ir para Lisboa. Embora Matateu ficasse surpreso perante tal convite o que é certo é que muito poucos naquela metrópole portuguesa acreditavam que seria possível segurar por muito mais tempo o astro da bola, não sendo de estranhar que à cidade de Lourenço Marques (actual Maputo) tivessem chegado propostas de clubes como o Benfica, o FC Porto, e o União de Coimbra.
As notícias dos feitos extraordinários do diamante negro em terras africanas continuavam a chegar em catadupa a Portugal, e tomando conhecimento das mesmas o Belenenses não perdeu tempo em enviar um telegrama para Lourenço Marques pedindo à pérola africana que esquecesse a proposta de João Pedro Belo e ao invés disso apanhasse o primeiro avião para Lisboa onde à sua espera estariam responsáveis pelo emblema da Cruz de Crsito. «Tratar tudo urgentemente stop Matateu embarque Lisboa primeiro avisão stop», assim ditava o famoso telegrama.

Chegada a Lisboa... e estreia de sonho

E assim foi, Matateu fez as malas e partiria rumo ao estrelato. Aterrou na capital portuguesa a 4 de Setembro de 1951 para assinar um contrato de 30 contos de luvas com o Belenenses, clube no qual passaria a usufruir de um ordenado mensal de 1600 escudos. A estreia com a camisola azul deu-se ante o FC Porto, no Estádio Nacional, num desafio a contar para a Taça Maia Loureiro. Nesse dia as ímpares qualidades do artista moçambicano ficariam desde logo vincadas, mas a consagração ocorreria uma semana mais tarde num jogo alusivo ao Campeonato Nacional da 1ª Divisão diante do Sporting. Nesse dia Matateu foi o diabo à solta, no bom sentido, colocando os “leões” em absoluto pânico perante a sua genialidade. O país pasmou ao ver aquele rapaz negro espalhar magia com a bola nos pés. Senhor de um drible curto “diabólico” e desconcertante, possuidor de um arranque notável e de um poderoso remate esta força da Natureza foi sem sombra para dúvida o destaque daquele célebre jogo que terminaria com a vitória dos azuis de Belém por 4-3. O génio marcaria dois golos, sendo que no final da partida os entusiastas adeptos belenenses invadiram o campo para carregar Matateu em ombros numa imagem que ficaria célebre. Naquele dia nascia o novo rei do futebol português.
Dali em diante escusado será dizer que Matateu seria a estrela maior do Belenenses e do próprio futebol português, pelo menos até à chegada de outro génio oriundo de Moçambique, Eusébio.

Bolas de Prata e Selecção Nacional

Na sua segunda época em Portugal, 52/53, venceria a Bola de Prata, prestigiado troféu atribuido ao melhor marcador do principal campeonato nacional fruto dos seus 29 golos.
Nessa mesma época os responsáveis da selecção portuguesa não hesitaram em chamar o novo mago da bola lusitana para defender as cores da equipa nacional. Um facto ocorrido a 23 de Novembro de 1952 diante da Áustria, no Estádio das Antas (Porto). O primeiro golo com as quinas ao peito deu-se um ano mais tarde num jogo amigável diante da África do Sul realizado no Estádio Nacional.
Ao todo foram 13 os tentos que Matateu apontou nas 27 ocasiões que representou Portugal, tendo a última delas ocorrido a 22 de Maio de 1960 perante a Jugoslávia numa partida de apuramento para a Taça das Nações Europeias (prova que anos mais tarde seria rebaptizada de Campeonato da Europa). O instinto matador do astro voltaria a ser premiado na temporada de 54/55, altura em que arrecadou a sua segunda Bola de Prata como consequência dos seus 32 remates certeiros no Nacional da 1ª Divisão. Curiosamente, nesta mesma temporada, o Belenenses escrevia aquela que muitos consideram como a página mais triste da sua glorisosa história, a época em que perderia o título nacional no derradeiro jogo do campeonato. Um facto ocorrido a 24 de Abril de 1955, com o desaparecido Campo das Salésias como palco do famigerado episódio. Os intervenientes do duelo davam pelo nome de Belenenses e Sporting e caso os primeiros vencessem sagravam-se pela segunda vez na sua vida campeões de Portugal. A quatro minutos do final os azuis de Belém venciam por 2-1 o seu rival de Lisboa e os foguetes da festa começavam a ser preparados. No entanto, o sportinguista Martins tratou de estragar os festejos ao apontar o golo da igualdade que desta forma retirava o título ao Belenenses e oferecia-o ao Benfica. Matateu chorou nesse dia. Um dos seus maiores sonhos – que anos mais tarde confessaria – havia sido eclipsado a quatro minutos do final de um jogo de futebol. Nunca conseguiria ser campeão nacional ao serviço do seu Belenenses. Assim como nunca conseguiu bater o recorde de golos na Selecção Nacional – outro sonho particular – nem abrir a tão desejada cervejaria na zona de Belém.

Paixão pela cervejinha

Este último sonho é como que um derivado de outra das grandes paixões do astro: a cerveja. Diz quem com ele de perto conviveu que bebia 30 cervejas por dia! Fosse que dia fosse, dia de jogo incluido. Aliás, há uma história contraditória sobre este facto, já que uns dizem que sabendo deste particular vício de Matateu os responsáveis do Belenenses autorizavam-no a beber a cervejinha da prache no intervalo dos jogos, sendo que apenas ele o podia fazer, ao passo que a restante equipa bebia o habital cházinho. Outros porém, dizem que ele desafiava as ordens dos treinadores e dirigentes azuis e ingeria mais do que uma cerveja por jogo, já que alguém lhas escondia atrás das sanitas dos balneários!
Voltando aos títulos, o único que conquistou ao serviço do Belenenses foi a Taça de Portugal de 1960 diante do... Sporting. É verdade, os “leões” sempre no caminho de Matateu, no melhor e no pior. Neste caso no melhor, já que uma vitória por 2-1, com o tento da vitória a ser apontado por menino Sebastião, daria a segunda taça da história ao emblema azul.
Outra história curiosa retrata o nascimento da única filha de Matateu, fruto do seu primeiro casamento. Jogava-se um Portugal – Argentina no Estádio Nacional e no desenrolar do encontro a instalação sonora do recinto dá conta do nascimento do primeiro rebento do craque nacional que na hora de escolher um nome para a sua menina optou por... Argentina. Original, no mínimo.
Por falar em partidas internacionais não é demais sublinhar que o reconhecimento além-fronteiras pelo génio tivesse começado bem cedo. Na edição de 1955 da Taça Latina (a antecessora da Taça dos Campeões Europeus) a imprensa internacional rendeu-se a Matateu em consequência das suas sublimes exibições nos relvados parisienses (Paris acolheu a fase final dessa Taça Latina) que ofuscaram génios como Di Stéfano e Kopa.

O declínio? Não para Matateu

Os anos foram-se passando e pessoas existiram no universo futebolístico que começaram a duvidar das capacidades do génio. Caso de Fernando Vaz, célebre treinador que na altura de assumir os destinos do Belenenses colocou de imediato em causa a utilidade do jogador ao clube. Em Novembro de 1964 os responsáveis do Belenenses prometem-lhe uma grande festa de homenagem... quase em jeito de despedida, para no mês seguinte o terem dispensado! Um dos poucos a opor-se a esta precipitada decisão foi o histórico dirigente azul Acácio Rosa, para o qual Matateu ainda poderia ser muito útil ao Belenenses. Clube pelo qual contabilizou números impressionantes: 217 golos em 291 jogos realizados na 1ª Divisão! Só na 1ª Divisão, pois se juntarmos os apontados na Taça de Portugal, nas competições europeias (Taça Latina e Taça das Cidades com Feira), e noutras provas secundárias a marca assume proporções assombrosas.
Mas o que é certo é que o génio oriundo de Lourenço Marques abandonou o clube do seu coração, mas não o fez em relação ao futebol. A sua carreira estava ainda muito longe de terminar, tal como se viria a verificar. Em 1965/66 ajudou o Atlético a subir à 1ª Divisão Nacional, e aos 41 anos assinou pelo Amora, que na altura se encontrava nos campeonatos distritais, e também aí fez história já que ajudou o pequeno clube a subir e a cimentar-se nos campeonatos nacionais.
Antes do Amora uma fugaz passagem pelo Gouveia veio provar que Matateu ainda estava bem vivo. Foi então que decidiu emigrar, mais concretamente para o Canadá, onde encantaria um povo carente de grandes momentos de futebol. Foi estrela num país onde o futebol assume um papel secundário. Ali jogaria no First Portuguese para pouco depois regressar a Portugal para uma nova aventura em Chaves no Desportivo local.
No entanto, em 1969 regressa ao Canadá para vestir a camisola do Sagres de Vitória onde jogaria até aos 55 anos! E naquele país da América do Norte viveria até ao final da sua vida, ali casaria uma segunda vez, ali viria a falecer a 27 de Janeiro de 2000 com 72 anos com o seu Belenenses sempre no coração.
Viajando pelo mundo virtual em busca de testemunhos capazes de abrilhantar as modestas linhas por mim acabadas de elaborar em torno deste génio encontrei duas pérolas jornalísticas de grande interesse que descrevem um pouco da vida desta lenda do futebol mundial. Uma é da autoria de um homem que muito admiro enquanto jornalista, Rui Miguel Tovar, que por alturas do 10º aniversário da morte de Matateu entrevistou para o jornal “I” um homem que teve o privilégio de treinar o astro africano. Outra é senão mais do que uma compliação de relatos feitos na primeira pessoa – pelo próprio Matateu – ao jornal “A Bola” aquando da sua passagem pelo Amora. Aqui ficam:

Por: Rui Miguel Tovar
Maputo, capital de Moçambique e antigamente conhecida como Lourenço Marques, é a terceira cidade com mais internacionais na selecção portuguesa, depois de Lisboa e Porto. Ao todo, são 16 e há de quase tudo, menos guarda-redes (Costa Pereira nasceu lá perto, em Nacala). Nomes clássicos como Eusébio, Coluna, Hilário, Juca, Vicente, Matine, os gémeos Pedro e Carlos Xavier saltam à vista mas só um foi apelidado pelos ingleses de oitava maravilha do mundo: Sebastião Lucas da Fonseca, ou Matateu. O i faz-lhe aqui a homenagem, precisamente no dia em que se celebra o 10.o aniversário da sua morte. Artur Quaresma, tio-avô de Ricardo (o do Inter), hoje com 93 anos, que treinou o avançado no Belenenses confirma-nos: "Matateu era uma maravilha."
Para já, a pergunta sacramental: quem foi Matateu? "Isso agora, pfff. Bem, vou tentar ser prático. Era um fenómeno que, infelizmente, nunca foi campeão, embora andasse lá perto [em 1954-55, o Sporting empatou 2-2 nas Salésias, na última jornada, com um golo aos 86', e roubou o título ao Belenenses, a favor do Benfica]. Era grande, musculoso e encorpado. Impunha-se facilmente pelo físico e destacava-se pelo arranque, pelas passadas com a bola controlada, pelo remate forte ou em jeito, pelo drible. Era uma força da natureza."
E que fez Matateu? "Além de marcar golos a torto e a direito [218 em 289 jogos na 1.a divisão], muitos deles impossíveis, outros banais, que lhe garantiram o título de melhor marcador da 1.ª divisão [29 golos em 26 jogos na época 1952-53 e 32 em 26 na de 1954-55], era um autêntico quebra-cabeças. Equipas como Sporting, FC Porto e Benfica marcavam-no homem a homem, num tempo em que nem se pensava nessas modernices. Ele chegou a Portugal [4 de Setembro de 1951] com um contrato de fazer rir e ao mesmo tempo de fazer corar de vergonha os actuais jogadores [30 contos de luvas e 1600 escudos de salário por mês], três meses depois de eu abandonar o futebol. Não nos cruzámos por pouco, mas fiquei feliz por ver a estreia ao vivo, num Belenenses-Sporting numa 1.ª jornada. Ganhámos 4-3, com dois golos dele, o último dos quais aos 88 minutos, e ele foi carregado em ombros pelos adeptos até aos balneários. Logo aí ficou conhecido como astro pela imprensa portuguesa."
A alcunha da oitava maravilha do mundo veio mais tarde. Em Maio de 1955, a Inglaterra perdeu pela primeira vez com Portugal (3-1 no Jamor) e os jornalistas britânicos, sobretudo o enviado do "Daily Sketch", um tablóide nascido em Manchester nos anos 20 e que foi sugado na década de 70 pelo "Daily Mail", descreveu Matateu da seguinte forma: "Um negro sempre sorridente, de Moçambique, é, esta noite, o rei do futebol português. Lá foi-lhe dado o nome de Lucas, mas há muito tempo que já ninguém se preocupa com isso. Passaram-lhe a chamar Matateu - um cognome que significa oitava maravilha do mundo - desde que começou a driblar como um mago e a chutar como um canhão. Fomos derrotados por essa oitava maravilha que rebaixou e humilhou uma Inglaterra destroçada e inebriada. E não há justificação porque, com excepção do maravilhoso Matateu, o grupo português é uma equipa de passeantes, com apenas uma vitória nos últimos 19 jogos."
A coisa não se fica por aqui. Nesse mesmo ano, Matateu foi eleito pela imprensa como o melhor jogador da Taça Latina-55, precursora da Taça dos Campeões, à frente de Di Stéfano e Puskas, ambos do Real Madrid. Como titulava a revista "Miroir Sprint", "Di Stéfano perdeu o sorriso frente a Matateu". Em 1957, o Belenenses fez uma digressão pelo Brasil e jogou no Maracanã, onde Matateu atirou três à barra antes de Pelé marcar os primeiros golos internacionais no misto Vasco/Santos. Só para acabar, em 1959, num RDA-Portugal de qualificação para o Europeu, em Berlim, o nome de Matateu é entoado por militares alemães que o rodeiam no final do jogo, ao ponto de ele perguntar ao jornalista Aurélio Márcio: "Vistes os russos a chamar pelo meu nome?" Tudo em nome do futebol. E sempre com uma cervejinha ao intervalo, a sua imagem de marca.
E lá voltamos ao Artur Quaresma. "Comigo a treiná-lo, nunca bebeu. Pedi-lhe com bons modos e ele acatou. Ficava no balneário a ouvir-me e a motivar os mais novos. Naquela altura a gente entendia-se mais facilmente que agora, em que um futebolista ganha mais que um treinador, o manda passear, faz o que lhe apetece."
Depois do Belenenses, onde ganha a Taça de Portugal-60 ao Sporting, Matateu ainda joga no Atlético, que ajuda a subir à 1ª divisão em 1966. No posterior pingue-pongue entre Américas (First Portugueses e Sagres da Vitória) e Portugal (Gouveia, Amora e Chaves), só acaba a carreira aos 55 anos.


Excerto da entrevista ao Jornal "A BOLA" 18/01/69 .

E foi então que na época 1968/69, que Lucas Sebastião da Fonseca, mais conhecido por Matateu, ingressou no AMORA FUTEBOL CLUBE . Talvez numa das épocas mais lindas do clube, e ele contava com 41 anos de idade, mas parecia que tinha 19.
Foi no dia 20/10/68 pelas 15 horas, e a contar para a 1ª. Jornada do Campeonato Distrital da 1ªDivisão da Associação de Futebol de Setúbal, que Matateu reapareceu para o futebol. O Amora F.C. recebeu o Monte - Caparica, e venceu por 3-1, marcando Matateu o segundo golo. Na primeira página do Jornal "A BOLA" lia-se. AMORA CEMITÉRIO ADIADO. MATATEU A TRÊS CONTOS POR MÊS. «O Angenja, que era o treinador do Amora, perguntou-me se eu estava interessado, e eu perguntei quais eram as condições e depois aceitei. Muita gente me tem dito, então Lucas, tu foste internacional tantas vezes, aceitas ir jogar para um clube assim que nem é da 3ª. Divisão? «Mas eu respondi sempre que isso não me interessava, futebol é futebol e é igual em toda a parte, isso de divisões tanto me faz, a primeira como a segunda ou a terceira, são só números e nada mais. O futebol é só um e é sempre o mesmo, o que importa é que eu me dê bem com os colegas e com toda a gente e que o dinheiro não falte no fim do mês...»

Excerto da entrevista ao Jornal "A BOLA" 18/01/69

O Campo da Medideira registava na altura enchentes e muitos dos adeptos eram do Belenenses, que preferiam ir ver o Matateu a jogar pelo Amora. As receitas na altura aumentaram, mas isso não chegava. O Amora F.C. teve na altura grandes despesas. Foi a electrificação do campo, foi a construção de novos balneários, o treinador Angenja ganhava 3.500 escudos por mês e Matateu 3.000 escudos. Era muito dinheiro para um clube como o Amora F.C. Para ultrapassar isso, alguns amigos do Amora, conseguiram arranjar um grupo de sócios especiais, cujas quotas se destinavam especialmente a custear o ordenado de Matateu. A resposta de Matateu, para além de meter o clube nos nacionais de futebol, do qual ainda permanece, pois o Amora F.C. subiu à 3ª Divisão Nacional e nunca mais, até hoje voltou aos distritais, foi: «Em Amora, o ambiente é maravilhoso. É um clube pequeno que têm grandes despesas, mas em pagamentos, nunca falha, no fim do mês, recebemos o ordenado, depois de quinze em quinze dias, pagam-nos os prémios. Assim, nunca é preciso meter vales, a gente já sabe, é só esperar por esses dias»

Excerto da entrevista ao Jornal "A BOLA" 18/01/69

Na Amora, Matateu foi tratado carinhosamente por toda a gente, conseguindo ser pela primeira vez na sua longa e gloriosa carreira, CAMPEÃO. Não foi nacional, mas sim distrital, obtendo 21 golos, através da sua magnifica experiência garantindo o título de Rei dos Marcadores da Ass. Fut. Setúbal. Para além desses títulos, Matateu e o Amora F.C. conseguiram ganhar a TAÇA SOCER. Na final derrotaram o Seixal F.C. por 1-0, numa dessas jogadas geniais, Matateu após várias fintas correu à linha de fundo, centrou primorosamente para Toni Brito, que à vontade marcou o único golo da partida. Iam decorridos 35 minutos. A cerveja sempre foi a bebida preferida de Matateu. Em entrevista ao Jornal "A BOLA" no dia 18/01/69 disse: «Tenho 41 anos, mas parece que tenho 19, porque estou conservado em cerveja». «Acredite, quando não bebo cerveja, não sou o mesmo, sinto-me mal e o meu rendimento é sempre inferior» . « É verdade, se eu não bebesse cerveja, já teria arrumado as botas há muito tempo». Assim, enquanto o resto da equipa se contentava com o cházinho do costume
, Matateu bebia a sua cervejinha.

Legenda das fotografias:
1- Sebastião Lucas da Fonseca... o popular Matateu
2- O pequeno Sebastião ladeado pelas mulheres da sua família
3- O estilo inconfundível do astro moçambicano
4- Levado em ombros pelos adeptos do Belenenses após a uma estreia de sonho diante do Sporting no Nacional da 1ª Divisão
5- Com Travassos na Selecção Nacional
6- O director do jornal "A Bola", Ribeiro dos Reis, entrega a Matateu uma das duas Bolas de Prata conquistadas pelo craque
7- Num desafio diante do Sporting
8- O cantinho de Matateu no Museu do Belenenses
9- É goooolooooo!!!!!!!!!... de Matateu

Nota: Texto escrito em 27 de Outubro de 2010 no blog http://www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com/

Matthias Sindelar

Evocar o futebol dos anos 30 do século passado significa recordar um enorme leque de mitos da arte do pontapé na bola como Leónidas da Silva, Zamora, Combi (de quem já aqui falámos), Meazza, José Leandro Andrade, entre muitos, muitos outros.
Recordá-los é voltar a um mundo romântico hoje inexistente. Não nos resta pois senão olhar as velhas fotografias a preto e branco e os relatos escritos nas esbatidas enciclopédias do belo jogo para sentir por alguns minutos a magia de um tempo que não mais irá voltar. O visitante terá já percebido que a viagem no tempo que hoje iremos fazer será até ao corredor das lendas, dos magos, dos imortais deste jogo que tanto nos encanta, imortais como Matthias Sindelar… o Mozart do futebol.
Falar da Áustria, e em particular da sua capital Viena, assemelha-se à audição de um concerto de música clássica protagonizado por ilustres filhos desta elegante nação como Mozart, Beethoven, ou Staruss. Mas por alturas das décadas de 20 e 30 do século XX falar da Áustria era muito mais do que presentear o nosso espírito com uma obra de arte musical “esculpida” por um destes três génios, era também regalar a alma com um novo estilo de futebol. Um estilo que revolucionou técnica e tacticamente o jogo, assemelhando-se a uma arrepiante e deslumbrante valsa.
Tudo isto nascia graças à mente brilhante de um jovem judeu oriundo de uma abastada família de Viena que com esta “revolução” conferiu à Áustria o “título” de melhor equipa do Mundo dos finais dos anos 20 e princípios de 30. O seu nome? Hugo Meisl, um mestre da táctica que pelo que fez no futebol merece mais do que umas breves linhas aqui no MVF, e como tal merecerá “honras de Estado” noutras visitas a este espaço virtual.
A Áustria de Meisl ficou mundialmente conhecida como a “Wunderteam”… a Equipa Maravilha. Bateram durante esse período áureo gigantes do Mundo do futebol da época… Alemanha (6-0), Escócia (5-0), Suíça (8-1), ou Hungria (8-2). Meisl comandava a equipa desde o banco mas dentro do campo a orquestra era dirigida por um jovem loiro, de aspecto muito frágil, nascido a 10 de Fevereiro de 1903 no seio de uma humilde família de Viena, de seu nome Matthias Sindelar.
Avançado-centro ele era a estrela do “Wunderteam” de Meisl, tornando-se célebre pela sua sublime técnica de conduzir a bola, parecendo por vezes tocá-la ao som de uma valsa, com movimentos suaves e mágicos. E tudo debaixo de uma figura frágil, pálida, que lhe valeria a alcunha de “homem de papel”. A paixão pelo jogo correu-lhe pela primeira vez nas veias quando ainda adolescente, num tempo em que era apanha-bolas dos treinos do Hertha de Viena. Certo dia e face à ausência de um jogador desta equipa é convidado a calçar as chuteiras e integrar o treino conjunto. Foi então que o campo de treinos do modesto Hertha assistiu a um espectáculo de pura magia nunca dantes vivido. Com a bola nos pés o jovem Matthias maravilhou os presentes. Ali ficou até 1924, altura em que se transferiu para um dos poderosos do futebol austríaco, o Wiener Amateur, clube que posteriormente daria origem ao Áustria de Viena. Por este clube jogaria até ao final da sua carreira (1939), conquistando um campeonato da Áustria e duas Taças Mitropa (uma das antecessoras da actual Taça/Liga dos Campeões Europeus) em 1933 e 1936.
As marcas do seu perfume ficaram espalhadas em vários episódios da saga do “Wunderteam”. Um deles acontece no tempo da guerra, quando a certa altura as autoridades nazis decidem organizar um jogo entre a Alemanha e uma selecção de jogadores austríacos. Uma clara acção de propaganda para demonstrar a superioridade ariana. A vitória desde início está conferida por todos aos alemães… menos para Sindelar que espalha magia pelo relvado do Prater de Viena graças ao seu rendilhado e suave futebol. Resultado final: 2-0 para o “Wunderteam”, e no final o “homem de papel” que durante 90 minutos humilhou os alemães cerra o punho em direcção à tribuna onde se encontram as autoridades germânicas ao invés de lhes prestar vassalagem com a habitual saudação nazi. Um acto de coragem e revolta que haveria de lhe sair caro para o resto da vida… já que até final seria perseguido pelas forças nazis. Dizia-se que era judeu, e que terá sido essa uma das razões para cerrada perseguição. Sindelar foi de facto uma vítima da ditadura, não só da alemã como também da italiana, já que em 1934 a “Wunderteam” seria impedida de se tornar naturalmente na melhor do Mundo. Nada mais justo seria para o futebol que apresentava então. Acontece que Benito Mussolini, por interferência indirecta, roubou aquela que seria uma mais do que justa coroação à melhor selecção do Campeonato do Mundo de 34, ocorrido, como se sabe, em solo italiano. Áustria que partia para este Mundial como a principal favorita ao título, começando por afastar a França, posteriormente a Hungria, até cair aos pés da Itália nas meias-finais. Num jogo épico em realizado em Milão o fascismo derrotava o “Wunderteam”, tendo o mago Sindelar sido muito maltratado ao longo de todo o encontro por Luigi Monti. Resultado final, 1-0 para a equipa da casa, que mais uma vez de forma ridícula (ante a Espanha na eliminatória anterior havia sido igualmente abençoada pelo árbitro) era levada ao colo até à a final.
Já com a Áustria anexada a Alemanha foi para o Mundial de 1938 (em França) com uma equipa onde pontificavam algumas estrelas do “Wunderteam” de Meisl. Contudo, Sindelar, recusou vestir a camisola germância, mais um acto provocador que lançaria mais uma acha para a fogueira da ira nazi.
A sua morte é ainda hoje um enorme mistério que paira sobre a sublime Viena. Conta-se que na madrugada de 23 de Janeiro de 1939 recebeu um telefonema da sua companheira Camila Castagnola, uma prostituta italiana radicada em Viena. Sindelar encontrava-se reunido com alguns colegas de profissão num café da capital. O “homem de papel” dirige-se então para a Rua Anna, morada de Camila, e de lá não volta a sair. Os amigos estranham a sua ausência no café pela manhã desse dia 23, e um deles que havia visto Matthias entrar na casa da sua amante resolve fazer uma visita ao local, e eis que quando ai chegado encontra os dois amantes estendidos no chão com uma garrafa de conhaque e dois copos. Sindelar estava morto e Camila muito perto de o estar também. A autópsia revelou intoxicação por óxido de carbono, porém outras teorias se levantaram na altura, como a de suicídio (dizem que abriu as torneiras do gás) quando pressentiu que as tropas de Hitler avançavam fulgurantemente a caminho de Viena. Tinha 36 anos, e Viena chorou a morte de um homem que anos mais tarde se viria a saber que nem judeu era! Uma multidão incorporou o funeral do maior jogador austríaco de todos os tempos, o qual por 43 vezes deslumbrou o Mundo com a camisola da sua Áustria colada à pele.

Legenda das fotografias:
1- Matthias Sindelar
2- A famosa "Wunderteam" de Hugo Meisl
3- O estilo inconfundível do "homem de papel"

Nota: Texto escrito em 7 de Dezembro de 2010 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Pepe (José Manuel Soares)

Ele foi um dos primeiros génios do futebol português como consequência natural da sua veia artística com a bola. Cedo se tornou num ídolo para a massa adepta lusitana que ia tendo o primeiro contacto com o belo jogo. Com dribles diabolicamente desconcertantes, com passes magistrais, ou com golos inimagináveis ele ganhou por direito próprio um lugar no Olimpo dos Deuses do futebol.
Muito poucos são hoje os testemunhos vivos de quem teve a honra e o privilégio de o ver jogar, e para estes não parecem existir dúvidas de que se ele vivesse nos dias de hoje seria um verdadeiro assombro – no bom sentido – dos relvados mundiais!
Contudo, a sua história tem tanto de encanto como de tragédia... como mais à frente iremos poder constatar. Senhoras e senhores visitantes a nossa lenda de hoje é José Manuel Soares, imortalizado no futebol como Pepe.
A 30 de Janeiro de 1908 no seio de uma família pobre de Belém (Lisboa) nasce aquele que viria a ser o maior ídolo do futebol português na década de 20 do século passado.
O seu nascimento aconteceu numa altura conturbada para Portugal, quer a nível social quer político. O povo passava fome numa época em que a Monarquia estava muito perto de ser substituida pela República. Aliás, neste aspecto é importante dizer que dois dias após o nascimento de Pepe dá-se o regicídio na Praça do Comércio que resultou na morte do rei D. Carlos e do seu filho o príncipe D. Luís Filipe.
Posteriormente o país mergulhou numa crise profunda que nem mesmo o nascimento da República (1910) suprimiu.
A infância de José Manuel Soares foi pois de profunda miséria, sendo que a única alegria dos meninos daquele tempo era única e simplesmente a bola de futebol.

Os primeiros passos da lenda...

E foi a jogar futebol na rua com uma bola de trapos que Pepe – alcunha que surgiu numa época em que a sua condição no “desporto rei” era já a de um talento confirmado – descobriu a sua vocação. Como tal ainda com tenra idade ingressa no clube da sua zona, o Belenenses, o emblema gravado no seu coração, sendo que com apenas 15 anos (!) é inscrito no Campeonato de Lisboa.
Não demoraria muito a sua ascensão até à equipa principal, a qual se daria um ano depois (1926) num confronto ante o Benfica no Campo das Amoreiras, duelo que terminaria 5-4 a favor do Belenenses, tendo Pepe apontado o golo do triunfo do seu clube. A sua exímia técnica aliada à sua velocidade estonteante e ao seu poderoso remate patenteados dali em diante fizeram com que fosse aclamado como o rei do futebol português.
De um dia para o outro Pepe tornou-se na alegria do povo. Em Belém, a zona onde continuava a residir numa pobre casa situada na Rua do Embaixador, não havia um único dia em que o seu nome fosse pronunciado com entusismo e vaidade. Mesmo sendo por aquela altura o habitante mais famoso de Belém o menino Pepe continuava humilde e... pobre, sim, porque o futebol não passava de uma brincadeira. Para ajudar a sua família foi trabalhar ainda moço para uma oficina de torneiro, para mais tarde passar a laborar no Centro de Aviação Naval.
De aspecto franzino o menino que todos os dias levava para o emprego um triste caldo para retemperar forças fazia magia nos campos de futebol em cada fim-de-semana com as cores do seu Belenenses. Carregou os azuis de Lisboa às costas nas conquistas dos campeonatos de Portugal de 1927 e 1929, bem como noutros tantos campeonatos de Lisboa. Entre 1928 e 1931 sagra-se naturalmente o melhor marcador do campeonato lisboeta, sendo que na temporada de 30/31 estabelece um recorde de 36 golos apontados em 14 encontros disputados! É obra. Para a história, nessa mesma época, faz 10 dos 12 golos com que o Belenenses bate o Bom Sucesso.
Mas nem só o Belenenses tirou partido do génio de Pepe, a própria selecção nacional também lhe fica a dever muitas vitórias e momentos inolvidáveis. Por 12 ocasiões ele vestiu a camisola das quinas, tendo com ela apontado sete golos.
Ele foi um dos notáveis que integrou o seleccionado português na primeira grande aparição deste numa competição à escala mundial: os Jogos Olímpicos. 1928 é o ano que assinala esse feito, ano em que Portugal fica às portas de uma medalha nas Olímpiadas de Amesterdão.

 
Estranha morte...

Consagrado a nível nacional e internacional a estrela de Pepe deixou de brilhar cedo, cedo demais, diria mesmo. Num dia como tantos outros o astro de Belém carrega na fria manhã de 24 de Outubro de 1931 o almoço preparado por sua mãe. Almoço é maneira de dizer, pois no bolso levava somente uma triste sande de chouriço que tinha sobrado do jantar da véspera. Chegada a pausa para o repasto Pepe leva o alimento à boca e horas depois é dado como morto no Hospital da Marinha, local para onde foi transportado assim que começou a sentir violentas dores abdominais e a ter hemorragias. Morreria às 10h30 da manhã, com apenas 23 anos... e um futuro – com toda a certeza – risonho ficou por percorrer.
As causas da morte muita tinta fizeram correr nos dias seguintes. Houve quem tivesse apontado ao assassinato... por invejosos do seu valor e popularidade. O envenenamento contudo não ficou senão a dever-se a um lapso – fatal – de sua mãe, a qual em vez de colocar bicarbonato de sódio na refeição colocou potassa, substância que iria destruir por completo o estômago do atleta. Mãe e irmãs de Pepe que também haviam ingerido igual refeição, no entanto conseguiram escapar com vida, aparentemente por terem ingerido uma menor quantidade.
Pepe morreu e o país chorou dias a fio. O seu funeral foi uma prova colossal do carinho que o povo tinha por ele... 30.000 pessoas prestaram uma última homenagem ao rei do futebol português da década de 20.

Legenda das fotografias:
1- José Manuel Soares, futebolisticamente imortalizado como Pepe
2- Em acção - pelo seu Belenenses - contra o Sporting
3- Com as cores da Selecção Nacional
4- A multidão que marcou presença no funeral da lenda para um último adeus
 
Nota: Texto escrito em 3 de Fevereiro de 2011 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

José Torres

Há no seio do futebol a ideia generalizada de que os jogadores de elevada estampa física dificilmente alcançam o estatuto de magos do belo jogo. Uns centímetros a mais do que é normal na altura média de um futebolista é para muitos sinal evidente de azelhice! Piropos desagradáveis como: «este é bom é para apanhar uvas», ou «vai mas é jogar basquetebol», são escutados sistematicamente nos estádios de futebol sempre que um rapaz de estatura acima da média surge com uma bola nos pés. 
Este é porém um julgamento precipitado, já que nem só de toscos e matacões reza a história do futebol quando falamos de atletas calmeirões. Muitos há que se tornaram intransponíveis defesas, habilidosos médios condutores de jogo, ou mortíferos avançados. E é precisamente nesta última categoria que se insere a lenda que hoje vamos recordar, um homem cujo nome repousa para sempre no panteão dos heróis do futebol português. José Torres, o Bom Gigante, como ficou eternizado, marcou uma era do belo jogo em terras lusitanas. Fez parte de uma geração mágica e inesquecível comandada pelo Pantera Negra Eusébio, secundado por outras lendas como Mário Coluna, António Simões, José Augusto, José Águas, Jaime Graça, Vicente Lucas, ou Hilário da Conceição.

Torres, o Bom Gigante do futebol luso, foi um homem de extremos, no que ao mundo encantado do futebol diz respeito, como no desenrolar desta visita virtual iremos perceber. 

Nasceu a 8 de setembro de 1938 na localidade de Torres Novas, e como tantas outras crianças deu os primeiros pontapés na bola na rua, sonhando seguir as pisadas das estrelas da época, ou de épocas passadas, já que no seu caso o tio, Carlos Torres, havia vestido durante quatro temporadas a camisola de um dos principais emblemas lusitanos, o Benfica. Longe estaria – certamente – de imaginar naqueles primeiros tempos o jovem José Augusto da Costa Séneca Torres que anos mais tarde também ele iria triunfar com a pomposa camisola encarnada das águias. 

Das animadas peladas de rua até ao clube da sua terra natal o caminho foi curto. Os responsáveis pelo Desportivo de Torres Novas não se deixaram impressionar pela figura enfezada de José Torres. As suas longas pernas de alicate, como era por vezes chamado na infância, não eclipsaram a imagem de um atleta com um apurado olfato pelo golo aliado a um poderoso domínio do jogo aéreo. Com 18 anos aquele rapazinho magro e alto, alto de mais para parecer um jogador de futebol (media 1,91m), entra na equipa principal do Torres Novas, onde começa a dar duplamente nas vistas, isto é, pela sua elevada estatura, mas também, e sobretudo, pelo seu letal instinto de predador. No clube da terra que o viu nascer Torres ficou três temporadas – de 1956/57 a 1958/59 – até à altura em que o sonho virou realidade.


Sonho chamado Benfica


Os ecos do seu estilo inconfundível de interpretar o belo jogo haviam chegado aos quatro cantos de Portugal, tendo o poderoso Benfica lançado o canto da sereia àquele predador da área. José Torres cumpria assim um sonho, e com apenas 20 anos de idade viajava para Lisboa para representar o grande Benfica. Porém, a afirmação no emblema da capital tardou em chegar. O jovem José teve de percorrer um longo caminho até cimentar a sua condição de titular indiscutível do clube da Luz. O responsável por esta tardia afirmação? José Águas, um dos melhores avançados-centro de todos os tempos do futebol português, e a grande referência do ataque dos encarnados na altura (1959) em que Torres chega a Lisboa. Tapado pelo melhor homem-golo português daquele tempo, e a grande estrela do Benfica antes da chegada de Eusébio ao clube no início da década de 60, José Torres penou três longas épocas na equipa das reservas benfiquistas, falhando assim a presença nos momentos de glória que o clube viveria no plano internacional nos primeiros dois anos da citada década de 60. 
 

Liderados precisamente por José Águas – que além de estrela-mor da companhia era também o respeitado capitão de equipa – o Benfica derrotava em 1961 (por 3-2) o Barcelona na final da então denominada Taça dos Clubes Campeões Europeus, colocando desta forma um ponto final no reinado de cinco anos consecutivos do gigante espanhol Real Madrid no trono do futebol continental. Já com o jovem Eusébio na equipa os encarnados repetiram a façanha no ano seguinte, precisamente ante os madrilenos, que em Amesterdão sucumbiram aos ataques letais Pantera Negra. José Torres viveu por fora os êxitos do seu clube, isto porque na altura não eram permitidas substituições, e como Águas era titular indiscutível no centro do ataque o rapaz de Torres Novas não fez um único jogo na dupla caminhada vitóriosa das águias na prova rainha da UEFA. Facto que o Bom Gigante sempre lamentou... «Durante a minha carreira de jogador tive momentos em que o azar me bateu à porta mais do que devia. Por exemplo, na final da Taça dos Campeões Europeus, contra o Real Madrid, quando o Benfica conquistou o segundo título europeu. Só não joguei e não me sagrei, de facto, campeão da Europa porque os regulamentos ainda impediam, estupidamente, que se fizessem substituições. O Cavém lesionou-se, eu era o único avançado no banco, o Benfica continuou a jogar com 10 só porque... substituir era proibido! Entretanto Guttmann foi-se embora, deixou aquela terrível maldição (nota: disse que sem si o Benfica nem dali a 100 anos seria novamente campeão europeu), disputei as três outras finais europeias da década de 60, só que perdemos sempre e eu acabei por não conseguir sagrar-me campeão europeu. Sinceramente, é o único título que me falta...», desabafou vezes sem conta José Torres. 


Mas não há azar que sempre dure, e ainda antes da saída do goleador e velhor capitão do clube da Luz (no final da temporada de 1963/64) as portas da titularidade abrem-se finalmente para Torres. A conquista - em difinitivo - da mágica camisola número 9 aconteceu na pré-temporada, mais concretamente no famoso torneio internacional Ramón Carranza, que anulamente reunia na cidade espanhola de Cádiz algumas das melhores equipas do planeta. Na meia-final da edição de 63 o Benfica afastou o poderoso Barcelona, conquistando assim o passaporte para a grande final onde o esperava a Fiorentina. A 30 minutos do términos do jogo decisivo o marcador indicava uma teimosa igualdade a três golos. O treinador benfiquista de então, Lajos Czeizler, aposta em José Torres (nota: ao contrário das competições oficiais nos torneios amigáveis, ou neste caso de preparação, as substituições eram permitidas), e o resto é história. Quatro golos em meia hora assinados pelo gigante de Torres Novas deram não só o título ao Benfica como sobretudo fizeram calar de vez as vozes que - ainda - duvidavam da qualidade do jogador. Até então, e em três épocas de águia ao peito, José Torres não havia feito mais do que seis jogos oficiais (!), o suficiente no entanto para se sagrar campeão nacional nas épocas de 59/60 e 60/61


Mas em 62/63 a vida mudou para o Bom Gigante. José Águas dava sinais de veterania, e a exibição sublime em Cádiz fizeram de Torres titular absoluto do Benfica nas... 9 épocas seguintes! E logo na temporada de estreia como titular a estrela do Bom Gigante brilhou a grande altura. Ao lado de lendas como Eusébio, Coluna, Costa Pereira, Simões, José Augusto, ou Germano, participou em 21 jogos na caminhada triunfal que coroou o Benfica como vencedor do Campeonato Nacional da 1ª Divisão, contribuindo para este final glorioso com 26 golos (!), número que lhe permitiu vencer o galardão individual mais importante do futebol português, a Bola de Prata, prémio atribuido ao melhor marcador do campeonato do principal escalão lusitano. 
62/63 só não foi uma temporada memorável a todos os níveis para o Benfica - e para o Bom Gigante, claro está - porque na final da Taça dos Campeões Europeus os italianos do Milan impediram os lisboetas de arrecadarem o terceiro troféu continental consecutivo, muito por culpa de um diabo à solta na relva sagrada de Wembley (estádio onde foi realizada essa final de 63), de nome Altafini, autor dos dois golos que carimbaram o título para os milanistas. Este seria o primeiro de muitos desgostos europeus para José Torres, ele que precisamente em 1962/63 fizera a estreia com a camisola do Benfica nas competições europeias, facto ocorrido a 31 de outubro de 1962, em Norrkoping, na Suécia. O Benfica e o Bom Gigante puderam até perder o ceptro europeu, mas para os prestigiados jornais desportivos L'Équipe e France Football José Torres era a nova vedeta do futebol português!

Conquistada a titularidade, e o carinho dos fervorosos adeptos benfiquistas, Torres faria dali em diante uma dupla mortífera com aquele que era já o nome mais sonante do grande Benfica dos anos 60, Eusébio da Silva Ferreira. Os dois assinaram centenas de golos que ajudaram o clube da Luz a enriquecer as suas vistosas vitrinas com títulos, muitos títulos. Em 1963/64 Torres vence a sua primeira dobradinha, isto é, o campeonato nacional e a Taça de Portugal, último troféu este conquistado na sala de visitas do futebol português, o Estádio Nacional, à custa do FC Porto, que seria cilindrado por Coluna, Eusébio, José Augusto, Simões, Cavém, e companhia por 6-2 (!), com o Bom Gigante a fazer o último golo dessa tarde de glória. Uma no meio de tantas outras que viveu com a camisola encarnada agarrada à pele. 
Esse ano de 1964 fica ainda marcado pelo primeiro golo europeu de José Torres, alcançado a 16 de setembro, no Luxemburgo, ante o Aris.  
Em 64/65 volta de novo a ajudar o seu clube a revalidar o título de campeão nacional, ao mesmo tempo em que o azar lhe bate de novo à porta. No final dessa temporada o Benfica chega de novo à final da prova rainha da UEFA, desta feita ante o Inter de Milão... em San Siro! A jogar em casa (!) o Inter - campeão da Europa em título - derrotou (por 1-0) os portugueses com a ajuda do guarda-redes benfiquista Costa Pereira, que num lance de infortúnio deixou passar a bola por baixo das pernas após um remate cruzado do brasileiro Jair. Há noites assim...

Como não há duas sem três José Torres voltou a derramar lágrimas na sequência de mais uma derrota no jogo final da afamada e desejada Taça dos Campeões Europeus. 1968 seria o ano do novo falhanço encarnado, desta feita em Londres, na catedral do futebol global, o Estádio de Wembley, que viu o Manchester United de Bobby Charlton, Dennis Law, e George Best golear os portugueses por 4-1! 
Os títulos alcançados pelo Bom Gigante de águia ao peito restringiram-se por isso às competição nacionais, onde ai arrecadou 9 campeonatos nacionais (!), juntando aos de 60, 61, 63, 64, e 65, os de 67, 68, 69, e 71, precisamente o seu derradeiro capítulo de glória com a camisola do Benfica, já que depois disso rumaria para outras paragens... Aos referidos campeonatos nacionais juntam-se ainda as vitórias na Taça de Portugal de 69, e 70. 
José Torres e o Benfica mantiveram um casamento de 12 anos, um matrimónio com altos e baixos, como qualquer outro matrimónio. Em 171 jogos de águia ao peito o rapaz de Torres Novas apontou 150 golos (!), registo que fizeram dele não só um símbolo eterno do clube como indiscutivelmente um dos avançados mais célebres do futebol português. Mas a história do Bom Gigante não acabaria em 31 de julho de 1971, dia em que frente ao Arsenal de Londres faz o seu último jogo pelos lisboetas. 

Velhos são os trapos

O Vitória de Setúbal era por aqueles dias dos finais da década de 60 e princípios dos anos 70 um verdadeiro viveiro de talentosos jogadores. No Bonfim (casa do popular clube sadino) havia diamantes por lapidar! Um desses diamantes dava pelo nome de Vítor Baptista, jogador por quem o Benfica suspirava. As investidas encarnadas ao jovem jogador só tiveram êxito quando no negócio da sua transferência foram incluídos os nomes de Matine, Praia, e Torres, um trio de atletas exigido pelo homem que liderava os destinos do Vitória sadino na época, um tal de José Maria Pedroto. Negócio feito e José Torres viveria aquela que poderia ser chamada de segunda primavera... Aos 33 anos mostrou que velhos eram os trapos e que ainda podia dar muito ao futebol. E deu. Rapidamente se tornou na estrela do conjunto sadino liderado pelo mestre Pedroto, ajudando o seu novo clube a tornar-se numa máquina futebolística de elevada potência qualitativa. Ao Vitória de Pedroto e Torres só faltaram os títulos - que até estiveram muito perto de atracar no (rio) Sado em diversas ocasiões. Com os sadinos José Torres ainda realizou mais de uma centena de jogos, 120 para sermos mais precisos, tendo apontado um total de 59 golos nas quatro épocas em que defendeu a camisola verde e branca! Afinal, quem era o velho? 

E no Bonfim José Torres descobriu uma nova vocação dentro do futebol, a de treinador. Descoberta que teve o dedo de Pedroto - um dos grandes mestres (da tática) do futebol lusitano - que viu no Bom Gigante um promissor seguidor das suas ideias. «Foi com Pedroto que tirei o meu autêntico curso de treinador, durante as duas épocas em que o tive como meu treinador no Vitória de Setúbal. Ele já falava comigo de treinador para treinador, durante os estágios, e nas viagens longas aproveitava o tempo para aprender com ele, e só Deus sabe o que aprendi...», relembrou em diversas entrevistas a nossa lenda de hoje. 
A primeira aventura como técnico-se em 76/77, altura em que defendia as cores do Estoril Praia, clube pelo qual tinha assinado um ano antes, pouco depois de ter saído de Setúbal. No clube de Cascais José Torres acumulou as funções de treinador/jogador até 1979/80, altura em que aos 42 anos pendura definitivamente as chuteiras (em 5 temporadas ao serviço dos estorilistas efetuou 111 jogos, e apontou 15 golos), passando posteriormente a desempenhar somente a tarefa de treinador principal, primeiro no Estrela da Amadora (entre 1980 e 1982), depois no Varzim (de 82 a 84), ao que se seguiu Boavista (86/87), Portimonense (entre 88 e 90), e por fim Desportivo de Beja, em 96/97

Peça fundamental na saga dos Magriços de 1966

Voltando um pouco atrás na brilhante carreira de jogador de José Torres há um capítulo que merece ser recordado de uma forma muito especial. Falamos da presença do Bom Gigante na fase final do Campeonato do Mundo de 1966, decorrido em Inglaterra, onde Portugal escreveu aquela que para muitos é ainda hoje a página mais cintilante do seu centenário futebol. Ao serviço da seleção principal lusitana Torres disputou 33 jogos, tendo feito a sua estreia com a camisola das quinas a 23 de janeiro de 1963, em Roma, ante a Bulgária, num jogo de qualificação para o Europeu de 1964
Golos foram 14, alguns deles com sabor muito especial... Na década de 60 Portugal reunia um naipe de jogadores de reconhecido talento, casos dos benfiquistas Eusébio, Coluna, Simões, José Augusto, Germano, dos sportinguistas Hilário, Carvalho, Morais, do sadino Jaime Graça, dos portistas Américo, e Festa, ou dos belenenses Vicente, e José Pereira, atletas que com muito engenho lograram a qualificação para o Mundial de 66. Ali chegados poucos eram os que apostavam na seleção orientada pelo brasileiro Otto Glória. Até porque os Magriços - a alcunha que os imortalizou - ficaram no grupo do poderoso bi-campeão do Mundo, o Brasil, e da sempre perigosa Hungria, as duas equipas do grupo favoritas à passagem aos quartos-de-final da fase final. As outras duas seleções, Portugal e Bulgária, pouco ou mais podiam fazer do que lutar pelo terceiro lugar do grupo. 
Mas da teoria à prática o caminho é longo, e os portugueses, jogo após jogo, demonstraram que as previsões iniciais estavam erradas, surpreenderam o planeta da bola, com exibições memoráveis, golos de beleza ímpar, que muito justamente os iria rotular de equipa sensação do certame. Logo no primeiro jogo, em Old Trafford (Manchester) os Magriços chocaram o Mundo ao vencer a talentosa Hungria por 3-1, tendo José Torres feito um dos três tentos lusos. No encontro seguinte apareceu a estrela de Eusébio - o grande nome desse célebre Mundial 66 - que ajudou a derrotar a Bulgária por 3-0, e assim contra todas as previsões colocar Portugal na fase seguinte. Torres, faria nesse jogo o seu segundo golo na fase final. Mas o melhor ainda estava para vir. Já qualificados os portugueses deram-se ao luxo de vulgarizar o Brasil de Pelé, Garrincha, Jairzinho, Tostão, Djalma Santos, ou Zito por 3-1, com uma exibição mítica do Pantera Negra Eusébio. Portugal conquistava assim o primeiro lugar do grupo e mandava os campeões do Mundo em título para casa! 

Nos quartos-de-final ocorreu um dos jogos mais célebres das fases finais de Campeonatos do Mundo, o Portugal - Coreia do Norte. Asiáticos que aos 25 minutos já derrotavam os artistas lusos por 3-0 para espanto do planeta. Foi então que apareceu mais uma vez Eusébio, que apoiado por Simões, Coluna, José Augusto, ou Torres deu a volta ao marcador. 5-3, vitória memorável, que colocou Portugal na meia-final. O céu era o limite, e não havia um único português naquela altura que não imaginasse a Taça Jules Rimet nas mãos do capitão Mário Coluna. Sonho que seria eclipsado pela equipa da casa, a Inglaterra, que na catedral de Wembley vencia os lusos por 2-1. No encontro de atribuição dos 3º e 4º lugares - disputado também no Estádio de Wembley - Portugal derrotaria a União Soviética do lendário Lev Yashin por 2-1, com o tento da vitória a ser apontado por José Torres, jogador que desta forma, e juntamente com Eusébio, Coluna, Simões, e todos os restantes magriços, ficava eternizado na história do futebol português. 

«Deixem-me sonhar...»

Como jogador Torres brilhou com a camisola das quinas ao peito, mas como treinador viveu um dos priores momentos da sua longa carreira desportiva. Logo após o fantástico desempenho da seleção nacional no Europeu de 1984 os responsáveis federativos ofereceram o cargo de selecionador ao Bom Gigante, pedindo-lhe apenas que guiasse o combinado luso até ao Mundial do México, em 1986. A tarefa era complicada, até porque no grupo de Portugal estava a poderosa República Federal da Alemanha (RFA), e as sempre indesejadas Checoslováquia e Suécia. Na entrada para a reta final da fase de qualificação os portugueses precisavam de um milagre para alcançarem a qualificação para o México. E esse milagre passava por uma vitória em solo germânico... Impossível, disseram muitos. Perante o pessimismo que reinava entre o povo português José Torres lançou um desabafo: «deixem-me sonhar...». E mais uma vez o sonho virou realidade. Em Estugarda, no dia 16 de outubro de 1985, um golo solitário do pequeno médio Carlos Manuel derrotava a forte RFA e levava pela segunda vez na história Portugal a uma fase final de um Mundial. Só que chegados ao México os portugueses viram-se a braços com uma série de problemas internos. Os jogadores abriram guerra com a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) por causa dos prémios relativos à sua presença na fase final. Convocaram greves, organizaram-se em grupos, e com isto o plano desportivo passou definitivamente para segundo plano. Saltillo - localidade mexicana onde a seleção ergueu o seu quartel-general - é sinónimo de inúmeros escândalos, assinalando assim uma das páginas mais negras da história do nosso belo jogo.  
Portugal ainda venceu a Inglaterra no jogo de estreia (por 1-0), mas as derrotas com a Polónia (0-1) e com Marrocos (1-3) trouxeram os portugueses mais cedo para casa. 
José Torres foi uma vítima de Saltillo, como ele próprio confessou tantas e tantas vezes. «Saltillo marcou-me o destino. Cinco meses antes organizei uma reunião com os jogadores, na qual tive a procupação de alertar para a necessidade de não se formarem grupinhos, garanti-lhes que ninguém teria o estatuto de titular, pedi-lhes única e simplesmente que fossem para o México para servir Portugal. Por essa altura a FPF prometeu-me, igualmente, que resolvia o problema dos dinheiros/prémios (para os jogadores), sabia bem que esse poderia ser o nosso calcanhar de Aquiles, a promessa foi vã, quem tinha a responsabilidade de tudo resolver agiu como Pilatos e foi o que foi, aconteceu o que se sabe, foi tudo muito triste - e ninguém foi mais penalizado do que eu, apesar da minha responsabilidade ser quase nula em toda aquela complicação».

Depois deste triste momento Torres passou mais tempo desempregado do que a treinar, tendo passado somente pelos bancos do Boavista (uma temporada como já vimos), Portimonense (3 épocas de forma intermitente), e Desportivo de Beja (uma só época). Depois disso afastou-se do futebol, dedicando-se quase de forma exclusiva à sua segunda paixão de menino, a columbofilia. Foram muitos os que o foram esquecendo com o passar dos anos, e Torres sentiu esse esquecimento como um punhal cravado no peito. Foi envelhecendo, triste, solitário - contando apenas quase e só com o apoio da família - e já na reta final da sua vida foi minado pela doença de Alzheimer, que o haveria de levar à morte
Com parcos recursos financeiros para fazer face à doença acabou por morrer quase na miséria, a 3 de setembro de 2010, ele o Bom Gigante, a alcunha que o eternizou, não só pelo seu talento futebolístico, mas sobretudo pelo seu bom coração, de homem simples e afável, amigo do seu amigo

Legendas das fotografias
1-José Torres, envergando a camisola da seleção nacional
2- Na sua primeira final europeia, em Wembley, ante o Milan
3-Fazendo uso do seu poderoso jogo aéreo
4-Com a taça Ramón Carranza de 1963, que ele ajudou a conquistar
5-A Bola de Prata que venceu em 1962/63
6-A dupla mortífera Torres-Eusébio
7-Com a camisola Benfica, no Estádio da Luz
8-Envergando as cores do Vitória de Setúbal (com a camisola número 9)
9-Um "onze" do Estoril, o último clube de José Torres enquanto jogador. O Bom Gigante é o segundo da fila de cima a contar da esquerda para a direita
10-Seleção portuguesa no Mundial de 1966
11-José Torres em ação durante o célebre jogo com a Coreia do Norte
12-Torres, o selecionador nacional no Mundial do México em 1986
13-A columbofilia, uma paixão de menino que nunca esqueceu até aos seus últimos dias de vida 
 
Nota: Texto escrito em 20 de março de 2013 no blog www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com

Billy Meredith

Há quem o aponte como a primeira figura mediática de um jogo que apesar de já ser rei em Inglaterra ainda gatinhava na maior parte do resto do planeta. Apesar de não existirem quaisquer registos audiovisuais que comprovam a teoria sustentada por diversos historiadores desportivos daquela época de que esta foi indiscutivelmente a primeira lenda do belo jogo, ele é descrito nas páginas esbatidas dos jornais e livros daqueles longínquos dias de finais do século XIX e principios do século XX como o mago dos primórdios do futebol. E é fazendo fé nessa pomposa caracterização que reservamos para ele um cantinho na vitrina destinada às grandes lendas do jogo. Sem mais demoras façamos uma visita ao mago galês Billy Meredith. Figura elegante podemos dizer que William Henry Meredith - de seu nome completo - nasceu no tempo em que o futebol moderno dava ainda os primeiros passos em terras britânicas, tendo ele tido um papel preponderante no crescimento e na popularização da modalidade por aquelas bandas. 20 de julho de 1874 é pois o dia em a nossa lenda de hoje veio ao Mundo, tendo como berço Chirk, terra conhecida pelas suas minas, e situada no norte do País de Gales. O próprio Billy, diminutivo de William, trabalhou como mineiro, ocupando os seus tempos livres a correr atrás de uma bola pelos campos verdes de Black Park. A sua requintada perícia técnica com o esférico fez-de desde logo sobressair, e com apenas 16 anos veste a sua primeira camisola no planeta da bola, mais precisamente a do clube local, o Chik AAA Football Club. A estreia com este emblema amador ocorreu em setembro de 1892. Um ano mais tarde Billy Meredith ajudou o clube da sua terra a alcançar a final da Welsh Cup (Taça do País de Gales), perdida para o vizinho e rival Wrexham por 1-2. Posicionando-se no retângulo de jogo como ala-direito - ou como se diz nos dias atuais extremo direito - Meredith deslumbrava a multidão com a superior técnica como conduzia a bola, bem distinta do kick and rush (pontapé para a frente) que começava a caracterizar o futebol britânico. Era um jogador diferente dos demais, tratava o esférico de uma forma encantadora, cativando todos aqueles que o viam jogar. Numa altura em que o profissionalismo começava a aparecer Billy não resistiu à possibilidade de ganhar algum dinheiro fazendo aquilo que mais gostava, jogar futebol. Com 18 anos muda-se então para o poderoso Northwich Victoria, emblema que disputa a principal liga galesa, defendendo as cores do clube somente durante dois anos, voltando posteriormente para a sua cidade natal, e para o Chirk AAA, ao mesmo tempo em que regressa ao duro trabalho nas minas. Com mais experiência Billy torna-se no líder natural da sua velha equipa, conduzindo-a ao patamar da glória precisamente no ano em que regressou, 1894, altura em que vence a Welsh Cup (triunfo sobre o Westminster Rovers por 2-0), o seu primeiro grande título.

 Chegar, ver, e vencer em Manchester

A passagem de Meredith pelo Northwich Victoria pode até ter sido fugaz - na verdade realizou apenas 11 partidas, tendo apontado cinco golos - mas foi suficiente para clubes de maior gabarito se apaixonarem pelo seu estilo muito próprio de jogar futebol. De Inglaterra surgiram então algumas propostas tentadoras, como a do Bolton Wanderers, que através do seu jogador Di Jones, o qual havia sido em tempos atleta do Chirk AAA, tentou convencer Billy a assinar um contrato profissional com o clube, mas em vão. Ao que parece a mãe de Meredith defendia que o seu filho deveria continuar empenhado em manter o seu trabalho de mineiro e encarar o futebol como um mero passatempo pós-laboral! Seguindo em parte o conselho de sua mãe Billy continuou pelo menos durante mais dois anos a trabalhar na mina, mas ao mesmo tempo embarcava numa nova e arrojada aventura futebolística, ao assinar um contrato de amador com o Manchester City. Corria o ano de 1894. Como atleta amador Meredith viajava para Manchester ao fim de semana para atuar com o seu novo clube, enquanto que durante a semana exercia a dura profissão de mineiro. Foi assim durante dois anos. A estreia pelo City aconteceu em novembro desse ano, em casa do Newcastle United, sendo que uma semana mais tarde faz o debute ante os adeptos do seu novo clube numa partida diante do Newton Heath - clube mais tarde rebatizado como... Manchester United. Nesse célebre dérbi local - o primeiro da história - o Newton venceu por 5-2, sendo que os dois golos do City foram apontados por Billy Meredith, que no final dessa temporada de estreia marcou 12 golos em 18 aparições. 1895 é outro ano memorável para Meredith, já que pela primeira vez vestiu o manto sagrado do seu país, numa partida disputada a 16 de março em Belfast ante a Irlanda, concluida com uma igualdade a duas bolas. O estilo de Billy encantava os fãs do seu novo clube, que não muito tempo depois da sua estreia o batizaram de Weslh Wizard, qualquer coisa como, o mago galês. Alto, magro, e com uma apurada técnica rapidamente se tornou na figura principal do City. Não foi de admirar que na sua segunda temporada do clube lhe dessem o cargo de capitão de equipa.

Na época de 1898/99 ele guiou o clube no assalto à promoção ao principal escalão do futebol inglês, e pelo caminho deixou a marca pessoal de quatro hattricks (!), terminando a temporada com um total de 29 remates certeiros. Depois de uma certa instabilidade na First Division - o City foi relegado na temporada de 1901/02 - o clube de Manchester atinge a glória em 1903/04, altura em que vencem o troféu mais prestigado do país, e do Mundo por aqueles dias, a FA Cup (Taça de Inglaterra). Billy Meredith assinou exibições majestosas ao longo da caminhada triunfal até ao Crystal Palace Stadium - o principal estádio londrino da época, já que Wembley ainda não havia sido construido - onde curiosamente o esperava o Bolton Wanderers, o primeiro clube que o quis levar para Inglaterra. Diante de 62 000 pessoas o City levou a melhor, graças a Billy Meredith, que aos 23 minutos fez o único golo da partida, oferecendo assim ao seu clube a primeira coroa de glória da sua história.

Descida ao inferno e mudança para o rival United

O fascínio dos fãs do City pelo seu mago galês, pela sua elegante forma de manter sempre junto ao relvado o esférico, ultrapassando os adversários em corrida com dribles diabólicos, não durou muito mais tempo após a lendária final da FA Cup de 1904. No ano seguinte Meredith é forçado a abandonar o clube na sequência daquele que é descrito como o primeiro grande escândalo do futebol internacional. O welsh wizard foi considerado culpado pela Football Association num caso de suborno. Ao que parece Meredith terá oferecido 10 libras ao capitão do Aston Villa, Alex Leake, para que este convencesse os restantes companheiros de equipa a facilitar a vitória do City no decisivo confronto com a equipa de Birminghan, já que caso o emblema de Manchester alcançasse o triunfo seria campeão. A situação foi denunciada e a FA decidiu suspender Meredith por um ano. Ao contrário do que esperaria Billy Meredith não obteve o apoio do seu clube neste caso. Manchester City que inclusive se recusou a pagar o salário de Billy - que já era jogador profissional a tempo inteiro - durante o ano em que este estaria suspenso de toda a atividade futebolística. Em claro litígio com o seu clube a estrela galesa decide denunciar à FA outros casos de corrupção em que o seu clube havia estado envolvido, levando a que o City fosse punido severamente pela federação inglesa. Pior do que isso o clube viu 17 dos seus jogadores abandonaram Hyde Road - a casa do emblema - entre outros, claro está, Billy Meredith. E como a vingança ainda não estava totalmente concluida o jogador galês decide - após o levantamento da sua suspensão - assinar pelo vizinho e rival do City, o Manchester United!

Para assegurar a contratação de Billy Meredith - que tinha deixado o City com um impressionante registo de 145 golos apontados em 338 disputados - os responsáveis do United tiveram de desembolsar 500 libras, a verba exigida pelo jogador. Dinheiro bem gasto, terão por certo pensado pouco depois os dirigentes dos red devils, já que Meredith rapidamente assumiu o papel de estrela da companhia, conduzindo através do seu invulgar talento o clube a inúmeras conquistas. Fez a sua estreia pelo United a 1 de janeiro de 1907, ante o Aston Villa - o clube que o tramou no caso do subornos - saindo dos seus pés de mago cruzamento para Sandy Turnbull fazer o único golo com que clube de Manchester venceu a partida. Com as cores do Manchester United, e como já sublinhámos, ele conquistou a esmagadora maioria dos títulos logrados na sua carreira, tendo o primeiro deles ocorrido na temporada de 1907/08, altura em que vence o campeonato nacional. Feito repetido em 1910/11. Mas a joia da coroa era mesma a FA Cup, competição que o galês iria vencer ao serviço do United em 1909, quando no Crystal Palace Stadium os red devils venceram por 1-0 a Bristol City, tendo o obreiro desse triunfo sido o príncipe dos pontas, como também era já conhecido Meredith.

Antes deste triunfo Meredith ajudou o seu país a escrever uma das mais brilhantes páginas do seu - pouco conhecido - futebol. Em 1907 ele ajuda o País de Gales a vencer o Campeonato Britânico, uma competição disputada por Inglaterra, Irlanda, Escócia, e claro, Gales. Em 1920 ele venceria de novo a prova, mas deste vez com um sabor ainda mais especial, pois no jogo decisivo o País de Gales derrotou a poderosa Inglaterra em Londres, por 2-1, sendo esta a primeira vitória galesa da história alcançada sobre os vizinhos ingleses. Meredith defendeu as cores do seu país em 48 ocasiões - e mais poderiam ter sido, pois reza a lenda que pelo menos 71 vezes foi chamado a representar a seleção, mas na maior parte das ocasiões os seus clubes opunham-se a essas convocatórias e não o deixavam representar a seleção nacional - e apontou 11 golos.

Jogou até quase aos 50 anos pelo... Manchester City

Billy Meredith ficou eternizado na história do futebol não só pela sua talentosa forma de interpretar o belo jogo como também pelo facto de ter jogador até quase aos 50 anos de idade! É verdade. 49 anos e oito meses, era esta a idade precisa no dia em que o galês fez as suas despedidas dos relvados, fazendo-o com as cores do... Manchester City. Em 1921 ele abandona o United com 35 golos marcados em mais de 300 jogos disputados, e regressa ao vizinho City onde joga até quase aos 50 anos (em 1924). Em 1923 ele ainda leva o City às meias-finais da FA Cup, precisamente um ano depois de ter representado o País de Gales pela última vez, com 48 anos, tornando-se assim no jogador mais velho a vestir o manto sagrado galês. O seu derradeiro encontro pelo City aconteceu a 29 de março de 1924, num encontro diante do Newcastle, precisamente o clube que apadrinhou a estreia de Meredith em 1894. 40 anos tinham passado desde então! Pendoradas as chuteiras comprou um hotel em Manchester, dedicando-se à hotelaria, vindo a falecer a 19 de abril de 1958.

Legenda das fotografias:
1-Billy Meredith
2-Com a camisola do Manchester City
3-Atuando na final da Taça de Inglaterra de 1904
4-Com as cores do Manchester United
5-O estilo inconfundível de Billy
6-Seleção do País de Gales (Meredith é o segundo da fila de cima da esquerda paa a direita)
7-Com quase 50 anos ainda encantava todos aqueles que o viam jogar!

Nota: Texto escrito em 31 de maio de 2013 no blog www.musevirtualdofutebol.blogspot.com

Victor Ugarte

Victor Agustín Ugarte, recriando-se com
o objeto que lhe conferiu o estatuto de imortal
É comum dizer-se que caso um Campeonato do Mundo fosse realizado em cidades como Quito (Equador) ou La Paz (Bolívia) os favoritos à conquista do caneco não eram os habituais Brasil, Argentina, Alemanha, ou Espanha, mas sim as modestas seleções locais! Uma teoria que advém do facto dessas mesmas cidades se encontrarem geograficamente localizadas bem acima do nível do mar, característica natural que provoca a quem lá desembarca sensações de alguma indisposição, como aconteceu, por exemplo, ao antigo Ministro da Justiça do Brasil, Tarso Genro, que num ato solene decorrido na capital boliviana La Paz desmaiou, provavelmente como consequência do impacto que o ar rarefeito comum em cidades posicionadas em elevadas altitudes teve no seu organismo. Quiçá um pouco alarmado com estes perigos - à saúde - naturais o conhecido político brasileiro liderou posteriormente uma campanha para que a FIFA proibisse a realização de jogos de futebol em cidades portadoras destas características, alegando que a altitude - elevada - constituía um perigo para a integridade física dos futebolistas forasteiros. Uma tentativa inglória, já que a entidade máxima do futebol planetário fez ouvidos de mercador, e continuou a dar luz verde para que a bola rolasse nos tetos do Mundo. Para os clubes e seleções visitantes ali jogar significa ter pela frente um adversário - extra - quase insuperável, ao passo que para os combinados da casa este torna-se, sem dúvida, num precioso 12º jogador. Mesmo que essa seleção - ou clube - seja um dos parentes pobres da grande aldeia global do futebol. Este é o caso da Bolívia, seleção pouco habituada ao longo da sua história às luzes da ribalta internacional, perfilando-se na maior parte das vezes cabisbaixa na cauda do pelotão do futebol sul-americano, bem distante dos virtuosos vizinhos do Brasil, Argentina, ou Uruguai.

A histórica seleção boliviana
que em 1963 conquistou o seu único título oficial
No entanto, o pequeno e frágil David veste a pele do temível Golias quando atua no teto do seu Mundo, o mesmo é dizer na cidade de La Paz. Ali situa-se a fortaleza do futebol boliviano, o Estádio Hernando Siles, o céu para a seleção boliviana e o inferno para os seus adversários. Ali, La Verde - como é conhecida a equipa nacional - escreveu a maior parte das suas escassas páginas douradas no planeta da bola. Num curto exercício de memória foi em La Paz - cidade localizada a 3600 metros acima do nível do mar!!! - que a última geração talentosa do futebol boliviano, comandado pelos geniais Marco El Diablo Etcheverry e Erwin Platini Sanchez, assegurou o passaporte para o Campeonato do Mundo de 1994 após ter humilhado, sim,  humilhado, não é exagero dizer-se, o gigante Brasil, ou de ter feito a vida negra a esse mesmo escrete na final da Copa América de 1997. Foi ali também que a modesta Bolívia viveu o seu momento de glória, el momento más lindo de su vida, como ainda hoje faz questão de sublinhar quem de perto se emocionou com esse capítulo da história. Em 1963 La Verde fez chorar de alegria o seu povo na sequência da épica conquista da Copa América. Uma vitória impensável para um país que, a título de exemplo, cohabitava o mesmo território futebolístico que o então bi-campeão mundial Brasil, para um país cujo percurso nos caminhos do futebol havia passado quase despercebido. Foi pois um triunfo surpreendente de uma nação que à partida para a competição só queria fazer boa figura naquela que era primeira grande competição desportiva que organizava.

O povo exulta com o momento de glória
alcançado em 1963
Mais do que a particular localização geográfica de Laz Paz - onde decorreram a esmagadora maioria dos jogos da competição - ou de o facto de dois dos principais candidatos ao título continental, neste caso o Brasil e a Argentina, se terem feito representar pelas suas equipas "b" - os brasileiros, por exemplo, deixaram em casa estrelas como Pelé, Garrincha, Vavá, Didi, Gilmar, ou Zagalo - a chave do êxito boliviano ficou a dever-se a um grupo de imortais jogadores que partilhavam um só coração. Juntos, eles personificaram na cancha a garra e a força de todo um povo. Mas, à semelhança de todas as constelações de estrelas há uma que brilha um pouco mais do que as outras, e também naquela que é considerada a geração dourada da Bolívia no que a futebol concerne - esperemos que El Diablo Etcheverry e Platini Sanchez não fiquem zangados com esta designação que não é da nossa autoria - havia um jogador que se destinguia dos demais pelas suas qualidades de artista da bola. Victor Agustín Ugarte, assim se chamava o maior jogador de sempre da história do futebol boliviano, o herói del momento más lindo de la histoira de Bolívia.

Ugarte com
as cores do Bolivar
Encravada entre gigantes escarpas vermelhas está a pequena cidade de Tupiza, onde a 5 de maio de 1926 nasceu Victor Agustín Ugarte. Começou a evidenciar os seus dotes artísticos de médio ofensivo no clube local, o Huracán de Tupiza, emblema que num curto espaço de tempo se tornou pequeno demais para a grandeza do homem que haveria de ficar imortalizado como El Maestro. Corria o ano de 1947 quando o jovem Victor decide reunir os poucos trapos que possuia e partir à aventura para a capital La Paz, onde de pronto ingressaria num dos maiores clubes do país, o Bolivar. A ascensão do diamante de Tupiza é meteórica. Torna-se de imediato na principal referência do emblema de La Paz, onde as suas gambetas (dribles) enlouqueciam, no bom sentido, os hinchas. 1947 é mesmo um ano histórico para Ugarte, o qual é convocado para a seleção boliviana que iria competir na Copa América a ser disputada na Colômbia, tendo aí efetuado os primeiros seis dos 45 jogos encontros em que ao longo da sua carreira vestiu a camisola verde da Bolívia. Dois anos mais tarde volta a envergar a camisola do seu país no maior torneio de seleções da América, desta feita no Brasil, onde ante o Chile concretiza o primeiro dos 16 golos que apontou com La Verde entre 1947 e 1963, o período em que Ugarte foi internacional. Na memória dos poucos hinchas daquele tempo que hoje vivem perdura a imagem da virtuosa seleção boliviana que disputou a Copa América de 1949, com Ugarte na condição de líder de uma constelação de estrelas como Mena, Gutierrez, ou Godoy, que num dos encontros dessa Copa ridicularizou o futuro campeão do Mundo, o Uruguai, na sequência de uma épica vitória por 3-2, com El Maestro a fazer um dos golos. E por falar em campeão do Mundo o mesmo Brasil iria acolher um ano mais tarde o célebre Mundial que os charrúas uruguaios iriam arrecadar, uma competição onde a Bolívia de Victor Ugarte passou praticamente ao lado, já que no único jogo realizado seria cilindrada por 8-0 pelo... Uruguai.

Ugarte defendeu por 45 ocasiões o seu país
tendo apontado 16 golos
Apesar da má campanha boliviana na Copa de 50 o talento de Ugarte não foi ofuscado, longe disso. Em 1952 é tentado a procurar melhores condições de vida fora do seu país, onde o miserável salário de um futebolista mal dava para sobreviver. Da Colômbia chegou nesse ano uma proposta do Millonarios, clube este onde pontificava então um tal de Alfredo Di Stéfano. Da Argentina foi o Boca Juniors que lançou o isco a Victor, mas a Bolívia não queria perder o seu tesouro nacional, tendo mesmo o Presidente da República daquela época, Mamerto Urriolagoitía, prometido a Ugarte uma pomposa vivenda em La Paz caso este declinasse o tentador convite do clube de Buenos Aires. Quiçá influenciado pelo chefe de Estado do seu país - do qual não se sabe se cumpriu ou não com a promessa feita ao nativo de Tupiza - ou pela paixão que o seu povo tinha por si, Ugarte foi rejeitando convites atrás de convites ano após ano, permancendo no pobre campeonato boliviano onde com as cores do Bolivar arrecada não só os títulos de campeão nacional em 50, 53, e 56, mas sobretudo continua a encantar os adeptos com jogadas artísticas que muitas vezes resultavam em golos de beleza sublime. 
Até que em 1958 decide dar ouvidos à sua amada Graciela, a sua esposa, que sempre o incentivara a procurar melhores condições de vida fora da terra natal. Ugarte aceita então uma proposta do San Lorenzo, emblema argentino que fez de tudo para o contratar, sobretudo depois de um ano antes o ter visto a humilhar a poderosa Argentina, que rastejou aos pés de Ugarte no infernal teto do Mundo como é conhecida La Paz no seio do futebol. Ainda hoje quando o nome de Ugarte salta para cima da mesa das tertúlias futebolísticas é de imediato recordada essa célebre vitória da seleção boliviana sobre os argentinos por 2-0, a primeira da história do futebol boliviano sobre a equipa das pampas.

Levado em ombros após
a épica conquista de 63
Porém, em solo argentino Victor Ugarte não se sentiu feliz. Não por ter sido mal tratado pelos dirigentes, colegas, ou adeptos do seu novo emblema, mas simplesmente porque na Argentina encontrou um ambiente escaldante em torno do futebol, ao qual estava pouco habituado na pacata Bolívia. O ambiente fanático tão comum nos campos de futebol argentinos assustou de certa forma Ugarte, que nas canchas daquele país esteve muito longe de mostrar todo o seu talento. Viajou em seguida para a Colômbia, onde encontrando um clima mais calmo perpetuou nos relvados as famosas gambetas, ao serviço do Once Caldas. Por terras colombianas juntou algum dinheiro, que permitiu-lhe viver junto da sua amada Graciela e dos seus quatro rebentos de forma algo desafogada durante algum tempo.
Apesar de longe dos seus olhos a Bolívia jamais o esqueceu, nem Victor deixava que isso acontecesse, pois em 1963, o tal ano mágico do futebol boliviano, ele é um dos imprescindíveis na seleção orientada pelo brasileiro Danilo Alvim - estrela do futebol brasileiro dos anos 40 - para vestir as cores de La Verde na Copa América que o país recebia. Apesar da idade avançada - 37 anos - Ugarte aceita o desafio para defender o seu país por uma última vez, naquela que era a sua quinta presença numa Copa América.

A estátua de Victor Ugarte
em Tupiza
O peso da idade não se fez notar, e juntamente com figuras notáveis do futebol boliviano de então como Wilfredo Camacho, Máximo Alcócer, Fortunato Castillo, ou Eduardo Espinoza guiou La Verde até ao tal momento más lindo de su vida. No jogo final da competição o gigante Brasil caiu por 5-4, sendo memorável a exibição de Ugarte, autor não só de dois golos como de lindas jugaditas que permitiram à Bolívia conquistar um lugar na história do futebol.
Ugarte ainda atuou mais uma temporada (67/68) pelo Bolivar antes de se retirar definitivamente do palco do belo jogo. El Maestro nasceu e morreu na miséria. A 20 de março de 1995 a Bolívia verteu lágrimas ao receber a notícia da morte do maior jogador da sua história, um homem que continua a viver na memória dos poucos comuns mortais que tiveram o prazer de o ver atuar.
O rei do futebol boliviano tem o seu nome perpetuado no estádio de futebol mais alto do Mundo (!), localizado em Potosi, a quase 4000 metros acima do nível do mar, além de que na sua cidade natal, Tupiza, foi erguida uma estátua que imortaliza a sua lendária figura.
 
 
Nota: texto escrito em 22 de maio de 2014 no blog: www.museuvirtualdofutebol.blogspot.com